segunda-feira, 17 de novembro de 2008

BUSH, O RACISMO E UM TABU NA MÍDIA

O site “vermelho” publicou ontem o seguinte artigo de Argemiro Ferreira, postado originalmente em seu blog.

Antes, conheçamos um pouco sobre o autor. Segundo a Wikipedia, é jornalista atuante desde a década de 1950. Em Minas Gerais, trabalhou como repórter do "Diário da Tarde", "Estado de Minas" e "Última Hora" (edição mineira), tornando-se depois redator do "Repórter Esso" da TV Itacolomi, como editor internacional.

Transferiu-se em 1965 para o Rio de Janeiro, onde passou pelas redações do "Correio da Manhã", "O Jornal", "O Dia" e "A Notícia", antes de períodos mais prolongados nas equipes do departamento de pesquisa e do copy desk do "Jornal do Brasil" e do copy desk de "O Globo" e das revistas "Manchete" e "Fatos e Fotos". No departamento de jornalismo da TV Educativa, onde esteve 15 anos, foi chefe de reportagem, editor internacional e editor-chefe. Também integrou a primeira equipe da revista "Ciência Hoje", da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. E desde 1983 assina coluna diária de política internacional na "Tribuna da Imprensa", onde foi editor-chefe em dois períodos.

Em 1992 transferiu-se para Nova York, como correspondente de vários jornais e emissoras de rádio e televisão do Brasil (inclusive a GloboNews), Portugal ("Jornal de Notícias" do Porto) e França (Rádio França Internacional). Também trabalhou para a ONU como produtor de programas de rádio e TV.

Foi vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e membro do Conselho da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Publicou os livros "Informação e Dominação" (SJMRJ, Rio de Janeiro, 1982), "Caça às Bruxas - Macartismo, uma tragédia americana" (L&PM, Porto Alegre, 1989) e "O Império Contra-Ataca - As guerras de George W. Bush, antes e depois do 11/9" (Paz e Terra, São Paulo, 2004).

Vejamos o artigo de Argemiro Ferreira:

BUSH, O RACISMO E UM TABU NA MÍDIA

“Em 2001 a escritora Diane McWhorter ganhou o prêmio Pulitzer por um livro extraordinário que radiografou a intolerância, o racismo e a brutalidade em sua cidade sulista de Birmingham, Alabama, nos dias conturbados da revolução dos direitos civis. No final de 2006, ela ousou levantar, na revista eletrônica Slate, uma questão que virou tabu nos grandes veículos da mídia corporativa dos EUA.

Tentando entender a situação, McWhorter desenterrou uma entrevista dada por Eleanor Roosevelt em maio de 1940, quando a Wehrmacht alemã estava arrasando a França. Na entrevista, que sequer chegara a ser publicada, a então primeira dama manifestou indignação pelo “grande número de americanos” que aprovavam a vitória de Hitler na Europa e até confessavam muita atração pelo fascismo.

Por quê? “Simplesmente porque somos um povo que tende a admirar coisas que funcionam”, lamentara a Sra. Roosevelt. A partir daí McWhorter sugeriu que na eleição americana daquele ano de 2006 talvez os americanos que deram a vitória à oposição democrata não estivessem de fato protestando contra as políticas de Bush: só se queixavam de que as políticas dele não tinham funcionado.

ENCARANDO A FANTASIA BUSHISTA

Whorter pergunta: se a invasão (e ocupação) do Iraque não tivesse sido o desastre que foi, até quando o público ainda ia tolerar as políticas que acompanham a “guerra ao terror” de Bush - legalização da tortura, suspensão do habeas corpus, espionagem interna de cidadãos comuns, exercício unilateral do Poder Executivo e a prerrogativa proclamada pela equipe de Bush de “criar nossa própria realidade”?

Apesar do exemplo da Sra. Roosevelt, discussões polidas do tema nunca incluem alguma palavra derivada de fascismo, propaganda ou ditadura - muito menos nazismo ou Hitler. É tão proibido falar em Alemanha nazista, disse McWhorter, que a colunista Maureen Dowd, do New York Times, fez uma piada. Propôs que se cole o seguinte lembrete nos microfones usados por políticos: “nada de comparação com nazistas”.

Para McWhorter, já era hora de dizer as coisas como elas são. Mostrar que o governo Bush adota práticas torpes de propaganda (sem reconhecê-lo) a fim de esconder verdades - com “jornalistas” de aluguel, seus próprios canais de “notícias” (veículos como a Fox News), encenações centralizadas no que chama de “presidente em guerra”, além de rotular heróis de verdade de “antipatriotas”.

E nesse quadro não se fazem comparações com o nazismo. O próprio tabu, diz McWhorter, é preceito do estado da propaganda. Os que o impõem professam um motivo politicamente correto - o caráter excepcional do genocídio dos judeus. Sob pressão republicana, o senador democrata Dick Durbin foi praticamente forçado a pedir desculpas à organização Anti-Defamation League por ter invocado a Alemanha nazista ao descrever as condições de Guantánamo.

O PROCESSO INSIDIOSO, LÁ E CÁ

Afirma McWhorter: “Ao permitir que o tema seja definido pelo sofrimento único dos judeus, nós ignoramos a característica mais universal do holocausto: o fato de ter sido perpetrado por pessoas comuns. A relevância do III Reich para a América de hoje não é que Bush seja igual a Hitler ou que o governo dos EUA seja uma máquina de matar. É ser exemplo espetacular do processo insidioso pelo qual pessoas decentes passam a encarar o impensável como não apenas pensável, mas viável, e até justificável”.

Nos EUA, segundo a escritora, a própria palavra fascismo andou beirando a piada, pelo uso vago e o significado elástico na década de 1960, quando podia ser qualquer coisa de que não se gostava. Devido ao livro que estava escrevendo, McWhorter tinha lido a biografia que Ian Kershaw fez de Hitler; a explicação de Richard Rubinstein para o holocausto; e outros estudos sobre o III Reich.

“O choque de reconhecimento mais literal foi a arrogância repulsivamente cruel do termo ’shock and awe’ (choque e horror, como os EUA batizaram o ataque inicial a Bagdá). Pretendia-se que o povo do Iraque se extasiasse com nossas bombas antes de ser incinerado/liberado por elas? Ataques aéreos como propaganda foram invenção da Luftwaffe alemã, cuja obra maior foi a Blitz da Inglaterra com as bombas-terror, que tão pouco levaram os ingleses à submissão pelo horror”.

DATAS INFAMES NA HISTÓRIA

Depois houve reverberações mais sutis no Iraque. McWhorter na ocasião lia o jurista alemão Carl Schmitt, que tornava princípios hitleristas códigos jurídicos (alguns comparáveis às táticas políticas que vieram de Karl Rove, alto assessor de Bush).

Ela encontrou ali, entre outras coisas, o tipo de “não pessoa” agora também existente nos EUA - o chamado “combatente inimigo”. Schmitt, mesmo tendo sido um filósofo fascista, ligado a Leo Strauss (inspirador dos neocons de Bush), também fascinou esquerdistas, conforme análise recente de Alan Wolfe.

O “combatente inimigo” foi definido juridicamente pelo governo Bush de forma a sugerir paralelo com o artifício nazista que “legalizou” o tratamento dado aos judeus - simplesmente considerados “sem estado”. Já o Ato de Capacitação de 1933 (que na prática dissolveu o Reichstag e consolidou Hitler) aproxima-se da “opção nuclear” invocada pelo bloco bushista no Senado para derrotar a obstrução oposicionista.

Esse ensaio fascista republicano, com o propósito de forçar a oposição a engolir juízes indicados por Bush, levou na época o senador Robert Byrd (foto) a expor a semelhança com a lei de Hitler. A dos nazistas, rebatizada de “Lei para Remediar o Sofrimento do Povo e do Reich”, inspirou mais uma, aprovada logo após o 11/9, para ampliar os poderes do Executivo (como fora feito na Alemanha em 1933).

Bush ficou com autoridade para considerar qualquer um “combatente inimigo”, anular habeas corpus e prender estrangeiros indefinidamente. O jurista Jonathan Turley, professor de Direito Constitucional na Universidade George Washington, considerou aquela uma data infame na história do país. Apesar disso, na época a decisão foi recebida com indiferença pelos americanos”.

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