terça-feira, 30 de setembro de 2008

NEM CABRA, NEM CARNEIRO. BODE NO CENÁRIO

Li hoje no UOL o seguinte artigo da agência inglesa de notícias BBC:

“Números chocantes. A bolsa de Nova York caiu 777 pontos, 7% numa tarde. A maior queda na história. US$ 1,2 trilhão evaporaram. Todos os americanos perderam.

Parecia 666, a chegada dos Cavalos do Apocalipse. No jogo do bicho, 777 é carneiro. 666 é cabra. Quem é mais manso? Os americanos estão bravos. Reagem nas vísceras contra a Wall Street e contra o Washington. Crédito para reformar a casa, comprar o carro, mandar o filho para a universidade? Dane-se! De quem é a culpa? São oito anos de Bush e republicanismo contra controle de bancos e financeiras. Os números são mais apocalípticos para McCain que, mesmo depois do início da quebradeira, disse que os fundamentos da economia eram sólidos.

Obama ganhou pontos nas pesquisas e no primeiro debate com McCain porque o tema, política externa, estava no território dele. Deu empate que, na opinião das maiorias das pequisas e analistas, é vitória para Obama.

Numa destas imprevisíveis decisões mac-maq, macainiana-maquiavélica, três dias antes do debate, o candidato republicano "suspendeu" a campanha e foi para Washington resolver a crise econômica. Não abriu a boca durante a reunião com o presidente e outros participantes da reunião, entre eles, o senador Obama e os líderes dos partidos mas, antes da derrota da proposta de ontem, McCain era louvado pelos partidários como o homem que tinha se comportado como um líder e convencido seus deputados a aceitar a proposta.

No fim da tarde, depois da rebelião da direita republicana e da derrota do pacote, a culpa era da líder do partido democrata - Nancy Pelosi - que, antes da votação, fez um discurso culpando o presidente Bush e os republicanos pela crise atual.

Dela e do senador Barack Obama, que não liderou sua ala liberal e quase 40% dos democratas que votaram contra a proposta. Se você acha difícil entender a lógica republicana não é culpa sua, nem minha, mas uma coisa é certa. Fogo republicano em Obama. O desespero de McCain vai ser transformado numa campanha implacável. O liberalismo do candidato democrata e suas conexões com rebeldes dos 60 vão ser o foco dos ataques.

Uma delas foi com Bill Ayers, um dos fundadores do movimento radical Weather Underground que, entre outras ações, plantou uma bomba no Pentágono. A campanha de Barack Obama para senador estadual em 95 foi lançada numa reunião na casa de Ayers. Durante anos na prisão, Ayers estudou educação primária. Durante quatro anos, a partir de 95, Obama foi líder de uma fundação chamada CAC, Chicago Annenberg Challenge, inspirada nas idéias de Ayers. Favoreciam uma educação que valorizava valores político-sociais e minimizava matérias convencionais.

Os professores, pelo plano de Ayers, funcionariam como líderes comunitários. Milhões de dólares foram investidos nestas escolas experimentais que desapareceram porque fracassaram nos testes convencionais. Não produziam líderes nem crianças bem educadas.

Nos seus dois livros, Barack Obama não menciona seu trabalho com a CAC. Os republicanos guardaram esta munição para as próximas semanas da campanha quando outras conexões esquerdistas e liberais de Obama serão expostas, distorcidas e multiplicadas. Você há de concordar que, mesmos exagerados, são argumentos comprometedores.

Vamos voltar para a crise da primeira página. Uma pesquisa dos candidatos republicanos que votaram contra o pacote econômico - dois terços do partido - mostra que quase todos ganharam no sufoco nas últimas eleições e não queriam correr o risco de contrariar o eleitorado enfurecido.

A margem de tefonemas e-mails era de 50 a 1 contra pacote. Em alguns Estados, de 90 a 1.

E que fizeram os deputados? Depois de acender o pavio decidiram respeitar o feriado judaico e suspender os trabalhos até quinta, embora já tenham trabalhado em dezenas de outros feriados religiosos e os judeus sejam minoria no Câmara. Os Cavalos do Apocalipse estão chegando? Não. Nem cabras nem carneiros. Nem jeito de bode.”

EMERGENTES NÃO PODEM PAGAR POR "CASSINO" FEITO NOS EUA, DIZ LULA

Ontem, o portal UOL postou o seguinte texto de Juliana Castro:

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou o governo norte-americano pela crise financeira que os Estados Unidos estão passando e disse que os demais países não podem pagar pelos efeitos deste problema.

"Os EUA precisam ter responsabilidade porque os países emergentes e os países pobres fizeram tudo para ter uma boa política fiscal e garantir a estabilidade e agora não podem ser vítimas do cassino que foi montado na economia americana", disse após evento na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

Em um comparativo, Lula disse que no Brasil, quando se trata de bancos de investimento, eles não podem alavancar mais de dez vezes seu patrimônio líquido, enquanto que nos Estados Unidos, isto não acontece.

"Lá não tem limite", afirmou.

Lula disse que fez uma reunião com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e que ambos estão "tranqüilos" com a situação.

"Sabemos que a crise é grave e que certamente vai diminuir o crédito no mundo. Mas nós estamos seguros porque nossas exportações estão indo bem e nossa indústria continua crescendo", afirmou.

O comentário de Lula aconteceu logo após a notícia de que o pacote anticrise foi rejeitado pela Câmara dos Estados Unidos e, segundo ele, houve esse entrave porque "a essa altura do campeonato tem gente querendo tirar proveito da situação".

"Está na hora de o Congresso e o governo norte-americano assumirem a responsabilidade que lhes cabe nessa história sem permitir que a disputa eleitoral que vai se dar em novembro prejudique a discussão do plano econômico. Os EUA têm que tampar esse buraco para deixar o mundo mais tranqüilo", concluiu”.

VIDA DE MACHADO DE ASSIS: CRONOLOGIA

Li no UOL ontem, data do centenário da morte do maior escritor brasileiro, a seguinte instrutiva matéria da Folha Online:

VEJA CRONOLOGIA DA VIDA DO ESCRITOR MACHADO DE ASSIS

“O escritor brasileiro Machado de Assis é figura central na literatura de língua portuguesa. O centenário de sua morte ocorre no dia 29 de setembro. Veja abaixo datas que marcam a vida do escritor:

1839 - Em 21 de junho, no Rio, nasce Joaquim Maria Machado de Assis, filho de Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis.

1841 - Nasce sua única irmã, Maria Machado de Assis, que morre de sarampo aos 4 anos.

1849 - Morre sua mãe, Maria Leopoldina Machado de Assis.

1854 - Seu pai, Francisco José de Assis, casa-se com Maria Inês da Silva.

1855 - Publicação de seu primeiro poema, "Ela", na revista "Marmota Fluminense".

1856 - Começa a trabalhar como aprendiz de tipógrafo, na Tipografia Nacional.

1858 - Trabalha como revisor de provas na livraria Paula Brito, além de escrever para "O Paraíba", em Petrópolis.

1859 - Estréia como crítico teatral na revista "O Espelho".

1860 - Início de sua colaboração no "Diário do Rio de Janeiro".

1862 - Começa sua atuação como censor do Conservatório Dramático Brasileiro.

1863 - Publicação de "Teatro de Machado de Assis" com as comédias "O Protocolo" e "O Caminho da Porta".

1864 - Publicação de seu primeiro livro de poesia, "Crisálidas". No mesmo ano, morre seu pai.

1867 - Machado de Assis recebe de d. Pedro 2º a Ordem da Rosa.

1868 - José de Alencar apresenta Castro Alves a Machado de Assis por meio de carta publicada no "Correio Mercantil"

1869 - Casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novaes, em 12 de novembro.

1870 - Inicia a tradução de "Oliver Twist", de Charles Dickens, no "Jornal da Tarde".

1872 - Publicação do romance "Ressurreição".

1873 - Publica "Histórias da Meia-Noite" e é nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

1874 - Em "O Globo", inicia a publicação de "A Mão e a Luva". Foi publicada em volume no mesmo ano.

1876 - É promovido a chefe da Seção da Secretaria de Agricultura e publica o romance "Helena", em "O Globo".

1878 - Publica, em "O Cruzeiro", o romance "Iaiá Garcia". Por motivo de doença nos olhos, vai para Friburgo e retorna em março do ano seguinte.

1880 - Início da publicação de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", na "Revista Brasileira". É nomeado oficial do gabinete do ministro da Agricultura, Manuel Buarque de Macedo.

1881 - Publicação em volume de "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Passa a colaborar efetivamente na "Gazeta de Notícias".

1882 - Publica o livro de contos "Papéis Avulsos".

1883 - É eleito membro da Associação dos Homens de Letras do Brasil.

1884 - Publica o livro de contos "Histórias Sem Data". Ele e Carolina se mudam para a rua do Cosme Velho.

1886 - Início da publicação do romance "Quincas Borba" em "A Estação".

1888 - É elevado à categoria de oficial da Ordem da Rosa, por decreto imperial, durante comemoração da abolição da escravatura.

1889 - É promovido a diretor da Diretoria do Comércio, no Ministério da Agricultura.

1891 - Morre sua madrasta, Maria Inês da Silva. Publica em volume o romance "Quincas Borba".

1892 - Passa a diretor-geral do Ministério da Viação.

1894 - Faz parte da comissão em favor do monumento a José de Alencar.

1895 - Inicia sua colaboração na "Revista Brasileira".

1896 - Publica "Várias Histórias". Ajuda a fundar a Academia Brasileira de Letras.

1897 - É eleito presidente da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira 23.

1898 - Escreve seu primeiro testamento, nomeando Carolina herdeira única.

1899 - Publica "Dom Casmurro" e "Páginas Recolhidas". É firmado o contrato de venda de sua obra para François Hippolyte Garnier. Os livros são: "Páginas Recolhidas", "Dom Casmurro", "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba", "Iaiá Garcia", "Helena", "Ressurreição", "A Mão e a Luva", "Papéis Avulsos", "Histórias Sem Data", "Histórias da Meia-Noite", "Contos fluminenses", "Americanas", "Falenas" e "Crisálidas".

1901 - Publica "Poesias Completas".

1902 - É nomeado diretor-geral da Contabilidade do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas.

1904 - Publicação do romance "Esaú e Jacó". Morre sua mulher, Carolina, de tumor no intestino.

1905 - Escreve seu segundo testamento.

1906 - Publica "Relíquias da Casa Velha".

1908 - Publica "Memorial de Aires". Em junho, Entra em licença, no Ministério da Viação, para tratamento de saúde. Em 29 de setembro, morre de arteriosclerose, às 3h20, em sua casa na rua do Cosme Velho, 18”.

FRASES CÉLEBRES DE MACHADO DE ASSIS

O portal UOL postou ontem, em matéria da Folha Online, um interessante conjunto de frases do escritor que se tornaram famosas. As fontes de onde foram extraidas essas frases foram: "Machado de A a X - Um Dicionário de Citações", de Lucia Leite Ribeiro Prado Lopes (365 págs., editora 34, R$ 49); e "Pensamentos e Reflexões de Machado de Assis", de Gentil de Andrade (301 págs., Civilização Brasileira, esgotado).

LEIA FRASES DO ESCRITOR MACHADO DE ASSIS POR TEMAS

“O humor irônico é uma das marcas do escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908). Algumas frases do carioca ficaram célebres, veja uma seleção por temas.

ABOLIÇÃO
"A abolição é a aurora da liberdade; emancipado o preto, resta emancipar o branco."
Em "Esaú e Jacó" (1904)

ADOLESCÊNCIA
"Há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro."
Em "Dom Casmurro" (1899)
"Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada."
Em "Dom Casmurro" (1899)

ALEGRIA
"Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular."
Em "Memorial de Aires" (1908)

AMOR
"A falta de afeição é que traz a injustiça."
Em "Histórias da Meia Noite" (1873)
"Amor de mãe é a mais elevada forma de altruísmo."
Em "Páginas Recolhidas" (1899)
"É regra velha, creio eu, ou fica sendo nova, que só se faz bem o que se faz com amor. Tem ar de velha, tão justa e vulgar parece."
Em "Memorial de Aires" (1888)
"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis..."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)
"Não se deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer."
Em "Helena" (1876)
"Os melhores amores nascem de um minuto."
Em carta a Salvador de Mendonça (1876)
"Só as grandes paixões são capazes de grandes ações."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)
"Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras."
Em "Erro", "Crisálidas" (1864)

BOATO
"O boato é um ente invisível e impalpável, que fala como um homem, está em toda a parte e em nenhuma, que ninguém vê de onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a célebre lanterna dos contos arábicos, a favor da qual se avantaja em poder e prestígio, a tudo o que é prestigioso e poderoso."
Em "Comentários da Semana" (série de crônicas, 7 de janeiro de 1862)

BRASIL
"Um dos defeitos mais gerais, entre nós, é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério, pois o tato para acertar nestas coisas é também uma virtude do povo."
Em "Ao Acaso" (28 de março 1865)
"Pátria brasileira (esta comparação é melhor) é como se disséssemos manteiga nacional, a qual pode ser excelente, sem impedir que os outros façam a sua."
Em "A Semana" (8 de maio de 1892)

CASAMENTO
"O casamento é a pior ou a melhor coisa do mundo; pura questão de temperamento."
Em "Helena" (1876)

ELOGIOS
"Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até o corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado"
Em "A Semana" (25 de setembro de 1892)

DEFEITOS
"Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir"
Em "Carta a Lucio de Mendonça" (24 de janeiro de 1872)

FILHOS
"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)
"Encha uma pequena mala com idéias e frases feitas, se puder, abençoe o rapaz e deixe-o ir."
Em "Balas de Estalo" (3 de abril de 1885)

GLÓRIA
"As glórias de empréstimo, se não valem tanto como as de plena propriedade, merecem sempre algumas mostras de simpatia."
Em "A Semana" (16 de outubro de 1892)

HOMEM
"Antes do poeta mostra-se o homem, antes do talento o caráter."
Em "Comentários da Semana", (série de crônicas, 26 de janeiro de 1862)

IMITAÇÃO
"Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções."
Em "A Semana" (19 de novembro de 1893)

INFERNO
"O inferno é um hospício de incuráveis."
Em "A Semana" (18 de fevereiro de 1894)

JUÍZO
"Em si mesma, a loucura é já uma rebelião. O juízo é a ordem, é a constituição, a justiça e as leis."
Em "A Semana" (17 de janeiro de 1897)

LADRÃO
"Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: 'A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.'"
Em "Esaú e Jacó" (1904)

LOUCURA
"A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente."
Em "O Alienista" (1882)

NATUREZA
"Não seria propriamente um efeito de arte, concordo, e sim da natureza; mas que é a natureza senão uma arte anterior?"
Em "A Semana" (18 de novembro de 1894)

OLHO
"As coisas têm o valor do aspecto, e o aspecto depende da retina."
Em "A Semana" (22 de novembro de 1896)

PAZ
"O melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com pedaços do nosso."
Em "Helena" (1876)

PECADO
"O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado."
Em "Quincas Borba" (1891)

PERDÃO
"Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é possível; está nas tuas mãos."
Em "Iaiá Garcia" (1878)

PERIGO
"Quem escapa do perigo vive a vida com outra intensidade."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)

POLÍTICA
"Ouça-me este conselho: em política, não se perdoa nem se esquece nada."
Em "Quincas Borba" (1891)
"Venha, venha o voto feminino; eu o desejo, não somente porque é idéia de publicistas notáveis, mas porque é um elemento estético nas eleições, onde não há estética."
Em "Histórias de 15 Dias" (1º de abril de 1877)

POSSÍVEL
"Tudo é possível debaixo do sol --e a mesma coisa sucederá acima dele - Deus sabe."
Em "Memorial de Aires" (1908)

PRESENTE
"O presente que se ignora vale o futuro."
Em "A Cartomante", em "Várias Histórias" (1896)

PRÓLOGO
"O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)

PURGATÓRIO
"Purgatório é uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto."
Em "Dom Casmurro" (1899)

REALIDADE
"Mas, onde cessava ali a realidade e começava a aparência? Vinha de tratar com um infeliz ou um hipócrita?"
Em "Helena" (1876)
"Esquece-se o real e palpa-se o impossível."
No prelúdio de "Falenas" (1870)

ROMANCE
"Não confunda o romance com a vida, ou viverá desgraçada."
Em "Ponto de vista", em "Histórias da Meia-Noite" (1873)

SEGREDO
"Que os segredos, amiga minha, também são gente; nascem, vivem e morrem."
Em "Esaú e Jacó" (1904)

SONHO
"O sonho é uma festa do espírito."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)

TEATRO
"Em uma terra onde tudo está por fazer, não seria o teatro, cópia continuada da sociedade, que estaria mais adiantado."
Em "Comentários da Semana", crônicas, (1º de dezembro de 1861)
"Não se comenta Shakespeare, admira-se."
Em "Revista dos Teatros", crítica teatral, (12 de novembro de 1859)
"Longe de educar o gosto, o teatro serve apenas para desfantasiar o espírito, nos dias de maior aborrecimento."
Em "Crítica Teatral" (1866)

TEMPO
"--Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos."
Em "Ressurreição" (1872)
"O acaso propusera-lhe um enigma; o tempo dava-lhe a decifração."
Em "Iaiá Garcia" (1878)
"Matamos o tempo; o tempo nos enterra."
Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)

UNIVERSAL
"O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal."
Em "Uns Braços", "Várias Histórias" (1896)
"O que importa notar é que todas essas multidões de mortos --por uma causa justa ou injusta-- são os figurantes anônimos da tragédia universal e humana."
Em "A Semana" (23 de fevereiro de 1896)

VALSA
"A valsa é a primeira dança do mundo; pelo menos é a única dança em que há poesia."
Em "Ressurreição" (1872)

VERDADE
"Não é a verdade que vence, é a convicção."
Em "Esaú e Jacó" (1904)
"Eu sei que vossa excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade."
Em "Linha Reta e Linha Curva", "Contos Fluminenses" (1870)

VERSO
"Uma coisa é citar versos, outra é crer neles."
Em "Memorial de Aires" (1908)

VIÚVO
"Um viúvo sem filhos vale por um solteirão; aos sessenta, vale por dois ou três."
Em "Esaú e Jacó" (1904)

VIVER
"Variar é viver. São dois verbos que começam com 'v': profunda lição que nos dá a natureza da gramática."
No conto "Não é o Mel para a Boca do Asno" (1868)

XADREZ
"Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: vista pronta e paciência beneditina, qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas."
Em "A Semana"

AVALIAÇÃO PESSOAL DE LULA ATINGE RECORDE DE 80% EM SETEMBRO, DIZ CNI/IBOPE

O UOL ontem postou a seguinte matéria de Gabriela Guerreiro, da Folha Online, em Brasília:

“A avaliação pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também atingiu recorde em setembro deste ano, subindo de 72%, em junho, para 80%, segundo aponta pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta segunda-feira.

A desaprovação recuou sete pontos percentuais na comparação com o mês de junho, descendo de 24% para 17%.

No Nordeste, a aprovação à maneira do presidente Lula governar chegou a 92%. A pesquisa registra que o único movimento negativo a Lula está entre os que ganham mais de dez salários mínimos mensais, grupo em que foi possível registrar redução no apoio ao presidente.

Na região Sudeste, a apoio ao presidente atingiu o índice de 74%. Na região Sul, chegou a 77% de aprovação e 19% de desaprovação, enquanto nas regiões Norte e Centro-Oeste o apoio a Lula chegou a 77%.

Na divisão por faixas salariais, o índice de aprovação ao presidente é maior entre os que ganham até um salário mínimo: 87%. Segundo a CNI/Ibope, a aprovação ao presidente cai ao ser elevado o nível de escolaridade dos entrevistados. Entre os que têm nível superior, a aprovação ao petista é de 66%. Já entre os que recebem mais de dez salários mínimos mensais, o percentual de apoio é de 56%.

A pesquisa foi realizada entre os dias 19 e 22 de setembro e ouviu 2.002 pessoas em 141 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos”.

CIENTISTA POLÍTICO EXIBE A CHAVE PARA A COMPREENSÃO DA AL

Há dois dias, o site “Vermelho” postou boa entrevista com o cientista político Marcelo Coutinho do IUPERJ, publicada no JB Online.

“Ao lado da professora Maria Regina Soares de Lima, o cientista político Marcelo Coutinho fundou, há cinco anos, o Observatório de Política Sul-Americana (OPSA) do Iuperj, transformado nesse período em uma das maiores referências nas análises da região.

Coutinho acaba de lançar o livro Crises institucionais e mudança política na América do Sul, resultado de sua tese de doutorado, defendida há três anos no próprio Iuperj.

No livro, exibe a chave para a compreensão das instituições da América Latina: a inclusão política é o eixo para a estabilização dos regimes democráticos.


A lição serve para os problemas enfrentados por governos como Evo Morales, na Bolívia, Hugo Chávez, na Venezuela, ou Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil.

O segredo da estabilidade, informa o livro, está na capacidade de definir acordos nacionais e estabelecer padrões de cooperação - coisa que, no caso boliviano, não se está conseguindo.

Nesta entrevista, Coutinho vai além. Mostra as raízes políticas e econômicas dos abalos institucionais em alguns países, compara Chávez e Morales e revela que a força política das populações mais pobres da região não é ideológica. À direita ou à esquerda, tanto faz: elas vão reagir se não forem atendidas.

SEU LIVRO ABORDA OS FATORES QUE CONDUZEM OS PAÍSES À INSTITUCIONALIZAÇÃO DA DEMOCRACIA. MOSTRA QUE A ACOMODAÇÃO DA DIVERSIDADE E A COOPERAÇÃO ENTRE OS ATORES POLÍTICOS FAVORECE ESSE CAMINHO. POR QUE ALGUNS PAÍSES CONSEGUIRAM MAIS ESTABILIDADE DEMOCRÁTICA DO QUE OUTROS? O QUE PESA PARA DAR CERTO?

- Tento justamente explicar por que algumas democracias da América do Sul conseguiram se estabilizar no período pós-autoritário e outros ainda vivem um ciclo de crises institucionais, como é o caso da Bolívia.

Em busca dessa explicação, comecei a estudar padrões de interação política de maneira comparada entre esses países e ficou bastante claro o fato de que países que tinham instituições e padrões de comportamento de interação política mais inclusivos foram justamente aqueles que conseguiram estabilizar e institucionalizar suas democracias nos últimos 10 anos ou 15 anos.

Há um grupo mais estável, Brasil, Chile e Uruguai. São aqueles que estabeleceram padrões de interação mais inclusivos. O Chile através da sua concertação no período de transição democrática, de 1990-91 até hoje. O Uruguai também. E Brasil alcançou esse patamar de maior estabilidade institucional a partir de 1989, com o processo de afastamento do presidente Collor. Naquele momento há uma virada da política brasileira em favor de uma maior institucionalização política. Ali houve uma crise muito séria, mas sem qualquer ameaça às instituições. Ao contrário, as instituições processaram a crise de uma maneira muito eficiente. E a própria crise gerou um comportamento mais inclusivo. Foi um marco nas relações políticas do país.

VOCÊ CITA A MEMÓRIA COMO UM FATOR IMPORTANTE. POR QUÊ?

- Veja aquela circunstância de 92. Ficou registrada na memória dos atores políticos, em geral na memória da nação, e aquilo passa a ser muito importante na maneira como vão enfrentar futuras crise. A crise de 92 é uma espécie de retrovisor por onde os atores políticos olham antes de tomar qualquer tipo de atitude.

OS PAÍSES ANDINOS SEGUIRAM TRILHAS MAIS TORTUOSAS. FALTOU-LHES ESSA COOPERAÇÃO E ESSA MEMÓRIA?

- Uma vez encontrado o momento-chave da virada institucional, me interessou também analisar o lado oposto, ou seja, casos em que a estabilidade política é menor, sobretudo nos países andinos: Bolívia, Peru, Colômbia, Equador e Venezuela.

O único país do Cone Sul que reproduz esse padrão de maior instabilidade é o Paraguai. Os países andinos são, em geral, mais instáveis e menos inclusivos. Nos casos desses países andinos há uma característica muito interessante: o esgotamento do seu sistema partidário nos últimos 20 anos. O sistema partidário entra em colapso.

Encontramos nos países andinos uma seqüência de crises institucionais, seja por revoltas sociais, como é o caso da Bolívia e do Peru, seja por intermédio de golpes ou tentativa de golpes, como foi mais recentemente o caso venezuelano.

Um outro sinal de crise institucional é a guerra civil interna, no caso colombiano. E a interação política e as instituições que lidam com esses processos mais críticos nos países andinos são interações excludentes, baseadas nos confrontos e não na cooperação.

Nesses países gera-se uma seqüência de crises porque nunca se chega ao um acordo de fato. Falo em acordos mínimos, com respeito à democracia do país. Sempre prevalece o padrão do confronto, do antagonismo e da exclusão.

NÃO SÓ PROTAGONIZADO PELA OPOSIÇÃO, MAS POR QUEM ESTÁ NO PODER.

- Exatamente. Enquanto Brasil e Chile, por exemplo, estabelecem governos de coalizão ampla, esses países, em geral, estabelecem coalizões muito restritas, quando não governos minoritários.

Dois casos se diferenciam: Bolívia e Colômbia, que tiveram grandes coalizões no período pós-autoritário. Acontece que eram coalizões montadas em bases que não correspondiam à diversidade política e social do país. Vou dar o exemplo da Bolívia mais uma vez, que viu ser deixada de fora das coalizões grande parte da diversidade social do país. Foi o caso do movimento indígena, o contingente populacional disperso em alguns movimentos sociais e organizações políticas.

No caso colombiano, embora alguns governos também tivessem estabelecido grandes coalizões parlamentares, a guerra interna diminuiu muito o esforço dessas coalizões porque grande parte desse contingente populacional ou mesmo territorial do país não está contemplada neste cálculo.

Quando se olha o mapa das Farc observa-se claramente que mais ou menos 30% ou 40% do território é tomado por forças não institucionalizadas, forças que estão para fora do processo político democrático.

Tudo isso para dizer que há nos Andes instituições e interações políticas menos inclusivas em comparação aos países do Cone Sul. No caso especificamente do Peru, eu me preocupei em entrar um pouco mais a fundo.

E NA COMPARAÇÃO COM O BRASIL, VOCÊ APONTA O PERU DE FUJIMORI COMO UM PAÍS DE POLARIZAÇÃO E RIVALIDADE, CONTRA A INCLUSÃO E A COMPOSIÇÃO BRASILEIRAS.

- Mais inclusão significa mais estabilidade. Isso fica bastante evidenciado nos primeiros testes de hipótese. Na segunda parte do livro há uma parte mais histórica comparativa. Comparo precisamente o caso brasileiro com o caso peruano, sobretudo porque são coincidentes no tempo. Ambas as crises acontecem em 1992. Mas não só por causa disso. Ambos apresentam padrões institucionais muito semelhantes, anteriores à crise de 92. São sistemas presidencialistas, multipartidários, com regras eleitorais muito semelhantes, um Executivo muito forte. São países que também passaram por regimes autoritários, tiveram sua transição para a democracia através de um processo muito negociado, ao contrário de outros padrões de transição na região, onde houve uma ruptura maior. São também países com uma desigualdade social muito grande.

Há diferença entre eles. O Brasil é uma economia mais diversificada, mas em termos políticos institucionais apresentam grandes semelhanças. Isso tudo me permitiu criar um quadro comparativo que me assegura que o que aconteceu em 92 foi decisivo para a trajetória política posterior de ambos os países.

Se no Brasil observamos uma gradativa cooperação, formação de um consenso nacional que leva ao afastamento do presidente, dentro das regras democráticas, no caso peruano observamos o oposto. Há um processo de polarização crescente que leva a um autogolpe dado pelo então presidente Fujimori, que rompe com as instituições democráticas e estabelece uma polarização muito aguda dentro do país, um confronto muito aberto. Esse padrão de polarização vai se seguir pelos anos seguintes.

Fujimori sofre, seis meses depois, a tentativa de um contragolpe e a partir disso há uma seqüência de deterioração institucional peruana que leva a um período autoritário, algo que destoa do cenário regional pós-transição.

Toda a América do Sul, a partir de 91, é uma região democrática. Um dos poucos contra exemplos é justamente este período fujimorista peruano. Mesmo depois do Fujimori, no caso o presidente Alejandro Toledo, observamos que essa memória institucional que ficou do conflito e do seu resultado de 92 continua a prevalecer, a condicionar ou a influenciar fortemente o comportamento político dos atores.

HÁ UM CÁLCULO POLÍTICO?

- Sim, um cálculo. O governo Toledo enfrentou grandes dificuldades institucionais. Chegou a ter menos de 10% de popularidade, sofreu revoltas sociais, decretou vários estados de sítio, estados de exceção, sempre rodeados de rumores de golpe, de processo de interrupção precoce, até assumir Garcia.

Veja que isso independe da ideologia do governo e do seu programa econômico. O governo Toledo é um governo de recuperação econômica.

Mesmo agora no caso boliviano, se pegamos as médias de crescimento econômico e de inflação, a média dos últimos anos é superior a qualquer coisa que você queira verificar, até mesmo no que diz respeito à renda derivada do petróleo e do gás que quintuplicou depois da nacionalização.

Uma coisa importante do livro é salientar que o problema institucional sul-americano não é de natureza econômica, mas de natureza política. Não há essa associação: crise econômica, crise institucional; crise institucional, crise econômica. As duas coisas não estão combinadas.

Uruguai e Argentina passaram talvez pela pior crise da história da América Latina, entre 1998 e 2003. A crise no Uruguai é tremenda, conduz a uma fuga dos jovens, mas as instituições políticas passam incólumes. Há uma alternância politica muito importante, que leva à ascensão de uma frente ampla de esquerda. As esquerdas chegam ao poder, mas sem qualquer fissura ou ameaça à estabilidade do país.

A virtude, portanto, está na capacidade de inclusão de novas frentes, de novos atores políticos. Ao incluir, esses regimes fazem com que se reproduzam de maneira mais estável no tempo.

NO BRASIL MUITAS ANÁLISES SE ACOSTUMARAM A IDENTIFICAR ASSOCIAÇÕES DE ELITES, NUM ACORDO PARA MANTER O STATUS QUO. A TESE AINDA É VÁLIDA? COM ELA, A IDÉIA DA INCORPORAÇÃO NÃO FICA ESMAECIDA?

- Essa aliança das elites é o padrão histórico da América Latina. Se olharmos para uma série de 100 ou 200 anos, fica claro que o padrão é de acordos de conveniência das elites. Agora há duas novidades na região. Esse acordo ocorre dentro das regras democráticas. Esse é o marco que diferencia a história política recente. Uma outra característica importante é ascensão de esquerdas, em muitos casos, e de nacionalistas, de outros, dentro das regras democráticas.

Foi um teste. Começou com o Chávez em 99 na Venezuela, depois vieram Lula no Brasil, Kirchner na Argentina, Vásquez no Uruguai, Bachelet no Chile, Correa no Equador, Morales na Bolívia e, por último, a vitória de Fernando Lugo no Paraguai, que finaliza 60 anos de domínio do Partido Colorado.

Esse é um teste decisivo. Não é um teste final, porque uma das contribuições do livro é mostrar que a democracia é algo vivo, um processo inacabado. É mais interessante trabalhar com a idéia de estabilidade do que de consolidação. Consolidação dá uma idéia de permanência, que não existe na democracia.

NO MEIO DO TESTE, PORÉM, HOUVE O GOLPE CONTRA HUGO CHÁVEZ.

- O golpe que afastou Chávez por 48 horas seguiu o modelo clássico, de conveniência das elites, com respaldo das Formas Armadas e em concordância com setores empresariais, corporativos e políticos. Até aí não houve novidade.

A novidade foi o que aconteceu depois: o retorno do presidente. O acordo entre as elites não foi suficiente para derrubar o presidente e resolver aquela questão.

Tanto foi assim que Chávez voltou pelo clamor popular. Não foram forças superiores, obscuras, mas o clamor popular que o levou a retornar ao poder.

Veja com isso que a democracia no país se torna completamente distinta do padrão anterior. Houve um empoderamento da sociedade, sobretudo da população mais carente, que sempre foi uma maioria, mas nunca se expressou coletivamente e de modo tão contundente. Foi justamente essa base popular que o fortaleceu tanto.

NO LIVRO VOCÊ CREDITA A ASCENSÃO DOS GOVERNOS DE ESQUERDA TAMBÉM AO FRACASSO DAS POLÍTICAS DE CORTE NEOLIBERAL.

- Sim, esse novo momento sul-americano é um processo de mudança resultado em grande parte do fracasso das políticas implementadas até o fim dos anos 90 de maneira muito radical, o chamado neoliberalismo, Consenso de Washington ou reformas econômicas em direção ao mercado. Essa agenda predominou do fim dos anos 80 até o fim dos anos 90.

O primeiro país da América do Sul a adotar essa agenda foi o Chile de Pinochet, que se tornou laboratório para o mundo inteiro. E o primeiro país democrático a adotar essa agenda foi justamente a Bolívia. O primeiro decreto neoliberal data de 1985 e se deu justamente na Bolívia.

De lá para cá, privatizações, abertura comercial, desregulamentação da economia, redução do Estado e assim por diante. Passados 20, 15 ou 10 anos, a depender do caso, o resultado final foi desastroso. A Argentina passou pela sua pior crise. O Uruguai também. O Brasil passou por duas crises muito sérias, em 98 e 2002. O mesmo acontece com a Bolívia, o Peru e a Venezuela.

MAS O QUE MUDA DO PONTO DE VISTA DEMOCRÁTICO?

- A Venezuela, por exemplo, sempre foi muito dependente do petróleo. Acontece que o pacto que regia as relações políticas no país até os anos 90 começou a se deteriorar a partir da capacidade desse pacto de se traduzir em benefícios econômicos. O pacto é importante para a institucionalização da democracia, mas ele tem limites. Esbarra na pobreza e na desigualdade social.

O caso venezuelano é exemplar nesse sentido. Levou à estabilidade no país por quase 40 anos e fez com que a Venezuela não experimentasse os regimes autoritários que a América Latina experimentou naquele momento. Mas houve um processo crescente de deterioração das instituições, resultado da incapacidade dessa democracia de se traduzir em um ganho substancial para as populações mais carentes.

Essas populações se tornam nos últimos anos mais autônomas, muito ciosas de seus interesses. Esse processo leva à ascensão de frentes mais à esquerda, ou mais de centro-esquerda, ou nacionalistas.

Começa aí a alternância.

MESMO COM ESSA ALTERNÂNIA, MESMO COM A RECUPERAÇÃO ECONÔMICA DOS ÚLTIMOS ANOS, O NÍVEL DE CONFIANÇA NA POLÍTICA NA AMÉRICA LATINA EM GERAL CONTINUOU BAIXO. OU SEJA, OS GOVERNOS DE ESQUERDA NÃO FORAM SUFICIENTES PARA RECUPERAR ESSA CONFIANÇA. POR QUÊ?

- Há um desgaste dos políticos, não da democracia. E isso ocorre não só na América Latina, mas também nos EUA e na Europa. Esse desgaste é resultado de outras forças, de outras esferas, que passam a concorrer com os políticos, com a maneira tradicional de representação política.

Uma segunda observação é que é preciso ver com cuidado o resultado dessas pesquisas, não levá-las em consideração de maneira tão severa por questões metodológicas que não vem ao caso.

A terceira observação é que a autonomia da sociedade verificada nos últimos anos vale para qualquer um. Não é uma autonomia ideológica. Não é uma autonomia de esquerda. A autonomia, sobretudo das populações mais carentes sempre alijadas do processo político e econômico, não é partidária. Se atende, ótimo. Se não atende, o problema começa.

Não à toa, os líderes que surgem desse ciclo político regional começam a gerar políticas voltadas para essas populações, com uma série de programas cujo foco são justamente essas populações mais carentes.

O que se destaca nas políticas sociais dos últimos seis, sete anos são as políticas focalizadas, que atendem a um setor da sociedade que hoje tem poder político e consciência do seu poder decisivo de escolha dos futuros governos.

EVO MORALES E HUGO CHÁVEZ SÃO A MESMA COISA?

- Não. Não são a mesma coisa, nem têm a mesma origem. Chávez é um ex-militar, um comandante. A sua inserção no processo político se inicia com um golpe. Não traz consigo um partido. Esse partido é construído à medida que ele governa e estabelece uma hegemonia política dentro do país.

Morales tem uma origem sindical. Ele se insere no processo político de maneira institucionalizada. Passa a participar das eleições, perde a primeira, há uma mobilização política crescente no país e vence em 2005.

Há também diferenças estruturais significativas entre ambos. A Venezuela conta com alguns recursos naturais que na Bolívia não se encontra. Por outro lado, a Bolívia enfrenta problemas internos de maneira bem distinta da Venezuela. Esta era estável e há um processo de desestabilização que leva à ascensão de Hugo Chávez.

No caso boliviano, essa estabilidade nunca ocorreu. A Bolívia é uma seqüência de crises históricas. Morales chegou ao poder e sua força política junto à população não pára de crescer. Há uma singularidade, a nacionalização do seu principal recurso estratégico, o gás. Isso o aproxima a Rafael Correa, do Equador. São governos que se elegem com o compromisso de adotarem outra agenda e utilizar essa receita oriunda dos hidrocarbonetos em benefício das populações mais carentes.

Mas há hoje na região um cenário mais diversificado, mais completo e mais democrático na região. Não dá para colocar tudo no mesmo saco.

CHÁVEZ É UM DEMOCRATA?

- É difícil classificá-lo como democrata ou não. A Venezuela vive hoje o que vivemos no Brasil, resguardadas as diferenças, nos anos 40 e 50: um político que rompe com oligarquias, um país em defesa de um recurso natural (no Brasil, era "o petróleo é nosso") e a convicção de que é preciso olhar mais de perto as populações mais pobres, ultrapassar os limites de um regime elitista.

Tudo o que observamos em meados do século 20 observa-se agora. Não em todos. Peru e Colômbia são casos específicos. Colômbia vive uma questão maior, que supera todos, que é o problema da segurança. Em 2007, o governo Chávez não foi democrático, ao defender a extensão do mandato.

Não estou entre aqueles que a reeleição é, por si, um problema. Reeleições foram inseridas na América do Sul pelos governos liberais.

MAS O PROBLEMA É A MUDANÇA DAS REGRAS COM O JOGO EM ANDAMENTO.

- Foi o que ocorreu nos anos 90. O Chávez hoje é mais democrático do que em 2007. E o Chávez de 2002 é muito mais democrático do que qualquer coisa que existia na Venezuela. Por isso é importante ter essa análise baseada nos atos, nos fatos, no processo político. Os primeiro anos do Chávez são muito democráticos. Ele rompe com um acordo oligárquico de pessoas que estavam alojadas no poder e na PDVSA. Era um governo legitimamente instituído com grande apoio popular. E sem crescimento econômico nos dois primeiros anos. Em 2007, há um período mais obscuro na Venezuela. Foi um ano decisivo. E o que a sociedade venezuelana fez? Disse não. É a sociedade mais autônoma que diz não à sua liderança mais carismática. Ela estabeleceu um limite. É um exemplo claríssimo da força alcançada pela sociedade sul-americana.

E MORALES? ELE ENFRENTA A FORÇA DOS AUTONOMISTAS?

- Com Morales há sem dúvida uma mobilização de setores da sociedade boliviana, até então desalojadas do processo político, e a incorporação de outras forças . A maioria, indígenas. Se acrescentarmos setores de trabalhadores, do proletariado, isso chega com facilidade a 60% da população ou mais. Uma maioria que surge com muita força. Não foi uma revolução, mas uma eleição que levou à vitória de Evo. Nesse sentido, a sociedade confere a esse novo governo a prerrogativa de mudar uma série de coisas.

A história da Bolívia é de expropriação de riquezas. O único bem que eles têm é o gás. A Bolívia compete com o Paraguai para ver quem é o país mais pobre da América do Sul. E a maioria da sociedade boliviana confere ao Evo a prerrogativa de mudar essa situação. Eles dizem: "Dessa vez é preciso que esse bem nos traga algum benefício concreto". Se o presidente Evo não executasse isso certamente ele cairia rápido. Ele tem consciência disso, não só porque é oriundo desses setores como também é um animal político.

MAS COMO ELE SAIRÁ DO IMPASSE?

- O livro mostra que o segredo da estabilidade da democracia na América Latina está na capacidade de inclusão política, no estabelecimento de acordos nacionais, de padrões cooperativos, de consensos mínimos, de ações orientadas para a cooperação e não para o confronto. Esse é o segredo institucional sul-americano.

A Bolívia está precisando resolver esse dilema institucional. Eu diria que nem ele nem a oposição estão conseguindo até aqui. Mas as crises institucionais são uma oportunidade para o início de processos virtuosos de estabilização política. Esse momento é decisivo. Temos o privilégio de poder assistir e verificar. Acredito que o estabelecimento de uma federação seja uma saída para o caso boliviano. Não uma federação com autonomia completa. Mas um equilíbrio entre o governo central, que responde à maioria maciça da população, e partes do país muito delimitadas que querem algum grau de autonomia para gestão dos negócios públicos. Se nessa mesa de concertação for alcançado o equilíbrio dessas duas coisas teremos a institucionalização de uma democracia não só multiétnica como federativa. Sairão todos ganhando. Se o padrão for outro, nenhum dos dois sairá vencedor. Seja a oposição, que não terá a autonomia almejada, seja o presidente que, embora tenha a maioria da população, não conseguirá implementar as suas políticas e garantir a vigência da nova Constituição.

Constituição esta preparada sob critérios não inclusivos. Lembre-se que a oposição não participou. Começou mal. Se não há um entendimento de todos, aquela Constituição sempre vai ficar sob suspeita, sempre será uma fonte de instabilidade muito grande.

A RECÉM-CRIADA UNASUL PODE AJUDAR?

- Esta é a grande novidade histórica, que está sendo decisiva para o estabelecimento do diálogo interno da Bolívia. Existe agora um fórum, um espaço que não havia. O conflito foi discutido entre os presidentes sul-americanos. Não foi levado para uma outra instância. Foi discutido em Santiago, não em Washington. Favorece esse diálogo interno porque estabelece um parâmetro. É como um alerta dos sul-americanos: "Não adianta porque não vamos aceitar golpes".

A Unasul constrange atitudes não institucionais e comportamentos não cooperativos. Auxilia a alcançar o segredo institucional sul-americano com mais velocidade. É uma novidade e tanta. Um marco regional. Podemos observar a institucionalização da democracia boliviana, a partir do entendimento nacional, mas que encontra respaldo de uma instância regional com países vizinhos, que compartilham ou compartilharam processos políticos muito semelhantes”

DEPOIS DA DIÁSTOLE (1985-2010) HAVERÁ RISCO DE NOVA SÍSTOLE?

INSPIRAR (SÍSTOLE), EXPIRAR (DIÁSTOLE); OU: SÍSTOLE CARDÍACA: OS VENTRÍCULOS SE CONTRAEM E IMPULSIONAM O SANGUE ATRAVÉS DAS ARTÉRIAS PULMONAR E AORTA; DIÁSTOLE CARDÍACA: O SANGUE RETORNA AO CORAÇÃO ATRAVÉS DAS VEIAS CAVAS E VEIAS PULMONARES E CHEGA AOS ÁTRIOS.

Como metáfora, esses conceitos são freqüentemente utilizados em análises políticas.

O Correio Braziliense de domingo, em texto de Luiz Carlos Azedo, publicou:

Sístoles e diástoles: o Executivo passou a substituir o Legislativo e o Judiciário.

Foram 20 anos de centralização e autoritarismo [1964-1984]

“Coube ao general Golbery do Couto e Silva, em célebre palestra na Escola Superior de Guerra (ESG), em 1980, resumir a ópera: a história política do Brasil é pendular, oscila entre a centralização e a descentralização. Não era uma idéia inovadora, porque Alberto Torres, no começo do século passado, e Oliveira Viana, pouco depois, já haviam registrado o fenômeno. Mas foi sistematizada para servir à política de Estado. Com base na célebre metáfora cardíaca da sístole (contração) e diástole (dilatação), Golbery formulou a estratégia de abertura política do governo Geisel: os militares se retiraram da política de forma organizada e tutelaram a longa transição à democracia.

IMPÉRIO

As Constituições brasileiras são bons retratos da centralização e descentralização políticas. A primeira sístole foi protagonizada por Dom Pedro I, que dissolveu a Constituinte de 1923 e outorgou a nossa primeira Carta Magna, a Constituição de 1824. A grande inovação liberal foi o direito à propriedade privada, transformado num entrave legal à abolição. Toda vez que se falava em acabar com a escravidão, se invocava a dogma liberal. O “Poder Moderador” do imperador estava acima do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Os presidentes das províncias eram nomeados, votavam apenas homens livres e proprietários.

A Constituição de 1923 foi reformada duas vezes. Primeiro, no Ato Adicional de 1934, que criou as assembléias legislativas provinciais, com certa autonomia, fruto das pressões antiabsolutistas despertadas pela abdicação de Pedro I, três anos antes. Manteve, porém, o caráter unitário do Estado brasileiro. A segunda ocorreu em 1881, quando D. Pedro II já estava desgastado pelo abolicicionismo. Introduziu as eleições diretas e acabou com a divisão entre eleitores de paróquia e de província. Apenas a aristocracia, uma ínfima parte da população, tinha direito a voto.

REPÚBLICA

A grande diástole foi a proclamação da República. A Constituição de 1891 foi inspirada nos Estados Unidos. Conferiu autonomia aos estados da federação e liberdade partidária. Foram estabelecidas eleições diretas para a Câmara, o Senado e a escolha do Presidente da República, mas soldados, religiosos, analfabetos e mulheres também não votavam. As eleições “a bico de pena” eram fraudulentas. Tudo veio abaixo na Revolução de 1930.

Com Getúlio Vargas, a Constituição de 1934 fortaleceu o governo federal, garantiu direito de voto às mulheres e aos jovens com mais de 18 anos, além de criar a Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho. Mas durou pouco. Em 1937, Getúlio implantou o Estado Novo, com uma Constituição de inspiração fascista, a “Polaca”. A eleição para presidente passou a ser indireta, a imunidade parlamentar foi extinta. Era a grande sístole.

O fim da II Guerra Mundial patrocinou nova diástole. A Constituição de 1945 consagrou os princípios da democracia. Estados e municípios recuperaram a autonomia. Os poderes Legislativo e Judiciário voltaram ser independentes. A eleição para presidente da República voltou a ser direta. Em 1961, o Congresso impôs a João Goulart o parlamentarismo, sem o qual não tomaria posse o vice do presidente Jânio Quadros, que havia renunciado. Em 1963, um plebiscito restabeleceu o presidencialismo.

Estava em marcha, porém, nova sístole: o golpe militar de 1964. A Constituição de 1967 institucionalizou o regime militar. Manteve o bipartidarismo criado pelo Ato Adicional nº 2 e estabeleceu eleições indiretas para presidente da República. A sístole foi ainda maior com a Emenda Constitucional nº1, de 1969, que incorporou o Ato Institucional nº5. Dava ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares e magistrados, suspender os direitos políticos dos cidadãos e legislar sobre matéria política, eleitoral, tributária e econômica. O Executivo passou a substituir o Legislativo e o Judiciário. Foram 20 anos de centralização e autoritarismo.

Li essa matéria no Correio Braziliense de ontem. A pergunta que me vem é: DEPOISDA DIÁSTOLE (1985-2010) HAVERÁ RISCO DE NOVA SÍSTOLE?

RUBENS RICUPERO: “REFLEXÕES CREPUSCULARES”

PARA ALGUNS, NÃO HÁ DÚVIDA: ESTE É O FIM, OU O COMEÇO DO FIM DO IMPÉRIO AMERICANO; NÃO TENHO TANTA CERTEZA...

Li o seguinte artigo de Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco), na “Folha de São Paulo” de domingo:

“Qual será o limite para que os custos de erros evitáveis do governo norte-americano provoquem processo irreversível de declínio dos Estados Unidos?

Três trilhões de dólares seriam o custo real da Guerra do Iraque, estima um livro de Joseph Stiglitz e Linda Birnes. O prejuízo ocasionado pela crise financeira pode chegar a mais de 30% do PIB (Produto Interno Bruto), entre US$ 3 trilhões e US$ 4 trilhões, segundo julgam certos analistas. Será possível que isso não passe de um piscar de olhos na alegre irresponsabilidade do país?

Pode-se discutir se essas são as cifras verdadeiras ou se parte do que se vai gastar para salvar o sistema financeiro não será recuperado. De qualquer forma, os números serão gigantescos e não representam mais do que uma pálida indicação das perdas humanas e morais: vidas sacrificadas, seres mutilados, esperanças desenganadas.

Para alguns, não há dúvida: este é o fim ou, ao menos, o começo do fim do império americano. Não tenho tanta certeza, pois vivi de perto episódio anterior, por alguns aspectos até mais grave do que o atual. Cheguei a Washington como conselheiro da Embaixada do Brasil em 1974, quando o processo de Watergate se encaminhava para seu inexorável desfecho. Em manhã de garoa cinzenta e triste, assisti ao discurso de renúncia de Nixon e confesso que me deixei tocar pela solene gravidade do momento.

Acompanhei pela TV as cenas dramáticas dos helicópteros partindo do terraço da Embaixada dos Estados Unidos, cachos humanos pendurados das rodas, enquanto as tropas do Vietcongue entravam em Saigon. A humilhação, a impotência, a frustração dos americanos eram patéticas: para que tinha servido o sacrifício de 55 mil de seus soldados e de 2 milhões de vietnamitas? Nem faltava o ingrediente econômico sob a forma dos choques do petróleo, a explosão de preços, as filas intermináveis nos postos de gasolina, a inflação, o abandono abrupto do sistema monetário do lastro ouro.

Comentei com meu chefe, o sempre pranteado embaixador Araujo Castro, que tudo aquilo me parecia um estrago irreparável no prestígio e no poderio dos Estados Unidos, a começar pela Ásia, onde tanto se temia o "efeito dominó" que se seguiria à derrota. "Engano seu", disse-me o embaixador, "não se passará muito tempo antes que o Vietnã implore aos americanos a oportunidade de comerciar com eles." Foi o que se deu. Os vietnamitas, que se converteram no mais recente e agressivo dos tigres asiáticos, assinaram com Washington um acordo duríssimo, no qual aceitaram tudo e algo mais, inclusive cláusulas ambientais e trabalhistas.

Explicou-me então sua teoria do "overdraft" ou "saque a descoberto". "Como os indivíduos, os países têm limites diferentes para o que podem sacar a descoberto no banco da história.

Para o Brasil, a margem em que pode errar sem conseqüências irreversíveis é estreita. O limite dos Estados Unidos é incomensurável." Conto a conversa porque a imagem do "overdraft" se adapta às mil maravilhas a um colapso financeiro em que todo o mundo sacou o que não tinha. Daquela vez, deu certo: a crise levou ao poder Reagan, e todos conhecem o resto da história da recuperação do moral e do poder dos Estados Unidos. E agora, até quando os chineses, na euforia da Olimpíada, do saldo comercial e de sua estação espacial, deixarão que os americanos continuem a sacar das reservas deles para viver muito além dos próprios meios?”

ESTATIZAÇÕES EM CURSO NA INGLATERRA

Li na Folha de São Paulo:

GOVERNO DO REINO UNIDO VAI NACIONALIZAR MAIS UM BANCO, DIZ TV

O governo britânico vai nacionalizar o banco especializado em empréstimos imobiliários Bradford & Bingley, de acordo com a BBC. As autoridades do país, no entanto, disseram que ainda discutem uma solução para a instituição. Segundo a rede de TV, a medida será anunciada ainda na noite de hoje ou amanhã e as cerca de 200 agências do Bradford & Bingley serão vendidas para um ou mais bancos comerciais.

Em fevereiro, o governo do Reino Unido já havia nacionalizado a financiadora de hipotecas Northern Rock.”

O IMPORTANTE: A TERRA OU O SOL?

REPENSANDO A GRANDE REVOLUÇÃO

Li esse interessante artigo de MARCELO GLEISER na Folha de São Paulo de domingo. O autor é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo".

Copérnico não foi o único a propor o Sol como centro do cosmo

“Antes de mais nada, defino que grande revolução é essa. Não falo de Garibaldi, de Che Guevara, ou de Lênin. Para esta coluna, a grande revolução é a revolução copernicana, que, conforme conta o mito, ocorreu quando o polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) "pôs" o Sol no centro do cosmo, mudando para sempre a história do conhecimento.
Ainda segundo o mito, antes de o sábio renascentista publicar o livro "Sobre as Revoluções das Esferas Celestes", ou seja, dos babilônios até 1543, todo mundo achava que a Terra era o centro de tudo e que o Sol, a Lua e os planetas giravam à sua volta.

Também se acredita que Copérnico tenha enfrentado uma grande resistência por parte da Igreja Católica. Tem gente que acha até que ele tenha sofrido nas mãos da Inquisição.

Não há dúvida de que a obra de Copérnico é extremamente importante na história da astronomia. Mas vale a pena revisitar certas asserções comumente feitas sobre a dita revolução, não só como esclarecimento, mas, também, pelo seu enorme interesse histórico e pedagógico.

A revolução copernicana não é obra apenas de Copérnico. Ela se deve principalmente aos trabalhos do grande astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), do alemão Johannes Kepler (1571-1670) e do italiano Galileu Galilei (1564-1642). Podemos dizer que Copérnico plantou as sementes que foram gerar frutos devido à coragem e à dedicação desses três.

Copérnico também não foi o único a propor o Sol como centro do cosmo.

Mais de 15 séculos antes dele, e como ele mesmo afirma na dedicação de seu livro ao papa Paulo 3º, alguns filósofos gregos haviam proposto que a Terra girasse em torno de si mesma e que não fosse o centro das órbitas. Em particular, Aristarco de Samos (cerca de 300 a.C.) propôs um modelo essencialmente idêntico ao que seria proposto depois por Copérnico.

O fato de Copérnico ter dedicado seu livro ao papa mostra que não tinha nada a temer com relação à Igreja Católica. As maiores críticas ao heliocentrismo de Copérnico vieram de Martinho Lutero, que o acusou de paganismo. A igreja só irá adotar uma posição oficial contrária ao heliocentrismo em 1616, devido à insistência de Galileu (inspirado diretamente em Copérnico) de que a Bíblia não deve ser usada para estudar astronomia e que os teólogos que teimam em pôr a Terra no centro não entendem nem de astronomia nem de teologia. Numa época em que a Igreja Católica via a sua autoridade erodida pelas correntes protestantes, criticar o poder dos cardeais e dos bispos não era um boa política.

Mas era necessário.

Apesar de Copérnico ter publicado o seu livro em 1543, o primeiro a defender abertamente o heliocentrismo foi Kepler. Muita gente afirma que o monge italiano Giordano Bruno foi queimado na fogueira em 1600 pelo seu copernicanismo. Mesmo que ele defendesse as idéias de Copérnico, o seu maior problema com a Inquisição era de natureza teológica; ele duvidada da plausibilidade da Santíssima Trindade, da transmigração das almas e da virgindade de Maria.

Em 1597, Kepler publica o seu primeiro livro, onde toma o heliocentrismo como ponto de partida. Em 1609, usando os dados de Tycho Brahe, publica "Astronomia Nova", onde obtém as três leis do movimento planetário.

Na primeira delas, afirma que as órbitas planetárias são elipses e não círculos. Nesse mesmo ano, Galileu aponta o seu telescópio para os céus, mostrando que as idéias de Copérnico merecem ser levadas a sério. A partir daí, a grande revolução toma rumo, 66 anos após ter sido iniciada por Nicolau Copérnico. E o cosmo nunca mais foi o mesmo”.

A EXCESSIVA COMPRA DE TERRAS POR ESTRANGEIROS

Li no blog “Por um sem mídia”, de Carlos Dória, o importante artigo do MST publicado sábado no jornal “O Estado de São Paulo”:

REFORMA AGRÁRIA - COMPRA DE TERRAS POR ESTRANGEIROS.

Compra de terras por estrangeiros é mais um empecilho para Reforma Agrária

Dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) mostram que, nos últimos sete meses, 203 mil hectares de terras foram parar nas mãos de estrangeiros. Esses números, adverte o presidente do Incra, Rolf Hackbart, certamente estão subestimados, porque os cartórios não se vêem obrigados a registrar separadamente as terras compradas por estrangeiros e repassar as informações para o órgão.

O aumento na busca, afirma o Incra, naturalmente eleva o preço das terras e obriga o governo a pagar mais caro por áreas rurais desapropriadas para reforma agrária. No ano passado, de acordo com dados do Instituto FNP, o preço médio das terras subiu 17,83%. Essa, de acordo com o presidente do Incra, é uma das razões para a restrição à compra de terras por estrangeiros. “Eu não quero concentração de renda só nas mãos dos estrangeiros”, afirmou Hackbart.

A proposta, porém, encontra resistência entre os produtores rurais, que receiam a diminuição dos investimentos estrangeiros no campo depois de aprovadas as novas regras. “Isso me parece um pouco de xenofobia”, afirmou o presidente da Comissão de Assuntos Fundiários da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), Leôncio Britto. “Essa mudança de classificação poderá afetar a entrada de capitais estrangeiros no Brasil. E o que nós ficamos sem entender é que, quando entra o capital limpo, para produzir, gerar emprego e renda, querem colocar restrições, mas quando entra o capital especulativo, há facilitação”, acrescentou.

A crítica é rechaçado pelo presidente do Incra. “Isso não é xenofobia, é soberania. Isso é uma questão de impor limites, porque essas terras são patrimônio do País”, afirmou. O argumento é referendado pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI). “O Brasil não está num estágio de leilão. O que nós precisamos é de investimento seguro, que não nos cause problemas depois.”

A idéia do governo é encaminhar ao Congresso um projeto de lei com as novas regras. Assessores chegaram a sugerir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o assunto seja tratado por medida provisória, pois durante a tramitação do projeto na Câmara e no Senado haveria o risco de aumento vertiginoso na busca por terras. Mas a idéia não foi encampada por Lula.

Nessa proposta, o governo deve criar restrições para a compra de terras por empresas brasileiras controladas por estrangeiras e diminuir o tamanho das terras que cidadãos estrangeiros podem comprar. Atualmente, não há restrições para a compra de terra por essas empresas”

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

“NAÇÕES INDÌGENAS”: CONFLITOS POTENCIAIS CRESCENTES

O jornal “O Estado de São Paulo” em artigo de João Paulo Charleaux, ontem publicou:

NACIONALISMO INDÍGENA GANHA FÔLEGO NA AMÉRICA DO SUL

Decisões de Evo e Correa inflamam reivindicações por recursos naturais

“A decisão do governo equatoriano de expulsar a construtora Norberto Odebrecht do país, na última terça-feira, deu novo fôlego a grupos indígenas da América do Sul, que vêem a exploração dos recursos naturais como a última fronteira de uma guerra que começou com a colonização.

Em pelo menos seis países sul-americanos, movimentos indígenas organizados voltaram a falar sobre “propriedade ancestral dos recursos” e a manifestar contrariedade com a presença de empresas estrangeiras, como aconteceu com o gás boliviano explorado, principalmente, pela Petrobrás na Bolívia de Evo Morales.

Das 18 grandes obras que a Odebrecht toca hoje na América do Sul, 14 estão em países onde grupos indígenas provocam instabilidade ou governos populistas tornam as regras incertas para os negócios. “Não nos metemos nos assuntos locais, levamos sempre em conta que somos estrangeiros” disse ao Estado o diretor de Relações Institucionais da Construtora Norberto Odebrecht, Roberto Dias. “Da mesma forma, dizemos aos nossos funcionários que não se trata de morder e sair, mas de lançar bases parar ficar 50 anos.”

Para o presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), Marlon Santi, “as empresas transnacionais negociam nossa mãe-terra e nos roubam o petróleo e os minerais. Nossa proposta é de que tudo isso seja nosso”.

Em maio, Santi havia retirado o apoio ao governo depois que o presidente anunciou que a nova Constituição não daria aos indígenas o direito de decidir sobre a exploração dos recursos naturais. Agora, há um novo aceno de Correa aos movimentos indígenas, com a decisão de impedir que executivos da Odebrecht deixem o país e as Forças Armadas ocupem as instalações da empresa.

Há apenas quatro anos, a influência desses grupos na política equatoriana foi determinante para a queda do então presidente, Lucio Gutiérrez. Eleito em 2002, Gutiérrez não resistiu depois que o partido indígena Pachakutik passou para a oposição, elevando o índice de rejeição ao seu governo para 70%.

O Brasil deu asilo ao presidente deposto e acabou alvo de protestos. “Nosso objetivo era contribuir para o processo de paz social num país que vivia uma crise político-institucional de extrema gravidade”, disse na época o então embaixador do Brasil em Quito, Sérgio Florencio.

AUTONOMIA TOTAL

No Peru, onde a construtora brasileira participa da construção de um porto e duas rodovias no sul do país, orçadas em quase US$ 2 bilhões, o ambiente político também pode se deteriorar, já que a reprovação ao governo na região chega a 96%.

O presidente regional de Puno, Hernán Fuentes, prega a autonomia indígena e a aliança com os vizinhos de mesma etnia que vivem do lado boliviano.

Em sua página na internet, Fuentes elogia Hugo Chávez, Fidel Castro e Evo Morales e diz “entender” o ponto de vista das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Ao sul, no Chile, os mapuches pregam a autonomia total de 3 das 12 regiões que formam o país - numa área que corresponde a 20% do território continental chileno -, justamente onde está concentrado o maior potencial hidrelétrico do país.

“Minha posição é de absoluto rechaço (às hidrelétricas)”, disse o líder indígena Aucán Huilcamán Pillama. Ele anunciou também sua intenção de candidatar-se à presidência do Chile nas próximas eleições, com a bandeira da “autodeterminação e do autogoverno mapuche”.

Por autonomia, os indígenas chilenos entendem “governo próprio e leis próprias, sem a presença da força pública”, explica Jorge Huenchullán, líder mapuche na cidade de Temucuicui. “Se me perguntam se sou chileno, digo que sou mapuche”, diz Huenchullán.

Atento ao risco que a proposta representa para a integridade territorial, o governo local já deteve 25 mapuches, alguns deles enquadrados na lei antiterrorismo, criada durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Sem vencer a resistência dos mapuches às hidrelétricas, o Chile continua preso á dependência do gás boliviano. Nos meses de inverno, o produto chega a faltar por causa do aumento da demanda dos vizinhos argentinos”.

A INDISPENSÁVEL DEFESA DA “AMAZÔNIA AZUL”

O jornal “O Estado de São Paulo”, em reportagem de Roberto Godoy, publicou ontem:

PROJETO DA MARINHA PREVÊ COMPRA DE NAVIOS, SUBMARINO E SENSORES

A vigilância do tesouro submarino brasileiro - jazidas de petróleo com 70 bilhões de barris, depósitos de manganês, cobre, cobalto, níquel, ouro, diamante, enxofre, monazita, minerais estratégicos e uma imensa reserva de recursos pesqueiros, capaz de produzir 1,5 milhão de toneladas por ano - será feita por meio de uma sofisticada rede de sensores eletrônicos distribuídos ao longo dos 4,5 milhões de quilômetros quadrados, a porção do Atlântico Sul sob controle do País. A área equivale a mais da metade do território nacional.

Ainda “em forma de projeto”, segundo o comandante da Marinha, almirante Júlio Moura Neto, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul é comparável ao Sivam, criado para monitorar a Amazônia, ao custo total de US$ 1,4 bilhão.

Não é o único recurso previsto para a tarefa. Um amplo programa de reequipamento, com execução prevista para o período de seis anos entre 2008 e 2014, está em curso. O pacote prevê a compra de 27 navios-patrulha de 500 toneladas, a construção de um novo submarino convencional e a modernização dos cinco navios do tipo em uso atualmente. Cuida, também, da aquisição de torpedos, helicópteros, patrulheiros oceânicos, embarcações de escolta e de uso em grandes rios.

Entram no inventário a revitalização de parte da frota - inclusive do porta-aviões São Paulo - e a atualização tecnológica de 12 dos 23 caças Skyhawk, contratada da Embraer.

O Comando da Marinha não arrisca previsões de investimento. Mas, segundo fornecedores internacionais ouvidos pelo Estado na Europa e nos Estados Unidos, o Sistema de Gerenciamento em desenvolvimento pode custar US$ 2 bilhões. O valor, todavia, depende das especificações técnicas, das dimensões do conjunto e do cronograma das etapas de implantação.

“Trata-se de uma ferramenta que permitirá ao País o exercício de sua soberania e direitos sobre espaços marítimos”, explica o almirante Júlio Moura. Para o comandante, “o caráter multidisciplinar torna possível o controle efetivo, não só do aspecto da Defesa, mas, com igual intensidade, nas questões ambientais, socioeconômicas e político-estratégicas relacionadas com temas diversos como pesca, transporte geral, pesquisa científica e, claro, a exploração de petróleo e gás”.

A Marinha dispõe de dois sistemas - de Comando e Controle e de Informações sobre o Tráfego. Ambos serão integrados ao complexo da Amazônia Azul. O grupo vai contribuir para a repressão ao contrabando, segurança no mar, prevenção e combate à poluição. Boa parte será empregada na previsão e alerta antecipado de fenômenos climáticos - tempestades e ciclones, por exemplo.

De acordo com engenheiros especializados, o Sistema de Vigilância exigirá de três a quatro Centros Regionais. Um deles, o mais bem equipado, seria dedicado ao acompanhamento permanente das bacias de Santos, Campos e Espirito Santo, onde estão os bolsões de gás e campos de petróleo mais importantes. A província do pré-sal, com 800 quilômetros de extensão e 200 quilômetros de largura, está lá, armazenando talvez 70 bilhões de barris de óleo cru.

Tanta riqueza fica a 300 km da costa e exigirá perfurações a mais de 6 mil metros em torno de um ponto chamado Tupi, no meio do oceano, longe de tudo. Outro núcleo de importância estratégica teria de ser montado na Foz do Rio Amazonas, voltado para um amplo arco no norte-nordeste. Os outros pontos estariam focados no sul e centro-leste. A blindagem eletrônica será formada por radares digitais de longo alcance, rastreadores de satélite, unidades de busca, estações de rádio protegidas e sofisticados equipamentos de reconhecimento de atividade submarina clandestina.

Boa parte do dinheiro necessário o Comando da Marinha tem, embora sob o contingenciamento do governo. Os royalties vinculados ao petróleo e retidos para formação do superávit primário somavam, até dezembro de 2007, consideráveis R$ 3,159 bilhões. Para 2008, a Lei Orçamentária Anual prevê montante de R$ 1,7 bilhão desses direitos, mas com repasse de R$ 994 milhões e bloqueio de R$ 706 milhões. O total congelado acumulado chega a R$ 3,865 bilhões. A Marinha poderia iniciar o programa de reaparelhamento com recursos próprios se essas verbas fossem liberadas.

Simultaneamente ao processo de recuperação de meios e de finanças, a Força Naval defende na ONU a proposta de acréscimo de 950 mil km² às águas do Brasil, algo como a soma dos Estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Combinado com a faixa litorânea de 200 milhas, o novo espaço expande em 52% os limites brasileiros. Por ele circulam 95% do comércio exterior e se dá o acesso aos 40 portos nacionais de entrada e saída de mercadorias”.

O BRASIL PRECISA DE SUBMARINOS

Sobre o mesmo assunto de Segurança Nacional, ontem o “Jornal do Commercio”, em reportagem de Alexandre Rodrigues da Agência Estado, publicou bom texto que complementa o acima exposto. Reproduzo parcialmente:

“A proposta é dobrar o total de navios-patrulha até 2018 e construir quatro submarinos, mas as atenções se voltam principalmente para o submarino nuclear que deverá vigiar toda a costa brasileira a partir de 2020

“Mais do que dobrar a atual frota de 27 navios-patrulha, a prioridade da Marinha para alcançar condições efetivas de segurança nas áreas de prospecção de petróleo na costa brasileira, como as recém-descobertas reservas na camada pré-sal, é a construção de pelo menos quatro novos submarinos até 2018. A meta principal é o aguardado submarino nuclear, que colocaria o controle da costa em outro patamar. No entanto, os oficiais não contam com ele antes de 2020.

“TIMBIRA” É CAPAZ DE DESTRUIR NAVIOS EM POUCOS SEGUNDOS

“A missão do submarino Timbira durante a Operação Atlântico encerrada na última sexta-feira foi impedir o movimento, no litoral do Rio, da esquadra formada por quatro navios de transporte apinhados de fuzileiros navais, escoltados por uma dezena de corvetas e fragatas com a tarefa de simular um ataque anfíbio à costa capixaba.

Equipado com sofisticados sonares, o submarino tem condições de mapear a disposição da esquadra a ponto de identificar até o número de pás de um navio e surpreender ao mirar no elemento de maior valor para o inimigo. Navios de guerra equipados com canhões e mísseis podem se partir ao meio em poucos segundos com um único torpedo de um submarino.

O efeito inibidor que um submarino como o Timbira provoca seria muito maior no caso de uma unidade nuclear. A propulsão atômica dá uma velocidade muito superior à diesel-elétrica dos submarinos convencionais, que precisam subir à superfície para recarregar baterias. É nesse momento que os navios de guerra podem abatê-los para ir em frente. A ilimitada autonomia do reator nuclear lhe dá condições de pousar “invisível” no fundo do mar, por quanto tempo for necessário e de se deslocar rapidamente por toda a costa. No entanto, ele é mais ruidoso, o que faz mais difícil o desafio da ocultação.

Por causa da dificuldade em ser detectado, a presença de um submarino é motivo suficiente para imobilizar toda uma esquadra. Por esse caráter de dissuasão é que a construção de novos submarinos é prioridade. Um novo leva quatro anos para sair do estaleiro. Com as necessidades de manutenção, a atual frota baseada no Rio não tem condições de cobrir toda a costa. Segundo o almirante Bento, o Timbira levaria mais de dez dias para chegar à foz do Amazonas.

A Marinha tem o ano que vem como limite para retomar a construção de submarinos convencionais para chegar ao nuclear, sob pena de perder o domínio da tecnologia de produção nacional desenvolvida no Arsenal de Marinha do Rio a partir do projeto alemão que deu origem aos quatro navios da classe Tupi, entre eles o Timbira. O último que saiu de lá, o quinto da frota brasileira, foi o Tikuna, resultado do aprimoramento do Tupi, em 2006.

“Nossa expectativa é construir pelo menos quatro novos submarinos convencionais a partir de 2009, iniciando um a cada dois anos”, diz o almirante. O Brasil deveria ter várias bases submarinas espalhadas pelo litoral, mas a Marinha quer suprir essa carência com o submarino nuclear. Mais velozes e com autonomia ilimitada, poderiam cobrir toda a costa.

REATOR NUCLEAR

Enquanto o Centro Tecnológico da Marinha no interior de São Paulo desenvolve o reator nuclear, os militares precisam de um projeto com dimensões adequadas para recebê-lo.

O Tikuna, por exemplo, pesa 1.500 toneladas. Para um reator nuclear, a Marinha tem que construir unidades convencionais maiores para chegar até gigantes de 3 a 4 mil toneladas. Assim, quando o reator estiver pronto, haverá um projeto para envolvê-lo.

Iniciado há quase 30 anos, o programa nuclear da Marinha perdeu quase dez anos com a falta de verba, apesar de já ter consumido cerca de R$ 2 bilhões. Revigorado com recursos do Ministério da Ciência e Tecnologia, custará ainda mais R$ 1 bilhão, mas agora precisa mesmo é de tempo.

Na sexta-feira passada, foi ativada no Rio de Janeiro, a Coordenadoria do Programa de Desenvolvimento de Submarino de Propulsão Nuclear. A coordenação do programa ficará a cargo do almirante-de-esquadra José Alberto Accioly Fragelli.

“Se as coisas correrem bem, teremos o submarino nuclear em 2020. Agora não é questão só de dinheiro, mas de tempo para alcançar um conhecimento que os países que têm não dividem. Não há dinheiro capaz de acelerar esse processo”, explica o almirante Bento”.

O ACIDENTE DA TAM EM CONGONHAS

O Correio Braziliense de ontem publicou a seguinte reportagem da Agência Brasil:

LAUDO DO INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA SOBRE ACIDENTE DA TAM JÁ FOI CONCLUÍDO

O laudo do Instituto Nacional de Criminalística sobre o acidente com o vôo JJ3054 da TAM já foi concluído e o delegado responsável pelo inquérito policial, em andamento em São Paulo, promete apresentar suas conclusões ao Ministério Público Federal na capital paulista no próximo mês.

Ao participar neste sábado (27/09) do encontro de parentes e amigos das vítimas da tragédia, que ocorre em Porto Alegre (RS), o delegado Antônio Carlos Barbosa prometeu concluir seu relatório durante os dias de férias que pretende tirar a partir do início do próximo mês. As informações foram repassadas à Agência Brasil pelo jornalista Roberto Gomes, irmão de uma das vítimas do acidente.

Segundo Gomes, assessor de imprensa voluntário da Associação dos Familiares das Vítimas do Vôo JJ 3054, o delegado reafirmou aos parentes das vítimas que embora possam não ter sido as principais causas do acidente, as condições da pista do Aeroporto de Congonhas e o descumprimento de normas de segurança, como a que proibia que aviões com problemas no reverso pousassem em Congonhas em dias de chuva, contribuíram para que o Airbus A320 não conseguisse parar, atravessando toda a pista e indo se chocar com o prédio onde funcionava o terminal de cargas da própria TAM.

Ainda de acordo com Gomes, o delegado confirmou informação divulgada pela revista IstoÉ deste fim de semana. A publicação diz que teve acesso a relatório confidencial em que técnicos do Instituto de Criminalística concluem que, depois de o piloto tentar pousar a aeronave, o sistema automático de frenagem do avião teria respondido de forma “inesperada”, conseqüência da não-abertura dos freios aerodinâmicos (spoilers) durante o pouso.

Gomes, no entanto, afirmou que, a partir das informações registradas pelo computador de bordo do avião, o delegado sugeriu que os spoilers teriam deixado de abrir devido ao posicionamento assimétrico das manetes.

Pelo registro do computador, no instante do pouso uma das manetes estava em posição de acelerar (climbing) e a outra em ponto morto (idle). Dessa forma, houve uma descompensação que impulsionou o avião para o lado esquerdo da pista. “A pergunta é até que ponto esse registro está correto e até que ponto pode ter havido uma interpretação equivocada por parte do computador?”, questionou Gomes.

Na última reunião dos parentes das vítimas, realizada no mês passado em Brasília, o perito do Instituto de Criminalística Antônio Nogueira afirmou que não era possível dizer que as manetes das aeronaves estivessem na posição errada no momento do pouso. “Com o que sobrou do mecanismo das manetes, não dá para determinar a posição delas. Pela interpretação da caixa-preta, a única coisa que dá para determinar é que uma [manete] ficou em climb e outra acionou para máximo reverso”. Na ocasião, o perito disse preferir não fazer suposição sobre se houve ou não falha do piloto”.

FAUSTO DE SANCTIS - "PEDIRAM QUE EU VOLTASSE ATRÁS"

Li ontem no Blog do Noblat: “DEU NA REVISTA ÉPOCA”:

O juiz afirma que sofreu pressão para recuar no caso que levou à prisão de Daniel Dantas

ÉPOCA – A DESEMBARGADORA SUZANA CAMARGO DISSE EM DEPOIMENTO À PF QUE OUVIU DO SENHOR O CONTEÚDO DE CONVERSAS GRAVADAS ILEGALMENTE ENVOLVENDO O PRESIDENTE DO STF, GILMAR MENDES. ISSO ACONTECEU?

FAUSTO DE SANCTIS – Nunca soube da existência de grampo ilegal ou clandestino. Evidentemente, não determinei nenhuma interceptação telefônica ou telemática (de e-mail ou de dados digitais) do ministro Gilmar Mendes ou de seu gabinete, até porque não tenho tal competência. Também nunca recebi “informes” nesse sentido. As únicas interceptações telefônicas ou telemáticas por mim autorizadas tinham como alvo pessoas supostamente ligadas ao grupo Opportunity.

ÉPOCA – MAS O SENHOR CONVERSOU COM A DESEMBARGADORA?

DE SANCTIS – Sim, na tarde de 10 de julho. Ela telefonou, mas não pude atendê-la. Retornei depois sua ligação.

ÉPOCA – SOBRE O QUE VOCÊS CONVERSARAM?

DE SANCTIS – Não gostaria de fazer qualquer juízo sobre a conduta de meus colegas, que sempre admirei e respeitei, aí incluindo a desembargadora Suzana Camargo. Mas eu me surpreendi com o teor da conversa, já que a desembargadora começou o diálogo invocando sua condição de amiga pessoal do ministro Gilmar Mendes. Ela me disse que ele estava irado com a notícia de que eu teria decretado a prisão preventiva de Daniel Dantas e gostaria de confirmar essa decisão. Confirmei que havia, de fato, decretado a prisão preventiva. Disse quais eram as bases legais e, principalmente, que havia fatos novos, elementos obtidos na busca e apreensão.

ÉPOCA – ACABOU AÍ A CONVERSA?

DE SANCTIS – Em seguida fui novamente surpreendido com o apelo da desembargadora para que eu voltasse atrás em minha decisão. Ela insistia que o ministro Gilmar Mendes estava irado. Respondi-lhe que minha decisão estava fundamentada, era fruto de minha convicção e que, em hipótese alguma, voltaria atrás. Diante de uma última insistência da desembargadora, reafirmei que não reconsideraria e que, inclusive, o mandado de prisão já havia sido expedido e encaminhado. Estavam presentes na minha sala três servidores que, com certeza, ouviram as respostas que eu dava às perguntas formuladas pela desembargadora.

ÉPOCA – ELA DIZ NO DEPOIMENTO QUE OUVIU DO SENHOR A AFIRMAÇÃO DE QUE HAVERIA “SUJEIRA” NO STF E DE QUE O MINISTRO GILMAR MENDES O TERIA CHAMADO DE “INCOMPETENTE”. É VERDADE?

DE SANCTIS – Também não houve isso. Em momento algum eu disse à desembargadora que sabia que o ministro me qualificara como incompetente.

ÉPOCA – FOI NOTICIADO PELA IMPRENSA QUE EXISTIRIA UMA GRAVAÇÃO EM VÍDEO DE UM JANTAR ENTRE ADVOGADOS DOS INVESTIGADOS E ASSESSORES DO MINISTRO GILMAR MENDES. O SENHOR SOUBE DE ALGO?

DE SANCTIS – Nunca soube. O que sei é o conteúdo das investigações. Tive conhecimento de tal fato pela imprensa.

ÉPOCA – NA INVESTIGAÇÃO HÁ ALGUMA CITAÇÃO AO MINISTRO GILMAR MENDES?

DE SANCTIS – Minha convicção pessoal é no sentido de que essas informações, por sua natureza, não podem ser reveladas, pois configuraria uma quebra do sigilo do processo e, inclusive, nesse sentido foram as minhas informações prestadas em habeas corpus ao TRF da 3a Região, ao Superior Tribunal de Justiça e ao STF. Reforço que nenhuma informação obtida das investigações constante dos autos decorreu de interceptação telefônica ou telemática de linhas ou computadores do gabinete do ministro Gilmar Mendes ou de qualquer outra autoridade com prerrogativa de função”.

PRESIDENTE LULA APOIOU SÃO PAULO MAIS DO QUE FHC

Para desmerecer esse fato, o Blog do Noblat, coerente em ser parte da GLOBO, trata a notícia como “gabolice”.

Vejamos o texto do Noblat:

“Lula tem novo ataque de gabolice

Dessa vez foi em Guarulhos, na Grande São Paulo, em comício para cinco mil pessoas onde ele pediu para que o candidato do PT a prefeitura fosse eleito no primeiro turno.

- De 1980 a 2002, a categoria dos metalúrgicos perdeu 700 mil postos de trabalho e hoje já voltamos a ver placas de precisa-se de metalúrgico na porta das fábricas.

Empresários do setor da construção civil me dizem que faltam pedreiros, faltam azulejistas.

- Perguntem ao Serra se o Fernando Henrique deu para o Covas 10% do que eu dei para o Serra. Perguntem ao Alckmin se Fernando Henrique deu 10% do que eu dei para São Paulo. Perguntem a qualquer governador do Nordeste o que estamos fazendo pelos governos estaduais e prefeituras.

- Eu não entendia porque o pobre não votava em mim. Uma vez uma mulher pobre de uma usina de cana-de-açúcar me disse que não votava em mim porque eu iria tomar tudo o que ela tinha. E ela só tinha um barraquinho. Cheguei a pensar em abandonar tudo e ir para casa. Então, quando isso acontecia, a Marisa me estimulava a trabalhar mais.

E hoje como presidente não posso fracassar, porque tenho que provar que um operário pode governar melhor do que doutor.

- Inteligência não se aprende na escola. Inteligência nasce dentro de nós e ela só pode ser aperfeiçoada. Eu sei exatamente o que o povo quer”.

"É PRECISO FAZER JUSTIÇA FISCAL", DIZ RECEITA FEDERAL

O jornal “Folha de São Paulo”, em texto de Fátima Fernandes e Claudia Rolli, ontem publicou:

LUIZ SÉRGIO FONSECA SOARES, NOVO SUPERINTENDENTE DO FISCO EM SP, DIZ QUE A INSTITUIÇÃO QUER CORRIGIR DISTORÇÕES NO IR

ENTRE AS MAIORES DISPARIDADES DO SISTEMA TRIBUTÁRIO DO BRASIL, ESTÁ A DE QUE O POBRE PAGA, PROPORCIONALMENTE, MAIS IMPOSTO DO QUE O RICO

O mineiro Luiz Sérgio Fonseca Soares, 60, assume a Superintendência da Receita Federal em São Paulo com a perspectiva de o órgão arrecadar, neste ano, R$ 45 bilhões a mais dos paulistas -aumento de cerca de 20% sobre a receita de R$ 232,5 bilhões obtida em 2007 no Estado de São Paulo.

Em sintonia com a secretária da Receita Federal, Lina Maria Vieira, Soares diz que vai intensificar o combate à sonegação e ao contrabando em parceria com outras instituições do Estado e que o foco não será só o comércio de produtos populares, mas também o de luxo.

Soares, que ocupava a presidência da Delegacia Sindical de Belo Horizonte (MG), ligada ao Unafisco (sindicato dos auditores fiscais), diz que a Receita vai chamar a sociedade para discutir formas de promover justiça fiscal no país, já que "o pobre paga, proporcionalmente, mais IR do que o rico no Brasil".

A seguir, os principais trechos da entrevista.

FOLHA - O SR. CHEGA PARA ADMINISTRAR A SUPERINTENDÊNCIA DA RECEITA EM UM ESTADO QUE DEVE ARRECADAR R$ 277 BILHÕES NESTE ANO. QUAIS SERÃO SUAS PRIORIDADES?

LUIZ SÉRGIO FONSECA SOARES - De fato, a maior parte da arrecadação está em São Paulo, mas, ainda assim, os recursos são escassos se considerarmos o que é preciso fazer em São Paulo.

Minha tarefa é tirar desses recursos o máximo possível. A Receita quer ser mais proativa, trabalhar mais em conjunto com representantes da sociedade, com associações, federações para, por exemplo, diminuir a concorrência desleal que atinge alguns setores.

FOLHA - QUAIS SERIAM AS AÇÕES PARA COMBATER A CONCORRÊNCIA DESLEAL?

SOARES - Em alguns setores, por exemplo, contribuintes do mesmo tamanho pagam volumes bem diferentes de tributos. Faremos uma investigação mais intensa nesses contribuintes e alguns setores na Receita vão planejar as ações.

FOLHA - ESSAS AÇÕES TAMBÉM SERÃO FEITAS COM OUTROS ÓRGÃOS DO GOVERNO?

SOARES - Sim. O Estado desorganizado não consegue enfrentar o crime organizado. Vamos melhorar nossa comunicação com os contribuintes, mostrar o que estamos fazendo, divulgar mais nosso trabalho.

FOLHA - O QUE PODEMOS ESPERAR DA RECEITA EM SÃO PAULO NA QUESTÃO DE FISCALIZAÇÃO DE CONTRIBUINTES?

SOARES - Vamos operar de forma integrada com outros Estados, aperfeiçoar o que já existe e fazer mais rodízio de funcionários nas aduanas. É bom para o próprio funcionário. Queremos aumentar o trabalho em equipe. Nossa ação é feita com base no gerenciamento de risco, trabalhamos com amostragens, porque não é possível fiscalizar tudo o que entra no país. Vamos mostrar que ninguém é intocável para a Receita.

FOLHA - FISCAIS FECHAM UM SHOPPING HOJE E ELE REABRE AMANHÃ. EMPRESÁRIOS E ADVOGADOS DIZEM QUE ISSO É REFLEXO DA ALTA CARGA TRIBUTÁRIA...

SOARES - A formulação da política tributária é do governo. A tarefa da Receita é ajudar na elaboração dessa política, cuidar de arrecadar os recursos e combater a sonegação, o descaminho e a corrupção. Precisamos aperfeiçoar os estudos para combater a informalidade, que é imensa no Brasil.

FOLHA - A FISCALIZAÇÃO FICARÁ CONCENTRADA EM SHOPPINGS POPULARES OU SE ESTENDERÁ A OUTROS SETORES?

SOARES - Não ficará e não está só em cima do comércio popular. Na operação "Anúbis", a fiscalização chegou a um galpão de 5.000 metros quadrados com R$ 15 milhões em mercadorias. Não sabemos se esses produtos iriam só para o comércio popular. A inteligência da Receita está trabalhando para identificar quem traz e quem compra esses produtos. O foco da Receita não é e não será somente os shoppings populares.

FOLHA - QUANDO O SR. EXAMINA SEU CONTRACHEQUE E VÊ O DESCONTO DO IR NO SEU SALÁRIO, O QUE O SR. PENSA?

SOARES - Estou na Receita desde dezembro de 1977, então a minha visão de mundo muda. Estou pagando civilização. Mas seria mais desejável que não tivesse de pagar o mesmo tributo que paga um multimilionário ou um grande empresário. O imposto é desigual para o pobre e para o rico; há estudos que mostram isso. Estamos dispostos a discutir essa questão e vamos chamar acadêmicos e representantes da sociedade para apresentar propostas. Defendo mudança nas alíquotas do IR.

FOLHA - O SR. CONHECEU A ADUANA NOS EUA, ONDE MOROU POR SEIS MESES. QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS DO TRABALHO LÁ EM RELAÇÃO AO DO BRASIL?

SOARES - A economia e a cultura dos Estados Unidos são diferentes das do Brasil. O americano tem acesso a qualquer produto na loja da esquina com imposto barato, um fator de desestímulo ao contrabando. Mas a hora em que você tem um produto com grande diferença de preço, fica mais interessante o contrabando. Nos EUA, quem for pego com contrabando vai preso, a pessoa é condenada socialmente. No Brasil, há certa tolerância com a sonegação e o contrabando. Se pago o que devo para o fisco, estou livre.

FOLHA - O SR. VEIO DO MEIO SINDICAL E PARECE ESTAR PREOCUPADO COM A VALORIZAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS...

SOARES - De fato, não temos como premiar bons funcionários, e isso é ruim. Temos dificuldade para recrutar pessoas. Estou com essa dificuldade em São Paulo. Oferecemos pouco para quem será um administrador e terá responsabilidades”.

DESVANTAGEM DO BRASIL PODE VIRAR VANTAGEM NA CRISE

Li ontem o seguinte texto de Érica Fraga no jornal “Folha de São Paulo”. Érica Fraga é editora de América Latina da consultoria britânica Economist Intelligence Unit:

POR TER CRESCIDO MENOS QUE OUTROS BRICS E SER MAIS FECHADO, PAÍS DEVE GANHAR COM AGRAVAMENTO DA SITUAÇÃO EXTERNA

SISTEMA FINANCEIRO DO PAÍS É MAIS SÓLIDO QUE O DE CHINA, RÚSSIA E ÍNDIA; PERIGO MAIOR ESTÁ NUMA QUEDA BRUSCA NO PREÇO DAS COMMODITIES


O agravamento da crise financeira global nas últimas semanas enterrou de vez a tese de que as chamadas economias emergentes, como a brasileira, poderiam ter se descolado ("decoupled", em inglês) daquelas dos países desenvolvidos e, com isso, estariam quase imunes ao furacão que se aproximava. Mas é fato que a maioria dos emergentes está menos vulnerável hoje do que há uma década. E o Brasil, que nos últimos anos de bonança sempre foi considerado o patinho feio dos Brics (expressão cunhada pelo Goldman Sachs em 2003 em referência às grandes economias "do futuro": Brasil, Rússia, Índia e China), pode ter uma história melhor para contar nestes tempos difíceis.

O fato de que a economia brasileira ainda é bastante fechada contribuiu para que o país crescesse de forma bem menos exuberante do que Rússia, Índia e China em anos recentes.

Mas agora o que era desvantagem virou seguro: o país pode acabar suportando melhor os efeitos negativos da crise do que os "Rics", desde que não haja um colapso nos preços das commodities.

Embora os problemas que levaram à crise atual tenham sido gerados no mundo desenvolvido, vão continuar afetando os emergentes por dois canais: o da economia real e o dos mercados financeiros. O principal dado que já depunha contra a tese do descolamento se refere ao peso que os países desenvolvidos ainda têm na demanda global. Juntos, Estados Unidos e Europa Ocidental representam mais da metade (52%) do consumo privado mundial.

É verdade que as fatias representadas por China, Brasil, Índia, Rússia e outros vêm aumentando. Mas não o suficiente para evitar que uma brutal desaceleração da demanda por bens e serviços por parte dos países desenvolvidos fosse pouco sentida no mundo emergente. E esse impacto negativo tende a ser ainda maior porque o peso das exportações no PIB dos países emergentes aumentou sem parar nas últimas décadas: passando de 26% em 1990 para quase 44% em 2007.

Ou seja, o crescimento nos países emergentes se tornou muito dependente da performance de suas exportações. E, agora, os mercados que costumavam absorver boa parte dessas exportações caminham para a recessão: vão consumir menos, importar menos, quem vendia para eles vai crescer menos.

O Brasil obviamente não está imune, descolado, dessa tendência, mas é menos vulnerável que a maioria dos seus pares à forte desaceleração da demanda privada dos países ricos. Isso porque enquanto as exportações têm um peso de mais de 40% no PIB da média dos emergentes (41% na China, 31% na Rússia, 21% na Índia), no Brasil representam apenas 14%. Embora esse percentual seja bem maior que os cerca de 7% registrados em 1995-98, ainda caracteriza uma economia bastante fechada, menos vulnerável a choques como o que vem pela frente, principalmente se a desaceleração econômica no mundo desenvolvido for ainda pior do que se espera hoje. Um risco que, dada a forte turbulência nos mercados globais nas últimas semanas, não é nada desprezível.

Isso não quer dizer que o Brasil deva se orgulhar de ter uma economia ainda bastante fechada (na qual o peso de exportações e importações no PIB é relativamente baixo).
Graus maiores de abertura tendem a vir acompanhados de maior concorrência e ganhos de produtividade que beneficiam os consumidores e tornam a economia mais eficiente.

O fato de que o Brasil parece seguir rumo a uma maior abertura da economia é positivo, ainda que, neste momento, a menor importância relativa das exportações para o crescimento econômico ajude a amortecer os efeitos negativos da crise externa.
Mas há outros indicadores que podem fazer o Brasil menos vulnerável aos desdobramentos da crise atual, esses, sim, positivos "per se". De forma geral, os indicadores que medem a solidez do sistema financeiro brasileiro-o outro canal pelo qual a turbulência externa continuará se propagando- são melhores que os dos outros três Brics. Os bancos brasileiros possuem altos níveis de solvência e liquidez e o regime de supervisão do setor é eficiente.

Diferentemente da China, o risco de grandes colapsos no sistema financeiro brasileiro é relativamente pequeno. Ao contrário do que ocorre em China e Índia, não existem bolhas significativas nos preços de ativos (como casas) no Brasil. O nível de inadimplência em empréstimos bancários na China (próximo de 6%) é pouco menos do que o dobro da média registrada no Brasil e quase certamente é subestimado.

Além disso, inflação no Brasil preocupa, mas bem menos que na Rússia e na Índia. Na verdade, talvez o risco maior para o Brasil nessa área seja que um excesso de cautela por parte do Banco Central leve a uma desaceleração excessiva da demanda doméstica.

O perigo de desvalorização muito forte do real é bem menor que o da moeda russa (o rublo), que está bastante sobrevalorizada. As empresas russas contraíram crédito em moeda estrangeira de forma excessiva nos últimos anos. O estoque de dívida privada externa na Rússia pulou de US$ 64 bilhões em 2004 para quase US$ 300 bilhões neste ano, o que representa um risco grande de possível dificuldade de rolagem neste momento de forte retração do crédito.

RISCO

Tudo isso quer dizer que o Brasil está blindado contra a crise? Certamente, não. Se os preços de commodities, por exemplo, desabarem, o país será um dos mais negativamente afetados, dado o alto peso das mesmas (por volta de 50%) na pauta de exportação brasileira.

Mas esse risco ainda parece ser relativamente pequeno. Fatores estruturais que sustentam os preços nos altos níveis atuais (como muito mais gente consumindo mais comida na Ásia) dificilmente desaparecerão.

Tampouco os dados que fazem com que o Brasil esteja menos sensível que outros emergentes a riscos associados à crise atual querem dizer que o potencial de crescimento de longo prazo do país seja melhor que os dos demais. Isso vai depender de muitos outros fatores, como progresso na área de educação e reformas estruturais. Mas os dados, sim, chamam atenção para o fato de que o Brasil não é mais (talvez nunca tenha sido) o pior dos Brics”.

RECESSÃO NOS EUA PODE "BATER NO BRASIL", DIZ LULA

Mas, para ele, país está mais preparado contra crise

Li no jornal Folha de São Paulo a seguinte matéria de Fábio Amato produzida pela Agência Folha, em São José dos Campos

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que uma eventual recessão da economia dos EUA "vai bater em todo mundo, da China ao Brasil".

O presidente afirmou que conversa todos os dias com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre a crise financeira. Disse que seus efeitos precisam ser acompanhados "com lupa".

Segundo ele, porém, o Brasil agora está preparado para enfrentar a crise, diferentemente de experiências anteriores, em que "o país entrava em coma". Apontou que o país tem hoje US$ 207 bilhões em reservas e conta com um mercado interno aquecido.

Lula disse ainda que o Brasil não sofreu até agora grandes efeitos da crise financeira dos EUA porque a economia "não depende mais" das exportações feitas para os americanos.

"Quando entramos, era de quase 30% [a participação dos EUA nas exportações]. Agora, é só 14,5%. Aumentamos as nossas exportações para a América do Sul, a América Latina, a África e a Ásia", disse Lula em São José dos Campos”.

CRISE: ENTREVISTA COM HENRIQUE MEIRELLES, PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

BRASIL ESTÁ FORTE, MAS DEVE PASSAR POR ACOMODAÇÃO

Presidente do BC diz que intervenções no câmbio e na liquidez dos bancos podem voltar a ocorrer e defende que relação dívida/PIB siga trajetória cadente

Li no jornal Folha de São Paulo de domingo a seguinte reportagem de Sérgio Malbergier, editor de DINHEIRO, e Valdo Cruz:

“Na pior semana até aqui na crise financeira dos EUA, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, comandou duas intervenções no mercado brasileiro: injetou liquidez para socorrer bancos médios e vendeu dólares para conter a alta da moeda americana.

Ele diz que as intervenções não têm ligação com a política monetária, foram "adequadas", e podem voltar a ocorrer. "Não devemos confundir isso [política monetária] com a gestão de liquidez", afirma.

Para Meirelles, o ponto mais fraco do país, neste momento, é a falta de liquidez causada pela brutal contração do mercado de crédito global.

Mas repete seu mantra de que o Brasil está muito mais forte para enfrentar a crise externa. Admite, porém, que a economia do país passará por processo de "acomodação da atividade", eufemismo para prever um crescimento menor em 2009.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida por telefone, na sexta-feira.

FOLHA - NESTA SEMANA, O BC INJETOU REAIS NA ECONOMIA COM A REDUÇÃO DOS DEPÓSITOS COMPULSÓRIOS E VOLTOU A VENDER US$ 500 MILHÕES. A CRISE CHEGOU COM MAIS FORÇA?

HENRIQUE MEIRELLES - A crise financeira, pela primeira vez nos anos recentes centrada nos Estados Unidos e não nos mercados emergentes, é de fato severa. E tem tido repercussão sobre a disponibilidade de crédito e as condições de liquidez em diversas economias. O Brasil, por estar inserido nas correntes financeiras internacionais, não está totalmente isolado desse desenvolvimento. Entretanto, cabe notar que, com as políticas adotadas nos últimos anos, com o aumento das reservas internacionais e a eliminação da dívida interna dolarizada, foi reduzida substancialmente a nossa vulnerabilidade a esses períodos de estresse.

FOLHA - E AS PERDAS REGISTRADAS POR EMPRESAS COMO SADIA E ARACRUZ? HÁ RISCO DE UM CONTÁGIO MAIOR NO BRASIL, NO SETOR EXPORTADOR?

MEIRELLES - Os episódios me parecem pontuais. Essas empresas perderam em razão de estarem em posição de derivativos que geravam prejuízos com a depreciação do real. No entanto, de uma forma geral, os exportadores tendem a ser beneficiados com a queda do real.

FOLHA - OUTRAS EMPRESAS NÃO PODEM ESTAR NA MESMA SITUAÇÃO?

MEIRELLES - Algumas empresas podem ter posições em derivativos que geram prejuízos pontuais e específicos, mas não significa uma tendência.

FOLHA - QUAL A MAIOR PREOCUPAÇÃO DO BC: A INFLAÇÃO, A TAXA DE CÂMBIO OU A SOLIDEZ DO SISTEMA BANCÁRIO?

MEIRELLES - O Banco Central tem como missão fundamental manter a inflação consistente com a trajetória de metas e manter a solidez do sistema financeiro nacional. Ambas são prioridades.

FOLHA - QUAL ESTÁ MAIS AMEAÇADA?

MEIRELLES - A solidez do sistema financeiro brasileiro não está ameaçada por uma restrição de liquidez. Ela existe em razão dos fundamentos do sistema, que está bem capitalizado. As perdas de crédito, de acordo com os indicadores, não mostram avanços significativos, portanto é uma situação completamente diferente da dos EUA, em que existem prejuízos substanciais no sistema. O que existe é uma restrição de liquidez no Brasil, como no mundo todo, em razão da crise do sistema bancário americano, uma redução da liquidez das linhas externas em dólares. E o Banco Central está tomando medidas para fazer com que as condições de liquidez voltem à normalidade, seja em dólares ou em reais. Quanto à inflação, o Banco Central tem como meta trazê-la para 4,5% em 2009.

FOLHA - AS ÚLTIMAS MEDIDAS DO BC INDICAM MUDANÇA NA AVALIAÇÃO DO CENÁRIO ECONÔMICO CAPAZ DE ALTERAR O RITMO DA POLÍTICA MONETÁRIA?

MEIRELLES - Existe uma evolução na condução da política monetária, cambial e de gestão de liquidez no mundo de maneira a diferenciar os diversos instrumentos e suas finalidades. Política monetária visa controlar a inflação com seu instrumento fundamental que é a taxa de juros base. Não devemos confundir isso com a gestão de liquidez.

FOLHA - MAS A CRISE NO BRASIL ATINGIU BANCOS PEQUENOS, POR EXEMPLO. AS MEDIDAS ADOTADAS SÃO SUFICIENTES PARA QUE ELES VOLTEM A CAPTAR RECURSOS NO MERCADO A CUSTO RAZOÁVEL?

MEIRELLES - Nós tomamos medidas de liquidez em dólares em razão da restrição da oferta de linhas de crédito em dólares.
E em reais em virtude de ser o real a contrapartida dessas operações em dólares. Dentro da nossa avaliação, as medidas são adequadas, mas estaremos sempre monitorando os mercados e preparados para tomar qualquer medida para manter o bom funcionamento.

FOLHA - O SR. ACHA QUE O PAÍS VAI CRESCER MENOS EM 2009?

MEIRELLES - É natural que, num contexto de desaceleração do crescimento mundial, a economia brasileira passe também por alguma acomodação da atividade. No entanto, temos que apontar que as políticas da redução da vulnerabilidade a choques externos têm tido êxito. Em outras palavras, embora pouco sincronizado, nosso ciclo não é totalmente independente do das economias maduras. Isso não significa que devemos esperar uma interrupção da expansão da economia em função dos eventos externos.

FOLHA - MAS UMA REDUÇÃO DE RITMO É ESPERADA?

MEIRELLES - Uma acomodação é natural.

FOLHA - ISSO AJUDA O BANCO CENTRAL NO COMBATE À INFLAÇÃO?

MEIRELLES - Na reunião do Copom levamos em conta uma série de fatores, inclusive esse.

FOLHA - QUAL SERIA O NOSSO PONTO FRÁGIL HOJE?

MEIRELLES - Olha, hoje o maior ponto de atenção não só do Brasil como de todos os países são as condições de liquidez do sistema financeiro internacional. Por isso, estamos atentos, tomando medidas necessárias, mas felizmente nossos fundamentos da economia estão sólidos e temos reservas internacionais elevadas.

FOLHA - O QUE O GOVERNO BRASILEIRO PODE FAZER PARA CONTORNAR AS RESTRIÇÕES DE CRÉDITO EXTERNO?

MEIRELLES - Vai depender dos termos desse plano de recuperação de ativos do governo americano. É um pouco prematuro. À medida que esse plano funcione, a retomada do crédito internacional pode ser gradual e acontecer em maior ou menor velocidade. O Brasil está em condições extremamente favoráveis e com isso pode ter conseqüências menores do que outros países, principalmente porque o mercado interno está forte. Agora, evidentemente, ninguém está imune, não se trata de minimizar uma crise internacional que é severa.

FOLHA - O SR. ACHA QUE O GOVERNO DEVERIA REDUZIR GASTOS?

MEIRELLES - É importante, não há dúvida, que o superávit primário [economia do governo para pagar juros da dívida pública] seja mantido, e as metas sejam cumpridas, de maneira que a relação de dívida pública sobre produto siga cadente.

FOLHA - O SR. ESTEVE EM NOVA YORK NA SEMANA PASSADA E VEM CONVERSANDO COM OS PRESIDENTES DOS PRINCIPAIS BCS DO MUNDO. O QUE O SR. TEM OUVIDO DELES?

MEIRELLES - São avaliações diferentes, dependendo de cada país. Uma das coisas que temos mencionado é que não se faz política monetária por analogia. Cada país está fazendo sua política monetária ou de gestão de liquidez de acordo com suas questões específicas.

FOLHA - ONDE ESSA CRISE VAI PARAR? QUEM FALHOU?

MEIRELLES - Hoje, em retrospectiva, vê-se que medidas prudenciais poderiam ter sido adotadas e certamente serão adotadas no futuro visando evitar o grau de endividamento excessivo e de exposição excessivo de instituições financeiras. Não existe instituição financeira invulnerável. Por maior e mais poderosa que seja. Gestões prudenciais são sempre absolutamente necessárias para manter a saúde dessas instituições.

Não há dúvida de que o sistema americano estava desequilibrado e que seria necessário um ajuste. Sua dimensão e severidade não eram previstas”.

NYT: WALL STREET DESCANSE EM PAZ. O FIM DE UMA ERA

Li no portal UOL, em tradução de George El Khouri Andolfato, o seguinte artigo de Julie Creswell e Ben White para o jornal The New York Times:

“Wall Street. Duas palavras simples que, assim como Hollywood e Washington, conjuram um mundo.

Um mundo de grandes egos. Um mundo onde pessoas adoram apostar com dinheiro emprestado. Um mundo de negócios realizados na corda-bamba, impulsionados por computadores.

Em busca de retornos cada vez maiores -e iates maiores, carros mais rápidos e coleções de arte mais caras para seus altos executivos- as firmas de Wall Street reforçaram suas mesas de negociação e contrataram gênios da física quântica para desenvolver programas à prova de falhas.

Os fundos hedge colocavam os mercadores no vermelho (a alta da coroa dinamarquesa) ou no preto (a queda do PIB da Tailândia). E firmas de private equity reuniam fundos gigantes e saíam em uma onda de compras, adquirindo empresas como se fossem uma segunda esposa comprando sapatos Jimmy Choo em liquidação.

Este mundo está em grande parte chegando ao fim.

O imenso pacote de resgate que está sendo debatido no Congresso poderá ter sucesso em estabilizar os mercados financeiros. Mas é tarde demais para ajudar firmas como Bear Stearns e Lehman Brothers, que já desapareceram. O Merrill Lynch, cujo touro de sua marca registrada simbolizava Wall Street para muitos americanos, está sendo absorvido pelo Bank of America, localizado a centenas de quilômetros de Nova York, em Charlotte, Carolina do Norte.

Para a maioria dos financistas que permanecem, com a exceção de alguns poucos superastros, os dias de dinheiro fácil e bônus gigantes são coisa do passado. O boom do crédito que levou ao crescimento explosivo de Wall Street secou. Os reguladores que ficaram de lado por muito tempo agora estão ávidos para refrear os bad boys de Wall Street e as práticas que se proliferaram nos últimos anos.

"Os dias aventureiros nos negócios das firmas de Wall Street, basicamente transformando a si mesmas em fundos hedge gigantes, acabaram. A verdade é que não eram tão bons", disse Andrew Kessler, um ex-administrador de fundo hedge. "Você não mais verá pessoal de nível médio ganhando um número de sete dígitos ou múltiplos números de sete dígitos que ninguém conseguia entender exatamente como conseguiram aquilo."

O início do fim é sentido mesmo nos corredores do elitista e conservador Goldman Sachs, que, entre seus pares de Wall Street, resumia e definia a cultura de alto risco, alto retorno.

O Goldman é uma firma que as outras firmas de Wall Street adoram odiar. Ele conta com alguns dos maiores fundos hedge e de private equity do mundo. Seus banqueiros de investimento são os mais inteligentes. Seus corretores, os melhores. São eles que ganham mais dinheiro em Wall Street, dando à firma o apelido de Goldmine (mina de ouro) Sachs. (Seus 30.522 funcionários ganharam em média US$ 600 mil no ano passado -uma média que inclui tanto secretárias quanto corretores.)

Apesar dos executivos de outras firmas torcerem secretamente para que o Goldman cometesse pelo menos um grande erro, ao mesmo tempo eles se esforçavam ao máximo para copiá-la.

Apesar do Goldman permanecer excelente na prestação de consultoria para fusões e na intermediação do lançamento de ações no mercado, o que ele faz melhor do que qualquer outra firma de Wall Street é negociar bens mobiliários. Isso envolve o uso de seus próprios fundos, assim como uma pilha de dinheiro emprestado, para fazer grandes apostas globais.

Outras firmas tentaram seguir seu exemplo, acumulando risco e mais risco, na tentativa de capturar uma pitada da mágica do Goldman e de seus lucros estelares trimestre após trimestre.

Ninguém chegou perto.

Enquanto a crise de crédito tomava Wall Street ao longo do ano passado, levando o Merrill, Citigroup e Lehman Brothers a sofrerem prejuízos pesados em grandes apostas em ativos ligados a hipotecas, o Goldman continuava navegando sem grandes problemas.

Em 2007, no mesmo ano em que o Citigroup e o Merrill demitiram seus presidentes-executivos, o Goldman registrou receita e lucros recordes e pagou a seu chefe, Lloyd C. Blankfein, US$ 68,7 milhões -o maior valor pago a um presidente-executivo de Wall Street.

Mas até mesmo o menino de ouro de Wall Street não conseguiu suportar a turbulência que sacudiu o sistema financeiro nas últimas semanas. Após os problemas no Lehman e no American International Group (AIG), e do Merrill ter acertado às pressas sua compra pelo Bank of America há duas semanas, as ações do Goldman sofreram um golpe.

A crise do AIG foi particularmente problemática. O Goldman era o maior parceiro de negócios do AIG, segundo várias pessoas ligadas à seguradora, que pediram anonimato por causa dos acordos de confidencialidade. O Goldman assegurou aos investidores que sua exposição ao AIG era imaterial, mas clientes e investidores nervosos abandonaram a firma, temerosos de que os bancos de investimento -mesmo um tão estimado quanto o Goldman- poderiam não sobreviver.

"O que aconteceu confirmou meu sentimento de que o Goldman Sachs, independente de quão bom fosse, não estava imune à sorte", disse John H. Gutfreund, o ex-presidente-executivo do Salomon Brothers.

Assim, no último fim de semana, diante de poucas opções, o Goldman Sachs engoliu a pílula amarga e se transformou, entre todas as coisas, em algo simples e ordinário: um banco de depósitos.

A ação não significa que o Goldman dará, tão cedo, torradeiras como brinde pela abertura de uma conta em uma agência em Wichita. Mas a mudança é um ataque à cultura do Goldman e ao âmago de seus lucros excepcionais nos últimos anos.

Nem todos acham que a máquina de fazer dinheiro do Goldman ficará totalmente restrita. Na semana passada, o Oráculo de Omaha, Warren E. Buffett, fez um investimento de US$ 5 bilhões no banco, e o Goldman levantou outros US$ 5 bilhões em uma oferta separada de ações.

Ainda assim, dizem muitas pessoas, diante de mudanças tão amplas, o Goldman Sachs poderá perder o que o tornava tão especial. Mas, até aí, poucas coisas permanecerão as mesmas em Wall Street”.

LULA ANUNCIA 14 NOVAS UNIVERSIDADES FEDERAIS EM 2009

Li ontem no blog “Por um novo Brasil”, de Jussara Seixas, o seguinte texto publicado no jornal “O Estado de São Paulo”:

Presidente discursou para 10 mil pessoas durante evento em São José dos Campos, no interior do Estado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na tarde deste sábado em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, no interior do Estado. Lula discursou para um público de 10 mil pessoas durante a campanha do deputado estadual Carlinhos Almeida (PT) a prefeito da cidade.

Abastecido com números sobre a educação no País - como o de 535 mil estudantes nas faculdades pelo ProUni - Lula dedicou a maior do tempo de um discurso de 33 minutos ao programa do governo que estimula as pessoas a cursarem faculdades e escolas técnicas.

O presidente criticou os tucanos e a gestão do PSDB na presidência, quando foi tirada a responsabilidade do governo federal de cuidar das escolas técnicas. "Nós revogamos essa lei. E por que eu, que não tenho diploma universitário, estou fazendo pelo Brasil o que os doutores fizeram?".

Lula ainda defendeu que o "pobre tem o direito de estar nas universidades federais", anunciando a criação de 14 novas unidades federais para o ano que vem. "Quando eu assumi eram 113 mil universitários nas faculdades federais. No ano que vem serão 227 mil. O pobre tem o direito de virar doutor", afirmou.

Ele enfatizou ainda a formação universitária da mulher, dizendo que "a mulher formada conquista algo sagrado, que é a independência".

A FARSA DAS CPIs

Li no blog “Por um novo Brasil” o seguinte texto de Jussara Seixas que bem caracteriza o comportamento da oposição, e da mídia que a pauta, durante os seis anos do governo Lula:

“O DEM o PSDB são os dois partidos da oposição, que querem CPI até para a cor da meia que presidente Lula está usando. Para desgastar o governo, eles ganham holofotes, entrevistas na mídia, armam um circo que parece hospício. Tem senador, como o Arthur Virgílio, que ameaça dar uma surra no presidente, copiado pelo deputado ACM Neto, que também diz que vai bater no presidente Lula. Tem ex-senadora que dá cadeirada, tapas, que grita histéricamente, como a Heloisa Helena. Isso tudo patrocinado pelo dinheiro do contribuinte.

Ocupam-se tanto com isso que deixam de criar leis, de aprovar projetos que beneficiariam todos os brasileiros. E ainda reclamam das MP que o presidente Lula envia para o Congresso, por conta dessa irresponsabilidade, desse desleixo dos parlamentares para com suas obrigações.

O presidente Lula não vai parar o país, prejudicar o povo, por conta desses trastes. Faz o que tem fazer, trata de beneficiar o povo e o país por meio de decretos e MPs. Mas quando os membros da oposição cometem atos ilícitos, roubalheiras, maracutaias, não deixam criar CPIs para que haja investigações.

E assumem que criam CPIs para ter os holofotes da mídia.

Leiam o que diz o líder do DEM na Câmara Municipal de SP. Está na Folha de São Paulo de hoje, 28/09.

LÍDER DO DEM DIZ QUE CPI É "FAZ-DE-CONTA"

Líder dos Democratas na Câmara Municipal, o vereador Carlos Apolinário afirma que nunca propôs uma Comissão Parlamentar de Inquérito e raramente assinou alguma, pois diz não acreditar que seus colegas possam conduzir investigações sérias contra o Executivo. "CPI é um faz-de-conta. É palanque político para a oposição em todas as gestões."

Entenderam? Não é preciso desenhar. O líder do DEM afirma com todas as letras qual é a principal função das CPIs por eles criadas”.

BUSH QUER SOCORRER BANCOS, MAS NÃO VÍTIMAS DA CRISE, DIZ LULA

Li ontem no UOL o seguinte texto de Clarissa Oliveira, de O Estado de S. Paulo:

PRESIDENTE DIZ QUE PACOTE APRESENTADO PELO AMERICANO SOCORRE BANCOS E NÃO 'OS POBRES QUE PERDERAM AS CASAS'

OSASCO - Pela segunda vez no mesmo dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso crítico em relação à forma como o governo norte-americano tem administrado a crise financeira que estourou no país. Em Osasco, ao reforçar a campanha do prefeito Emídio de Souza (PT) à reeleição, o presidente disse que a polêmica que se formou em torno do pacote de socorro proposto pelo presidente George W. Bush é resultado da decisão do governo local de socorrer os bancos e não a população mais pobre prejudicada pela crise.

"Qual é a briga? É que ele só quer ajudar os bancos e não quer ajudar os pobres que perderam suas casas", afirmou Lula, que algumas horas antes já havia cobrado do governo Bush que assuma a responsabilidade pela crise e não deixe que ela se espalhe pelo resto do mundo. "Por que dar US$ 700 bilhões para os bancos e não dar o dinheiro para os coitados que perderam suas casas?", indagou.

No discurso, Lula voltou a dizer que a crise é resultado da decisão do mercado financeiro norte-americano de apostar na especulação imobiliária. "O sistema financeiro, em vez de aplicar dinheiro em coisas que pudessem gerar novos empregos, resolveu especular no setor imobiliário", afirmou.

Ele voltou a afirmar que seu governo conseguiu proteger o País das crises internacionais. Se a crise norte-americana ocorresse em outra época, disse ele, o Brasil já teria quebrado. "Sabe por que nós não quebramos? Porque eu aprendi uma lição dentro de casa", afirmou o presidente, acrescentando que não aprendeu teorias econômicas na universidade, mas sabe o que é ter que administrar o orçamento doméstico sem a certeza de que sobrará algo no final do mês.

Outro passo que ajudou a proteger a economia, disse o presidente, foi a diversificação das exportações. Antes, segundo ele, 30% das exportações brasileiras tinham como destino os Estados Unidos, número que agora está na casa de 15%. "Nós não podemos ficar comprometidos com um único país. Porque, se tiver uma crise naquele país, a gente quebra."

No embalo, Lula voltou a citar o fim da dívida com o Fundo Monetário Internacional, tema que há algum tempo não aparecia em seus discursos. "Eu sabia que o Brasil não poderia continuar com US$ 30 bilhões devendo para o FMI. Hoje, não devemos um centavo e o FMI não dá palpite aqui. Agora, quem decide nossas políticas econômicas somos nós."

domingo, 28 de setembro de 2008

CENTENÁRIO DA MORTE DE MACHADO DE ASSIS

Para relembrar o maior escritor brasileiro, escolhi o seguinte texto de Daniel Piza no jornal “O Estado de São Paulo” de ontem:

LEIA 'BONS DIAS!', CRÔNICA DE DANIEL PIZA PARA MACHADO DE ASSIS

Bons dias!

Não há eleição, não há crise nas bolsas, não há nada nestes dias que possa chamar mais atenção do que o centenário de morte de Machado de Assis. Quando eu era adolescente, ouvia das pessoas que os clássicos são chatos; logo, Machado de Assis, sendo clássico, era um chato. Mas agora ouço de muitas delas que redescobriram o mestre, que relendo suas obras sem os antolhos escolares o que saltou foi seu estilo, seu humor, sua filosofia. O Bruxo do Cosme Velho em pessoa não se furtaria a notar a ironia da cena: comemoram-se cem anos de sua morte, não de sua vida. Para um homem que no final da existência esperava a morte como um livramento, nada mais apropriado. Hoje são seus leitores que estão livres para ler seus livros, nos quais a morte é tão presente.

Muitas efemérides são tristes como os aniversários. Tristes?, perguntará o leitor. Sim, tristes. Porque em todos os aniversários há aquela obrigação de dar festa e chamar amigos e familiares, mesmo os amigos que já não são tão familiares e os familiares que nunca foram amigos. Já quem decide não dar festa causa toda sorte de especulação: "Ah, mas ele não parece bem mesmo, faz muito tempo que ando percebendo isso". O leitor perdoe a digressão, mas pode pôr a culpa no próprio Machado. O que eu queria dizer é que este seu aniversário não tem nada de triste, apesar de tantas meias-verdades ainda ditas e escritas sobre ele; não tem nada de triste porque é um aniversário em que o aniversariante é quem dá os presentes - os seus textos, que tantas e tantas pessoas andam lendo e relendo. Pode ver como se lançaram mais reedições deles do que edições sobre ele.

Ninguém, afinal, sabia o que ele era quando escrevia. Machado seguramente escrevia melhor do que falava. Falar, sobretudo falar em público, é uma espécie de riacho, cheio de pedras e desvios, por onde a idéia corre com dificuldade. Escrevendo, Machado era profundo e amplo como o mar; suas idéias iam e vinham com a elevação das marés. Parece que há cada vez mais gente se banhando nessas águas, e isso é bom. Mesmo que tenha sido um crítico da religião, a tal ponto que recusou padre no leito de morte, Machado batizou a língua brasileira, e com seus Bentos e Cubas e Quincas criou um espelho onde os brasileiros podem enxergar a si próprios.

Outro dia, porém, dobrando uma esquina, vi dois pombos conversando sobre a data machadiana. Conheço bem os arrulhos dessas criaturas urbanas, alimentadas a migalhas de pão que algum mendigo atira ao chão sujo da praça, o que as deixou acostumadas ao ioiô emocional dos humanos, ora tão piedosos, ora tão mesquinhos. Fiquei inclinado e escutei:

- Eles falam do Machado como se comessem migalhas - disse o da esquerda.

- Como assim? - perguntou o da direita.

- Eles só leram um livro ou outro, ou no máximo algum conto, e vivem citando as mesmas frases, como "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria" ou "Matamos o tempo; o tempo nos enterra". Nem se dão conta de que as frases são do Brás Cubas, não do Machado...


- É verdade. Eles ainda acham que ele é o Machadinho, o escritor tímido que não participava de controvérsia, o sujeito frágil que ficava em casa o dia inteiro tomando remédio e escrevendo sobre a vida que não vivia...

- Aí fazem essa festa toda, como se fosse um gesto de patriotismo!

O pombo da esquerda entrou num bueiro e deu algumas bicadas:

- Ele gostava de catar o mínimo e o escondido, de enfiar o nariz onde ninguém enfiava. Mas todo mundo finge que ele era bonzinho, que escrevia bonitinho. É o Machado em diminutivo, apequenado como convém aos homens e aos gafanhotos. Mal sabem eles como é difícil não ser convencional.

O pombo da direita corre de um menino que tenta pisá-lo:

- E ele criticava o brasileiro, que "nasceu com a bossa da ilegalidade"... Morreria de rir dessa politicalha de hoje. E morreria de chorar ao ver como está o seu Rio de Janeiro.

- Pelo menos teria um blog para a gente ler, pois o homem gostava de uma conversa textual, de prosear ausente. Certamente não seriam migalhas. Machado era um banquete, não tinha tempo para esmolas. E ele criticava o ser humano em geral, não só o brasileiro.

- "Qualquer um de nós teria organizado o mundo melhor do que saiu."

- Essa é boa! Ei, cuidado!

Os dois pombos saíram voando quando uma bicicleta passou e foram conversar num fio lá no alto. Segui meu caminho, meditando sobre aquela estranha conversa. Os pombos tinham razão: Machado pode estar sendo celebrado e lido como nunca antes, mas não combina com essa visão de mundo ingênua e otimista que domina a cena hoje em dia. Saber que 70% dos brasileiros acham que as escolas são boas o deixaria entre a galhofa e a melancolia. Essas mesmas escolas que ensinam que os clássicos são chatos e que Machado de Assis deve ser lido como uma modalidade de dever cívico. Mas, tudo bem, os adjetivos passam e os substantivos ficam. Machado é substantivo.

Boas noites!”

PRIMEIRO SUBMARINO NUCLEAR VAI SER FEITO NO RIO ATÉ 2021

O Jornal do Brasil de ontem publicou:

DEFESA DA COSTA BRASILEIRA GANHOU MAIS IMPORTÂNCIA COM O PRÉ-SAL

O primeiro submarino nuclear brasileiro deverá estar pronto até 2021. A afirmação foi feita, ontem, pelo comandante da Marinha, almirante Júlio Soares de Moura Neto. Ele antecipou que o estaleiro dedicado ao submarino deve ser construído na área de Itaguaí, Região Metropolitana do Rio.

– Queremos fazer na área da Baía de Sepetiba, que fica perto dos pólos industriais de Rio e São Paulo, da Nuclep (Nuclebrás Equipamentos Pesados S.A.), das usinas de Angra 1 e 2 e do porto de Itaguaí – disse.

Moura Neto participou, no Rio de Janeiro, da posse do almirante José Alberto Accioly Fragelli como coordenador-geral do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear.

ENRIQUECIMENTO

De acordo com Moura Neto, a primeira etapa do programa, que envolve o ciclo de enriquecimento do urânio no Centro Experimental de Aramar, em Iperó, interior de São Paulo, já está concluída. A construção de uma planta nuclear de produção de energia elétrica está em fase final.

O comandante da Marinha assinalou que quatro submarinos de propulsão convencional começarão a ser fabricados – ainda no Arsenal da Marinha, na capital fluminense – a partir do ano que vem. Ao mesmo tempo, o projeto do nuclear terá início. Segundo este cronograma, em 2014 o primeiro convencional fica pronto e o nuclear entra em fabricação na área da baía de Sepetiba. O casco será desenvolvido em conjunto com a França. O primeiro submarino nuclear brasileiro deve ficar pronto seis ou sete anos depois disto.

PRÉ-SAL

Para o almirante, as descobertas de petróleo na camada pré-sal geram maior necessidade de modernização dos equipamentos da Marinha.

– O submarino nuclear reforça a capacidade dissuasória do país diante de qualquer país do mundo – explicou. – A Marinha tem que ter capacidade de tomar conta das nossas águas. A capacidade de Defesa é o que faz que os países nos respeitem.

A construção do submarino nuclear, equipado com torpedos e mísseis, está prevista na Estratégia Nacional de Defesa, desenvolvida pelos ministros de Assuntos Estratéicos, Roberto Mangabeira Unger e da Defesa, Nelson Jobim. O custo estimado é mais que o dobro do referente a um submarino de propulsão convencional (US$ 600 milhões).

O projeto não fará parte do orçamento da Marinha para 2009 (cerca de R$ 2,7 bilhões), pois deve ser feito com financiamento externo. A Marinha espera gerar pelo menos 600 empregos diretos no país durante o processo.

Precursor do projeto, iniciado em 1979, o atual presidente da Eletronuclerar, almirante da reserva Othon Luiz Pinheiro da Silva, também esteve presente no evento. Ele avaliou que, pelo tamanho da costa brasileira, o país precisa de pelo menos seis submarinos nucleares, apesar da "vocação para a paz" do país.

– Defesa tem que ter para não usar – comentou.”

QUEM VENCEU?

O blog “Cidadania.com”, de Eduardo Guimarães, ontem publicou:

“Todos estão perguntando quem venceu o debate de sexta-feira entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos. A lógica mandaria que o candidato do partido Democrata, Barack Obama, fosse declarado vencedor por nocaute, devido às razões que enumero abaixo:

1ª – O governo do Partido Republicano, presidido por George Walker Bush, é um desastre sob qualquer ângulo que se olhe, e John McCain, aliado de Bush, endossa suas políticas e é o candidato dele à própria sucessão na presidência dos Estados Unidos.

2ª – O governo Bush é um fracasso estratégico-militar e de credibilidade porque disse que havia armas de destruição em massa no Iraque e não havia.

3ª – O governo Bush é um fracasso porque gasta 10 bilhões de dólares por mês para controlar o Iraque, um pais que, depois de invadido, descobriu-se que não representava ameaça aos EUA.

4ª – O governo Bush é um fracasso porque os EUA tiveram que se converter em babás dos grupos radicais-religiosos que se digladiam desde sempre no Iraque. Se os americanos saírem de lá, só Deus sabe o que os tais grupos fanáticos farão com o país. Saddam Hussein ao menos mantinha a ordem no Iraque.

5ª – O governo Bush é um fracasso porque governa para as camadas mais altas da sociedade americana, porque corta impostos dos ricos e não faz programas sociais para os pobres, mantendo pobreza no país mais rico do mundo, o que constitui o definitivo atestado de óbito do capitalismo.

6ª – O governo Bush é um fracasso porque, sob ele, bancos seculares quebram o tempo todo e o país entra em crise econômica, levando insegurança e medo à sociedade americana, gerando prejuízos aos ricos e piorando as vidas dos pobres.

7 – O governo Bush é um fracasso porque os EUA perderam o respeito do mundo. Quando eu era criança, os americanos eram os mocinhos. Os meninos da minha geração queriam ser americanos. Hoje, os EUA são vistos como os vilões do mundo. Foi o que Obama apontou para um McCain que fazia “cara de parede”.

Para agravar a situação de McCain, ele declarou, pouco antes de explodir de vez a crise econômica nos EUA, que “os fundamentos da economia americana” seriam “sólidos”. Só por isso Obama já deveria ser considerado vencedor antecipado da eleição.

No entanto, estamos discutindo quem venceu um debate ao qual McCain tentou não comparecer, pois sabia de sua situação delicada devido aos fracassos do governo que apóia e do qual é visto como continuidade.

Mesmo que Obama tivesse grave retardo mental, demolir McCain deveria ser como tirar doce de criança devido à situação de fragilidade do pessimamente avaliado governo Bush. Isso só não acontece porque Obama é negro e grande parte da sociedade americana é patologicamente racista, só por isso.

Mas a inclinação do Partido Democrata de arriscar disputar a eleição com um negro num país em grande parte racista me diz que alguma coisa está mudando profundamente na maior potência mundial. E deve estar mudando para melhor.

A sorte dos americanos aumentou, pois essa crise deles pode ser que compense o racismo que persiste no país.

Obama, no debate, tocou num ponto vital: disse que uma de suas principais tarefas será mudar a imagem dos EUA perante o mundo, fazer os garotos de todas as partes voltarem a ter heróis americanos. Repito porque essa é a idéia-força da candidatura de Obama.

Não sei quem venceu o debate para o conjunto do eleitorado americano porque não consigo pensar como pensa essa fatia maluca e racista daquela sociedade. Mas se vocês quiserem saber como acho que os americanos mentalmente sadios viram o debate entre Obama e McCain, acho que deram vitória para o democrata. Resta saber, porém, quantos são os americanos mentalmente sadios. “

Dos leitores

Se aqui a gente critica a visão Fla X Flu da luta política, precisa ver lá, nos comentários dos blogs. Parece torcida de luta de boxe. Muita gente decepcionada porque o Obama não desferiu um "punch" decisivo, não ganhou por knock-out no primeiro round, só desferiu alguns jabs e levou outros.

A turma do Obama e a do McCain queriam ver o rival no solo. Mais pra rinha de galos do que pra uma luta memorável como a do Cassius Clay contra o George Foreman. A mesma incompreensão do tempo de maturação da política.

Se o Obama desferisse esse golpe fatal no primeiro round-debate - e olha que o McCain provocou! - perdia a luta, a eleição, num país racista e hipócrita: sobraria a imagem do "angry black man" [negro com raiva] judiando de um "herói de guerra" de 72 anos de idade, quatro vezes atacado por um melanoma, etc. etc.

Acho que o Obama se comportou de maneira serena, não caiu nas armadilhas,e dançou no ringue como o grande bailarino Cassius Clay,sem cair. Para o knock-out tem hora, talvez no último debate, quem sabe.

Obama e McCain estão disputando a eleição para presidente dos Estados Unidos da América do Norte, não da América Latina, nem do Brasil.

Evidente que o eleito tem o compromisso fundamental de defender os interesses do seu país e de proteger os cidadãos americanos, não de defender os interesses políticos e econômicos do Brasil.

Não sou cidadã estadunidense, não voto e minha opinião é irrelevante. Mas, como cidadã do mundo, permito-me preferir o candidato Obama porque, pelo menos, parece ser uma pessoa que se pauta pela racionalidade, um homem que pensa antes de agir, que tende a pesar os vários lados de uma questão antes de decidir, não é um xenófobo, tem boa formação intelectual e uma experiência de vida transcultural.

Só isso já me leva a crer que é mais acessível ao diálogo racional e, em conseqüência, parece-me ser mais confiável em política internacional, que é o que interessa a nós e ao mundo. O resto é problema interno dos americanos, eles lá que debatam.

Vera Pereira | Rio de janeiro, RJ, Brasil | professora aposentada |“

O PETRÓLEO TEM QUE SER NOSSO

Li ontem no blog “por um sem mídia”, de Carlos Dória, o bom artigo que a seguir transcrevo, originário da Direção Nacional do MST e publicado na ADITAL, Agência de Informação Frei Tito para América Latina. A ADITAL é uma agência de notícias destinada a levar a agenda social latino-americana e caribenha à mídia internacional.

“A sociedade brasileira precisa abrir um grande debate sobre a exploração, produção e uso do petróleo encontrado na camada pré-sal. O gerenciamento dos nossos recursos naturais, como petróleo, minérios, água e a terra, deve ser controlado pelo povo e administrado a partir dos interesses nacionais.

A grandiosa descoberta do pré-sal tem potencial para a produção entre 50 e 100 bilhões de barris de petróleo. Os especialistas mais otimistas apontam a existência de mais de 300 bilhões de barris. Até então, o Brasil tinha 12 bilhões de barris em reservas de petróleo, ficando em 16º no ranking mundial.

O salto do país nessa área é do tamanho da responsabilidade dos governos, do Estado e da sociedade para garantir que o nosso petróleo contribua para o desenvolvimento nacional, com o combate à pobreza e à desigualdade social. O presidente Lula, em seu pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, no dia 7 de Setembro, fez um compromisso claro: "Os recursos das jazidas do pré-sal serão canalizados, prioritariamente, para a educação e a erradicação da pobreza. Vamos aproveitar esta grande quantidade de recursos para pagar a imensa dívida que o nosso país tem com a educação."

Esperamos que as palavras do presidente sobre o pré-sal não virem letra morta, entrando para a coleção de promessas não cumpridas pelo governo, como a Reforma Agrária. Temos o compromisso, que reafirmamos na carta final do nosso 5º Congresso Nacional, de lutar pela soberania popular e, com essa descoberta, o povo brasileiro precisa se posicionar sob o risco de perdermos mais uma das nossas riquezas.

O primeiro passo é fazermos grandes mobilizações por um novo marco regulatório para o setor. Uma das heranças malditas do governo Fernando Henrique Cardoso, a Lei do Petróleo, aprovada em 1997, aumentou a influência de empresas privadas, nacionais e estrangeiras, e colocou uma riqueza fundamental sob as regras do mercado internacional, comprometendo a soberania nacional.

Em 10 anos, o governo federal entregou mais de 500 blocos de petróleo para 72 conglomerados econômicos, sendo a metade estrangeiros. Além disso, o Brasil recebe a menor porcentagem de royalties e participações pelo petróleo. O Estado brasileiro recebe atualmente 54%, enquanto a Líbia fica com 95%; o Cazaquistão, a Nigéria, Angola, mais de 80%; e a Noruega, 78%.

Não podemos continuar com esse modelo e, somente com a mudança das regras do setor, será possível beneficiar todo o povo brasileiro com os recursos naturais do nosso país. O Fórum Nacional em Defesa do Petróleo, que reúne sindicatos, entidades e movimentos sociais, como o MST e a Via Campesina, tem propostas concretas e faz a campanha "O Petróleo tem que ser nosso".

O governo precisa interromper imediatamente os leilões dos blocos exploratórios, parar com a exportação de óleo cru, possibilitando agregar mais valor e desenvolver a indústria nacional, mudar o marco regulatório para garantir a soberania nacional e criar um fundo constitucional para vincular o investimento da renda do petróleo em educação, saúde, habitação e Reforma Agrária.

O Brasil é o oitavo maior consumidor de petróleo do mundo. Com o pré-sal, temos condição de garantir energia para o nosso desenvolvimento econômico e social a longo prazo. Precisamos pensar no futuro e construir um projeto para o nosso país. A exportação desenfreada de petróleo pode nos obrigar a voltar a importar em 20 anos e, por isso, é preciso controlar o ritmo da exploração.

A discussão sobre o petróleo não pode acontecer de forma isolada. Precisamos aproveitar a oportunidade para fazer um grande debate sobre o gerenciamento das nossas riquezas naturais e o desenvolvimento nacional.”

MENDES PRESSIONOU DE SANCTIS PARA ALIVIAR PRISÃO DE DANTAS

O jornalista Paulo Henrique Amorim, em seu blog “Conversa Afiada”, ontem publicou:

O Estadão resume, neste sábado, entrevista da Época que contém revelação estarrecedora: Gilmar Mendes pressionou o corajoso Juiz Fausto De Sanctis para que não decretasse a segunda prisão de Daniel Dantas.

Inacreditável.

Como se pede o impeachment do presidente do Supremo Tribunal Federal ?

Quem Mendes pensa que é ?

Mussolini, o Supremo Presidente, Imperador, que o Brasil é Diamantino ?

Onde já se viu um Ministro da Suprema Corte valer-se de uma desembargadora para mudar a decisão de um Juiz de primeira instância ?

Essa é a desembargadora que “ouviu vozes” nos corredores da Justiça, entre elas a do corajoso Juiz Fausto de Sanctis.

O Juiz De Sanctis reproduziria – nessas “vozes” – um áudio ilegal que teria mandado fazer contra o Supremo Presidente (e Golpista # 1) Gilmar Mendes.

Isso, segundo a Veja, cuja redação se corta por uma vala negra de onde brotou o “grampo” da Abin.

O famoso grampo que não tem áudio.

E por causa dessa “reportagem” da Veja, a última flor do Fascio, e por ordem de Mendes, a Polícia Federal coagiu, constrangeu e pressionou o corajoso Juiz De Sanctis.

Essa Polícia Federal que se deu agora a obedecer a Mendes e a proteger Dantas e não consegue decifrar os 12 HDs que o ínclito Delegado Protógenes Queiroz achou atrás da parede falsa do apartamento de Daniel Dantas.

Onde estamos, senhor Procurador Geral da República ? O senhor não vai fazer nada ?

E os outros dez ministros do Supremo – vão ficar calados ? Não cabe uma moção de ética ?

Uma vez, o PT foi ao CNJ questionar a imparcialidade (e a competência) do Ministro (?) Marco Aurélio de Mello. E, agora, o PT, que morre de medo de Mendes, vai ficar calado ?

O Conselho Nacional de Justiça (agrilhoado por Mendes) não tem nada a declarar sobre esse gesto autoritário, ditatorial de Mendes, uma intervenção ILEGAL no sistema jurídico, fora do rigor processual e da ética ?

O Senado Federal, que tem a competência de impeachar um ministro do Supremo, vai ficar calado ?

Ou os senadores súcubos vão escrever ditirambos a Mendes na página de opinião da Folha (da Tarde ) ?

Mendes, provavelmente, não gostaria de se ver no desmoralizante papel de dar dois HCs em 48 horas a Daniel Dantas.

E por isso mandou a desembargadora “enquadrar” aquele juizinho petulante da 6ª. Vara da Justiça Federal de São Paulo.

E foi isso o que acabou por acontecer: o Presidente Supremo do Supremo se desmoralizou.

E se tornou, apenas, o golpista # 1 do Golpe de “Estado de Direita”.

Leia a estarrecedora informação contida na entrevista do corajoso Juiz Fausto De Sanctis à revista Época:

“AMIGA DE MENDES PRESSIONOU CONTRA PRISÃO DE DANTAS, DIZ JUIZ

À 'ÉPOCA', DE SANCTIS AFIRMA QUE DESEMBARGADORA LHE CONTOU QUE PRESIDENTE DO STF ESTAVA 'IRADO' COM PEDIDO


“O juiz Fausto de Sanctis,da 6ª Vara federal de São Paulo, disse em entrevista à revista Época, publicada neste sábado, que foi pressionado pela desembargadora Suzana Camargo para voltar atrás no pedido de prisão preventiva do banqueiro Daniel Dantas, nos dias que se seguiram à deflagração da operação Satiagraha, da Polícia Federal.

"Ela me disse que ele ( o presidente do STF, Gilmar Mendes) estava irado com a notícia de que eu teria decretado a prisão preventiva de Daniel Dantas e gostaria de confirmar essa decisão", disse o juiz.

Segundo de Sanctis, a desembargadora começou o diálogo invocando a condição de amiga pessoal do presidente do STF e disse que Mendes estava 'irado' com o novo pedido de prisão. Ainda de acordo com o juiz, a conversa telefônica foi testemunhada por outras três pessoas.

Na entrevista, de Sanctis ainda nega ter ouvido grampos gravados ilegalmente envolvendo Gilmar Mendes. "Nunca soube da existência de grampo ilegal ou clandestino e não determinei nenhuma interceptação telefônica e telemática do ministro ou de seu gabinete", afirmou.”

FIM DE MANDATO BUSH CARACTERIZA A 'ERA PATO MANCO'

“A administração Bush vem veloz para seu fim, com a cada vez mais marcante inação presidencial evidenciando o que toda a mídia americana conservadora temia em apreciar: Bush não é um líder à altura dos Estados Unidos”.

Li no site “Vermelho”, em texto de Humberto Alencar:

“Após as controversas eleições de 2000, quando George W. Bush foi alçado à condição de presidente do Império americano pela Corte Suprema do país, ao julgar uma açao do concorrente Al Gore, que havia obtido mais votos que Bush, ninguém imaginava que o atual administrador fosse enveredar pelo caminho vacilante que marca o fim de seu mandato.

Em 2001, Bush reagiu aos ataques de 11 de setembro com alguma 'lentidão', mas o país se viu satisfeito com a resposta que sua administração deu à não provada agressão estrangeira às torres de Nova York e ao Pentágono.

O chamado à guerra foi aclamado por quase todos os americanos, quando a popularidade do presidente bateu níveis altíssimos. Mais de 90% dos habitantes do país aprovavam os clamores guerreiros de seu chefe.

Altos índices de apoio são comuns para os presidentes em tempo de guerra, mas Bush conseguiu mantê-los durante um ano após os atentados. Em novembro de 2002, Bush tinha índices de apoio mais altos do que qualquer outro presidente, desde Dwight Eisenhower.

A decisão de atacar o Afeganistão, realizada em outubro de 2001, foi-lhe comunicada ''por Deus''. É assim que Bush faz crer. O ex-primeiro ministro da Alemanha, Gerhard Schröder, declarou seguidas vezes à mídia que o presidente americano tomava decisões após ''consultas diárias a Deus''. Apesar disso, Bush nunca declarou publicamente a sua religião.

'IRAQUE NADA EM PETRÓLEO'

Alardeou a 'Guerra ao Terrorismo' e demonizou Osama bin Laden, um multimilionário árabe de uma família aliada em negócios petrolíferos dos Bush. Em março de 2003 invadiu e iniciou a ocupação do Iraque. Alegou para isso que o país árabe, dirigido pelo presidente Saddam Hussein, dava apoio logístico à al-Qaida e tinha ''armas de destruição em massa''.

A ONU não aprovou a agressão. França, Rússia e Alemanha se opuseram. Mesmo assim, as tropas da ''coalizão'' apoiada pelo britânico Blair e pelo espanhol Aznar invadiram o Iraque.

Pouco tempo depois vieram à tona os motivos sinceros da invasão. Em uma entrevista à mídia americana, o ex-vice-secretário da Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, afirmou que ''nadar em petróleo'' foi a principal razão para a ação militar no Iraque: ''A principal diferença é que no caso do Iraque, economicamente falando, nós simplesmente não tínhamos escolha. O país [Iraque] nada em um mar de petróleo''.

No âmbito da política interna, Bush realizou intervenções consideradas importantes na economia, que desembocaram na atual crise financeira. Entre as leis mais agudas que Bush fez aprovar num Congresso dominado, à época, pelos republicanos, estão vários cortes de impostos, o ato ''Nenhuma Criança Deixada para Trás'', e as reformas no sistema de saúde.

Enquanto os simpatizantes de Bush alegavam que os cortes de impostos aumentariam a ''prosperidade da recuperação da economia'' e propiciariam a ''criação de empregos'', os seus oponentes denunciaram que Bush estava criando um déficit histórico. Deu no que deu.

Veio o furacão Katrina, em agosto de 2005, assolando Nova Orleans e os estados do sudeste americano. Bush, alertado, fez pouco caso. Há vídeos na Internet provando que ele ignorou vários alertas sobre a gravidade da situação. Mais por arrogância, menos por ignorância. Mais de 1.400 moradores de Nova Orleans, principalmente negros e pobres, morreram na esteira do Katrina.

A imagem de Bush começou a contrastar. De megafone nas mãos, sobre os destroços do Word Trade Center, e à bordo do Air Force One, distante dos pobres e dos destroços que boiavam em Nova Orleans. A imagem que queria deixar no fim de sua administração, a de um "conservador compassivo", começava a submergir nas águas trazidas pelo furacão.

O golpe quase fatal nessa imagem foi dado três anos depois, no mesmo ''fatídico'' mês de agosto. No sétimo dia do mês, às vésperas da abertura dos jogos Olímpicos de Pequim, o presidente Mikhail Saakashvili, da Geórgia, deu luz verde a um ataque contra Tskhinvalí, capital da região autônoma da Ossétia do Sul.
Duas mil pessoas foram mortas. A cidade foi quase inteiramente arrasada e a população osseta, de 70 mil pessoas, fugiu para o norte, em busca de refúgio na vizinha Ossétia do Norte, uma região autônoma russa e formada pela mesma etnia.

A agressão georgiana foi respondida com dureza pelos russos. O país atacou instalações militares georgianas, despejou blindados e tropas dentro da Geórgia e desafiou abertamente o aliado de Saakashvili, que naquela altura acompanhava o nadador Michael Phelps nas disputas de natação do Cubo d'Água em Pequim.

Bush não deu a mão ao seu aliado, o que significaria uma guerra aberta com a Rússia. Reagiu com um muxoxo de insatisfação e não tomou nenhuma das medidas que ameaçou tomar contra a Rússia. O assunto, que fez eclodir na mídia a velha ladainha anticomunista da época da guerra fria, evaporou, junto com a cada vez mais ausente liderança do país.

Como a cereja do bolo, só faltava uma crise financeira para fazer o apodo de ''pato manco'' colar de vez em Bush. Em 15 de setembro a famigerada bolha imobiliária estourou, levando consigo — de acordo com as previsões mais pessimistas — cerca de US$ 1,3 trilhões de dólares da economia americana pelo ralo.

Bush permaneceu inerte. Veio admitir em público que o país estava em crise nove dias depois, na última quarta-feira. Mesmo em seu discurso na Assembléia Geral da ONU, Bush evitou falar do assunto.

Por sua vez, Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA, e Ben Bernanke, titular do banco central americano, ocuparam o cenário que pertence ao líder dos Estados Unidos, fazendo um apelo ao Congresso para que os legisladores aprovem com rapidez as medidas que, segundo os dois, poderiam debelar os estragos causados pelo espoucar da bolha imobiliária.

Sobre a crise financeira, Bush limitou-se a dizer, na ONU que: ''é preciso agir com a urgência que a crise precisa''. E mais além rolou outro inerte ''Precisamos trabalhar em termos de metas e nos mantermos firmes em relação às nossas propostas''. O discurso se preocupava mais com a 'luta antiterrorista' e questões secundárias.

Omisso naquela ocasião, Bush fez um pronunciamento dramático, na quarta-feira, transmitido simultaneamente para o mundo inteiro, afirmando que a ''economia inteira está em perigo''. Bush estava visivelmente abalado, suas mãos tremiam e seu rosto exprimia seu estado de dilaceração emocional, já que se via prestes a entrar para a história como o presidente ''pato manco''.

A derrota imposta nesta quinta-feira pelo seu partido ao plano de socorro ao mercado financeiro colocou o homem ''mais poderoso do planeta'' metido em uma grande enrascada, e ele não tem a mínima idéia de que fazer para sair dela”.

INDÚSTRIA NAVAL TERÁ FUNDO DE R$ 1 BILHÃO

A Folha de São Paulo ontem publicou, em texto de Humberto Medina:

OBJETIVO DO GOVERNO É FACILITAR ACESSO AO CRÉDITO DOS ESTALEIROS; SETOR PREVÊ 338 EMPREENDIMENTOS NOS PRÓXIMOS OITO ANOS.

PELA LEI QUE CRIOU O FUNDO, A UNIÃO PODERÁ APORTAR ATÉ R$ 1 BI NO FGCN, QUE TERÁ POR OBJETIVO GARANTIR O RISCO DE CRÉDITO DAS OPERAÇÕES


“O governo criou o Fundo de Garantia para Construção Naval (FGCN). O objetivo é resolver o problema de acesso ao crédito dos estaleiros. Desde o início dos anos 80, quando o setor entrou em crise, a maior parte das empresas passou a ter histórico de saúde financeira precária, estando geralmente endividadas e sem ativos para garantir empréstimos.

A falta de acesso ao crédito é um entrave para que as encomendas que estão sendo feitas pelo governo, na tentativa de revitalizar o setor, sejam concretizadas. Pela lei de criação do fundo, a União poderá aportar até R$ 1 bilhão no FGCN, que terá por objetivo garantir o risco de crédito das operações.

Quando o governo enviou ao Congresso a medida provisória criando o fundo, em maio de 2007, o valor que o governo poderia aportar era de R$ 400 milhões. Após tramitação, emendas parlamentares elevaram o valor de participação da União para R$ 1 bilhão. Os recursos do fundo poderão garantir até 50% do valor do financiamento de cada encomenda.

A indústria naval é financiada principalmente com recursos do Fundo da Marinha Mercante (FMM), que é abastecido com uma taxa cobrada nas operações de frete. Para conseguir os empréstimos com recursos do FMM, no entanto, os estaleiros têm de apresentar garantias. Neste ano, até julho, dos R$ 2,18 bilhões disponíveis no FMM, R$ 501 milhões tinham sido usados (23%).

A indústria naval foi definida pelo governo como sendo estratégica para o crescimento do país e está sendo impulsionada por encomendas da Petrobras. Além disso, as descobertas de petróleo no pré-sal deverão contribuir para estimular ainda mais o setor, com novos pedidos de petroleiros, embarcações de apoio à produção "off-shore" (no mar) e plataformas.

Segundo cálculos do Sinaval (Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Off-shore), estão previstos 338 empreendimentos nos próximos oito anos. Os números incluem, entre outros, 49 navios petroleiros encomendados pela Transpetro (subsidiária da Petrobras) no Promef 1 e 2 (Programa de Modernização e Expansão da Frota), 146 navios de apoio marítimo a plataformas de produção de petróleo, 6 plataformas de produção de petróleo e 28 navios-sonda de perfuração.
Para Roberto Galli, vice-presidente-executivo do Syndarma (Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima), setor que contrata a construção dos navios, a criação do fundo é muito positiva. "É bom para diminuir o risco da construção. Quanto menor risco, melhor para nós", disse”.

URIBE, O QUERIDO DA DIREITA E DA MÍDIA BRASILEIRA, NÃO ESTÁ BEM NA FOTO

A “grande” imprensa brasileira vive demonizando Evo Morales e Hugo Chávez e endeusando Álvaro Uribe. Apóia, até mesmo, um 3º mandato para Uribe, de tão maravilhoso e amigo dos EUA que ele é.

Li no UOL, ontem, em texto traduzido por Jean-Yves de Neufville, essa reportagem de Marie Delcas, em Bogotá, para o jornal francês Le Monde:

NA COLÔMBIA, ONGS ACUSAM O ESTADO DE COMETER "A MAIOR PARTE DAS VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS"

Na Colômbia, as violações dos direitos humanos permanecem "graves, maciças e sistemáticas". Entre 2002 e 2007, 13.634 pessoas foram mortas em conseqüência da violência política, lembra um relatório que foi divulgado na terça-feira, 23 de setembro. "O Estado tem sido responsável pela maior parte das violações dos direitos humanos, quer perpetrando ações diretas, quer mostrando-se tolerante - ou apoiando - os grupos paramilitares nelas envolvidos", denunciam os autores deste documento que foi elaborado por uma coalizão de organizações de defesa dos direitos humanos.

Baseando-se nos casos que foram "elucidados", o relatório atribui a responsabilidade de 17% dos assassinatos e dos desaparecimentos forçados aos agentes da força pública, enquanto 58% desses são atribuídos aos paramilitares, e 25% à guerrilha. Os seqüestros, as prisões arbitrárias, os casos de tortura e de intimidação de populações, forçadas a abandonarem suas casas, vêm complementar o panorama dramático do conflito colombiano.

"Os números apresentados neste documento levam em conta as estatísticas oficiais, além de outros dados que foram fornecidos por diferentes organizações dos direitos humanos", explica um dos autores do relatório, Álvaro Villarraga, que é membro da Assembléia permanente da sociedade civil em prol da paz. O relatório agora deverá ser apresentado ao Conselho dos direitos humanos das Nações Unidas que, em dezembro, se debruçará sobre a questão colombiana. Segundo explica Villarraga, "na Colômbia, da mesma forma que na cena internacional, o drama dos reféns que permanecem em poder da guerrilha concentrou as atenções da opinião pública e deixou em segundo plano a catástrofe humanitária que conhece o país".

No poder desde 2002, o presidente Álvaro Uribe não se cansa de denunciar os crimes cometidos pelos guerrilheiros de extrema-esquerda. Contudo, as atrocidades que têm sido perpetradas pelos paramilitares, que são tão graves quanto, e ainda muito mais numerosas, tendem a serem mantidas na surdina pelo discurso oficial. "O aumento dos casos de violações dos direitos humanos que são atribuídos aos militares e aos agentes do Estado - que registraram um crescimento de 67% em relação ao período anterior - é igualmente muito preocupante", avalia Álvaro Villarraga.

À ESPERA DE UM JULGAMENTO

Segundo o governo, 31 mil milicianos entregaram as armas entre 2004 e 2006, como resultado do processo de negociações que havia sido conduzido com as organizações paramilitares. O relatório sublinha que apenas 116 integrantes dessas forças estão sendo processados atualmente na justiça, e que nenhum deles chegou a ser condenado até agora.

Contudo, desde então, treze chefes paramilitares foram extraditados para os Estados Unidos onde eles respondem a acusações de tráfico de drogas. Na quinta-feira, um deles, Salvatore Mancuso, foi ouvido - durante uma audiência transmitida por videoconferência - pelos magistrados da Corte suprema colombiana. Ele confessou ter tido contatos com quatro generais do exército, na época em que ele dirigia as milícias.

Além disso, "diferentemente do que afirma o governo, os grupos paramilitares não foram desmantelados", sublinha o relatório, que cita o número de 9 mil homens que não entregaram as armas e seguem cometendo crimes. Por sua vez, o delegado da Organização dos Estados Americanos (OEA), Sergio Caramaña, denunciou recentemente o aliciamento de jovens para lutarem nas milícias de extrema-direita, explicando que o seu número tem aumentado em diversas regiões do país.

O governo de Álvaro Uribe, por sua vez, também apresentará um relatório perante o Conselho dos direitos humanos da ONU. Ele buscará enfatizar a diminuição das ocorrências de homicídios e dos casos de seqüestros (que passaram, entre 2002 e 2007, de 1.708 para 226 casos). Os sucessos que foram obtidos pelo exército colombiano contra a guerrilha contribuíram para um aumento da popularidade do presidente Álvaro Uribe em seu país, onde diversas pesquisas lhe atribuem até 78% de opiniões favoráveis”.

COINCIDÊNCIAS ENTRE RONALDO “FENÔMENO”, BALLACK, TOTTI E SHEVCHENKO

O jornal inglês Financial Times ontem publicou o artigo de Simon Kuper que a seguir transcrevo. Li no UOL em tradução de George El Khouri Andolfato.

OS QUATRO FABULOSOS QUE NASCERAM NA SEMANA MAIS FÉRTIL DO FUTEBOL

“Em 22 de setembro de 1976, um grande jogador de futebol nasceu no Rio. "Você sabe de onde veio o nome Ronaldo?" seu pai perguntou ao escritor Frans Oosterwijk anos depois. "Do médico que fechou as trompas da mãe após o nascimento dele. Há, há. Doutor Ronaldo, era o nome dele."

Este nascimento deu início à semana mais fértil da história do futebol. Quatro dias depois de Ronaldo, o pequeno Michael Ballack nasceu em Görlitz, na República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), seguido por Francesco Totti, em Roma, em 27 de setembro, e o quarteto é completado quando Andriy Shevchenko nasceu na aldeia ucraniana de Dvirkivschyna, em 29 de setembro.

Provavelmente havia algo na água naquela estação. Em 1º de julho de 1976, Ruud van Nistelrooy e Patrick Kluivert nasceram na Holanda. Seja qual for o segredo, à medida que o quarteto completa 32 anos e se aproxima da linha de chegada, é uma chance de esboçar uma espécie de carreira do astro moderno do futebol.

O primeiro ponto a despontar é que a origem pouco importa. No futebol moderno, é irrelevante ter vindo de uma aldeia evacuada após o desastre de Chernobyl (Shevchenko), de uma família romana tão tradicional que sua mãe sempre passava o uniforme de futebol (Totti), ou de Dr Salvador-Allende-Strasse, 168, Karl-Marx-Stadt, Alemanha Oriental (Ballack).

Todos os quatro cresceram sonhando com a grandeza. Totti inicialmente queria ser frentista de posto de gasolina, Ronaldo queria ser cantor, Shevchenko lutava boxe e Ballack foi identificado pelo governo da Alemanha Oriental como um futuro patinador de velocidade. Apenas Ronaldo foi um adolescente prodígio: aos 17 anos, ele já estava sentado no banco de reservas da Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1994, segundo dizem tremendo de medo de ser chamado para entrar em campo. A primeira coisa que comprou com sua nova riqueza foi um aparelho ortodôntico. Seus dentes "de coelho" atormentaram sua juventude.

Os outros três chegaram depois. Nenhum esteve presente no Mundial Sub-20 de 1995. Nunca mais se teve notícia do destaque do torneio, o brasileiro Caio.

Ballack foi quem levou mais tempo para se tornar um astro. Aos 22 anos, ele ainda não jogava regularmente na Bundesliga alemã. Seu período mais longo no anonimato pode ser o motivo para ser o único no quarteto a não ter se casado com uma modelo ou artista. Em vez disso, ele conheceu uma garçonete bonita no Café Am Markt, em Kaiserslautern. Enquanto isso, Ronaldo alternava entre uma legião de loiras, conhecidas coletivamente como Ronaldinhas.

Esta é a primeira geração de jogadores de futebol globalizados. Apesar dos primeiros jogadores ex-soviéticos a se mudarem para o Ocidente terem fracassado, Shevchenko trocou o Dínamo de Kiev pelo Milan e se adaptou instantaneamente. Ele apenas se mudou de um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum não tinha nada, para um país parcialmente capitalista com uma forte máfia, onde o homem comum anda vestido em Armani. Ele se casou com uma modelo americana.

Todos os quatro deram nomes cosmopolitas para seus filhos. Shevchenko batizou um filho de Jordan, em homenagem a Michael Jordan; os meninos de Ballack são Louis, Emilio e Jordi; e o filho de Ronaldo se chama Ronald, porque o jogador e sua esposa na época gostavam de comer no McDonald's. Até mesmo Totti, o eterno romano, deu o nome de Chanel a sua filha.

Com vinte e tanto anos, estes jogadores viviam uma sucessão de grandes momentos - apesar de Ballack não ter conseguido grandes conquistas. O tempo no topo se move rápido demais para permitir muito tempo para saborear. Em Yokohama, em 2002, nem uma hora depois de Ronaldo ter marcado dois gols na conquista da Copa do Mundo, um jornalista brasileiro lhe disse: "Nós não estamos interessados no passado, só no futuro". Ronaldo desejava conquistar o ouro olímpico? E quanto à próxima Copa do Mundo?

"Agora eu não quero sentir qualquer pressão a respeito do futuro", Ronaldo respondeu ao seu modo sereno. "Eu só quero comemorar." Ele finalmente tinha aprendido uma habilidade essencial para a vida no topo: dizer não.

Todos esses jogadores desenvolveram uma forma de lidar com o estresse. Totti permaneceu para sempre no Roma, onde é amado mesmo quando não joga toda semana. Shevchenko acabou de voltar ao Milan, o melhor clube para paparicar jogadores. Ronaldo priorizou as Copas do Mundo, freqüentemente ficando meses fora do clube de futebol. E quando Ballack chegou ao topo, ele já era maduro o suficiente para lidar com a pressão.

Nós agora podemos traçar o pico de cada um deles. O de Ronaldo foi em 2002; o de Shevchenko foi em 2004, quando foi eleito jogador europeu do ano; o de Totti foi 2006, quando conquistou a Copa do Mundo; enquanto Ballack quase conquistou tudo neste ano. Isso mostra que quanto mais à frente se joga, mais dependente o jogador se torna da aceleração e mais cedo é o seu pico. Ballack, o único meio-campista real do quarteto, é aquele que mais dura.

A jornada termina prematuramente. Gradualmente, as lesões cobram seu preço cumulativo. Totti e Ballack estão tendo dificuldade para retomar a forma. Shevchenko espera marcar seu primeiro gol nesta temporada antes de seu aniversário. Ronaldo está se recuperando em uma praia do Rio de outra lesão terrível no joelho, mas ainda não consegue dizer adeus: "Eu sinto tamanha paixão pelo futebol que estou pronto a fazer qualquer sacrifício para voltar". Ele insinua jogar no Manchester City.

Mas ele foi recentemente fotografado pela revista "Veja" em um iate, barrigudo, fumando e bebendo cerveja. De uma forma ou de outra, é assim que termina”.

AERONÁUTICA DESCARTA PROBLEMAS EM RADARES EM ACIDENTE COM VÔO 1907 DA GOL

Li ontem no UOL a seguinte matéria da Folha Online:

“Os equipamentos de comunicação e vigilância no controle do tráfego aéreo brasileiro não tiveram responsabilidade no acidente do vôo 1907 da Gol segundo documento divulgado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), da FAB (Força Aérea Brasileira).

O boletim contém os resultados da investigação técnica feita até o momento sobre o acidente entre a aeronave Legacy, prefixo N600XL e o Boeing 737 da Gol, que completa dois anos na próxima segunda-feira (19). O acidente ocorreu no dia 29 de setembro de 2006 e deixou um saldo de 154 pessoas mortas.

O documento isenta de toda responsabilidade os equipamentos de comunicação e vigilância no controle do tráfego aéreo brasileiro. Assegura também que as avaliações feitas pela Comissão de Investigação mostram que o transponder (responsável pelo sistema anticolisão do Legacy) estava em condições de uso, porém não estava em operação no momento da colisão.

[Nota deste blog: Isto é, os norte-americanos voavam “na contramão” (altitude errada) e com os “faróis” inexplicavelmente desligados (o transponder/TCAS). Encobrindo a culpa dos pilotos dos EUA, o jornal Folha de São Paulo chegou a publicar artigo culpando pessoalmente o Presidente Lula pela queda do avião da GOL e assassinato de 154 pessoas...].

O documento confirma que não foram encontrados erros de projeto ou de integração nos equipamentos de comunicação, de rádio e navegação, transponder e TCAS do Legacy. As análises destes equipamentos foram acompanhadas, em conjunto, por investigadores e técnicos brasileiros e americanos nas instalações dos fabricantes do Legacy.

O relatório final do Cenipa foi encaminhado no final do mês passado para a Comissão de Investigação no exterior (Estados Unidos e Canadá), de acordo com o anexo 13 da Convenção de Chicago. Segundo a legislação, os representantes da Comissão têm até 60 dias para apresentar considerações sobre o conteúdo do documento. Em seguida, haverá uma reunião final da Comissão antes da conclusão dos trabalhos.

Ainda de acordo com o boletim, o principal objetivo da investigação técnica é a emissão de recomendações de segurança, seguida do estabelecimento de ações ou de conjunto de ações aplicadas a uma circunstância perigosa específica, visando à eliminação ou o controle de uma condição de risco. Essas recomendações serão prestadas apenas no relatório final”.

PETRÓLEO - EU ME NEGO A ACEITAR QUE O PETRÓLEO NÃO SEJA NOSSO

Outro bom artigo que li ontem no blog “Por um sem mídia”, de Carlos Dória. A fonte foi o blog “Brasil de Fato” e o texto é de Nilton Viana.

“A descoberta de novos campos de petróleo no Brasil tem suscitado amplo debate sobre os rumos que o país deva tomar para garantir que essa riqueza seja efetivamente do povo brasileiro. Várias propostas estão sendo colocadas, dentre elas a criação de uma nova estatal para gerenciar o pré-sal.

Contrário à criação de outra empresa para administrar o pré-sal, o professor da Universidade de São Paulo Ildo Sauer, em entrevista ao Brasil de Fato, resgata o papel histórico-social da Petrobras e acredita que se a ela tem contradições e problemas na sua gestão, é fácil sanar. Segundo ele, é um ato de vontade política. “A Petrobras tem uma corporação extremamente profissional e disciplinada. Se ela faz o que faz é porque alguém na sua organização de comando dirige e faz”. Como alternativa, Sauer defende a criação de um fundo constitucional, gerido com critérios definidos em constituição.

BRASIL DE FATO – COMO EX-DIRETOR DA PETROBRAS, COMO O SENHOR TEM ACOMPANHADO O DEBATE EM TORNO DAS QUESTÕES ENERGÉTICAS DO PAÍS, AS RECENTES DESCOBERTAS DA EMPRESA E COMO TEM VISTO AS PRINCIPAIS ALTERNATIVAS QUE SURGEM PARA SE LIDAR COM O CHAMADO PRÉ-SAL?

ILDO SAUER – Eu acho que sempre é preciso recuperar a história para compreender o que está se passando hoje. São necessárias duas considerações preliminares. Uma bastante geral sobre energia e outra sobre a sociedade. O ser humano tem uma longa história marcada por duas grandes revoluções, do ponto de vista da organização da sua produção material para satisfazer suas necessidades de sobrevivência.

A primeira, na transição do homem neolítico, homem caçador-coletor, para o homem agrícola, há dez mil anos, quando, com a revolução agrícola, o homem percebe que é possível se organizar socialmente de outra maneira para direcionar em quais plantas, em quais animais, a cadeia energética estava sendo acumulada desde a fotossíntese.

A segunda, a revolução industrial, no fim dos anos de 1700, altera completamente a forma de organizar a produção, de dividir o produto social.

QUAIS DIMENSÕES ESTAS REVOLUÇÕES TROUXERAM CONSIGO?

Já na primeira revolução, a agrícola, há quatro dimensões que em minha opinião estão presentes: a primeira, como o ser humano consegue apreender a natureza e a representá-la; a segunda, como ele se apropria de instrumentos, máquinas, equipamentos, processos tecnológicos que ajudam a aumentar a produtividade do trabalho humano para gerar valor; a terceira, a forma como se representa e se legitima esta organização da produção e a divisão do produto, tanto que se o produto é social a pergunta é: “Como é que se legitima a distribuição desse produto social, dessa riqueza gerada?”; e, a última dimensão, são as instituições políticas e os valores que são hegemônicos em cada época.

Já a primeira fase da revolução industrial foi marcada pelo controle sobre o carvão, que passa a permitir uma intensificação profunda da produtividade do trabalho, aplicado socialmente e para gerar riqueza.

Logo depois, teve uma alteração profunda, quando os meios de produção passam também a ser controlados individualmente e a forma de produzir também se altera. Com a revolução industrial calcada no carvão, e na mudança significativa da base terminal de produção, os meios de produção passam a ser propriedade de uma nova classe que surge, a classe capitalista. E grande parte da população passa a ser apenas detentora de sua força de trabalho.

E NO SÉCULO 19?

Este é marcado profundamente pela segunda fase da revolução industrial, em que o carvão progressivamente dá lugar ao petróleo, à indústria elétrica, à indústria automobilística, à indústria das telecomunicações. À uma indústria toda organizada em associação com os grandes bancos capaz de alterar completamente a face do planeta Terra, neste último século. Tanto em termos de população, que sai de um pouco mais de 1 bilhão para, na virada século do petróleo, se transformar em 6,7 bilhões de habitantes. Isso tudo: a mobilidade de carga e pessoas, de materiais, os grandes conglomerados industriais cartelizados vinculados ao sistema financeiro, as duas grandes guerras; tudo isso marca a mudança da organização social da humanidade na face da Terra ao longo do último século, e em grande parte, o que permitiu que isso acontecesse foi o fato de que a força de trabalho humana agora passa a ser potencializada na sua capacidade de gerar riqueza porque uma nova forma de energia, apropriada agora em maior intensidade e com menos esforço, está disponível. Esta energia que é o petróleo.

QUANDO O BRASIL PERCEBE A IMPORTÂNCIA DO PETRÓLEO?

Aparentemente, a população brasileira percebeu esse grande movimento internacional de mudanças, a indústria automobilística, a base industrial, a mobilidade, a indústria aeronáutica. Aqui, aparecia todo esse conjunto de conglomerados tecnológicos capitalistas. E do outro lado, com a revolução socialista, algo parecido acontece também. Na União Soviética, quando se dizia que fazer socialismo era construir soviets e levar eletricidade. A população brasileira, implícita ou explicitamente, percebeu a importância de se ter o controle do petróleo para se formar uma sociedade com certo grau de autonomia e soberania no contexto do novo regime de produção internacional. E aí, lança-se a campanha “O Petróleo é Nosso”, na década de 1940, dentro da visão keynesiana, de que o capitalismo auto-regulado fracassou, como ficou claro com o crash da Bolsa, que desorganizou a economia internacional na década de 1930; e que agora a mão invisível do mercado dialoga com o Estado para buscar saídas que permitam ao Estado proporcionar as condições estruturais necessárias para que as relações capitalistas de produção pudessem ter sucesso em muitas regiões do mundo. O plano mágico começou nos Estados Unidos, com o ‘new deal’, para depois marchar para a Europa depois da Segunda Guerra. E nos países como o Brasil, não foi diferente.

E A PARTIR DE ENTÃO O PETRÓLEO PASSA A SER FUNDAMENTAL NA MODERNIZAÇÃO E NO DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO.

O desenvolvimento industrial dos recursos energéticos e de outros recursos naturais no Brasil se deu com a criação do BNDE, da CSN e do sistema Eletrobras. A CSN deu base para seguir o grande plano rodoviário na década de 1950 que rasgou o Brasil com o “50 anos em 5” do Juscelino. Deu-se com a indústria automobilística que chega finalmente ao Brasil 50 anos depois de se lançar ao mundo. Nesse contexto, o papel do petróleo passa a ser importante para possibilitar a modernização produtiva no Brasil.

E A PETROBRAS?

A Petrobras surge nesse contexto com uma necessidade prevista pelo povo brasileiro de controlar um recurso fundamental nesse processo que permitisse, com todas essas contradições, que o capitalismo brasileiro se desenvolvesse minimamente na área industrial; deixar de ser um país agrícola e torna-se um país urbanizado, com todas as mazelas e contradições que nós já conhecemos.

Então, a Petrobras tem a delegação de uma missão muito particular e dada pelas ruas: garantir o abastecimento do petróleo em todos os cantos do Brasil. Porque isso é a marca fundamental, inclusive para o próprio processo da modernização agrícola, com a presença dos tratores. A mecanização agrícola só foi possível porque os derivados de petróleo chegaram a todos e quaisquer campos do Brasil. Isso foi a sua grande missão.

Mas havia uma grande surpresa no horizonte. Porque havia o debate sobre a existência de petróleo no Brasil ou não. Havia isso nas primeiras décadas da Petrobras, mas não foi tão relevante. Relevante foi construir a logística, as refinarias, o acesso ao petróleo que mudou. Permitiu a mudança significativa na produtividade e nas condições de vida de todos os brasileiros, especialmente o emergente capitalismo brasileiro se beneficiou profundamente disso.

MAS A PETROBRAS TAMBÉM TEVE A MISSÃO DE DESENVOLVER O ÁLCOOL COMBUSTÍVEL.

Muito bem. Anos de 1970, dois choques do petróleo, 1973 e 1979. O preço do petróleo dispara e as condições macroeconômicas brasileiras, recém-saídas do milagre brasileiro da ditadura, entram em crise profunda porque não havia como pagar as contas das várias importações, especialmente a do petróleo. Esgota-se a primeira fase da Petrobras e lhe dão uma segunda missão, junto com os planos de desenvolvimento do governo Geisel, especialmente, que cria o Programa Nacional do Álcool, o Programa Nacional de Óleos Vegetais, que hoje se chama de biodiesel, mas que naquele tempo já havia sido concebido. Avançou o Proálcool porque nele havia, primeiro, condições específicas infra-estruturais positivas, a base industrial da agroindústria do açúcar que estava em crise e o interesse dos conglomerados agrícolas e financiadores ligados ao governo – Instituto do Açúcar e do Álcool – que permitiram que o Proálcool deslanchasse. O programa de siderurgia teve algum avanço também nesse contexto, o Pronuclear nos deixou como herança, imensas dívidas e duas usinas.

E A MISSÃO DE SE ENCONTRAR PETRÓLEO?

De todas essas iniciativas, essa não foi explicitada abertamente. Ela se lançou ao exterior, encontrou no Iraque [em 1976] o maior campo petrolífero já conhecido naquele país, batizado de Majnoon, que quer dizer maluco, louco, de tão grande que era. A Petrobras foi indenizada em cerca de 200 milhões de dólares e o campo foi nacionalizado, estando lá até hoje. Buscou em outras partes, mas acima de tudo havia a Braspetro, que fazia trocas comerciais para poder pagar a conta-petróleo. É bem verdade que o Iraque, tendo tomado o campo, se comprometeu e isso está até hoje, as relações são muito cordiais com os dirigentes das empresas petrolíferas iraquianas que reconhecem a contribuição da Petrobras. E, durante a crise do petróleo nos anos de 1970-1980, de uma certa maneira, foram promovidas trocas comerciais que permitiam que o Brasil pagasse a conta-petróleo do Iraque com carros, alimento, frango, soja, carne, frango e especialmente com Passats.

E EM RELAÇÃO AO BRASIL, O QUE FEZ A PETROBRAS?

Não encontrando petróleo em terra, a Petrobras se lança ao mar. A poucos metros da lâmina d'água e depois vai aprofundando, aprofundando, até ser reconhecida hoje como aquela que é a campeã mundial na tecnologia de águas profundas – capacidade de gerar o risco tecnológico, risco financeiro e todo um conjunto de riscos associados a esse processo. Hoje, ela se lança ao mar a lâminas d'água de cerca de 2,3 mil metros e daí para baixo da superfície marítima até 7, 10 quilômetros de perfurações contínuas, produzindo num navio colocado, que para perfuração e exploração tem que estar estabilizado porque esta aste de perfuração precisa ser controlada adequadamente. Então, a capacidade de gestão – e não é que a Petrobras defina sozinha essas ações todas, ela é uma controladora, integradora, gerenciadora – é uma atividade muito complexa, que lança mão de todos os serviços tecnológicos, da geofísica, da perfuração, da ação concreta lá debaixo do mar.

O GOVERNO FHC QUIS PRIVATIZAR A PETROBRAS. CHEGOU INCLUSIVE A TROCAR O SEU NOME.

É verdade. No governo anterior lhe tomaram o nome por alguns dias, um golpe chamado de Petrobrax, mas o povo foi às ruas e o governo recuou, lhe devolveram o nome, mas lhe venderam 30% das ações na Bolsa de Nova York, por 5 bilhões de dólares em agosto de 2000. 30% que chegaram a ter [em 2008] um valor nominal de 130 bilhões de dólares quando a Petrobras chegou a 400 bilhões de dólares. Considerando o valor atual do petróleo retrocedendo em níveis próximos dos 100 dólares esse valor é diferente, talvez, no momento, a Petrobras esteja valendo uns 200 e poucos bilhões de dólares na Bolsa, então mesmo assim os 30% continuam sendo a fantástica quantia de quase 70, 80 bilhões de dólares.

Mas é preciso compreender como são as operações na área do petróleo, tanto as tecnológicas quanto as financeiras. Eu acho então que – com essa preliminar feita do papel histórico-social da Petrobras, com suas contradições, sua capacitação industrial – a descoberta do pré-sal é produto dessa longa trajetória da Petrobras.

QUANTOS ANOS DE PESQUISA A PETROBRAS LEVOU PARA CHEGAR A ESSA DESCOBERTA?

Desde o final dos anos 1970, mas a ênfase foi mesmo há uns 5, 6 anos, quando a Petrobras resolve alterar o caráter de gestão da empresa, que vinha numa direção desde as reformas liberais dos anos de 1990, iniciadas por Collor e comandadas por Fernando Henrique. A estratégia da Petrobras baseia-se em um tripé de bastante sucesso: reforçar e aprofundar a busca de petróleo; desenvolver na medida do possível todo gás disponível como substituto do petróleo, gerador de valor e menos intensivo em emissão de gás carbônico para evitar o efeito estufa – cada 150 metros cúbicos de gás permitem substituir um barril de petróleo –; e já lançar o caminho para a retomada do álcool que foi imposto a Petrobras nos anos de 1970.

QUAL O FUTURO DO PETRÓLEO DENTRO DA MATRIZ ENERGÉTICA MUNDIAL? O CENÁRIO É MESMO DE ESCASSEZ?

A previsão que se tem é que no mundo havia cerca de 3 trilhões de barris de petróleo, recuperáveis com a tecnologia de hoje. Um trilhão foi usado no século passado, que foi o século do petróleo, que permitiu que a humanidade fizesse essa longa e extasiante trajetória de chegar a 6,7 bilhões de habitantes, baseada em grande parte na exploração do petróleo, geração de valor, alocando trabalho, mão-de-obra, conhecimento em cima do petróleo.

Hoje, se acredita, então, que tenha 2 trilhão de barris recuperáveis. Assim, tirando-se 80, 90 milhões de barris por mês, isso significa que nas próximas três ou quatro décadas, o petróleo convencional estará exaurido e o gás natural que tem 2 trilhões também terá ido. Então ficou assim, apesar da discussão em torno das mudanças climáticas, a Petrobras se lançou a descobrir mais e mais reservas e um dos esforços foi exatamente a busca daqueles recursos do pré-sal.

A REATIVAÇÃO DA QUARTA FROTA PELOS EUA ENTRA NESTE CONTEXTO?

Não é à toa que ela tenha sido reativada em grande parte para vigiar o Atlântico Sul, onde estaria o travesso Chávez ocupando espaço. Mas também é uma coincidência que grande parte dos recursos do pré-sal esteja exatamente em cima e dentro na fronteira daquela zona econômica exclusiva, dentro daquelas 200 milhas decretadas nos anos de 1970, que alguns países, especialmente os EUA ainda não reconheceram.

A PETROBRAS ESTÁ CREDENCIADA A ADMINISTRAR OS RECURSOS DO PRÉ-SAL?

A Petrobras é no mundo a empresa mais credenciada. Sua força de trabalho aumentou em torno de 20 mil pessoas nos últimos 5 anos. Passou de 48 para 68 mil diretamente contratadas, treinadas nos mais diversos afazeres da área de energia, para atuar de igual para igual com outras companhias e nesse contexto regulatório que está colocado aí dentro e fora do Brasil.

Essa é uma trajetória de enorme sucesso, com todas as suas contradições, nas quais a Petrobras se insere em razão de sua própria história já que todos os governos tentaram instrumentalizá-la para seus propósitos, muitas vezes legítimos outras vezes nem tão publicáveis, nem tão transparentes assim em várias etapas, de usá-la para aplacar a sede das bases partidárias no Congresso e daí por diante. A Petrobras não ficou imune a isso, especialmente nos últimos dois anos também essa situação se agravou, me parece. [Apesar disso,] a Petrobras é reconhecida hoje como a estrela mundial na área de petróleo por sua trajetória.

PELO O QUE ENTENDI, O SENHOR É CONTRA A CRIAÇÃO DE UMA NOVA ESTATAL PARA ADMINISTRAR O PRÉ-SAL?

Eu não sei o que ela faria. O que eu estou tentando descrever com essa trajetória e essa complexa relação que está colocada é que, se em 50, 60 anos de história a Petrobras logrou chegar ao patamar que se encontra de operação tecnológica, industrial, econômica, empresarial, não é uma coisa muito fácil de reproduzir em pouco tempo.

Então, há dois fatores que me parecem fundamentais nessa história do pré-sal. Primeiro, que ainda não se sabe exatamente estimar se é um arquipélago de manchas de óleo ou se é uma espécie de subcontinente que vai de Santa Catarina até o Espírito Santo de óleo. Não se furou o suficiente. Há que se fazer mais perfuração, há que gastar mais tempo e dinheiro para avaliar melhor o volume e ter uma noção clara do que está lá.

O que eu estou tentando demonstrar é que não se pode menosprezar a importância de ter uma empresa daquele porte, com essa capacidade, e também não se pode superestimar o potencial de qualquer organização para ocupar um espaço rapidamente com essa complexidade. Eu acho que se a Petrobras tem contradição e problemas na sua gestão, é fácil sanar, é um ato de vontade política.

E COMO O SENHOR ACHA QUE ESSAS CONTRADIÇÕES PODERIAM SER SANADAS?

Eu vou falar claramente. Grande parte do que nós estamos vendo em relação à Petrobras por parte do governo é um deficiente relacionamento entre o governo federal e a Petrobras. Há uma relação meio esquizofrênica do governo com ela, na medida em que o próprio presidente da República faz piegas dizendo que “então tá bom, ela é tão poderosa, é uma ameaça à democracia”. Vir falar disparates desse tipo. Eu dei uma entrevista bastante dura à Folha de S.Paulo porque no dia anterior saiu uma matéria dizendo que o governo pensava criar uma nova empresa porque a Petrobras está se tornando muito poderosa e seria uma ameaça à democracia como foi a PDVSA logo no começo do governo Chávez. Ora, isso não tem nenhum fundamento. A Petrobras tem uma corporação extremamente profissional e disciplinada. Se ela faz o que faz é porque alguém na sua organização de comando dirige e faz.

COMO SE DÁ EFETIVAMENTE A RELAÇÃO ENTRE O GOVERNO E A EMPRESA?

Há um mecanismo que engloba as normas, o estatuto da empresa e, acima de tudo, o conselho de administração, que é aquele que elege os dirigentes da empresa e que lhe dá diretrizes. O que eu tenho assistido – e que é um depoimento pessoal bastante forte – é que lamentavelmente o governo Lula, através do seu vínculo com a Petrobras, não esteve à altura do desafio que a Petrobras vem enfrentando e das oportunidades e possibilidades que estavam colocadas. Nunca, em nenhum momento sequer o conselho de administração, especialmente através de sua presidência, tem sido um caminho, um canal de comunicação que expressasse verdadeiramente nos dois sentidos aquilo que poderia ser um relacionamento muito profícuo.

O que a gente percebia lá é um conflito permanente, no geral, sobre questões que não existiam, que eram inventadas e fabricadas. Então, esse relacionamento complicado que se criou entre a percepção que o governo tem em Brasília da Petrobras é um enorme equívoco histórico. Quem tem a responsabilidade por isso, acima de tudo, é a presidência do conselho de administração da Petrobras [do qual Dilma Rousseff é presidente desde janeiro de 2003], que não foi capaz de conduzir esse relacionamento num nível desejável.

E COMO RESOLVER A QUESTÃO ACIONÁRIA E DE CONTROLE DA PETROBRAS?

Essa questão do controle acionário pode ser modificada, mas ela não é tão relevante. Basta organizar a forma de gerir o acesso ao recurso natural e a partilha do valor produzido com seu desenvolvimento. Em 2003, dizíamos então que, dado que era difícil a roda andar para trás, o gênio voltar para a garrafa, é preciso converter o limão numa limonada. Ou seja, alterar o regime de concessão. Essa era a proposta. Acabar com as concessões como estavam sendo dadas.

Lamentavelmente, neste governo, a roda, a máquina como aquela do Charles Chaplin do filme, continua rodando igualmente. Isso é uma coisa que nós viemos debatendo muito. Porque, se você tem um regime que concede blocos, que dá três anos para encontrar, e tendo sucesso, dá mais 20 anos para desenvolver, o Brasil rapidamente estava na engrenagem de ser um exportador de petróleo. O que a diretoria da Petrobras fez foi comprar todos os blocos que estavam à venda e que tinham prospectividade. Isso foi feito.

Só que a política mesmo era comandada de Brasília, do Ministério de Minas e Energia, da Casa Civil, que fez essa roda andar no automático, que levou ao pré-sal. E o que o governo fez? Não mudou o regime regulatório, não alterou sequer o decreto, que era uma canetada simples e ainda manteve a 9ª rodada, até que a Petrobras anunciou publicamente a viabilidade e o sucesso do Tupi. Então, criou-se uma situação na qual os bilhetes que estavam à venda já eram bilhetes premiados sabidamente. Onde é que está a assessoria do governo Lula na área de energia? Não está na Petrobras, não está nas universidades, está lá no próprio Planalto. Então, esse elo fraco que nos levou a essa situação, que felizmente, o presidente da República resolveu arbitrar o problema adequadamente, ainda que com lentidão de seis meses de atraso, retirou os blocos. Só que muito pouco foi feito de lá para cá.

O SENHOR DISSE QUE O GOVERNO NÃO TEM ESTADO À ALTURA DA PETROBRAS. COMO A DIRETORIA DA PETROBRAS TEM SI POSICIONADO FRENTE DEFICIÊNCIA DO GOVERNO?

A diretoria da Petrobras, por iniciativa dela – eu sugeri ao diretor financeiro, a quem cabe essa medida –, levou à diretoria, a diretoria aprovou e o conselho referendou a recompra de ações com lucros. Cerca de 5 bilhões de dólares dos lucros seriam aplicados na recompra de ações dos outros sócios.

Mas o mais importante foi que em maio, nessa mesma época quando se previa uma alteração significativa no quadro das informações, eu pessoalmente, Ildo Sauer, pessoa física, tive uma conversa com o ministro Guido Mantega, da Fazenda, e lhe sugeri: “Guido, o senhor está agora com 130 bilhões de dólares no exterior, recebendo juros de 1, 2, 3, 4 % ao ano e aqui dentro para ter essas reservas você está com uma dívida que paga 7 a 10%, portanto, uma arbitragem negativa. Por que você não pega 30 bilhões de dólares – a Petrobras valia 90 bilhões de dólares naquele tempo – vai a Nova York e recompra as ADRs [ações] através de um fundo, compras as ADRs lá, você importa a Petrobras, deixa as ações lá, os dólares lá, enfim, e você vai ter uma rentabilidade da ordem de 20, 30, 40% ao ano sobre esse valor investido, e além do mais o câmbio estaria reequilibrado no Brasil e ajudaria nas condições macro do câmbio, que cria dificuldades enormes para as exportações de bens industrializados e mesmo de bens agrícolas. O governo começou a discutir o câmbio soberano, e estamos discutindo, discutindo e a ação concreta nada. Até agora, só debate.

ESSE CENÁRIO DE VALORIZAÇÃO, OU SUPERVALORIZAÇÃO DO PETRÓLEO PODE, TOMADAS AS DECISÕES CORRETAS, AJUDAR O BRASIL A CORRIGIR SUAS MAZELAS SOCIAIS?

A minha proposta é simples: um fundo constitucional, gerido com critérios definidos em constituição, qual a alocação de recursos dentro e fora do Brasil, limites máximos e mínimos, critérios e transparência na gestão e não ser uma empresinha, uma agenciazinha, ou uma empresa ou uma agência que obedeça aos ditames do governo de turno, muitas vezes pautados nas crises que tem que apaziguar a sanha das bases de apoios nos parlamentos.

Então, eu acho que há experiências internacionais importantes, há experiências na África. Tem coisas positivas e coisas negativas. Tem experiências positivas na Noruega, só que a Noruega é um país diferente. E lá se tem uma empresa que é gerida por um pouco mais de uma dezena de pessoas, mas é muito mais o investimento financeiro que eles controlam. Não é uma empresa com base industrial. Então o modelo pode ser aperfeiçoado, há muitas sugestões na mesa, uma delas é mudar a forma de conceder para quem devolva mais, na proporção da produtividade. Isso mantém as empresas solventes, capazes de gerir seus riscos, como é o caso da Petrobras e vai gerar recursos também para capitalização da Petrobras.

Quanto tempo se levará para que realmente se comece a extrair a produção no pré-sal? Para desenvolver isso, 4, 5, 6 anos. Agora, não é para qualquer empresa fazer isso. Se há problemas com a Petrobras, como se tem dito por aí, que ela é muito poderosa, ao ponto de o presidente da República dizer que agora, em tom de brincadeira, iria promover a primeira eleição de presidente da Petrobras e ele indicaria o presidente da República, é falta de compreensão do papel histórico da Petrobras. O petróleo é nosso, a Petrobras é nossa e o pré-sal é nosso. Eu me nego a aceitar que o petróleo não seja nosso, que a Petrobras não seja nossa. Ou seja, restringir que só o pré-sal é nosso.

VOLTANDO SOBRE AQUELA QUESTÃO QUE VOCÊ COLOCOU SOBRE A DECISÃO DA DIRETORIA SOBRE A RECOMPRA DAS AÇÕES... ISSO NÃO FOI ENCAMINHADO?

Não sei se foram compradas ou não porque ninguém vai anunciar publicamente. Porque se você diz que está botando 5 bilhões para comprar, as ações explodem. Eu não sei se foi executado ou não. Porque a estratégia de execução não é assim. Porque se é sabido que os acionistas remanescentes querem comprar, os que vão vender vão querer um prêmio para sair. Eu não sei quanto foi executado, mas foi aprovado. Mas simultaneamente, isso era só 5 bilhões, isso era mais simbólico, o que a diretoria podia fazer era isso, porque ela não pode tirar muito lucro.

O que o governo podia ter feito e não fez, e que eu disse ao Guido Mantega foi: “Pega 30 bilhões da reserva e compra”. E ele não fez. Então, quero dar essa dimensão porque eu vi um discurso de que alguém do governo tinha mandado a Petrobras fazer e não fez. É errado. Veja, eu tenho me preocupado muito com a discussão que sai de Brasília sobre a Petrobras, essas coisas que circulam na imprensa, tentando demonizá-la, transformá-la na vilã da história. O que aconteceu nos últimos anos é o contrário. Quem tem instrumentalizado as instituições para atender certos clientes, em geral, clientes de alto poder aquisitivo, os mais privilegiados, tem sido facções do nosso governo. Isso precisa ser revisto. E o discurso sempre é esse, de tentar demonizar, desmoralizar. Dizer que vendeu gás duas vezes, que a Petrobras só pensa no lucro. Um monte de coisas que são ditas que constroem um ambiente de opinião pública para que depois se possa agir na direção contrária do que se diz que vai fazer.

O SENHOR, COMO EX-DIRETOR DA PETROBRAS, A DEFENDE E TEM MUITO CLARO QUAL DEVE SER O PAPEL DELA NESTE MOMENTO.

Eu sou o único diretor fora da Petrobras deste governo. Estar fora da Petrobras, portanto, é ter a obrigação de dar o testemunho do que aconteceu lá dentro. “Porque os demais incumbentes, por mais que tenham consciência disso, não tem voz pública, porque se tiverem voz pública a sua garganta vai ser cortada”.

sábado, 27 de setembro de 2008

EM NOTA, ITAMARATY REPUDIA O PACTO EUROPEU DE IMIGRAÇÃO

Li no site do jornal “O Estado de São Paulo” o seguinte artigo de Denise Chrispim Marin:

EMBORA NÃO SEJA MENCIONADO NO TEXTO, GOVERNO BRASILEIRO DEVE ADOTAR PRINCÍPIO DE RECIPROCIDADE

“O governo brasileiro advertiu a Comissão Européia que o Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo, uma política de imigração mais dura que será aprovada em outubro próximo pelos países da União Européia, poderá gerar divisões entre o bloco e as Nações de origem dos imigrantes. Por meio de nota divulgada pelo Itamaraty na tarde desta sexta-feira, 26, o Brasil reiterou sua defesa do "direito de ir vir das pessoas" e informou que redobrará sua vigilância sobre as medidas desse Pacto que venham a afetar os brasileiros. O governo brasileiro cobrou ainda a União Européia a considerar que o Brasil acolheu "generosamente e sem discriminações" milhões de emigrados no passado, sobretudo europeus.

"A decisão dá seqüência a uma preocupante escalada de medidas tomadas em âmbito europeu que, a pretexto de combater a imigração ilegal e estimular a regularidade, reforçam predisposição negativa à migração, generalizam critérios seletivos e abrem margem a controles que, na prática, podem se revelar arbitrários e atentatórios aos direitos humanos", afirma a nota.

"(O Brasil) redobrará a vigilância em relação a medidas que possam afetar (os emigrados brasileiros) em violação a normas humanitárias e de convivência consagradas universalmente."

Embora não tenha sido mencionado no texto, o governo brasileiro adota o princípio da reciprocidade nas suas normativas sobre o acesso e o tratamento a cidadãos estrangeiros. Isso significa que as regras do Pacto que venham a atingir os brasileiros na União Européia tenderão a ser reproduzidas, no Brasil, para o tratamento de europeus em visita ou residentes no País. Esse foi um dos pontos fundamentais para o recente recuo dos britânicos, que pretendiam reativar a exigência de visto para os brasileiros.

O texto do Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo foi concluído em reunião, na quinta-feira, 25, dos ministros do Interior e da Imigração dos 27 países do bloco. O projeto acaba com a possibilidade de regularização coletiva da situação de imigrantes indocumentados, prevê a criação do cartão azul, uma versão européia do "green card" americano, e aumenta os controles de fronteira. O cartão azul abrirá uma brecha na normativa para facilitar o acesso à Europa de imigrantes com grau de escolaridade mais elevado - algo que, para os países de origem, significa o estímulo à fuga de cérebros. Entre as exigências aos candidatos ao cartão azul está o diploma universitário ou a experiência profissional de cinco anos em uma área específica.

Essa nova política européia complementa a Diretiva do Retorno, aprovada pelo Parlamento Europeu em junho passado, e que causou reações mundo afora. A Diretiva harmonizou os procedimentos de deportação - com a proibição de ingresso à União Européia por um prazo de cinco anos - e prevê a prisão de imigrantes ilegais por 18 meses. Na ocasião, o Itamaraty lamentou a adoção da Diretiva, por "criar uma percepção negativa da imigração" e por ser contrária a um "mais amplo e pleno convívio entre os povos".

AHMADINEJAD CRÊ QUE IMPERIALISMO DOS EUA ESTÁ 'PERTO DO FIM'

Li no site “vermelho”

“Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano, criticou a administração de George W. Bush, presidente dos EUA, dizendo que o "império americano está próximo do fim", em seu discurso na reunião anual da Assembléia Geral da ONU”.

"O império americano está atingindo o final do seu caminho e seus próximos governantes devem limitar a sua interferência às suas próprias fronteiras", disse o presidente iraniano na terça-feira (23), em Nova York.

Ele disse também que o regime sionista de Israel está a caminho do colapso. Em discurso ouvido por 120 líderes mundiais, Ahmadinejad afirmou que Israel estava manipulando europeus e americanos.

"O regime sionista está em rumo descendente a um colapso definitivo e não existe maneira de sair da fossa criada por si e seus aliados", declarou aos delegados.

Em relação ao programa nuclear do Irã, afirmou que o país iria "resistir" às provocações ocidentais, que tentam impedir que o país adquira tecnologia nuclear civil, um tema que provoca discussão entre os países ocidentais, alegando que o Irã poderá desenvolver armas nucleares.

"DEFENDENDO OS DIREITOS DO IRÃ"

Referindo-se aos Estados Unidos e seus aliados, ele disse que "se opõem ao progresso de outras nações e tendem a monopolizar essas tecnologias e usam esses e dos monopólios a fim de impor sua vontade sobre outras nações. O Irã continuará a defender os seus direitos", afirmou.

"A nação iraniana quer o diálogo. Mas não aceitou nem aceitará reivindicações ilegais", afirmou o presidente iraniano.

Marwan Bishara, principal analista político da al-Jazira em Nova York, acredita que o discurso de Ahmadinejad foi cheio de superficialidades e vazio em questões concretas.

"Ele esvaziou alguns elementos e não se aproximou de qualquer uma das questões cruciais e polêmicas que vivemos hoje — como a economia, a questão do Golfo ou o Iraque", comentou Bishara.

Bishara disse que Ahmadinejad estava tentando fazer um bom discurso islâmico, para dizer que "se [o Ocidente] não vai respeitar, em termos jurídicos, diferentes questões que diz respeito à comunidade internacional, ele vai realimentar essas coisas com um discurso religioso".

RAFAEL CORREA FAZ O QUE SERRA NÃO TEM CORAGEM

O jornalista Paulo Henrique Amorim ontem escreveu em seu blog “Conversa Afiada”:

“A Folha está uma fera com o presidente do Equador, Rafael Correa, que botou a Odebrecht para correr. Chama de “demagogo”, “teatral”, “bravateiro”. É tudo o que o presidente eleito José Serra deveria ser: demagogo, teatral e bravateiro, se tivesse um mínimo de coragem e enfrentasse a tragédia que foi a abertura da cratera da Linha 4 do metrô de São Paulo, onde morreram sete brasileiros.

A Odebrecht está lá, enterrada naquela cratera.. Na ilustre companhia da Andrade Gutierrez, Camargo, OAS e Queiroz Galvão. A fina flor do caixa-dois da política brasileira.

Lá no Equador, a Odebrecht construiu uma hidrelétrica que não dá luz. Aqui, a Odebrecht construiu um túnel que desabou por causa da chuva.

No Equador, o presidente da República manda a Odebrecht embora, prende os responsáveis pela obra malfeita, e ameaça não pagar o que deve por uma hidrelétrica que não dá luz.

Você pagaria, caro leitor? Ou pediria uma indenização?

O notável governador Leonel Brizola encampou uma empresa de energia do Rio Grande do Sul, a Bond & Share, em 1962, que também não dava luz.

O Serra paga tudo, contrata a Odebrecht para fazer mais obras, e fica mudo.

Até hoje, mesmo depois do laudo do IPT e do indiciamento proposto pelo Ministério Público Estadual, o presidente eleito não disse uma mísera palavra sobre a cratera do metrô.

Não tomou uma única medida que tivesse o efeito de punir ou recriminar publicamente os faltosos.

O Conversa Afiada quer deixar muito claro, caro leitor, que não contrataria a Odebrecht para derrubar uma parede no meu apartamento.

Corria o risco de derrubar o prédio, na primeira chuva.

Por isso, prefere a demagogia, a teatralidade e a bravata de Rafael Correa à pusilanimidade de José Serra.

AINDA AS REPERCUSSÕES DA CRISE

Li no site “Terra Magazine” o seguinte texto de Antonio Corrêa de Lacerda. É professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil" (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET. No seu artigo a seguir transcrito, agradece o apoio do economista Alexandre da Silva de Oliveira na pesquisa dos dados:

“Na coluna anterior, Como a crise afeta o Brasil (18/09/08), discuti a importância das decisões da política econômica local. Nesta semana, o agravamento da crise oriunda do mercado sub-prime norte americano acirrou o debate sobre os possíveis impactos para a economia brasileira. A economia cada vez mais globalizada o efeito contágio entre os mercados se amplia. Além disso, na nossa experiência histórica, sempre que havia uma turbulência internacional, isso diretamente implicava instabilidade e um freio no crescimento do Brasil, com a assim chamada restrição externa ao crescimento.

No entanto, houve, nos últimos anos, uma expressiva melhora nas condições macroeconômicas. A economia brasileira está melhor preparada para enfrentar os desafios oriundos da turbulência global. Apesar disso, alguns impactos serão inevitáveis.

Vale uma primeira consideração a respeito da profundidade e extensão dessa crise. Ninguém sabe ao certo até que ponto a turbulência pode chegar, porque isso depende de vários fatores: qual o sucesso das medidas adotadas pelos governos e bancos centrais, como reagem empresários, consumidores e investidores, entre outras variáveis.

A economia não vive só de fatores concretos e objetivos, mas também de aspectos subjetivos e comportamentais - as expectativas.

A economia norte-americana goza do privilégio de ser emissora exclusiva do dólar, ainda a moeda de referência internacional que concentra cerca de 75% de todas as transações mundiais e em torno de 65% das reservas cambiais dos bancos centrais dos demais países, estimadas em US$ 7 trilhões. A despeito da crise, o dólar e os títulos emitidos pelo tesouro norte-americano seguem exercendo o papel de refúgio para as aplicações, até mesmo pela falta de alternativas. Isso significa um importante trunfo para a recuperação da crise norte-americana.

Outro fator importante é extraordinária capacidade de inovação das empresas e do mercado financeiro daquele país, o que também poderá amenizar e encurtar a instabilidade, dependendo ainda dos fatores já apontados.

O governo norte americano anunciou, no último fim de semana, o envio ao Congresso de um pacote equivalente a US$ 700 bilhões que seria responsável por adquirir créditos podres do mercado imobiliário. O objetivo é limpar os empréstimos de alto risco que não têm sido pagos por cerca de cinco milhões de mutuários norte-americanos e propiciar maior liquidez aos mercados financeiros.

No entanto, até lá, deve mesmo prevalecer a volatilidade dos mercados, o encurtamento e encarecimento do crédito e suas conseqüências sobre bancos e empresas, afetando a economia real. O crescimento dos países emergentes, embora em ritmo menor do que os anos recentes, deve também contribuir para amenizar os impactos negativos advindos das economias centrais.

O BRASIL DIANTE DA CRISE

Para o Brasil, a grande mudança estrutural veio da substancial diminuição da dependência do petróleo. Isso se deveu a um bem sucedido programa de ampliação da produção de petróleo, assim como a mudança na matriz energética, com a incorporação do etanol e outras energias renováveis. Nossa dependência de importação de petróleo, que era de 90% do consumo interno nos dois choques da década de 1970, foi reduzida a apenas 5% nos tempos atuais.

Outra mudança veio da diversificação dos destinos de exportações. O Brasil ainda exporta pouco para o seu porte e depende excessivamente de commodities. No entanto, um fator positivo é que houve uma significativa diversificação de destinos das exportações. Apenas 15% se destinam aos EUA, enquanto 25% vão para Europa, 20% América Latina e 15% para Ásia, destacando os principais. Bem ao contrário do México, que dirige 90% das vendas externas para o mercado norte-americano.

Há ainda mudanças estruturais da economia brasileira que passam por fundamentos macroeconômicos mais sólidos, em comparação a períodos recentes de crises. O crescimento do PIB se acelerou nos anos recentes atingindo o nível de 6,0% a.a. (primeiro semestre de 2008), ante o crescimento mais modesto de 2,5% (1998-2002), o que proporcionou a redução do desemprego de 12,5% para 8,5%, calcado no aumento dos investimentos de 17% para 19%.

Houve ainda, no mesmo período, uma melhora nas condições externas, com a reversão do déficit na balança comercial, de US$ 7 bilhões, para um superávit de US$ 29,8 bilhões, um aumento do nível de reservas internacionais, de US$ 45 bilhões para US$ 205,1 bilhões, e a redução da dívida externa (pública e privada) de 29% para 14% do PIB.

A melhora destes indicadores significa maior estabilidade macroeconômica e a redução da vulnerabilidade externa do país. Isso não nos torna imunes às crise, mas o Brasil está melhor preparado para enfrentar os efeitos dos desdobramentos da crise no mercado de subprime norte-americano.

Os impactos previstos para o Brasil incluem a depreciação relativa e controlada do real, o encarecimento e restrição de crédito externo, o que afetará potencialmente a capacidade de financiamento das empresas brasileira. Nas contas externas haverá uma diminuição potencial das exportações, decorrente desaceleração do crescimento, ou mesmo recessão, em alguns mercados, além da queda dos preços das commodities, que perfazem cerca de 60% das nossas exportações.

Controlar a inflação vai ficar mais fácil, por outro lado, e o crescimento não será interrompido, porém desacelerado (PIB de 5,0% em 2008 e 4% em 2009). Nas finanças, o efeito da crise se dará, como já ocorre, no mercado de capitais, com a reprecificação de ativos e nos fluxos de capitais.

A qualidade da gestão e a calibragem da política macroeconômica também serão determinantes, especialmente agora, diante dos desafios e incertezas advindas do quadro internacional”

BUSH GOVERNA EM TERCEIRA DIMENSÃO, MAS SEM O ÓCULOS

Li ontem no “blog de um sem mídia” o texto a seguir transcrito, oriundo do Blog República Vermelha:

“QUANDO AGENTES DO SERVIÇO SECRETO DOS EUA DERAM A BUSH A NOTÍCIA QUE O WORLD TRADE CENTER HAVIA SIDO ATINGIDO E O PAÍS ESTAVA “SOB ATAQUE DE FORÇAS TERRORISTAS”, O PRESIDENTE ESTAVA FALANDO A CRIANÇAS SOBRE SUAS EXPERIÊNCIAS EM SEU TEMPO DE ESTUDANTE E COM UM LIVRO ÀS MÃOS”.

O livro estava de cabeça para baixo.

O documentário “Fahrenheit – 11 de setembro” do cineasta Michel Moore mostra George Walker Bush paralisado e sem ter a menor idéia do que fazer e só dez minutos depois foi retirado do local pelos agentes que lá estavam, ainda sem esboçar a menor reação. Todas as providências possíveis de serem tomadas no caso já haviam sido postas em prática pelo vice-presidente Dick Chaney.

A primeira providência real de Bush foi tomada por seu pai também George e ex-presidente, em acordo com Chaney, de retirar familiares de bin Laden do território norte-americano antes de fechar os aeroportos. Foi o único vôo a decolar de aeroportos dos EUA. Os bin Laden são sócios da famíia Bush e Chaney é executivo de empresas do conglomerado a que a família Bush pertence.

Bush foi eleito numa fraude que o mundo inteiro tomou conhecimento. Perdeu nos votos do eleitorado, o voto popular e “ganhou” no chamado Colégio Eleitoral (cada estado dos EUA tem um peso proporcional ao número de eleitores), exatamente no estado da Flórida, governado por seu irmão Jeb Bush e num processo que se arrastou até a Suprema Corte. Lá ganhou por um voto, já que a maioria dos ministros era de origem republicana.

A reeleição gerou suspeitas que a fraude, o mesmo sistema usado na Flórida, se repetiu no estado de Ohio, mas aí a realidade política era diversa. O presidente tinha a seu favor a propaganda “antiterrorista” e o clima de comoção no país por conta da guerra do Iraque.

A decisão de invadir o Afeganistão e o Iraque, ambas, foram tomadas em cima de mentira. Contrariaram decisões das Nações Unidas e se revelaram prática da política imperialista dos EUA. Ao longo desses oito anos Bush cuidou de expandir o império em função dos interesses dos grupos que representa, o que Eisenhower chamou de “complexo industrial e militar”, os que gerem e determinam, ao lado dos bancos, para onde vai a biruta ianque.

Em intervenção recente no Senado, na Comissão de Assuntos Estratégicos, Hilary Clinton calou os republicanos ao questionar a presença de soldados e instrutores dos EUA na Geórgia, o que provocou uma reação russa fulminante e colocou a Europa debaixo de sérias ameaças, inclusive a de corte do gás fornecido pelos russos.

A chanceler da Alemanha não quer nem ouvir e nem conversar com Bush pois atribui a crise que atinge a Comunidade à irresponsabilidade do presidente norte-americano. A crise é dele, ele que se vire, foi mais ou menos o que disse a jornalistas.

Os Estados Unidos estão falidos. Quebrados. Bush governa como se estivesse num filme de terceira dimensão sem os óculos adequados.

Pelo menos treze bancos já foram à falência, mais de 200 mil pessoas perderam suas casas, a bolsa está com rombos cada vez maiores, o presidente não sabe para que lado vai, não tem a menor idéia de nada. Quebrou os negócios da família em tempos passados, agora quebrou o país (mas a família está salva). Os índices de desemprego começam a escalada vertiginosa que é típica do capitalismo. Fundos de pensões falidos não conseguirão honrar seus compromissos nessa conversa fiada de privatização (Lula quer privatizar por aqui algumas coisas) e Bush quer repartir a conta de mais de um trilhão de dólares, a curto prazo, repita-se, a curto prazo, com o resto do mundo.

Tem o médio e o longo prazos ainda. A real extensão do desastre provocado por George Walker Bush não é passível de previsão.

O dólar acabou como afirma o professor e economista Carlos Lessa. E Bush vai querer que esse dólar, agora ouro de tolos, seja pago por países como o Brasil, no equilibrismo do governo Lula que nem é e nem deixa de ser. Era previsível deste Breton Woods, tempos de Nixon.

Homer Simpson, o simpático e genial idiota da série Os Simpsons, típico cidadão norte-americano que acredita no McDonalds, num dos episódios recentes, ao ser informado sobre os donos do mundo, pergunta: “quem, os chineses?”

E nem é bom que George Walker Bush, a essa altura imerso em montanhas de cerveja e pretzel, seu esquema para crises, nem coloque o óculos para ver o filme como deve ser visto, do contrário vai se apavorar quando perceber que Wall Street está desmoronando e John Wayne não existe mais.

Por aqui é bom tomar cuidado. É nesses momentos que gente como Bush e o que ele representa costuma criar armas químicas e biológicas inexistentes e terroristas que ninguém sabe onde estão, para justificar golpes de estado (Bolívia, Venezuela, Equador, Paraguai) e mostrar-se ao mundo como campeão da democracia.

Se você pensa que o trem descarrilou só por lá, espere até a conta chegar nessa conversa fiada de privatização e globalização. E não adianta bater na porta de FHV (Fernando Henrique Vende), o principal responsável por isso por nossas bandas, pois ele não atende.

Bem fazia Churchill que enchia a cara, mas de uísque escocês, fumava charutos cubanos e dava em cima das secretárias, das garçonetes, das copeiras, das faxineiras, das condessas, duquesas, etc, de quebra chamava o almirantado de um “um bando de idiotas”, mas se agüentava e carregou a Grã Bretanha nas costas.

Ou, justiça seja feita, Stalin que ante a perplexidade de Kruschov quando da invasão alemã e depois de três ou quatro dias de porres seguidos, mandou o ucraniano calçar-lhe as botas e disparou: “bando de covardes, nem para aproveitar a chance e dar um golpe, me matar. Calce minhas botas que eu vou ganhar a guerra”.

E ganharam. Churchill e Stalin. Hitler era vegetariano”.

O NEOLIBERALISMO ACABOU?

O autor do artigo abaixo transcrito é Emir Sader.

Com dados obtidos na internet (Wikipedia e outros), já postei neste blog um resumo da biografia de Emir Sader. Repito:

“Nasceu em São Paulo, no ano de 1943. Formou-se em Filosofia na Universidade de São Paulo. Fez Mestrado em Filosofia Política e Doutorado em Ciência Política, ambos na Universidade de São Paulo. Na mesma universidade, trabalhou como professor, primeiro de filosofia, depois de ciência política. Foi, ainda, pesquisador do Centro de Estudos Sócio Econômicos da Universidade do Chile, professor de Política na UNICAMP e coordenador do Curso de Especialização em Políticas Sociais na Faculdade de Serviço Social da UERJ. Atualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, onde é professor de sociologia.”

Vejamos o texto postado ontem no site “Carta Maior”:

“O neoliberalismo se constituiu em um novo modelo hegemônico na história do capitalismo, sucedendo ao modelo regulador – keynesiano ou de bem-estar social, como se queira chamá-lo. Fez seu diagnóstico do esgotamento do modelo anterior e se propôs reorganizar o sistema capitalista no seu conjunto, conforme seus princípios liberais reciclados para o novo período histórico do capitalismo.

Foi um modelo absolutamente hegemônico, logrando estender-se da forma mais universal possível: da Europa Ocidental ao EUA, da América Latina à China, da Europa Oriental à África, da Rússia ao sudeste asiático.

Teve crises precoces – ao longo da década de 1990, no México, no sudeste asiático, na Rússia, no Brasil, na Argentina – mas se manteve hegemônico, sem nenhum outro projeto alternativo que lhe disputasse hegemonia. Suscitou grandes mobilizações contrárias – como as iniciadas em Seattle, que desembocaram nos Foros Social Mundiais -, seguiu tropeçando, como na OMC, no enfraquecimento do FMI e do Banco Mundial, mas continuou a ser o único modelo globalizado. Depois de algum tempo, a proposta híbrida da China permitiu surgir a expressão Consenso de Pequim, no lugar do de Washington, mas girando sempre em torno de adequações às políticas de livre comércio.

Potências centrais do capitalismo já haviam sido vítimas das desregulação e do poder de ataque do capital especulativo, entre elas a Grã-Bretanha, na década de 80, vítima do mega-especulador George Soros. Mas todo ataque especulativo tinha aos EUA como beneficiário, toda fuga de capitais tinha a Bolsa de Valores de Nova York como refúgio. Sabia-se que essa farra especulativa só poderia encontrar um limite no momento em que o principal beneficiário dela fosse também vítima. Esse momento chegou.

As medidas emergenciais, como sempre, ferem a doutrina neoliberal, com intervenções diretas e maciças do Estado – como já vinha acontecendo desde a primeira crise neoliberal, a do México em 1994. Mas elas significam o fim do neoliberalismo? É possível a retomada de processos regulatórios globais – um novo Bretton Woods - que brequem estruturalmente a livre circulação de capitais e a revertam os processos de desregulação econômica, essência mesma do neoliberalismo?

Nada indica que isso seja possível. Não existe uma lógica racional do sistema capitalista, que faça com que seus agentes – de grandes corporações a Estados dominantes – ajam conforme uma lógica superior do sistema. Essa é uma de suas contradições estruturais, aquela entre dominação global e apropriação privada.

Trata-se de uma grande crise capitalista, já se diz que a maior desde a de 1929, que pode abrir caminho à construção de um modelo alternativo. Mas por enquanto não se vislumbra nenhum modelo que possa ter esse papel, nem sequer de maneira embrionária, no horizonte, no máximo versões híbridas, como as políticas econômicas da China ou do Brasil. A própria proliferação de governos conservadores, nada inovadores sequer em suas políticas, no centro do capitalismo, indica que nada de novo pode vir deles em substituição do modelo esgotado.

Tudo indica portanto que, entre a crise do modelo precocemente envelhecido e as dificuldades de surgimento de um novo, mediará um período mais ou menos longo de instabilidades, de sucessão de crises, de turbulências.

Porque o que se esgota é não apenas um modelo hegemônico, é também a hegemonia política dos EUA – os dois pilares de sustentação do novo período político, que substituíram ao modelo regulador e à bipolaridade mundial. E também neste plano, não surge no horizonte uma nova potência ou um conjunto delas, em condições de exercer uma nova hegemonia.

O neoliberalismo não termina, mas se esgota, abrindo um período de disputa por alternativas, em que por enquanto só se vê na América Latina aparecerem propostas de sua superação. Ganha assim a região um protagonismo – junto com a China – na projeção do futuro do mundo em toda a primeira metade do novo século, na disputa entre o velho que se recusa a morrer e produz crises e suas conseqüências por todos os lados, e o novo, que começa a anunciar o posneoliberalismo, um mundo solidário, desmercantilizado, humanista, de que o Forum Social Mundial de Belém – de 27 de janeiro a 1° de fevereiro – será uma mostra pluralista e vigorosa das alternativas ao neoliberalismo”.

PETROBRAS ENCONTRA ÓLEO LEVE NA BACIA DE SANTOS ACIMA DA CAMADA DE SAL

Rafael Rosas, do Valor Online, escreveu e ontem o UOL publicou:

“A Petrobras comprovou a presença de óleo no poço 1-BRSA-658-SPS (1-SPS-57), localizado ao sul da Bacia de Santos, em reservatórios arenosos acima da camada de sal.

Embora não esteja situado no pré-sal, essa descoberta, segundo fato relevante enviado pela companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), "confirma o bom potencial de óleo leve nas porções de águas rasas daquela bacia". Segundo a empresa, o volume de óleo recuperável na região pode ser de cerca de 150 milhões de barris de óleo equivalente.

O poço situa-se no bloco S-M-1289 da concessão BM-S-40, no qual a Petrobras detém 100% de participação. O bloco está localizado a cerca de 200 quilômetros da costa do Estado de São Paulo, em lamina d'água de 274 metros, e fica a 9,3 quilômetros da primeira descoberta na região, no poço 1-SPS-56, no prospecto de Tiro, que foi anunciada em maio deste ano.

"Embora ainda esteja na fase preliminar de avaliação, a empresa, baseada nos dois poços e nas anomalias dos dados sísmicos, estima que o volume recuperável de óleo nessa área seja de aproximadamente 150 milhões de barris de óleo equivalente", diz o fato relevante.

Os reservatórios descobertos são do tipo arenoso e estão situados a aproximadamente 2.060 metros de profundidade. Segundo a Petrobras, a produtividade dos reservatórios será avaliada imediatamente por meio de um teste de formação a poço revestido.

"As dimensões das descobertas feitas por esses poços só serão definidas após Plano de Avaliação que será proposto à Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), conforme determina o contrato de concessão BM-S-40", diz o fato relevante.”

DESEMPREGO CAI PARA 7,6%, SEGUNDA MENOR TAXA DA SÉRIE

Li no UOL:

“O desemprego caiu mais que o esperado em agosto e foi o segundo menor da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2002. A taxa ficou em 7,6% em agosto, inferior aos 8,1% registrados em julho e aos 9,5% de agosto do ano passado.

Analistas consultados pela agência de notícias Reuters estimavam que a taxa ficaria em 8%.

O desemprego foi o menor para meses de agosto e o segundo menor de toda a série, atrás apenas de dezembro do ano passado (7,4%). No último mês do ano, o desemprego tende a ser sempre menor.

Em números absolutos, a população ocupada já abrange 21,8 milhões de trabalhadores, número 0,7% maior o que o verificado em julho e 3,7% superior ao de agosto do ano passado. Entre eles, 9,6 milhões têm carteira assinada no setor privado, alta de 5,8% sobre um ano atrás.

A população desocupada é de 1,8 milhão, o que representa uma queda de 6,1% em relação a julho e 19,2% ante agosto do ano passado.

A renda dos trabalhadores também apresentou aumento, segundo o IBGE. O rendimento médio real atingiu R$ 1.253,70, alta de 2,1% em relação a julho e 5,7% sobre um ano atrás”.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A CRISE DE WALL STREET EQUIVALE À QUEDA DO MURO DE BERLIM

Li no site “Carta Maior”, ontem, a seguinte matéria de Nathan Gardels, do jornal espanhol El País, traduzido por Marco Aurélio Weissheimer:

“Para o prêmio Nobel de Economia de 2001, a crise financeira que atingiu Wall Street e os mercados financeiros de todo o mundo equivale, para o fundamentalismo de mercado, ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. "Ela diz ao mundo que esse modelo não funciona. Esse momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas", diz Stiglitz.

Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, sustenta que a crise de Wall Street evidencia que o modelo de fundamentalismo de mercado não funciona. Para ele, a crise que sacudiu Wall Street é para esse modelo o equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. Stiglitz critica a complexidade dos produtos financeiros que provocaram a crise e os incentivos ao risco dos sistemas de recompensa dos executivos.

BARACK OBAMA AFIRMA QUE O NAUFRÁGIO DE WALL STREET É A MAIOR CRISE FINANCEIRA DESDE A GRANDE DEPRESSÃO. JOHN MCCAIN DIZ QUE A ECONOMIA ESTÁ AMEAÇADA, MAS É BASICAMENTE FORTE. QUAL DELES TÊM RAZÃO?

STIGLITZ – Obama está muito mais próximo da verdade. Sim, os Estados Unidos tem talentos, grandes universidades e um bom setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenham um papel muito importante, sendo responsáveis nos últimos anos por cerca de 30% dos lucros empresariais. Os executivos dos mercados financeiros obtiveram esses lucros com o argumento de que estavam ajudando a gerir o risco e a garantir maior eficácia ao capital. Por isso, diziam, mereciam rendimentos tão altos. Ficou demonstrado que isso não é certo. A gestão que eles executaram foi muito mal. Agora, o tiro saiu pela culatra e o resto da economia pagará porque as trocas comerciais cairão devido à redução do crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um setor financeiro vibrante.

Assim, o diagnóstico de Obama, quando diz que nosso setor financeiro está em estado deplorável, é correto. E se está em um estado deplorável, isso significa que nossa economia está em um estado deplorável. Ainda que não levássemos em conta a comoção financeira, mas só a dívida doméstica, nacional e federal, isso já bastaria para ver a seriedade do problema. Estamos nos afogando. Se observarmos a desigualdade, que é a maior desde a Grande Depressão, o problema é sério. Se observarmos o estancamento dos salários, o problema é sério. A maior parte do crescimento econômico dos últimos cinco anos baseava-se em uma bolha do setor imobiliário, que agora estourou. E os frutos desse crescimento não foram repartidos amplamente. Em resumo, os fundamentos não são bons.

QUAL DEVERIA SER, NA SUA OPINIÃO, A RESPOSTA POLÍTICA AO AFUNDAMENTO DE WALL STREET?

STIGLITZ – Está claro que necessitamos não só voltar a regular, mas também redesenhar o sistema regulador. Durante seu reinado como chefe do Federal Reserve, no qual surgiu essa bolha hipotecária e financeira, Alan Greenspan tinha muitos instrumentos ao seu alcance para freá-la, mas não conseguiu fazer isso.

Afinal de contas, Ronald Reagan escolheu-o por sua atitude contrária à regulação. Ele substituiu a Paul Volcker no Federal Reserve, conhecido por manter a inflação sob controle. O governo Reagan não acreditava que ele fosse um “liberalizador” adequado. Por conseguinte, nosso país sofreu os efeitos de escolher como regulador supremo da economia a alguém que não acreditava na regulação. De modo que, para corrigir o problema, a primeira coisa que precisamos é de líderes políticos e responsáveis que acreditem no papel da regulação. Além disso, precisamos estabelecer um sistema novo, capaz de suportar a expansão das finanças e dos instrumentos financeiros de um modo melhor que os bancos tradicionais.

Precisamos, por exemplo, regulamentar os incentivos. Eles têm que ser pagos baseando-se nos resultados de vários anos, e não no de apenas um, porque este último modelo fomenta as apostas. As opções de compra de ações fomentam a adulteração da contabilidade e é preciso frear essa prática. Em resumo, oferecemos incentivos para que se alimentasse um mau comportamento no sistema.

Além de freios, precisamos de faixas de controle. Historicamente, todas as crises têm estado associadas a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos. Se conseguimos frear esse processo, podemos impedir que as bolhas cresçam de modo descontrolado. O mundo não desapareceria se as hipotecas crescessem 10% e não 25% anualmente. Conhecemos tão bem o patrão que deveríamos fazer algo para dominá-lo. Precisamos ainda de uma comissão de segurança para os produtos financeiros, assim como temos no caso dos produtos de consumo. O setor financeiro estava inventando produtos que não geriam o risco, mas sim o produziam.

Certamente, acredito na necessidade de uma maior transparência. No entanto, desde o ponto de vista dos critérios reguladores, esses produtos eram transparentes em um sentido técnico. Mas eram tão complexos que ninguém os entendia. Mesmo que fossem tornadas públicas todas as cláusulas destes contratos, elas não trariam a nenhum mortal alguma informação útil sobre seu risco. Muita informação equivale a nenhuma informação. Neste sentido, aqueles que pedem mais revelações como solução para o problema não entendem a informação. Se alguém compra um produto, necessita de uma informação simples e básica: qual é o risco. Essa é a questão.

OS ATIVOS HIPOTECÁRIOS QUE PROVOCARAM O CAOS ESTÃO EM MÃOS DE BANCOS OU FUNDOS SOBERANOS DA CHINA, JAPÃO, EUROPA E PAÍSES DO GOLFO. COMO ESSA CRISE OS AFETARÁ?

STIGLITZ – É certo. As perdas das instituições financeiras européias com as hipotecas subprime foram maiores do que as verificadas nos Estados Unidos. O fato de os EUA terem diversificado esses ativos hipotecários por todo o mundo, graças à globalização dos mercados, suavizou o impacto interno. Se não tivéssemos disseminado o risco por todo o mundo, a crise seria muito pior. Uma coisa que agora se entende, a conseqüência dessa crise, é a informação assimétrica da globalização. Na Europa, por exemplo, não se sabia muito bem que as hipotecas norte-americanas são hipotecas sem lastro: se o valor da casa baixa mais que o da hipoteca, pode-se devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa serve de garantia, mas o tomador do empréstimo segue endividado, aconteça o que aconteça. Este é um dos perigos da globalização: o conhecimento é local, sabe-se muito mais sobre sua própria sociedade do que sobre as outras.

QUAL É ENTÃO, EM ÚLTIMA ANÁLISE, O IMPACTO DO NAUFRÁGIO DE WALL STREET NA GLOBALIZAÇÃO REGIDA PELO MERCADO?

STIGLITZ - O programa da globalização esteve estreitamente ligado aos fundamentalistas do mercado: a ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira. Nesta crise, observamos que as instituições mais baseadas no mercado da economia mais baseada no mercado vieram abaixo e correram a pedir a ajuda do Estado.

Todo mundo dirá agora que este é o final do fundamentalismo de mercado. Neste sentido, a crise de Wall Street é para o fundamentalismo de mercado o que a queda do Muro de Berlim foi para o comunismo: ela diz ao mundo que este modo de organização econômica é insustentável. Em resumo, dizem todos, esse modelo não funciona. Este momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas.

A hipocrisia entre o modo pelo qual o Tesouro dos EUA, o FMI e o Banco Mundial manejaram a crise asiática de 1997 e o modo como procedem agora acentuou essa reação intelectual. Agora os asiáticos dizem: “Um momento, para nós, vocês disseram que deveríamos imitar o modelo dos Estados Unidos. Se tivéssemos seguido vosso exemplo, agora estaríamos nesta mesma desordem. Vocês, talvez, possam se permitir isso. Nós, não”.

PETROBRAS DESCOBRE NOVA JAZIDA DE ÓLEO E GÁS NO PRÉ-SAL

Jussara Seixas postou ontem no seu blog “Por um novo Brasil” a seguinte notícia da Agência Brasil

"A Petrobras encontrou uma grande jazida de gás natural e óleo leve na camada do pré-sal ao concluir a perfuração do poço, conhecido como Júpiter, na Bacia de Santos. A informação foi divulgada em nota oficial pela estatal. Confirma, assim, a descoberta destas reserva anunciada em 21 de janeiro deste ano.

A empresa informa que o poço Júpiter está localizado a 290 km da costa do Estado do Rio de Janeiro e a 37 km a leste da área do Tupi, em profundidade d’água de 2.187 metros. A profundidade final atingida foi de 5.773 metros a partir da superfície do mar.

“A perfuração do poço, que por razões operacionais havia sido interrompida em janeiro, foi aprofundada e constatou a continuidade de reservatórios de gás natural e óleo leve, e de elevado teor de gás carbônico (CO2).

Várias amostras de petróleo foram recuperadas e se encontram em análise no Centro de Pesquisa da Petrobras - CENPES para melhor caracterizar as percentagens relativas de seus componentes. Quando em produção, o CO2, preliminarmente identificado, não será descartado para a atmosfera, mas reinjetado, contribuindo assim para o aumento do fator de recuperação de petróleo nestes reservatórios”, diz a Petrobras em nota.

A descoberta do poço já foi comunicada à Agência Nacional do Petróleo”.

93,7% DOS JOVENS CONSIDERA INFORMAÇÃO DE BLOG RELEVANTE

E-MAIL DEVE SER EXTINTO ATÉ 2015, DIZ ESPECIALISTA

Li ontem no site “vermelho”, que extraiu da Fonte Adnews, o artigo que transcrevo a seguir:

“Os hábitos digitais das novas gerações podem levar ao fim do e-mail em no máximo sete anos. A previsão foi feita pelo gerente de novas tecnologias aplicadas da IBM Brasil, Cezar Taurion, durante painel realizado no 17º Congresso Nacional de Auditoria de Sistemas, Segurança da Informação e Governança (CNSAI).

A chamada Geração Y — formada por jovens que já nasceram na era da internet — tem postura diferente diante da tecnologia. A entrada desses jovens no mercado de trabalho levará ao uso de novas ferramentas como wikis, redes sociais, comunicadores instantâneos e grupos de trabalho on-line.

Taurion acredita que apenas a geração conhecida como Baby Boomers, formada por pessoas nascidas após o fim da Primeira Guerra Mundial, continuarão a utilizar a ferramenta. "Hoje, a média etária dos usuários de e-mail é de 47 anos", acrescenta.

De acordo com uma pesquisa realizada em 2005, apenas 6,3% dos jovens não consideravam relevantes informações obtidas em blog, demonstrando a enorme credibilidade da ferramenta.

"A comunicação é muito melhor compartilhada por meio de comunidades. Na IBM o profissional cria o blog que desejar, sem sequer pedir autorização a ninguém", completou o gerente.

BUSH, DIREITOS HUMANOS E A TORTURA TERCEIRIZADA

Li no site “Vermelho” o artigo abaixo, do blog do Argemiro Ferreira

"Na sessão de abertura dos debates da Assembléia Geral da ONU, na última terça-feira (23), Bush dedicou boa parte de seu discurso a atacar outros países como violadores dos direitos humanos. O problema é que a versão dele de direitos humanos é subjetiva e singular, pois justifica as torturas se o pretexto é 'salvar vidas americanas' ".

Num dos capítulos do livro O Império Contra-Ataca — As guerras de George W. Bush, antes e depois do 11/9, lançado há quase quatro anos pela editora Paz e Terra, contei a história do cidadão canadense Maher Arar, sírio de nascimento, e de outras vítimas do assalto às liberdades civis nos EUA durante o governo Bush — e em especial no período do Procurador Geral e ministro da Justiça John Ashcroft.

Ironicamente, o caso de Arar reapareceu na mídia internacional no mesmo momento em que o presidente George W. Bush era contestado por quatro senadores de seu próprio partido — entre eles John McCain, atual candidato presidencial e ex-prisioneiro de guerra no Vietnã, e John Warner, então presidente da comissão das Forças Armadas - por tentar “reinterpretar”, com uma lei americana, o real significado da convenção de Genebra sobre o tratamento de presos.

Depois, Bush e os senadores chegaram ao que parece ter sido um acordo de cavalheiros, dando luz verde à CIA e aos militares para continuarem a prática de torturas como o waterboarding, proibidas pela convenção de Genebra (veja uma reconstituição na foto acima e saiba mais AQUI sobre essa técnica, que vem da Inquisição espanhola). A alegação foi de que tais torturas são “suaves”, não exatamente torturas mas apenas “interrogatórios rigorosos” – indispensáveis, segundo Bush, para arrancar informações preciosas de presos e “salvar vidas americanas”.

A MESMA DESCULPA DE SEMPRE

Na sessão de abertura dos debates da Assembléia Geral da ONU, na última terça-feira (23), Bush dedicou boa parte de seu discurso a atacar outros países como violadores dos direitos humanos. O problema é que a versão dele de direitos humanos é subjetiva e singular, pois justifica as torturas se o pretexto é “salvar vidas americanas”. O presidente Harry Truman, que mereceu breve citação no discurso, justificara da mesma forma o uso de bombas atômicas em Hiroxima e Nagasaki — não contra militares japoneses e sim populações civis.

Segundo Truman, as bombas reduziram o número de baixas americanas no esforço final para forçar a rendição japonesa - o que não foi o caso. O comandante supremo das forças aliadas na Europa, Dwight Eisenhower, considerou desnecessário “ameaçar com aquela coisa pavorosa o Japão”, que só buscava uma forma de render-se com um mínimo de dignidade. O general Douglas MacArthur, comandante no Pacífico, considerou mais tarde que, do ponto de vista militar, aquelas bombas foram totalmente desnecessárias.

“Os japoneses já estavam derrotados e prontos para a rendição”, escreveu em suas memórias o almirante William Daniel Leahy. “O uso da arma bárbara em Hiroxima e Nagasaki não foi qualquer ajuda material em nossa guerra com o Japão”. George Marshall, general que tinha chefiado o Estado Maior, afirmou que a entrada dos soviéticos na guerra do Pacífico contra japoneses já desesperados é que fora a ação decisiva.

A TERCEIRIZAÇÃO DA TORTURA

Depois do 11/9, Bush abraçou a política do medo como uma maneira de ocultar as falhas das agências de inteligência em seu governo e continuou a fazê-lo, em especial na campanha da reeleição em 2004. Até hoje ainda se agarra a isso, como ficou claro no discurso. Insiste em repetir - ao mundo, como ontem, e também aos americanos - que é preciso torturar presos a fim de arrancar informações. E até aqueles senadores republicanos que resistiam acabaram por aceitar o jogo.

Enquanto se desdobrava há dois anos o debate sobre a lei bushista que “reinterpretava” dispositivos da convenção de Genebra, chegou uma notícia do Canadá, onde a Justiça analisava então a queixa do sírio-canadense Maher Arar: a Polícia Montada do país tinha dito aos EUA que Arar era “extremista islâmico” - o que levara à sua prisão no aeroporto de Nova York e posterior entrega à Síria, para a “tortura terceirizada”.

Arar fora preso em meio a protestos desesperados. De nada adiantou jurar às autoridades dos EUA que só podia ser erro de identidade, pois nunca tinha sido extremista, era apenas um pacato pai de família. Os investigadores optaram por não se dar ao trabalho de checar de novo a informação no Canadá: ele passou 12 dias sob interrogatório no Centro de Detenção do Brooklyn, em Nova York, e depois foi enviado à Síria, com escala (e mais tortura) na Jordânia.

Certamente é para continuar esse tipo de tratamento de suspeitos detidos que o governo Bush insistiu depois em inventar a lei americana destinada a reinterpretar a convenção de Genebra. Arar, engenheiro de telecomunicações e empresário, pai de duas crianças pequenas, tinha 31 anos quando viveu esse drama — apenas duas semanas depois do 11/9. Seu avião tinha feito escala em Nova York, num vôo de volta da Suíça.

UMA TEMPORADA NO INFERNO

Ao ser levado para o Brooklyn como suspeito de terrorismo, Arar não teve sequer permissão para falar (nem por telefone) com a família, representante consular ou advogado. Semanas depois foi “passageiro” de um dos vôos secretos da CIA para a Síria - que sequer tinha boas relações com os EUA (ontem mesmo foi citada por Bush como “estado terrorista”). Só depois de passar mais de um ano na prisão ele afinal pôde voltar ao Canadá, assim mesmo graças a uma indignada campanha popular.

“Nunca tive qualquer problema com a Polícia, fui sempre um bom cidadão. Simplesmente não posso acreditar que isso tenha acontecido comigo. Destruíram minha vida e minha carreira”, disse Arar, ao iniciar processos contra os governos dos EUA, Síria e Jordânia pela sua temporada de 12 meses no inferno. Esse foi um dos episódios que devassaram a nova política Bush de “terceirização da tortura”.

Há sete anos, logo depois do 11/9, o governo Bush iniciou essa política de exportação de suspeitos para serem torturados em outras países (Egito, Arábia Saudita, Marrocos, Jordânia, Paquistão, Síria, Uzbequistão e Indonésia, entre outros), com os quais os EUA trocavam informações de inteligência. A prática foi batizada oficialmente de extraordinary rendition (entrega extraordinária). Seus críticos preferem chamá-la de outsourcing torture (terceirização da tortura).

Quanto ao caso Arar (na foto ao lado ele aparece com a filha), o Canadá fez acordo para por fim ao processo, declarou oficialmente que ele nada tem a ver com terrorismo e pagou indenização superior a US$10 milhões. Mas nos EUA, onde o caso Arar v. Ashcroft ainda continua (conduzido, em nome da vítima, por advogados do Centro de Direitos Constitucionais), é pleiteada uma indenização e a declaração formal de que as atos do governo Bush contra Arar foram ilegais e violaram seus direitos civis, constitucionais e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ele ainda é mantido cinicamente nas listas de pessoas proibidas de entrar no país.”

COMO FICA O BRASIL?

Paulo Nogueira Batista Jr. escreveu e o jornal Folha de São Paulo ontem publicou o artigo a seguir transcrito. O autor é Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).

A economia está bastante sólida e deve atravessar a crise razoavelmente bem, mas todo o cuidado é pouco

“A crise aqui nos Estados Unidos afetará o Brasil? Essa é a pergunta mais importante para nós. Os mercados financeiros brasileiros já estão acusando o golpe, mas a questão é saber se a turbulência contaminará a economia real.

A resposta depende, evidentemente, dos desdobramentos da crise. Há muitas incógnitas.

Por exemplo: o resgate de até US$ 700 bilhões será rapidamente aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos? E, se aprovado, poderá evitar o colapso do sistema financeiro? Não se pode excluir um cenário-catástrofe, mas parece razoável admitir que o resgate venha a ser aceito sem grande demora pelos parlamentares, ainda que com modificações importantes.

O custo para o contribuinte americano será provavelmente estratosférico. Por isso mesmo, predomina a expectativa de que o plano do secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, será capaz de salvar Wall Street. A instabilidade persistirá, não só nos Estados Unidos como em outros países, mas a gigantesca intervenção do Estado deve evitar o pior: a desintegração do sistema financeiro, a exemplo do que ocorreu na década de 1930.

Nesse cenário, o Brasil deve atravessar a crise razoavelmente bem. A economia do país está bastante sólida. No exterior, as avaliações sobre o Brasil continuam positivas.

A maioria dos indicadores parece dar razão a essas avaliações. A economia está em expansão, e os investimentos produtivos cresceram no passado recente. O déficit fiscal é pequeno (apesar da carga de juros) e a dívida pública vem diminuindo como proporção do PIB (Produto Interno Bruto) e da receita tributária. Como o governo é credor líquido em moeda estrangeira, a depreciação cambial ajuda a melhorar as suas contas.

A inflação está aparentemente sob controle. As expectativas de inflação vêm caindo há várias semanas, de acordo com o relatório de mercado publicado pelo Banco Central. Entre os países que adotam o regime de metas, o Brasil é um dos poucos, talvez o único, a manter a inflação abaixo do teto da meta.

Além disso, o sistema financeiro nacional parece seguro. Nunca se sabe com total certeza, posto que a opacidade é a regra nesse terreno. Mas não há evidências de que os bancos brasileiros tenham se envolvido nas aventuras financeiras que vitimaram seus congêneres americanos. Uma razão é que o mercado local, com suas taxas de juro exorbitantes, sempre proporcionou amplas oportunidades de lucro para as instituições brasileiras.

O nosso ponto fraco talvez seja a rápida deterioração do balanço de pagamentos em conta corrente. Essa deterioração se deve em parte à própria crise externa. A remessa de lucros e dividendos para o exterior, por exemplo, aumentou de maneira extraordinária. O Banco Central calcula que ela possa chegar a nada menos que US$ 34 bilhões em 2008. Vários setores, notadamente bancos e montadoras de automóveis, estão remetendo grandes montantes para cobrir resultados negativos em suas matrizes.

O Banco Central projeta um déficit em conta corrente de US$ 33 bilhões em 2009. Com o agravamento da situação financeira mundial, será mais difícil financiá-lo. A instabilidade externa pode levar também a saídas de capitais do país, tensionando o mercado cambial e os mercados financeiros domésticos.

Em resumo, ainda que a posição brasileira seja basicamente forte, todo cuidado é pouco”.

CONFIANÇA DO BRASIL ACUMULA PROBLEMAS PARA O FUTURO

O jornal inglês “Financial Times”, em artigo de Jonathan Wheatley, ontem publicou o texto que a seguir transcrevo parcialmente (li no UOL, com tradução de George El Khouri Andolfato):

“Os líderes do mundo desenvolvido, sofrendo de desdém e escárnio dos eleitores à medida que suas economias balançam, podem olhar com inveja nesta semana para seu colega do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Apesar da ameaça de recessão mundial e dela poder arranhar a recente prosperidade do Brasil, Lula está desfrutando de uma onda de aclamação. Uma pesquisa de opinião nesta semana apontou seu índice de popularidade pessoal em 78%.

"Lula tem sido realmente bom para os pobres", disse Adeilda Alves Costa, uma empregada doméstica de 31 anos que se mudou do sertão do Nordeste para São Paulo. "No sertão, o governo acabou com a pobreza das pessoas", ela disse. Mas os críticos dizem que Lula também é o presidente mais sortudo da história brasileira.

Assim como o Brasil se beneficiou do aumento nas taxas de crescimento globais e dos mercados de crédito nos últimos anos, a recente inversão da tendência de crescimento e crédito paradoxalmente poderá se revelar benéfica.

Nos últimos meses a economia parecia correr o risco de superaquecer, com a inflação subindo para mais de 6% - muito além da meta de 4,5% do governo - por causa de um aumento no consumo. Os economistas dizem que a crise de crédito poderá esfriar a economia sem reduzir demais o crescimento.

"Os efeitos (da crise financeira mundial) serão muito mais benignos aqui do que nos países desenvolvidos", disse o economista-chefe de um grande banco estrangeiro em São Paulo. "Nós esperamos que o crescimento diminua de 5,4% neste ano para 3,5% no próximo ano. Em comparação ao crescimento mundial de cerca de 1% em 2009, isso é excelente."

Os economistas ainda temem que uma mudança desorganizada nas circunstâncias possa ter conseqüências imprevistas. "Nada que ocorra como surpresa pode ser vista como positiva", disse Giovanna Rocca Siniscalchi, uma economista do Unibanco, um banco brasileiro.

Mas a primeira reação do Unibanco aos eventos das duas últimas semanas, assim como muitas outras instituições, foi revisar para baixo sua expectativa de aumento nas taxas de juros. Apesar de a maioria esperar a continuidade do atual ciclo de alta (a taxa referencial Selic subiu de 11,25%, em junho, para os atuais 13,75%), eles acreditam que ela parará em 14,75% no final do ano.

O Brasil pode ser creditado como responsável por muito de sua própria sorte. Augusto de la Torre, economista-chefe para América Latina e Caribe do Banco Mundial, disse que o Brasil passou os últimos 15 anos introduzindo três coisas que permitiram que se integrasse com segurança aos mercados mundiais de capital: um fortalecimento significativo do banco central, um sistema de câmbio mais flexível e o desenvolvimento de mercados de dívida em moeda local.

No início desta década, o Brasil desfrutou de um boom de exportação nascido do aumento da demanda mundial por seus commodities e produtos manufaturados. À medida que a demanda começou a diminuir nos últimos dois anos, a demanda doméstica começou a crescer. Uma década de estabilidade econômica resultou na criação de empregos e crédito mais barato, enquanto políticas sociais bem direcionadas trouxeram milhões de pobres para o mercado de consumo.

"As coisas melhoraram muito", disse Ernani Landi, que é dono de uma banca de frutas em uma feira livre. "Nosso volume aqui subiu bastante."

Mesmo com os investidores estrangeiros deixando o mercado de ações brasileiro em grande número para cobrir perdas em outros lugares - eles retiraram R$ 17,2 bilhões (US$ 9,2 bi) neste ano - o país manteve reservas de moeda estrangeira de mais de US$ 200 bilhões, o suficiente para ajudar a enfrentar a tempestade.”

CRISE MUNDIAL PODE BENEFICIAR BRASIL, DIZ "FINANCIAL TIMES"

Duas reportagens do jornal "Financial Times" sugerem nesta quinta-feira que a crise econômica mundial pode, paradoxalmente, terminar sendo benéfica para o Brasil.

Li no portal UOL essa matéria da agência inglesa de notícias BBC:

“Os artigos, assinados pelo correspondente do jornal em São Paulo, afirmam que a crise pode funcionar como um controle para o crescimento econômico cujo vigor vinha criando pressões inflacionárias.

Diferentemente de outras épocas, o país está mais preparado para enfrentar as turbulências, dizem as reportagens, que no entanto alertam para os fatores - domésticos - com potencial de criar problemas no futuro.

"Desta vez é diferente. Pelo menos até agora", diz a reportagem "Brasil espera um resfriado leve, mas nada sério", publicada na versão impressa do diário financeiro britânico.

O título faz referência ao tradicional dito segundo o qual "quando os mercados financeiros americanos espirram, a América Latina pega uma gripe".

A matéria diz que, embora não tenha conseguido se descolar do resto do mundo, o Brasil, que está otimista em que seu nível de reservas - em torno de US$ 200 bilhões - seja capaz de conter uma turbulenta saída de capitais como a que se seguiu à crise asiática em 1997 e a crise da Rússia em 1998.

"Mais que isso, a crise de crédito pode ter vindo em boa hora, num momento em que a atividade econômica apresenta indicadores que apontam para uma curva de superaquecimento. Assim, a crise, potencialmente, pode ajudar o país a desaquecer sua economia sem derrubar o crescimento abaixo do potencial do país", escreve o FT.

Economistas ouvidos pelo jornal crêem que o aumento do PIB passe de 5,4% este ano para 3,5% no ano que vem - bem melhor que o 1% estimado para o resto do mundo, mas capaz de trazer a inflação, que já superou os 6% ao ano, para o centro da meta de 4,5%.

Com isso, o Banco Central (BC) também poderia rever a quantidade de vezes em que deve aplicar um aumento de juros, diz o jornal.

Mas o FT também faz um alerta para o futuro, afirmando que "preocupações antigas permanecem e podem interferir no (curso da economia do) Brasil". A principal delas é o gasto do governo, capaz de gerar demanda e assim criar novas pressões inflacionárias.

Com o governo usando os gastos como motor do crescimento, "o papel da política fiscal, que continua sendo altamente expansionista, tem sido ignorado", diz o diário britânico, na reportagem "Confiança do Brasil acumula problemas para o futuro", publicada em sua versão online.

Um economista citado na matéria afirma que, mesmo com o BC aplicando arrochos monetários para frear o aumento dos preços, "no final, as expectativas de inflação a longo prazo são determinadas pela política fiscal, não pela política monetária"

LULA DIZ QUE ERA DA ECONOMIA NEOLIBERAL CHEGOU AO FIM

A agência inglesa de notícias BBC publicou ontem o artigo seguinte, que li no UOL:

“Depois de ter acusado os países ricos de praticarem "populismo nacionalista" e de ter dito que o sistema financeiro mundial investiu em uma "jogatina" que resultou na atual turbulência econômica, Lula se despediu de Nova York e de sua temporada na Assembléia Geral da ONU, "decretando" o fim da era neoliberal.

Ao longo de sua estada em Nova York, encerrada nesta quarta-feira, o presidente deu declarações que demonstraram a segurança de alguém cuja popularidade alcançou a marca recorde de 77,7% - de acordo com pesquisa do Instituto Sensus- e a confiança de um líder cujo país não foi fortemente atingido pelas mazelas econômicas que vêm assolando os Estados Unidos.

Lula disse acreditar que o período neoliberal "está encerrado porque (a crise) demonstra que também no sistema financeiro é preciso ter seriedade, é preciso ter ética, não é apenas o cidadão comum que tem que ser ético".

Os puxões de orelhas do líder brasileiro ao longo de sua estadia de três dias não se limitaram ao sistema financeiro. Lula também desferiu golpes contra os Estados Unidos e o presidente George W. Bush e ainda deu palpites na campanha eleitoral americana.

"O ideal é que os dois candidatos pudessem assinar uma carta ao povo americano, como a que eu assinei ao povo brasileiro em 2002, assumindo um compromisso para dar tranqüilidade ao povo americano e tranqüilidade para o mundo como um todo", afirmou.

O presidente também procurou colocar o Brasil em um papel de protagonista no contexto internacional, capaz de exigir dos organismos multinacionais propostas para contornar a atual crise financeira.

"Eu cobrei do G8, cobrei do FMI e do Banco Mundial que estava na hora de eles se manifestarem, porque quando é um país pequeno que tem crise, todos eles dão palpite. Quando é a maior economia do mundo que entra em colapso, a gente não vê nenhum palpite deles".

O último evento de Lula em Nova York foi uma reunião sobre a crise financeira mundial da qual participou como único representante da América Latina, ao lado de líderes como o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e o premiê espanhol, José Luiz Rodríguez Zapatero.

REPERCUSSÃO

Se à primeira vista os comentários e ações do líder brasileiro poderiam dar a impressão de meras bravatas, a mídia americana tratou as observações de Lula com destaque e até reverência.

Para o jornal norte-americano "New York Times", o discurso de Lula na abertura da cúpula da ONU, no qual o presidente brasileiro afirmou que "o ônus da cobiça desenfreada não pode cair impunemente sobre todos" refletiu o tom do encontro.

O "Wall Street Journal" destacou que Lula defendeu a criação de um sistema que previna o sistema financeiro mundial de ser vítima de futuros abusos.

O jornal também definiu o presidente brasileiro como um "defensor do meio termo entre capitalismo e socialismo", e, em tom menos lisonjeiro, como um líder que "anda em uma corda bamba entre as práticas da ortodoxia econômica e o financiamento de programas sociais populistas".

Ao passo que a mídia dos Estados Unidos deu ouvidos aos comentários de Lula, o presidente também esteve atento ao pronunciamento do líder americano, George W. Bush, mas aproveitou para criticá-lo, devido ao pouco destaque que ele deu ao tema da crise econômica em seu discurso.

"Eu lamentei porque imaginei que o presidente Bush, já que é a ultima aparição dele na sede das Nações Unidas, faria um discurso de despedida, falando um pouco da crise econômica e o que o governo americano pretende fazer", afirmou.

O líder brasileiro ainda ironizou: "Eu, como sou defensor da autodeterminação dos povos e da soberania dos discursos dos presidentes, fui obrigado então a ficar quieto".

ODEBRECHT

Enquanto Lula estava em Nova York, a empreiteira brasileira Odebrecht se viu envolvida em uma polêmica no Equador.

O governo do país sul-americano acusou a companhia de ter cometido falhas na construção e posterior paralisação da central hidrelétrica San Francisco - a segunda maior do país - construída pela empresa - e está exigindo o pagamento de uma indenização por parte da Odebrecht.

Ao contrário do tom dirigido aos Estados Unidos, para o vizinho sul-americano o presidente reservou um tom fraterno ou, como ele próprio comparou, uma postura de irmão mais velho.

"Não tem jeito. O Brasil tem o papel de ser cobrado, porque somos o maior. Você imagina na sua casa, com seus irmãos menores, quando você morava com três, quatro irmãos, você podia estar certo, mas eles ficavam te cobrando coisas", afirmou.

BOM HUMOR

O presidente não deixou também de fazer piada sobre as recentes descobertas de petróleo feitas no Brasil e os investimentos da Petrobras no setor, que deverão estar na ordem de US$ 112 bilhões de dólares entre 2008 e 2012.

De acordo com o presidente, as descobertas farão do presidente da empresa, José Sergio Gabrielli, o primeiro "xeque brasileiro".

Nos últimos dias, Lula ofereceu um retrato completamente distinto do presidente que era notoriamente avesso ao contato com a imprensa até o final de seu primeiro mandato.

Ele se mostrou bem-humorado no trato com os jornalistas e solícito em dar declarações, chegando a oferecer diariamente uma média de duas entrevistas coletivas - ainda que estas tenham sido realizadas no improviso, entre um evento e outro de sua apertada agenda e em plena calçada do hotel em que estava hospedado, o suntuoso Waldorf Astoria.

Lula retornou ao Brasil na quarta-feira à noite, onde deverá retomar a rotina dos últimos dias de subir ao palanque de diferentes candidatos governistas.

As pesquisas mais recentes mostraram também que o presidente é o melhor cabo eleitoral da política nacional, um motivo a mais para Lula estar dotado de tanto bom humor.“

ARRECADAÇÃO CRESCE 10,33%, CHEGA A R$ 452 BI E BATE RECORDE EM AGOSTO

Eduardo Cucolo, da Folha Online, em Brasília, escreveu:

“A arrecadação de impostos e contribuições cresceu 10,33% nos oito primeiros meses de 2008 e atingiu novo recorde. Mesmo com o fim da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), a Receita Federal arrecadou R$ 452 bilhões entre janeiro e agosto.

Somente no mês passado, foram R$ 53,93 bilhões, aumento de 4,27% em relação ao mesmo mês de 2007 e valor recorde para meses de agosto, considerando dados corrigidos pelo índice oficial de inflação (IPCA).

Em termos relativos, o imposto cuja arrecadação mais cresceu no ano foi o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que teve suas alíquotas elevadas para compensar o fim da CPMF. A arrecadação subiu 152% e chegou a R$ 13,45 bilhões no acumulado do ano. A maior parte desse valor (R$ 4,7 bilhões) foi pago pelas pessoas físicas que fizeram empréstimos no período.

Em valores absolutos, o principal responsável pela arrecadação recorde foi o Imposto de Renda (pessoa física, empresas e retido na fonte), que respondeu por 28,6% do total. Foram arrecadados R$ 129,3 bilhões, sendo R$ 61 bilhões somente das empresas.
A Receita vem justificando os sucessivos recordes alcançados neste ano com base no aumento do lucro das empresas e no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

A segunda maior arrecadação ficou com a Cofins (R$ 79,9 bilhões), aumento de 17,7% sobre o ano passado.

CPMF

Nesse ano, já foram arrecadados mais de R$ 40 bilhões a mais em relação ao mesmo período de 2007. Esse valor equivale à previsão de receitas da CPMF para este ano, caso ela não tivesse sido extinta pelo Congresso.

Nos oito meses do ano, o governo deixou de arrecadar R$ 25 bilhões de CPMF. Em compensação, houve um aumento de R$ 20 bilhões em pagamento de Imposto de Renda, R$ 9 bilhões em Cofins, R$ 7 bilhões em CSLL (Contribuição Social Sobre Lucro Líquido) e cerca de R$ 8 bilhões em IOF.

DESACELERAÇÃO

Apesar de recorde, o dado de agosto representa uma desaceleração em relação aos valores arrecadados até julho, quando a arrecadação estava crescendo a uma taxa de 11,2%.

A Receita também divulga os dados sem correção pela inflação. Nesse caso, a taxa de crescimento acumulada até agosto é de 9,5%, abaixo dos 10,4% verificados até julho.
Houve também desaceleração em relação ao primeiro quadrimestre do ano (janeiro-abril), quando a arrecadação crescia a taxas entre 20% e 12%. Entre maio e agosto, os percentuais ficaram entre 10,6% e 9,5%.

CARGA TRIBUTÁRIA

A Receita também atribui a arrecadação recorde à cobrança judicial de dívidas tributárias e às ações de fiscalização realizadas no ano. Foram R$ 11,9 bilhões em multas e juros, um aumento de 35% no ano. O Fisco também estima mais R$ 10 bilhões, pelo menos, em impostos atrasados relacionados a essas cobranças.

O governo também cita a unificação da Receita com a arrecadação previdenciária, como responsável pela melhora. As receitas da Previdência, que respondem por cerca de 25% da arrecadação, cresceram 11,6% no ano e chegaram a R$ 113,8 bilhões.

A Receita sempre nega que haja aumento da carga tributária, apesar da elevação das alíquotas do IOF e também da CSLL para instituições financeiras neste ano.

Segundo o Fisco, o governo já promoveu quase R$ 60 bilhões em desonerações tributárias neste ano, além da perda estimada de cerca de R$ 40 bilhões na CPMF, que no ano passado respondia por cerca de 6% da arrecadação.

A Receita cita também a redução na alíquota da Cide (tributo dos combustíveis) para compensar o aumento da gasolina e do diesel. Houve uma queda de 20,44% na arrecadação desse tributo neste ano, para R$ 4,45 bilhões.”

“NO DIA EM QUE A CHINA ACORDAR...”

Li ontem no Blog “Vi o Mundo”, do jornalista Luiz Carlos Azenha, o bom artigo que a seguir transcrevo. O autor é Ignacio Ramonet. A tradução é de Jô Amado.

Acrescento alguns dados sobre ele extraídos do Wikipedia: Ignacio Ramonet Míguez é jornalista e sociólogo espanhol (galego). Ramonet cresceu em Tânger. Estudou engenharia em Bordeaux, Rabat e Paris. É doutor em Semiologia pela École des hautes études en sciences sociales de Paris. Professor de Teoria da Comunicação da Universidade Denis Diderot (Paris VII) e professor associado das Universidades de São Petersburgo e Carlos III, em Madri. Lecionou também nas universidades de Buenos Aires, Valência, Cuba, Porto Rico, Santo Domingo. Escreveu vários livros sobre geopolítica e crítica da comunicação mundial. Trabalha na França desde 1972 e, desde 1991, é diretor do periódico Le Monde Diplomatique.

RAMONET: CHINA, A MEGAPOTÊNCIA

"No dia em que a China acordar...", dizia-se antigamente, deixando no ar a idéia de uma ameaça gigantesca sobre o planeta. Hoje temos plena consciência de que aquele imenso país, de fato, acordou. E é importante questionar as conseqüências que seu impressionante despertar pode ter para o mundo todo.

Com crescimento que superou os 9% ao ano, esse "comunismo democrático de mercado" representou um aumento do nível de vida para milhões de famílias

Um colosso demográfico (1,3 bilhão de habitantes), a China só começou sua grande reforma econômica após a morte de Mao Zedong, em 1976, e, principalmente, a partir de 1978, quando Deng Xiaoping assumiu o poder. Baseado na abundância de uma mão-de-obra mal remunerada, na importação maciça de fábricas montadoras, na exportação de produtos baratos e no afluxo de investimentos estrangeiros, seu modelo de desenvolvimento foi considerado, durante muito tempo, como "bastante primitivo", característico de um país atrasado e mantido, com mão de ferro, por um partido único – até o controle de sua demografia seria conduzido de forma autoritária.

No entanto – e apesar de continuar sendo comunista –, não só a China deixou de fazer medo como, na euforia da globalização incipiente, foi apresentada para centenas de empresas, que para lá transferiram suas fábricas (após terem demitido milhões de trabalhadores), como uma verdadeira sorte grande para investidores atentos. Em pouco tempo, graças à rede de "zonas econômicas especiais", instaladas ao longo de sua orla marítima, a China tornou-se uma fenomenal potência exportadora. E passou a liderar os exportadores mundiais de têxteis-vestuário, calçado, produtos eletrônicos e brinquedos. Seus produtos invadiram o mundo. Em particular, o mercado dos Estados Unidos, provocando em seu favor um desequilíbrio gigantesco: em 2003, o déficit comercial norte-americano para com Pequim chegou a 130 bilhões de dólares1!

CAPITALISMO CHINÊS

Em pouquíssimo tempo, a China, que assustava enquanto potência de exportações, tornou-se um país importador cuja voracidade insaciável é seriamente inquietante

O furor de exportar provocaria uma decolagem espetacular do crescimento que, nas últimas duas décadas, superou os 9% ao ano! Esse "comunismo democrático de mercado" também representou um aumento do poder aquisitivo e do nível de vida para milhões de famílias. E proporcionou a escalada de um verdadeiro capitalismo chinês.

Paralelamente, o Estado se lançou numa modernização do país em ritmo acelerado, multiplicando a construção de infra-estruturas: portos, aeroportos, rodovias, estradas de ferro, pontes, barragens, arranha-céus, estádios para os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, instalações para a Exposição Universal de Xangai, em 2010 etc.

Essa massa descomunal de obras e a nova febre de consumo dos chineses acrescentaram uma nova dimensão à economia: em pouquíssimo tempo, a China, que assustava enquanto potência de exportações invasora, tornou-se um país importador cuja voracidade insaciável é seriamente inquietante. No ano passado, foi o principal importador mundial de cimento (importou 55% da produção mundial), de carvão (40%), de aço (25%), de níquel (25%) e de alumínio (14%). E o segundo principal importador mundial de petróleo, depois dos Estados Unidos. Essas importações maciças provocaram uma explosão de preços nos mercados mundiais. Em especial, os do petróleo.

Admitida na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, a China é atualmente uma das maiores economias do mundo – na realidade, a sexta. Puxa o crescimento em escala planetária e qualquer sobressalto que ocorra com ela tem um impacto imediato sobre o conjunto da economia mundial. "Apesar da velocidade de nosso crescimento", pondera o primeiro-ministro Wen Jiabao, "a China ainda é um país em vias de desenvolvimento e ainda nos faltam uns cinqüenta anos de crescimento para nos tornarmos um país medianamente desenvolvido."

CASO DIDÁTICO

Segundo maior poluidor do planeta, a China se tornará o primeiro, soltando massas descomunais de gases de efeito-estufa que agravarão as mudanças climáticas

Mas se a China continuar no ritmo atual, ultrapassará os Estados Unidos por volta de 2041, tornando-se a principal potência econômica do mundo6. O que terá conseqüências geopolíticas importantes. E também significa que, a partir de 2030, seu consumo de energia será o equivalente à soma do consumo atual dos Estados Unidos e do Japão – e, por não dispor de petróleo suficiente para atender a uma necessidade tão gigantesca, será forçada, daqui até 2020, a duplicar sua capacidade nuclear e construir duas centrais atômicas por ano durante dezesseis anos...

Ainda assim, e apesar de ter ratificado o protocolo de Kyoto em 2002, a China, que já é o segundo maior poluidor do planeta, se tornará o primeiro, soltando massas descomunais de gases de efeito-estufa que agravarão as mudanças climáticas que já vêm ocorrendo.

Em relação a isso, a China representa um caso didático e antecipa uma questão que amanhã se colocará para a Índia, o Brasil, a Rússia ou a África do Sul: como liberar milhões de pessoas do desespero do subdesenvolvimento sem as mergulhar num modelo produtivista e de consumo "ocidentalizado", nefasto para o planeta e para toda a humanidade?”

MARIA CONCEIÇÃO TAVARES

O DIAGNÓSTICO DE CONCEIÇÃO

O Blog do Nassif postou ontem à noite resumo da entrevista da conceituada economista Maria Conceição Tavares à agência norte-americana de notícias Reuters.

“Pode-se discordar do pensamento de Maria Conceição Tavares. Mas suas avaliações sobre as grandes crises mundiais são imbatíveis. Uma capacidade única de identificar os pontos relevantes de análise.

LOS HERMANOS E BIG BROTHER

"O Brasil ainda não está ameaçado. Os bancos brasileiros não estão metidos nessa ciranda. Há uma supervisão muito grande do Banco Central. Mesmo os derivativos, a BM&F registra. Não tem controle de capitais, mas tem registro, o que significa que se você quiser controlar tem os instrumentos. As condições favoráveis do Brasil são as seguintes: bancos privados não estão metidos nessa especulação; não temos dívida externa pública; temos reservas; o problema de balanço de pagamentos é pequeno; o impacto das commodities não dá para perceber e somos muito abertos ao mundo. Temos mais comércio com a Argentina do que com os EUA. Los hermanos são mais importantes que o big brother."

ECONOMIA REAL

"A crise não está na economia real. Só na Europa e no Japão, onde a ligação entre bancos e a economia real é mais forte. No caso americano, não. Há um setor da economia real americana que já começou a decadência, e por aí virá uma recessão, que é o imobiliário. Esse não tem saída. No ciclo recente, o setor que primeiro puxa a economia americana é o imobiliário, depois automóveis, todos os duráveis, e, finalmente, o investimento. Ainda não está claro se serão afetados. O investimento das empresas depende do que vai acontecer com a bolsa. Se ela continuar oscilando, mas não tiver uma depressão, sobrevive."

RECESSÃO E DEPRESSÃO

"Acho que vai ter uma recessão, ninguém duvida. Mas uma coisa é uma recessão, outra é uma depressão. Não há dúvida que ainda vai ter uma liquidação de ativos financeiros que eram fictícios. Essa parte da liquidação financeira da riqueza vai continuar e a gente não sabe até quando. A ligação entre essa crise e o setor real agora é o aperto global do crédito. Se continuar, vamos para uma recessão global. Sem crédito não funciona capitalismo algum."

ONTEM E HOJE

"A única coisa que pode dar um certo otimismo é que em 1930 os EUA estavam sozinhos no comando, mas agora eles têm a China como parceira. Em 1930, os EUA não tinham sócios, todas as reservas do mundo estavam com eles. Agora, os EUA não têm reservas, só têm dívida. Todas as reservas em dólar estão basicamente na Ásia."

DECLÍNIO DO IMPÉRIO

"Dessa vez acho que é sinal do declínio (americano). A menos que levem no bico os chineses e russos. Estão com problemas de petróleo. Tinham que ter tomado providências imediatas para regular o mercado futuro de petróleo. Você não consegue mais fazer preço e os preços não têm tendência específica, sobem e descem de maneira enlouquecida. Nisso não se parece nada com 1930, que era uma crise de deflação de ativos e de preços. Agora é de liquidação de ativos financeiros e os preços... não têm uma tendência definida."

SEM BRETON WOODS

"A complicação é como (os EUA) se entendem com Europa de um lado e China do outro. Não são parceiros da mesma natureza. Infelizmente, não creio que vá haver uma reunião como Breton Woods. Não estamos caminhando para uma ordem mundial nova. Estamos caminhando para uma certa desordem. Os parceiros não vão seguir as ordens americanas, sobretudo em matéria financeira. É difícil um acordo por Estados. Acho que os EUA vão se regular primeiro e os demais países vão se adaptar, não creio em uma regulação conjunta. Seria ideal, mas não creio."

FALHAS NO PACOTE

"O (Henry) Paulson (secretário do Tesouro dos EUA), homem de Wall Street, propôs salvar os bancos e só. Não disse mais nada sobre regulá-los. Os candidatos não estão satisfeitos com essa idéia de socializar os prejuízos. (Os EUA) fizeram isso na década de 1990. A raiz dessa crise é a crise de 1990, quando ao invés de regular liberalizaram tudo na pretensão de que os mercados se autoregulavam, sobretudo as grandes instituições que tinham rating. Aí o Congresso começou a chiar e aos poucos os bancos vão começar aceitando a supervisão."

DEUS E O DIABO NA TERRA DO GELO

"No momento interessa ao capitalismo se regular. O neoliberalismo foi-se. O Deus mercado virou diabo na terra do gelo. Sofreu golpe mortal. Paulson ainda queria manter dessa maneira, tanto que não falou em regulação, mas o pessoal cobra porque é dinheiro pra burro... O governo terá de regular, não é um processo fácil. Terá que fazer acordo com comissões financeiras do Senado e da Câmara. Se conseguirem um acordo, aí já dá para todos irem para casa disputar as eleições."

DONO DO CASSINO

"Ou os EUA resolvem quais são as regras agora, enquanto são donos do cassino, ou daqui a pouco não adianta nada porque não serão mais os donos. É mais fácil fazer acordo quando eu, que sou a banca, faço as regras e convido os demais a seguirem ou se adaptarem. Ou resolvem rápido ou se deixarem para depois da eleição não conseguem manter a hegemonia."

SEM DINHEIRO

"O auxílio dos bancos centrais não resolveu nada, só injetou liquidez. Quando você injeta liquidez mas os bancos não emprestam uns aos outros, mais sobe a taxa interbancária. Esse assunto não está resolvido. Foi isso que levou o Paulson a avançar para resgatar os títulos podres para que as instituições fiquem sãs”.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

ESTATIZAÇÃO NOS EUA

O IMPENSÁVEL ACONTECEU

“O Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingirem o nível de auto-destruição”.

Li ontem no blog “Carta Maior”, e também no blog “De um sem Mídia”, o bom texto a seguir transcrito. O autor Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

“A palavra não aparece na mídia norte-americana, mas é disso que se trata: nacionalização. Perante as falências ocorridas, anunciadas ou iminentes de importantes bancos de investimento, das duas maiores sociedades hipotecárias do país e da maior seguradora do mundo, o governo dos EUA decidiu assumir o controle direto de uma parte importante do sistema financeiro.

A medida não é inédita pois o Governo interveio em outros momentos de crise profunda: em 1792 (no mandato do primeiro presidente do país), em 1907 (neste caso, o papel central na resolução da crise coube ao grande banco de então, J.P. Morgan, hoje, Morgan Stanley, também em risco), em 1929 (a grande depressão que durou até à Segunda Guerra Mundial: em 1933, 1000 norteamericanos por dia perdiam as suas casas a favor dos bancos) e 1985 (a crise das sociedades de poupança).

O que é novo na intervenção em curso é a sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim de trinta anos de evangelização neoliberal conduzida com mão de ferro a nível global pelos EUA e pelas instituições financeiras por eles controladas, FMI e o Banco Mundial: mercados livres e, porque livres, eficientes; privatizações; desregulamentação; Estado fora da economia porque inerentemente corrupto e ineficiente; eliminação de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente produção de miséria social.

Foi com estas receitas que se “resolveram” as crises financeiras da América Latina e da Ásia e que se impuseram ajustamentos estruturais em dezenas de países. Foi também com elas que milhões de pessoas foram lançadas no desemprego, perderam as suas terras ou os seus direitos laborais, tiveram de emigrar.

À luz disto, o impensável aconteceu: o Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingirem o nível de auto-destruição; o capital tem sempre o Estado à sua disposição e, consoante os ciclos, ora por via da regulação ora por via da desregulação. Esta não é a crise final do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda não soubesse o que fazer dela, tão generalizada foi a sua conversão ao evangelho neoliberal.

Muito continuará como dantes: o espiríto individualista, egoísta e anti-social que anima o capitalismo; o fato de que a fatura das crises é sempre paga por quem nada contribuiu para elas, a esmagadora maioria dos cidadãos, já que é com seu dinheiro que o Estado intervém e muitos perdem o emprego, a casa e a pensão.

Mas muito mais mudará. Primeiro, o declínio dos EUA como potência mundial atinge um novo patamar. Este país acaba de ser vítima das armas de destruição financeira massiça com que agrediu tantos países nas últimas décadas e a decisão “soberana” de se defender foi afinal induzida pela pressão dos seus credores estrangeiros (sobretudo chineses) que ameaçaram com uma fuga que seria devastadora para o actual american way of life.

Segundo, o FMI e o Banco Mundial deixaram de ter qualquer autoridade para impor as suas receitas, pois sempre usaram como bitola uma economia que se revela agora fantasma. A hipocrisia dos critérios duplos (uns válidos para os países do Norte global e outros válidos para os países do Sul global) está exposta com uma crueza chocante. Daqui em diante, a primazia do interesse nacional pode ditar, não só proteção e regulação específicas, como também taxas de juro subsidiadas para apoiar indústrias em perigo (como as que o Congresso dos EUA acaba de aprovar para o setor automóvel).

Não estamos perante uma desglobalização mas estamos certamente perante uma nova globalização pós-neoliberal internamente muito mais diversificada. Emergem novos regionalismos, já hoje presentes na África e na Ásia mas sobretudo importantes na América Latina, como o agora consolidado com a criação da União das Nações Sul-Americanas e do Banco do Sul. Por sua vez, a União Européia, o regionalismo mais avançado, terá que mudar o curso neoliberal da atual Comissão sob pena de ter o mesmo destino dos EUA.

Terceiro, as políticas de privatização da segurança social ficam desacreditadas: é eticamente monstruoso que seja possível acumular lucros fabulosos com o dinheiro de milhões trabalhadores humildes e abandonar estes à sua sorte quando a especulação dá errado. Quarto, o Estado que regressa como solução é o mesmo Estado que foi moral e institucionalmente destruído pelo neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua profecia se cumprisse: transformar o Estado num antro de corrupção.

Isto significa que se o Estado não for profundamente reformado e democratizado em breve será, agora sim, um problema sem solução. Quinto, as mudanças na globalização hegemônica vão provocar mudanças na globalização dos movimentos sociais que vão certamente se refletir no Fórum Social Mundial: a nova centralidade das lutas nacionais e regionais; as relações com Estados e partidos progressistas e as lutas pela refundação democrática do Estado; contradições entre classes nacionais e transnacionais e as políticas de alianças”.

FOME DE INFORMAÇÃO

Li ontem no blog “Óleo do Diabo”, do jornalista Miguel do Rosário, o interessante texto com o título acima. Transcrevo trecho:

“A Folha já virou um caso psicanalítico. Hoje, o colunista Fernando Rodrigues, que ocupa a página principal de opinião do jornal, vem com essas duas pérolas:

"A fala lulista incluiu a já conhecida ladainha sobre reforma do Conselho de Segurança e combate à fome. O brasileiro também esteve prestes a classificar o capitalismo brasileiro como melhor do que o norte-americano, usando o discurso juvenil segundo o qual tudo se resolve com política."

"Lula discursou ontem na ONU. A relevância dessa cerimônia é nula. Exceto para os acólitos e familiares presenteados com um passeio por Nova York."

A capacidade em reunir disparates em tão poucas frases merece aplausos. Existem 1 bilhão de pessoas sofrendo fome aguda no mundo e o cara acha que o tema é uma "ladainha". "A relevância dessa cerimônia é nula", diz o peralta. Observem: trata-se de uma conferência da qual participam todos os chefes de Estado do planeta. Para Rodrigues, relevante é jantarzinho de Serra e FHC em restaurantes de luxo nos Jardins.

É uma reunião política, claro, não um workshop de negócios. De lá não saem ações concretas imediatas, mas são fechadas parcerias de longo prazo e os chefes de Estado realizam conversações em alto nível. Relevância nula? Esses almofadinhas blasé da Folha de São Paulo não tomam jeito: é uma despolitização completa.

E o Clóviss Rossi vai na mesma linha. Em sua coluna de hoje, também morde o pé do Lula, porque este teria dito, em seu discurso na ONU, que diante da crise financeira, chegou a hora da política. Rossi diz que é tarde demais e ponto final. Como de praxe, expõe seu pessimismo vazio, fútil, artificial. Se um cidadão decidir fazer uma experiência tétrica, restringir sua leitura à coluna de Clóvis Rossi, irá se suicidar em alguns dias, depois de escrever a seguinte nota: "o mundo não tem jeito, o Brasil muito menos. O Lula acabou com o mundo!"

A seção de cartas da Folha é toda dedicada a essa classe inteligentíssima de leitores que protestam contra os institutos de pesquisa, alegando que "não acreditam", "que nunca foram entrevistados" ou que "no meu prédio é todo mundo revoltado". São as eternas carpideiras do PIG, o séquito de fiéis missivistas otários”.

DESEMPREGO ATINGE EM AGOSTO MENOR TAXA PARA O MÊS NOS ÚLTIMOS 10 ANOS

Li no blog “Por um novo Brasil” a seguinte matéria produzida ontem pela Agência Brasil:

“A taxa de desemprego recuou de 14,6% para 14,5% da população economicamente ativa nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e pela Fundação Sistema Estadual de Análises de Dados (Seade).

Essa foi a menor taxa para o mês de agosto desde 1998, quando o índice atingiu 18,9%.Apesar de ter oscilado pouco em comparação a julho, no período, foram criadas 94 mil vagas.

O estoque de desempregados somou 2,9 milhões de pessoas.

De acordo com a pesquisa, houve redução do desemprego em Porto Alegre, Salvador e Recife e relativa estabilidade em São Paulo, Belo Horizonte e Distrito Federal.Na região metropolitana de São Paulo, pelo quinto mês seguido a taxa permaneceu praticamente estável, 14% ante 14,1% do mês anterior.

Na comparação com igual período dos anos anteriores, o índice foi o menor desde 1996.Nos 39 municípios da Grande São Paulo foram gerados 6 mil postos, mas a redução no número de desempregados chegou a 11 mil. Isso porque, segundo a pesquisa, no período 5 mil pessoas deixaram de disputar vagas.

O estudo também indica queda de rendimentos de 1,8% para os ocupados, que passaram a ganhar, em média, R$ 1.193, e de 3,6% para os assalariados, com ganhos médios mensais de R$ 1.246”.

CRESCE A SUSPEITA CONTRA JOBIN E GILMAR MENDES

Li no site “Vermelho” o seguinte texto baseado em artigo de Luis Nassif em seu blog e em comentário de leitor:

A SUSPEITA QUE PAIRA NO AR: NASSIF DESAFIA A 'VEJA'

“A cada dia que passa, mas fortes são as suspeitas de que o suposto grampo em Gilmar Mendes e Demóstenes Torres foi uma armação da revista Veja. A revista não mostrou o áudio nem os documentos que dizia dispor — e que lhe teriam permitido garantir que o grampo foi feito pela Abin.

Não se trata de entregar a fonte, mas apenas de mostrar documentos que a revista diz possuir. A revista não apenas acusava a Abin pelo grampo, como atribuía à agência uma verdadeira fábrica de grampos.

Mas, até agora não se conseguiu comprovar um grampo sequer.

É possível que a Abin tenha disfarçado bem sua suposta atividade paralela. Mas uma fábrica de grampos, da maneira descrita na reportagem, não poderia se abrigar em uma saleta secreta, em um porão. Envolveria muitas pessoas, seria do conhecimento do universo da arapongagem brasiliense — que é íntimo da revista. Por isso, é possível que a revista tenha montado um falso escândalo, com graves conseqüências: o episódio quase induziu a um conflito entre poderes, com graves desdobramentos institucionais.

Se comprovada a armação, a Abril cometeu um crime grave. Para saber se cometeu o crime, há a necessidade de abrir um inquérito. Quando se irá começar a investigar? Quando o Ministério Público irá se pronunciar? Uma publicação, por mais poderosa que seja, não pode estar acima da lei.

POR JB COSTA

O que causa mais espécie, revolta, raiva, dó de barriga, sei lá mais o quê, é dois agentes do Estado, um inclusive chefe atual de um dos poderes da República, darem, de chôfre, total crédito a uma denúncia feita por uma revista conhecida por suas "reportagens" sem ao menos um questionamento acerca da prova material.

A corroboração do diálogo não é prova material nem aqui nem na cochichina. Ouso discordar frontalmente da tese do Dr. Nelson Jobim, apesar de só possuir o diploma do Curso de Datilografia.

Para tipicação de um crime são necessários três elementos: a vítima, o autor e o instrumento. Por enquanto, temos apenas as duas (ainda supostas) vítimas.

A tese de que a transcrição assentida pelas supostos prejudicados já é uma PROVA, se submetida, mutatis mutandis, a prova da falseabilidade de Popper não se sustentaria.

Como se admitir como prova algo que não se pode comprovar falso? O suposto delito não foi a degravação, e, sim o ato de gravar que se revelará como prova através de uma fita, CD, ou similares.

Beira ao rídiculo argumentos tais como: "Ora a Veja divulgou, então é verdade", ou, " os termos da degravação foram confirmados pelas vítimas." Estarão esses protagonistas acima de tudo e de todos? Da Constituição, inclusive? Serão, porventura, deuses?”

IDOSOS ARCAM COM MAIOR PARTE DAS DESPESAS EM 53% DOS LARES

Li ontem no site “Vermelho” o seguinte artigo da Agência Brasil:

“De acordo com estudo do IBGE, essa situação é mais expressiva no Nordeste, onde os idosos são responsáveis por mais da metade da despesa familiar em 63,5% dos domicílios.

As pessoas com 60 anos ou mais de idade arcam com pelo menos metade da despesa da família em 53% dos lares brasileiros. Foi o que pesquisadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constataram após análise de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2007.

Os dados foram divulgados hoje (24) e são parte da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. De acordo com o estudo, essa situação é ainda mais expressiva no Nordeste, onde os idosos são responsáveis por mais da metade da despesa familiar em 63,5% dos domicílios.

Segundo a pesquisadora do IBGE Lúcia Maria Cunha, os dados refletem a importância da contribuição dos idosos no conjunto do orçamento familiar. Ela ressaltou que na área rural essa ajuda é ainda mais importante, sobretudo, nas regiões mais carentes. Nas áreas rurais do Nordeste, por exemplo, o índice chega a 73% dos domicílios.

Outra constatação do estudo é que o aumento da expectativa de vida nas últimas décadas permitiu uma maior possibilidade de convívio, em uma mesma família, de duas ou até três gerações diferentes.

Em 2007, de acordo com os dados da Pnad, 45% dos idosos viviam com seus filhos na condição de chefe de domicílio, sendo que nas Regiões Norte e Nordeste os percentuais chegaram a 50%”.

É O FIM DO CAPITALISMO NOS ESTADOS UNIDOS?

Li no site Terra Magazine a seguinte matéria de Pablo Calvi, enviada de Nova Iorque 3ª feira:

“O pacote de resgate que o governo dos Estados Unidos está preparando, o qual deve disponibilizar entre US$ 750 bilhões e US$ 1 trilhão, já gera dúvidas quanto ao curto prazo, bem como inquietações de cunho mais filosófico. O dinheiro que será injetado no mercado pelo Tesouro americano estará comprometido não apenas com a salvação de entidades financeiras, mas também com a compra de pequenos créditos hipotecários não pagos ou de alto risco - os ditos "papéis podres".

Uma das primeiras e mais importantes teses sobre esta crise foi formulada na semana passada pelo prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz ao assinalar que a intervenção do estado em semelhante escala viola todas as regras do capitalismo.

Segundo explica o professor da Universidade de Columbia, Wall Street, entre a euforia e o otimismo, entrou desde quinta-feira passada num estado de tremenda confusão. Para o intelectual, a "nacionalização" da seguradora AIG - por US$ 85 bilhões - não apenas desrespeita todos os princípios da economia de livre mercado, como altera as mais básicas regras do jogo de Wall Street. Além disso, a intervenção começou a enviar sinais confusos a um mercado em crise, pois o dinheiro do Tesouro foi parar justamente nas mãos daqueles que tomaram as piores decisões econômicas. Basta pensar, por exemplo, numa corrida em que os premiados não são os que primeiros que cruzam a linha de chegada, mas aqueles que ficaram pelo caminho.

Claro, os que seriam os perdedores naturais desta investida capitalista, Merril Lynch, AIG, Fannie Mae, Freddie Mac, terminaram, no final das contas, como os vencedores num esquema de mercado distorcido pela mão do Estado. As ações da AIG, por exemplo, que entre segunda-feira e terça-feira da semana passada cairam 94%, fecharam a semana com ganhos recorde após a primeira intervenção do governo.

A esta altura, como salienta o brilhante economista Paul Krugman em sua coluna no New York Times, "ninguém acredita que o Estado seja um problema, pelo contrário, o vêem como solução". Até mesmo Paul Volker, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) assegura num editorial publicado pelo Wall Street Journal que a única solução para a crise é a criação de um ente estatal que se incumba das massivas perdas do setor financeiro. Porém, claro, com a crise e a intervenção estatal em Wall Street, o governo ultra-conservador de Geroge W. Bush e muitos dos defensores mais ferrenhos do capitalismo ortodoxo tiveram que começar a pôr fogo em suas bibliotecas.

"Perseguindo o próprio interesse, o capitalista geralmente promove também os interesses da sociedade de forma muito mais efetiva que se de fato tentasse oferecer à sociedade algum tipo de benefício", escreve Adam Smith em sua célebre obra, "A Riqueza das Nações" (1776). Segundo o primeiro e mais citado dos teóricos do capitalismo, as sociedades e os mercados operam melhor quanto mais egoístas são as intenções de seus agentes econômicos. O egoísmo coletivo, que Smith compara a uma "mão invisível", é para o filósofo inglês o agente de controle mais efetivo que age não apenas nos mercados, mas também nas economias em todos seus múltiplos níveis. Claro que a realidade é muitas vezes mais rica que a teoria.

Quinta-feira passada, numa sucinta apresentação perante a imprensa, o presidente Bush disse que o Estado se via na obrigação de intervir excepcionalmente num mercado em plena crise. "Foi a cobiça de Wall Street que nos levou a este extremo", justificava, sem meias palavras, o candidato republicano John McCain num encontro partidário em Michigan. "O que entrou em crise com a o desabamento de Wall Street foi a filosofia política deste governo e de muitos outros anteriores", declarou, na Flórida, o candidato democrata Barack Obama.

Passaram muito ao largo da coluna de Krugman as recomendações do magnata bancário Andrew Mellon ao trigésimo primeiro presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover: "Se desfaça dos funcionários públicos, se desfaça do estoque, das terras e das propriedades do Estado". Aquelas sugestões desembocaram na crise financeira dos anos 30 e foram a causa de um novo pacto social, o New Deal de Franklin Delano Roosevelt. A pergunta é: quão distante do capitalismo ortodoxo nos deixará o novo pacote econômico? Ou, imaginando as palavras de um investidor aterrorizado: terminou para sempre a era do capitalismo selvagem dos Estados Unidos?”

O FECHO DE "OURO" DE BUSH

Li no site “Direto da Redação” o seguinte texto de Mair Pena Neto.

“A crise financeira americana é o fecho de “ouro” do governo de George W. Bush. Os americanos que levariam deste presidente a lembrança dos ataques de 11 de setembro, o envolvimento em duas guerras distantes de seu território e a impossibilidade de manter o financiamento de suas casas, ainda ganharam, na saída, a maior crise do capitalismo desde o crack de 1929.

Bush não foi o único responsável pela leviandade financeira de alavancar ganhos com papéis fictícios, mas foi ele que arrastou o neoliberalismo aos estertores, permitindo que a desregulamentação do mercado prosseguisse aos dias atuais até culminar no desastre anunciado que ameaça com ele o futuro da economia global.

Depois da crise dos anos 90, que atingiu Ásia, Rússia e América Latina, destruindo economias inteiras, como a da nossa vizinha Argentina, não faltaram avisos de que o modelo baseado no consenso de Washington havia fracassado. Embora muitos países o tenham abandonado, elegendo governantes comprometidos com outro modelo, os Estados Unidos, para não contrariar a ideologia que sempre pregaram, mantiveram os bancos de investimento livres, operando à vontade com papéis sobre papéis, sem nenhum lastro na economia real.

A crise do subprime, que deixou as hipotecas penduradas, foi o primeiro sinal no quintal dos EUA de que o barco estava à deriva, mas a falta de resolução possibilitou o agravamento da crise até a implosão de Lehman Brothers, Merril Lynch e cia, todos com excelentes ratings das agências de risco, outra invenção do capitalismo para justificar suas próprias aventuras.

Atordoado, como sempre, Bush mal falou da crise em seu discurso de saideira na Assembléia-Geral da ONU. Talvez envergonhado, gastou seu tempo falando mais uma vez de terrorismo, cuja ameaça chega a ser piada perto da recessão que pode se derivar da atual crise financeira.

Enquanto isso, o Tesouro americano e o FED tentam aprovar um pacote que salve financeiramente os bancos e volte a fazer circular o crédito. Henry Paulson, secretário do Tesouro, começou propondo apenas dar dinheiro aos responsáveis pela crise, mas diante da reação geral precisou avançar mais, transformando os bancos de investimento em bancos reais, com supervisão (até então inexistente) do FED.

Mesmo assim, os senadores norte-americanos reagiram ao socialismo dos prejuízos com o dinheiro do contribuinte e contrapropuseram que o governo passasse a deter ações das empresas que estão se livrando de ativos podres, além de estabelecerem mais regulamentações ao mercado.

Os democratas foram além e propuseram controle sobre os poderes do Tesouro e possibilidade de rever o resgate de 700 bilhões de dólares sob certas circunstâncias. O que parecia pecado nos anos 90 é evocado agora como salvação da lavoura. Que inspire novos tempos que podem ser simbolizados também com o adeus de Bush.”

IBGE: ÍNDIA TEM A MAIOR TAXA DE ANALFABETISMO DOS BRICS

Texto de Jacqueline Farid da Agência Estado (li no “O Estado de São Paulo” de ontem, via UOL)

”A Índia apresentava em 2006 a mais elevada taxa de analfabetismo (34,9% da população de pessoas com 15 anos ou mais de idade) dos Brics (grupo de países com potencial mais promissor economicamente e que reúne Brasil, China, Índia, África do Sul e Rússia), segundo dados reunidos na Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada hoje.

Somente a Rússia, entre os cinco países, tem taxa de analfabetismo "resolvida", ou de 0,6%, nesse grupo, segundo a pesquisa. A África do Sul tinha taxa de 12,4%, enquanto o Brasil apresentava taxa de 10,5% (em 2007, segundo mostrou o IBGE na semana passada, era de 10%). Na China, em 2006, chegava a 7,1%.

Em outra análise sobre os Brics, neste caso relativa a 2007 e sobre a estrutura etária da população, a Síntese sublinha que a Rússia e a China têm uma população mais envelhecida, contrastando com a estrutura jovem da Índia e da África do Sul. O Brasil, com as quedas dos níveis de fecundidade e mortalidade dos últimos 40 anos, passa por uma fase de transição”.

DE 2006 PARA 2007 DOBRA O INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO BRASIL

PAÍS SALTA DA OITAVA PARA A QUARTA POSIÇÃO EM LISTA ELABORADA PELA UNCTAD COM BASE EM DADOS DE 2007

Li ontem no site do “O Estado de São Paulo” o seguinte texto de Celia Froufe, da Agência Estado, sobre tema já abordado em outro artigo por este blog:

”O Brasil saltou da oitava posição no recebimento de investimentos estrangeiros diretos (IED) em economias emergentes em 2006 para quarta posição em 2007. A informação consta do World Investment Report (WIR) de 2008, elaborado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês) e divulgado nesta quarta-feira, 24, simultaneamente em 60 países. No Brasil, o levantamento foi publicado pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet). No estudo anterior da Unctad, antes da atualização dos dados fechados do ano, o Brasil constava na quinta colocação em 2007.

Nos dois anos em questão - 2006 e 2007 - a China se manteve na liderança da recepção de IED, atraindo US$ 72,7 bilhões e US$ 83,5 bilhões, respectivamente. O segundo posto foi mantido por Hong Kong, que recebeu US$ 45,1 bilhões no primeiro ano e US$ 59,9 bilhões no segundo. A terceira posição também ficou estagnada com a Rússia (US$ 32,4 bilhões e US$ 52,5 bilhões) no período. Já a quarta colocação, que era de Cingapura em 2006 (US$ 24,7 bilhões), foi transferida para o Brasil (US$ 34,6 bilhões) no ano seguinte.

Em 2006, quando estava em oitavo lugar, o Brasil havia recebido um total de US$ 18,8 bilhões de investimentos externos. "No ranking dos 10 principais pólos emergentes de atração de IED de 2007, o Brasil ultrapassa México, Índia, Turquia e Cingapura", constatou o presidente da Sobeet, Luís Afonso Lima.

O IED para o Brasil cresceu 83,7% de 2006 para 2007, taxa quase três vezes maior do que a taxa de expansão dos investimentos no mundo, ainda segundo o levantamento. "Com este recorde, o Brasil ultrapassa outras economias emergentes latinas na obtenção de recursos externo, como Chile e México, e asiáticas, como Turquia, Coréia e Índia, como pólo de atração de investimentos diretos", salientou Lima.

No ano passado, o pólo de atração dos investimentos ficou mais concentrado nas economias desenvolvidas (68,1% do total), com destaque para Europa (46,3%) e a América do Norte (18,6%). As economias em desenvolvimento obtiveram 27,3% do total, enquanto as em fase de transição, 4,7%. No caso específico da América Latina, a região obteve 6,9% do total, com o Brasil registrando fatia de 1,9%; Argentina, de 0,3%; Chile, de 0,8%, e México, de 1,3.

Segundo os dados do WIR analisados pela equipe da Sobeet, o IED para as economias em desenvolvimento subiu 21% de 2006 para 2007, atingindo um total de US$ 500 bilhões. "Estes investimentos foram, em parte, direcionados para setores ligados a commodities, com preços em alta." Destes recursos, cerca de 65% tiveram a Ásia como destino; 25% a América Latina e 10%, a África”.

LE MONDE: “PARA LULA, OS EFEITOS DA CRISE SERÃO ‘QUASE IMPERCEPTÍVEIS’ NO BRASIL”

O jornal francês Le Monde publicou ontem o artigo seguinte, de Jean-Pierre Langellier, traduzido por Jean-Yves de Neufville (li no UOL):

"A crise? Perguntem a Bush, é a dele, não a minha!" O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, fustiga a um só tempo os Estados Unidos, por causa da "lentidão" da sua reação, os bancos, "essas instituições que adoram dar lições estão indo à falência", e "o cassino do sistema financeiro internacional, onde alguns apostaram na roleta e perderam". Mas, tratando-se do seu país, ele busca mostrar-se tranqüilizador: "Nós não permitiremos que o Brasil seja vítima desses jogos de azar". Entretanto, ele se mostra sem dúvida um pouco otimista demais quando prevê que os efeitos da crise serão "quase imperceptíveis" no Brasil.

De fato, a Bolsa e a moeda foram atingidas em cheio pela tempestade financeira. Em São Paulo, a maior praça financeira de América Latina conheceu as suas piores jornadas desde 11 de setembro de 2001. O seu principal indicador, o índice Ibovespa, sofreu uma dura queda antes de recuperar, cinco dias mais tarde, o seu nível anterior. A moeda, o real, viu acelerar-se a sua tendência à queda em relação ao dólar, que havia sido iniciada algumas semanas atrás. A divisa brasileira perdeu todos os ganhos que haviam sido acumulados desde janeiro.

Por sua vez, o movimento de "io-iô" da Bolsa não chegou a ser tão dramático. Os índices de mercado não paravam de subir desde 2004. Os seus progressos registravam o bom desempenho da economia. O índice Bovespa havia alcançado um nível recorde em maio, mas acabou sofrendo uma queda de 30%. Um grande número de valores, que até então vinham sendo artificialmente valorizados pela euforia do mercado local, estava e continua sendo excessivo. Na opinião de muitos especialistas, a crise atual oferece a oportunidade para se operar uma correção salutar dessas distorções. A Bolsa está procedendo a uma "limpeza" de si mesma. Ao apurar seus valores, ela faz com que os seus atores possam consolidar suas posições. Uma vez que as empresas cotadas, em sua maioria, apresentam uma boa saúde e se mostram resistentes, o mercado deverá recuperar aos poucos um novo vigor.

Em contrapartida, a fragilidade da moeda revela ser mais preocupante. Não faltavam aqueles que a consideravam como excessivamente valorizada, mas hoje, os mesmos lamentam a maneira como ela desmoronou, vitimada por uma fuga dos capitais. Obrigados a retirarem os ganhos obtidos no Brasil para cobrirem suas perdas em outras praças, os investidores provocaram de fato uma forte queda do real.

Este ataque evidenciou a vulnerabilidade do Brasil, que se tornou muito dependente das movimentações dos fundos especulativos no curto prazo. As quantias movimentadas por esses fundos representam o triplo do montante, ainda que muito confortável - de US$ 208 bilhões (R$ 374 bilhões) -, das reservas em divisas do país.

O crescimento do PIB havia alcançado 5,4% em 2007. Com uma projeção de crescimento de 4,6% em 2008, o produto interno bruto deverá alcançar um teto situado entre 3% e 3,5% em 2009. Essa queda deverá ocorrer se, conforme alguns observadores brasileiros estão temendo, a contração do comércio mundial provocar uma diminuição da demanda das matérias-primas e dos produtos agrícolas, e consequentemente dos seus preços.

O Brasil ampliou o leque dos seus clientes. Os Estados Unidos hoje não absorvem mais do que 14% das suas vendas, contra 24% em 2000, isso porque a China aumentou consideravelmente a sua participação (11%). Contudo, os Estados Unidos e a Europa ainda compram cerca da metade das exportações brasileiras. Caso esses dois "clientes" viessem a sofrer uma quase-recessão em seus mercados, isso prejudicaria forçosamente a balança comercial brasileira. Por enquanto, a maior parte dos especialistas segue acreditando na manutenção de uma demanda sustentada dos produtos agrícolas.

O bom comportamento dos indicadores fundamentais da sua economia justifica o prudente otimismo dos brasileiros. A inflação permanece contida por volta de 4,5%. Promovido ao status de "país seguro" pelos investidores, o Brasil tornou-se "credor" desde que as suas reservas superaram o montante da sua dívida externa pública e privada. Por sua vez, o crédito interno deverá sem dúvida sofrer um aperto, mas os bancos brasileiros apresentam uma boa saúde. A sua prosperidade reflete um dinamismo interno que vem sendo alimentado pelos investimentos das empresas e pelo consumo das famílias”.

“LULAMANIA” ESTÁ NO AUGE NO BRASIL, DIZ JORNAL ARGENTINO

A agência inglesa de notícias BBC (li no UOL) publicou ontem uma reportagem do jornal argentino La Nación que afirma que "a Lulamania continua no auge" no Brasil.

“O artigo se refere aos índices de aprovação do presidente Luis Inácio Lula da Silva, que atingiram o recorde de 77,7% na última pesquisa trimestral do instituto Sensus - superando o nível de 2003, quando chegou ao poder pela primeira vez.

A matéria aponta que Lula é o presidente "mais apreciado da história recente do Brasil, um país que cresce a um ritmo maior que 5% ao ano e que exerce uma marcada influência regional".

Os resultados deram cacife para o presidente apresentar em Nova York, na Assembléia Geral da ONU, a campanha "Brasil sensacional", de promoção turística.

O La Nación diz que a aprovação do governo Lula - 68,8% - se explica pelo bom ritmo econômico e os programas sociais que alcançam os estratos sociais mais pobres.

Entretanto, prossegue o artigo, a boa imagem de Lula, que seria "imbatível" na disputa por um terceiro mandato, não se estende a outros membros do PT.

Nas pesquisas, um candidato da sigla oficial correria o risco de sequer passar para o segundo turno”.

INVESTIMENTOS NO BRASIL CRESCERAM 84% EM 2007, DIZ ONU

A agência inglesa de notícias BBC ontem emitiu a seguinte matéria que li no UOL.

“O Brasil foi o país que mais recebeu investimentos externos diretos (IED) na América Latina no ano passado, segundo um relatório da Unctad, o braço da ONU para comércio e desenvolvimento, divulgado nesta quarta-feira.

O país, que tradicionalmente disputa esse título com o México, recebeu US$ 34,6 bilhões de dólares no ano passado, um aumento de 84% em relação a 2006. Os setores que mais se beneficiaram da entrada de recursos foram o de mineração, metalurgia, alimentos e bebidas, refinarias e petroquímicas.

Os mexicanos ficaram em segundo lugar no ranking latino-americano de investimentos, com US$ 24,7 bilhões recebidos - um aumento de quase 30% em relação a 2006, afirma o relatório.

Esses dois países e mais o Chile foram o destino de sete em cada dez dólares produtivos enviados à América Latina e ao Caribe no ano passado, quando a região bateu recorde de recepção de recursos: US$ 126 bilhões recebidos, um aumento de 36% em relação a 2006.

Excluindo-se os centros financeiros offshore, o aumento do investimento produtivo foi até maior: 53%, para US$ 105 bilhões, diz a Unctad.

Recursos naturais No Relatório sobre os Investimentos no Mundo (WIR, na sigla em inglês), os economistas da Unctad situam o aumento dos investimentos no Brasil e na América Latina no contexto de uma busca por recursos naturais que coloca tanto governos como empresas privadas competindo pelo controle das mesmas reservas.

Os altos preços das commodities - o barril do petróleo oscilou nos últimos dias entre US$ 100 e US$ 120, por exemplo - continuou tornando atraentes os investimentos, mesmo diante de um cenário em que governos adotam medidas para elevar seu controle sobre o setor primário.

Apenas na Venezuela, na Bolívia e no Equador, a entrada de investimentos externos foi muito pequena ou negativa, no que a Unctad interpretou como decorrência das restrições ou incertezas em relação às operações de empresas privadas nesses países.

Na região como um todo, o ambiente de negócios é mais propício aos investimentos externos no setor de mineração, mais aberto à concorrência, do que de petróleo e gás, em que companhias estatais dominam o cenário, segundo o relatório.

Investimentos fora Outro aspecto destacado no relatório foram os investimentos realizados por países latino-americanos, sobretudo Brasil e México, em outras nações. Excluindo-se os centros financeiros, o total desta rubrica caiu 43% no ano passado - para US$ 24 bilhões - mas apenas porque voltou a patamares que a Unctad descreveu como "normais".

É que, no ano retrasado, a compra da mineradora Inco pela Vale do Rio Doce (CVRD), no valor de US$ 17 bilhões, havia elevado os investimentos externos a patamares considerados "extraordinários".

Ainda assim, os números de investimento de companhias latino-americanas fora de seus países são maiores do que nos anos anteriores. O Brasil, por exemplo, investiu US$ 7 bilhões no exterior em 2007, o equivalente a quase três vezes a média anual de US$ 2,5 bilhões registrada entre 2000 e 2005.

Já as empresas mexicanas investiram no ano passado 43% a mais do que no retrasado: US$ 8,3 bilhões, de acordo com o relatório.

"De forma geral, os dados de investimentos diretos no exterior podem estar subestimando a velocidade da internacionalização das empresas latino-americanas", afirma a Unctad. "Isso porque algumas aquisições importantes no exterior não foram registradas como investimentos nos balanços de pagamentos", acrescenta o relatório.

"As companhias latino-americanas, sobretudo do Brasil e do México, agora competem por liderança mundial em indústrias como petróleo e gás, mineração, cimento, aço, e alimentos e bebidas." "Além disso, além das indústrias tradicionais, novas transnacionais estão aparecendo em setores como software, petroquímica e refino de biocombustíveis", completa o documento.

No mundo, os investimentos externos diretos também bateram recorde: chegaram a US$ 1,8 trilhão no ano passado. Os países desenvolvidos abocanharam US$ 1,25 trilhão e os emergentes, US$ 500 bilhões.

Neste ano, entretanto, a Unctad diz esperar que a crise financeira comece a surtir efeitos sobre a economia mundial, reduzindo a atividade econômica e, portanto, os investimentos externos”.

FREAKONOMICS.COM: O BÁSICO DA ATUAL CRISE FINANCEIRA NOS EUA

O site norte-americano “Freakonomics.com”, que quer dizer algo como "economia excêntrica", postou ontem o texto abaixo transcrito, de Stephen D. Levitt, Douglas W. Diamond e Anil K. Kashyap, que nos explica o que ocorre no sistema financeiro dos EUA. Li no UOL em tradução de Deborah Weinberg:

“Sou economista, mas não tenho a menor idéia do que a atual crise financeira nos EUA significa, então pedi respostas a Douglas W. Diamond e Anil K. Kashyap, meus colegas economistas da Pós-Graduação em Negócios da Universidade de Chicago.

Nesta coluna, os convidados escrevem sobre o que aconteceu no setor financeiro, por que aconteceu e o que significa para as pessoas comuns.

Vimos o período mais notável de intervenção do governo americano no sistema financeiro desde a Grande Depressão. Aqui vão algumas perguntas freqüentes, junto com nossas melhores respostas.

1. O QUE ACONTECEU DE TÃO EXTRAORDINÁRIO?

O episódio começou quando o Departamento do Tesouro nacionalizou Fannie Mae e Freddie Mac, no dia 7 de setembro. Seus ativos combinados são de mais de US$ 5 trilhões (em torno de R$ 9 trilhões). Essas firmas ajudam a garantir a maior parte das hipotecas nos EUA.

No dia 15 de setembro, o maior pedido de falência da história dos EUA foi feito pelo Lehman Brothers. O Lehman tinha mais de US$ 600 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão) em ativos e 26 mil empregados.

No dia 16 de setembro, o Federal Reserve (banco central americano) fez um empréstimo ponte para a maior empresa seguradora do mundo, a AIG. A empresa será enxugada com a venda de ativos nos próximos dois anos. O Fed nunca havia afirmado sua autoridade para intervir nesta escala, desta forma ou em uma companhia tão distante de sua autoridade supervisora.

2. POR QUE ESSAS COISAS ACONTECERAM?

O denominador comum foi a incapacidade das firmas de conseguir financiamento. As razões, contudo, diferiram caso a caso.

Fannie e Freddie tinham um papel único na economia. Eles ajudavam a garantir hipotecas e patrocinavam essas garantias emitindo sua própria dívida, que era tacitamente protegida pelo governo.

As garantias do governo permitiram ao Fannie e ao Freddie assumirem uma dívida muito maior do que uma empresa normal. A princípio, eles também deveriam reduzir o custo hipotecários dos proprietários, mas, em vez disso, parecem ter usado sua vantagem para extrair altos lucros e expulsar o setor privado do mercado de hipotecas "regulares".

No último ano, tornou-se claro que seu estreito capital não era suficiente para cobrir as perdas das hipotecas de risco. A enorme quantidade de dívida espalhada teria causado colapsos em toda parte, no caso de um calote; então, o Tesouro anunciou que ia explicitamente garantir a dívida.

Entretanto, uma vez que a dívida foi garantida, nenhum investidor teve a disposição de ajudar a tamponar as perdas. Assim, o Tesouro teve que assumir as empresas.

A falência do Lehman aconteceu quando não podia nem mais pegar emprestado. O Lehman estava rolando ao menos US$ 100 bilhões (em torno de R$ 180 bilhões) por mês para financiar seus investimentos em imóveis, bônus, ações e títulos financeiros.

Por meses, investidores temerosos estiveram convencidos que as perdas imobiliárias do Lehman eram maiores do que admitia. Quando emergiram mais notícias ruins do mercado imobiliário, inclusive as perdas no Freddie Mac e no Fannie Mae, essa opinião espalhou-se.

Os custos dos empréstimos do Lehman aumentaram, e suas ações caíram. Com a ameaça iminente de rebaixamento de sua classificação de crédito, restrições legais impediriam certas firmas de continuarem a emprestar para o Lehman.

A AIG. teve que levantar dinheiro porque tinha assinado contratos de seguro de US$ 57 bilhões (cerca de R$ 102 bilhões) cujos pagamentos dependiam das perdas nos investimentos relacionados às hipotecas de risco. Apesar de seus principais negócios e outras subsidiárias estarem bem, esses contratos, chamados de credit default swaps (CDS), provocavam uma hemorragia.

Ainda havia a possibilidade de maiores perdas, se o mercado imobiliário continuasse a se deteriorar. As agências de classificação de crédito rebaixaram a dívida da AIG e os contratos de seguros exigiam que a empresa demonstrasse que tinha garantias para cumpri-los.

O segundo problema que a AIG enfrentava era que, se não conseguisse apresentar garantias, considerar-se-ia que tinha dado calote nos CDS.

Dado o enorme tamanho dos contratos e o número de partes envolvidas, o Fed decidiu que um calote da AIG provocaria um caos no sistema financeiro e causaria falências contagiosas. O Fed, então, emprestou US$ 85 bilhões (em torno de R$ 150 bilhões) para a AIG .

3. POR QUE O TESOURO E O FED DEIXARAM O LEHMAN FALIR, MAS RESGATARAM O BEAR STEARNS, FANNIE MAE, FREDDIE MAC E A AIG?

O Bear Stearns foi resgatado por duas razões. Primeiramente, porque o Fed - que não é regulador do Bear - tinha informações muito imperfeitas sobre o que estava acontecendo na empresa.

O segundo problema era que as partes envolvidas em muitas transações do Bear não estavam preparadas para a falência súbita do Bear. O Fed argumentou que o resgate era um evento raro, que aconteceria uma vez a cada geração.

Quando o Bear foi resgatado, o Fed criou uma nova via de empréstimos para financiar outros bancos de investimento. Essa via foi modificada no dia 14 de setembro, para que pudesse agüentar uma falência contando com as proteções do código de falência. Assim, o Lehman vendeu ativos operacionais separadamente de seus títulos tóxicos lastreados em hipotecas.

Se o governo tivesse resgatado o Lehman, estaria negando a alegação que o resgate do Bear era extraordinário; também estaria admitindo que nem a nova via que montou nem os outros passos que tomou para tornar os mercados mais robustos eram confiáveis.

4. EU NÃO TRABALHO NO LEHMAN OU NA AIG E NÃO TENHO MUITAS AÇÕES. HÁ MOTIVOS PARA EU ME IMPORTAR?

A preocupação das pessoas é com a incapacidade coletiva das principais instituições financeiras de obterem financiamento.

Quando seus próprios fundos secam, as financeiras restantes ficam muito mais cautelosas em oferecer crédito para empresas normais ou indivíduos. Então, mesmo para as pessoas cujas circunstâncias não mudaram muito, o custo do crédito vai subir e será muito mais difícil de obtê-lo.

Isso retardará o crescimento.

5. O QUE SIGNIFICA "PROSSEGUIR" PARA O FED E PARA O TESOURO?

Uma leitura razoável dos planos de resgate sugere uma regra simples: se uma firma está em vias de colapso e seus laços com o sistema financeiro significariam uma cascata de caos, a firma será salva. A falência será permitida apenas se o fracasso puder ser contido.

6. O QUE SIGNIFICA "PROSSEGUIR" PARA OS MERCADOS?

Depois do Lehman, as principais firmas de serviços financeiros devem compreender que precisam administrar seus próprios riscos com mais cautela. Isso inclui tanto garantir fundos adequados quanto ter mais cuidado na escolha de parceiros de negócios de confiança.

7. QUANDO ESSA CONFUSÃO VAI TERMINAR?

A incapacidade de assegurar fundos de curto prazo fundamentalmente nasce da falta de capital. As maiores instituições financeiras estão coletivamente sem dinheiro, e mais é necessário para evitar falências ou vendas”.

EXPECTATIVA DE VIDA DO BRASILEIRO CRESCE MAIS DE TRÊS ANOS NA ÚLTIMA DÉCADA

Fabiana Uchinaka, do UOL Notícias, em São Paulo, escreveu:

"A expectativa de vida do brasileiro ao nascer cresceu mais de três anos na última década e passou de 69,3 anos, em 1997, para 72,7 anos, em 2007. As mulheres ainda vivem mais tempo: em média 76,5 anos, contra os 69 anos vividos pelos homens. Os dados constam da Síntese de Indicadores Sociais 2008, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quarta-feira (24).

A maior taxa de mortalidade masculina é responsável, em parte, pela chamada "razão de sexo" brasileira. Existem 95,3 homens para cada 100 mulheres, sendo que em Recife (87,8/100), Rio de Janeiro (88,5/100) e Belém (89,1/100) a diferença é ainda maior. Veja na tabela:

Segundo Fernando Albuquerque, gerente do projeto Componentes da Dinâmica Demográfica do IBGE, a maior mortalidade dos homens é percebida desde o momento do nascimento, quando são registrados mais óbitos de bebês do sexo masculino. "Existe uma predisposição genética, mas a taxas aumentam com os números de óbitos relacionados a causas violentas, como acidentes de trânsito e homicídios", explica.

Entre as grandes regiões do Brasil, o melhor índice de esperança de vida está no Sul (74,7 anos) e o pior, no Nordeste (69,7 anos). Santa Catarina (75,3 anos) e Distrito Federal (75,3 anos) se destacam por serem os lugares onde há maior longevidade. Já Alagoas (66,8 anos) e Maranhão (67,6 anos), pelas piores médias.

% DA POPULAÇÃO TOTAL
• Taxa bruta de natalidade...................16,70
• Taxa bruta de mortalidade...................6,23
• Taxa de mortalidade infantil...............24,32

A melhora na expectativa de vida e a queda na mortalidade da população - de 6,6 por mil (‰) para 6,23‰ em dez anos - foram responsáveis por um aumento considerável no número de idosos no Brasil. Hoje, os maiores de 60 anos representam 10,5% dos brasileiros e somam quase 20 milhões de pessoas.

Na última década, o aumento foi de 47,8%, sendo que o crescimento total da população brasileira no período foi bem menor: 21,6%. Se considerarmos apenas os com mais de 80 anos, que representam 1,4% da população e somam 2,6 milhões de pessoas, o aumento foi ainda mais relevante: 86,1%.

O número de jovens com até 14 anos, por sua vez, caiu de 30,8% para 25,4% na comparação 1997-2007. Já os menores de um ano passaram a ser 1,4% da população e se concentraram principalmente na região Nordeste, onde é maior o nível de fecundidade (número médio de filhos que uma mulher teria ao final do período fértil). A taxa de fecundidade também diminuiu e foi de 2,54 para 1,95 filho no mesmo período.

FECUNDIDADE (Nº DE FILHOS)
• Brasil....................................................1,95
• Norte.....................................................2,60
• Nordeste...............................................2,29
• Sudeste................................................1,62
• Sul........................................................1,78
• Centro-Oeste........................................2,01

"Em 1960, uma mulher teria em média seis filhos. Hoje, a taxa brasileira de fecundidade já está abaixo do nível de reposição da população (há mais pessoas morrendo do que nascendo). Por enquanto ainda não é um problema, mas daqui a 30 ou 40 anos o efeito já será sentido", aponta Albuquerque.

É visível a mudança no perfil da população brasileira. A participação da terceira idade na sociedade é cada vez maior, o número de nascimentos é cada vez menor e mesmo que a mortalidade infantil ainda seja alta se comparada a outros países emergentes, como a Rússia (onde o índice está entre 14‰ e 19‰), a taxa caiu de 35,2‰ para 24,3‰ da população em dez anos.

A população brasileira está envelhecendo. "A base da pirâmide demográfica (formada pelas crianças) está diminuindo e os mais velhos representam uma maior proporção do todo. Isso significa que o Brasil ainda possui uma pirâmide triangular, mas se já aproxima dos países desenvolvidos, que possuem uma pirâmide cilíndrica", explica o especialista.

Ele atribui o avanço aos tratamentos para doenças como o câncer e as cardíacas, que contribuem para a queda da mortalidade bruta da população, assim como aos programas de saúde pública e à melhora nas condições de habitação e saneamento, que resultam em índices positivos de mortalidade infantil e materna. "O aumento do acompanhamento pré-natal, a urbanização, o cuidado com a criança e o idoso, a vacinação eficaz, tudo isso faz com que a população ganhe mais tempo de vida", ressalta.

COMPARAÇÃO COM OUTROS PAÍSES EMERGENTES

Na Rússia, os homens vivem em média 13,6 anos menos do que a mulheres. Lá, a estrutura etária é mais envelhecida e os maiores de 65 anos correspondem a 13,2% da população. Existem 86,1 homens para cada 100 mulheres. A taxa de mortalidade é de 16,2‰ e a de natalidade, 10,7‰, níveis parecidos com os verificados em países da Europa Ocidental. A taxa de mortalidade infantil também é a menor entre os emergentes.

Índia e África do Sul apresentam pirâmides demográficas predominantemente jovens. Nesses países, os indicadores são mais desfavoráveis: as crianças correspondem a 31,8% dos indianos e 31,7% dos sulafricanos. Já os mais velhos são 5,2% e 4,6% respectivamente. No entanto, a expectativa de vida na África do Sul (49,3 anos) é 15,4 anos menor que a observada na Índia. Na Índia, existem 107,3 homens para cada 100 mulheres, enquanto na África do Sul a razão de sexo é 96,9 homens para cada 100 mulheres.

A China tem a maior expectativa de vida entre os países comparados: 73 anos para ambos os sexos. O país chama a atenção pela taxa de mortalidade infantil feminina (quase 10 mortes por mil habitantes) maior que a masculina, fruto de uma política pública que obriga as famílias a terem um único filho, existindo uma preferência por bebês do sexo masculino, especialmente na zona rural, onde vive 80% da população. Existem, portanto, 106,8 homens em média para cada 100 mulheres”.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ÍNTEGRA DO DISCURSO DO PRESIDENTE LULA NA ONU

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2008.

Li a íntegra do discurso, que a seguir transcrevo, no Blog “Grupo Beatrice”:

“Senhores e senhoras chefes de Estado e de Governo,Senhor Miguel d'Escoto, presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas,Senhor Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas,Senhoras e senhores chefes de Delegação,Saúdo, com alegria, o presidente da Assembléia Geral, meu ilustre amigo Miguel d'Escoto. Desejo-lhe pleno êxito em sua missão.

Esta Assembléia realiza-se em um momento particularmente grave. A crise financeira, cujos presságios vinham se avolumando, é hoje uma dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.

As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas.

A ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas. O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores.

A ética deve valer também na economia. Uma crise de tais proporções não será superada com medidas paliativas. São necessários mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras.

Os organismos econômicos supranacionais carecem de autoridade e de instrumentos práticos para coibir a anarquia especulativa. Devemos reconstruí-los em bases completamente novas.

Dado o caráter global da crise, as soluções que venham a ser adotadas deverão ser também globais, tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, sem imposições.

Das Nações Unidas, máximo cenário multilateral, deve partir a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós.

Há outras questões igualmente graves no mundo de hoje. É o caso da crise alimentar, que ameaça mais de um bilhão de seres humanos; da crise energética, que se aprofunda a cada dia; dos riscos para o comércio mundial, se não chegarmos a um acordo na Rodada de Doha; e da avassaladora degradação ambiental, que está na origem de tantas calamidades naturais, golpeando, sobretudo, os mais pobres.

Senhor Presidente, Senhoras e senhores, O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados.

Um suposto "nacionalismo populista", que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos. As crises financeira, alimentar, energética, ambiental e migratória, para não falar das ameaças à paz em tantas regiões, demonstram que o sistema multilateral deve se adequar aos desafios do século XXI. Aos poucos vai sendo descartado o velho alinhamento conformista dos países do Sul aos centros tradicionais.

Essa nova atitude não conduz, no entanto, a uma postura de confrontação. Simplesmente pelo diálogo direto, sem intermediação das grandes potências, os países em desenvolvimento têm-se credenciado a cumprir um novo papel no desenho de um mundo multipolar. Basta citar iniciativas como o IBAS, o G-20, as cúpulas América do Sul-África ou América do Sul-Países Árabes e a articulação dos BRICs.

Está em curso a construção de uma nova geografia política, econômica e comercial no mundo. No passado, os navegantes miravam a estrela polar para "encontrar o Norte", como se dizia. Hoje estamos procurando as soluções de nossos problemas contemplando as múltiplas dimensões de nosso Planeta. Nosso "norte" às vezes está no Sul.

Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado - em 200 anos de vida independente - que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa.

Reunidos em Santiago do Chile há pouco mais de uma semana os presidentes da América do Sul, comprovamos a capacidade de resposta rápida e eficaz da Unasul frente a situações complexas, como a que vive a nação-irmã boliviana. Respaldamos seu governo legitimamente eleito, suas instituições democráticas e sua integridade territorial e fizemos um apelo ao diálogo como caminho para a paz e a prosperidade do povo boliviano.

Em dezembro, o Brasil irá sediar, na Bahia, uma inédita cúpula de toda a América Latina e do Caribe sobre integração e desenvolvimento. Será uma reunião de alto nível, sem qualquer tutela, assentada em uma perspectiva própria latino-americana e caribenha.

Todos esses esforços no plano multilateral são complementados por meio de ações de solidariedade de meu país para com nações mais pobres, especialmente na África. Quero também enfatizar nosso compromisso com o Haiti, país em que exercemos o comando das tropas da Minustah e ajudamos a restabelecer a paz. Renovo meu chamamento à solidariedade dos países desenvolvidos com o Haiti, muito prometida e pouco cumprida.

Senhor Presidente, A força dos valores deve prevalecer sobre o valor da força. É preciso que haja instrumentos legítimos e eficazes de garantia da segurança coletiva.

As Nações Unidas discutem há quinze anos a reforma do Conselho de Segurança. A estrutura vigente, congelada há seis décadas, responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo. Sua representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que todos nós almejamos. Considero, nesse sentido, muito auspiciosa a decisão da Assembléia Geral de iniciar prontamente negociações relativas à reforma do Conselho de Segurança.

O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa. As crises alimentar e energética estão profundamente entrelaçadas. Na inflação dos alimentos estão presentes - ao lado de fatores climáticos e da especulação com as commodities agrícolas - os aumentos consideráveis do petróleo, que incidem pesadamente sobre o custo de fertilizantes e transporte.

A tentativa de associar a alta dos alimentos à difusão dos biocombustíveis não resiste à análise objetiva da realidade. A experiência brasileira comprova - o que poderá valer também para outros países com características semelhantes - que o etanol de cana-de-açúcar e a produção de biodiesel diminuem a dependência de combustíveis fósseis, criam empregos, regeneram terras deterioradas e são plenamente compatíveis com a expansão da produção de alimentos. Queremos aprofundar esse debate, em todos os seus aspectos, na Conferência Mundial sobre biocombustíveis que convocamos para novembro, na cidade de São Paulo.

Minha obsessão com o problema da fome explica o empenho que tenho tido, junto a outros líderes mundiais, para chegar a uma conclusão positiva da Rodada de Doha. Continuamos insistindo em um acordo que reduza os escandalosos subsídios agrícolas dos países ricos. O êxito da Rodada de Doha terá impacto muito positivo na produção de alimentos, sobretudo nos países pobres e em desenvolvimento.

Senhor Presidente, Há quatro anos, junto com vários líderes mundiais, lancei aqui em Nova Iorque a Ação contra a Fome e a Pobreza. Nossa proposta era, e continua sendo, a de adotar mecanismos inovadores de financiamento. A Unitaid, Central de Compra de Medicamentos, é um primeiro resultado dessa iniciativa, ajudando a combater Aids, tuberculose e malária em vários países da África. Mas não basta. Precisamos avançar, e muito, se queremos que a Humanidade cumpra efetivamente as Metas do Milênio.

Em dezembro serão comemorados os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que não pode ser objeto de uma homenagem meramente protocolar. Ela traduz compromissos inalienáveis, que nos interpelam a todos. Como governantes, mais do que a defesa retórica da Declaração, somos chamados a lutar para que os valores proclamados há seis décadas se transformem em realidade em cada país e em todo o mundo.

Senhor Presidente, O Brasil de hoje é muito distinto daquele de 2003, ano em que assumi a Presidência do meu país e em que, pela primeira vez, compareci a esta Assembléia Geral. Governo e sociedade deram passos decisivos para transformar a vida dos brasileiros. Criamos quase 10 milhões de empregos formais. Distribuímos renda e riqueza. Melhoramos os serviços públicos.

Tiramos 9 milhões de pessoas da miséria e outras 20 milhões ascenderam à classe média. Tudo isso em um ambiente de forte crescimento, estabilidade econômica, redução da vulnerabilidade externa e, o que é mais importante, fortalecimento da democracia, com intensa participação popular.

No ano em que celebramos o centenário do grande brasileiro Josué de Castro, o primeiro diretor-geral da FAO e um dos pioneiros da reflexão sobre o problema da fome no mundo, vale a pena recordar sua advertência: "Não é mais possível deixar-se impunemente uma região sofrendo de fome, sem que o mundo inteiro venha a sofrer as suas conseqüências." Tenho orgulho de dizer que o Brasil está vencendo a fome e a pobreza.

Senhor Presidente, Reitero o otimismo que expressei aqui há cinco anos. Somos muito maiores do que as crises que nos ameaçam. Dispomos de sentimento, razão e vontade para vencer qualquer adversidade. Esse, mais do que nunca, é o espírito dos brasileiros.

Muito obrigado”.

SOBRE AS VIÚVAS DA GUERRA FRIA

Li no Blog “Óleo do Diabo”, do jornalista, escritor e editor da revista Manuskripto, o muito bom texto abaixo:

“Há gente perdida em dimensões ideológicas fantasmas. Enquanto discutimos política presente e futura, analisando as perspectivas do capitalismo moderno brasileiro, que mescla, como qualquer capitalismo, pitadas de socialismo, umbanda e hip hop, ouvimos seu grito esganiçado, confuso, agressivo, acusando-nos de matar trezentos milhões de chineses e prender dissidentes políticos da Coréia do Norte.

Gostaria de entender que espécie de capitalismo é esse que eles defendem tanto, onde a economia afunda, o desemprego explode e, quando o país parece ter chegado ao fundo do poço, o governo decide tungar os contribuintes em mais 1 trilhão de dólares para... ajudar bancos e seguradores gigantes falidas!

Definitivamente, há uma grande ignorância sobre o que é democracia, capitalismo e socialismo. Acredita-se que socialismo se restringe à fórmula soviética do início do século, com o Estado dominando os meios de produção. Esta é uma concepção pobre e atrasada. A Europa já experimentou, nas últimas décadas, diversas formas de socialismo. Países como Noruega, Finlândia e Suécia, por exemplo, há muito tempo praticam uma espécie de socialismo onde o capital e a propriedade privada convivem harmoniosamente com o Estado e políticas de justiça social. O retrocesso político do PSDB aconteceu porque ele negou justamente essas raízes socialistas, convertendo-se num partido direitista neo-liberal, abraçando todos os preconceitos anti-estatistas e anti-socialistas que a social democracia original buscou superar.

A grande confusão é a ideologização distorcida de bandeiras como "justiça social", "combate à pobreza" e "distribuição de renda". Por isso a direita brasileira sempre foi burra e mais retrógrada que suas congêneres estrangeiras: ela não enxergava que a distribuição de renda era condição sine qua non para desenvovimento e consolidação do capitalismo no país. Mas a cegueira vai mais longe.

Em toda a América Latina, floresceu uma direita extremista neoliberal que concebe um capitalismo abstrato, sem mercado interno, e uma democracia sem povo. Ou seja, é uma direita fora da realidade. Contraditória. Ao mesmo tempo em que criminaliza ideologicamente qualquer política voltada aos mais pobres, acusando-a de "estatismo" essa mesma direita sempre viveu às custas do Estado, dominando a alta burocracia estatal, os principais cargos políticos e com suas empresas dependentes de encomendas do Estado e benevolências fiscais.

A direita acusa - ou acusava até pouco tempo - o Bolsa Familia de ser um programa proto-comunista, uma esmola estatal, que incentivava as pessoas a não trabalharem. Os colunistas repetiam isso. Ninguém se dava ao trabalho de apurar as ajudas estatais existentes nos países capitalistas ricos, como EUA, Europa e Japão. São ajudas muito mais consistentes. Nos EUA, por exemplo, pátria do capitalismo liberal, milhões de americanos, nos últimos 50 anos, atravessaram fases difíceis de suas vidas recebendo seguro desemprego e pensões diversas, pagas pelo Estado. A era neo-liberal, pós Ronald Reagan, acabou com muitos desses benefícios, e o resultado foi o que estamos vendo agora. A mesquinhez neoliberal só é válida para os pobres. Na hora de emprestar aos ricos, eles são super generosos.

O debate ideológico é importante, mas não se trata aqui de resgatar o maniqueísmo capitalismo X socialismo, ou mesmo esquerda X direita. Uma das teorias que venho procurando provar há tempos é que o capitalismo não é um sistema de governo, não é um regime político, nem mesmo um regime econômico. É simplesmente uma utopia ideológica, assim como o socialismo.

Nosso regime político e econômico é a Constituição, onde está prevista a obrigação do Estado de promover o bem estar e a justiça social, regular os abusos de poder dos grupos privados, e dar educação e saúde gratuita para todos os cidadãos. Está tudo lá, no livrinho. Extremistas de direita como Olavo de Carvalho já perceberam isso, e por isso vivem à beira da histeria: para eles, vivemos num mundo socialista. Isso porque eles são utópicos, e como tal, semi-dementes. A ONU, para eles, virará uma grande organização internacional que exercerá o poder político planetário. Estão certos, mas e daí? Que outra solução eles queriam? O mundo regido pela Casa Branca?

E que isso tem de comunismo, Mon Dieu? Eles vivem sob terror constante, acusando jornalistas e artistas de serem "petistas", "comunistas", "vermelhos", como outrora simpatizantes das KKK perseguiam qualquer pessoa com a pele não adequadamente branca e os nazistas fuzilavam quem tivesse uma gota de sangue judaico. Eles não percebem que isso não tem mais importância. Com a consolidação das organizações internacionais, o mundo entrou numa fase, senão de consenso, mas de harmonia ideológica. Por isso Chávez concordou em abraçar Uribe. Ainda existem tensões políticas entre os países, mas a ideologia não é mais a razão principal. Se é que algum dia foi. A própria tensão ideológica que assistimos nos países sul-americanos, não é mais que a luta pelo poder entre diferentes grupos econômicos.

Veja o caso de Evo Morales, por exemplo. Ele decidiu usar parte do dinheiro arrecadado com a venda de gás para o pagamento de pensões para idosos. Que isso tem de comunismo? Que tem isso a ver com autoritarismo? Trata-se de uma política que poderia ser feita por qualquer político de direita, e não me venham dizer que um político de direita seria mais "democrático". Se há falta de espírito democrático na Bolívia é sobretudo nas províncias "separatistas" da Bolívia, que não apenas desrespeitam sistematicamente o presidente eleito do país, como demonstram possuir nenhum espírito democrático. Montesquiet afirmava, com todas as letras: só ama a democracia quem ama a igualdade.

No entanto, qualquer conceito, palavra, idéia, podem ser distorcidos e interpretados tendenciosamente. "A verdade é uma nuance entre mil erros", dizia Renan. Não há verdades fáceis, mas também não há mentiras fáceis. A dificuldade de se compreender a verdade, todavia, não é uma virtude erudita, nem mesmo intelectual. Daí o meu ceticismo quanto à sagacidade conceitual e ideológica dos intelectuais. A principal ferramenta da inteligência humana é a intuição. E não se pode comprar a intuição.

Pode-se comprar faculdades em Yale e Sorbonne. Pode-se comprar conhecimento de línguas. Enfim, o dinheiro pode comprar todo um código cultural de elite, mas a intuição é como o talento: é um mistério, que mistura dom, experiência, estudo, coragem e renúncia. A intuição vale para tudo. Por que não para a política? Vale para a literatura, com certeza. Vale para a música, é óbvio. E para o amor, naturalmente.”

META DE EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS É ELEVADA PARA US$ 202 BILHÕES

O Valor Online ontem à tarde postou a seguinte notícia:

“A meta de exportações brasileiras deste ano foi ampliada para US$ 202 bilhões. A informação foi divulgada nesta terça-feira pelo secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Welber Barral.

Em julho, o governo tinha estimado exportações de US$ 190 bilhões para 2008, acima dos US$ 172 bilhões calculados inicialmente para o período.

A meta apresentada hoje, segundo o ministério, "significa um crescimento de 25,7% em relação às exportações de 2007, que chegaram a US$ 160 bilhões".

JOBIM CONFIRMA COMPRA DE 4 NOVOS SUBMARINOS

Li ontem no jornal “O Estado de São Paulo”, em texto de Alexandre Rodrigues:

“Segundo ministro, embarcações terão tecnologia francesa, compatível com tipo nuclear; reequipamento das Forças será submetido a Plano Estratégico

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou ontem que o reequipamento das Forças Armadas será submetido às diretrizes do Plano Estratégico de Defesa, cuja divulgação foi adiada no último dia 7.

Em visita a um dos cenários da Operação Atlântico, exercício combinado que envolve Marinha, Exército e Aeronáutica no litoral do Sudeste, o ministro confirmou que a aquisição de quatro novos submarinos convencionais até atingir o nuclear é a prioridade para aperfeiçoar o controle da Marinha sobre as áreas de exploração de petróleo na costa, como as da camada pré-sal. Segundo ele, o governo já decidiu trocar a tecnologia alemã pela francesa.

Jobim também indicou entre as prioridades a compra de novas embarcações para a Marinha - a Força quer dobrar a frota de 27 navios-patrulha -, mas frisou que a decisão será tomada levando em conta as definições do governo. Ele disse que o plano estratégico indicará a destinação das Forças Armadas e, a partir daí, os comandantes estabelecerão os meios que precisam para cumprir o papel.

“Os militares determinam as probabilidades estratégicas das ações definidas pelo poder civil. O equipamento não é uma antecedência da questão. É uma conseqüência da decisão política do poder civil”, afirmou Jobim, depois de observar o exercício protagonizado por agentes especiais das três Forças e a manobra de navios de guerra na praia de Itaoca (ES).

O ministro informou que o Brasil já decidiu firmar acordo bilateral com a França para a transferência de tecnologia para construir no Brasil quatro submarinos com dimensões maiores do que os cinco convencionais da atual frota. A intenção é chegar a um casco compatível com o projeto do submarino nuclear.

Segundo Jobim, o acordo será assinado em dezembro pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy, durante visita do francês ao País. Isso pode ajudar o Brasil em sua campanha por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. A França, membro permanente do órgão, tem proposta para reformá-lo.

A decisão do Brasil pela França descarta acordo anterior firmado com a Alemanha, origem da plataforma dos submarinos brasileiros da classe Tupi, que previa a construção de unidades de dimensões medianas. Foi a reativação do programa nuclear da Marinha que provocou a mudança.

Diferentemente da Alemanha, a França possui submarinos nucleares e teria mais condições de oferecer projeto maior. Os franceses, porém, só fornecerão tecnologia da parte não-nuclear do submarino atômico brasileiro, que não deve ficar pronto antes de 2020. Segundo Jobim, a negociação foi consolidada no encontro entre Sarkozy e Lula na fronteira com a Guiana, em fevereiro.

Jobim afirmou que o plano estratégico deve ser lançado até o fim de outubro, depois que os ministérios do Planejamento, Fazenda, Relações Exteriores e Ciência e Tecnologia opinarem sobre o assunto, a pedido de Lula. O texto ainda será submetido ao Conselho de Defesa Nacional.

Segundo o comandante de Operações Navais da Marinha, almirante Álvaro Luiz Pinto, a Força precisa de R$ 1 bilhão suplementares por ano para sua modernização.

Jobim almoçou a bordo de um dos navios da esquadra que participam da Operação Atlântico, que mobiliza 10 mil homens das três Forças. Ele também visitou hospital de campanha da Marinha. O ministro elogiou a integração das três Forças na operação, que termina na sexta-feira e tem como foco táticas de proteção e reconquista de plataformas de petróleo no mar e terminais e refinarias em terra”.

A CRISE INTERNACIONAL E A ECONOMIA BRASILEIRA

Li ontem no site Terra Magazine o seguinte texto de Julio Gomes de Almeida. O autor é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

“Por vários mecanismos a economia brasileira sofrerá o impacto do agravamento da crise financeira nos EUA. Será possível, no entanto, que a política econômica atue compensatoriamente e consiga evitar os seus efeitos mais negativos, embora não integralmente. O primeiro deles e o que mais de perto acompanha a economia brasileira é a taxa de câmbio.

A forte desvalorização cambial decorrente de uma fuga de capitais que ocorre em momentos de grande turbulência nos mercados financeiros internacionais aumenta a inflação, o que leva o Banco Central a majorar a taxa de juros e conseqüentemente o crescimento econômico é freado.

Esta seqüência se apresentou nas crises cambias de 1999 e 2002 e pode se repetir agora, caso se aprofunde a fuga de capitais dos nossos mercados de valores em busca da "qualidade". Diferentemente das vezes anteriores, o país tem na situação atual uma capacidade muito maior de responder à fuga de capitais. Essa capacidade é dada pelo volume de reservas superiores a US$ 200 bilhões, que serve como uma espécie de seguro para ser usado em caso de ataque contra a moeda, evitando ou minimizando as desvalorizações.

Evidentemente, sua eficácia dependerá da gravidade da crise e da intensidade da fuga de capitais. Em uma situação de não ruptura financeira internacional, o país poderá não repetir as experiências passadas de descontroladas desvalorizações do Real e assim evitar uma retração econômica mesmo diante de um cenário externo que deve se manter adverso por algum tempo.

Outro canal de contágio é o comércio exterior. Os preços de commodities que tiveram forte queda nos últimos três meses poderão não se recuperar. Isso reduzirá o crescimento que até o presente se mantém muito expressivo das exportações, enquanto as importações deverão manter uma evolução intensa pelo menos até o final do ano.

Nesse campo o Brasil conta com um amortecedor do provável efeito negativo das commodities. Como no comércio exterior brasileiro ainda prevalece a diversificação e não a especialização da pauta exportadora, isto confere ao país uma proteção diante do movimento de preços internacionais.

De fato, embora as vendas externas de produtos manufaturados e de maior valor agregado não venham acompanhando o crescimento das exportações de produtos básicos, sua proporção nas exportações totais ainda é elevada, o que nesse momento serve de anteparo diante de um cenário menos favorável para os produtos primários. O país vem reduzindo proporcionalmente suas vendas para o mercado norte-americano, o que também pode atenuar os efeitos de curto prazo da crise sobre o comércio exterior brasileiro.

No tema do financiamento, deve ser sublinhado que há vários meses as empresas brasileiras vêm sendo adversamente afetadas pelo estreitamento do crédito no exterior, assim como pela restrição que a crise internacional ditou para a obtenção de recursos no mercado de capitais interno e externo. Essas limitações possivelmente serão maiores a partir de agora e devem se estender por um bom tempo.

O grave problema reside na possibilidade de que a restrição do crédito externo cause paralisação ou adiamento dos planos de investimentos e de internacionalização das empresas brasileiras. Esses processos vinham se desenvolvendo intensamente e é preciso que a política econômica evite a todo custo uma descontinuidade nessa área.

Deve ser levado em conta que alguma desaceleração dos investimentos será inevitável, mas a existência de grandes e equilibradas agências de crédito públicas e o fato de que o sistema bancário doméstico não tem ligações com a crise do mercado "subprime" norte-americano são favorecedoras de ações para que a restrição do financiamento externo e do mercado de capitais seja apenas parcial e possa ser compensada mediante o crédito interno. Será necessário reforçar especialmente os recursos do BNDES.

O canal de transmissão através das expectativas dos agentes econômicos deve também ser levado em conta. Nossos consumidores costumam reagir às oscilações econômicas, como o aumento ou recuo da inflação e às notícias sobre o agravamento e eventuais melhoras na situação internacional. Recentemente, após quedas expressivas, o grau de confiança das famílias voltou a subir, mas deverá sofrer novo revés diante dos últimos acontecimentos externos.

É de se esperar, portanto, que o consumo, o qual reage com alguma defasagem às expectativas dos consumidores, não terá um desempenho tão favorável quanto vinha tendo já no último trimestre desse ano, a menos que a crise internacional se resolva completamente em prazo curto, o que pode não ser possível.

Quanto às expectativas empresariais, estas também se deprimiram ao sabor das oscilações no cenário internacional ocorridas no último ano, mas, como no caso dos consumidores, vinham tendo uma significativa melhora. É importante observar que até a semana passada a crise internacional não tinha deprimido a disposição do empresário brasileiro em investir, esta uma variável decisiva para o desempenho econômico.

Contudo, a magnitude do seu agravamento nos últimos dias poderá mudar esse quadro. As decisões de investir também reagem após certo intervalo de tempo às mudanças do ânimo empresarial e devem acusar uma retração já a partir do último trimestre desse ano.

De igual ou ainda de maior gravidade poderão ser as repercussões da crise sobre a disposição dos bancos brasileiros em conceder crédito. Diante da situação externa, os bancos podem adotar um maior rigor na avaliação do crédito de sua clientela, aumentar o custo dos financiamentos e reduzir a taxa com que vem evoluindo atualmente o crédito no país, a qual passa dos 20% em termos reais.

Nesse caso, seriam afetados o consumo da população, que cresceria menos, e as inversões em capital de giro das empresas. Em suma, consumo e investimento devem sofrer uma retração, o que, dependendo da condução da política econômica terão maior ou menor impacto no crescimento da economia. Se a política monetária persistir na dose de aumento que vem seguindo na taxa de juros, a desaceleração da economia em 2009 poderá ser forte”.

E AS LIÇÕES DO JOHN BUNYAN?

Li ontem no site Terra Magazine o texto abaixo, de Cláudio Lembo. O autor é advogado, professor universitário e político. Foi governador do estado de São Paulo entre 31 de março de 2006 e 31 de dezembro de 2006.

“Quem percorreu os longos anos do último século conheceu situações extravagantes. Conviveu com duas guerras mundiais, ambas suportadas na tolice de dirigentes de estados nacionais europeus.

Morreram milhões de pessoas e, no segundo conflito, as batalhas não se limitaram a meras ações militares. Transformaram a população civil em alvo preferencial da violência.

Não bastaram as guerras. Totalitarismos assenhorearam-se dos destinos de dois povos particularmente cultos - alemão e russo - e castraram as liberdades.

Foram além. Conceberam áreas de pleno terror, como os campos de extermínio idealizados pelos nazistas e os gulags edificados pelos comunistas.

O fascismo e o comunismo aniquilaram séculos de elaboração de idéias e instituições dirigidas à preservação da liberdade individual e dos mecanismos de limitação do Estado.

Foi tudo por água abaixo. Ou melhor, substituíram a boa água pelo sangue derramado pelas vítimas de colossais agressões antes desconhecidas pela História do Ocidente, salvo nas estreitas masmorras da Inquisição.

Houve mais. Crises econômicas na Alemanha antes do nazismo e a partir dos Estados Unidos nos anos amargos do crack de 1929. As sociedades viveram as conseqüências da má gestão econômica.

Milhares de trabalhos foram elaborados. Autores dedicaram-se a estudos sobre o tema. Conferências internacionais desenvolveram-se. Escolas foram criadas para a reflexão sobre os dois casos.

Tudo em vão. Nada se aprendeu. Ao contrário, a vaidade, inerente aos humanos, avolumou-se na mente dos operadores da economia. Mostraram-se incapazes de antever o futuro, a partir dos eventos citados.

Nada valeram as situações vividas. Ao contrário, agravaram-se. Quando os Estados Unidos conheceram a crise de 1929 ainda se encontravam presentes os princípios e os valores dos primeiros colonizadores.

A ética calvinista contava com espaços entre os americanos. Na Alemanha, a atenuante para a situação se colocava os efeitos do Tratado de Versalhes, documento considerado injusto e opressivo por intérpretes isentos.

Agora não há desculpas. Um bando de desavisados assumiu a direção de instituições financeiras e transformaram propriedades imobiliárias em meros registros contábeis.
Multiplicaram garantias reais ao infinito e no infinito encontraram o nada. O episódio lembra o Encilhamento, descrito por Taunay, ocorrido no Segundo Império, aqui no Brasil.

Não houve perdão. Até o hoje, o acontecimento - local e limitadíssimo - é examinado por quem aprende com a História. Bem diferente do que acontece com os operadores das economias centrais.

Querem amealhar seus proveitos de pronto. Lixe-se o público. Onde está o trust tão cantado em verso e prosa? Dilapidou-se a confiança, base fundamental do capitalismo.

É amargo o que se desenrola presentemente nos Estados Unidos. A empáfia das autoridades monetárias americanas se encontra corroída. Foram incapazes de fiscalizar suas próprias instituições financeiras.

Ofereceram tantas lições a todos os povos do mundo. Não foram capazes de cuidar de seu próprio quintal. Um quintal que desconsidera os valores centrais da cultura americana.

O capitalismo, antes modelado pela religião, se transformou em dramática máquina de ganho fácil. Sem limites e escrúpulos. As autoridades federais dos Estados Unidos esqueceram de agir.

Sempre prontos a dar lições aos outros povos, os dirigentes dos Estados Unidos necessitam recompor seus próprios princípios. Reavivar os seus valores morais.
As autoridades estadunidenses encontram-se obrigadas a uma profunda autocrítica. Fraudou-se, na crise atual, o mais significativo para um povo: o conceito de honra. Ou, o sentimento de confiança.

A linguagem singela do povo - como descrita por John Bunyan [autor do livro The Pilgrim'Progress, clássico da literatura puritana]- aponta para os princípios satânicos da vaidade e da hipocrisia. Eles aniquilam uma sociedade, no interior da Cidade da Destruição.”

PRESIDENTE DO STF, GILMAR MENDES, TEM OBJETIVOS POLÍTICOS

PARA EMILIANO JOSÉ, AS DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE DO STF, GILMAR MENDES, TÊM OBJETIVOS POLÍTICOS

Li ontem no site Terra Magazine o texto a seguir transcrito, de Emiliano José, jornalista e escritor.

“O primeiro-ministro italiano, Sílvio Berlusconi, pretendeu, na última semana de agosto, solidarizar-se com o ex-premiê Romano Prodi, que foi grampeado com autorização judicial no curso de uma investigação...

Houve arquivamento da investigação. A Justiça italiana concluiu pela inocência de Prodi. E o grampo foi considerado uma interceptação judicial abusiva. Berlusconi, então, deitou e rolou. Condenou a legislação, os juízes, o grampo. E falou de uma lei em tramitação no Parlamento italiano, que impedirá grampos em casos de corrupção ou de concussão (exigência de vantagem financeira indevida). Uma lei feita para Berlusconi.

Prodi, honrando sua biografia, deu uma resposta que deixou Berlusconi desconcertado. "Não gostaria que a artificial criação deste caso político alimentasse a tentativa ou a tentação de dar vida a uma lei sobre interceptações telefônicas que possa subtrair da magistratura um instrumento que, em muitos caos, demonstrou-se indispensável. Da minha parte, não tenho nenhuma contrariedade ao fato de todos os meus telefonemas serem tornados públicos". O episódio é contado por Wálter Fanganiello Maierovitch, em Carta Capital de 10/9/2008. Pensei no Brasil. No escândalo que se armou no pós-algemas e prisão de Daniel Dantas.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, depois dos dois abusivos habeas corpus que beneficiaram Daniel Dantas, um deles, segundo tantos juristas, absolutamente ilegal, começou a falar, em tom nitidamente autoritário, num presumido Estado policialesco. A ofensiva do Judiciário ganhou contornos nitidamente políticos, motivada essencialmente pela prisão de Dantas, e voltada contra a correta ação da Polícia Federal, que vinha se notabilizando no combate aos crimes de colarinho-branco, e contra a atuação de juízes que também se dedicam a esse tipo de combate.

Está certo o juiz federal Sérgio Fernando Moro, da vara especializada no combate à lavagem de dinheiro em Curitiba, ao ir na contramão desse clima político artificial, criado pelo presidente do Supremo: "Nós somos o país da impunidade mais do que qualquer outra coisa. Nesse contexto de grande impunidade, especialmente em relação à criminalidade grave e ao crime complexo, organizado, de colarinho-branco, me parecem assim sem base empírica afirmações de que vivemos num Estado policialesco". É parte da entrevista realizada por Claudio Leal.

A Associação de Juízes Federais divulgou nota de apoio ao juiz Fausto Martin De Sanctis e a todos os magistrados especializados em crimes financeiros e lavagem, contra quem se dirige de modo especial à atual ofensiva. "Os ataques que têm sido feitos a essas varas e aos seus juízes são a prova cabal de que o trabalho da Justiça Federal está incomodando quem acreditava estar vivendo no país da impunidade" (Terra Magazine, 16/9/2008). É preciso dizer mais alguma coisa?”

EM NY, BUSH SAÚDA "POTENCIAL EXTRAORDINÁRIO" DA ONU

A Agência Estado elaborou e divulgou ontem o texto a seguir transcrito:

“Nações Unidas - Seis anos após ter dito com convicção à Organização das Nações Unidas (ONU) que ela se arriscava à irrelevância por não apoiar a guerra contra o Iraque, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, saudou hoje o "potencial extraordinário" da organização. Mas Bush, que deixará o cargo em quatro meses, também usou seu discurso de despedida na Assembléia Geral da ONU para alertar os delegados sobre a "ineficiência e corrupção", a "burocracia crescente e a hipocrisia sobre os direitos humanos, que cortam a eficiência da ONU".

"A ONU é uma organização com potencial extraordinário. À medida que a ONU reconstruir seu quartel-general, ela também precisa abrir a porta a uma nova era de transparência, prestação de contas e seriedade de objetivos", disse Bush, defendendo a reforma da ONU. "Com determinação e objetivos claros, a ONU pode ser uma poderosa força do bem enquanto avançamos no século XXI. Ela pode reafirmar a grande promessa feita na sua fundação", disse, em discurso de 22 minutos.

Bush, retratado por seus críticos como um caubói selvagem com pequeno uso da diplomacia multilateral, ressaltou que a ONU "precisa permanecer unida" contra pragas como o terrorismo e a pobreza, além de apoiar a democracia e o desenvolvimento. "A ONU e outras organizações multilaterais são necessárias mais do que nunca. Para que tenham sucesso, nós precisamos ser resolutos e efetivos", afirmou.

O presidente norte-americano alertou para "apenas a passagem de resoluções contra ataques terroristas, após eles ocorrerem". Ele pediu por mais ação da ONU para combater o terrorismo em primeiro lugar, e instou contra as "todas as formas de ameaças aos governos, que são igualmente intoleráveis". Ele não mencionou a mudança climática, uma questão considerada central pela administração do atual secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

ÚLTIMO DISCURSO

O último discurso de Bush na ONU - que foi um alvo freqüente do desdém do presidente norte-americano e das suas críticas, principalmente por causa da violência em Darfur - levou a uma polida resposta de uma audiência muito acostumada a discordar dele. Em setembro de 2002, Bush alertou os líderes mundiais reunidos no plenário da ONU que ele consideraria a organização "irrelevante" em assuntos mundiais se ela não apoiasse a guerra contra o Iraque.

Mas o discurso de hoje foi notável pela quase ausência de questões como a violência no Darfur e as críticas ao Conselho de Direitos Humanos da ONU - ambos a fonte de uma violenta retórica de Bush no passado. "Precisa ocorrer uma revisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que com freqüência tem protegido violadores dos direitos humanos", limitou-se a dizer. Em relação ao Sudão, ele disse que o Conselho de Segurança e a ONU inteira precisam garantir que o governo sudanês acabe com a violência em Darfur.

Bush também disse que a comunidade internacional precisa permanecer unida contra as ambições nucleares da Coréia do Norte e do Irã. Ele também afirmou que a Rússia violou a carta da ONU ao invadir a Geórgia, esquecendo-se de mencionar que a Geórgia atacou primeiro. Bush disse que, apesar de desacordos no passado entre os EUA e a ONU, quando Washington invadiu o Iraque, a organização precisa ficar unida para defender a democracia. As informações são da Dow Jones”.

CEM ANOS DA MORTE DE MACHADO DE ASSIS

OS DOUTORES DO POVO

O jornal Folha de São Paulo ontem publicou o interessante artigo sobre Machado de Assis, Guimarães Rosa, Noel Rosas, Cartola e outros. Agora em setembro, se completam os cem anos da morte de Machado de Assis. O autor do artigo, Cássio Schubsky, é formado em direito pela USP e em história pela PUC-SP, editor e historiador, é co-autor, com Miguel Matos, do livro "Doutor Machado - o Direito na Vida e na Obra de Machado de Assis".

Machado de Assis e Cartola, em artes distintas, têm em comum a origem humilde e o autodidatismo radical

Este ano de 2008 está se celebrizando pela enorme quantidade de efemérides, de datas que ensejam reflexão ou comemoração. O que é bastante animador, sobretudo em um país estigmatizado pela memória curta, pela amnésia coletiva, pelo vergonhoso descaso com a preservação do patrimônio histórico e cultural.

O cardápio de marcos históricos contempla variados gostos: dos 200 anos da chegada da família real portuguesa, passando pelo cinqüentenário da conquista da Copa da Suécia de futebol, sem falar no centenário da imigração japonesa, incluindo os 50 anos da bossa nova, os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos ou os 20 anos da promulgação da Constituição e os 40 anos da decretação do hediondo ato institucional nº 5 -para resumir os exemplos.

Alguns centenários recaem sobre expoentes da cultura brasileira. Ainda em setembro, irão se completar os cem anos da morte de Machado de Assis, caso em que os festejos poderiam até ser dispensados, pois a comemoração da obra do escritor é permanente, não carece de data redonda -Machado é sempre cultuado.

Em outubro será a vez de celebrar o centenário de nascimento do cantor e compositor Cartola. Este, sim, legítimo representante do que se poderia chamar de "bossa velha", merece mais festa e, até agora, quase nada, apenas um sambinha aqui, outro ali...

Machado de Assis e Cartola, em artes distintas, têm em comum a origem humilde e o autodidatismo radical -não freqüentaram escolas ou as freqüentaram muito pouco. Apesar disso, se destacam pela elevada qualidade artística no manejo da palavra.

Cariocas da gema, os dois são exímios intérpretes da alma humana, com um refinamento intelectual que dá realmente o que pensar. Longe de mim a blasfêmia, mas parece que a qualidade da elaboração lingüística dos dois gênios da cultura brasileira não resulta de inspiração divina -ao menos não só dela. Tampouco da educação formal obtida em sala de aula. De todo modo, se a verve é fruto da sensibilidade, o vocabulário escorreito é proveniente de algum esforço de aprendizado -se não por meio de livros, por outro qualquer, transmissão oral, talvez.

Há quem especule que, no caso de Machado de Assis, a esposa, Carolina, teria sido uma boa professora -além de revisora de seus livros. O escritor, que foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, conviveu com luminares da inteligência nacional, com quem certamente pôde enriquecer seu repertório cultural. Pouco importa.

Quem, afinal, saberá explicar o dom do gênio? E quanto a Guimarães Rosa, cuja data de nascimento completou cem anos também em 2008? Não é justamente o contrário de Cartola e Machado, com sua linguagem empolada, intrincada, cheia de salamaleques? Lembremos que o autor de "Grande Sertão: Veredas" era um poço de erudição, homem bem-nascido e bem-criado, diplomata, poliglota, médico. Como diria Riobaldo, um dos mais notáveis personagens do autor mineiro: "É fácil pensar mal, pois essa vida é embrejada". Quer dizer, o que é não é só o que parece que é.

João Guimarães Rosa floreava seus textos com riqueza de neologismos e influência de línguas estrangeiras, mas a seiva de sua linguagem residia na sabedoria popular de Manuelzão, Riobaldo, Augusto Matraga e de tantos outros tipos literários inspirados em gente de carne e osso, cujas idéias e modo de falar sertanejo o escritor transplantou para suas obras. Em certa medida, é possível dizer -como Cartola- que o Rosa não fala, porque quem fala mesmo, em seus livros, é o matuto.

Por tudo isso, tendo nascido ou morrido há cem anos, Cartola, Machado e Guimarães Rosa são, verdadeiramente, doutores do povo brasileiro. Ou, melhor dizendo, doutores em povo brasileiro.

Noel Rosa -centenário de nascimento daqui a dois anos- cantou em versos a supremacia da inspiração popular, ensinando que, "na Vila Isabel, quem é bacharel não tem medo de bamba". Estudante de medicina, Noel sabia que "batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio".

O Brasil é um país abençoado em termos de sensibilidade artística e talento intelectual, um celeiro de Cartolas, Machados e Rosas. Com mais estímulo educacional, crescerá a chance de aparecerem exímios artistas em série, e não como fenômenos de desassombro pessoal.

Seja como for, os doutores do povo brasileiro, inspirados e criativos, espalhados pelo país afora, tirando leite de pedra, labutando no dia-a-dia, merecem nossas melhores homenagens.

Com centenários ou sem centenários.

Entendeu, seu dotô?!”