domingo, 31 de maio de 2009

PRESIDENTE DA PETROBRAS: ''NÃO PRECISA DE UMA CPI''

Li hoje no site “vermelho” a seguinte entrevista de Pedro Soares e Samantha Lima, do jornal Folha de S.Paulo, com o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli:

“O que motiva a CPI é o uso político, acusa o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. ''Não precisa de uma CPI. Ela não tem foco'', afirma Gabrielli em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo neste sábado (30), onde os jornalistas Pedro Soares e Samantha Lima fizeram as perguntas que pautam os senadores da oposição na CPI da Petrobras.

Com 59 anos e presidente da Petrobras desde julho de 2005, o baiano José Sergio Gabrielli de Azevedo sentiu o tempo mudar bruscamente nas últimas semanas em torno de si. Nesta entrevista, todas as 13 perguntas publicadas têm conotação negativa para a estatal.

Não era o que se esperava da empresa que levou o Brasil à autossuficiência em petróleo, em 2007 (54 anos depois da vitória da Campanha ''O Petróleo é Nosso'', que criou a Petrobras), e descobriu a megajazida do pré-sal em 2008. Ainda agora, são as ações da estatal que puxam a recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo após o baque causado pela crise econômica na virada do ano.

No entanto, são outras as perguntas que fazem ao presidente da companhia eleita em 2007 pelo Reputation Institut como a oitava mais respeitada do mundo segundo. Na entrevista concedida à Folha, em seu escritório no Rio de Janeiro, Gabrielli respondeu sobre caixa preta, autonomia excessiva, contratações de ONGs ligadas ao PT e supostos artifícios em contratos da Petrobras – a munição que a oposição pretende usar na CPI que o Senado instalará na próxima terça-feira. Veja a íntegra dos trechos publicados pelo jornal paulista:

FOLHA DE S.PAULO - A PETROBRAS É UMA CAIXA-PRETA?

JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI -
Uma parte substantiva das informações que estão sendo usadas nas denúncias é coletada de sites da Petrobras, de livre acesso. Isso contradiz que a Petrobras seja uma caixa-preta. A Petrobras sofre um processo permanente e contínuo de acompanhamento do TCU [Tribunal de Contas da União], da CGU [Controladoria Geral da União] e tem de estar de acordo com as regras da CVM [Comissão de Valores Mobiliários] e da SEC [a CVM americana].

FOLHA - MAS É RECORRENTE A CRÍTICA A UMA AUTONOMIA EXCESSIVA.

GABRIELLI -
Temos um processo de decisão para compras com várias etapas. Praticamente não há decisão isolada. Tem vários portões de decisão na escolha de projetos. Se não fosse assim, não seria possível fazer R$ 15 bilhões de investimento no primeiro trimestre. Não seria possível manter 55 mil contratos. Se isso aqui fosse uma caixa-preta cheia de ladrões e politiqueiros, não funcionaria. Essa empresa tem gestão, governança e profissionais técnicos dedicados. Dado o tamanho da companhia, não se pode dizer que não tem problema. Mas, se tiver, eles vão ser investigados. Mas não se pode generalizar. Fazer a ideia que a Petrobras é uma caixa-preta é ação política.

FOLHA - A PETROBRAS TAMBÉM NÃO DEVERIA FRANQUEAR O ACESSO A INFORMAÇÕES DE SEUS CONTRATOS?

GABRIELLI -
Deveria ser repensado [o acesso] para evitar manipulação externa. Não vi em nenhum jornal até agora que a fonte original dessas informações foi o site da Petrobras. Que outra empresa tem isso?

FOLHA - A PETROBRAS É UMA EMPRESA COM PARTICIPAÇÃO ESTATAL.

GABRIELLI -
Sim, mas 67% da Petrobras estão nas mãos de 700 mil acionistas. O governo tem um terço. No mercado concorrencial, não podemos passar informações [dos contratos]. Esse é um conflito que a Petrobras vive: é uma empresa controlada pelo governo, com acionistas privados. Aí um jornal diz que a Petrobras tem um sistema próprio [de licitações], como se a gente tivesse definido o sistema licitatório.

Existe uma lei, que é a Lei do Petróleo. Não foi a Petrobras que fez. Essa lei remete ao presidente da República editar um decreto que vai definir as condições competitivas, porque a Petrobras, no mercado aberto, compete com muitas empresas. O presidente Fernando Henrique Cardoso fez o decreto 2.745 com base na lei. Esse decreto diz que tem uma série de condições para a contratação, seguidas rigorosamente pela Petrobras.

A AGU diz que a Petrobras tem de cumprir o decreto. O TCU, que é um órgão do Legislativo formado por pessoas politicamente comprometidas, tem interpretação diferente, que nós temos de cumprir a lei 8.666 [que estabelece regras para licitações]. Recorremos ao Supremo Tribunal Federal em dez liminares julgadas, e prevaleceu o decreto. Não temos de cumprir a lei 8.666.

FOLHA - SE PREVALECER O ENTENDIMENTO DO TCU E AGORA DOS PROPONENTES DA CPI, A PETROBRAS PERDE COMPETITIVIDADE?

GABRIELLI -
Vai dificultar muito. Não inviabiliza, mas fazer um processo competitivo com rapidez de decisões seguindo a lei 8. 666 não é possível.

FOLHA - COMO O SR. JUSTIFICA AS CONTRATAÇÕES DE ONGS LIGADAS AO PT?

GABRIELLI -
Uma reportagem fala em 1.100 contratos e cita um ou dois com problemas, o que mostra que é um sistema eficiente. O volume de problemas é pequeno. Mas, se existem, vamos investigar. Se você pega os apoios da festa de São João, nos últimos quatro anos, vai ver que as prefeituras do PT são minoria. O critério não é ser PT ou não. É ter festa de São João.

FOLHA - A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA BAHIA É PORQUE A ONG QUE RECEBEU DINHEIRO DA PETROBRAS ERA DE EX-DIRIGENTE REGIONAL DO PARTIDO.

GABRIELLI -
É uma ilação. Só queria dizer que não sou candidato ao Senado na Bahia. Isso é uma mentira deslavada, desmentida por mim sistematicamente. Não sou candidato. Mais, o Diretório Estadual do PT na Bahia tomou a posição de que o único cargo a que vai concorrer é o de governador.

FOLHA - O QUE MOTIVA A CPI?

GABRIELLI -
O uso político. Não precisa de uma CPI. Ela não tem foco.

FOLHA - O TCU CONSTATOU QUE, DEVIDO A ADITIVOS, CONTRATOS DA PETROBRAS CHEGAM A DOBRAR DE VALOR. ESSE ARTIFÍCIO NÃO DÁ MARGEM PARA TODO TIPO DE ACRÉSCIMO?

GABRIELLI -
Existe uma coisa chamada mudança de escopo, adaptação das condições encontradas no local, mudanças no cronograma por fatores externos à Petrobras, como licenciamento ambiental, problemas no fornecimento. O decreto que seguimos, o 2.745, permite os aditivos e nós o seguimos estritamente.

FOLHA - QUANTO, EM MÉDIA, AUMENTAM OS CONTRATOS?

GABRIELLI -
Há aumento de 10%, de 25%, tem aditivo que só aumenta prazo, sem custo. São 55 mil contratos.

FOLHA - NÃO PODERIA HAVER UM PROGRAMA PARA MELHORAR A EXECUÇÃO DOS CONTRATOS?

GABRIELLI -
Estamos tentando, acelerando nossas condições para que a gente vá para o mercado com o projeto mais detalhado. Isso significa que podemos atrasar os projetos.

FOLHA - QUE PROJETOS?

GABRIELLI -
Na [refinaria] Abreu e Lima, estamos com 14 licitações. Dessas, seis cancelamos por excesso de preço, oito estão concluídas. O escândalo é em torno de um contrato de terraplanagem. O problema é que estamos falando aqui de um conjunto muito grande de coisas.

FOLHA - O COMPERJ (COMPLEXO PETROQUÍMICO DO RIO) FOI ORÇADO, EM 2005, EM US$ 6 BILHÕES DE DÓLARES E ESTÁ EM US$ 8,6 BI.

GABRIELLI -
Não se pode dizer que teve aumento, ainda, por estar em processo de licitação”.

TROCA DO AVIÃO SUCATINHA SERÁ ANTECIPADA

Li hoje a seguinte reportagem do jornal Zero Hora feita com informações do jornal "O Estado de S. Paulo":

ENTREGAS ESTAVAM PREVISTAS PARA SETEMBRO E DEZEMBRO.

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai receber no dia 14 de julho o primeiro dos dois jatos EMB-190, da Embraer, comprados por cerca de R$ 150 milhões para substituir os dois velhos Boeing-737 da Presidência. O preço final é cerca de R$ 30 milhões inferior ao praticado pela concorrência. Segundo o Palácio do Planalto, as entregas estavam previstas para setembro e dezembro. A primeira, do jato de matrícula 2900, foi antecipada de forma a permitir que Lula utilize o modelo nacional nas viagens regionais programadas para o segundo semestre.

O EMB-190 presidencial teve a autonomia original expandida e pode chegar a qualquer capital da América Latina sem escalas e até a África ou ao hemisfério norte com uma só parada. O interior terá 36 assentos do mesmo tipo oferecido na classe executiva comercial. Para a assessoria direta do presidente, haverá 11 poltronas.

Na cabine reservada, fica o gabinete de trabalho, uma suíte com cama de casal, chuveiro e saleta com terminal de vídeo. As comunicações via satélite são protegidas e codificadas eletronicamente, permitindo que as atividades de inteligência, comando e controle do governo possam funcionar a bordo..”

BASE DE ALCÂNTARA VOLTA A LANÇAR FOGUETE

Li hoje no jornal O Estado de São Paulo a seguinte reportagem de Wilson Lima, de São Luís (MA), com dados da agência francesa de notícias AFP

OPERAÇÃO MARCA RETOMADA DO LOCAL APÓS DOIS ANOS

“Apesar do mau tempo, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, lançou no final da tarde de ontem o foguete de treinamento de médio porte Improved Orion durante a operação Maracati 1, uma parceria entre Brasil e Alemanha. O lançamento não envolveu carga útil, mas marcou a retomada das operações do CLA após aproximadamente dois anos.

A cronologia para lançamento do foguete foi iniciada às 8h30 e teve de ser interrompida duas vezes por causa da chuva. O tempo melhorou e ao meio-dia foi aberta a janela de lançamento do projétil, que aconteceu às 16h25. O Improved Orion atingiu altitude de 93,7 quilômetros e permaneceu no ar por cinco minutos. O foguete caiu no mar a 80,9 quilômetros da costa e atingiu velocidade final de 4.700 km/h (quatro vezes a velocidade do som).

O Improved Orion é um foguete de treinamento com motor monoestágio, não guiado, estabilizado por empenas e lançado de trilho. Tem 5,7 metros de comprimento e propulsor movido a combustível sólido. Tem capacidade para embarcar experimentos científicos com até 80 quilos.

Segundo o diretor-geral do CLA, coronel Nilo de Andrade, o evento foi considerado um sucesso porque atingiu seus objetivos - proporcionar treinamento para os funcionários do centro, verificar os meios operacionais do local (principalmente equipamentos de telemetria e de rede meteorológica) e promover o intercâmbio com o Centro Espacial Alemão (DLR) nos campos tecnológicos e científicos. "Demos capacidade operacional ao centro, sem dúvida", afirmou Andrade.

Para 2009, são esperadas pelo menos mais quatro campanhas de lançamento: uma em julho, duas em setembro e outra em novembro. Todas com foguetes de médio porte. Apenas uma operação em setembro deverá levar carga útil, com experimentos de microgravidade.

Sobre uma nova campanha do VSB-30, principal projeto do programa espacial brasileiro, o diretor do CLA afirmou que um novo lançamento do foguete deve ocorrer no final de 2010, após a conclusão das obras do Veículo Lançador de Satélites (VLS). A última vez que tinha ocorrido uma campanha de lançamento no CLA foi em julho de 2007. Caso sejam confirmados esses lançamentos, 2009 será o ano com o maior número de eventos no local desde a explosão do VLS, em 2003. No acidente, morreram 21 técnicos do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial, com sede em São José dos Campos (SP).”

PAÍS PROJETA SUPER-REATOR NUCLEAR

Li ontem na Folha de São Paulo a seguinte reportagem de Claudio Angelo e Rafael Garcia:

OBRA DE US$ 500 MILHÕES PODERÁ TORNAR O BRASIL INDEPENDENTE NA PRODUÇÃO DE ISÓTOPOS RADIOATIVOS

ALÉM DO USO EM MEDICINA NUCLEAR, EQUIPAMENTO QUE SERÁ MONTADO EM ARAMAR (SP) FARÁ PARTE DO PROGRAMA NACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA


“Técnicos do governo federal estão detalhando o projeto daquele que será o maior reator nuclear de pesquisa da América Latina. Orçado inicialmente em US$ 500 milhões, o Reator Multipropósito Brasileiro tem o objetivo de tornar o país independente na produção de isótopos radioativos para medicina.

O reator, de 20 megawatts (quatro vezes a potência do principal instrumento do gênero em operação no Brasil), deverá começar a ser montado em 2010. Segundo seu coordenador, José Augusto Perrotta, do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), o sítio mais provável é Aramar (SP), onde a Marinha constrói seu submarino nuclear.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, disse estar inclinado a bancar o projeto. "US$ 500 milhões distribuídos em 6 ou 7 anos não é um número despropositado para o MCT. Já foi um dia, hoje não é mais", disse Rezende à Folha. "Mas é importante ter outros parceiros, e o governo de São Paulo já manifestou interesse."

São Paulo abriga hoje, no campus da USP, dois dos quatro reatores de pesquisa do Brasil. O maior deles é usado para produzir radioisótopos (versões radioativas de elementos químicos)

Na medicina, são usados em radiofármacos, que têm diversas aplicações. A maioria é usada como marcador em exames diagnósticos. Mas também, podem atacar tumores.

Hoje, no Brasil, são feitas todo ano 3,5 milhões de aplicações de radiofármacos. Os dois isótopos mais utilizados são o iodo-131, para diagnóstico de distúrbios de tireoide, e o tecnécio-99. Este último é polivalente: pode ser usado em fármacos para diagnóstico de cânceres e outras doenças no coração, cérebro, fígado e nos ossos. O tecnécio é derivado do molibdênio-99, que é importado. E aqui mora o problema.

Primeiro, o de custo. Segundo Perrotta, o país importa R$ 32 milhões por ano em molibdênio (e R$ 40 milhões por ano em outros isótopos). Com o reator multipropósito em funcionamento, a estimativa do Ipen é passar a faturar até R$ 37 milhões por ano só com molibdênio, e até R$ 25 milhões por ano com iodo-131. Além de dobrar o número de atendimentos em medicina nuclear.

Mas há um fator que a Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear) diz considerar mais premente para motivar a construção do novo reator: o fornecimento de molibdênio é incerto. Só o Canadá, a Holanda e a África do Sul produzem o elemento em quantidade significativa. E, no último dia 19, a empresa canadense MDS Nordion, que fornece a maioria do molibdênio ao Ipen, anunciou a parada do reator que responde por 40% do fornecimento mundial do isótopo.

PROGRAMA NUCLEAR

O novo reator também teria uma aplicação um pouco menos bem vista: ele deverá ser parte integrante do programa brasileiro de energia nuclear.

Após Angra 3, o governo planeja fazer mais quatro usinas. Hoje o Brasil fabrica o próprio combustível nuclear e importa uma série de materiais, mas a expansão do programa demandará investimentos em mais tecnologia nacional. "A tecnologia de combustível nuclear depende de um reator desses", afirma Perrotta.

O dirigente, também, afasta as preocupações com proliferação atômica. O combustível para o novo reator terá 20% de urânio enriquecido, limite além do qual qual é possível fabricar uma bomba.

"Todas as instalações nucleares do Brasil estão sob inspeção internacional da AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica]. Não há dúvida quanto às intenções do país", diz.”

ISRAEL PERSISTE NO ERRO

O jornal Folha de São Paulo publicou ontem em seu editorial:

“Há 42 anos, desde que derrotou vizinhos árabes na Guerra dos Seis Dias e ocupou, entre outras áreas, o território palestino na margem ocidental do rio Jordão, Israel deslancha ali um programa de assentamentos injustificável, que agride o direito internacional. Sob Barack Obama, a Casa Branca volta a insistir no óbvio: o abandono dessa anexação sorrateira é crucial para a existência do Estado palestino.

O primeiro assentamento na Cisjordânia foi erguido sete meses após a vitória israelense. Implantaram-se outros 120 desde então, quer pela omissão, quer pela ação deliberada de diversos governos israelenses, sem importar a coloração partidária ou ideológica.

Foram vários os pretextos alegados para o que deveria restringir-se a uma ocupação militar temporária, pronta para ser desmobilizada mediante um acordo de paz. De saída, a propaganda dizia ser necessário consolidar, com a colonização civil, a conquista militar e assim garantir aquela margem territorial de segurança para futura barganha. Uma leva de colônias foi fixada no extremo leste da região.

Depois, no final dos anos 1970, governos de direita invocaram o risco de Israel ser dividido em dois e implantaram mais uma série de assentamentos, agora pulverizados por todo o território. A expansão continua em vigor.

De pretexto em pretexto, chegou-se ao paroxismo. Mais de 280 mil israelenses (4% da população de Israel) vivem hoje nos assentamentos da Cisjordânia, dificultando mais ainda o futuro estabelecimento de um Estado palestino. Para dar segurança aos assentados, o Exército israelense ali sustenta uma miríade de bloqueios rodoviários e postos de controle, que transtornam o cotidiano dos palestinos.

Decretar o fim da expansão desses assentamentos é o mínimo a exigir de Israel neste momento, a fim de que se abram perspectivas para a retomada de negociações com os palestinos. O premiê Binyamin Netanyahu, entretanto, afirma que vai permitir o "crescimento natural" dessas colônias. Uma provocação irresponsável, além de cinismo na perpetuação do esbulho.”

sábado, 30 de maio de 2009

O SUCESSO DA CHINA E O FRACASSO DO BRASIL NA CONQUISTA DO ESPAÇO: POR QUÊ?

A razão é triste, mas simples e clara.

Foi publicado há pouco mais de um mês, que em palestra na Câmara, o ex-ministro do MCT Roberto Amaral expôs que os recursos financeiros para todas as atividades espaciais brasileiras tiveram um pico máximo, da ordem de US$ 100 milhões, no Governo Sarney. Porém, despencaram nos anos 90, com Collor e o governo dito “neoliberal” do PSDB/PFL (DEM). Chegaram praticamente a zero em 1999, ano em que deveria haver maiores despesas por conta do lançamento do VLS. Naquele ano, foram ridículos US$ 8 milhões para tudo: satélites, centros de lançamento, foguetes científicos suborbitais, foguete lançador de satélites “VLS”, laboratórios, fábrica de propelente, capacitações de especialistas etc.

Nos anos 90, simultaneamente àquele enforcamento financeiro, houve a extinção dos recursos humanos da área espacial, sem autorização de reposições por concursos públicos.

Era a --muito elogiada pela grande mídia-- política de “enxugar” o Estado, com o objetivo oculto de deixá-lo fraco e vulnerável frente aos grandes grupos econômicos e financeiros.

O resultado foi óbvio: a tragédia de 2003.

O Dr Amaral contou, em sua exposição na Câmara, que, quando ocorreu a explosão do VLS em 2003, ele era Ministro da Ciência e Tecnologia e deu uma declaração que provocou muitas críticas. Disse que a causa era a ausência de recursos nos anos “neoliberais”. Ela destruiu os três foguetes VLS e apertou o botão da explosão. Ela matou os 21 cientistas brasileiros.

Por razões misteriosas, dentre todos os grandes países emergentes, somente o Brasil resolveu, naquela década, matar o próprio programa espacial.

A China e a Índia continuaram a investir forte em seus programas espaciais. A Índia na faixa de US$ 750 milhões/ano e a China na ordem de US$ 1,5 bilhão por ano (2005), isto é, quase 200 vezes mais do que o Brasil dos tempos tucanos. Hoje, aqueles países colhem os frutos. Seus respectivos parques industriais usufruíram de grande crescimento no valor agregado dos seus produtos.

O Brasil, por sua vez, com aquela política ficou como querem as grandes potências: exportador agrícola e de matérias-primas e importador de bens caros e sofisticados.

Agora, para recuperar o tempo perdido, não bastam recursos financeiros, que melhoraram um pouco nos últimos anos. Será preciso uma geração para formar novos cientistas espaciais.

Isso tudo me veio à cabeça quando li ontem, no portal UOL, a seguinte reportagem de Kirby Chien da agência norte-americana de notícias Reuters, divulgada em Pequim:

CHINA DIZ QUE LANÇARÁ SONDA PARA MARTE ESTE ANO

“A primeira sonda chinesa para Marte deve ser lançada no segundo semestre deste ano, junto com um foguete russo, disse a agência Xinhua nesta quinta-feira, em mais um marco para o ambicioso programa espacial do país.

A sonda Yinghuo-1 (Vagalume-1) pesa 115 quilos e já passou por um teste importante, disse à Xinhua o subsecretário da Academia de Tecnologia de Voo Espacial de Xangai, Zhang Weiqiang.

Sua vida útil esperada é de dois anos, e ela deve chegar à órbita de Marte em 2010, após uma viagem de dez meses e 380 milhões de quilômetros, segundo Zhang. A sonda não irá pousar no planeta - apenas circundá-lo e monitorá-lo.

Há alguns meses, uma sonda chinesa caiu na superfície lunar após uma missão de 16 meses, primeiro passo para o envio de um veículo que deverá pousar na Lua em 2012.

No ano passado, a China lançou sua terceira missão tripulada, a primeira com uma caminhada espacial.

Pequim espera um dia levar astronautas à Lua, mas o governo não anunciou prazos para isso.”

LULA, OS POBRES E OS NEGROS

Li hoje no site “Vi o mundo”, do jornalista Luiz Carlos Azenha, a seguinte reportagem de Alba Valéria Mendonça, do G1, no Rio:

“Enquanto os intelectuais falam em questões eleitorais complexas, como o pré-sal e a reforma política, o povão se liga em coisas muito mais concretas, como o medo que alguns políticos têm de abraçar pobres e negros.

O presidente Lula tocou neste assunto hoje, no Rio:

Em ato do PAC, Lula diz que é preciso não mais eleger 'vigaristas'. Presidente disse que é preciso eleger quem tem compromisso com povo. Presente ao evento, Dilma Rousseff agradeceu solidariedade do público.

O presidente Luiz Inácio Lula da SIlva disse nesta sexta-feira (29), na comunidade de Manguinhos, na zona norte do Rio, que o país pode ser "diferente" se a população aprender a "não eleger mais vigaristas".

Estamos mostrando que esse país pode ser diferente se a gente aprender a não eleger mais vigaristas. Se a gente aprender a eleger pessoas que tenham compromisso com o povo, que não tenham medo de abraçar um pobre, um negro", disse Lula, que visitou obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no subúrbio do Rio.

CAMPANHA

Bastante aplaudido durante o discurso, Lula brincou com o público presente ao afirmar que não é ele quem fala em campanha nos eventos, mas o povo.

“Depois vão dizer que eu falei em campanha. O Lula não falou em campanha, vocês é que falaram esse nome aí”, disse Lula, após ser saudado com gritos de “fica, fica, fica” ao anunciar que só voltará à comunidade em dezembro de 2010, quando, segundo ele, entregará o mandato a outra pessoa.

Aos gritos pedindo a permanência do presidente, misturaram-se outros saudando a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que retomou sua agenda de eventos públicos após ter sido internada na semana passada com dores em decorrência do tratamento de câncer linfático.”

ACIDENTE DA GOL

NÃO SE CONFIRMA O PUBLICADO PELA FOLHA DE SÃO PAULO, DE QUE LULA FORA O ASSASSINO DOS PASSAGEIROS DO AVIÃO DA GOL NA TRAGÉDIA DE SETEMBRO 2007

CERTAMENTE, O JORNAL, COM O MESMO DESTAQUE, FARÁ SUA “MEA CULPA”


O jornal Correio Braziliense ontem publicou

NOVA DENÚNCIA CONTRA PILOTOS

“O Ministério Público Federal enviou nesta quinta-feira à Justiça Federal nova denúncia contra os pilotos Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, que pilotavam o jatinho Legacy envolvido no acidente com o avião da Gol em setembro de 2007, quando 154 pessoas morreram. A denúncia se baseou em dois novos laudos periciais que identificaram a ocorrência de mais duas condutas que também foram causa do acidente. Os laudos são resultado do estudo e análise do relatório sobre o acidente feito pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), de dezembro de 2008. Indicam duas falhas que ainda não haviam sido identificadas: os pilotos omitiram a informação de que o jato não possuía autorização para voar em uma área tida como espaço aéreo especial e o não ligaram em nenhum momento do voo o sistema anticolisão (TCAS).

Ainda sobre o mesmo assunto, li no jornal O Estado de São Paulo a seguinte reportagem de Fátima Lessa, de Cuiabá:

CONTRA PILOTOS DO LEGACY, MAIS ACUSAÇÕES

MINISTÉRIO PÚBLICO ENVIOU À JUSTIÇA COMPLEMENTO DE DENÚNCIA


“O Ministério Público Federal em Mato Grosso apresentou ontem à Justiça Federal um complemento de denúncia (acusação formal) contra os pilotos americanos do jato Legacy que colidiu com o Boeing da Gol, em setembro de 2006, causando a morte de 154 pessoas. Os laudos periciais feitos por Roberto Peterka e pelo advogado de assistência da acusação, Dante Daquino, que apontam falhas que ainda não haviam sido identificadas e que também foram causa do acidente, são resultados do estudo e análise do relatório sobre o acidente feito pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), de dezembro de 2008. A denúncia é assinada pelos procuradores Analícia Ortega Hartz Trindade e Thiago Lemos de Andrade.

De acordo com a denúncia, os pilotos omitiram a informação de que o jato não tinha autorização para voar em uma área tida como espaço aéreo especial e não ligaram em nenhum momento do voo o sistema anticolisão TCAS (sigla para Traffic Alert and Colision Avoidance System). O TCAS é um instrumento que dá informações ao piloto sobre a existência de outras aeronaves nas proximidades, para evitar colisão. Em situações críticas, quando o risco de colisão é iminente, o TCAS emite alertas. O plano de voo do Legacy foi apresentado pelo setor de apoio ao cliente da Embraer, a pedido dos pilotos, como cortesia à empresa Excel Air, que havia comprado o jato no dia anterior. Esse plano de voo, entretanto, continha informação falsa de que o jato Legacy atendia aos requisitos para voar em espaço aéreo sob condição de separação vertical reduzida, conhecido pela sigla em inglês RVSM.

Na avaliação do perito que fez os laudos, o piloto do Legacy estava obrigado a informar a condição da aeronave não aprovada para RVSM desde o primeiro contato com o Serviço de Solo de São José dos Campos. A transcrição dos contatos mantidos entre a aeronave e o controles de voo comprovam que essa informação não foi prestada em nenhum momento.

Os dois pilotos foram denunciados pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo - como houve mortes, a pena nesses casos é equiparada à do homicídio culposo.

Os procuradores explicaram que a decisão de fazer uma nova denúncia, em detrimento do aditamento já existente, tem o objetivo de acelerar o processo de análise pela Subseção da Justiça Federal em Sinop (MT). A análise é de recurso do Ministério Público Federal contra a decisão que absolveu pilotos e controladores de algumas condutas. O MPF espera que essa nova denúncia seja recebida e processada para que, ao final, seja julgada junto com a ação penal que resultou da denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal em 2007.

Procurada, a defesa dos pilotos preferiu não se manifestar.”

PAÍS VAI CRESCER ENTRE 3% E 4% EM 2010, AFIRMA MANTEGA

Li ontem no portal UOL a seguinte reportagem de Juliana Rocha:

“O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o crescimento econômico do ano que vem será entre 3% e 4%. A expectativa é menor do que a previsão oficial de 4,5% incluída pelo governo na proposta de LDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias). A estimativa oficial para este ano é um crescimento de 1%.

Em audiência pública no Senado, o ministro fez a avaliação de que a crise ainda não acabou, mas o Brasil já retomou o crescimento.

Em referência à avaliação da FGV (Fundação Getulio Vargas) de que o Brasil entrou em recessão no último trimestre do ano passado, Mantega disse que esse é um dado do passado "visto pelo retrovisor".

Questionado pelos senadores sobre a desvalorização do dólar em comparação com o real, ele disse que uma das saídas para "enxugar" a liquidez no mercado de câmbio é a compra de dólares para aumentar as reservas internacionais do país.

O ministro disse ainda que os juros no Brasil são muitos altos e falta crédito para empresas.

"O importante é que, olhando para a frente, já estamos em recuperação. Ainda temos o problema sério do crédito. A taxa de juros é muito alta, atrapalha a produção", afirmou.”

BOVESPA GANHA 42%, MELHOR RESULTADO ACUMULADO EM 10 ANOS

O portal UOL ontem divulgou, com informações da agência francesa de notícias AFP, da norte-americana Reuters e do jornal Valor Online:

“A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) fechou esta sexta-feira em alta de 0,3%, aos 53.197,73 pontos. Segundo a consultoria Economatica, o resultado da Bolsa até agora é o melhor em dez anos. Os ganhos acumulados nos cinco primeiros meses somam 41,7%, a variação mais alta desde 1999, quando o ganho foi de 63,5% no mesmo período de cinco meses.

Em maio, o Ibovespa (principal índice da Bolsa paulista) ganhou 12,5%.

A cotação do dólar comercial caiu 1,69%, a R$ 1,975. É a primeira vez em mais de sete meses que a moeda fechou abaixo de R$ 2,00. A última vez foi em 1º de outubro, quando a cotação chegou a R$ 1,925.
O dia teve agenda intensa de indicadores. No Brasil, a confiança da indústria saltou 6% em maio e completou o quinto mês seguido de alta.

"O avanço do índice pelo quinto mês consecutivo confirma a tendência de recuperação gradual do ritmo de atividade industrial após o forte declínio ocorrido ao final do ano passado", diz a FGV, responsável pela pesquisa do indicador.

Após dados revisados, a economia dos Estados Unidos encolheu 5,7% no primeiro trimestre. A expectativa do governo era de queda de 6,1% no PIB (Produto Interno Bruto).

No Japão, dois dados importantes foram divulgados. A taxa de desemprego subiu 0,2 ponto em abril na comparação com março para o maior nível em cinco anos. Já a produção industrial no país subiu 5,2%, na maior alta desde 1953.

Na zona do euro, a inflação chegou a zero em maio pela primeira vez na história do bloco. Na Suécia, o PIB (Produto Interno Bruto) caiu 6,5% no primeiro trimestre, no maior recuo desde o início do cálculo do índice.

Na Ásia, as Bolsas fecharam em alta e o índice de Tóquio atingiu o maior nível em sete meses após subir 0,75%. O índice que reúne as principais Bolsas asiáticas com exceção da japonesa atingiu o maior nível desde o início de outubro.”

IBOPE: LULA MAIS BEM AVALIADO QUE FORÇAS ARMADAS, IGREJA E IMPRENSA

O jornal Correio Braziliense publicou 5ª a seguinte nota de Denise Rothenburg e Guilherme Queiroz:

“Acaba de sair do forno mais uma pesquisa eleitoral, desta vez, encomendada ao Ibope pelo presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos. A consulta será usada para mostrar ao presidente Lula que, num cenário de José Serra ou Aécio Neves versus Dilma Rousseff, os votos do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) vão em sua maioria para o PSDB. Na pesquisa do Vox Populi encomendada pelo PT, essa transferência de Ciro para o PSDB ficou na faixa dos 7%. Na pesquisa do Ibope está na casa dos 9%.

Em tempo: a consulta mostra ainda que Lula é hoje quem tem a avaliação mais favorável entre instituições e pessoas, com 79%, acima das Forças armadas, que têm 75%. Em seguida vêm os sindicatos e o Ministério Público, com 74%. A Igreja Católica e a imprensa aparecem logo abaixo, com 71%.”

REAL FORTE, ECONOMIA FRACA

O jornal Folha de São Paulo, na coluna semanal de Paulo Nogueira Batista Jr., publicou o artigo abaixo. O autor é diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).

PARA EVITAR A VALORIZAÇÃO DO REAL, É PRECISO INTENSIFICAR A ACUMULAÇÃO DE RESERVAS E ACELERAR A REDUÇÃO DOS JUROS

“O REAL voltou a se valorizar, invertendo grande parte da depreciação acumulada desde o agravamento da crise internacional, no final do ano passado. Moeda forte é exatamente como a ponte Rio-Niterói: "Por um lado, é bom; por outro, é Niterói" (Max Nunes).

Por um lado, a valorização é um sintoma de que a economia brasileira começa a escapar da crise. No exterior, prevalece a percepção de que o país resistiu bem à gravíssima turbulência internacional. Essa percepção, aliada a certa melhora do quadro mundial e aos juros altos no Brasil, está levando a um aumento da demanda por ativos em reais e a entradas significativas de capital. A valorização cambial também ajuda a controlar a inflação, que já vinha em queda por conta da recessão.

Por outro lado, a valorização ameaça a competitividade das exportações brasileiras, já fortemente prejudicadas pela recessão mundial.

Representa, além disso, um estímulo à importação, favorecendo a substituição de produção nacional por bens e serviços externos. A queda das exportações e o deslocamento da produção nacional por importações contribuem para dificultar a retomada da economia.

Como lidar com o problema? A acumulação de reservas é uma alternativa atraente, que vem sendo adotada pelo Banco Central desde o início do mês. Ao intervir no mercado de câmbio, absorvendo o excesso de oferta de moeda estrangeira, o BC alcança dois objetivos: a) segura a apreciação do real, impedindo pelo menos parcialmente a perda de competitividade; e b) eleva o nível das reservas, reforçando a proteção contra choques externos e garantindo a autonomia do país.

O aumento das reservas para mais de US$ 200 bilhões, que ocorreu antes da fase mais grave da crise mundial, é um dos fatores que explicam o desempenho relativamente favorável do Brasil em circunstâncias muito adversas. Diversos outros países em desenvolvimento, que não tinham a proteção proporcionada por reservas elevadas, sofreram crises cambiais e tiveram que bater às portas do FMI. O Brasil, inversamente, irá emprestar dinheiro ao Fundo, pela primeira vez na história.

Tivemos, entretanto, alguma perda de reservas. As reservas brasileiras, no conceito de caixa, caíram de US$ 206 bilhões no final de setembro de 2008 para US$ 191 bilhões no final de abril de 2009, uma perda de US$ 15 bilhões.

Convém aproveitar a conjuntura mais favorável para recompor as reservas. Neste mês, até o dia 22, as reservas aumentaram em US$ 4,5 bilhões. Um esforço adicional de acumulação de reservas ajudaria a conter a tendência de apreciação do real e poderia trazer as reservas para o nível observado antes da intensificação da crise, em outubro.

A valorização acentuada do real sugere também que a taxa de juro continua fora do lugar, apesar das diminuições recentes. O diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo ainda é muito alto, contribuindo para o fortalecimento do real. Os juros altos também obstruem a recuperação da demanda interna. Portanto, uma diminuição mais rápida dos juros internos traria um duplo benefício: contribuiria para conter a perda de competitividade externa e apressaria a recuperação do mercado interno.

Em suma, o governo tem instrumentos para lidar com o problema. Trata-se basicamente de intensificar a acumulação de reservas e acelerar a redução dos juros. É recomendável, porém, agir com rapidez, evitando que se instale a expectativa de um novo ciclo de valorização da moeda brasileira.”

BACHARÉIS EM DIREITO PAULISTAS SÃO OS PIORES, SEGUNDO OAB

O jornal Folha de São Paulo divulgou esta semana:

NA LANTERNA

“Fala por si própria a taxa de reprovação de bacharéis em direito paulistas no exame unificado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB): 88%. São Paulo ficou na lanterna, ao lado de Mato Grosso e Amapá. Só em cinco Estados -Sergipe à frente, com 33%- aprovou-se mais de um em cada quatro candidatos.

Causa espécie, de todo modo, o mau desempenho de São Paulo. No primeiro ano de adesão da OAB-SP ao exame nacional, frustra-se a expectativa de uma melhora. Quando a seleção no Estado era organizada pela seccional, a última taxa tabulada, a de 2007, registrou 68% de fracassos.

Para a OAB-SP, isso está relacionado com a "mercantilização" do ensino de direito -eufemismo para a péssima qualidade das escolas. Nada haveria de errado com a proliferação das faculdades se a grande maioria formasse profissionais aptos. O problema não está em obter lucro, mas em ludibriar estudantes, sob o olhar complacente dos responsáveis pela regulação do setor.

Só recentemente o MEC pôs-se a agir contra as más escolas. Em 2008, totalizou 16 mil vagas interditadas em cursos que obtiveram notas baixas no Enade, exame oriundo do antigo provão. Sozinho, o Estado de São Paulo responde por mais de 14 mil das vagas fechadas.

A ampliação da clientela das faculdades possibilita desenvolvimento pessoal e profissional a toda uma geração de brasileiros cujos pais não tiveram a mesma oportunidade. Que esses jovens passem mais quatro ou cinco anos na escola já é algo louvável. Mas a obrigação das autoridades é garantir um mínimo de qualidade no ensino.

No caso dos cursos de direito, vale lembrar, a existência do exame da Ordem impede profissionais desqualificados de exercer a profissão. Ainda há categorias tão ou mais relevantes, como os médicos, que resistem à implantação de exames certificadores.”

MÍDIA E TUCANOPEFELENTOS EUFÓRICOS COM A CONSTATAÇÃO DO NYT

PORÉM, AZAR DO BRASIL

CPI DA PETROBRAS AMEAÇA PLANO FISCAL DO BRASIL, DIZ 'NEW YORK TIMES'


A agência britânica de notícias BBC divulgou a seguinte notícia sobre reportagem publicada quinta-feira pelo diário americano The New York Times:

“As investigações sobre a Petrobras no Congresso brasileiro ameaçam complicar os esforços do governo de aumentar as suas receitas com os recursos dos novos campos de petróleo, afirma reportagem publicada nesta quinta-feira pelo diário americano The New York Times.

A CPI da Petrobras foi aprovada há duas semanas pelo Senado brasileiro para investigar acusações de que a estatal teria sonegado impostos e concedido contratos ilegais.

Segundo o jornal, "as investigações podem se mostrar um constrangimento para o governo de Lula, que quer modificar a legislação de petróleo para extrair uma porcentagem ainda maior de recursos das reservas em águas profundas".

A reportagem afirma ainda que a CPI pode prejudicar a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, escolhida por Lula como candidata à sua sucessão, já que ela é também presidente do conselho da companhia. O jornal diz que Lula, que já afirmou querer usar os recursos adicionais com o petróleo para estabelecer fundos para programas sociais, classificou a CPI de "irresponsável" e "não patriota". A reportagem comenta ainda que o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse que as investigações têm motivação política e que podem afetar a imagem da companhia, mas que não prejudicarão.”

BRASIL VOLTA A SER O PARAÍSO DOS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS, DIZ 'EL PAÍS'

A agência britânica de notícias BBC publicou ontem a seguinte notícia sobre reportagem publicada quinta-feira pelo diário espanhol "El País":

“O Brasil voltou a ser "o paraíso dos investidores estrangeiros", segundo afirma reportagem publicada nesta quinta-feira pelo diário espanhol "El País" em sua versão online.

"Apesar da crise financeira mundial, os investimentos que chegaram de fora do país duplicaram em abril. Os analistas econômicos opinam que, depois de um primeiro trimestre incerto, os investidores estrangeiros estão devolvendo a confiança ao Brasil", diz o jornal.

Segundo a reportagem, o fato tem duas explicações. A primeira, que a crise mundial afetou apenas "ligeiramente" o Brasil, e o país poderá crescer em 2010 de 4% a 5%, segundo o ministro (da Fazenda) Guido Mantega".

Em segundo lugar, os juros, que já baixaram a 10,25% e podem chegar a 9% até o final do ano, continuam entre os maiores do mundo e "seguem sendo apetitosos para os investidores".

O jornal observa que a não ser que haja uma forte retirada de recursos nos últimos dias do mês, o resultado dos investimentos estrangeiros em maio deverá ser o melhor desde abril do ano passado.

Apesar dos números positivos em relação aos investimentos, a reportagem comenta que eles trazem ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a preocupação com a valorização do real por conta da forte entrada de recursos no país.

"THE TIMES"

A situação econômica do Brasil e os efeitos da crise mundial também foram tema de um artigo de opinião publicado nesta quinta-feira pelo diário britânico "The Times".

O colunista econômico Anatole Kaletsky, após visitas à África do Sul e ao Brasil, diz que os dois países, apesar de atingidos fortemente pela crise, "parecem mais fortalecidos do que deprimidos pela experiência".

"A notável resistência dessas economias e a confiança de suas comunidades empresariais, de sua mídia e de seus mercados financeiros, em contraste com a melancolia apocalíptica na Grã-Bretanha, Europa e Estados Unidos, destaca as três transformações que esta crise trouxeram à tona", diz o colunista.

A primeira transformação, segundo ele, é a emergência da classe média nos países desenvolvidos como principal motor do crescimento econômico global nas próximas décadas.

Ele observa que os cálculos do FMI indicam que as economias emergentes contribuirão com 100% do crescimento global até 2010, e pelo menos 70% nos cinco anos seguintes.

A segunda transformação, de acordo com Kaletsky, é "a habilidade das economias emergentes de determinar seus próprios destinos, independentemente do sucesso ou do fracasso das políticas econômicas dos Estados Unidos ou da Europa".

"Apesar de as economias emergentes não terem conseguido se isolar completamente da crise global, elas conseguiram finalmente refutar o clichê de que quando os Estados Unidos espirram, o mundo pega pneumonia", diz o artigo.

A terceira mudança, segundo o colunista, é a transformação política e social provocada pelo crescimento da classe média, com o fortalecimento de democracias de livre-mercado plurais e liberais.”

SETOR PÚBLICO TERMINA ABRIL COM SUPERÁVIT NOMINAL

Li no UOL a seguinte reportagem de Azelma Rodrigues do Valor Online:

“As contas públicas consolidadas apresentaram superávit nominal de R$ 313 milhões em abril. Em igual período do ano passado, houve também superávit nominal, de R$ 3,842 bilhões. As informações são do Banco Central (BC).

Esse é o resultado do desempenho das contas da União, estados, municípios e estatais, levando-se em consideração o movimento de caixa e o pagamento de juros. O saldo positivo do mês se deve ao fato de a economia para pagamento de juros (R$ 12,494 bilhões) ter sido suficiente para cobrir os juros apropriados (R$ 12,182 bilhões).

No quadrimestre, houve déficit nominal nas contas públicas de R$ 17,499 bilhões, o equivalente a 1,87% do Produto Interno Bruto (PIB). Um ano antes, porém, o resultado foi positivo, em R$ 6,885 bilhões, ou 0,77% do PIB.

Nos 12 meses terminados em abril, o déficit nominal situou-se em R$ 68,691 bilhões, ou 2,34% do PIB, excedendo o resultado deficitário dos 12 meses até março, de R$ 65,162 bilhões (2,23% do PIB).”

MANTEGA TRAÇA CENÁRIO POSITIVO PARA O BRASIL APESAR DA CRISE MUNDIAL

O jornal Valor publicou, com informações da Agência Senado:

“O ministro da Fazenda, Guido Mantega, traçou um cenário favorável para a economia brasileira em meio à crise financeira mundial em audiência pública no Senado nesta quinta-feira.

De acordo com ele, a recuperação gradual da economia interna se deve às políticas públicas para aumento da oferta de crédito e redução da taxa de juros básica (Selic) e de tributos incidentes sobre a produção industrial.

O crescimento de 5,1% alcançado pela economia brasileira em 2008 impediu, disse o ministro, que o país entrasse em recessão.

Mantega afirmou também que o Brasil passou a atrair um fluxo maior de capitais estrangeiros e teve crescimento superior a 7% na massa salarial entre abril de 2008 e abril de 2009, além da queda gradual na relação dívida pública bruta/PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas do país) de 60% em 2008 para 57% em 2009.

O fato de as exportações só participarem com 13% do PIB também teria contribuído, afirmou o ministro, para amortecer os efeitos da crise mundial sobre a economia brasileira, que depende mais do mercado interno.

Mantega atribuiu essa blindagem também ao desempenho fiscal das contas púbicas, à solidez do sistema financeiro brasileiro e pela manutenção de um volume significativo de reservas internacionais, da ordem de US$ 205 bilhões.

"Os novos protagonistas no cenário internacional são os países emergentes -o Brasil entre eles -, que apresentam dinamismo econômico maior, contas públicas e externas mais equilibradas, recursos naturais abundantes e modernizaram sua estrutura produtiva", comentou.

Em relação à oferta de crédito, o ministro da Fazenda defendeu sua ampliação para a pessoa jurídica, que ainda amarga taxa de spread bem mais elevada que a cobrada da pessoa física. Ele admitiu que esse é um problema crônico na economia brasileira, agravado pela crise financeira mundial.”

DESPESAS COM JUROS BATEM RECORDE MÍNIMO

O MENOR PATAMAR DESDE MAIO DE 1998 PARA A RELAÇÃO DESPESAS/PIB

O jornal Valor Online ontem publicou a seguinte reportagem de Azelma Rodrigues:

Juro menor começa a reduzir endividamento público

“O efeito benéfico da queda dos juros sobre a dívida líquida do setor público tem sido amortecido pela variação cambial. Somente em abril, a queda de 5,92% na cotação do dólar gerou aumento de R$ 23,08 bilhões, enquanto a apropriação de juros teve queda de R$ 1,9 bilhão sobre o mês anterior.

De acordo com o Banco Central (BC), as despesas com juros atingiram 5,41% do Produto Interno Bruto (PIB) nos 12 meses terminados em abril, sendo o menor patamar desde maio de 1998 (5,38%) para a mesma relação.

A trajetória de redução da taxa básica Selic, conforme explicou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, passou a ter reflexos benignos sobre a dívida. Para cada 0,1 ponto percentual de queda na Selic, mantido por 12 meses, há uma diminuição de 0,28 ponto na relação dívida versus PIB.

Já o câmbio tem efeito inverso, porque o governo tem ativos atrelados ao dólar, como as reservas internacionais. Para cada 1% de queda do dólar, o impacto é de 0,14 ponto percentual do PIB na dívida, em sentido contrário, de forma imediata.

No mês passado, por exemplo, o dólar caiu 5,92% e o aumento na dívida foi equivalente a 0,8 ponto do PIB. A dívida saiu de 37,6% em março para 38,4% em abril.

Lopes comentou que os movimentos do câmbio sobre a dívida tem efeitos "pontuais", mesmo considerando que, desde janeiro, a apreciação do câmbio já elevou a dívida em R$ 36,9 bilhões.

Na análise do técnico do BC, o que importa para manter a relação dívida versus PIB em trajetória de queda "é um comportamento fiscal mais eficiente, de ações saneadoras do Estado nas contas públicas, e isso é o que tem sido visto nos últimos tempos", complementou.

Segundo o BC, a dívida bruta recuou de R$ 1,812 trilhão em março para R$ 1,797 trilhão em abril, tendo em vista resgate líquido de R$ 15,6 bilhões na dívida pública mobiliária federal interna.”

DESVALORIZAÇÃO DO DÓLAR É BOM SINAL PARA O BRASIL, AFIRMA MANTEGA

Li no UOL a seguinte notícia divulgada pela Agência Brasil:

“Ao participar de audiência pública no Senado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o processo de desvalorização do dólar que vem ocorrendo no Brasil é um bom sinal para o país, porque mostra a confiança de investidores externos na economia nacional.

Mantega acrescentou que o lado negativo, no entanto, é o encarecimento das exportações brasileiras, como consequência do real mais caro.

Segundo o ministro, nos últimos três meses houve desvalorização da moeda americana de 17,76% e, nos últimos 30 dias, de 9,84%.

Para Mantega, o lado positivo da crise financeira internacional é que ela pode trazer oportunidades. Como exemplo, ele citou a consolidação da economia dos países emergentes e a aceleração de mudanças na área, como o acúmulo de reservas internacionais. O ministro acredita que o Brasil pode ultrapassar os US$ 205 bilhões em reservas de que dispõe hoje.

Outra oportunidade com a crise, segundo Mantega, é o enfraquecimento do dólar, do euro, da libra e do iene, fortalecendo ainda mais as moedas chinesa e brasileira.”

FOTOS DE ABUSO QUE OBAMA NÃO QUER PUBLICAR INCLUEM ESTUPROS, DIZ GENERAL

A agência espanhola de notícias EFE publicou esta semana, em Londres, a seguinte notícia (li no UOL):

As fotografias de abusos de detidos na luta antiterrorista que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não quer que sejam publicadas incluem estupros e agressões sexuais.

Entre 2004 e 2006, a imprensa divulgou imagens de abusos e torturas cometidos por soldados

Após as denúncias de violações de direitos humanos, EUA transferiram o controle da prisão para o governo iraquiano

A informação foi confirmada ao jornal britânico "The Daily Telegraph" pelo general Antonio Taguba, que realizou uma investigação sobre o ocorrido na prisão iraquiana de Abu Ghraib.

O relatório que Taguba publicou em 2004 continha acusações desse tipo de abuso, mas não chegou a ser revelada a existência de fotografias que documentavam esses fatos.

As imagens contidas em algumas dessas fotos pode explicar, segundo o jornal, as tentativas de Obama de impedir a publicação de cerca de duas mil fotografias de prisões do Iraque e Afeganistão, apesar de uma promessa anterior em sentido contrário.

Taguba, que se aposentou em janeiro de 2007, expressou seu apoio à decisão de Obama, ao assinalar que as imagens mostravam cenas de "torturas, abusos, violações e todo tipo de atos indecentes".

Pelo menos uma das fotografias mostra um soldado americano estuprando supostamente uma prisioneira, enquanto em outra aparece um intérprete violando um detido do mesmo sexo.

"Não tenho certeza de que sentido, salvo o puramente legal, teria a publicação dessas fotos, e a consequência seria pôr em perigo nossas tropas, únicos protetores de nossa política externa, quando mais necessitamos", disse o general.

"A mera descrição dessas fotos é suficientemente horrível, podem acreditar em mim", acrescentou.”

sexta-feira, 29 de maio de 2009

LULA E SEU POVO

Li hoje no blog do Favre o seguinte texto de Mino Carta publicado na revista Carta Capital (SP) • Nacional desta semana: •

A MAIORIA IDENTIFICA-SE NATURALMENTE COM O IGUAL QUE CHEGOU AO PODER

Dizem que Luiz Inácio Lula da Silva é um predestinado, bafejado pela fortuna e protegido pelos deuses gregos. Pode ser. Teriam sido elas, a sorte e as divindades do destino, que, por exemplo, depositaram Fernando Henrique Cardoso no caminho de Lula. Ou atiçaram a gula chinesa e indiana por nosso minério de ferro e nossa soja.

Sim, o príncipe dos sociólogos foi o grande cabo eleitoral do ex-torneiro mecânico nas eleições de 2002. O currículo presidencial de quem conseguiu quebrar o País por três vezes e o deixou à míngua é realmente imbatível. A bola quicou na pequena área, o goleiro agarrou ar puro, só faltou empurrar malhas adentro.

É inegável também que a situarão mundial contribuiu para elevar os índices de crescimento ao longo do governo Lula. Mas ele não chegou lá por acaso. Não se desmereçam os senhores do destino, tampouco o nosso herói. Desde a adolescência, quando a mãe faxineira enterrava os filhos menores até o pescoço no quintal para que não se afastassem da casinhola enquanto trabalhava, Lula fez a sua própria sorte.

Fosse ele um gato, diríamos que estes quinze anos devida de CartaCapital registram o ensaio do pulo e o próprio, pontualmente repetido graus às artimanhas do já citado FHC para alcançar a sua reeleição em 1998. Não imaginava que o espelho do futuro refletiria alguém mais bem-sucedido e infinitamente mais popular.

Pois é, os senhores emplumados (de penas medíocres) não contavam com o povo, o que faz sentido em um país onde sonham e por ora realizam a democracia sem povo. Eis um aspecto muito relevante na eleição e na reeleição de Lula. A conexão entre este e a maioria dos brasileiros atingiu enfim uma definição clamorosa.

Não é que a mídia, face peremptória do poder, não se tenha empenhado com força total para neutralizar o Sapo Barbudo, como se deu em 1989, 1994 e 1998. Desta vez não colou, em primeiro lugar, pela razão já apontada: o naufrágio do governo FHC, tragado de vez pelo redemoinho do segundo mandato.

Como se sabe, o povo brasileiro vive no limbo, ao trazer no lombo a marca do chicote da escravidão. Inerte, resignado, em parte inconsciente da cidadania. O poder planta-se sobre esta apatia. Graças a FHC, em 2002 o mecanismo não funcionou, com a inegável colaboração do escasso apelo do candidato José Serra. E a vitória de Lula foi, inclusive, a derrota da mídia.

Desde a campanha, com a Carta aos Brasileiros, o candidato do PT cuidou de exibir a sua vocação de conciliador. Em entrevista que me concedeu em fins de 2005, em meio à crise do chamado mensalão, lá pelas tantas ele disse, impassível: “Você sabe que eu nunca fui de esquerda”. Retruquei: “Espera aí”.

O líder da brava resistência à ditadura representada pelas greves do ABC de 1978, 79 e 80 não podia deixar de ser de esquerda. Creio ter sido aquele o principal e eficaz movimento civil organizado contra o regime, fardado e à paisana. Não somente mostrou que no Brasil não havia apenas pelegos, mas também foi berço do Partido dos Trabalhadores, nascido, é bom sublinhar, com uma plataforma ideológica francamente de esquerda.

As mudanças da política mundial e a queda do Muro de Berlim exigiram retoques, nem por isso o PT deixou de ser partido esquerdista, sem detrimento da tendência inegavelmente conciliadora de Lula. Não me surpreenderia se ele dissesse nunca ter lido Marx, suponho que um dos seus modelos seja Dom Quixote, representado na casa modestíssima do operário dos anos 70 por uma estatueta do herói de Cervantes. Enfeitava uma estante de poucos livros.

Aposto, porém, em um Quixote mítico, intérprete de destemor e inconformismo, em lugar do tresloucado cavaleiro fora do seu tempo. Lula mantém os pés no chão e a cabeça na exata atmosfera do presente. Impossível imaginá-lo a navegar nas nuvens. Depois do “espera aí”, invoquei a necessária busca da igualdade em um país tão desigual, e acentuei que bastava caminhar neste rumo para ser de esquerda. Ele admitiu, sem pestanejar.

Desde fins de 1977, quando conheci Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, percebi, e até me pareceu tocar com a ponta dos dedos, seu Q.I. Altíssimo, aliado a uma simpatia invulgar, fatores decisivos da sua facilidade de comunicação. Do seu carisma, como se diz.

Até hoje, não falta quem insista em proclamar sua lida árdua com a gramática e a sintaxe. Sobretudo a sintaxe. Aleivosias cada vez mais ridículas. Grotescas. Lula exprime-se muito bem, mesmo ao tropeçar, eventualmente, no tempo de um verbo.

Já escrevi, e repito: orgulho-me de ter compreendido desde logo que o homem iria longe. Não ouso sustentar que cheguei a imaginá-lo na Presidência da República. Quando chegou, porém, não me caiu o queixo. Esperava dele um governo mais determinado, mais assertivo, mais corajoso, especialmente no combate ao insuportável desequilíbrio social, a meu ver o maior obstáculo à contemporaneidade do Brasil.

Vislumbro no MST o único movimento envolvido nessa direção, mas não vi no governo a intenção de apoiá-lo na justa medida. Não me comovi com o Bolsa Família, conquanto lhe reconheça alguns méritos. De monta discutível, de todo modo. Em contraposição, assisti à tomada de medidas que favoreceram a onda neoliberal e obstaram a produção, conforme o figurino finalmente demolido pela crise global.

Sim, não se tratou de um governo de esquerda, longe disso. Mesmo assim a personagem Lula é de porte notável, a merecer a exclamação de Barack Obama, este é “o cara”. Trata-se de um campeão da confiança em si mesmo, primeiro motivo da obstinação bem posta. O reconhecimento internacional premia uma política exterior afirmativa, digna de um país consciente das suas primazias, e, ainda mais, a devastadora empatia da figura presidencial.

Os motivos do sucesso lá fora são, de todo modo, diversos daqueles que levam a índices de aprovação nunca navegados no País. O presidente mais popular da história do Brasil, para desespero da mídia nativa, deve seu êxito sem paralelos à identificação com seu povo. A maioria dos brasileiros enxerga nele o semelhante, no sentido mais completo da palavra, que se sentou no trono.

Até hoje a mídia não perde a oportunidade, por mais vaga ou descabida, para apontar Lula e seu governo à execração pública. Furo n’água. Rapazes, desistam, enquanto ele for presidente. A maioria fecha com ele em quaisquer circunstâncias. Automaticamente. Roboticamente. Donde o retumbante fracasso da mídia, rosto do poder.

Este também é fato inédito. Talvez se trate do maior mérito, da maior qualidade do governo Lula. De forma muito mais clara do que no caso de Getúlio Vargas, o velhinho sorridente, estabeleceu-se uma ligação direta entre a nação e seu líder.

Não convém iludir-se, contudo, com a derrota da mídia. E, portanto, dos vetustos donos do poder. O próximo presidente não será um ex-torneiro mecânico habilitado à Presidência da República. Conquanto não venha a cair meu queixo se, ao contrário do que os analistas vaticinam, Lula conseguir mais uma façanha: transferir ao seu candidato, ou melhor, candidata, o peso da sua avassaladora popularidade.

A verificar. Sobra a certeza: o sucessor, seja quem for, não contará com o apoio automático, robótico, da nação. Com todas as implicações desta situação. Suas escolhas terão de ser muito mais nítidas. À direita ou à esquerda. Lula é sempre entendido, se for o caso, sempre perdoado. Santificado, ao cabo. O destino do futuro presidente é muito mais complexo e difícil, porque não gozará de tais regalias. O burguês em lugar do operário.

Vem à tona a memória do passado, o ABC, o sindicato naquela ladeira íngreme, o Estádio de Vila Euclydes lotado, Lula no palanque. Deitava sua oratória impetuosa, às vezes tropeçava no tempo dos verbos. Recordo também Fernando Henrique, esforçou-se para impedir que Raymundo Faoro subisse ao palanque do presidente do sindicato. Tentativa fracassada, 30 anos atrás.

Estranhos, singulares, misteriosos cruzamentos de pessoas e pensamentos. Me ocorre um almoço em um bar de São Bernardo, entre Lula e FHC, não sei bem por que me sentei à mesma mesa. Creio ter sofrido sardinhas fritas e ovos duros. Lembro que murmurei aos ouvidos dos meus botões: “Sujeitos muito diferentes…”

LULA É MAIS BEM AVALIADO DO QUE A IGREJA E A IMPRENSA

Ontem, o jornal Correio Braziliense publicou a seguinte nota de Denise Rothenburg e Guilherme Queiroz:

“Acaba de sair do forno mais uma pesquisa eleitoral, desta vez, encomendada ao Ibope pelo presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

(...)

EM TEMPO: a consulta mostra ainda que Lula é hoje quem tem a avaliação mais favorável entre instituições e pessoas, com 79%, acima das Forças armadas, que têm 75%. Em seguida vêm os sindicatos e o Ministério Público, com 74%. A Igreja Católica e a imprensa aparecem logo abaixo, com 71%.”

MÍDIA NA AMÉRICA LATINA: UM SETOR QUE TUDO PODE

Li hoje no site “vermelho” o seguinte artigo escrito por Mário Augusto Jakobskind, publicado no site Direto da Redação:

A sociedade civil do continente está se aprofundando na questão da mídia e não aceita que os espaços midiáticos continuem sob o domínio absoluto de um patronato que tudo pode. No Brasil, o tema da democratização dos meios de comunicação está na ordem do dia. O patronato não aceita nem discutir e responde sempre com o argumento, confundindo liberdade de imprensa e expressão com liberdade de empresa.

Vale então o registro do que acabou de acontecer na Bolívia, até porque este tipo de informação dificilmente é divulgado nos espaços midiáticos conservadores. Por lá, o presidente Evo Morales aprovou decreto reservando espaços dos meios de comunicação para a livre opinião dos jornalistas e outros trabalhadores ligados a sindicatos de imprensa.

O porta-voz da Presidência, Iván Canelas, revelou que todas as opiniões serão assinadas e os meios impressos deverão fornecer o mesmo espaço que se destina aos editoriais. No caso de rádios e televisões, serão disponibilizados três minutos para uso diário.

Alguém deve estar perguntando: mas quem garante que os profissionais de imprensa que emitirem opinião contrária ao da empresa não serão vítimas de represália? Prevendo essa possibilidade, o decreto proíbe qualquer ação repressiva contra quem expôs ponto de vista divergente ao da empresa onde trabalha.

Não será surpresa se o decreto for criticado pela Sociedade Interamericana de Imprensa, que certamente dirá que a liberdade de imprensa corre perigo na Bolívia. O patronato do setor tenta ignorar um fato concreto: proprietário de veículo de comunicação é diferente de um dono de fábrica de salsichas ou algo do gênero.

Antes de o lucro contemplar os seus bolsos, os proprietários de jornais, televisões e rádios têm a obrigação de respeitar a opinião pública e aceitar a pluralidade. Não podem agir como se notícias fossem apenas mercadorias e está acabado.

O Equador é outro país em que a mídia está em debate. No Fórum Equatoriano da Comunicação diversas organizações sociais analisam a proposta de uma nova Lei de Comunicação, que será apreciada pela Assembléia Nacional, que terá até outubro próximo para aprovar uma nova legislação do setor.

O Fórum propõe, entre outras coisas, a divisão eqüitativa dos espaços midiáticos: 33% para os setores público, privado e comunitário. Não se surpreendam, portanto, se em breve a SIP, em parceria com a Organização dos Estados Americanos (OEA) voltar às baterias contra o Equador.

A Argentina também está discutindo uma nova legislação na área midiática. O governo de Cristina Kirchner, que recém enviou projeto para a discussão do tema no Congresso, vem sofrendo duras críticas dos setores conservadores, que se repetem nos diversos meios de comunicação do continente. Ou seja, mesma pauta, mesmos pontos de vista, mesmo tudo, para evitar questionamentos e impedir que a democracia avance nos espaços midiáticos.

No Brasil, o patronato está se armando para evitar que em dezembro próximo, quando será realizada a Conferência Nacional de Comunicação, haja um avanço no processo de democratização dos meios de comunicação.

Como por aqui a mídia hegemônica tudo pode, sem questionamentos, acabou de acontecer um fato lamentável, para variar envolvendo a Rede Globo. Num dos capítulos do seriado Força Tarefa foi abordado o tema milícia, tendo como cenário a comunidade de Rio das Pedras, controlada por paramilitares (milicianos) e teve como ator coadjuvante José Roberto Moreth, mais conhecido como Beto Bomba, no papel de corregedor.

O “ator” da Globo, que também preside a Associação de Moradores de Rio das Pedras, foi apontado pelo relator da Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Deputado Marcelo Freixo, como uma das 225 pessoas envolvidas com as milícias. Beto Bomba está sendo investigado pelo Ministério Público e é acusado de homicídio e extorsão. A Globo ainda por cima desrespeitou a legislação que exige o registro profissional de ator.

Será que os responsáveis pelo seriado não sabiam disso? Ou será que, como acreditam que a Rede Globo tudo pode, nada acontece, não tem problema algum transformar um marginal como Beto Bomba em ator?

Não é de hoje que a teledramaturgia da Rede Globo faz das suas. Na novela Duas Caras, escrita por Aguinaldo Silva, teve um personagem, Juvenal Portela, interpretado por Antonio Fagundes, que era miliciano. Aguinaldo possivelmente também se inspirou em Rio das Pedras, que na ficção era a Portelinha.

Por estas e muitas outras, os espaços midiáticos não podem agir como bem entendem, visando apenas a corrida desenfreada pelo ibope. E questionar isso não é censura, como muitas vezes acusam os barões da mídia e seus áulicos.

Em tempo: Ao se encontrar neste fim de semana com o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente do Equador, Rafael Correa, disse que quando estiver presidindo a Unasul (União dos países sul-americanos) vai propor formalmente a criação de instâncias que defendam os cidadãos e os governos eleitos legitimamente dos abusos da imprensa. Correa considera a imprensa equatoriana ''corrupta, instrumento da oligarquia'' e principal ''inimigo da mudança'', tanto em seu país como na Venezuela.

Não percam por esperar novos pronunciamentos da SIP contra Correa.”

PETROBRAS ANUNCIA CRIAÇÃO DE 1 MILHÃO DE EMPREGOS ATÉ 2013

Li hoje no site “Vermelho”:

“Os investimentos da Petrobras no Brasil devem gerar mais de 1 milhão de novos postos de trabalho entre 2009 e 2013. Dos 104,6 bilhões de dólares que a companhia pretende aplicar no período nas áreas de exploração e produção, 92 bilhões de dólares vão ficar no Brasil e aquecer o mercado interno. As informações são do diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella, que participou, nesta quarta-feira (27), de audiência pública conjunta das comissões de Desenvolvimento Econômico e Minas e Energia da Câmara.

A companhia prevê a criação de 267 mil novos postos de trabalhos diretos até 2013. Outros 777 mil postos de trabalhos indiretos estão relacionados à cadeia produtiva e ao chamado efeito renda, quando a renda dos trabalhadores se transforma em consumo.

Segundo Guilherme Estrella, o Brasil precisa “aproveitar a oportunidade” proporcionada pela descoberta do pré-sal. “A Petrobras passa por um momento importante em relação ao seu compromisso com o desenvolvimento do país. É um momento que traz uma série de oportunidades para o Brasil, e nós não podemos perder essa oportunidade”, afirmou.

CRÍTICAS À CPI

O deputado Luiz Alberto (PT-BA), autor do requerimento da audiência e que durante 20 anos foi técnico químico da Petrobras, destacou o rigor administrativo da empresa. E criticou os partidos de oposição, que defendem a instalação de uma CPI no Senado para investigar a companhia.

“Enquanto o Senado instala uma CPI, o jornal inglês Financial Times elogia o papel da Petrobras, sua capacidade de gestão e o domínio da tecnologia de prospecção de petróleo. No campo internacional se reconhece a importância da empresa. No Brasil, de forma irresponsável, tenta-se jogar a Petrobras no centro da arena política”, afirmou.

O presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo da Rocha, também criticou a instalação da CPI no Senado. Ele classificou a investigação como “absurda”.

POSTURA AGRESSIVA

Durante a audiência, o diretor de Exploração e Produção destacou a “postura agressiva” da empresa desde o primeiro mandato do presidente Lula. Entre 1999 e 2002, a carteira exploratória da Petrobras atingiu uma média anual de 22.737,5 quilômetros quadrados. Nos três primeiros anos de governo Lula, a média anual saltou para 32.377,3 quilômetros quadrados.

“Isso nos dá a garantia e o conforto de ter uma área suficiente de exploração para os próximos 15 anos. A Petrobras vinha perdendo essa agressividade antes de 2003”, afirmou Guilherme Estrella.

Guilherme Estrella afirmou que, nas próximas décadas, as chamadas energias fósseis devem ocupar uma posição hegemônica entre as demais modalidades energéticas. “O Brasil tem uma situação privilegiada porque conta com grandes reservas de óleo e gás. A descoberta do pré-sal é uma grande oportunidade para o desenvolvimento industrial, tecnológico e científico do país”, afirmou.

O diretor da Petrobras informou ainda que os investimentos específicos no pré-sal – que estavam previstos para 28,9 bilhões de dólares no período 2009-2013 – devem alcançar 111,4 bilhões de dólares no período 2009-2020. A produção de óleo do pré-sal deve crescer a uma taxa anual de 35,3% entre 2013 e 2020. A expectativa é de que, em 2013, sejam produzidos 219 mil barris por dia, ante 1,8 milhão de barris por dia previstos em 2020.”

'DUPLIFALAR', AGORA, SOBRE A COREIA DO NORTE

Li hoje no site vermelho o seguinte artigo escrito por Paul Craig Roberts para o “Counterpunch”, em tradução de Caia Fittipaldi. O autor foi secretário-assistente do Tesouro no governo Reagan. É co-autor de The Tyranny of Good Intentions.

"Obama conclama o mundo a enfrentar a Coreia do Norte" – diz a manchete. Os EUA, disse Obama, estariam firmes "para defender a paz e a segurança do mundo". Palavras de 'duplifalar', de 'duplipensar', à moda de 1984.

A Coreia do Norte é país muito pequeno e pobre. A China, sozinha, pode varrer do mapa a Coreia do Norte, em minutos. E o presidente dos EUA acha que precisa do mundo inteiro para enfrentar a Coreia do Norte?

Estamos assistindo a mais uma operação dos gângsters de Washington, inventando ameaça nova, como Slobodan Milosevic, Osama bin Laden, Saddam Hussein, John Walker Lindh, Hamdi, Padilla, Sami Al-Arian, o Hamás, o presidente Máhmude Ahmadinejad e os desgraçados prisioneiros demonizados por Rumsfeld como "os 700 mais perigosos terroristas da face da Terra", que foram torturados durante seis anos na prisão de Guantanamo, para, afinal, serem libertados... sem jamais terem sido julgados. Epa! Sorry, foi um engano.

O complexo militar/de segurança que governa os EUA, associado ao Lobby israelense e ao lobby das finanças, sempre precisa ter longa lista de inimigos perigosos, para que o dinheiro dos contribuintes não pare de correr para seus cofres.

O lobby da segurança interna depende de haver infindáveis 'ameaças' para convencer os americanos a ceder suas liberdades civis em troca de qualquer segurança que o lobby deseje vender.

A questão importante é: quem enfrentará o governo dos EUA e de Israel?

Quem protegerá os cidadãos norte-americanos e israelenses, sobretudo os israelenses que se opõem ao atual governo e os cidadãos israelenses árabes?

Quem protegerá os palestinos, os iraqueanos, os afegãos, os libaneses, os sírios, contra a ameaça dos EUA e de Israel?

Não Obama, nem os camisa-verde-oliva-caqui que governam Israel.

A ideia de Obama, de 'conclamar' o mundo a "enfrentar" a Coreia do Norte é insana, mas essa ideia insana empalidece, se comparada à 'garantia' de que os EUA podem garantir "a paz e a segurança do mundo".

São os mesmos EUA que bombardearam a Sérvia, inclusive a embaixada chinesa e trens de passageiros; que entregaram a Sérvia a uma gang de traficantes muçulmanos, emprestando-lhes soldados da Otan para proteger a 'operação'... do tráfico?

São os mesmos EUA responsáveis pela morte de um milhão de iraqueanos, e que deixam órfãos e viúvas onde quer que apareçam, e que converteram em refugiados 1/5 da população do Iraque?

São os mesmos EUA que impedem o mundo de condenar Israel pelo ataque assassino contra civis libaneses em 2006 e contra civis em Gaza em 2009, os mesmos EUA que dão cobertura ao assalto israelense contra a Palestina, que já dura mais de 60 anos, assalto e roubo que já produziu quatro milhões de refugiados palestinos, arrancados de suas casas, vilas, cidades, pelo terror e pela violência de Israel?

Os mesmos EUA que fazem hoje manobras militares em repúblicas ex-soviéticas e estão cercando a Rússia com um anel de bases de mísseis?

Os mesmos EUA que bombardearam o Afeganistão até converter o país num amontoado de ruínas, com milhares de civis mortos?

Os mesmos EUA que criaram um ano novo infernal no Paquistão, ataque que, só nos primeiros dias, produziu um milhão de refugiados?

“Paz e segurança do mundo”? Mundo de quem?

Ao retornar de consulta com Obama em Washington, o ministro camisa-verde-oliva-caqui de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que seria "responsabilidade" de Israel "eliminar" a "ameaça nuclear" iraniana.

Que ameaça nuclear? Todas as agências de inteligência dos EUA concluíram, unanimemente, que o Iran não tem qualquer programa nuclear militar desde 2003. Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica já relataram que não viram nem sinal de bombas atômicas no Iran.

Quem está sendo bombardeado pelo Iran? Quantos refugiados vagam pelo mundo, tentando salvar a própria vida, por ataque comandado pelo Iran?

Quem está sendo bombardeado pela Coreia do Norte?

Os dois países que mais matam e que mais refugiados geram no mundo hoje são EUA e Israel. EUA e Israel, mais que qualquer outro país no mundo, já mataram e expulsaram milhões de pessoas que jamais foram ameaças a alguém e jamais atacaram alguém.

Não há país no mundo que rivalize com EUA e Israel, na prática corriqueira da violência assassina mais bárbara.

Mas Obama garante que os EUA protegerão "a paz e a segurança do mundo". E Netanyahu, armado com bombas atômicas, garante que Israel salvará o mundo da "ameaça iraniana".

Onde está a mídia? Por que os que lêem jornais não estão rolando de rir?”

O PAC E A MANIPULAÇÃO DA NOTÍCIA PELA “GRANDE” MÍDIA

Li hoje no blog “FBI - Festival de Besteiras da Imprensa”:

“O Contas Abertas é uma ONG, na minha opinião, terceirizada do UOL (Organizações Serra), que tem como papel fundamental manipular informações visando a construção de um PAC que não existe e, com isso, servir de instrumento para desgastar o Governo Lula e, em especial, a ministra Dilma.

No manchetão de hoje do UOL (28/05/09; 10h), lemos o seguinte título e subtítulos:

DOIS ANOS DEPOIS, APENAS 3% DAS OBRAS DO PAC ESTÃO CONCLUÍDAS

PIOR DESEMPENHO É EM INFRAESTRUTURA SOCIAL E URBANA QUE TEM APENAS 1% DOS PROJETOS FINALIZADOS

MONTANTE USADO EM TRABALHOS JÁ CONCLUÍDOS CHEGA A R$ 47,7 BILHÕES, 7% DO PREVISTO PELO PROGRAMA

Para um incauto leitor, tudo isso parece ser matéria do UOL. Entretanto, quando você clica em qualquer desses três links, é remetido ao site do Contas Abertas.

Se a direção do UOL respalda tudo o que o Contas Abertas afirma ou emite juízo é porque há muita sintonia entre os dois.

Ou, quem sabe, o UOL terceiriza o Contas Abertas para fazer esse jogo, tentando utilizar uma imagem de entidade neutra e eminentemente técnica, acima de qualquer suspeita, para desgastar o Governo Lula..

O que me traz novo desafio: desconstruir a imagem do Contas Abertas, mostrando que, das duas uma (tanto faz): ou são incompetentes ou mal-intencionados.

Minha hipótese é de que são mal-intencionados e manipulam as informações.

CONTAS ABERTAS/UOL NÃO SABE OU OMITE O QUE É O PAC

A primeira coisa que sugiro ao leitor, antes de ler as (des)informações do Contas Abertas/UOL, é conhecer o que é o PAC.

Insisto que todo mundo acha que sabe o que é o PAC mas, acredite, não sabe. As pessoas sabem apenas a interpretação interessada das Organizações Serra sobre o PAC.

Os veículos das Organizações Serra (Globo, Folha, Estadão, G1, Uol, entre outros) têm todo o direito de criticar o PAC.

Desde que, naturalmente, o faça em relação ao que ele é e se propõe (dito pelo seu autor - o governo federal), e não em relação ao que as Organizações Serra gostariam que fosse.

O QUE O GOVERNO FEDERAL INFORMA QUE É O PAC?

Objetivos do PAC: modernizar a infraestrutura, melhorar o ambiente de negócios, estimular o crédito e o financiamento, aperfeiçoar a gestão pública e elevar a qualidade de vida da população.

O PAC, portanto, não é apenas uma lista de investimentos e sua avaliação não pode ser feita, apenas, via execução orçamentária, como faz o Contas Abertas e o Uol.

PORQUE O PAC É MAIS DO QUE UM PROGRAMA DE EXPANSÃO DO CRESCIMENTO?

O PAC prevê a utilização de recursos orçamentários da União, mas também prevê um conjunto de medidas institucionais que, aliado a uma rigorosa e transparente gestão, resultará em projetos, obras, serviços, além de estímulos para investimento por governos estaduais, municipais e da iniciativa privada.

Obviamente, como um esforço de gestão da ação de múltiplos entes públicos e privados, várias metas serão alcançadas, total ou parcialmente. Outras não.

Para o Contas Abertas, o PAC é um programa de responsabilidade de execução exclusiva do governo federal. Além disso, para eles, o PAC é apenas um programa de obras.

E não é; está lá, é só querer saber e informar.

QUE EXEMPLOS DE MEDIDAS INSTITUCIONAIS FORAM IMPLANTADAS E ESTÃO DANDO RESULTADOS, PARA ACELERAR O CRESCIMENTO?

Em fevereiro de 2009, o governo apresentou o balanço de dois anos do PAC. Uma das apresentações trata dos aspectos macro-econômicos e institucionais (clique aqui). Alguns exemplos, entre muitas medidas que lá estão com seus resultados:

1. DESONERAÇÃO DE OBRAS DE INFRA- ESTRUTURA - REIDI: Aprovados 14 projetos pelo MME de geração de 1.411 MW e 7 projetos de transmissão de energia com 1.230 km; Inclusão da hidrelétrica de Santo Antônio - RO - 3.150,4 MW; em 21/01/2009 o MME enquadrou mais 7 projetos em 5 Estados

• LEI GERAL DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS: Adesões ao Simples Nacional: aproximadamente 3,5 milhões de empresas; Formalizadas mais de 2 milhões de empresas; Criadas 500 mil novas empresas; Aumento da arrecadação em 43,8%

• Recuperação Acelerada dos Créditos de PIS e COFINS em Edificações: Renúncia fiscal prevista - R$ 1,15 bilhão em 2007 e R$ 2,3 bilhão em 2008

• Redução dos Spreeds do BNDES para Infra-Estrutura, Logística e Desenvolvimento Urbano: Volume das operações de crédito do BNDES - R$ 65 bilhões em 2007. Total em 2008 chegou a R$ 91 bilhões, resultado 40% superior a 2007

• Prorrogação do prazo de vigência do Reporto (PLV 10/2008). Com isso, criou-se a possibilidade de um grande movimento de aquisição de equipamentos para aumentar a eficiência dos portos públicos.

• A Lei 11.774/2008, oriunda da MP 428, estendeu os benefícios do Reporto para o modal ferroviário.

Até o momento, penso estar conseguindo mostrar que o Contas Abertas e o UOL omitem a informação de que o PAC é muito mais do que um programa de obras”.

UM RETRATO HONESTO DA EXPERIÊNCIA VENEZUELANA

Li hoje no site Carta Maior o seguinte artigo de Igor Fuser. O autor é jornalista, professor na Faculdade Cásper Líbero, mestre em Relações Internacionais e doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo:

“Livro analisa conquistas e limites do processo político venezuelano. Em "A Revolução Venezuelana", Gilberto Maringoni desvenda o enigma oculto sob a campanha midiática anti-chavista: como é possível que um caudilho supostamente tão desastrado mantenha altíssimos índices de apoio popular durante tanto tempo? Para o autor, é errado reduzir, como insistem os detratores da experiência venezuelana, o prestígio de Chávez à bonança petroleira da última década. O artigo é de Igor Fuser.

Na lista dos demônios da mídia empresarial, o posto número 1 pertence, disparado, a Hugo Chávez, com sua boina vermelha e língua ferina. Raramente se passa um dia sem que alguma publicação da chamada “grande imprensa” despeje regulares doses de veneno contra o presidente venezuelano, apresentado como louco, fanfarrão, ditador ou incompetente. Essa cantilena se mantém há mais dez anos. Para ser exato, desde o início de 1999, quando o antigo coronel iniciou, após sua chegada ao governo, a transformação de um dos países de estrutura social mais iníqua no planeta – mais de 50% dos habitantes na miséria, em contraste com os lucros nababescos das exportações de petróleo – em uma referência mundial para todos os que cultivam os valores da justiça e da igualdade.

O livro de Gilberto Maringoni (A Revolução Venezuelana, Editora Unesp, 2009) merece ser saudado com um antídoto perfeito contra a manipulação informativa que, na imprensa brasileira, atingiu as raias de uma lavagem cerebral. Jornalista e historiador, Maringoni fala de um tema que conhece em primeira mão. Viajou várias vezes à Venezuela e lá entrevistou quase todos os nomes que valiam a pena no tumultuado enredo político local – dos caciques da oposição conservadora, como Teodoro Petkoff, às figuras mais graduadas do regime esquerdista, entre as quais o próprio Chávez, além das mais variadas fontes na esfera acadêmica.

Com dados confiáveis em mãos, o autor desvenda o enigma oculto sob a campanha midiática anti-chavista: como é possível que um caudilho supostamente tão desastrado mantenha altíssimos índices de apoio popular durante tanto tempo? É errado reduzir, como insistem os detratores da experiência venezuelana, o prestígio de Chávez à bonança petroleira da última década. O Venezuela já viveu outros períodos de alta dos preços do petróleo, sem que a população tivesse tido acesso a mais do que umas magras migalhas do banquete. A marca da gestão chavista é algo que as primeiras gestões municipais petistas defendiam no Brasil e que, lamentavelmente, diluiu-se no lodaçal dos compromissos com as classes dominantes: a inversão das prioridades em favor das multidões oprimidas, ainda que ao preço do confronto aberto contra as elites privilegiadas.

Na Venezuela, os gastos sociais aumentaram de 8,2% do PIB, em 1998, para 13,6% em 2006. Os índices de pobreza caíram de 55,1% para 27,5%. O salário mínimo se elevou numa escala sem precedentes em qualquer outro país do chamado Terceiro Mundo e milhões de venezuelanos passaram a ter acesso a uma infinidade de benesses antes inalcançáveis – desde serviços essenciais, como assistência médica e dentária, aos ícones do consumo descartável, como telefones celulares. Nesse cenário em que a mudança passa do plano da retórica para a existência cotidiana, torna-se fácil entender porque Chávez foi vitorioso em todas as freqüentes consultas eleitorais que promoveu, com apenas uma exceção.

O grande mérito de Maringoni é que ele não se limita a salientar as conquistas do processo político venezuelano, mas também aponta, sem medo de entrar em polêmica com os defensores mais entusiastas do chavismo, os limites do festejado “socialismo do século XXI”. Concretamente: após dez anos de “revolução bolivariana”, o velho modelo de desenvolvimento dependente latino-americano, erigido com base na exportação de produtos primários (no caso, o petróleo), permanece inalterado. Os ganhos desse modelo, é verdade, passaram a beneficiar, pela primeira vez, a maioria da população, sobretudo depois que Chávez retirou a estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) das mãos da camarilha que a controlava, enquadrando a empresa sob o controle público. Mas o caminho ainda está no seu início: “O Estado continua ineficiente, lerdo, corrupto e avesso às interferências populares”, escreve o autor.

Mesmo que seja prematuro falar em uma verdadeira revolução na Venezuela, é inegável que o governo de Chávez mudou a face política daquela sociedade e, em certa medida, de toda a América do Sul. A influência venezuelana se faz presente em todo um conjunto de países onde, pela primeira vez, o poder de Estado passa a ser exercido em benefício das maiorias. Como afirma Maringoni, referindo-se à época de ofensiva conservadora mundial pós-1989: “A Venezuela é, com todos os problemas, o país onde mais se avançou, nesse período, na contestação ao neoliberalismo e no questionamento do poder global dos Estados Unidos.” Aí reside a explicação para o ódio que Chávez desperta entre os donos da mídia brasileira e internacional. Ele é, de fato, um sapo difícil de engolir.”

EUA ESPIRRA, MAS O MUNDO NÃO PEGA PNEUMONIA

“AMERICA SNEEZES AND THE WORLD IS GERM-FREE”

Li hoje no blog de Luis Favre:

“No Brasil o governo também respondeu à crise financeira tentando manter o crescimento com programas de gastos públicos e desoneração de impostos. E o mercado financeiro, que no passado teria entrado en pánico frente a tais políticas keynessianas em países em desenvolvimento, agora apoiaram. No lugar da fuga de capitais, o estimulo atraiu os investidores globais para os seus papeis.”

“In Brazil the Government has also responded to the financial crisis by trying to revive growth with big programmes of public spending and tax cuts. And financial markets, which might in the past have panicked in reaction to such Keynesian policies in developing countries, have been supportive. Instead of triggering a capital flight, stimulus policies have attracted global investors to their bonds.”

“A situação econômica do Brasil e os efeitos da crise mundial foram tema de um artigo de opinião publicado nesta quinta-feira pelo diário britânico “The Times”.
O colunista econômico Anatole Kaletsky, após visitas à África do Sul e ao Brasil, diz que os dois países, apesar de atingidos fortemente pela crise, “parecem mais fortalecidos do que deprimidos pela experiência.”

“A notável resistência dessas economias e a confiança de suas comunidades empresariais, de sua mídia e de seus mercados financeiros, em contraste com a melancolia apocalíptica na Grã-Bretanha, Europa e Estados Unidos, destaca as três transformações que esta crise trouxeram à tona”, diz o colunista.

A primeira transformação, segundo ele, é a emergência da classe média nos países desenvolvidos como principal motor do crescimento econômico global nas próximas décadas.

Ele observa que os cálculos do FMI indicam que as economias emergentes contribuirão com 100% do crescimento global até 2010, e pelo menos 70% nos cinco anos seguintes.
A segunda transformação, de acordo com Kaletsky, é “a habilidade das economias emergentes de determinar seus próprios destinos, independentemente do sucesso ou do fracasso das políticas econômicas dos Estados Unidos ou da Europa.”

“Apesar de as economias emergentes não terem conseguido se isolar completamente da crise global, elas conseguiram finalmente refutar o clichê de que quando os Estados Unidos espirram, o mundo pega pneumonia”, diz o artigo.

A terceira mudança, segundo o colunista, é a transformação política e social provocada pelo crescimento da classe média, com o fortalecimento de democracias de livre-mercado plurais e liberais. (Fonte Folha Online).”

ISRAEL, A PRÚSSIA DO MEDITERRÂNEO?

Li hoje no site “Vi o mundo”, do jornalista Luiz Carlos Azenha o seguinte artigo de Roane Carey, do Blog "The Notion", in The Nation:

“História antiga dizia que, em vez de ser um Estado que tinha um exército, a Prússia era um exército que tinha um Estado. Israel estará a caminho de tornar-se a Prússia do Mediterrâneo?

Em geral, a intelligentsia liberal nos EUA aceita que, embora a ocupação israelense da Palestina seja abjeta, Israel, a nação, seria Estado democrático de plena democracia, com imprensa crítica e livre.

Podem esquecer. Passei três meses em Israel, com uma bolsa de estudos, e posso garantir que toda a intelligentsia liberal em Israel, as muitas pessoas com quem conversei, dizem coisa muito diferente: que a mídia em Israel está gravemente decadente, que não demonstra capacidade para oferecer nenhuma informação confiável e que, há muito tempo, já não opera como um dos pilares de uma sociedade aberta.

Os norte-americanos que não lêem hebraico nem assistem à televisão israelense talvez formem imagem diferente dessa, assumindo que o jornal Ha'aretz, diário de pequena circulação, lido só por intelectuais e políticos – e estrangeiros, que devoram a edição online em inglês –, seria representativo de pensamento mais avançado; e que colunistas e repórteres críticos, como Gideon Levy, Akiva Eldar e Amira Hass escrevem em toda a imprensa israelense. Não, nada disso; e eles só escrevem no Ha'aretz. Os jornais diários de grande circulação, Yediot e Ma'ariv, como o Jerusalem Post e os noticiários de televisão, são acentuadamente de direita – como os grandes jornais e televisões nos EUA, que, quanto a isso, são muito parecidos com a 'grande' imprensa israelense.

Quanto a Israel ser um grande Estado plenamente democrático, a maioria das pessoas com quem falei sentem que cresce um assustador movimento repressivo, na sociedade, cuja manifestação já se viu nas últimas eleições gerais. O ponto mais assustador desse movimento aconteceu durante a recente guerra de Gaza. Vi, com meus olhos, o que aconteceu, no microcosmo da Universidade Ben-Gurion, em Beer-Sheva.

Há alguns dias, Noah Slor, aluna de pós-graduação no departamento de estudos do Oriente Médio, aqui na UBG, foi presa pela polícia a pedido do serviço de segurança do campus e permaneceu detida por várias horas, por estar, pacificamente, distribuindo panfletos contra um projeto de lei, que está sendo votado no Parlamento, e que tornará crime qualquer solenidade que faça referência à Nakba (para os palestinos, a Catástrofe de 1948; para os israelenses, a "independência"). Noah distribuía panfletos fora do portão principal da universidade, onde os estudantes distribuem, tradicionalmente, de mão em mão, convites para festas, para manifestações políticas e jogos esportivos, e onde jamais alguém havia sido preso ou sequer importunado pelos agentes de segurança da universidade.

Estudantes ativistas e professores são testemunhas de que está implantado na universidade um padrão de agressão politicamente motivado, do qual são agentes os serviços de segurança da própria universidade. Slor, ativista do grupo Darom le Shalom ("Sul pela Paz"), recentemente formado por árabes e judeus da área de Beer-Sheva e que "luta contra o racismo e por direitos iguais para árabes e judeus", contou-me que, quando foi presa, um policial disse a ela: "Não se faça de ingênua.

Já conheço você de várias manifestações. Temos tudo gravado e arquivado. A agitação está documentada." Nada que ela possa provar, mas Slor tem certeza de que foi presa porque protestou contra a legislação que proíbe as solenidades do Dia da Nakba: "O policial praticamente me disse isso", disse ela.

Os estudantes estão dispostos a manter os protestos. Na mesma noite, cerca de 60 estudantes participaram de uma demonstração para denunciar as prisões, em cerimônia na universidade, da qual participaram várias autoridades. Os estudantes usaram mordaças e levavam cartazes em que se lia "O serviço de segurança manda na universidade" e "Serviço de segurança = Polícia Secreta".

(Respondendo a perguntas sobre o incidente, o porta-voz da universidade, Amir Rozenblit, declarou que não é permitido distribuir panfletos no campus – mas, por que não?! – e que Noah distribuía panfletos "em área considerada parte do campus, embora do lado externo do portão principal". Informou que um policial do serviço de segurança do campus também foi preso, na mesma ocasião e pelo mesmo motivo.)

Durante a guerra de Gaza, todos os protestos foram reprimidos. Nitza Berkovitch, sociólogo da Universidade Ben Gurion, disse que "minha impressão é que a mídia foi completa e absolutamente mobilizada. Todos os jornais apoiaram a guerra". Alguns dias antes do primeiro ataque militar a Gaza, no final de dezembro, um grupo de estudantes árabes e judeus organizou manifestação pacífica contra a guerra iminente. A polícia apareceu imediatamente e ordenou que dispersassem.

Os estudantes não insistiram, mas, quando estavam enrolando as faixas, vários estudantes foram arrastados por policiais, metidos nos camburões e permaneceram detidos durante horas, acusados de "provocar tumultos de rua".

Em meados de janeiro houve outra manifestação contra a guerra, ainda mais moderada, com cartazes que pediam o fim da violência dos dois lados, e pela paz. Outra vez, a polícia apareceu, agrediu os manifestantes e prendeu vários. Um estudante da Universidade Ben Gurion foi posto em prisão domiciliar por 30 dias.

A repressão violenta contra cidadãos palestinos é prática muito frequente em Israel. Incidentes recentes indicam que judeus também têm sido impedidos de se manifestar a favor da paz, também com violência. Centenas de israelenses foram presos por protestar contra a guerra, provavelmente muitos muçulmanos, mas, sem dúvida, também muitos judeus.

Tzoref contou que "participei de protestos nos territórios ocupados, e a polícia agiu do mesmo modo. Para mim, foi um choque ver que a polícia de repressão a tumultos age do mesmo modo também dentro da universidade, sempre com violência. Isso é novidade. A polícia jamais entrara na universidade para atacar estudantes, não, com certeza, nessa escala e com essa violência".

Para Berkovitch, também aluna da UBG, "foi como nas ditaduras sul-americanas. Havia uma ordem arbitrária, para prender pessoas em todo o país, em todas as regiões – como modo de intimidar todas as manifestações a favor da paz".

Não há dúvidas de que a guerra de Gaza expôs o que há de pior no aparelho de repressão, alimentado pelo ódio que se via manifesto nas ruas e um espírito de vingança contra os palestinos – ao qual, é claro, os foguetes do Hamás serviram de pretexto. (Berkovitch contou que pessoas que passavam pela manifestação de janeiro, gritavam ofensas para os manifestantes e vários repetiram que "os judeus devem matar mais árabes". "Nunca antes, em toda a minha vida, vira tal manifestação de ódio" – disse ela.)

É tendência muito preocupante, embora seja preciso dizer que, em geral, os judeus israelenses, mas não os palestinos, ainda gozam de razoável liberdade para manifestar-se praticamente sobre qualquer questão.

Sob governo de extrema direita, que está decidido a,não só impedir qualquer negociação séria com vistas à paz com os palestinos, mas promove e estimula ativamente a ampliação das colônias exclusivas para judeus; que dá sinais de desejar fazer guerra contra o Irã e estimula ativamente a paranoia, na opinião pública, contra o Irã; que cada vez mais claramente vê os palestinos como o inimigo interno e como ameaça, verdade é que as contradições de uma nação que aspira a ser "povo judeu" e, ao mesmo tempo, nação democrática, estão vindo à tona.

Como poderá ser democrático um Estado que aprisiona 4 milhões de palestinos em gueto murado; que constroi estradas de apartheid, só para israelenses; e que trata como cidadãos de segunda classe outros 1,5 milhão de árabes-israelenses?

Oren Yiftachel, professor de geografia da Universidade Ben-Gurion, em livro recentemente publicado, define Israel como "Estado etnocrático" (Ethnocracy Land and Identity Politics in Israel/Palestine, 2008, University of Pennsylvania Press).

O falecido professor Baruch Kimmerling, da Universidade Hebraica, falava de Israel como uma "democracia dos senhores" (Herrenvolk[1] democracy. Ver, por exemplo, Baruch Kimmerling, "Israeli democracy's decline", International Herald Tribune, 3/3/2002, em http://www.itk.ntnu.no/ansatte/Andresen_Trond/kk-f/fra151001/0786.html)."

Dê-mo-lhe o nome que seja, se Israel continuar pelo caminho que está trilhando, a repressão aumentará cada vez mais. E as vias da livre manifestação democrática se estreitarão cada vez mais. E a velha piada sobre a Prússia ("um exército que tem um Estado") ganhará nova e triste atualidade. Israel estará destinada a tornar-se a Prússia do Mediterrâneo?”

VOCÊ, CONTRIBUINTE DE SÃO PAULO, FINANCIA FERNANDO HENRIQUE

Li hoje no site “Conversa Afiada”, do jornalista Paulo Henrique Amorim:

NADA COMO O DINHEIRO DO POVO

O Conversa Afiada recebeu o seguinte e-mail do amigo navegante Raul:

“Recordar é viver direto do túnel do tempo, blog do Josias em janeiro de 2007 publicou

ESTATAL TUCANA DOA R$ 500 MIL A INSTITUTO DE FHC

Você não sabe, mas está ajudando a financiar as atividades do iFHC (Instituto Fernando Henrique Cardoso). Sorrateiramente, R$ 500 mil migraram do seu bolso para o borderô da ONG aberta pelo ex-presidente da República tucano depois de ter deixado o Palácio do Planalto.

Deve-se ao repórter Daniel Bramatti a descoberta da mamata. O tema foi repercutido na edição desta quinta (18) da Folha. A Sabesp (Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) repassou ao iFHC os R$ 500 mil.

O repasse foi feito com o propósito de ajudar a financiar um projeto de preservação do acerco de Fernando Henrique Cardoso. A “doação” foi feita com base na Lei Rouanet, de incentivo à cultura. Significa dizer que a Sabesp vai descontar a grana do seu Imposto de Renda. Ou seja, a generosidade é financiada por você, caro contribuinte.

A Sabesp não foi a única empresa doadora. Ao correr a sacolinha, o iFHC logrou amealhar R$ 2 milhões. O que diferencia a Sabesp dos demais doadores é a sua natureza jurídica. Trata-se de uma estatal. Como se fosse pouco, é uma estatal que, nos últimos doze anos, esteve submetida a gestões tucanas.

Para complicar, o iFHC não se dignou nem mesmo a mencionar o nome da doadora estatal na nota que levou ao ar no seu portal eletrônico. Ao privar a Sabesp da homenagem de uma citação, o instituto do ex-presidente premiou a falta de transparência.
O iFHC alega que o mimo da Sabesp foi feito dentro da lei. O que leva o signatário do blog a uma inevitável pergunta: quantos absurdos vêm sendo praticados no Brasil em nome da lei? Muitos, muitíssimos.

A Sabesp, como se sabe, deveria ter suas atenções voltadas para a melhoria da malha de saneamento básico do Estado de São Paulo. Algo muito distante das atividades desenvolvidas pelo iFHC. Por sorte, os resíduos éticos produzidos por operações do gênero não são concretos. Do contrário, não haveria esgoto que bastasse.”

DÓLAR FAZ A BOLSA EXPLODIR

DA SÉRIE “O QUE DIRÁ A MIRIAM?”

Li hoje no site “Conversa Afiada”, do jornalista Paulo Henrique Amorim:

“Segundo os assim chamados economistas, os investidores estrangeiros já “precificaram” o crescimento do Brasil, invadiram a Bolsa e o resultado é impressionante: A Bovespa atingiu a mais alta pontuação do ano - 53.040 pontos, com acumulado mensal de 12,16% e 41,24% no ano. O índice Ibovespa fechou o dia com alta de 2,41% e o dólar fechou a R$ 2.”

Veja reportagem de Eduardo Campos no Valor Online:

BOVESPA RECONQUISTA OS 53 MIL PONTOS E SOBE 12,16% NO MÊS

“Depois de diversas tentativas, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), não só rompeu, como superou a resistência que existia aos 52 mil pontos, conquistando nova máxima para o ano acima dos 53 mil pontos.

Com destaque para os carros-chefe, o Ibovespa encerrou o dia com alta de 2,41%, marcando 53.040 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 4,86 bilhões. Com tal pontuação, o índice acumula alta de 12,16% no mês e 41,25% no ano. Da mínima, registrada em outubro do ano passado, o indicador já subiu 80,2%.

Segundo o economista do setor de renda variável da Máxima Asset Management, Felipe Casotti, a valorização desta quinta-feira chama atenção, já que os dados apresentados durante o dia não foram tão positivos assim.

De acordo com o economista, a vendas de casas novas nos EUA, que subiram menos que o esperado em abril, e o aumento da inadimplência entre os mutuários de hipoteca deveriam inspirar mais cautela aos investidores. "O mercado já precificou uma retomada, mas não é isso que os dados sugerem", pondera.

No entanto, o economista lembra que, no momento, os fundamentos perdem importância em função do fluxo de recursos externos, que refletem o bom momento do Brasil entre os investidores estrangeiros. "Por ora, o fluxo está sobrepondo os fundamentos. Mas uma hora eles devem convergir", avalia o especialista.

Dados da própria Bovespa mostram que, no acumulado do mês até o dia 25, o saldo de negociação estrangeira permanecia acima dos R$ 4 bilhões, elevando o total de dinheiro alocado no ano para R$ 9,5 bilhões.

Contribuindo para o bom desempenho dos ativos brasileiros, as commodities atraíram compradores, em especial o petróleo, que chegou a ser negociado acima dos US$ 65 o barril de WTI, maior preço desde o começo de novembro.

Liderando o volume negociado, Petrobras PN subiu 2,69%, para R$ 34,65. Vale PNA ganhou 1,66%, a R$ 32,90. Entre as siderúrgicas, Gerdau foi destaque pelo segundo dia, subindo 5,26%, para R$ 20,40, maior preço desde outubro do ano passado.

Entre os bancos, Bradesco PN e Banco do Brasil ON subiram mais de 2,6% cada, para R$ 30,39 e R$ 21,55, respectivamente. Com menos força, Itaú Unibanco PN aumentou 0,97%, para R$ 32,00.

Varejo e construção continuaram atraindo novos compradores. B2W Varejo ganhou 6,53%, para R$ 39,95, maior alta dentro do pregão. Corretora externa tirou a recomendação de "venda" que tinha para a varejista. Entre as construtoras, Rossi ON teve acréscimo de 4,29%, para R$ 8,49.

Forte valorização também para Sabesp PN, que garantiu alta de 6,43%, para R$ 32,25, e Duratex PN, que aumentou 6,48%, a R$ 18,40. Usiminas ON, BM & FBovespa ON, Metalúrgica Gerdau PN e CCR Rodovias ON subiram mais de 5% cada.

Fora da festa, apenas 5 dos 65 papéis listados. Braskem PNA perdeu 3,44%, para R$ 7,29, Klabin PN recuou 1,51%, a R$ 3,24, e Telesp PN caiu 1,03%, a R$ 45,01. Light ON diminuiu 1,0%, para R$ 24,65, e Eletropaulo PNB cedeu 0,09%, a R$ 30,15.”

A CORUJA DO HEGEL

Li hoje no blog do Noblat o seguinte artigo de Luis Fernando Veríssimo:

“Já me recomendaram que começar um texto citando Hegel (Georg Wilhelm Friedrich, século dezenove, alemão, muito alemão) serve dois propósitos:

Criar no leitor uma expectativa de profundidade ou espantá-lo logo nas primeiras linhas, pois quem tem tempo para o Hegel hoje em dia? A você que continua a ler devo avisar que a tal profundidade não virá. Recorro a Hegel, ou à coruja do Hegel, para fins estritamente superficiais.

Hegel certa vez comparou a filosofia com a coruja da deusa Minerva, que carrega toda a sabedoria do mundo mas só voa ao anoitecer, quando não há mais luz para aproveitá-la. O que Hegel quis dizer (eu acho) é que qualquer período histórico só pode ser compreendido quando está no fim, e que a filosofia sempre chega tarde para explicá-lo. No fundo estava denegrindo o seu ofício. Ninguém tratou de interpretar a História com mais densidade do que Hegel mas no fim todas as suas teses e todo o seu palavrório não passavam do vôo tardio de uma coruja inútil, no seu próprio conceito.

Quando aquele outro alemão denso, o Marx, escreveu que os filósofos não podiam mais se contentar em interpretar o mundo e deveriam tentar mudá-lo, estava, sem citá-la, reivindicando um vôo mais conseqüente da coruja e um aproveitamento mais prático da sua sabedoria. O que Marx propunha era que a coruja, voando mais cedo, vencesse o vasto abismo que separava a filosofia da política.

Um abismo que não começara com Hegel mas existia desde que Platão, desgostoso com a execução de Sócrates, renunciara à atividade política. Marx recrutava a coruja para a sua revolução. Se todo o marxismo pode ser visto, algo simplistamente, como uma crítica de Marx a Hegel, o que mais diferenciava os dois era sua opinião sobre os usos da filosofia, ou sobre a relevância da coruja e suas explicações.

No fim o que Hegel diz com sua metáfora é o óbvio, que a gente vive para frente mas compreende para trás, e que nenhuma filosofia ajuda a percorrer o caminho já percorrido. Na sua crítica Marx sustenta que o caminho percorrido nos mostra para onde ir e que a filosofia é que diz isso para a História. Por mais atrasada que chegue a coruja.”

quinta-feira, 28 de maio de 2009

CHANTAGISTAS NEFASTOS

Li hoje no blog “Por um novo Brasil” o seguinte texto de Jussara Seixas:

“Existe coisa mais nefasta do que chantagem? Existe: os senadores da oposição, do PSDB/DEM.

Chantagem é um ato imoral, quem chantageia exerce tortura mental sobre quem sofre a chantagem, a fim de receber desta algo de seu interesse. Os nefastos senadores do PSDB/DEM querem as luzes, os holofotes da mídia na CPI da Petrobras. Eles não têm direito de comandar a CPI pelo próprio regimento interno do Senado, pois são minoria. Cabem às maiores bancadas a relatoria e a presidência da CPI.

Os senadores do PSDB/DEM estão inconformados porque não vão participar como estrelas histéricas da CPI que eles inventaram – na verdade, a CPI da eleição de 2010, a CPI da preparação para a privatização da Petrobras, se por uma imensa desgraça Serra for eleito.

Inconformados, eles chantageiam. Furiosos, dizem que vão obstruir as votações de matérias de interesse nacional no Senado. Raivosos, estão se lixando se vão prejudicar o país e o povo brasileiro com essa atitude nefasta. Diz o líder do DEM, o Agripino Maia: “podemos evitar a aprovação de coisas de interesse para o governo, como, por exemplo, o Fundo Soberano”. O néscio do Agripino Maia não entende que vai prejudicar o país, e não o governo Lula. Vai prejudicar o povo brasileiro, pois essa aprovação do Fundo Soberano é importante neste momento em que o mundo passa por uma crise econômica mundial.

Eles afundaram o país quando foram governo, nos longos 8 anos de FHC, e desejam estupidamente repetir o feito. Estão se lixando se o Brasil será prejudicado, se milhões de brasileiros serão prejudicados.

Eleitor, pense bem: em 2010, antes de votar, pense bem sobre o que você quer para você, para o país. Se votar no PSDB/DEM trará de volta o caos econômico e social, o desemprego, as privatizações escusas, as farras com o dinheiro público no Senado. Não eleja chantagistas, pois as vítimas serão você, sua família, seu país.”

ENTENDENDO A "GUERRA DE LONGA DURAÇÃO" DOS EUA

Li hoje no site “Carta Maior” o seguinte artigo de Tom Hayden, publicado no “The Nation” em 7 de maio de 2009 (tradução de Katarina Peixoto):

“O Iraque é apenas um front imediato, com o Afeganistão e o Paquistão sendo fronts expandidos, numa única guerra maior, do Oriente Médio para o Sul da Ásia. No lugar de pensar no Iraque como o Vietnã, uma guerra que definitivamente acabou, é melhor pensar no Iraque como um atraso ou um impasse num campo de batalha mais amplo, onde a vitória ou a derrota são dolorosamente duras para definir, ao longo de um intervalo de tempo de cinco décadas. A análise é de Tom Hayden.

O conceito de “Guerra de Longa Duração” é atribuído ao ex-comandante da CENTCOM [United States Central Command], General John Abizaid, num discurso em 2004. O líder da contra-insurgência no Iraque, combatente veterano e agora encarregado do Centro por uma Nova Segurança Americana [Center for a New American Security] escreveu que “há um entendimento crescente de que os conflitos mais prováveis dos próximos cinquenta anos serão de conflitos irregulares num “Arco de Instabilidade” que abrange o Oriente Médio e partes da África e da Ásia Central e Sul”. O Relatório Quadrienal de Defesa (2005) do Pentágono atribui uma maior ênfase à luta contra o terrorismo e às insurgências nesse “arco de instabilidade”. O Centro para o Progresso Americano repete essa formulação, argumentando por um aumento das tropas e pela permanência por dez anos no Afeganistão, dizendo que a “infraestrutura da jihad” deve ser destruída “no centro do 'arco de instabilidade' ao longo do Sul e do Centro da Ásia e no grande Oriente Médio”.

As implicações dessa doutrina são assombrosas. A própria noção de guerra de 50 anos supõe o consenso do povo estadunidense, que ainda tem de ficar sabendo do plano, pelas próximas seis eleições nacionais. O peso da carga de 50 anos surpreenderá e consternará muita gente do movimento antiguerra. A maioria dos estadunidenses vivos hoje estará morta antes que a guerra de 50 anos tenha fim, se tiver. Os mais novos, nascidos hoje, terão atingido a meia-idade. Gerações ainda não-nascidas arcarão com o peso dos impostos ou lutarão e morrerão nessa “guerra irregular”.

Há uma chance, é claro, de se evitar a Longa Guerra. Ela pode ser um produto insustentável do excesso de autoconfiança imperial. A opinião pública pode se encher com o atoleiro de uma guerra e com seus custos – mas só se houver um comprometimento de 50 anos do movimento pacifista.

Desde essa perspectiva, o Iraque é apenas um front imediato, com o Afeganistão e o Paquistão sendo fronts expandidos, numa única guerra maior, do Oriente Médio para o Sul da Ásia. No lugar de pensar no Iraque como o Vietnã, uma guerra que definitivamente acabou, é melhor pensar no Iraque como um atraso ou um impasse num campo de batalha mais amplo, onde a vitória ou a derrota são dolorosamente duras para definir, ao longo de um intervalo de tempo de cinco décadas.

Eu proponho começar com o exame das doutrinas militares que deram origem às noções de Guerra de Longa Duração. O movimento pacifista frequentemente adota o ditado bíblico “não estudar mais a guerra”, mas neste caso pode ser útil nos tornarmos estudantes de estratégias e táticas militares. (Aqueles que estiverem interessados em se tornar estudantes da teoria da Guerra de Longa Duração podem consultar a bibliografia no fim deste ensaio).

1. A NOVA CONTRA-INSURGÊNCIA É UM RETORNO ÀS GUERRAS CONTRA OS ÍNDIOS

No artigo “A Nova Contra-Insurgência”, que publiquei em 24 de setembro de 2007 em The Nation, eu escrevi que o plano de Petraeus para o Iraque era tão velho como o nosso plano das longas guerras contra os índios. Essa tese foi confirmada nos textos do neoconservador Robert Kaplan, no seu artigo de 21 de setembro de 2004, no Wall Street Journal, “Nação de Índios” [Indian Country].

Kaplan é obcecado com a desagregação anárquica das sociedades de bases tribais no mundo pós-colonial, e enfatiza a necessidade de pequenas guerras, “fora das câmeras”, por assim dizer. Kaplan endossa a opinião de um oficial dos EUA, segundo a qual “você pretende prender os caras do mal discretamente e encobrir seus ataques com projetos de ajuda humanitária”. A comparação que Kaplan faz entre a atual Guerra de Longa Duração e nossa guerra contra os índios é que os “inimigos” são nações tribais altamente descentralizadas que tiveram de ser derrotadas numa campanha atrás da outra. Ele sabe que a guerra convencional contra os índios das Grandes Planícies e das tribos do oeste foi uma estratégia insustentável e que os povos nativos foram esmagados pela logística abundante dos colonos brancos e pela tecnologia superior, como as estradas de ferro.

2. A ESTRUTURA DA ESTRATÉGIA MILITAR: A LONGA GUERRA DE 50 ANOS

Assim como as guerras contra os índios, vencer a Guerra de Longa Duração requer angariar vantagens nos postos mais profundos dessas sociedades tribais, nos aspectos de religião, etnicidade, raça e geografia. Os esforços de muitos líderes indígenas para formar uma confederação efetiva contra a expansão dos EUA nunca deram certo.

Por outro lado, as estratégias do exército norte-americano de pagar tribos para implementar “sistemas de segurança” que iriam manter informados e combater outras tribos foi bem-sucedido. A principal estratégia das Guerras de Longa Duração é atrair um grupo étnico ou tribal para combater seus rivais, em benefício do ocupante estrangeiro. Nagl previu, acuradamente, que “vencer a vontade do povo iraquiano de se voltarem para seus vizinhos terroristas marcará o ponto de virada na derrota da insurgência”.

A contra-insurgência é apresentada ao público como uma forma mais civilizada, e mesmo intelectual, de guerra, dirigida pelos profissionais da Liga Ivy, com uma ênfase específica nos direitos humanos, na persuasão política e na proteção dos inocentes. Todo civil insultado pela derrubada de uma porta, quer dizer, é causa perdida, então se cria um motivo militar para serem respeitosos com as populações locais. O novo manual do exército dos fuzileiros é cheio de sugestões desse tipo.

Porém, esses tratamentos dos “corações e mentes” subestimam o que o vice-presidente Dick Cheney chamou de uso “do lado obscuro” [dark side]. Antes de voltarem para a sua vizinhança, para usar a imagem de Nagl, o exército de ocupação deve ser visto como derrotando essas “vizinhanças”, matando e ferindo os supostos insurgentes em número significativo; enfraquecendo ou destruindo a infraestrutura nas suas cidades, e criando um êxodo de refugiados (no Vietnã isso ficou conhecido como “urbanização forçada”, um termo do tardio professor de Harvard, Samuel Huntington). Enquanto isso, a população considerada “amistosa” é firmemente resguardada, no que costumam ser chamado de hamlets estratégicos e, no Iraque, tornaram-se conhecidos como “comunidades porta de entrada”: por trás dos arames farpados, muros malditos e torres de observação, e com todos sujeitos a controle de câmeras. As linhas entre o inimigo, o amigo e o neutro, nesse contexto, são fluídas o suficiente para garantir que muita gente será alvo descuidadamente, como simpatizantes “incorrigíveis” com os insurgentes. Traçar perfis e cercar pessoas que “tenham o tipo” leva aos campos de prisioneiros indivíduos fichados sem qualquer evidência aproveitável contra eles. Como disse um militante talibã ao New York Times, talvez ultra-confidencialmente:

“Eu conheço o experimento de Petraeus lá. Mas conhecemos os nossos afegãos. Eles vão pegar o dinheiro do Petraeus, mas não estarão do seu lado. Há muita gente trabalhando com os afegãos e os estadunidenses que estão na sua folha de pagamento, mas eles nos informam, vendendo-nos armas.” (5 de maio de 2009)

A verdade é que a guerra convencional travada pelas tropas estadunidenses contra as nações muçulmanas é politicamente impossível, por duas razões que sugerem uma fraqueza inerente. Em primeiro lugar, a população local se inflama contra estrangeiros, criando melhores condições para a insurgência. Em segundo, os estadunidenses são céticos a respeito de guerra no solo envolvendo baixas imensas, custos e possivelmente o recrutamento militar. A contra-insurgência se torna o rompimento da opção militar do ocupante que não é bem-vindo. A contra-insurgência tem baixa visibilidade de necessidade, dependendo da dissimulação psicológica e da guerra de informações, tanto no exterior como em casa.

3. O QUE ACONTECEU NO "DARK SIDE" NO IRAQUE

No Iraque, o lado obscuro foi envolvido primeiro no biênio 2003-2004, sob o patrocínio dos EUA, nas rondas e nas torturas, só vazadas para a opinião pública e para a mídia por um sentinela estadunidense em Abu Ghraib.

Além disso, algo como 50 000 jovens iraquianos, a maioria sunita, foi posta em condições extremas nos centros de detenção ao longo do país (alguns deles agora estão sendo libertados depois do pacto negociado entre Bagdá e Washington). Então, houve as matanças extrajudiciais não-reportadas e ultra secretas, descritas assombrosamente por Bob Woodward no seu “A Guerra por Dentro” [The War Within], que foram tão efetivas que supostamente deram “orgasmos” ao principal assessor do General Petraeus, Derek Harvey. Woodward escreve que essas matanças nas quais o Pentágono era o juiz, o juri e o executor, baseadas pesadamente em informantes locais, foram “muito provavelmente o maior fator de redução” da violência iraquiana em 2007. É provável que estivesse acontecendo uma versão revivida dos esquadrões da morte na versão de um “Programa Global Phoenix”, como advogou o assessor de contra-insurgência do General Petraeus, David Kilcullen, no Small Wars Journal (30 de novembro de 2004). Jane Mayer, em The Dark Side, confirma que o [Programa] Phoenix se tornou um modelo depois do 11 de Setembro, a despeito do fato de que os historiadores militares chamem-no de assassinato em massa sancionado pelo estado, e da clara evidência de que 97% das suas vítimas Vietcongs eram de “importância insignificante”.

É ainda muitíssimo mais conhecido que o General Petraeus reduziu a insurgência sunita quando contratou uns 100 000 sunitas, a maioria ex-insurgentes, para protegerem as comunidades deles e para combaterem a Al Qaeda no Iraque. Isso estava de acordo com a estratégia de outro assessor próximo do General Petraeus, Steven Biddle, em 2006:

“Usar os interesses das forças xiitas e curdas treinadas e financiadas pelos EUA para compelir os sunitas à mesa de negociações a fim de que também os xiitas e curdos negociem poderia levar ou a um levante, prematuramente, um movimento que conduziria o país à desordem ou de volta ao sunitas” (Foreign Affairs, Março-Abril 2006).

Agora, esses assim chamados “Filhos do Iraque”, antes conhecidos como “Kit Carson Scouts” estão cada vez mais frustrados com a recusa do governo al-Maliki, bancado pelos EUA, de integrá-los na estrutura estatal, pagando-lhes salários decentes. Não está claro o que o futuro guarda para o Iraque quando as tropas norte-americanas começarem a retirada.

Alguns quadros militares, talvez inclusive o General Raymond Odierno, estão sabidamente insatisfeitos com o ritmo da retirada, e negociam com o governo do Iraque um atraso no prazo de seis meses para reposicionar as tropas americanas para acampamentos fora das cidades iraquianas. Parece que nem a guerra convencional (2003-2006) nem a contra-insurgência (2006-2009) resolveram o problema fundamental da pacificação do nacionalismo insurgente, mobilizado pela própria invasão de 2003.

No Iraque, a estratégia dos EUA foi a de acelerar o relógio iraquiano enquanto reduzia a velocidade do americano, como Petraeus gostava de dizer. Isso significava a aceleração de um compromisso político entre xiitas, sunitas e curdos, seguindo a linha do Relatório Baker-Hamilton de 2007, enquanto se esfriava a impaciência do eleitorado estadunidense com promessas de que a paz estava bem próxima das eleições de 2008. Foi por volta desse período que o Centro para uma Nova Segurança da América [Center for a New American Security, em inglês] - CNA se formou, com defensores democratas da segurança nacional profundamente preocupados com a possibilidade de que o eleitorado pudesse decidir terminar a guerra “prematuramente”.

Uma peça importante no CNA foi Michelle Flournoy, que foi indicada pelos veteranos do Pentágono para a equipe de transição de Obama e agora serve como Sub-Secretária de Defesa. Contrariamente a muitas perspectivas no movimento antiguerra e no Partido Democrata, a operação de Petraeus em 2007-2008 foi bem sucedida na sua missão política de reduzir bruscamente as baixas, tanto norte-americanas como iraquianas.

Contudo, a operação militar dos EUA incluiu a onda de terror extrajudicial em massa, sobre a qual Woodward escreveu, assim como o pagamento a dezenas de milhares de sunitas para não atirarem nas tropas americanas. Nenhuma dessas coisas pode ser levada em conta para estabilizar o Iraque no longo prazo.

No final de 2008 a administração Bush foi forçada a aceitar o que o governo al-Maliki descreveu como “pacto de retirada”, de acordo com o qual os EUA iriam retirar gradualmente suas tropas no máximo até 2011. À medida que as forças dos EUA não “venceram” a guerra militarmente, há pouca evidência de que o Iraque irá se tornar um modelo estável pró-ocidente que alguns buscam para a sua Guerra de Longa Duração.

Mesmo que uma outra insurgência ou guerra civil seja evitada, o Iraque estará alinhando aos interesses regionais do Irã por algum tempo no próximo período. O presidente Obama estará sob forte pressão dos oficiais das Forças Armadas dos EUA no Iraque e dos seus aliados, como os neoconservadores em Washington, para retardar sua prometida retirada, ou será acusado de “perder” o Iraque.

As forças de segurança do Iraque consistem agora de 600 000 soldados, incluindo 340 000 membros de uma organização xiita maior, frequentemente descrita como sectária ou incompetente. Atualmente os EUA continuam a enfrentar o dilema descrito por James Fallows em 2005:

“A necessidade crucial de aumentar a segurança e a ordem no Iraque põe os EUA numa posição impossível. Não pode deixar honrosamente o Iraque – em oposição à simples evacuação no estilo Saygon – enquanto seus militares tiverem de providenciar força humana, armas, sistemas de inteligência e estratégicas usadas contra a insurgência.

Mas não pode, de uma perspectiva sensata, permanecer, quando a mera presença de suas tropas é um fator de irritação crescente do público iraquiano e um ponto de convergência para os oponentes nacionalistas – para não falar da crescente pressão dentro dos EUA pela retirada”.

4. A GUERRA DE LONGA DURAÇÃO SE MOVE DO IRAQUE PARA O AFEGANISTÃO E O PAQUISTÃO

As mesmas estratégias de contra-insurgência estão sendo transferidas para o Afeganistão e o Paquistão, com as tropas batendo o nível de 70 000, fazendo com que a totalidade das forças ocidentais alcancem níveis cada vez mais próximos do declínio total no Iraque. No Afeganistão, as forças estadunidenses expandidas vão se concentrar na destruição dos campos de papoula e nas cidades dominadas pelos talibãs no sul de Kandahar e nas províncias Helmund, uma estratégia de privação de recursos que vem das guerras contras os índios. Muitos americanos estão na expectativa de serem mortos ou feridos nesse esforço para assegurar e manipular a população rural contra o Talibã. Muitos talibãs provavelmente serão mortos entre os civis locais, enquanto seus dirigentes militares se retiram para se reposicionarem em outro lugar.

A prisão Bagram está sendo maciçamente estendida, ao passo que as ordens do presidente Obama para as instalações de detenção de Guantánamo não se aplicam. Bagram agora conta com aproximadamente 600 prisioneiros que, diferentemente daqueles de Guantánamo, têm “quase nenhum direito”, inclusive o de acesso a advogados. “Militantes dos direitos humanos e jornalistas são estritamente proibidos lá”, de acordo com a reportagem de 28 de janeiro de 2009 do Der Spiegel International.

De acordo com o relatório da RAND, usando os dados do Banco Mundial, o Afeganistão ocupa talvez a posição mais baixa no ranking dos sistemas de justiça no mundo. “Em comparação com outros países na região – como o Irã, Paquistão, Rússia, Tadjiquistão, Turcomenistão e Urbequistão – o sistema judicial afegão mostrou-se como um dos menos efetivos”. Bagram é apenas uma das muitas instalações de detenção em todo o país; o Talibã “libertou” mais de 1000 presidiários, inclusive 400 dos seus quadros militares, da prisão de Kandahar agora no ano passado.

A teoria da contra-insurgência, baseada na experiência britânica na Malásia, requer um período de dez a vinte anos para impor sofrimento suficiente e exaustão que forcem a população a aceitar os termos de paz do poder dominante. Esse é precisamente o calendário apresentado por Kilcullen perante o Senador John Kerry na Comissão das Forças Armadas do Senado em 5 de fevereiro:

“[Levará] dez a quinze anos, inclusive mais dois anos de combates significativos no front...trinta mil soldados a mais no Afeganistão custarão algo como 2 bilhões de dólares por mês, além dos aproximadamente 20 bilhões que já foram gastos; esforços adicionais em governo e desenvolvimento custarão ainda mais....[mas] se falharmos na estabilização do Afeganistão neste ano, não haverá futuro.”

Kilcullen e outros apoiam o plano atual de expandir o total das forças de segurança do Afeganistão de 80 000 para um total de 400 000, custando 20 bilhões de dólares ao longo de seis ou sete anos.

No Paquistão, onde a tortura e o abuso extrajudicial também são prevalentes, os EUA gastaram 12 bilhões de dólares, ao longo da última década, numa ditadura de [Musharraf], um décimo do que foi gasto nos projetos de desenvolvimento. Essas políticas só aprofundam o anti-americanismo das nações muçulmanas, alienam a oposição de classe média e deixam os pobres infestados na pobreza. Além desses problemas auto-impostos, o Pentágono está engajado num esforço frenético e crescente para mudar a doutrina de estratégia militar do Paquistão, da preparação para uma outra convencional (ou mesmo nuclear) guerra contra a Índia à guerra de contra-insurgência contra o Talibã escondido no seio de sua própria população do país, especialmente nas áreas extremamente empobrecidas da fronteira com o Afeganistão.

A probabilidade de que os EUA convençam o Paquistão a enxergar a ameaça doméstica como maior do que aquela que vem da Índia é duvidosa. O Paquistão lutou três guerras contra a Índia, e vê os EUA como aliado da expansão dos interesses da Índia no Afeganistão, onde o exército do Paquistão tem apoiado o Talibã como aliado contra a Índia.

As forças da Aliança do Norte dos Tajiks, Hazaras e Uzbeks foram fortemente apoiadas pela Índia em 2001 contra os aliados paquistaneses do Talibã, e a queda de Cabul para a Aliança do Norte foi uma “catástrofe” para o Paquistão, de acordo com Juan Cole. Desde 2001, a Índia enviou centenas de milhões em assistência ao Afeganistão, inclusive fundos para os candidatos políticos afegãos em 2004, assistência a parlamentares com assento, Consulado Indiano em Jalalabad, Heart e Kandahar, e projetos de construção de rodovias, de acordo com o governo indiano, para ajudar às forças armadas do país a “encontrarem suas necessidades estratégicas”.

Pesquisas mostram que uma vasta maioria de paquistaneses vêem os EUA e a Índia como ameças muitíssimo maiores do que o Talibã, a despeito da impopularidade do Talibã com boa parte da população paquistanesa. Enquanto for improvável que o Talibã chegue ao poder no Paquistão, pode ser impossível para quem quer que seja impedir o controle pelo Talibã das áreas tribais e de uma crescente base dentre as tribos Pashtun (28 milhões no Afeganistão, 12 milhões no Paquistão).

As opções que restam começam a fazer com que os EUA pareçam Gulliver amarrado dentre os Lilliputianos.

Os EUA vão solicitar que as forças armadas paquistanesas combatam o Talibã, cujos militares estadunidenses introduziram no Paquistão. O Paquistão vai pedir bilhões de dólares em ajuda aos EUA, sem dar garantias de que mudarão seus dispositivos de segurança de acordo com a vontade de Washington. Os EUA deixarão claro que irão às últimas consequências para evitar um cenário no qual o arsenal nuclear do Paquistão caia nas mãos do Talibã. Ninguém do lado dos EUA admite que esse desastre em espiral foi provocado pelas políticas dos EUA ao longo da última década.

5. O ATOLEIRO DE CRISES

Em suma, o “arco de crises” está se tornando um “atoleiro de crises”. A atual estratégia militar dos EUA no Paquistão é uma mistura contraditória de guerra aérea de aviões não-tripulados [“Predators”] combinada com forças especiais estadunidenses tentando organizar uma guerra tribal em busca da Al Qaeda. As políticas dos EUA já levaram a Al Qaeda para fora do Afeganistão, em parte com apoio do exército paquistanês. Como resultado, tanto os militantes da Al Qaeda como os do Talibã montaram acampamento nas áreas tribais mais remotas e selvagens do Paquistão. Até agora os EUA orçaram 450 milhões de dólares para a base tribal “Frontier Corps” na região de fronteira. Essa estratégia não apenas fracassou em evitar que o Talibã tenha o controle virtual da região tribal, como os esforços que mataram centenas de civis provocaram um aprofundamento da oposição pública, e levaram a insurgência talibã para o leste, no Paquistão.

Os EUA enfrentam uma crise militar que a secretária Hillar Clinton chamou recentemente de “uma ameaça mortal” à segurança americana; a possibilidade de que o Talibã ou a Al Qaeda acessem o arsenal nuclear paquistanês, na hipótese de que a situação venha a se deteriorar mais adiante. Isso gerará uma intensa campanha política para “fazer alguma coisa” a respeito da verdadeira ameaça que as políticas dos EUA criaram.

Os EUA e a OTAN dificilmente invadirão o Afeganistão, que tem 32 milhões de pessoas espalhadas em 250 milhas quadradas a mais do que o Iraque. O Paquistão, com 172 milhões de pessoas vivendo em mais de 310 000 milhas quadradas, simplesmente não pode ser invadido. Mas, numa crise, é concebível que conselheiros americanos e mesmo tropas terrestres possam ser enviados para ocupar 10 000 milhas quadradas no lado paquistanês da fronteira. Isso pode resultar numa revolução anti-americana nas ruas do Paquistão.

Então, o que a contra-insurgência obteve até agora? Na melhor das hipóteses, um beco sem saída no Iraque, depois de seis anos de combate, além de uma década brutal de sanções. Não muito no Afeganistão, onde a guerra convencional empurrou a Al Qaeda para a fronteira com o Paquistão. Não muito no Paquistão, onde o exército paquistanês é resistente a mudar seu foco principal da Índia.

O plano de guerra de Kilcullen para o Afeganistão cobre de dez a doze anos, começando em 2009. A guerra no front paquistanês está só começando, o que significa que a administração Obama está administrando três guerras no interior da Guerra de Longa Duração, sem levar em conta as batalhas campais como a das Filipinas ou o que pode acontecer no Irã, China e outros lugares de conflito ao longo do Arco de Instabilidade. Hpa gente na comunidade de inteligência que iria inclusive gostar de expandir a ameaça “terrorista” a imigrantes e rotas de drogas pela América Central e na América Latina.

Mesmo que o Presidente Obama deseje levar a cabo uma estratégia de recuo dos “lamentos do império”[Sorrows of Impire], ele vai se deparar com a pressão significativa do complexo militar-industrial, e com a falta de um público informado.

O caminho de menor resistência, pode parecer a Obama no curto prazo, é incrementar o envio (mandando 20 000 estadunidenses a mais), enquanto encaminha passo a passo a busca por uma emenda diplomática. Mas aumentar o envio de tropas pode parecer mais um drink para um alcoolista, e mesmo que essa estratégia requeira um passo atrás na doutrina da Guerra de Longa Duração. Os “falcões” do American Enterprise Institute e seus aliados, como John Mc Cain e Joe Lieberman estão pressionando pela vitória no lugar de salvar as aparências diplomáticas.

As motivações profundas dessa crise certamente envolvem a questão americana e ocidental do petróleo, as desigualdades históricas entre o Norte e o Sul globais, o Ocidente e o mundo muçulmano. Mas é importante enfatizar a dimensão da estratégia militar, particularmente a visão estratégica diretriz da guerra de cinquenta anos.

Agora, a Guerra de Longa Duração tem impulso por conta própria. O impacto da Guerra de Longa Duração sobre outras prioridades americanas, como a saúde e as liberdades civis é provavelmente devastador. À medida que muitos estadunidenses, especialmente os militantes dos movimentos de paz e justiça estiverem atentos às questões domésticas e às questões gerais da paz e da guerra, é importante começar se concentrando no grande déficit do entendimento popular de que a Guerra de Longa Duração já está aqui, erguendo-se sobre a dinâmica da anterior guerra fria e da nomenclatura da era Bush relativa à “guerra contra o terror”.”

“NÃO ESTOU PREOCUPADO COM O DÉFICIT OU A DÍVIDA PÚBLICA”

Li hoje no blog do Favre o seguinte texto de Luciana Xavier, da Agência Estado, publicado ontem no jornal “O Estado de S.Paulo”:

JAMES K. GALBRAITH: PROFESSOR DE ECONOMIA DA UNIVERSIDADE TEXAS;

PARA O ECONOMISTA, QUE É FILHO DE JOHN KENNETH GALBRAITH, SEM GASTOS DO GOVERNO, A ECONOMIA DOS EUA SE DESINTEGRARIA


“O governo dos Estados Unidos deve continuar gastando para estabilizar a economia, disse ontem o economista americano James K. Galbraith - filho do renomado John Kenneth Galbraith e professor da Universidade Texas -, em entrevista à AE Broadcast Ao Vivo, por telefone, de Austin, Texas. “Não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública”, disse. “Sem esses gastos, a economia iria se desintegrar.” Sua preocupação é com a transferência das perdas do sistema bancário para o governo, sem nada significativo em troca. “Isso é muito, muito sério.” Para ele, a China poderá se recuperar mais rapidamente e, com isso, o Brasil deve ser beneficiado.

ESTÁ MAIS FÁCIL TER UMA VISÃO GERAL DA CRISE?

Talvez. Temos alguma noção de quão violenta e profunda é esta crise, numa escala que não víamos desde os anos 30.

O ÍNDICE DE CONFIANÇA DO CONSUMIDOR ATINGIU EM MAIO O MAIOR NÍVEL EM OITO MESES. O SR. RECONHECE SINAIS CONSISTENTES DE RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA DOS ESTADOS UNIDOS?

Não dou muito peso a indicadores de confiança do consumidor. Mas acho que tivemos liquidação de inventários, que puxaram os estoques para baixo. Então, haverá algum reavivamento da produção. E temos enormes quantias do orçamento sendo destinadas às famílias e isso também está ajudando muito.

COMO SR. VÊ A SITUAÇÃO DO SISTEMA BANCÁRIO NO MOMENTO? OS TESTES DE ESTRESSE MOSTRARAM A REAL CONDIÇÃO DOS BANCOS?

Os testes não mostraram a real condição dos bancos. Eles foram elaborados para dar segurança ao público. Não foram testes de estresse, como é feito no senso normal da prática regulatória. Mas está claro que o governo está colocando seu peso por trás das instituições bancárias. Desse ponto de vista, se você quer saber se os bancos vão sobreviver, acho que a resposta é sim. Simplesmente porque suas perdas serão absorvidas pelo contribuinte, com o passar do tempo.

COM RELAÇÃO AO DÉFICIT E À DÍVIDA PÚBLICA DOS EUA. O SR. DISSE EM UM ARTIGO QUE ELES PODEM, DEVEM E VÃO SUBIR COM A CRISE. POR QUÊ?

É muito importante, quando o setor privado está em colapso, que o setor público gaste, reduza os ganhos com impostos e aumente as despesas, de modo a pôr dinheiro no bolso do setor privado, ajudando a estabilizar o nível total da atividade. Então, desse ponto de vista, não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública. É positivo que isso esteja ocorrendo, pois, sem esses gastos, a economia iria se desintegrar. Mas estou, sim, preocupado que estejamos fazendo uso improdutivo dos recursos fiscais, da dívida pública, simplesmente transferindo as perdas do sistema bancário para as contas do governo, sem nada significativo em troca. Vamos terminar com o sistema bancário sem reformas e muitos dos problemas que nos trouxeram para esta última crise, sem solução. Não vejo nenhum avanço e isso é muito, muito sério.

O QUE DEVE SER FEITO?

Eu iria me dirigir de modo mais duro aos principais bancos que fizeram jogos mais perigosos, aqueles que foram os maiores responsáveis por essa crise e tiveram mais perdas com o subprime. Pediria uma extensa auditoria de seus balanços. Iria avaliar seus ativos e pedir que suas perdas fossem colocadas na contabilidade da instituição, no lugar de simplesmente serem removidas para essas parcerias público-privadas, que vão sobrar, nos final das contas, para o contribuinte.

O SR. DISSE QUE NÃO ESTÁ PREOCUPADO COM O AUMENTO DO DÉFICIT E DA DÍVIDA DOS EUA. NÃO VÊ PROBLEMA CASO OS EUA VENHAM A PERDER O RATING SOBERANO AAA?

As agências de rating, que falharam de modo escandaloso ao tentar entender o mercado de hipotecas subprime, não devem ser levadas a sério agora, no que se refere a entender como a dívida publica dos EUA funciona. Não há absolutamente razão, não há como os Estados Unidos, que nunca tiveram default em 50 anos, terem agora default da dívida em dólares. Enquanto houver eletricidade fazendo os computadores no Departamento do Tesouro funcionar, isso não vai acontecer. É realmente um tipo de exercício tolo de economia convencional, as agencias de rating falarem sobre rebaixamento do rating soberano dos Estados Unidos.

COMO O SR. VÊ O PAPEL DOS MERCADOS EMERGENTES NESTA CRISE, ESPECIALMENTE BRASIL E CHINA?

O Brasil, em certo grau, não foi tão fortemente afetado pela crise como outros países. Em parte pelo caráter do equilíbrio de seu comércio exterior e em parte por não ter tido sua economia muita afetada, uma vez que não tinha hipotecas subprime no seu sistema financeiro. Já a China foi muito afetada por causa da queda das exportações, queda de demanda do mercado americano e também porque havia uma enorme bolha imobiliária nas maiores cidades, que entrou em colapso. Mas acho que a economia chinesa vai se recuperar razoavelmente mais cedo, pois o governo se moveu agressivamente para gerar demanda doméstica. E também porque o setor de exportações vai reagir tão logo os inventários dos Estados Unidos comecem a ser refeitos.

ESSA RECUPERAÇÃO NA CHINA BENEFICIARÁ O BRASIL?

Claro que sim. Se houver uma recuperação, os efeitos nos países produtores de commodities devem ser sentidos mais cedo.

QUE MUDANÇAS A CRISE TRARÁ PARA A ECONOMIA DOS EUA E DO MUNDO?

Acho que vai reforçar o entendimento da necessidade de novas estruturas de condução da economia mundial, incluindo as estruturas financeiras, de modo que ajudem a proteger países de diferentes partes do mundo de governos ruins e de choques ocorridos em outros lugares. Acho que temos visto esse processo acontecendo na Ásia e América Latina e creio que esse movimento será reforçado.”

OFENSIVA CONSERVADORA NA AMÉRICA LATINA

Li hoje no site “Vi o mundo”, do jornalista Luiz Carlos Azenha, o seguinte texto de Guillermo Almeyra, publicado no “La Jornada”:

'A OFENSIVA DA DIREITA NA AMÉRICA LATINA'

“Como em toda grande crise, juntamente com a radicalização de setores dos explorados e oprimidos, produz-se o recrudescimento das alas extremas da direita, que temem perder novas franjas de poder ou decidem passar à ofensiva antes que seja demasiado tarde, contando com suas forças econômicas, sociais e políticas para ganhar posições.

Essa direita não é abertamente golpista, mas sim ocasionalmente, porque a relação de forças real não lhe permite, contudo é, sim, "destituidora". Ou seja, leva à desestabilização dos respectivos governos e sociedades, ao limite do golpe de Estado. A sua arma principal são os meios de informação, com os quais tenta reforçar a sua hegemonia político-cultural.

Por isso, assistimos a um golpismo mediático que se concretiza por meio da desinformação, da tergiversação dos fatos, da utilização de qualificativos sem sustentação, da sátira mal intencionada, da criação de temor à insegurança, às pandemias, às crises econômicas, as quais não seriam o resultado - era o que faltava! - do sistema capitalista e sim do "populismo" e da "ineficácia" e "corrupção" dos governos que não são simples peões do capital financeiro (como, por exemplo, o da Venezuela, o de Cuba, o da Bolívia, o do Equador e até o moderadíssimo governo da Argentina).

Podemos ver assim como a CNN pede em rede, diretamente, a renúncia do presidente guatemalteco ao qual entrevista e tritura todos os dias, dando como certo que o presidente Álvaro Colom ordenou um assassinato. E ocultando que o ódio da direita contra esse governo provém das limpezas que ordenou às forças armadas e à polícia, e das suas ainda tímidas medidas sociais.

Também podemos observar como a Globovisión exorta os militares venezuelanos a "porem as calças" contra o governo, ou como todos os meio de comunicação do grupo argentino Clarín especulam sobre a necessidade da renúncia da presidenta Cristina Fernández, caso não ganhe de forma esmagadora as eleições, e dizem que o vice-presidente já tem um gabinete formado.

Ao mesmo tempo, amplificam as provocações, como aquela que faz o Peru ao dar asilo político a delinquentes e assassinos da Venezuela e da Bolívia, disfarçados de opositores "democráticos". E, apesar de todas as acusações por corrupção e cumplicidade em homicídios que pesam contra Uribe, ele avança a passo acelerado na Colômbia para a preparação da sua reeleição, pisoteando a Carta Magna.

Mas também a direita veste a pele de cordeiro, no Chile, para que se esqueçam de Pinochet e da ditadura, e avança o proprietário da LAN, Sebastián Piñera, como candidato a presidente da República. Calderón apresenta-se como a garantia da ordem contra a delinquência, como o demonstram as declarações de De la Madrid sobre os Salinas.

A direita brasileira prepara-se para acabar com o governo de Lula, e a direita argentina, para retirar dos Kirchner a maioria nas Câmaras, submeter a julgamento político a presidente ou sabotar a sua política todos os dias.

Piñera pode chegar a ganhar no Chile. No Uruguai é possível um segundo turno que una as direitas para deixar a Frente Ampla em minoria. Nas eleições de 28 de junho, o governo argentino, com o auxílio da abstenção e dos votos em branco, pode sacar menos votos que a aliança entre a extrema direita peronista, a oligarquia latifundiária, o capital financeiro e os partidos tradicionais anti-peronistas.

Existe a possibilidade de que a candidata de Lula perca e a sorte do Mercosul penderia por um fio caso ocorresse a ascensão de governos direitistas no Uruguai, Brasil e Argentina. Os fatores determinantes desses possíveis retrocessos e da reanimação da direita são, fundamentalmente, dois: o reflexo conservador das classes médias urbanas perante a crise mundial, a queda do seu nível de vida, a insegurança social e o aumento da luta de classes.

E, interrelacionado com isso, a incapacidade ou o caráter tímido das políticas dos governos mal chamados progressistas, que continuam a aplicar essencialmente as mesmas linhas neoliberais dos anos noventa.

Eles, como os Kirchner ou Lula, não foram capazes de mobilizar uma força própria com medidas audazes: não nacionalizaram o comércio exterior de cereais, nem fixaram políticas anti-mineração, nem protegeram o ambiente e, pelo contrário, financiaram a grande indústria (que é estrangeira e está ligada à oligarquia e ao capital financeiro internacional) e não lhes tocaram nem num fio de cabelo.

Só as mobilizações populares e a perspectiva de políticas de mudança podem arrastar setores pobres das classes médias, como na Bolívia ou no Equador, ou contrapor-se à base social na classe média da direita venezuelana. A fraqueza da Concertación chilena, do kirchnerismo, de Lula, convertem-se na força da direita frente a governos socialmente isolados e que persistem nas políticas e concepções neoliberais que levaram ao desastre mundial.

Se acrescentarmos a isto que os trabalhadores estão a dar uma resposta muito débil e desunida à utilização capitalista da crise mundial e, em geral, não puderam elaborar um projeto próprio de saída da crise, vemos também porque a direita e o capitalismo podem manter a sua hegemonia político-cultural.

Mais do que nunca, é essencial travar a batalha ideológica contra os valores e os meios do capital e organizar a atividade política independente de suas vítimas.”

O PETRÓLEO E A NOSSA CURIOSA OPOSIÇÃO ANTIBRASILEIRA

Li hoje no blog “de um sem mídia” o seguinte artigo de Débora Lerrer, jornalista e doutora em ciências sociais pelo CPDA/UFRRJ. Fonte:”Agência Brasil de Fato”:

“Espero que o governo Lula encare a CPI da Petrobras como a deixa que faltava para investigar os danos que a gestão que o governo do PSDB fez à empresa. Uma medida que todos aguardavam em relação a todas privatizações e meia-privatizações efetuadas pelo governo anterior. Infelizmente, nunca se sabe.

Mas é curioso pensar como essa oposição ousa propor uma CPI como essa. Bem eles, do PSDB, cuja gestão da Petrobras é vista pelos funcionários de carreira da empresa como completamente desastrada e atrelada a interesses estrangeiros que asfixiaram a expansão da empresa. Então, agora o problema é o PT ter 17 cargos de confiança, localizados estrategicamente na direção da empresa? Se a Petrobras não estivesse andando de vento em popa até poderia se aceitar esta crítica. Mas foi durante o governo Lula que a Petrobras tornou o Brasil autônomo em petróleo e ainda descobriu uma reserva deste recurso que torna o país podre de rico, nos levando segundo as estimativas menos otimistas do 24º lugar para 10º lugar na posição do ranking dos maiores produtores de petróleo do mundo.

Existe em qualquer país da era moderna uma política de Estado. Esta política de estado deveria visar o desenvolvimento econômico e social de seus respectivos Estados-nacionais. Foi isso que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos e que os levou a serem considerados países “desenvolvidos”. O problema é que certos países, sobretudo os latino-americanos, volta e meia constituem governos anti-nacionais que bloqueiam o desenvolvimento. Geralmente são governos encabeçados por elites deslumbradas pelos estrangeiros, que adoram mostrar sua erudição em inglês, francês e que costumam achar que tudo que há de melhor no mundo se encontra na Europa ou nos Estados Unidos. Parte expressiva de nossa elite política e econômica é assim. Além de não pensar em termos de país, costuma colocar seus interesses acima dos de sua coletividade. Não fosse isso, não teríamos a taxa de desigualdade social secular que continuamos a apresentar ao mundo e extratos importantes da população em condição de miséria.

Não podemos esquecer que o governo FHC fez uma política anti-desenvolvimento e entregou o Brasil literalmente quebrado para Lula governar. No que se refere à Petrobras, além de destruir a Fronape (Frota Nacional de Petroleiros), abriu o capital da empresa, chegando a franquear informações estratégicas para estrangeiros, supostamente parte dos ritos necessários para suas ações serem vendidas na Bolsa de Nova Iorque. Nos Estados Unidos, por sinal, qualquer petróleo encontrado em seu território é deles. Depois da alteração da Lei de Petróleo, feita pelo tucanato as empresas estrangeiras que venceram os leilões da ANP podem facilmente mandar esse petróleo embora sem que ninguém aqui fique sabendo.

Já os 17 tais cargos estratégicos ocupados pelo PT, que os tucanos estão tentando vender como “empreguismo”, na verdade articularam a visão de governo do PT com a da Petrobrás - cujo corpo de funcionários é sabidamente eficiente - para garantir soberania nacional. Não fosse isso, a empresa, que representa 15% do PIB brasileiro não teria alcançado os resultados expressivos que alcançou nos últimos anos. Houve, em suma, uma grande conciliação entre o empreendorismo da empresa e os interesses políticos É perfeitamente fácil comprovar isso, pois pouco tempo depois desse corpo de dirigentes assumir a empresa, chegamos à autonomia energética em termos de petróleo e, recentemente, com os terminais de gás na Baía de Guanabara (RJ) e em Pecém (CE), conquistamos mais autonomia em relação a esse recurso, até então comprometida pela política de dependência do gás boliviano implementada pelo governo FHC.

É interessante observar como a mídia brasileira, que parece odiar a Petrobras, lida com esse assunto. Na quinta-feira passada, dia da manifestação organizada por vários e distintos setores da esquerda brasileira contra a CPI da Petrobrás, sites como o do “O Globo”, jornal localizado Rio, onde ocorreu a mobilização, curiosamente não apresentou a notícia da mobilização organizada pela FUP (Federação Única dos Petroleiros), mas deu destaque à opinião da oposição, para quem a manifestação “politiza” a questão e defende as eventuais práticas de corrupção realizadas pela estatal. “Nem se começaram as investigações e já se fazem movimentos políticos. Nós não vamos embalar nisso. A atitude do bloco da minoria será de investigar sem politizar”, afirmou o líder do DEM, José Agripino Maia (RN).

Essa posição é até curiosa, para não dizer outra coisa. Não foram eles que começaram a politização, ao inventarem uma CPI, que costuma ser o grande palco da politização dos assuntos nacionais? E que interesses são esses que estão querendo investigar uma empresa que, sob o governo Lula, deslanchou, superando os entraves que eles, durante o Governo FHC criaram? Ninguém esquece dentro da Petrobrás o fato de que, na época, o 12º andar do prédio-sede da Petrobrás simplesmente ficou fechado para seus funcionários, mas franqueados para “consultores estrangeiros”. E, mais que isso, como uma empresa auditada constantemente, pode ser o antro de corrupção que eles tentam fazer parecer? E será justamente os holofotes de uma CPI o melhor lugar para se investigar eventuais irregularidades que possam ter ocorrido na empresa? Por fim, a grande questão é trazer à luz o que está por trás de uma CPI criada justamente quando a Petrobras está indo atrás de recursos no exterior para investir na exploração da camada Pré-sal e setores da sociedade brasileira estão querendo revisar a Lei do Petróleo, tirando as empresas estrangeiras da exploração de nossas reservas e garantindo que o destino dessa riqueza beneficie o conjunto do povo brasileiro.”

O IRÃ É MUITO INDEPENDENTE E DESOBEDIENTE, IRONIZA CHOMSKY

Li hoje no site “vermelho” a seguinte entrevista traduzida por João Manuel Pinheiro para o site “O Diário.info” (o original foi publicado em www.foreignpolicyjournal.com):

“Em entrevista a Kourosh Ziabari, do site Foreign Policy Journal, o acadêmico e ativista americano Noam Chomsky critica a política de dois pesos, duas medidas contra o Estado do Irã e sua política nuclear, demonstrando que, durante o regime do Xá Reza Pahlevi, os EUA defendiam o desenvolvimento de tecnologia nuclear pelo país, na época submetido aos interesses americanos.

“Noam Chomsky não precisa de apresentação. De acordo com o The Guardian, trata-se, indiscutivelmente, do catedrático e analista sócio-político mais importante da era contemporânea e está considerado junto a Marx, Shakespeare e a Bíblia, como uma das dez fontes mais citadas das humanidades, e é também o único escritor, entre eles, que ainda está vivo.

Em referência ao livro Hegemonia e Sobrevivência de Chomsky, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, dirigindo-se à Nações Unidas, disse: "Convido-os, com todo o respeito, a quem ainda não tenha lido o livro, a que o façam."

Em resposta à pergunta formulada numa entrevista em 2006 sobre que ações tomaria se fosse presidente, Chomsky respondeu: "Instauraria um Tribunal de Crimes de Guerra para os meus próprios crimes pois caso tivesse assumido essa posição teria que tratar com a estrutura institucional e com a cultura, a cultura intelectual. A cultura deve ser curada".

Nesta entrevista, conversei com o professor Chomsky sobre o Irã, os assuntos nucleares, as relações entre Washington e Teerã e o impacto global dos lobbies sionistas. Um resumo desta conversa foi primeiramente publicado no diário iraniano de língua inglesa "Teheran Times".

KOUROSH ZIABARI: PROFESSOR CHOMSKY, O SENHOR TEM REITERADO EM NUMEROSAS OCASIÕES QUE A MAIOR PARTE DOS PAÍSES DO MUNDO, INCLUINDO OS MEMBROS DO MOVIMENTO DOS PAÍSES NÃO ALINHADOS, APOIA O PROGRAMA NUCLEAR IRANIANO, NO ENTANTO, OS NEOCONSERVADORES DOS ESTADOS UNIDOS CONTINUAM A PROCLAMAR O SEU LEMA AGRESSIVO.

NOAM CHOMSKY:
O Movimento dos Países Não Alinhados, mas também a grande maioria dos americanos pensa que o Irã tem o direito de desenvolver energia nuclear. Todavia, quase ninguém nos Estados Unidos tem consciência disso. Isto inclui todos aqueles que são inquiridos e que provavelmente acreditam que são os únicos que pensam assim. Nunca se publica nada sobre este tema. O que aparece constantemente nas mídias é que a comunidade internacional exige que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Em quase nenhum meio se explica que a designação "comunidade internacional" é utilizada convencionalmente para se referir a Washington e a quem estiver de acordo, não só sobre este assunto mas em geral.

KOUROSH ZIABARI: A MAIORIA DOS ANALISTAS DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS AINDA NÃO PÔDE ASSIMILAR O DUPLO CRITÉRIO NUCLEAR DO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS. APESAR DE APOIAR O ARSENAL ATÔMICO DE ISRAEL CONTINUA A PRESSIONAR O IRÃ PARA QUE SUSPENDA OS SEUS PROGRAMAS NUCLEARES. QUAIS SÃO AS RAZÕES? POSSUI A AIEA (AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA ATÔMICA) AUTORIDADE SUFICIENTE PARA INVESTIGAR OS CASOS DE ARMAMENTO NUCLEAR EM ISRAEL?

NOAM CHOMSKY:
O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o Xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

A AIEA possui a autoridade, contudo os Estados Unidos nunca permitiriam que a exerça. A nova administração dos Estados Unidos não tem dado provas de nenhuma alteração nesse sentido."

KOUROSH ZIABARI: EXISTEM QUATRO ESTADOS SOBERANOS QUE AINDA NÃO RATIFICARAM O TRATADO DE NÃO-PROLIFERAÇÃO NUCLEAR (TNP) E QUE DESENVOLVEM LIVREMENTE BOMBAS ATÔMICAS. SERÁ O IRÃ LIBERTADO DAS PRESSÕES CONSTANTES; DEVE OBTER A SUA RATIFICAÇÃO E ABANDONAR O TRATADO?

NOAM CHOMSKY:
Não, isso só faria aumentar as pressões. Excluindo a Coreia do Norte, todos esses países recebem apoio extensivo dos Estados Unidos. O governo de Reagan fingia ignorar que o seu aliado Paquistão desenvolvia armas nucleares, para que a ditadura recebesse ajuda massiva dos Estados Unidos. Também os Estados Unidos, aceitaram ajudar a Índia a desenvolver as suas instalações nucleares; Israel é um caso especial.

KOUROSH ZIABARI: QUE PROVÁVEIS FATORES PODERIAM DIFICULTAR A REALIZAÇÃO DE CONVERSAÇÕES DIRETAS ENTRE O IRÃ E OS ESTADOS UNIDOS? É MAIOR A INFLUÊNCIA DO LOBBY JUDAICO DO QUE A DOS SISTEMAS EMPRESARIAIS DOS ESTADOS UNIDOS?

NOAM CHOMSKY:
O lobby judaico tem alguma influência, mas é limitada. Isto foi demonstrado, uma vez mais, no caso do Irã no verão passado, durante a campanha presidencial, quando a influência dos lobbies se encontrava no seu apogeu. O lobby israelita pretendia que o Congresso aprovasse uma legislação que se aproximasse de um ato de bloqueio ao Irã, um ato de guerra. A medida obteve um apoio considerável, mas desapareceu de imediato, provavelmente devido à Casa Branca deixar bem claro, discretamente, que se opunha.

Quanto aos verdadeiros fatores, ainda não temos registros suficientes, de modo que é necessário especular. Sabemos que a grande maioria dos americanos quer ter uma relação normal com o Irã, mas a opinião pública raramente influencia a política. As grandes companhias dos Estados Unidos, incluindo as poderosas empresas de energia, gostariam de explorar os recursos petrolíferos do Irã. Contudo, o Estado insiste no contrário. Suponho que a razão principal, é que o Irã é demasiado independente e desobediente. As grandes potências não toleram aquilo que eles consideram ser parte dos seus domínios e as regiões de maior produção de energia do mundo há muito que são consideradas domínio da aliança anglo-americana, agora com o Reino Unido reduzido a sócio subalterno.

KOUROSH ZIABARI: HAVERÁ UMA TRANSFORMAÇÃO TÁCTICA OU SISTEMÁTICA NA APROXIMAÇÃO DOS PRINCIPAIS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL AO IRÃ DURANTE A PRESIDÊNCIA DE OBAMA? PODEMOS ESPERAR UMA REDUÇÃO DA PROPAGANDA ANTI-IRÃ?

NOAM CHOMSKY:
Em geral, as mídias aderem ao sistema geral da política de estado embora algumas vezes os programas políticos sejam criticados com fundamentos tácticos. Muito irá depender, portanto, da postura que assuma o governo de Obama.

KOUROSH ZIABARI : FINALMENTE, ACREDITA QUE O PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DEVERIA SEGUIR A PROPOSTA DO IRÃ E PEDIR DESCULPA, PELOS SEUS CRIMES HISTÓRICOS CONTRA O IRÃ?

NOAM CHOMSKY:
Creio que os poderosos sempre devem reconhecer os seus crimes e pedir desculpa às vítimas e ainda reparar os danos causados. Infelizmente, o mundo rege-se majoritariamente pela máxima de Tucidides: os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem como lhes é devido. Lentamente, a pouco e pouco, o mundo, em geral, torna-se mais civilizado. Mas ainda tem muito caminho a percorrer.”

PRODUÇÃO INDUSTRIAL SOBE 1,8% EM ABRIL EM RELAÇÃO A MARÇO

Para os que defendem a volta da direita ao poder em 2010 (caso do Grupo Folha/UOL), esta mesma notícia (indicada no título acima especificado por este blog) deve ser divulgada com conotação negativa. Assim, em vez de ser destacada a recuperação da produção industrial, de março para abril de 2009, a redação do UOL foi buscar comparação com mês antes da crise internacional criada pelos EUA em 2008.

Vejamos o que o portal UOL divulgou ontem:

PRODUÇÃO INDUSTRIAL DEVE CAIR 14% EM ABRIL, DIZ IPEA

Da Redação, em São Paulo:

“A produção industrial mensal de abril deve exibir queda de 14% em relação ao mesmo mês do ano anterior, mostram dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgados nesta quarta-feira (27). Na comparação com março, a previsão é de alta de 1,8%.

O setor de veículos foi o destaque negativo nas previsões do Ipea. Depois de acumular queda de 16,8% no primeiro trimestre ante o mesmo período do ano anterior, o instituto, ligado ao governo federal, espera nova retração em abril, para 15,8%.

"Este resultado (do ramo de veículos) deve ser entendido mais como uma acomodação", pondera Leonardo Carvalho, coordenador dos dados do Indicador Ipea de Produção Industrial Mensal. "O primeiro trimestre registrou uma antecipação de vendas, devido às incertezas sobre a prorrogação da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)."

De acordo com o Ipea, a produção industrial no primeiro trimestre deste ano acumulou queda de 14,7% ante o mesmo período de 2008.

Os dados do instituto apontam que o setor de energia, fundamental para a produção da indústria, deve ter baixa de 9,8% na comparação com abril do ano passado. Em relação a março, a queda está prevista para 1,6%.

A produção de papelão, tida como referência para a de outros artigos, tem previsão de expansão de 1,8% em relação a março. Já na comparação com abril do ano passado, a expectativa do Ipea é de queda de 4,9%.”

MINISTROS VÃO A DILMA PARA ''TIRAR ATRASO'' DE ALCÂNTARA

Ontem, o jornal O Estado de S.Paulo publicou:

“Depois de um ano e meio perdido em brigas com os quilombolas de Alcântara, no Maranhão, e de patinar na "letargia ruminante da burocracia", o diretor do consórcio espacial Brasil-Ucrânia, Roberto Amaral, espera que uma reunião hoje, no Planalto, sirva para "virar o jogo" e tirar o atraso do programa espacial brasileiro.

Virar o jogo significa, para os dois países, fazer um teste de lançamento de satélite já em 2010, começar as operações comerciais em 2011, lançar seis satélites por ano já nos primeiros anos e, até 2018, ocupar 10% do mercado mundial do setor, que prevê nesse período o lançamento de 960 satélites. Isso tudo com o Cyclone, um foguete potente, capaz de inúmeras tarefas, pelas quais se poderá cobrar bom dinheiro.

"E lançado da que é considerada, na comunidade científica, a base mais bem situada do planeta", diz Amaral. Como cada lançamento não sai por menos de US$ 50 milhões, fala-se de um mercado em torno de US$ 45 bilhões nesse período. "E a família de lançadores Cyclone, dos ucranianos,já teve 200 lançamentos, todos com sucesso."

É de olho nesse cenário que os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil), Nelson Jobim (Defesa), Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) e Edson Santos (Igualdade Racial) - além de Amaral - discutirão as próximas tarefas de cada área. Decidirão, também, se o projeto passará a fazer parte do PAC. "Pois no PAC ele será tratado como toda prioridade", diz Amaral. O trabalho foi muito prejudicado, até agora, diz ele, por ONGs e "gente que queria falar em nome da população do lugar, da qual 80% não são quilombolas". O caso se resolveu com a cessão, pela Agência Espacial Brasileira, de um terreno para a nova base de lançamentos.

O projeto, na verdade, já está andando. O consórcio Brasil-Ucrânia teve seu capital aumentado de US$ 105 milhões para US$ 475 milhões - o que lhe permite "ser levado mais a sério"por outros países. Antropólogos estão trabalhando na futura integração da base com os moradores. E dia 5 de junho Amaral estará em Alcântara para explicar o que a região terá a ganhar com a base. Nos planos do Planalto está uma visita a Alcântara dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Viktor Iuschenko, da Ucrânia, no dia 5 de agosto.

ESTRATÉGIA

Mas o significado maior, diz Amaral, é estratégico. "É o Brasil poder usar a moderna tecnologia espacial para controlar um País de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 10.000 km de fronteira litoral. Somos o único país do planeta, com essas dimensões, que ainda não tem esses recursos".

quarta-feira, 27 de maio de 2009

POCHMANN: DEVEMOS GERAR 600 MIL EMPREGOS

Li hoje no site “Terra Magazine”, do jornalista Bob Fernandes, a seguinte entrevista de Marcela Rocha com Márcio Pochmann, presidente do IPEA:

“Em entrevista a Terra Magazine, Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, não vê "horizonte neste ano" para aumentar a rotatividade do emprego. Isto significa que o rendimento do brasileiro médio vai cair e o comércio será afetado.

O número de 106.205 vagas novas apurado em abril pelo Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged) em todo o País foi uma surpresa se comparada aos 34.828 postos abertos em março. Ao mesmo tempo, em sua pesquisa, Pochmann aponta o crescimento da rotatividade no trabalho.

A taxa média mensal de rotatividade com carteira assinada foi de 3,7% para 3,9%, entre outubro de 2007 e março de 2008. Nesse período de vacas magras, a rotatividade atingiu 23,4% de aproximadamente 29,4 milhões de trabalhadores formais do setor privado.

Numa "baixa econômica", a rotatividade deveia cair, pois "os empregados, diante da dificuldade de encontrar outro emprego, tendem a fazer tudo para permanecer no posto e não perder a oportunidade de trabalho". Isto não está acontecendo, ou seja, explica Pochmann, "as empresas é que estão aumentando a rotatividade". Pochmann explica, de maneira simples, sua avaliação:

O salário médio está sendo afetado por estarem sendo demitidas pessoas com melhores remunerações para que sejam contratadas pessoas de menor remuneração. O desemprego está crescendo na indústria, onde os salários são menores.

Apesar das negativas, Pochmann traz boas notícias: "A previsão é de queda da inflação". Segundo o presidente do Ipea, a inflação tem subido com a valorização cambial, que não se deu de forma simultânea à redução do consumo nem à redução do preço das commodities.

Contudo, destaca que enxerga uma certa valorização do câmbio e, por isso, acredita "que o consumo vai expandir, então o contexto geral é de queda da inflação".

Entre altos e baixos, a perspectiva de crescimento é mantida tanto entre os mais, ou menos otimistas. Contudo, "se for registrada queda do Produto Interno Bruto no primeiro trimestre deste ano, 2009 inteiro estará comprometido, um ano perdido", lamenta Pochmann. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB do primeiro trimestre sairá em 9 de junho. Esperemos.

TERRA MAGAZINE - EM QUE MEDIDA O CRESCIMENTO DE EMPREGO É PREJUDICADO PELO CRESCIMENTO DA ROTATIVIDADE?

MÁRCIO POCHMANN -
Na verdade tem duas modalidades de ajustes a partir da crise. Uma foi a redução do emprego nos setores indústriais, vinculados, sobretudo à exportações. No segmento voltado ao mercado interno, principalmente de serviço, o desemprego não foi tão alto, mas terminou sendo afetados pela rotatividade. Este segmento, embora mantenha o número de empregos e possivelmente aumente, trabalha com salários menores, cada vez mais próximos do piso do salário mínimo nacional.

QUEM SOFRE?

A massa de rendimento (é o número de empregos com salários médios). O salário médio está sendo afetado por estarem sendo demitidas pessoas com melhores remunerações para que sejam contratadas pessoas de menor remuneração. O desemprego está crescendo na indústria, onde os salários são menores.

QUANDO O SENHOR AVALIA QUE A ROTATIVIDADE VAI DIMINUIR? QUANDO VOLTAREMOS AO NÍVEL PRÉCRISE DE TRABALHO E EMPREGO?

Não vejo horizonte neste ano. O crescimento do Brasil não acontecerá como o previsto, não acontecerá no patamar de 4,5%. O mercado de trabalho formal, quase 40% do total, já está apresentando sinais de recuperação. Devemos gerar em torno de 600 mil postos de trabalho, evidentemente que em função da economia.

O CRESCIMENTO DO EMPREGO COM A ROTATIVIDADE AUMENTA O NÚMERO DOS QUE SÃO EMPREGADOS E DEPOIS FICAM DESEMPREGADOS RAPIDAMENTE? AUMENTA A INSTABILIDADE, A VOLATIVIDADE DESTE ÍNDICE?

Exatamente. A rotatividade se dá de forma diferente do ciclo econômico. Ela se dá, não apenas, por estímulo do empregador, que reduz o número de pessoas que ganham mais para contratar as que ganham menos. Também se dá estimulada pelo próprio empregado, que muitas vezes troca de emprego por um salário maior.

MAS ESTAMOS NA BAIXA DO CICLO ECONÔMICO...

Sim. Por conta desta baixa, a rotatividade deveria cair, porque ela só permanece promovida pelo empregador. Os empregados, diante da dificuldade de encontrar outro emprego, tendem a fazer tudo para permanecer no posto e não perder a oportunidade de trabalho. Em geral, no ciclo econômico de crescimento, dois terços da rotatividade são promovidos pelo empregador e um terço pelo empregado. Na baixa do ciclo, esse um terço deveria cair. Mas isto não está acontecendo.

POR QUAL MOTIVO?

É uma demonstração clara de que as empresas estão aumentando a rotatividade.

E É ISSO QUE AFETA A MASSA DE RENDIMENTO?

Cresce o emprego com salários menores, a massa de rendimento tende a cair e aí pode conter setores como comércio e serviços que dependem da massa de rendimentos para sua sustentação, diferentemente da indústria. Até porque a massa de rendimentos vai para o consumo e não para a poupança, né?

COM A QUEDA DA MASSA DE RENDIMENTOS A INFLAÇÃO TENDE A CAIR?

A previsão é de queda. A inflação tem subido com a valorização cambial, que não se deu de forma simultânea à redução do consumo nem à redução do preço das commodities. Agora, vemos uma certa valorização do câmbio e acreditamos que o consumo vai se expandir, então o contexto geral é de queda da inflação.

COMO O SENHOR AVALIA A PERSPECTIVA DO CRESCIMENTO DO BRASIL EM 2009? COINCIDE COM A DO IPEA?

O nosso núcleo de previsão trabalha com o patamar de 1,5% a 2,5% de crescimento. Como estamos num contexto fora de previsibilidade, dada a excessão forte que ocorreu no último trimestre do ano passado, as previsões precisam ser revistas a todo momento. Se for registrada queda do PIB no primeiro trimestre deste ano, 2009 inteiro estará comprometido, um ano perdido.

A INTERVENÇÃO ESTATAL NÃO DEIXARÁ IMPUNES, QUANDO A CRISE PASSAR, OS APONTADOS COMO CAUSADORES DA CRISE?

De maneira geral a intervenção vem sendo feita para salvar o próprio capitalismo. Se tivesse deixado as grandes seguradoras, bancos e grandes empresas quebrar, o efeito dominó para o conjunto do setor econômico do País seria um aprofundamento dramático da decadência. Embora saibamos que pareça um socialismo rico, socializando o prejuízo dos segmentos que mais ganharam no ciclo de expansão da globalização, entende-se que, para o conjunto da atividade econômica do País, é necessário.

A CRISE DE 1929 SERIA A PROVA DISTO?

O café era o setor mais dinâmico. O Brasil era o maior produtor de café, ele havia sido colhido, mas não havia gerado renda, ou seja, não tinha recurso para, tanto atender os lucros dos fazendeiros, quanto aos salários dos trabalhadores. O governo do Getúlio Vargas comprou as sacas, pagou e queimou. Do ponto de vista econômico era necessário para o País sair o mais rápido da crise. Colocar aquele café para comercializar não iria adiantar nada porque os trabalhadores não tinham como consumir. A questão básica é que essas medidas são anti-ciclicas, evitam que o ciclo se aprofunde e estabelece condições mínimas para novos ciclos de expansão.”

INVESTIGAR É PRECISO

Li ontem no jornal Diário do Nordeste a seguinte nota do veterano jornalista Lustosa da Costa:

“A CPI da Petrobras precisa investigar, realmente, os prejuízos que a empresa sofreu em favor de empresas estrangeiras, durante os torvos tempos de FHC. Aí sim vamos ver a extensão e o peso de crimes que envolveram bilhões. E que devem de ter rendido gordas propinas. Senão o sócio de FHC não teria proclamado, em discurso oficial, a intenção do governo de desmontar o dinossauro da Petrobras, vértebra por vértebra. Os tucanos querem realizar este sonho do bem-sucedido tesoureiro. Agora por outras vias.

MENTIRA

Agora negar como fez FHC que quisesse entregar a Petrobras decorre apenas de sua confiança na falta de memória do povo brasileiro. Lembro bem que a reação maior na defesa da empresa estatal foi de Jader Barbalho, que levantou o Senado contra a quebra do monopólio estatal, evitando novos prejuízos e melhores negociatas. Quem doou a Vale, Volta Redonda, a Telebrás, por que não doaria a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica? Ninguém sabe em quanto seriam engordadas aquelas contas secretas das ilhas Cayman, com tão rendosas negociatas. Claro os tucanos continuam negando que acabaram o patrimônio estatal brasileiro enquanto aumentara a dívida interna? Para que bolsos foi o dinheiro das privatizações?”

TOMA QUE O FILHO É SEU

Li hoje no blog do jornalista Luis Nassif:

Ontem o Instituto Millenium, do Rio Grande do Sul, lançou a campanha “gasolina sem impostos”. Escolheram meia dúzia de postos no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas. Eles vendem a gasolina sem cobrar a CIDE - que será paga pelo Instituto. A ideia é mostrar como o governo tunga os contribuintes com impostos.

A quantidade de postos era irrisória; os ecos na mídia, desproporcionais.

Fazem parte do Conselho de Governança do Instituto Gustavo Franco e alguns próceres da mídia, como Roberto Civita e João Roberto Marinho. O gestor do fundo patrimonial é Armínio Fraga. O Conselho Editorial é composto por Antonio Carlos Pereira - chefe dos editorialistas do Estadão - e do inacreditável Eurípedes Alcântara, da Veja.

A ironia da história é que a CIDE foi criada por um governo do qual faziam parte Gustavo Franco e Arminio Fraga. Foi reduzida recentemente.

É importante haver centros de pensamento liberais de bom nível - assim como de outras tendências. Mas não se pode enveredar pela fabricação de factóides que, em vez de elevar o debate, acabam denotando oportunismo político.”

O EMPREGO E A CRISE

Li hoje no site “Terra Magazine”, do jornalista Bob Fernandes, a seguinte entrevista de Julio Gomes de Almeida, de São Paulo. O autor é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda:

“A atual crise não é como as outras para a economia brasileira. Embora muito mais grave e tendo dimensão global, seus efeitos sobre a economia do país não repetiu experiências passadas. Por exemplo, graças à acumulação de reservas internacionais, desta vez não foi decretada a falência das contas externas brasileiras e por isso o Brasil se livrou, pelo menos até agora, de recorrer ao FMI.

Para citar outro exemplo do maior relevo, a criticada mudança no perfil da dívida pública, política que promoveu expressiva queda do endividamento em moeda estrangeira, permitiu que o setor público não sofresse as consequências da desvalorização do real sobre as contas fiscais.

Com isso, desde o início da crise, a dívida líquida do setor público caiu ao invés de aumentar intensamente como nas crises de 1999 e 2002. Também não é segredo que a inflação desta feita não prosperou, freada pela contração do nível de atividade da economia, o que abre caminho para o que poderá ser uma histórica redução das taxas de juros no país. Mas, há também a "surpresa" do emprego.

Como regrediu intensamente a produção da indústria e segmentos relevantes da agropecuária e de serviços foram adversamente afetados pela crise nos últimos três meses do ano passado e no primeiro trimestre desse ano, o emprego não poderia deixar de ser atingido. O IBGE registrou aumento da taxa de desemprego urbana entre os meses de dezembro do ano passado e março desse ano. Sem ajuste sazonal, a taxa de desocupação passou de 6,8% para 9% entre esses meses.

Por outro lado, os registros de contratações formais do Ministério do Trabalho acusaram grande retração líquida, sobretudo, entre os meses de dezembro e janeiro, período no qual foram perdidos 655 mil postos de trabalho. Apesar disso, pode ser afirmado que o emprego caiu muito menos do que a atividade dos setores produtivos e que sua retração ficou muito abaixo das expectativas dos economistas.

Os últimos dados do mercado de trabalho urbano e das contratações formais, ao contrário do que propalam algumas interpretações e pronunciamentos oficiais, ainda não autorizam falar de recuperação do emprego, mas sinalizam que sem sombra de dúvida a "onda" de demissões desencadeada pela crise teve seu ímpeto contido, ou mesmo esse processo foi estancado, de forma que, passou a vigorar no mercado de trabalho um equilíbrio entre admissões e demissões. Isso significa dizer que em termos líquidos o emprego é mantido e em não havendo uma nova rodada de agravamento da crise internacional, o quadro é de uma lenta recuperação a partir de agora.

O que foi dito acima pode ser resumido da seguinte forma. Primeiro: a situação do emprego na economia está bem melhor atualmente do que há alguns meses, não porque as empresas voltaram a contratar, mas, sim, porque pararam de demitir. O processo de agravamento do desemprego, por essa razão, foi estancado. Em segundo lugar, a recuperação dos níveis de emprego anteriores à crise será na melhor hipótese um processo relativamente longo, perdurando talvez por mais um ano. Ou seja, contando com alguma reativação na economia no segundo semestre, somente no início do ano que vem teremos de volta os empregos destruídos pela crise.

Por que o emprego não caiu na mesma dimensão da queda da atividade da economia real? Em parte a resposta a esta pergunta está em certas características da legislação do trabalho do país que encarecem tanto as contratações como a demissões. No Brasil é caro contratar, razão pela qual quando há um aumento da produção as empresas normalmente levam um certo tempo para ampliar seus efetivos. Também é caro demitir, o que explica o fato de que, mesmo diante de uma queda expressiva de produção como a que ocorreu na indústria brasileira após a crise, em muitos casos as empresas retardam as demissões para avaliar o quadro econômico.

Como o governo adotou medidas fiscais para incentivar o consumo, preservou os programas de complementação de renda da população e promoveu um aumento significativo do salário mínimo em fevereiro último, os efeitos da crise puderam ser amenizados e o processo de demissões, embora tenha ocorrido, se deu com intensidade menor. Isso, por sua vez, ajudou a defender o mercado interno consumidor e permitiu que o comércio operasse com relativa normalidade. Nada disso foi previamente concebido como estratégia de política econômica, mas funcionou como uma política de defesa do emprego.”

PARA MANGABEIRA UNGER, CHAMAR FAMÍLIAS QUE VIVEM NA AMAZÔNIA DE GRILEIROS É "ABSURDO"

Li ontem no portal UOL a seguinte reportagem de Claudia Andrade:

MINC DEFENDE REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NA AMAZÔNIA, MAS PEDE MELHORIAS NA LEI

"Se cada terra tem cinco donos, como é que você vai saber quem é que você vai multar e quem você vai apoiar? A regularização fundiária é essencial para o combate ao desmatamento. Sem regularização fundiária não há política ambiental na Amazônia. Mas tem que ser feita com critério", disse o ministro hoje, durante audiência pública

O ministro Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) afirmou nesta terça-feira (26) que "há muitas distorções a respeito da regularização fundiária" na Amazônia. O ministro comentou a medida provisória, já aprovada na Câmara dos Deputados e que será analisada pelo Senado Federal, que transfere terras da União, sem licitação, a quem detinha a posse antes de dezembro de 2004. O terreno a ser transferido deve ter até 1,5 mil hectares.

A medida encontra resistência de ambientalistas, mas, para Unger, é "errado" dizer que ela favorece o desmatamento. "A falta de regularização é que cria o ambiente propício à devastação. Ninguém sabe quem tem o quê e, nesse ambiente, a pilhagem se torna mais interessante que a preservação".

Para o ministro, é "um equívoco dizer que a medida legitima a grilagem". "É o oposto. A grilagem é feita por máfias que se beneficiam da falta de regularização. É um absurdo chamar de grileiros as 500 mil famílias da área urbana e 400 mil famílias da área rural que serão beneficiadas. Eles construíram a Amazônia. É um erro também dizer que a regularização beneficia os graúdos, porque as regras são para os pequenos e médios posseiros".”

CONTAS EXTERNAS DO BRASIL FICAM NO AZUL PELA 1º VEZ EM 18 MESES

Li ontem no UOL a seguinte reportagem de Eduardo Cucolo, da Folha Online, em Brasília:

“As transações correntes do Brasil com o exterior registraram em abril um superávit de US$ 146 milhões, segundo dados do Banco Central. Trata-se do primeiro resultado positivo após 18 meses de déficits.

Entram nessa conta o resultado da balança comercial (+US$ 3,712 bilhão em abril), os gastos do país com serviços e rendas (-US$ 3,832 bilhões) e as transferências unilaterais (+US$ 265 milhões).

No mesmo período do ano passado, houve um déficit de US$ 3 bilhões. Nessa comparação, houve um aumento do saldo positivo no comércio exterior e uma queda nas remessas de lucros para o exterior.

No acumulado do ano, o déficit acumulado é de US$ 4,874 bilhões, abaixo dos US$ 13,3 bilhões registrados no mesmo período de 2008.

Nos quatro primeiros meses do ano, houve melhora no saldo da balança comercial (de US$ 4,498 bilhões em 2008 para US$ 6,722 bilhões neste ano), acompanhada de uma queda nos gastos com serviços e remessas de rendas (de US$ 19,1 bilhões em 2008 para US$ 12,7 bilhões).

"As remessas de lucros foram a metade da registrada em abril do ano passado e o superávit comercial foi muito positivo", disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Para maio, o BC projeta um déficit de US$ 2,3 bilhões, devido à queda projetada para o saldo da balança e um aumento nas remessas de lucros e dividendos, que passou de US$ 1,716 bilhão em abril para US$ 2,387 bilhões na parcial de maio.

INVESTIMENTOS

Os investimentos estrangeiros no setor produtivo brasileiro reduziram o seu percentual de queda no acumulado do ano. Até março, a queda era de 40%. No acumulado até abril, o recuou foi de 30%.

De acordo com o relatório de contas externas divulgado pelo Banco Central, entraram no país US$ 8,751 bilhões nos quatro primeiros meses desse ano, ante US$ 12,671 bilhões no mesmo período do ano passado.

No mês, o resultado ficou positivo em US$ 3,409 bilhões, melhor resultado desde dezembro do ano passado, mas ainda abaixo dos US$ 3,872 bilhões registrados em abril de 2008.

AÇÕES

Já os investimentos estrangeiros em ações e títulos públicos ficaram positivos pela segunda vez no ano. Considerando apenas as ações negociadas no país, entraram US$ 630 milhões em abril. Com esse resultado, o saldo acumulado em 2009 ficou positivo em US$ 624 milhões.

Nos títulos de renda fixa negociados no país, entraram US$ 66 milhões em abril. No ano, o resultado ainda está negativo em US$ 1,589 bilhão.

DÍVIDA

A dívida externa total atingiu US$ 193,1 bilhões em abril, segundo estimativa do BC, um aumento de US$ 511 milhões em relação a março.”

ENTRADA DE DÓLARES NO BRASIL TEM O MELHOR RESULTADO EM 12 MESES

Li ontem no UOL a seguinte reportagem de Eduardo Cucolo, da Folha Online, em Brasília:

“O fluxo cambial, que mede a entrada e saída de dólares no país, ficou positivo em US$ 3,086 bilhões nos 22 primeiros dias de maio, segundo dados do Banco Central. Nesse período, houve mais dólares entrando do que saindo do Brasil.

Trata-se do melhor resultado desde abril do ano passado, quando entraram no país US$ 6,7 bilhões.

A entrada de dólares no país é um dos principais motivos que vem pressionando a cotação da moeda norte-americana para baixo nas últimas semanas.

O fluxo é dividido em duas partes. Na área comercial, o fluxo está positivo US$ 1,454 bilhão no começo de maio, diferença entre os dólares das exportações e importações.

O BC considera também nessa conta os dólares que entram por meio de operações financeiras, como aplicações, investimentos, gastos e remessas. Nesse caso, o fluxo ficou positivo em US$ 1,632 bilhão --primeiro mês no azul desde março de 2008.

Com o resultado parcial de maio, o fluxo cambial voltou a ficar positivo no acumulado do ano, com um saldo de US$ 1,542 bilhão.”

EMBRAER ENTREGA O 100º SUPER TUCANO

Li ontem no jornal Valor Econômico a seguinte reportagem de Virgínia Silveira, de São José dos Campos:

“A Embraer entrega hoje a centésima aeronave Super Tucano fabricada desde 2003. O avião será utilizado pela Força aérea Brasileira (FAB), atualmente o principal operador do Super Tucano no mundo, com 72 unidades do modelo. O contrato com a FAB, avaliado em R$ 449,7 milhões, contempla a produção de 99 Super Tucano, sendo 66 do modelo biposto (para dois tripulantes) e 33 monoposto (para um ocupante).

Concebido para atender aos requisitos operacionais da FAB, especialmente na região Amazônica, o Super Tucano é considerado uma referência mundial na área de treinamento avançado e ataque leve. A Embraer estima mercado potencial de 700 unidades para o Super Tucano nos próximos 10 anos.

O custo da versão básica é da ordem de US$ 10 milhões. Em 2008, a aeronave foi responsável por mais da metade das exportações da área de defesa da Embraer, que totalizaram US$ 504 milhões. Este ano o modelo foi comprado pela República Dominicana (8) e Equador (24).

"O Super Tucano é o único no mercado que atende às necessidades de treinamento avançado e missões de contrainsurgência, já comprovado em combate, e capaz de operar em várias configurações armadas, tanto durante o dia quanto à noite e com extraordinária confiabilidade operacional", informou a Embraer.

A empresa possui o domínio total sobre o software de missão da aeronave, o que permite que o país tenha autonomia e flexibilidade para fazer as modificações necessárias na aeronave caso seja necessário, atendendo aos requisitos operacionais dos diversos clientes.”

FAB CAÇA AVIÃO COM CONTRABANDO

Li ontem no jornal O Estado de São Paulo o seguinte texto de Chico Siqueira:

PILOTO FUGIU, DEIXANDO MATERIAL DE INFORMÁTICA AVALIADO EM R$ 200 MIL

“O monitoramento do espaço aéreo por aviões da Força aérea Brasileira (FAB) interceptou na tarde de ontem um avião carregado com contrabando, possibilitando a apreensão de aproximadamente R$ 200 mil em mercadorias de informática no aeroporto de Penápolis, interior de São Paulo.

A apreensão se deu após um Super Tucano ser chamado para perseguir o avião, modelo Sertanejo, PT-RAO, por 30 minutos. Depois de ser ameaçado com um tiro de advertência, o Sertanejo pousou no aeroporto de Penápolis, onde a mercadoria e aparelho foram apreendidos. O piloto conseguiu fugir.

A descoberta do avião foi feita pelo monitoramento do espaço aéreo. A interceptação ficou a cargo de um avião modelo R- 99 A (assim como o Super Tucano também fabricado pela Embraer) que tem um grande radar no teto e é usado nos serviços de controle do espaço aéreo. O Sertanejo chamou atenção porque sobrevoava a baixa altitude, para fugir dos radares e das orientações de voo. Depois de se recusar a fornecer sua identificação, o Sertanejo foi perseguido pelo Super Tucano. Sem responder aos contatos por rádio, o piloto do aparelho baixou as cortinas laterais para não ser identificado.

A partir daí, o Tucano recebeu instruções do comando para fazer o "voo sombra" (acompanhar o aparelho sem ser identificado). Trinta minutos depois, pensando em estar livre da perseguição, o Sertanejo pousaria no aeroporto de Penápolis.

O Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra) comunicou a Polícia Federal, que por sua vez avisou a PM de Penápolis para fazer a apreensão. No entanto, nenhuma das duas polícias conseguiu prender o piloto, que fugiu assim que pousou - próximo de uma oficina mecânica instalada no aeroporto.

A Polícia Federal apreendeu o aparelho e o contrabando (a maioria notebooks e outros aparelhos de informática), avaliado pela PF em R$ 200 mil. O piloto do Sertanejo já foi identificado, assim como os proprietários da aeronave. Mas o delegado da PF Rodney Loureiro dos Santos revelou os nomes para não atrapalhar as investigações. Foi aberto inquérito para apurar o crime de contrabando.”

A TÁTICA DA DIREITA DE USAR CPI CAPCIOSAMENTE VEM DE LONGE

PRÁTICA DE DENÚNCIAS VAZIAS, SOMENTE PARA TUMULTUAR E OBTER VITÓRIAS POLÍTICAS

Li ontem no Jornal do Brasil a seguinte reportagem de Villas-Bôas Corrêa:

CARLOS LACERDA LANÇA O TRUQUE DAS CPI'S

“Na primeira campanha eleitoral depois da queda da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, com a liberdade de imprensa restabelecida com o fim da censura do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP de tenebrosa memória, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) decidiu lançar candidato próprio à Presidência da República.

Uma aventura, para o teste da popularidade da legenda que fora praticamente dizimada na reação militar da ditadura depois da tentativa de rebelião para a tomada do poder com o fracasso dos levantes de Natal, que durou uma semana, e de Recife, que não passou de horas. Mas, a chamada intentona comunista colheu o maior revés com o frustrado levante da Praia Vermelha abafado em horas pela tropa do Exército.

Getúlio Vargas, com o apoio do ministro do Exército, general Eurico Gaspar Dutra, a caçada aos lideres e militantes comunistas pela Polícia Civil chefiada por Filinto Muller e com o plano do Estado Novo à espera da oportunidade para ser detonado, a vez chegou em 10 de novembro de 1937.

O Estado Novo não resistiu à contradição da vitória dos aliados na Segunda Grande Guerra, com a participação da Força Expedicionária Brasileira.

Com o fim do Estado Novo, em 29 de outubro de 1945, a campanha eleitoral ganhou as praças e as ruas, nos grandes comícios que atraíam multidões fantásticas, especialmente os da União Democrática Nacional – a UDN dos grandes oradores – e o PSD de sólidas bases estaduais.

Depois de tanto rodeio, chego ao meu ponto de partida. O Partido Comunista Brasileiro renasceu com a redemocratização. E, com a chefia de Luiz Carlos Prestes, decidiu lançar candidato próprio para fortalecer a legenda. Prestes examinou listas de nomes.

E por caiporismo fixou-se no engenheiro Iedo Fiúza, ex-prefeito de Petrópolis, amigo e alcoviteiro do ex-ditador Vargas, que em 1951 voltaria à Presidência em consagradora vitória. Nas suas memórias, publicadas pela Fundação Getúlio Vargas, o ilustre autor conta que o então prefeito de Petrópolis era o incumbido de providenciar os chalés discretos para as suas tardes com a amada, Aimée de Harém.

O prefeito Iedo Fiúza não tinha credenciais para enfrentar a dura parada com a imprensa liberada da censura. Em cima do lançamento, o jornalista Carlos Lacerda iniciou, pelo Diário Carioca, violenta campanha contra o candidato comunista, condecorado pela alcunha de Rato Fiúza e acusado de embolsar a propina de 10% sobre todas as obras e compras da prefeitura.

A manchete de primeira página teve instantâneo sucesso. O infamante apelido pegou como catapora. Primoroso escritor, crítico literário e cronista, Prudente de Moraes Neto, o Pedro Dantas, encontrou com Carlos Lacerda na redação e depois dos cumprimentos e rapapés do estilo perguntou sobre as provas, os documentos que ancoravam as denúncias sobre a roubalheira do prefeito de Petrópolis e candidato do PCB à Presidência.

A resposta em cima da bucha foi como um soco no estômago:

– Provas? Não tenho nenhuma. Elas vão começar a chegar agora.

E não deu outra. Sem maiores cuidados na seleção, Carlos Lacerda sustentou a campanha até as urnas e a derrota do candidato do partidão, com um inesgotável repertório de denúncias. E que não deram em nada, quer dizer, ajudaram a aprofundar a derrota do candidato de Prestes.

Carlos Lacerda estava lançando a fórmula aplicada até hoje para sufocar uma CPI: primeiro as denúncias. As provas chegam depois.”

PETISTAS OCUPAM SOMENTE 20% DOS CARGOS DE CONFIANÇA DO GOVERNO DO PT

NÃO-PETISTAS OCUPAM 80% DOS CARGOS DE CONFIANÇA

DESMENTIDA ACUSAÇÃO DE “APARELHAMENTO DO ESTADO” NO GOVERNO LULA


Li hoje no jornal Folha de São Paulo a notícia acima intitulada por este blog, apesar de ela estar “retrabalhada” pelo jornal, que está engajado na campanha pró-Serra, para o retorno da direita (PSDB/DEM/PPS) ao poder em 2010:

PETISTAS TÊM 1/5 DOS CARGOS DE CONFIANÇA

Pesquisas mostram que sindicalistas foram nomeados para 43% dos postos desse tipo no governo federal

Cerca de 26% dos profissionais que ocupam cargos de confiança no governo Lula ou já foram ou são filiados a um partido político. Desse total, a grande maioria é de filiados ao PT, aproximadamente 80%.

Os dados fazem parte de duas pesquisas recentes feitas pelo CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV, coordenadas pelas cientistas políticas Maria Celina D'Araújo e Camila Lameirão.

Em 2007, a Folha revelou que 45% da cúpula do governo era sindicalizada. Os novos indicadores mostraram poucas variações no decorrer do dois mandatos de Lula. Os sindicalizados variaram para 42,8% (mais alto do que a da média nacional de 17,7%, segundo os dados da Pnad de 2007).

Ainda na comparação entre os dois mandatos de Lula, a participação em movimentos sociais foi de 46% para 46,3% e, em organizações locais, de 23,8% para 26,8%.

"Vale destacar o incremento no pertencimento a centrais sindicais, indicando a corroboração da tese de que esta é uma instância que efetivamente está sendo fortalecida pelo governo", escreve Lameirão. O percentual de pessoas ligadas a centrais sindicais passou de 10,6% para 12,3%.

A estrutura administrativa do poder Executivo federal conta com mais de 77 mil cargos ou funções de confiança, nomeados pelo presidente, por ministros ou por autoridades competentes. Cerca de 26% desse total, mais de 20 mil pessoas, são cargos DAS (Direção e Assessoramento Superior), alvos da pesquisa.

Quanto mais alto é o cargo de confiança, mais filiados há. Os cargos de confiança analisados foram os chamados DAS-5, DAS-6 e Natureza Especial. Nos DAS-5, são 59,3% de filiados e 30,6% nos DAS-6.

A pesquisa aponta que no segundo governo Lula aumentou a participação de pessoas com experiência em cargos de direção no Executivo.

A pesquisadora Maria Celina D'Araújo também analisou os partidos que mais ocuparam cargos de ministros desde a redemocratização. Foram o PMDB (66) e o PT (52).

A professora chama a atenção para o fato de que o primeiro governo Lula foi o único em que o partido do presidente ocupou mais de 60% das pastas ministeriais (33 em 54).

Considerando todo o período desde a redemocratização, 11,5% dos ministros tinham algum vínculo com sindicatos. No atual governo Lula, o número sobe para 27%. "Mesmo prestigiando menos os empresários em postos de mando, os governos Lula não se colocaram em confronto com os empresários. Pelo contrário. De toda a forma, aponta um compromisso político inédito com os setores organizados dos trabalhadores", diz Araújo.”

BRASIL É O FUTURO DO PETRÓLEO LATINO-AMERICANO, DIZ 'FINANCIAL TIMES'

A agência britânica de notícias BBC ontem publicou (li no UOL):

“O Brasil representa o futuro do petróleo latino-americano, em contraste com os problemas enfrentados pelos dois maiores e mais tradicionais produtores da região, Venezuela e México, segundo afirma reportagem publicada nesta terça-feira pelo diário britânico "Financial Times".

"Nos últimos dois anos, a Petrobras, a sofisticada empresa brasileira estatal de capital aberto, descobriu reservas tão promissoras em águas profundas na costa sudeste que os executivos estão comparando esta nova fronteira com o Mar do Norte, que salvou o mundo da crise energética criada pelo Oriente Médio nos anos 1970", diz o jornal.

A reportagem afirma que até agora o Brasil tem gerido bem sua indústria, permitindo que a Petrobras se transforme em "uma das mais avançadas companhias internacionais de petróleo".

O jornal adverte, porém, que a empresa ainda tem grandes desafios técnicos e financeiros para explorar as novas reservas de petróleo e comenta que os políticos do país ainda discutem uma nova legislação para regular o desenvolvimento dessas novas reservas.

"Enquanto as discussões em Brasília prosseguem, as histórias da Venezuela e do México deveriam servir como advertência", afirma a reportagem.

GALINHA DOS OVOS DOURADOS

O texto comenta os efeitos negativos da má gestão das empresas públicas de petróleo nos dois países, comparando-as à fábula da galinha dos ovos dourados.

"A indústria venezuelana de petróleo pode não estar morta, como foi o destino da galinha na fábula, mas a última onda de nacionalizações no setor pode se mostrar um golpe quase fatal, advertem executivos do setor", diz o texto.

O jornal afirma que, em seus dez anos no poder, o presidente Hugo Chávez "dizimou a PDVSA, a estatal venezuelana do petróleo, que nos anos 1990 aparecia como uma das mais bem gerenciadas do mundo".

A produção venezuelana caiu de 3,4 milhões de barris em 1999, antes de Chávez chegar ao poder, a 2 milhões atualmente.

COFRINHO

Segundo o jornal, a Venezuela não está sozinha na "má gestão de seu mais precioso recurso". "Por mais de 50 anos, o México rivalizou com a Venezuela como o mais importante produtor de petróleo da América Latina. Mas o país também usou demais sua empresa estatal de petróleo como cofrinho para tirar dinheiro", diz o texto.

A reportagem comenta que decisões políticas deixaram a estatal Pemex endividada e com dificuldades para investir na produção e no desenvolvimento das reservas de petróleo do país.

Além disso, as leis mexicanas dificultam a participação de empresas estrangeiras, que poderiam ocupar o espaço deixado pela Pemex em relação aos investimentos.

"Apesar de recentes reformas políticas, o México agora enfrenta a assombrosa perspectiva de se tornar importador líquido de petróleo em uma década", afirma o jornal.”

terça-feira, 26 de maio de 2009

FGV: OTIMISMO DO CONSUMIDOR AUMENTOU EM MAIO

Li hoje no blog “Por um novo Brasil” a seguinte reportagem da Agência Estado:

“O consumidor brasileiro está mais otimista em maio quanto ao futuro da economia nos próximos meses, em comparação a abril. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) deste mês subiu 1,3% na série com ajuste sazonal, após avançar 2,9% em abril, dado revisado.

O desempenho do indicador, que é calculado com base em uma escala de pontuação entre zero e 200 pontos (sendo que, quanto mais próximo de 200, maior o nível de confiança do consumidor) passou a ser de 99,2 pontos em abril (era de 98,5 antes da revisão) e pulou para 100,5 pontos em maio. Embora a taxa de crescimento do ICC tenha diminuído de ritmo entre o mês passado e o atual, a fundação destacou que a parcela de consumidores entrevistados que preveem melhora na situação da economia local nos próximos meses subiu de 26,3% para 28%, na passagem de abril para maio. No mesmo período, a parcela dos que projetam piora diminuiu de 23,5% para 20,6%.

Em comunicado, a FGV informou que "apesar de ainda se encontrar em nível distante do registrado em setembro do ano passado (de 110,2 pontos), este é o terceiro mês consecutivo de avanço do índice, indicando continuidade da tendência à recuperação gradual da confiança do consumidor brasileiro".

A FGV informou ainda que, entre as respostas sobre o cenário atual, houve melhora da avaliação presente em relação à situação econômica local. De abril para maio, a parcela de consumidores pesquisados que avaliam a situação atual como boa subiu de 7,3% para 7,8%; já a fatia dos que a julgam ruim caiu de 52,1% para 49,2%, no mesmo período.

O ICC é dividido em dois subíndices: o Índice de Situação Atual (ISA), que apresentou alta de 1,1% em maio, após registrar queda de 0,6% em abril; e o Índice de Expectativas (IE), que apurou aumento de 1,6% em maio, após apresentar alta de 5,2% em abril. Os dados de abril desses dois subíndices também foram atualizados pela FGV, e apresentavam, respectivamente, taxa negativa de 1% e aumento de 5% no mês passado.

Ainda segundo a fundação, o ICC caiu 10,9% em maio, na comparação com igual mês do ano passado. Em abril, o ICC apresentou queda de 13,2% nesse mesmo tipo de comparação.O índice é composto por cinco quesitos da "Sondagem das Expectativas do Consumidor", apurada desde outubro de 2002 (com periodicidade trimestral, até julho de 2004, quando passou a ser mensal).

O levantamento abrange amostra de mais de 2 mil domicílios, em sete capitais, com entrevistas entre os dias 30 de abril e 20 de maio.”

O ANTIGO SILÊNCIO DOS INFLUENCIÁVEIS

Li hoje no site “Agência Carta Maior” o seguinte artigo de Gilson Caroni Filho. O autor é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa:

“Qual a lógica que explica o silêncio de "formadores de opinião" sobre determinados temas e um entusiasmo frenético sobre outros? Uma denúncia feita pela revista Carta Capital, em 2004, e o silêncio com que foi recebida pela maioria dos meios de comunicação, pode ajudar a responder essa pergunta.

Nada como folhear revistas e jornais antigos para constatarmos a eterna briga do jornalismo de mercado com fatos que incomodam seus interesses e os dos eternos aliados no campo político. No momento em que a tucanos e demos voltam à ofensiva, através de uma CPI que vai bem além da dimensão eleitoreira, adentrando o terreno do entreguismo puro e simples, convém recordar como eram tratadas questões estratégicas nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Ainda mais quando sabemos que o verdadeiro alvo é o marco regulatório do pré-sal, em um eventual retorno do consórcio neoliberal ao poder.

Voltemos no tempo, mais precisamente a março de 2004. Como reagiria a opinião pública de uma nação soberana se tomasse conhecimento, por meio de conceituada publicação jornalística, que sua Polícia Federal foi comprada por serviços de inteligência de um país estrangeiro? Que as instituições republicanas são inteiramente controladas por redes de espionagem, e setores expressivos da imprensa local cooptados para produzir uma imagem favorável aos interesses da potência controladora?

Seria impossível conter o terremoto político advindo de tais revelações, salvo se um isolamento acústico fosse imediatamente construído por aqueles que elaboram a agenda da opinião pública. E é nesse ponto, no silêncio consensual do complexo midiático, que reside a atualidade deste pequeno artigo.

Reportagem de capa da edição de Carta Capital, com data de 19/3/2004 ,trouxe à tona um personagem que poderia ter saído das páginas de qualquer romance de John Le Carré. Versão tão patética quanto real do "espião que sabia demais", o português naturalizado americano Carlos Costa chefiou o FBI no Brasil de 1999 a outubro de 2003. Na época, em entrevista ao jornalista Bob Fernandes, ele foi categórico:

"OS ESTADOS UNIDOS COMPRARAM A POLÍCIA FEDERAL. HÁ UM ANTIGO DITADO, E ELE É REAL: QUEM PAGA DÁ AS ORDENS, MESMO QUE INDIRETAMENTE".

Não descartando a possibilidade de alguma agência americana ter grampeado o Palácio da Alvorada e o Itamaraty, Costa disse que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ao pedir equipamentos e recursos ao mundo todo, "se prostitui".

Não menos contundente foi sua afirmação segundo a qual uma das mais importantes funções da embaixada americana no país era manipular a imprensa brasileira. Usando, eufemisticamente o verbo influenciar, o ex-agente não poderia ter sido mais claro:

"DETECTAMOS JORNALISTAS QUE SEJAM PRÓ-AMÉRICA E OS CONVIDAMOS A IR AOS ESTADOS UNIDOS COM TODAS AS DESPESAS PAGAS. ESSA NÃO ERA MINHA ÁREA, MAS COMEÇA ASSIM. INFLUENCIAR É MUDAR O PENSAMENTO CONTRÁRIO AOS NOSSOS INTERESSES".

E qual seria o modus operandi? Mais uma vez, Carlos Costa foi direto: "SEJA LÁ O QUE FOR NECESSÁRIO. SE É COMPRAR, É COMPRAR, HÁ VÁRIAS MANEIRAS. MAS DEIXA ISSO PRA LÁ".

Eis o cenário da realidade brasileira no reinado de Fernando Henrique Cardoso. Agindo com total desenvoltura, uma profusão de siglas tais como a US Customs, DEA, NAS, CIA e FBI faziam de nossa legislação letra morta e tornavam o conceito de soberania nacional, numa perspectiva otimista, uma hipótese a ser permanentemente verificada. Tínhamos, enfim, polícias compradas e submetidas a comandos externos, uma Abin supostamente controlada e formadores de opinião "influenciados". O quadro se tornava mais dramático quando o monitoramento de setores estratégicos do governo era apresentado como rotina.

O que chamou a atenção, há cinco anos, foi a ausência de repercussão da matéria de Carta Capital no Congresso e, acima de tudo, em outros veículos jornalísticos. Por conta de episódios de gravidade bem menor, o conservadorismo põe-se a falar em crise de governo, perda de capacidade administrativa e riscos à coesão social. Clama-se pela instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito e o alarido udenista se reflete nos editoriais das empresas que abrigam aqueles a quem Costa chama de "os influenciáveis".

A título de exemplo, por que a denúncia da revista dirigida por Mino Carta não provocou, à época, a mesma comoção que o destempero do então ministro José Dirceu em entrevista ao jornalista Merval Pereira, de O Globo?

Desde sua publicação, o espaço concedido à reportagem de Bob Fernandes foi praticamente inexistente. Uma ou outra nota, até o abafamento total. Qual terá sido o motivo do silêncio reinante nas redações dos principais jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo quando o assunto é a ingerência imperialista na política brasileira?

Há nove anos, Carta Capital sistematicamente denuncia o aparelhamento do Estado por agências americanas. Para ser mais preciso, vem historiando um processo que se inicia em 12/4/1995, quando é assinado o Acordo para Combate ao Narcotráfico, e se estende aos dias de hoje, com a DEA efetuando pagamentos a policiais brasileiros.

Na edição de 3/3/1999, a revista já apresentava a CIA controlando o antigo Centro de Dados Operacionais (CDO). À época, Fernando Henrique Cardoso teve grampeada uma conversa com o então chefe do Cerimonial da Presidência da República, embaixador Júlio César Gomes dos Santos.

A que devemos o silêncio dos "influenciáveis?" Traria a matéria denúncias graves sem a verificação adequada? Ausência de fundamentação empírica que indicasse sensacionalismo ingênuo ou petição conspiracionista? Não, CartaCapital tem feito um belo trabalho investigativo. Na edição de 2004, à riqueza de detalhes somam-se fotos que documentam a desenvoltura de Carlos Costa nos salões do poder.

Seria conseqüência da lógica concorrencial das empresas jornalísticas, ignorar os fatos noticiados por veículos rivais? Ante a magnitude do assunto, era pouco plausível uma argumentação de cunho puramente mercantil. O mais sensato seria aprofundar a matéria, focalizando atores políticos relevantes, diretamente envolvidos na questão, tais como militares e estrategistas.

Estaríamos, então, nos deparando com um fenômeno hierárquico presente no interior do campo jornalístico? A existência de um veículo, e apenas um, que pautaria os demais? A história recente da imprensa brasileira impossibilita tal conjectura. Diferentes publicações puxaram o fio da meada de assuntos relevantes e foram seguidas pelas demais. Basta lembrar que o impeachment de Collor começou nas páginas da revista Veja e os principais escândalos do governo FHC foram inicialmente noticiados pela Folha de S.Paulo.

Talvez o desdobramento mais importante da matéria de capa da revista dirigida por Mino Carta tenha sido a ausência de desdobramentos. O silêncio gritante do resto da mídia realçou ainda mais as palavras do agente Carlos Costa, quando define a ação dos serviços secretos sobre os seus diletos profissionais de redação: "Influenciar é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses".

Talvez isso nos ajude a entender o arrazoado de certos colunistas em defesa da CPI da Petrobrás, talvez compreendamos com mais facilidade os princípios que norteiam articulistas zelosos na defesa da política externa que privilegiava os objetivos de grandes conglomerados. Quem sabe, nesse prosaico episódio, redescoberto no folhear de um exemplar antigo da melhor publicação brasileira, esteja desnudada a política editorial de várias publicações.

Alguém pode retrucar que a argumentação desenvolvida no parágrafo acima é simplificadora. Certamente. Mas, enquanto os "influenciáveis" não romperem seu pacto de silêncio, qualquer teoria conspiratória terá relevância analítica. Ou repetindo a sabedoria do senso comum: "Quem cala, consente". Just do it.

É bom relembrar quando uma nova batalha se avizinha.”

BACHELET: A INTEGRAÇÃO É FUNDAMENTAL

Li hoje no site “Vermelho” a seguinte entrevista (vê-la completa, em espanhol, no endereço: http://www.parceria.nl/atualidade/americalatina/20090525-al-bachelet)

“Em tempos de crise econômica, governos geralmente perdem popularidade entre seus eleitores. Mas este não é o caso da presidente chilena Michele Bachelet, que, em abril, atingiu um índice de popularidade recorde de 67%. Segundo analistas da Adimark, empresa que realizou a pesquisa, o alto índice deve-se ao modo como ela conduziu o país frente à crise econômica mundial. Em entrevista à rádio Nederland, ela comentou ações de sua gestão, defendeu a integração no continente e o fim das restrições a Cuba.

"Assegurei que meu governo desse ênfase aos aspectos sociais, porque acredito que um país em crescimento deve ser capaz de garantir prosperidade para toda a população.

Nós queremos transformar o Chile em um Estado moderno de bem-estar social, com serviços básicos para todos os cidadãos. Nós queremos acabar com a desigualdade entre crianças de pais ricos e pais pobres, que não receberam quase nenhuma educação."

Foi no Palácio de la Moneda, sede do governo chileno, que o ex-presidente Salvador Allende cometeu suicídio em 1973. O prédio estava cercado por tropas do ex-ditador Augusto Pinochet. Na época do golpe militar, o pai de Bachelet era um general de brigada da Forças Aéreas chilenas e aliado de Allende. Por causa do envolvimento político de sua família, Michele Bachelet foi presa e torturada na prisão de Villa Grimaldi durante a ditadura.

Apesar do passado violento e dos anos vividos em exílio, ela não guarda ressentimentos. Um exemplo para o Chile, país historicamente dividido entre grupos políticos de esquerda e direita, e que agora tem encontrado união nas reformas de Bachelet.

"Eu acredito que a distribuição de poder econômico é muito importante. Nós demos um incentivo enorme para micro, pequenas e médias empresas, porque é assim que você pode distribuir renda e gerar emprego. As grandes empresas, as automatizadas, geram muitos menos vagas. O desafio é dar suporte ao espírito empreendedor e de inovação, mas ao mesmo tempo garantir um nível de distribuição de renda mais igualitário."

EUA E CUBA

"O sentimento e o clima, depois da Cúpula das Américas, é de esperança. Vimos a disposição de escurtar e não impor. Foi um primeiro passo importante. Vamos ver os desdobramentos, inclusive na próxima reunião da OEA. Precisa haver um plano de ação concreto. (...) Não podemos imaginar uma reunião da cúpula sem Cuba. Cuba não deveria ter sido expulsa da OEA. Não se justifica. Vários páises da América Latina passaram por ditaduras terríveis e nenhum deles foi expulso. Considero pasos importantes a liberação de remessas e viagens a Cuba"

INTEGRAÇÃO

"Entendemos que a Unasul tem futuro, se formos capazes de entender que a unidade tem que respeitar a diversidade. Temos que mirar no que nos une. Nós precisamos ter paciência. A União Européia precisou de cinquenta anos desde o tratado de Maastricht, a até hoje há problemas com países que tomam decisões por si mesmos. Alguns adotam a moeda, outros adotam certos acordos. Não podemos esperar que a unidade possa existir sob uma homogeneidade total. Mas em tempos de crise econômica, nós vemos que as medidas isoladas de governos não funcionam. Precisamos de soluções globais. A integração é fundamental."

ENERGIA

"O problema da energia na América Latina só pode ser resolvido se juntarmos forças. Se nós considerarmos todas as reservas, há energia suficiente para o continente inteiro, mas assim como os salários, recursos energéticos são distribuídos desigualmente. É uma tarefa difícil. Às vezes as coisas avançam devagar, outras vezes mais rápido. Mas o importante é que todos temos o mesmo objetivo, o da unidade na diversidade. Ou seja, eu sou otimista."

ALDO DEFENDE MAIOR PRESENÇA DO ESTADO BRASILEIRO ENTRE OS ÍNDIOS

Li hoje no site “Vermelho” a seguinte entrevista de Roldão Arruda com o deputado Aldo Rebelo (PCdoB) realizada pelo jornal O Estado de S. Paulo:

“Os índios brasileiros não são ouvidos pelas autoridades e muitas demarcações ocorrem a partir de laudos antropológicos nem sempre confiáveis e sob pressão de ONGs que insistem em tutelar os índios e apontar o Estado como ameaça à sua cultura. No conjunto, isso estimula propostas secessionistas e põe em risco a integridade territorial do Brasil.

Em linhas gerais, esse foi o raciocínio que levou o deputado Aldo Rebelo (PCdoB) a apresentar na Câmara um projeto de lei que submete ao Congresso os processos de demarcação de terras indígenas. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Aldo reafirmou de que lado está quando assume posições consideradas polêmicas: "Minha posição sempre foi em defesa da democracia, do socialismo e do Brasil", afirma o deputado.

O deputado Aldo Rebelo (PCdoB) recebeu o repórter Roldão Arruda em seu escritório político, em São Paulo. Um escritório modestíssimo, para dizer o mínimo, num edifício também modestíssimo, na Rua Augusta. A conversa durou pouco mais de uma hora. Mas poderia ter ido muito além: Aldo adora falar sobre a questão indígena, a história do Brasil, os grandes temas nacionais.

O foco foi o projeto que ele apresentou recentemente na Câmara dos Deputados, em parceira com Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), propondo alterações na forma como são feitas as demarcações de terras indígenas.

De acordo com o PL 4791/2009, toda vez que o Executivo quiser demarcar alguma terra indígena, terá que submeter o projeto ao Congresso.

É uma proposta que provoca arrepios em ONGs de apoio aos índios. Para elas, se a proposta de Aldo e Ibsen for aprovada, qualquer projeto de demarcação estará fadado ao fracasso, pois a bancada ruralista, uma das mais poderosas do Congresso, tratará de barrá-lo.

Um dos lados mais curiosos dessa história é que o projeto aproxima o deputado de um partido comunista, de grupos conservadores, que contestam as demarcações, mas por motivos diferentes dos que o deputado comunista defende. Na entrevista abaixo, transcrita parcialmente na edição desta segunda-feira no Estado, o deputado explica suas razões.

Começa dizendo que os índios brasileiros nunca são ouvidos pelas autoridades nos processos de demarcação; que eles são baseados em laudos antropológicos nem sempre confiáveis e sob pressão de organizações não-governamentais que insistem em tutelar os índios e apontar o Estado como ameaça à sua cultura. No conjunto isso estimularia propostas secessionistas e põe em risco a integridade territorial do Brasil.

Aldo é alagoano e tem 53 anos. Começou sua carreira política no movimento estudantil e chegou a presidir a União Nacional dos Estudantes, na época de sua reconstruç ão, nos anos 80. Já foi eleito cinco vezes consecutivas para o cargo de deputado federal e é considerado um dos parlamentares mais influentes do Congresso. Também já ocupou as cadeiras de presidente da Câmara e de ministro da Articulação Política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O QUE O LEVOU A APRESENTAR ESSE PROJETO, QUE TRANSFERE AS DEMARCAÇÕES DO EXECUTIVO PARA O LEGISLATIVO?

O projeto não subtrai do Executivo a prerrogativa de demarcação das terras indígenas.

Apenas obriga o Executivo a enviar a proposta de demarcação ao Congresso, que analisa, promove as discussões, as negociações necessárias com as partes envolvidas no processo demarcatório. E depois disso a proposta é devolvida ao Executivo, na forma original ou modificada. É uma instância de negociação voltada para todas as partes envolvidas e interessadas, incluindo os índios, que não são ouvidos no processo demarcatório - uma decisão unilateral da Funai (Fundação Nacional do Índio), que colhe o laudo - nem sempre rigoroso - de antropólogos e submete ao Ministério da Justiça, que prepara o decreto de demarcação e encaminha ao presidente da República, que homologa. O projeto democratiza o processo de demarcação.

O SENHOR ESTÁ MESMO DIZENDO QUE O GOVERNO NÃO OUVE OS ÍNDIOS?

Não ouve. O caso da Raposa Serra do Sol é patente. Ali, um grupo grande de indígenas contestou a demarcação proposta pela Funai. No entanto não foi levado em conta.

A MAIORIA DOS ÍNDIOS ERA FAVORÁVEL À DEMARCAÇÃO EM ÁREA CONTÍNUA.

Não creio. Pelo que apurei, em visitas àquela região, não havia maioria favorável. A relação entre os grupos de índios que vivem ali não é das mais amistosas e eles preferiam que a demarcação fosse em ilhas, onde cada tribo teria sua área demarcada, sem precisar conviver co m outras. Isso não seria apenas por conta de rivalidades. Isso também levava em conta as diferenças no estágio de evolução de cada grupo. Em Roraima existem indígenas que estão num estágio ainda próximo da coleta, da caça, e outros que são formados por pequenos fazendeiros, comerciantes. É o caso dos macuxis.

ESSA AUSÊNCIA DE CONSULTA AOS ÍNDIOS FOI ESPECÍFICA DO PROCESSO DE RORAIMA? OU OCORRE TAMBÉM EM OUTRAS PROCESSOS?

Em todos os processos. No caso da Raposa Serra do Sol, o ministro que assinou o decreto de demarcação das terras, no governo de Fernando Henrique, sequer foi a Roraima. Não esteve lá nem uma vez. Ele assinou um decreto, impôs uma decisão a uma comunidade formada por índios e não-índios e, no fim das contas, ninguém foi ouvido.

O SENHOR FALOU QUE OS LAUDOS ANTROPOLÓGICOS QUE NORTEIAM AS DEMARCAÇÕES NEM SEMPRE SÃO RIGOROSOS.

Ainda usando o exemplo da Raposa Serra do Sol, o laudo que deu origem àquela terra indígena é eivado de fraudes. As mais diversas. Há fraude no censo que contabilizou a população indígena, na coleta de testemunhas, na contabilidade das malocas usadas como referência para a demarcação. Malocas localizadas na Guiana foram contabilizadas como se estivessem no Brasil. Com isso você amplia a extensão da área a ser demarcada. Houve também a redistribuição dos índios: você encontra os índios concentrados num lugar e os subdivide por várias regiões, para poder ampliar a área demarcada. Tudo isso foi apurado e demonstra que é preciso uma autoridade que faça a mediação, a apuração, para que não se cometa injustiças.

FALANDO EM MEDIAÇÃO, ACHA QUE OS ARROZEIROS PODERIAM TER FICADO NA TERRA INDÍGENA?

Mas é evidente que sim. Já vi de tudo na vida. Já vi entrarem numa propriedade para desapropriá-la e trocá-la de mãos, como faz o socialismo , como fez Fidel Castro em Cuba. Ele pegou aquelas usinas, aqueles canaviais e mudou de propriedade. Mas destruir, imobilizar a capacidade produtiva, isso eu nunca vi. A área de arroz era insignificante em relação ao conjunto territorial da Raposa Serra do Sol e constituía uma atividade econômica importante naquele Estado.

Em Roraima a classe média depende do emprego público e os pobres dependem da Bolsa-Família. Mais da metade da população de Boa Vista está no Bolsa-Família. Você não tem atividade econômica por ali. Importam até farinha de mandioca. Eu tentei tomar uma dose de cachaça em Roraima, uma caipirinha, e vi que ali não existem alambiques para produzir cachaça.

Como é possível numa situação dessas transformar em crime a produção de arroz? Crime é contrabando. É narcotráfico. Qual é a razão para a proibição do cultivo de arroz? Vai proibir porque os arrozeiros são conservadores, de direita? Então vamos dizer que no Brasil só pode produzir quem é de esquerda?

DEPUTADO, OS ARROZEIROS NÃO TINHAM TÍTULOS DE PROPRIEDADE DAS TERRAS.

Isso podia ser resolvido. Era só chegar nos arrozeiros e estabelecer um preço para eles, dizer que a terra ia custar tanto. Aliás, porque os próprios índios não podiam arrendar aquelas terras, obter algum tipo de benefício dali? Os arrozeiros ficariam ali pagando alguma renda.

POR QUE ISSO NÃO ACONTECEU?

Porque não querem que os índios tenham essa lucratividade. Querem que ele continue tutelado, como um integrante da fauna da região. Os índios não podem explorar a madeira, não podem explorar os minérios. O Estado poderia ajudá-los nessas atividades, mas tudo continua imobilizado.

Existem situações assim em outros países. No Canadá os índios fizeram acordos com grandes empresas para a exploração do petróleo em suas terras. Os índios americanos tam bém têm fontes de renda.

O PIB dos índios americanos é de 25 bilhões de dólares por ano. Milhares de índios tem fortunas acima de 1 milhão de dólares nos Estados Unidos. Mas isso decorre de um processo de integração. Não é a segregação, que mantém os índios em determinado estágio, para que as pessoas possam produzir suas teses de mestrado e doutoramento.

O SENHOR DEFENDE O SEU PROJETO DIZENDO QUE É NECESSÁRIO MAIS MEDIAÇÃO, MAIS NEGOCIAÇÃO NOS PROCESSOS DE DEMARCAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS. MAS O PROCESSO DA RAPOSA SERRA DO SOL LEVOU MAIS DE TRINTA ANOS. SERÁ QUE NÃO HOUVE CHANCE DE TODAS AS PARTES SE MANIFESTAREM NESSE PERÍODO?

Houve chance de sobra. O que não houve foi interesse.

AFIRMA-SE QUE, SE O SEU PROJETO FOR APROVADO, NÃO HAVERÁ MAIS DEMARCAÇÃO DE TERRAS INDÍGENAS: TODAS AS INICIATIVAS SERÃO BARRADAS PELA PODEROSA BANCADA RURALISTA DO CONGRESSO.

Acredito que o Congresso vai agir como tem agido, considerando em primeiro lugar a defesa da população indígena. Tudo que está sendo feito hoje decorre de uma autorização do Congresso - o Congresso Constituinte, que incluiu na Constituição a garantia e a defesa dos direitos indígenas. É com esse espírito que eu acho que as áreas devam ser demarcadas.

Em primeiro lugar está a proteção do índio, o reconhecimento da dívida que o País tem com as populações indígenas. É a maior dívida social que nós temos. Em segundo lugar está o sentimento de gratidão, pelo legado indígena à formação do nosso povo e do nosso País. Já se disse que o Brasil é como um grande rio, alimentado por três grandes afluentes na formação do nosso povo, o afluente indígena, o europeu e o africano. Desses três o que precisa de maior proteção é justamente o afluente indígena. É obrigação da sociedade nacional e do Estado brasileiro proteger as pop ulações indígenas. Mas proteger não significa segregar, não significa construir uma barragem para impedir que esse rio importante alimente a formação do nosso povo, da nossa cultura.

Eles sofrem de fato ameaças na sobrevivência física e na sobrevivência de suas culturas - daí a necessidade de demarcar suas terras, protegê-los. Mas ao mesmo tempo há necessidade de integrá-los; e não de estimular qualquer sentimento secessionista. Acho isso inaceitável.

O SENHOR ACHA QUE OS ANTROPÓLOGOS QUE TRABALHAM COM AS COMUNIDADES INDÍGENAS ESTIMULAM SENTIMENTOS SECESSIONISTAS?

A antropologia, um ramo das ciências sociais, foi muito desenvolvida no auge do império britânico. A primeira sociedade antropológica surgiu na Inglaterra. O império estimulava, porque por meio da ciência conhecia melhor os povos a serem subjugados. Em seus primeiros momentos, a antropologia procurava convencer os chamados povos tribais, na África e em outros continentes, a se submeterem aos padrões da sociedade ocidental, porque isso interessava à afirmação do domínio britânico.

Quando os impérios coloniais se desintegraram e essas sociedades tribais passaram a integrar embriões de Estados nacionais, a antropologia passou a aconselhá-los a permanecerem em seu estágio tribal, afirmando que os Estados nacionais eram uma ameaça para eles. Deviam, portanto, formar Estados nacionais próprios e contestar a política de integração.

E é isso que, em resumo, vejo acontecer hoje no Brasil. Dizem para os índios: continuem no seu estágio, o Estado nacional ameaça a vocês.

Eu acho que não há futuro para essas populações fora do Estado nacional brasileiro. O que os índios vão fazer? O que vão constituir? Pequenos Estados? Frágeis? Estados fantoches?

É preciso administrar os conflitos dessas sociedades, dessas populações, dentro do Estado nacional.

PELO QUE DIZ, EXISTE UMA AMEAÇA À SEGURANÇA NACIONAL.

No ano 2000, Orlando Villas-Boas, sertanista que dedicou a vida aos indígenas brasileiros, deu um depoimento a uma emissora de TV, hoje acessível pela internet, no qual fez uma advertência que é quase uma profecia. Disse que jovens ianomamis estavam sendo levados para os Estados Unidos, onde iam ser treinados, onde iam aprender inglês. Depois retornariam ao Brasil para pedir a criação de um território próprio, um Estado. Nesse momento receberiam a proteção da ONU, que transferiria a tutela dessa população a uma grande nação. Ele disse que talvez não vivesse para ver isso, mas fez a advertência. Ele dizia: 'Eles não estão interessados nos ianomamis, mas nas riquezas que há no subsolo dessa região da Amazônia e, principalmente, de Roraima."

NÃO ACHA ISSO FANTASIOSO?

Não. O Brasil já viveu isso em diversos episódios. Um deles ocorreu ali mesmo, em Roraima. No início do século 20 o Brasil perdeu para a Inglaterra 20 mil quilômetros quadrados do antigo Território de Roraima, em área consagrada, em fronteira já marcada como parte do território brasileiro. Inicialmente a Inglaterra enviou uma missão geográfica à região. Depois apareceu uma missão religiosa, que catequizou os índios, que, por sua vez, pediram a proteção da Inglaterra. Foi aí que os ingleses impuseram o estado de litígio sobre uma área de 40 mil quilômetros quadrados. Estamos falando, como já disse, de um episódio ocorrido no século 20, numa área já demarcada como parte integrante do território brasileiro.

O caso foi submetido à arbitragem do rei da Itália, que dividiu o que era nosso: deu 20 mil quilômetros para a Inglaterra e deixou outros 20 mil para o Brasil.

Os ingleses queriam ter acesso à Bacia do Rio Negro, descendo por um dos seus afluentes. O maior rio da Guiana nasce nas serras que fazem fronteira com o Brasil, mas corre para o norte, em direção ao Caribe.

O território brasileiro sempre foi cobiçado. Nós tivemos também o caso da Bolívia, que tentou vender o Território do Acre aos Estados Unidos.

Os americanos chegaram a enviar uma canhoneira, que invadiu clandestinamente a Bacia do Rio Amazonas. Ela chegou a Manaus e saiu de lá com as luzes apagadas para não ser percebida. Seu capitão, com medo de se perder, recrutou dois práticos amazonenses e entregou a eles a direção do barco. Como não podia fazer isso com estrangeiros, tratou antes de conferir aos dois a nacionalidade americana. Isso foi em 1899, já pertinho do século 20, no auge do conflito por aquela área.

O Brasil não queria o Acre, desestimulou a ação dos seringueiros, que resistiam à ideia de deixar a área, e até mandou uma missão para dizer que se tratava de território boliviano.

O Brasil só mudou de posição quando percebeu a campanha na Bolívia para transferir o Território d o Acre para os Estados Unidos, por meio de uma empresa colonial. O cônsul dos Estados Unidos em Belém já estava articulado à transferência quando essa canhoneira entrou na Bacia do Amazonas.

A Bélgica também tentou ocupar uma área no território do Mato Grosso. Temos uma capital de Estado, São Luís, no Maranhão, que foi batizada em homenagem ao rei da França. Os holandeses ficaram algumas décadas no Nordeste. Há razões de sobra para acreditar que a cobiça continua. Pode não ser uma coisa para hoje. Mas continua.

O BRASIL É SIGNATÁRIO DE CONVENÇÕES INTERNACIONAIS QUE TRATAM DA QUESTÃO INDÍGENA, PROCURANDO SOBRETUDO PROTEGER ESSAS POPULAÇÕES. O SENHOR ACHA QUE PODEM CONSTITUIR RISCO PARA A SEGURANÇA NACIONAL?

Sim. As convenções constituem uma ameaça. Principalmente a convenção da ONU que reconhece a soberania das populações indígenas. O Brasil deve ouvir os índios, que hoje não são ouvidos por ninguém. Nem pelas ONGs, que exercem uma espécie de tutela sobre os índios, nem pelo Estado. Aliás, se você examinar a resolução do Supremo Tribunal Federal, que confirmou a demarcação da Raposa Serra do Sol, verá o seguinte: a pretexto de demarcar uma área contínua, o que era uma reivindicação das ONGs, a resolução retirou qualquer tipo de atribuição dos índios. Essa resolução também não é boa. Não serve ao processo de integração dos índios na sociedade brasileira.

COMO VÊ A AÇÃO DAS ONGS?

O problema das ONGs é que veem os índios como se fossem instrumentos para estudos de caso de antropologia. Os índios dentro da reserva têm quase o status de uma cutia, uma paca, um bicho. Eles não têm direitos. São duplamente tutelados, pelas ONGs e pelo Estado.

Os índios precisam ter direitos dentro de suas reservas. Hoje eles não têm nem mesmo como sobreviver. Já encontramos vereadores e prefeitos indígenas, mas que atribuições eles podem ter? Que tipo de liberdade os índios têm dentro de suas reservas? Nenhuma. As pessoas não ouvem os índios.

VÊ DIFERENÇAS ENTRE A ATUAÇÃO DAS ONGS NACIONAIS E INTERNACIONAIS?

Não há nenhuma diferença. Elas estão imbricadas. As ONGs nacionais são subsidiadas pelo dinheiro estrangeiro. Uma vez visitei uma área ianomami e ali fui recebido numa maloca por uma moça de uma ONG chamada Urihi. Cheguei acompanhado pelo comandante militar da região, generais, coronéis, mas eles não puderam entrar. Foram impedidos. Eu entrei porque era deputado.

Na conversa com a moça, reclamei das condições da vida dos índios, condições insalubres, com taxas elevadas de doenças infecciosas, casos de tuberculose, subnutrição. Sugeri que fossem instalados na aldeia sistemas de fornecimento de água e de luz por ali. Mas a moça contestou, dizendo que isso iria transformar a cultura ianomami.

O ambiente era triste, depressivo. Só vi um pouco de alegria nos meninos, que jogavam futebol. Depois eu soube que essa Urihi tomou muito dinheiro do governo, em convênios, e simplesmente desapareceu, sem prestar contas. Isso ocorre porque ninguém fiscaliza, porque a legislação não prevê a fiscalização do dinheiro público que vai para as ONGs, na forma de repasses.

É claro que também existem ONGs que de fato prestam ajuda, que são verdadeiramente humanitárias.

ORGANIZAÇÕES ENVOLVIDAS COM QUESTÕES INDÍGENAS DIZEM QUE A PRIORIDADE DO CONGRESSO DEVERIA SER A VOTAÇÃO DO ESTATUTO DO ÍNDIO, QUE HÁ MUITO TEMPO ESTÁ PARADO POR LÁ.

Veja isso: de um lado acham que o Congresso não é confiável, mas de outro querem que ele vote o Estatuto. Não estariam pedindo isso se achassem que o Estatuto pudesse representar um retrocesso.

Nós devemos votar o Estatuto, demarcar as áreas indígenas, assegurar os direitos indígenas, garantir a presença do Estado no meio deles. Nós temos uma Sub-Funai terceirizada, que praticamente entrega às ONGs a administração da assistência aos índios. Queremos uma Funai forte, com uma política própria, que reconheça as dificuldades dessas populações. Como a sociedade deve se comportar diante do índio? Segregando ou integrando? Eu defendo a integração.

COMO VÊ AS COTAS EM INSTITUIÇÕES PÚBLICAS PARA OS ÍNDIOS?

Eu sou contra as cotas raciais. Mas no caso dos índios acho que deve haver uma política de cotas. Acho lamentável perceber, nos pelotões que protegem a fronteira brasileira, que não contam com nenhum oficial indígena. Eles compõem o grosso da tropa, mas não chegam ao oficialato. É preciso uma política própria para que isso ocorra, uma política que reconheça as dificuldades dessas populações e que abra caminhos, exceções.

O SENHOR FALA MUITO EM INTEGRAÇÃO. ACHA QUE ESSA POLÍTICA DEVE SERVIR MESMO PARA OS ÍNDIOS ISOLADOS, SEM CONTATO COM OUTRAS CULTURAS, COMO OS QUE VIVEM NA FRONTEIRA DO BRASIL COM O PERU?

A nossa política sempre foi de fazer contatos. Como é que o Estado vai prestar assistência a esses índios? Como vai levar assistência médica? Esses índios têm direito à alfabetização, a boas escolas. A política do Brasil sempre foi de fazer contato, respeitando esses povos. Não é o contato para desalojá-los. Não é o contato para romper, mas sim, para que recebam do Estado e façam suas escolhas.

Essa política de integração obedece e respeita os diversos estágios das diversas populações indígenas. Existe uma forma de integração para aquelas que se encontram no estágio tribal, vivendo da caça, da coleta; e outra forma para as que estão no estágio de integração mais avançado. Conheci no município de Uiramutã, em Roraima, um vereador macuxi que é professor de química, física, matemática. Todo ano a Universidade Federal de Roraima festeja a formatura de turmas indígenas. Isso está certo ou errado? Eu acho certo.

UMA DAS SITUAÇÕES MAIS TRÁGICAS VERIFICADA ENTRE OS POVOS INDÍGENAS, NESTE MOMENTO, É DOS GUARANIS CAIUÁS, DO MATO GROSSO DO SUL. ELES ESTÃO CONCENTRADOS EM PEQUENAS ÁREAS, IMPOSSIBILITADOS DE MANTER SUA CULTURA, SUA FORMA DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL, QUE OCORRE POR MEIO DE CLÃS FAMILIARES. O NÍVEL DE SUICÍDIO ENTRE JOVENS É ELEVADO, ASSIM COMO OS ÍNDICES DE ALCOOLISMO, DE SUBNUTRIÇÃO INFANTIL. A SITUAÇÃO É AGRAVADA PELO FATO DE SEREM HOSTILIZADOS PELA POPULAÇÃO LOCAL, QUE TENTA IMPEDIR OS TRABALHOS DE ANTROPÓLOGOS E TÉCNICOS PARA A DEMARCAÇÃO DAS TERRAS. COMO ACHA QUE SE PODE RESOLVER ESSA SITUAÇÃO?

Temos guaranis também aqui em São Paulo, em duas reservas, em Parelheiros, na Zona Sul, e no Pico do Jaraguá, na Zona Norte. Elas dependem da ajuda da Prefeitura, que oferece a assistência básica, com escolas, cesta básica. Não vejo muito interesse das ONGs por essas populações. Elas também reivindicam a ampliação das áreas em que vivem, mas as possibilidades são limitadas, porque estão cercadas por florestas e áreas urbanas, já ocupadas.

Sobre a questão do Mato Grosso do Sul, não tenho informações completas. Mas creio que deve ser demarcada uma área maior para os índios. Desde que sejam levados em conta também os interesses das comunidades de agricultores que ali vive.

Qual seria a área suficiente para esses índios? Como o governo pode adquirir? Se aquela área é fundamental para as populações indígenas, se eles não podem ser deslocados daquela área, quem pode ser? Mediante que tipo de acordo? Ainda existe uma área de fronteira agrícola muito vasta naquela região e é possível encontrar alternativas para quem planta soja e cria gado. Só que isso tem que ser mediado. A solução existe. O que imobiliza é a atitude unilateral, de tentar resolver sem negociar.

EMBORA PERTENÇA A UM PARTIDO COMUNISTA, DE ESQUERDA, SUAS PROPOSTAS BATEM COM AS DE GRUPOS MAIS CONSERVADORES, À DIREITA DO ESPECTRO POLÍTICO. NÃO SENTE RECEIO DE SER IDENTIFICADO COM ESSES GRUPOS?

Não. Minha posição ao longo da vida sempre foi em defesa da democracia, do socialismo e do Brasil. Acho que a base para a construção de uma sociedade avançada no mundo de hoje é o seu país. Quem viaja pelo mundo pode ver que, apesar do discurso da globalização, o espaço das pessoas ainda é o espaço do país.

Fiquei muito marcado pela leitura do romance 'Questão de Honra' do paranaense Domingos Pellegrini Jr, que é uma releitura da Guerra do Paraguai e da Retirada de Laguna. Muito bonito. O personagem principal é um oficial que acompanha o Taunay e reconta a história a partir de uma posição muito crítica.

Taunay era um militar enquadrado, para quem tudo estava certo; enquanto o outro sempre tinha críticas. Mas, no fim, já velho, ela acaba dando razão ao Taunay, reconhecendo que o que estava em jogo era a defesa do País.

Nós temos que defender nosso País. É a base comum de todo mundo. Qualquer projeto transformador tem como origem e como base a existência de um país. Ele deve proteger o que se conseguiu até hoje: o território, certo estágio de desenvolvimento, a unidade, nossa forma de enfrentar os desequilíbrios, as desigualdades.

O SENHOR SE INSPIRA NO MARECHAL CÂNDIDO RONDON?

Me inspiro no Rondon, me inspiro no Darcy Ribeiro, na história do Brasil. O índio no imaginário do Brasil é diferente do índio do imaginário dos Estados Unidos. A imagem do índio nos Estados Unidos é daquele índio cercando a diligência. O herói para eles é sempre aquele que mata o cacique, que dizima o maior número de índios. Em qualquer cidadezinha americana, quando você vê uma estátua, pode ter certeza: foi ele quem matou mais índios. Bufalo Bill fazia exibições em teatros de Nova York contando como tinha conseguido matar tantos índios.

O nosso imaginário é diferente. Nós cultivamos os heróis indígenas. Todos eles. Os que lutaram a favor dos portugueses, como Poty e Tibiriçá; os que lutaram contra, como Sepé-Tiaraju, Cunhambebe, Ajuricaba. Tivemos índios estadistas, com presença forte no rumo da política brasileira. Sem o acordo com Tibiriçá, os jesuítas não teriam conseguido se instalar em São Paulo. O Poty teve um papel importante na expulsão dos holandeses em Pernambuco e chegou a ser condecorado pela Coroa Portuguesa.

Nossa tradição é essa. Nos misturamos com índios desde os bandeirantes. Nos Estados Unidos, as famílias que vinham da Inglaterra não se misturavam. Casavam entre eles, rezavam em suas igrejinhas de madeira.

Nós tivemos até uma corrente literária indianista. A obr a de um dos nossos grandes poetas, Gonçalves Dias, foi lastreada em dois grandes poemas épicos, Juca Pirama e Timbiras - traduzidos para o mundo inteiro. O romance Iracema, que Alfredo Bosi chama de obra-prima e Machado de Assis reconhece como obra mate da nossa literatura, é um ensaio romanceado da vida indígena no Brasil.

No Império, na época da luta pela independência de Portugal, nossos rebeldes trocavam o sobrenome de origem portuguesa pelo sobrenome indígena - como forma de demonstrar a ruptura. José Bonifácio defendia a integração das populações indígenas.

O SENHOR ACHA QUE A QUESTÃO DA DEMARCAÇÃO DE TERRAS QUILOMBOLAS TEM RELAÇÃO COM ESSA DISCUSSÃO SOBRE AS TERRAS INDÍGENAS?

Tem muita relação. Imagine o seguinte: qual País colocaria em risco a sua base de lançamento de foguetes, como estamos vendo acontecer com a Base de Alcântara, no Maranhão? Em algumas áreas a questão quilombola está provocando divisões no meio do povo, no meio dos pobres, das famílias. Há casos, no Piauí, no Ceará, em que os pobres brigam, porque chega dinheiro, luz e água para os quilombolas, enquanto, ao lado dali, famílias tão pobres quanto eles continuam sem água nem luz. Isso é uma coisa importada dos Estados Unidos. A política de segregação nunca foi política de Estado no Brasil.

MAS NÓS TEMOS RACISMO.

Temos. E ele precisa ser combatido e denunciado. A melhor forma de fazer isso é valorizar ainda mais a herança negra e indígena no conjunto da sociedade brasileira. Mostrar que todos nós somos tributários dessa herança negra e indígena. Uma loira de olhas azuis, como a Vera Fischer, mesmo que não traga no sangue a herança africana e indígena, é uma mulata do ponto de vista cultural, da miscigenação que tivemos aqui. Isso é o mais importante: o que trazemos na cultura, na psicologia, na culinária, no jeito de perceber o mundo, na capacidade de respeitar o diferente.

Quando você segrega, você retira do nosso processo civilizatório o que ele tem mais humano, de mais avançado. Nossas mazelas estão aí.

DEPUTADO, A REJEIÇÃO DOS ÍNDIOS EM RORAIMA SEMPRE FOI TÃO FORTE QUE ELES MESMOS NÃO GOSTAVAM DE SER CHAMADOS DE ÍNDIOS, ASSUMINDO O PONTO DE VISTA DE QUEM OS OPRIMIA. ISSO MUDOU NO PROCESSO DA LUTA PELA DEMARCAÇÃO DE SUAS TERRAS. HOJE MUITOS NÃO QUEREM SER APENAS CHAMADOS DE ÍNDIOS: EXIGEM QUE SEJA FEITA REFERÊNCIA AO SEU POVO DE ORIGEM. SOU MACUXI, DIZEM. SOU INGARICÓ, PATAMONA... ISSO NÃO É BOM?

Claro que é bom. O preconceito vai diminuindo em todas as áreas. Pega o caso do preconceito contra o nordestino, no Rio e em São Paulo. Ninguém te chama de negro na rua. Mas continuam te chamando de baiano e paraíba. No passado o preconceito era contra os italianos, chamados de carcamanos. Nenhuma famlia ilustre de São Paulo queria que sua filha sequer pensasse em casar com um italianinho. Hoje o preconceito já mudou de lugar: em São Paulo, há descendentes de italianos que se acham melhores que brasileiros.

O ÍNDIO SEMPRE FOI VISTO COMO BÊBADO E PREGUIÇOSO.

O índio nunca foi preguiçoso. Ele não estava adaptado à disciplina do trabalho, nem na escravidão nem no capitalismo. O Darcy Ribeiro diz que nós devemos a essa indisciplina indígena parte importante da nossa intolerância às coisas rígidas. Ela nos torna mais flexíveis e mais abertos.”

P36-SDB: CPI NÃO É BOA PLATAFORMA DE CAMPANHA

Li hoje no site “Vermelho” o seguinte texto de Wedencley Alves, postado no Portal Luis Nassif:

“Eu já afirmei no post anterior que se o pré-candidato José Serra continuar compartilhando da lógica da imprensa que o apóia - e dos xiitas do seu partido - vai acabar colhendo muitos problemas. Esta CPI da Petrobras, iniciativa do PSDB a partir de denúncias idealizadas pelo O Globo, vai trazer à memória uma série de fatos que não orgulham em nada os tucanos. Faz a festa de escandalizações da imprensa, mas soa publicamente como hipocrisia ou ato eleitoreiro. Afinal, como o PSDB pode ensinar alguém a cuidar da Petrobras?

Vamos dar uma olhada na reportagem da revista Época de dezembro de 2001. Mas antes, é bom relembrar o que foi a tragédia da P-36

REVISTA ÉPOCA, EDIÇÃO 185, 03/12/2001

TRAGÉDIA

O RISCO PETROBRAS


Recordista de mortes, a estatal é denunciada na Marinha pelo naufrágio da P-36

Desde março, quando a plataforma P-36 foi a pique no litoral do Rio de Janeiro, provocando a morte de 11 petroleiros e o naufrágio de um investimento de US$ 450 milhões, a direção da Petrobras explica a tragédia pela falta de sorte. “Foi uma fatalidade”, disse na ocasião o presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul. Na quinta-feira, ao apresentar o resultado de cinco meses de trabalho, três exames de perícia e 30 depoimentos, a Procuradoria Especial da Marinha, órgão encarregado de apurar as causas e responsabilidades de desastres marítimos, apontou um dedo de acusação contra a empresa.

Em sua denúncia, a procuradora da Marinha Tereza Cristina Bevilacqua faz acusações graves. Diz que a Petrobras privilegia o lucro em sacrifício da qualidade das operações.

Afirma que a empresa colocou a P-36 em operação antes que a plataforma estivesse pronta. E que a companhia não se deu ao trabalho de treinar seus funcionários para uma emergência. Conforme a procuradora, a P-36 entrou em operação navegando num oceano de irregularidades. Na denúncia, Tereza Cristina Bevilacqua chama a atenção para o fato de um tanque de drenagem de emergência ter ficado de 10 de fevereiro a 15 de março quebrado, sem substituição, fato que, embora não esteja relacionado ao acidente, revela o descuido nas operações. Num processo que impressiona pela contundência, a Procuradoria da Marinha aponta falhas no projeto da P-36, indica erros na operação da plataforma e conclui pela responsabilidade da direção da Petrobras. Acusa a diretoria da estatal, duas empresas certificadoras (responsáveis pela permissão de funcionamento da P-36) e cinco funcionários da própria plataforma pela tragédia. Feita a denúncia, cabe aos seis juízes do Tribunal se pronunciarem, o que deve ocorrer em fevereiro. Conforme Época apurou na sexta-feira, o humor dominante entre os juízes é de indiciar o próprio Henri Reichstul.

NAUFRÁGIO DA P-36 (RJ)

MARÇO DE 2001

O QUE ACONTECEU


Um tanque explodiu e vazou gás durante a manutenção. A plataforma afundou matando 11 petroleiros

O QUE DEU ERRADO

A manutenção foi feita com a P-36 funcionando, o que é irregular.
Na operação de salvamento da plataforma, um tanque ficou aberto e encheu-se de água

COMO FICOU

A Procuradoria da Marinha denunciou a direção da Petrobras. A Câmara Federal vai responsabilizar a empresa pelo acidente

Isoladamente, a denúncia da Procuradoria Especial da Marinha já seria um episódio constrangedor. Há mais. Nas próximas semanas, uma Comissão Especial da Câmara Federal também deverá responsabilizar os executivos da empresa pelo naufrágio. No documento em preparação na Câmara, o deputado Luciano Pizzatto (PFL-PR) nota erros grotescos. Lembra, por exemplo, que a Marinha e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) autorizaram o funcionamento da P-36 com base em documentos, sem realizar inspeções no local. Nota também que os computadores da plataforma funcionavam sem backup e as câmeras do sistema de vídeo da P-36 não tinham fita para registrar possíveis falhas e mostrar o que ocorria na plataforma. No mês passado, a CPI da Assembléia Legislativa do Rio concluiu que erros da direção da Petrobras foram decisivos para o naufrágio. A sucessão de falhas em uma plataforma que produzia 6% do petróleo brasileiro é tão gritante que a Associação dos Engenheiros da Petrobras insiste que se investigue a tese de sabotagem. Reichstul estava na semana passada internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, recuperando-se de cirurgia. Sua assessoria informou que a empresa não vai se pronunciar sobre a ação na Justiça Militar.

A morte dos petroleiros na P-36 foi o pior momento de uma longa série de desastres de uma empresa que tem quebrado recordes de vítimas, a grande maioria trabalhadores de empresas terceirizadas. No ano passado, foram 17 mortes. Para efeito de comparação: uma pesquisa da Associação Internacional de Produtores de Óleo e Gás (que engloba 27 empresas, como Texaco, Esso e BP) mostrou que em 2000 apenas na Nigéria morreram mais pessoas que nas operações da Petrobras. Com uma diferença. Na Nigéria, operam oito empresas, entre elas a Shell, enquanto todas as mortes brasileiras estão relacionadas à Petrobras.

BAÍA DE GUANABARA (RJ)

JANEIRO DE 2000

O QUE ACONTECEU


O rompimento de um duto derramou 1,3 milhão de litros de óleo e destruiu a fauna dos mangues

O QUE DEU ERRADO

O vazamento só foi descoberto depois de quatro horas. A empresa não instalou as bóias de contenção que teriam evitado a propagação da mancha

COMO FICOU

A Petrobras pagou R$ 40 milhões de multa e sustenta projeto de recuperação na área

Nos últimos quatro anos, 70% das mortes nas atividades da Petrobras foram de terceirizados. As vítimas são técnicos queimados em explosões de tubos de gás, vigilantes afogados ao cair de navios e operadores esmagados por guindastes. Neste ano, morreram 26 petroleiros. Poucos casos são tão emblemáticos do risco nas operações da Petrobras como o envenenamento em janeiro de dois encanadores da empresa Ultratec, terceirizada da plataforma P-37, na Bacia de Campos, no Rio. Os dois operários consertavam a casa de bombas da plataforma quando sentiram cheiro de ovo podre. “Qualquer funcionário da Petrobras sabe que esse odor é o de gás sulfídrico, um composto químico fatal. Na empresa, os funcionários são treinados a correr na hora em que sentirem o cheiro e só ficar no local protegidos por máscara”, conta Fernando Carvalho, coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense. “Só que eles nunca passaram por um treinamento de segurança, inalaram o gás e morreram.” A Petrobras afirma que o número de mortes em suas atividades está dentro dos padrões internacionais. “A empresa está executando o maior plano mundial de investimentos em segurança”, explica o superintendente de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da estatal, Irani Varella. “Mas os resultados não são de curto prazo”.”

PRECONCEITO DA “GRANDE MÍDIA” E DA “ELITE” PAULISTA E CARIOCA?

POR QUE O DRAMA NORDESTINO NÃO RECEBE A MESMA ATENÇÃO E A MOBILIZAÇÃO DE APOIO DA IMPRENSA E DAS “ELITES” ECONÔMICAS?

A revista “Isto É” desta semana publica a seguinte reportagem de Camila Pati:

SOLIDARIEDADE MAIOR PARA O SUL

Por que os desabrigados do Norte e do Nordeste, apesar de viverem o mesmo drama, estão recebendo menos donativos do que as vítimas da enchente de Santa Catarina?

“As chuvas, que assolam desde março as regiões Norte e Nordeste do País, atingiram 398 municípios, em 12 Estados, e tiraram de suas casas mais de 373 mil moradores. Ao todo, 44 pessoas morreram em decorrência das enchentes e calcula-se mais de um milhão de vítimas da tragédia. Estradas foram interrompidas, cidades inteiras estão debaixo dágua, sem luz, sem comida e sem água potável. No Maranhão, passam de 120 mil desabrigados ou desalojados, no Ceará são 64 mil e no Amazonas, o Estado mais atingido da região Norte, são quase 60 mil pessoas sem casa. E a chuva continua a cair.

A situação calamitosa lembra a tragédia que deixou 80 mil desabrigados em 14 municípios do Estado de Santa Catarina, entre novembro do ano passado e janeiro deste ano, quando as fortes chuvas mataram 135 pessoas. As imagens do sofrimento dos catarinenses comoveram o Brasil inteiro e donativos chegavam em caminhões, aviões e helicópteros. Segundo informações da Defesa Civil, foram arrecadados 4.300 toneladas de alimentos e 2,5 milhões de litros de água potável.

Mas se o drama se repete agora no Norte e principalmente no Nordeste, a resposta solidária e as doações não têm sido na mesma velocidade e intensidade. Se naquela época a Defesa Civil de Santa Catarina chegou a ponto de pedir aos brasileiros que parassem momentaneamente de fazer donativos, uma vez que os estoques já não comportavam a quantidade de ajuda que chegava, agora as secretarias de Defesa Civil dos Estados do Nordeste e Norte pedem socorro. "O que recebemos é muito pouco, precisamos de muito mais doações", diz o major Abner Ferreira, da Defesa Civil do Maranhão, Estado com 95 municípios afetados pela chuva.

"A campanha de doação de dinheiro para o Maranhão começou há três semanas e só temos cerca de R$ 21 mil. Em Santa Catarina, na primeira semana, já haviam sido arrecadados R$ 3 milhões", compara o major. Ele explica que com a quantia que tem disponível não consegue nem comprar uma embarcação motorizada para ajudar no resgate das vítimas.

Sua percepção é partilhada pelo coronel Sérgio Gomes, assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros do Ceará, Estado com 15 mortos pelo desastre natural. "Na época em que o Estado de Santa Catarina foi atingido houve uma mobilização muito maior do que a que está havendo agora, o que nós conseguimos é muito pouco", diz o coronel.

A campanha Força Solidária para ajudar os cearenses só tinha arrecadado pouco mais de 65 toneladas de alimentos, 45 mil litros de água, 450 colchões e 221 mil peças de vestuário até a terça-feira 19. "Estamos tentando dar uma guinada na campanha agora, precisamos de redes para a população dormir, mais água, alimentos e produtos de limpeza", pede Gomes.

O quadro é mais chocante quando, ao mesmo tempo que cestas básicas e água potável são disputadas no Norte e Nordeste, os fartos donativos que chegaram do Brasil inteiro ao Sul são desperdiçados em aterros sanitários ou vendidos por cidadãos de má-fé.

Em Itajaí (SC) um carregamento inteiro de peças de roupa foi descartado no lixão porque apodreceu devido às condições de armazenamento. Em Rio Negrinho, também em Santa Catarina, o empresário Ismael Ratzkob foi preso com 330 mil peças de roupas e toneladas de alimentos provenientes de doações para os atingidos pela tragédia na cidade de Ilhota. Ratzkob completava seu orçamento vendendo doações a R$ 1.

Na Cruz Vermelha de São Paulo a diferença na quantidade de donativos recebida é visível. Se para Santa Catarina os carros faziam fila para doar e as salas de estocagem estavam abarrotadas de alimentos, roupas e água, o que se vê agora é desanimador.

"Na primeira semana de campanha para Santa Catarina, nós já havíamos encaminhado 250 toneladas. Hoje com três semanas de arrecadação nós conseguimos encaminhar apenas 70 toneladas", conta a gerente de projetos sociais da Cruz Vermelha paulista, Luciana Mateus. Para ela uma das razões de haver uma menor quantidade de doações está ligada à atenção dispensada pela mídia às duas calamidades.

"Se na época de Santa Catarina só se via, lia e ouvia sobre o desastre, hoje ele não é a prioridade, mesmo que a situação seja mais grave." O major Ferreira, do Maranhão, concorda: "Quando os olhos se voltaram para o que estava ocorrendo aqui, já eram muito mais focos de inundações, em muitos Estados, enquanto Santa Catarina era o único foco."

No entanto, ainda se veem alguns exemplos de solidariedade. Voluntário na Cruz Vermelha de São Paulo desde a tragédia de Santa Catarina, o professor universitário Clóvis Rodrigues, 46 anos, está empenhado na dedicação do seu tempo e força de trabalho para amenizar o sofrimento dos atingidos pelas chuvas no Norte e no Nordeste. Todos os dias ele trabalha com a arrecadação e triagem de doações. "Em Santa Catarina aconteceu um grande desastre e aqui houve uma explosão, o tempo de resposta da população foi muito menor e a reação foi mais rápida", compara o voluntário.

O jovem escoteiro Caio Komatsu, 19 anos, também tem trabalhado voluntariamente todos os dias na Cruz Vermelha. "O voluntariado está em primeiro lugar", diz. Ele deixou de frequentar as aulas do cursinho prévestibular para ajudar as vítimas das enchentes. "Acabei deixando minhas próprias questões de lado, como o vestibular, para ajudar os outros. Pode parecer errado, mas para mim é mais importante ajudar o próximo, além de ser uma das bases do escotismo", conta. Na época de Santa Catarina, Caio deixou de fazer a prova da segunda fase do vestibular para engenharia ambiental para trabalhar na Cruz Vermelha.

A diferença de atenção em relação às duas catástrofes é latente. Pode ou não se tratar de preconceito. "É como um crime de classe média e outro na periferia. A comoção e a repercussão são diferentes. E, infelizmente, a comoção e a repercussão ditam as políticas públicas", diz o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor do estudo Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros.

Na esfera governamental o tratamento é equânime, garante o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. "Não tem esse negócio de dar mais dinheiro para um do que para o outro", diz Geddel. O ministro afirma que a demora na liberação dos recursos é uma questão técnica.

"Quando ocorre esse tipo de tragédia, a primeira medida é a ajuda humanitária, com doação de cestas básicas, colchões e água. O dinheiro para a reconstrução vem em um segundo momento." O ministro explica que com a água batendo no teto das casas ainda não é possível saber quanto será necessário para reconstruir e recuperar os municípios. "Não temos como saber ainda quanto vai custar", diz. Ele ressalta que foram liberados R$ 700 milhões depois da tragédia de Santa Catarina e agora outros R$ 880 milhões estão sendo destinados a todos os Estados atingidos por estiagem e chuvas, principalmente os do Norte e Nordeste.

Como ajuda humanitária, a Secretaria Nacional de Defesa Civil distribuiu mais de 139 mil cestas com 23 quilos de alimentos e enviou para as regiões de enchentes 1,4 milhão de itens, como colchões, travesseiros e mosquiteiros. O governo pode até ter dado um tratamento igual, mas a população deixou a desejar em relação ao Norte e Nordeste.”

NOVO PRESIDENTE SUL-AFRICANO DEVERIA APRENDER LIÇÕES POLÍTICAS DE LULA, DIZ 'FT'

A agência britânica de notícias BBC ontem publicou (li no UOL):

“O novo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, deveria "aprender lições políticas" com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para afastar as previsões pessimistas sobre seu governo, segundo afirma artigo publicado nesta segunda-feira pelo diário britânico Financial Times.

Segundo o jornal, Lula contradisse as previsões de que enfrentaria meses turbulentos pela frente após ser eleito presidente, em 2002, "não só tirando o Brasil da crise como levando o país a um período de relativa prosperidade".

"E assim como os formadores de opinião estavam equivocados sobre o presidente do Brasil, podem também agora estar subestimando o presidente da África do Sul?", questiona o artigo.

O texto, assinado pelo editor de América Latina do jornal, Richard Lapper, observa que tanto Lula quanto Zuma têm perfis parecidos em alguns aspectos, como a origem pobre, o carisma e a capacidade de "ouvir e negociar".

Mas segundo o artigo, enquanto os desafios de Lula em 2002 eram essencialmente econômicos, com o país à beira de uma crise financeira, os temores na África do Sul têm sido mais em relação à capacidade de Zuma de governar.

Temores dissipados "Certamente há temores sobre o viés populista de Zuma e suas ligações com a esquerda. Mas seus críticos têm estado mais preocupados com alegações de corrupção. Zuma também atraiu desdém por suas posições sobre sexualidade (ele é polígamo), as quais os críticos temem que tornarão mais difícil o controle da epidemia de Aids", diz o texto.

O artigo comenta que Zuma conseguiu dissipar os temores sobre governabilidade, com as acusações de corrupção negadas pela Justiça sob o pretexto de que tinham motivação política, com suas promessas de "inclusão" para as minorias branca e indiana e com sua condução da política econômica.

"No Brasil, a grande realização de Lula foi a manutenção da estabilidade econômica, colocar os pobres no topo de sua agenda política e avançar com as reformas, expandindo de maneira firme os programas de bem-estar social. Parece agora haver ao menos uma possibilidade de que Zuma poderia partir do mesmo caminho centrista. Não será fácil. A economia da África do Sul está em recessão", diz o texto.

"No Brasil, Lula foi capaz de usar sua imagem de 'homem do povo' para conter as expectativas de mudanças do dia para a noite e convencer os simpatizantes a segui-lo no longo prazo. É um truque que Zuma poderia repetir", conclui o artigo do Financial Times.”

CIÊNCIA BRASILEIRA EM NOVO PATAMAR

O jornal Folha de S.Paulo ontem publicou o seguinte artigo de Sergio Machado Rezende. O autor é físico, doutor em física pelo MIT (EUA), professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e Ministro da Ciência e Tecnologia:

O aumento do número de artigos publicados do Brasil, proporcionalmente maior que o do resto do mundo, consolida uma tendência

Como noticiou esta Folha no último dia 6, a produção científica do Brasil, medida pelo número de artigos indexados na base internacional de dados Thomson Reuters-ISI, cresceu 56% em 2008, se comparada com 2007. O país passou da 15ª para a 13ª colocação no ranking mundial de artigos publicados, ultrapassando países com longa tradição científica, como a Rússia e a Holanda.

A notícia foi comemorada pela comunidade científica brasileira, que conta atualmente com 200 mil membros, entre mestres e doutores.

Mas a formação, como é feita hoje, com exigências de cursar disciplinas e fazer pesquisa para elaborar dissertações e teses, só foi iniciada em 1963, quando o professor Alberto Luiz Coimbra criou "na marra" a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) na então Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Somente cinco anos depois o Ministério da Educação regulamentou a pós-graduação, "legalizando" os diplomas concedidos pela Coppe e por outros cursos. E apenas em 1969, com a criação do regime de tempo integral para docentes pesquisadores, os grupos de pesquisa e os cursos de pós-graduação se disseminaram em todo o país e o sistema nacional de ciência e tecnologia (C&T) começou a ganhar dimensão e consistência.

O fato de a nossa ciência ser tão recente é a principal razão para a surpresa da notícia de que o Brasil ultrapassou Rússia e Holanda no ranking de publicações científicas. Mas esse fato não teve comemoração unânime.

Logo surgiram os céticos e críticos perscrutadores.

A primeira crítica é que a ciência brasileira não tem o impacto medido pelas citações na mesma proporção dos artigos publicados. Isso é verdade e decorre, dentre outras razões, da pouca tradição de nossa ciência.

Outra crítica, mais forte, foi a descoberta de que o grande aumento da produção de um ano para outro decorreu da ampliação da base da Reuters. O número de revistas brasileiras indexadas passou de 63, em 2007, para 103, em 2008.

No entanto, a Reuters também aumentou a base das revistas indexadas de todos os países, principalmente daqueles fora do núcleo de longa tradição científica. Em todo o mundo, a base passou de 9.000 para mais de 10 mil, e o número total de artigos indexados cresceu de 960 mil, em 2007, para 1,4 milhão, em 2008 -um salto de 49%.

O aumento do número de artigos do Brasil, proporcionalmente maior que o do restante do mundo, vem consolidar uma tendência das três últimas décadas. A contribuição do país na produção mundial, que em 1981 era de 0,44%, hoje é de 2,12%.

O aumento na formação de pesquisadores e no número de artigos científicos publicados é resultado de um esforço continuado de toda a sociedade. Mas o governo federal teve papel essencial nesse processo, principalmente por meio de suas agências de fomento, CNPq, Finep e Capes.

Assim, compartilho da opinião do ministro da Educação, Fernando Haddad, que creditou essa evolução ao governo federal, mas também ao papel das fundações estaduais de amparo à pesquisa, em especial da Fapesp, e ao trabalho dos cientistas.

A significativa evolução dos últimos anos é decorrente, em grande parte, da prioridade hoje atribuída à ciência e à tecnologia.

O orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia passou de R$ 2,835 bilhões, em 2002, para R$ 6,632 bilhões, em 2008. Nesse mesmo período, o número de bolsas de pós-graduação do CNPq passou de 11.347 para 18.500, e as de pesquisa passaram de 7.765, em 2002, para 12.015. No caso da Capes, as bolsas de pós-graduação passaram de 23.334, em 2002, para 39.892.

Pela primeira vez na história, o país tem um Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação, com prioridades claras e programas com objetivos, metas e orçamentos, os quais totalizam R$ 41 bilhões para projetos em universidades, centros de pesquisa e empresas.

O financiamento à pesquisa científica e tecnológica e à inovação tem estimulado pesquisadores e empresários empreendedores. Um exemplo do aperfeiçoamento dos instrumentos de apoio e da política de C&T está na criação dos 123 institutos nacionais de C&T, que receberam recursos da ordem de R$ 605 milhões.

O caminho para tornar esse setor um dos pilares do desenvolvimento nacional ainda é longo, mas está sendo percorrido com consistência, determinação e velocidade crescentes.”

segunda-feira, 25 de maio de 2009

OS DEZ ESTRAGOS DE FHC NA PETROBRAS

Li hoje no site “Vi o mundo”, do jornalista Luiz Carlos Azenha, o seguinte texto publicado no site da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET):

"Para refrescar a memória do senador Sérgio Guerra (PE) e demais entusiastas da CPI da Petrobrás, o presidente da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobras), Fernando Leite Siqueira, selecionou dez estragos produzidos pelo Governo FHC no Sistema Petrobrás, que seguem:

1993 - Como ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso fez um corte de 52% no orçamento da Petrobrás previsto para o ano de 1994, sem nenhuma fundamentação ou justificativa técnica. Ele teria inviabilizado a empresa se não tivesse estourado o escândalo do orçamento, envolvendo vários parlamentares apelidados de `anões do orçamento`, no Congresso Nacional, assunto que desviou a atenção do País, fazendo com que se esquecessem da Petrobrás. Todavia, isto causou um atraso de cerca de 6 meses na programação da empresa, que teve de mobilizar as suas melhores equipes para rever e repriorizar os projetos integrantes daquele orçamento;

1994 - ainda como ministro da Fazenda, com a ajuda do diretor do Departamento Nacional dos Combustíveis, manipulou a estrutura de preços dos derivados do petróleo, de forma que, nos 6 últimos meses que antecederam o Plano Real, a Petrobrás teve aumentos mensais na sua parcela dos combustíveis em valores 8% abaixo da inflação. Por outro lado, o cartel internacional das distribuidoras derivados teve aumentos de 32%, acima da inflação, nas suas parcelas.

Isto significou uma transferência anual, permanente, de cerca de US$ 3 bilhões do faturamento da Petrobrás, para o cartel dessas distribuidoras.

A forma de fazer isto foi através dos 2 aumentos mensais que eram concedidos aos derivados, pelo fato de a Petrobrás comprar o petróleo em dólares, no exterior, e vender no mercado em moeda nacional. Havia uma inflação alta e uma desvalorização diária da nossa moeda. Os dois aumentos repunham parte das perdas que a Petrobrás sofria devido a essa desvalorização.

Mais incrível: a Petrobrás vendia os derivados para o cartel e este, além de pagá-la só 30 a 50 dias depois, ainda aplicava esses valores e o valor dos tributos retidos para posterior repasse ao tesouro no mercado financeiro, obtendo daí vultosos ganhos financeiros em face da inflação galopante então presente. Quando o plano Real começou a ser implantado com o objetivo de acabar com a inflação, o cartel reivindicou uma parcela maior nos aumentos porque iria perder aquele duplo e absurdo lucro.

1995 - Em fevereiro, já como presidente, FHC proibiu a ida de funcionários de estatais ao Congresso Nacional para prestar informações aos parlamentares e ajudá-los a exercer seus mandatos com respaldo de informações corretas. Assim, os parlamentares ficaram reféns das manipulações da imprensa comprometida. As informações dadas aos parlamentares no governo de Itamar Franco, como dito acima, haviam impedido a revisão com um claro viés neoliberal da Constituição Federal.

Emitiu um decreto, 1403/95 que instituía um órgão de inteligência, o SIAL, Serviço de Informação e apoio Legislativo, com o objetivo de espionar os funcionários de estatais que fossem a Brasília falar com parlamentares. Se descobertos, seriam demitidos.

Assim, tendo tempo para me aposentar, solicitei a aposentadoria e fui para Brasília por conta da Associação. Tendo recursos bem menores que a Petrobrás (que, no governo Itamar Franco enviava 15 empregados semanalmente ao Congresso), eu só podia levar mais um aposentado para ajudar no contato com os parlamentares. Um dos nossos dirigentes, Argemiro Pertence, mudou-se para Brasília, às suas expensas, para ajudar nesse trabalho;

Também em 1995, FHC deflagrou o contrato e a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, que foi o pior contrato que a Petrobrás assinou em sua história. FHC, como ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, funcionou como lobista em favor do gasoduto. Como presidente, suspendeu 15 projetos de hidrelétricas em diversas fases, para tornar o gasoduto irreversível. Este fato, mais tarde, acarretaria o `apagão` no setor elétrico brasileiro.

As empresas estrangeiras, comandadas pela Enron e Repsol, donas das reservas de gás naquele país só tinham como mercado o Brasil. Mas a construção do gasoduto era economicamente inviável. A taxa de retorno era de 10% ao ano, enquanto o custo financeiro era de 12% ao ano. Por isto pressionaram o Governo a determinar que Petrobrás assumisse a construção. A empresa foi obrigada a destinar recursos da Bacia de Campos, onde a Taxa de Retorno era de 80%, para investir nesse empreendimento. O contrato foi ruim para o Brasil pelas seguintes razões: mudança da matriz energética para pior, mais suja, ficar dependente de insumo externo dominado por corporações internacionais, com o preço atrelado ao do petróleo e valorada em moeda forte; foi ruim para a Bolívia que só recebia 18% pela entrega de uma de suas últimas riquezas, a mais significativa. Evo Morales elevou essa participação para 80% (a média mundial de participação dos países exportadores é de 84%) e todas as empresas aceitaram de bom grado. E foi péssimo para a Petrobrás que, além de tudo, foi obrigada a assinar uma cláusula de `Take or Pay`, ou seja, comprando ou não a quantidade contratada, ela pagaria por ela. Assim, por mais de 10 anos, pagou por cerca de 10 milhões de metros cúbicos sem conseguir vender o gás no mercado nacional.

Em 1995, o governo, faltando com o compromisso assinado com a categoria, levou os petroleiros à greve, com o firme propósito de fragilizar o sindicalismo brasileiro e a sua resistência às privatizações que pretendia fazer. Havia sido assinado um acordo de aumento de salário de 13%, que foi cancelado sob a alegação de que o presidente da Petrobrás não o havia assinado. Mas o acordo foi assinado pelo então Ministro das Minas e Energia, Delcídio Amaral, pelo representante do presidente da Petrobrás e pelo Ministro da Fazenda, Ciro Gomes.

Além disto, o acordo foi assinado a partir de uma proposta apresentada pelo presidente da Petrobrás. Enfim, foi deflagrada a greve, após muita provocação, inclusive do Ministro do TST, Almir Pazzianoto, que disse que os petroleiros estavam sendo feitos de palhaços. FHC reprimiu a greve fortemente, com tropas do exercito nas refinarias, para acirrar os ânimos. Mas deixou as distribuidoras multinacionais de gás e combustíveis sonegarem os produtos, pondo a culpa da escassez deles nos petroleiros. No fim, elas levaram 28% de aumento, enquanto os petroleiros perderam até o aumento de 13% já pactuado e assinado.

Durante a greve, uma viatura da Rede Globo de Televisão foi apreendida nas proximidades de uma refinaria, com explosivos. Provavelmente, pretendendo uma ação sabotagem que objetivava incriminar os petroleiros. No balanço final da greve, que durou mais de 30 dias, o TST estabeleceu uma multa pesada que inviabilizou a luta dos sindicatos. Por ser o segundo maior e mais forte sindicato de trabalhadores brasileiros, esse desfecho arrasador inibiu todos os demais sindicatos do país a lutar por seus direitos. E muito menos por qualquer causa em defesa da Soberania Nacional. Era a estratégia de Fernando Henrique para obter caminho livre e sangrar gravemente o patrimônio brasileiro.

1995 – O mesmo Fernando Henrique comandou o processo de mudança constitucional para efetivar cinco alterações profundas na Constituição Federal de 1988, na sua Ordem Econômica, incluindo a quebra do monopólio Estatal do Petróleo, através de pressões, liberação de emendas dos parlamentares, barganhas e chantagens com os parlamentares (o começo do `mensalão` – compra de votos de parlamentares com dinheiro desviado do erário público). Manteve o presidente da Petrobrás, Joel Rennó que, no governo Itamar Franco, chegou a fazer carta ao Congresso Nacional defendendo a manutenção do monopólio estatal do petróleo, mas que, no governo FHC, passou a defensor empedernido da sua quebra.

AS CINCO MUDANÇAS CONSTITUCIONAIS PROMOVIDAS POR FHC:

1) Mudou o conceito de empresa nacional. A Constituição de 1988 havia estabelecido uma distinção entre empresa brasileira de capital nacional e empresa brasileira de capital estrangeiro. As empresas de capital estrangeiro só poderiam explorar o subsolo brasileiro (minérios) com até 49% das ações das companhias mineradoras. A mudança enquadrou todas as empresas como brasileiras. A partir dessa mudança, as estrangeiras passaram a poder possuir 100% das ações. Ou seja, foi escancarado o subsolo brasileiro para as multinacionais, muito mais poderosas financeiramente do que as empresas nacionais. A Companhia Brasileira de Recursos Minerais havia estimado o patrimônio de minérios estratégicos brasileiros em US$ 13 trilhões. Apenas a companhia Vale do Rio Doce detinha direitos minerários de US$ 3 trilhões. FHC vendeu essa companhia por um valor inferior a que um milésimo do valor real estimado.

2) Quebrou o monopólio da navegação de cabotagem, permitindo que navios estrangeiros navegassem pelos rios brasileiros, transportando os minérios sem qualquer controle;

3) Quebrou o monopólio das telecomunicações, para privatizar a Telebrás por um preço abaixo da metade do que havia gastado na sua melhoria nos últimos 3 anos, ao prepará-la para ser desnacionalizada. Recebeu pagamento em títulos podres e privatizou um sistema estratégico de transmissão de informações. Desmontou o Centro de Pesquisas da empresa e abortou vários projetos estratégicos em andamento como capacitor ótico, fibra ótica e TV digital;

4) Quebrou o monopólio do gás canalizado e entregou a distribuição a empresas estrangeiras. Um exemplo é a estratégica Companhia de Gás de São Paulo, a COMGÁS, que foi vendida a preço vil para a British Gas e para a Shell. Não deixou a Petrobrás participar do leilão através da sua empresa distribuidora. Mais tarde, abriu parte do gasoduto Bolívia-Brasil para essa empresa e para a Enron, com ambas pagando menos da metade da tarifa paga pela Petrobrás, uma tarifa baseada na construção do Gasoduto, enquanto que as outras pagam uma tarifa baseada na taxa de ampliação.

5) Quebrou o Monopólio Estatal do Petróleo, através de uma emenda à Constituição de 1988, retirando o parágrafo primeiro, elaborado pelo diretor da AEPET, Guaracy Correa Porto, que estudava direito e contou com a ajuda de seus professores na elaboração. O parágrafo extinto era um salvaguarda que impedia que o governo cedesse o petróleo como garantia da dívida externa do Brasil. FHC substituiu esse parágrafo por outro, permitindo que as atividades de exploração, produção, transporte, refino e importação fossem feitas por empresas estatais ou privadas. Ou seja, o monopólio poderia ser executado por várias empresas, mormente pelo cartel internacional;

1996 - Fernando Henrique enviou o Projeto de Lei que, sob as mesmas manobras citadas, se transformou na Lei 9478/97. Esta Lei contem artigos conflitantes entre si e com a Constituição Brasileira. Os artigos 3º, 4º e 21, seguindo a Constituição, estabelecem que as jazidas de petróleo e o produto da sua lavra, em todo o território Nacional (parte terrestre e marítima, incluído o mar territorial de 200 milhas e a zona economicamente exclusiva) pertencem à União Federal. Ocorre que, pelo seu artigo 26 -- fruto da atuação do lobbysobre uma brecha deixada pelo Projeto de Lei de FHC -- efetivou a quebra do Monopólio, ferindo os artigos acima citados, além do artigo 177 da Constituição Federal que, embora alterada, manteve o monopólio da União sobre o petróleo. Esse artigo 26 confere a propriedade do petróleo a quem o produzir.”

O PASSADO OS CONDENA

Li hoje o seguinte texto de Eduardo Guimarães postado em seu blog “Cidadania.com”:

“Vocês devem – ou deveriam – estar pela tampa com a imprensa golpista do eixo São Paulo-Rio com essa história que ela não pára de masturbar sobre o “risco à democracia” que estaria contido na intenção supostamente oculta de Lula de fazer aprovar de alguma maneira no Congresso (via PEC) proposta que lhe permita conseguir um terceiro mandato para si.

Apesar das reiteradas negativas do presidente, a imprensa não se satisfaz. Acha que é pouco ele dizer que não disputará terceiro mandato nenhum. Não diz claramente o que ele deveria fazer, mas explica uma vez e outra e mais outra quão danoso seria para a democracia mudar as regras do jogo com este em andamento, ou seja, permitir que um presidente altere a Constituição para poder disputar um novo mandato.

Essa ojeriza da imprensa a mudança constitucional que permita a um governante disputar mandatos consecutivos nas urnas também se manifestou estrepitosamente durante o processo recentemente ocorrido na Venezuela, no qual o presidente Hugo Chávez conseguiu o direito de disputar novas reeleições.

Atado a esta maldita memória que me tortura, porém, sou tomado de acessos de gastrite cada vez que leio ou escuto os empregadinhos das famílias Marinho, Frias, Civita e Mesquita – bem como seus penduricalhos no resto da mídia – vituperarem contra mudança das regras do jogo com ele em andamento. Sofro o diabo com essa conversa fiada.

Sabem por que? É que me lembro do que essa mesma mídia dizia à época em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mudou a Constituição – inclusive por meio de compra de votos de deputados para votarem com o governo – a fim de poder se candidatar à reeleição.

Jornais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo, entre outros, defendiam apaixonadamente a possibilidade de FHC recandidatar-se sob a mesma mudança das regras do jogo que agora esses veículos dizem ser “atentado à democracia”. E a justificativa era a vontade popular, que agora esses órgãos de imprensa dizem que não importa e que não mais justifica mudança constitucional.

Em 5 de janeiro de 1996, por exemplo, editorial da Folha intitulado “Reeleição Popular” propugnava nesse sentido. Vejam, abaixo, que “gracinha”.

“O apoio de três em cada quatro brasileiros à possibilidade da reeleição para o próximo presidente e futuros governadores e prefeitos mostra que a população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos que vem a se mostrar bons governantes. (...)

O argumento de que a reeleição ensejaria o uso eleitoral da máquina administrativa pelo mandatário – o candidato parece engajado. Afinal, esquece ingenuamente que a ‘máquina’ pode ser igualmente utilizada – como lamentavelmente ocorre amiúde – em prol do candidato de situação, mesmo que não seja ele o mandatário.

Uma eventual emenda de reeleição, ademais, evidentemente não muda a lei para manter um governante. Ela apenas permite que ele se recandidate. Entre a candidatura e a renovação do mandato estará sempre o democrático e o inquestionável veredicto das urnas.”

Hoje, a mesma Folha de São Paulo não quer nem ouvir falar em projetos de lei sobre a realização de um plebiscito para perguntar ao povo se Lula pode ou não disputar um terceiro mandato, mas quando quem governava era FHC e era ele quem desejava mudar a Constituição para poder disputar um novo mandato, o jornal tinha outra opinião.

Leiam, abaixo, trecho do editorial da Folha de 9 de janeiro de 1997 intitulado, mui adequadamente, como “Casuísmo explícito”. Mas só leiam se tiverem estômago forte.

“Esta Folha há muito considera justo o direito de os governantes, inclusive os atuais, disputarem a reeleição. Mas a abrangência da questão, a total ausência de debates esclarecedores e a clara manipulação do tema, visando benefícios meramente eleitorais, tornam cada vez mais indispensáveis que o assunto venha a ser examinado em fóruns amplos e, em seguida, apreciado em plebiscito nacional”

Já o jornal carioca O Globo não queria perder muito tempo com o assunto. Em editorial de 26 de janeiro de 1997 intitulado “O preço da demora”, pedia que se aprovasse logo a emenda da reeleição de FHC para não atrapalhar seu magnífico projeto de nação, que dois anos depois quebraria de novo o Brasil e o faria peregrinar pelos organismos multilaterais de pires na mão.

Leiam e chorem.

“(...). Para essas mudanças são fundamentais as reformas estruturais em andamento: delas dependem a revisão da ação do Estado, enquanto os mecanismos de mercado se tornam cada vez mais presentes no cotidiano dos brasileiros.

Tudo isso está suspenso, enquanto se debate a emenda da reeleição. Trata-se de uma questão política duplamente importante do ponto de vista econômico. Por um lado, a aprovação do direito de reeleição na prática significa a ampliação do horizonte das reformas; por outro lado, é um problemas que deve ser resolvido com rapidez, para que a classe política, o Executivo e o Congresso voltem a se concentrar na agenda das reformas.”

Como vocês vêem, a mídia só engana os desmemoriados, pois o passado dela a condena. Infelizmente, porém, desmemoriados, ao menos no Brasil, costumam ser maioria. E aqueles que, como eu, têm memória, que se danem.

ONTEM E HOJE

Vocês leram, no primeiro editorial da Folha reproduzido acima, o que o jornal achava ontem de mudar a constituição para que o presidente de turno possa disputar a reeleição. A Folha apoiava, como todo o resto da mídia. Dizia ser direito da população reeleger um governo do qual estava gostando etc. Agora, o discurso mudou, porque mudou a corrente político-ideológica que governa.

Vale a pena ler, abaixo, editorial recente da Folha, do último dia 22, curiosamente intitulado “casuímo sem fim”, que mostra como o jornal muda de opinião sempre de acordo com a própria conveniência, o que mostra como essa gente não tem um pingo de seriedade, sendo apenas um bando de gangsters, de mercenários pagos para defender interesses de grupos políticos e econômicos.

“(...) Retomam-se as especulações e as iniciativas em torno de uma terceira candidatura consecutiva para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (...) Mas a confirmação dos índices de popularidade de um presidente, que referendos desse tipo tendem a refletir, em nada se confunde com a prática institucional de qualquer democracia digna desse nome.

Trata-se de assegurar um mínimo de alternância no poder, de respeitar as regras básicas do jogo político e de evitar que ele se torne refém da figura providencial de líderes personalistas. (...)

Se há muito a aprimorar no sistema político brasileiro, certamente o calendário sucessório e o dispositivo da reeleição não fazem parte do que interessa discutir. Que se cogite de mudá-los, conforme a conveniência deste ou daquele político, é um sinal de imaturidade que não condiz com o estado já alcançado pelas instituições do país, mais de 20 anos após a Carta democrática.”

TCU SERÁ O GRANDE INDICIADO NA CPI DA PETROBRAX

Li hoje no blog “FBI Festival de Besteiras da Imprensa” o seguinte texto:

TCU SERÁ O GRANDE INDICIADO NA CPI DA PETROBRAX (SE AS DENÚNCIAS DAS ORGANIZAÇÕES SERRA ESTIVEREM CORRETAS)

“Como disse anteriormente, a matéria de hoje de um dos principais veículos das Organizações Serra, o Globo, sinaliza que R$ 609 milhões foram repassados pela Petrobras a 1.100 Ongs, sem que tenha havido fiscalização.

Como não cabe somente à Petrobras fiscalizar esses repasses, mas sim ao TCU, aos TCEs, às Câmaras de Vereadores e aos Conselhos Municipais da Assistência Social dos municípios que receberam esses repasses, penso, humildemente, que sobrará, ao final de contas, para o TCU - que, aliás, é um Tribunal de Contas.

"Só com organizações da sociedade civil, foram 230 convênios de R$ 83 milhões", dizem indignadas (imagino) as jornalistas que fizeram a matéria. Não sei o que elas acharam muito: se 230 convênios ou a grana.

Na época do Fernando Henrique, grande parte da política de assistência social era executada por ONGs, sob a batuta da Dona Ruth.

Nessa época, eram muito mais de 230 convênios e muito mais do que R$ 83 milhões. O Globo deve ter feito alguma matéria criticando, na ocasião, também o Governo FHC e eu devo ter perdido essa parte...

Não tive acesso à matéria completa que está disponível apenas para assinantes (cancelei minha assinatura do jornal digital faz tempo). Gostaria de saber se elas mencionam a responsabilidades desses entes que mencionei acima na tarefa de fiscalizar a aplicação e, mais ainda, a eficácia dos recursos repassados. Penso que não.

Deve haver uma orientação do Serra, para todos os veículos das Organizações, para que nunca se mencione que assistência social, saúde e educação básica são de responsabilidade dos municípios e, em alguns casos, como em São Paulo, do Governo do Estado.

Porque se as Organizações Serra explicarem que a execução dessas políticas é de responsabilidade das Prefeituras e Governos de Estados, como fará para desgastar o governo Lula nessas áreas?

Logo, além de não explicar, tem que deixar implícito que a responsabilidade é do Lula e do PT, como nesse caso.

Afinal, para que servem as Organizações Serra senão para tentar - sem conseguir, ainda - desgastá-lo???”

OBAMA E ISRAEL: FALA MACIA E PORRETE À MÃO

Li hoje no site “Vermelho” o seguinte texto de Uri Avnery, reproduzido do site “Agência Carta Maior”:

“Barack Obama tem sido frequentemente comparado a Franklin Delano Roosevelt, mas parece ter copiado página de livro de outro Roosevelt: o presidente Theodore Roosevelt, o qual, há 108 anos, bem preveniu os sucessores: ''Falem macio. E tenham um grande porrete sempre à mão!” Essa semana, o mundo viu como opera a coisa.

Obama sentou-se no Salão Oval, ao lado de Binyamin Netanyahu, e falou aos jornalistas. Estava sério, mas relaxado. A linguagem corporal mostrou claramente: Netanyahu curvado para a frente, ansioso, como caixeiro viajante que tenta empurrar sua mercadoria; Obama recostado, tranquilo e seguro de si. Falou macio, muito macio. Mas ali, às costas, escondido atrás da bandeira, havia, sim, um grande porrete.

O mundo, é claro, quis saber o que aconteceu entre os dois, no encontro a sós.

De volta a Israel, Netanyahu muito fez para apresentar o encontro como grande sucesso. Agora, depois de apagados os holofotes e enrolado o tapete vermelho, pode-se repensar o que realmente todos vimos e ouvimos.

Como seu maior sucesso, Netanyahu enfatizou a questão do Irã. ''Chegamos a perfeito acordo'', anunciou ele repetidas vezes.

Mas... que acordo? Acordo sobre o quê? Sobre a necessidade de impedir que o Irã alcance ''capacidade nuclear militar''.

Calma. O que é isso? Ouvimos aí a palavra ''militar''? Mas... Até agora, todos os governos israelenses só fizeram repetir que deveriam impedir que o Irã alcançasse qualquer capacidade nuclear. A nova fórmula, portanto, significa que o governo de Netanyahu já aceitou que o Irã tenha capacidade nuclear ''não-militar'' – que jamais está muito longe de capacidade nuclear ''militar''.

E essa não foi a única derrota de Netanyahu, na questão iraniana. Antes de viajar, ele havia exigido que Obama concedesse ao Irã apenas três meses de prazo, ''até outubro''; depois disso, ''todas as possibilidades estariam sobre a mesa''. Um ultimato, que incluía ameaça de ataque militar.

Tudo isso é letra morta. Obama disse que manterá conversações com o Irã até o final do ano; e que, depois disso, avaliada a nova situação, pensará sobre os desdobramentos. Se Obama concluir que não houve progresso, tomará outras medidas, inclusive novas sanções, mais severas. A opção militar sumiu.

É verdade que, depois do encontro, Obama disse a um jornal que ''todas as possibilidades estão sobre a mesa''. Mas o fato de que não usou essa fórmula na presença de Netanyahu fala muito, muito claramente.

Ninguém duvida de que Netanyahu pediu licença para atacar o Irã, ou – no mínimo – pediu licença para ameaçar. Obama respondeu-lhe um claro e completo ''não''. Obama decidiu que é preciso evitar que Israel ataque o Irã. O governo israelense foi muito inequivocamente informado dessa decisão. Para garantir que a mensagem seria adequadamente recebida, Obama mandou o chefe da CIA a Israel, portador de exatamente a mesma mensagem, a ser transmitida a todos os líderes israelenses.

Os planos israelenses para ataque militar ao Irã foram retirados da mesa – se é que algum dia lá estiveram.

Netanyahu queria ligar a questão iraniana à questão da Palestina, por via torta e conexão negativa: enquanto persistisse a ameaça iraniana, não se negociariam temas palestinos.

Aqui também, Obama pôs reta a via torta de Netanyahu e estabeleceu uma conexão positiva: progresso na questão palestina é precondição para progresso na questão iraniana. É o que faz sentido: a Palestina não resolvida leva lenha à fogueira da questão iraniana; dá ao Irã uma razão para ameaçar Israel; e fragiliza a oposição de Egito e Arábia Saudita, contra as ambições do Irã.

A principal mensagem de Obama teve a ver com outra questão, que essa semana voltou ao centro das discussões: as colônias nos territórios ocupados.

A palavra ''colônias'' praticamente desaparecera durante o reinado de Bush Filho. É verdade que todos os governos dos EUA sempre se opuseram à ampliação das colônias. Mas desde a fracassada tentativa de James Baker, secretário de Estado de Bush Pai, de impor sanções a Israel, nunca mais ninguém se atrevera a atacar as colônias. Negociam em Washington e constroem colônias na Palestina. Mentem em Jerusalém e constroem colônias na Palestina.

Como diz um velho palestino: “Negociamos a partilha da pizza, enquanto Israel devora a pizza.''

É preciso repetir sempre: as colônias nos territórios ocupados são desastre para os palestinos; são desastre para a paz; e são duplo e triplo desastre para Israel.

Primeiro, porque o principal objetivo daqueles prédios é tornar impossível qualquer Estado palestino; assim, se torna impossível, para sempre, qualquer paz. Segundo, porque a construção daqueles prédios suga as energias de toda a economia de Israel e devora recursos que deveriam ser usados para socorrer os israelenses mais pobres. Terceiro, porque as colônias minam a legalidade do Estado de Israel, aceleram a metástase do câncer do fascismo e empurram todo o sistema político israelense na direção dos projetos da direita.

Portanto, Obama está certo, ao dar prioridade à questão das colônias construídas nos territórios ocupados antes de qualquer outra; antes, até, das negociações de paz. A imediata paralisação de qualquer construção nas colônias é questão primeira. Quando um corpo esvai-se em hemorragia, é preciso conter a hemorragia antes de poder tratar qualquer doença. Ou o paciente morre, e não haverá o que salvar. Levar os palestinos a esse ponto é exatamente o objetivo de Netanyahu.

Por isso Netanyahu não aceitou a exigência de paralisar a construção de colônias. Aceitasse, sua coalizão de governo estaria esfacelada, e ele seria obrigado a renunciar; ou teria de construir outro governo, com o partido Kadima. A infortunada Tzipi Livni, que até hoje não achou lugar na oposição, sem dúvida agarraria furiosamente a oportunidade.

Netanyahu tentará usar o Barak israelense contra o Barack norte-americano. Com a ajuda de Ehud Barak, Netanyahu já está montando a cenografia de ''demolir os núcleos avançados'' [primeiras construções de novas colônias], para tentar distrair a atenção, enquanto prosseguem as construções nas colônias já existentes. É preciso esperar para ver se a encenação funciona, e se as lideranças dos judeus das colônias fazem o que o script prevê que façam. Um dia depois do regresso de Netanyahu, Barak demoliu pela sétima vez (!) Maoz Esther, um núcleo avançado de uma nova colônia, de sete barracões de madeira. Em algumas horas, os colonos voltaram e reergueram os barracões.

(O exército de Israel construiu no Negev uma vila árabe 'cenográfica', para treinamento. Essa semana, corria em Israel uma piada: o exército construíra também o núcleo avançado Maoz Esther, com soldados fantasiados de colonos. Sempre que os EUA exijam, eles derrubam tudo. Imediatamente depois, os soldados reconstroem tudo... até nova pressão dos EUA.)

Recusar-se a paralisar as construções nas colônias implica recusar-se a aceitar a solução dos Dois Estados. Netanyahu apenas brinca com slogans vazios. Falou sobre ''dois povos vivendo em paz''... mas não fala do Estado palestino. Um de seus assessores chama de ''infantilidade'' a exigência de dois Estados.

Claro que não é infantilidade. Já está comprovado que negociações – cujas conclusões são sempre conhecidas de antemão – não levam a parte alguma. O acordo de Oslo entrou em colapso, por isso. Netanyahu já conta com o fracasso da próxima rodada de negociações.

Netanyahu ainda não apresentou seu plano de paz. Não porque não tenha plano, mas porque sabe que ninguém aceitará o plano que tem.

O plano de Netanyahu é: controle israelense total sobre todo o território entre o Mediterrâneo e o Jordão. Construção ilimitada de colônias em todo o território. Soberania limitada para alguns poucos enclaves de palestinos, super densamente povoados e cercados completamente por colônias de judeus. Jerusalém inteira, como território de Israel. E nenhum refugiado palestino jamais voltará a pisar na Palestina.

Ninguém comprará esse pacote, no planeta. Então, Netanyahu, vendedor profissional, está cuidando de embrulhá-lo em embalagem atraente.

Por exemplo: os palestinos ''se autogovernarão''. Mas... onde?! Onde estão as fronteiras? Netanyahu também já disse que os palestinos não terão controle sobre ''o espaço aéreo'' nem sobre ''os postos de fronteira''. Estado sem exército e sem controle nem sobre o espaço aéreo nem sobre as fronteiras... não é Estado; é um bantustão, como os que foram criados pelos racistas do regime de apartheid na África do Sul.

Não me surpreenderei se, em futuro próximo, Netanyahu começar a chamar essas reservas cercadas para nativos, de ''Estado palestino''.

Enquanto isso, ele tenta ganhar tempo e vai adiando o mais que possa as negociações de paz. Exige que os palestinos reconheçam Israel como ''Estado do povo judeu'', desejando e esperando que os palestinos rejeitem a ideia com as duas mãos. Os palestinos jamais reconhecerão Israel como ''Estado judeu'', porque esse reconhecimento implicaria desistir de sua exigência fundamental – a volta dos refugiados –, além de ser facada nas costas dos 1,5 milhão de palestinos que são cidadãos israelenses.

Netanyahu está pronto a aceitar a proposta de Obama, de envolver outros Estados muçulmanos no processo de paz – ideia que já foi repetidamente rejeitada por todos os governos israelenses até hoje. Será só mais um coelho que tirará da cartola, de tempos em tempos, para adiar tudo. Antes de que dúzias de Estados árabes e mais de 50 Estados muçulmanos resolvam aderir às 'negociações', passar-se-ão meses, talvez anos.

Netanyahu, é claro, pedirá a cada um deles um pagamento adiantado: a ''normalização das relações com Israel'' – o que dará em nada, porque nem o mundo árabe nem o mundo muçulmano jamais cederá seu principal trunfo, em troca de nada. Só contaram a Netanyahu. Mas é assim que Netanyahu trabalha. Ponto. Parágrafo.

E Obama? Obama tem algum novo plano de paz? Se se consideram suas declarações dos últimos dias, parece que tem.

Quando fala em ''dois Estados para dois povos'', praticamente aceita o plano de paz que já é consensual em todo o mundo: conforme os ''parâmetros'' apresentados por Bill Clinton em seus últimos dias na presidência; conforme o núcleo da proposta de paz da Arábia Saudita; e conforme os planos de paz do movimento israelense pela paz (minuta de acordo de paz do movimento Gush Shalom, a iniciativa de Genebra, a declaração Ayalon-Nusseibeh e outros.)

Em resumo: um Estado da Palestina, viável e soberano, ao lado de Israel, nos limites das fronteiras de antes de 1967 (com pequenas trocas negociadas de territórios); a demolição de todas as colônias que estejam fora do território israelense; Jerusalém Leste como capital da Palestina e Jerusalém Oeste como capital de Israel; solução aceitável para os dois lados interessados, para o problema dos refugiados; ligação segura entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza; e acordos que garantam a segurança dos dois Estados.

Ao mesmo tempo, em todo o mundo cresce o consenso de que o único modo de fazer a roda da paz voltar a andar é Obama divulgar seu plano de paz e conclamar os dois lados a aceitá-lo. Se for preciso, por referendos populares.

Obama pode fazer isso no discurso previsto para o Cairo, dentro de duas semanas, em sua primeira visita presidencial ao Oriente Médio. Não por acaso, a visita não começará em Israel – gesto praticamente sem precedentes, em se tratando de presidente dos EUA.

Para tanto, Obama tem de estar preparado para enfrentar o lobby israelense. Parece estar. O último presidente dos EUA a desafiar o lobby foi Dwight D. Eisenhower – que obrigou Israel a devolver o Sinai, imediatamente depois da guerra de 1956. “Ike” era tão popular, que o lobby não o assustava. Obama não é menos popular. Talvez o lobby também não o assuste.

Como ”Teddy” Roosevelt ensinou: quando se tem um porrete, não é preciso usá-lo. Com porrete à mão, pode-se falar macio.

Espero, sim, que Obama fale macio – mas com clareza e sem ambiguidades.”

UM SETOR QUE TUDO PODE

Li hoje no site Direto da Redação o seguinte artigo de Mário Augusto Jacobskind. O autor é correspondente do semanário uruguaio “Brecha”:

“A sociedade civil do continente está se aprofundando na questão da mídia e não aceita que os espaços midiáticos continuem sob o domínio absoluto de um patronato que tudo pode. No Brasil, o tema da democratização dos meios de comunicação está na ordem do dia. O patronato não aceita nem discutir e responde sempre com o argumento, confundindo liberdade de imprensa e expressão com liberdade de empresa.

Vale então o registro do que acabou de acontecer na Bolívia, até porque este tipo de informação dificilmente é divulgado nos espaços midiáticos conservadores. Por lá, o presidente Evo Morales aprovou decreto reservando espaços dos meios de comunicação para a livre opinião dos jornalistas e outros trabalhadores ligados a sindicatos de imprensa. O porta-voz da Presidência, Iván Canelas, revelou que todas as opiniões serão assinadas e os meios impressos deverão fornecer o mesmo espaço que se destina aos editoriais. No caso de rádios e televisões, serão disponibilizados três minutos para uso diário.

Alguém deve estar perguntando: mas quem garante que os profissionais de imprensa que emitirem opinião contrária ao da empresa não serão vítimas de represália? Prevendo essa possibilidade, o decreto proíbe qualquer ação repressiva contra quem expôs ponto de vista divergente ao da empresa onde trabalha.

Não será surpresa se o decreto for criticado pela Sociedade Interamericana de Imprensa, que certamente dirá que a liberdade de imprensa corre perigo na Bolívia. O patronato do setor tenta ignorar um fato concreto: proprietário de veículo de comunicação é diferente de um dono de fábrica de salsichas ou algo do gênero. Antes de o lucro contemplar os seus bolsos, os proprietários de jornais, televisões e rádios têm a obrigação de respeitar a opinião pública e aceitar a pluralidade. Não podem agir como se notícias fossem apenas mercadorias e está acabado.

O Equador é outro país em que a mídia está em debate. No Fórum Equatoriano da Comunicação diversas organizações sociais analisam a proposta de uma nova Lei de Comunicação, que será apreciada pela Assembléia Nacional, que terá até outubro próximo para aprovar uma nova legislação do setor.

O Fórum propõe, entre outras coisas, a divisão eqüitativa dos espaços midiáticos: 33% para os setores público, privado e comunitário. Não se surpreendam, portanto, se em breve a SIP, em parceria com a Organização dos Estados Americanos (OEA) voltar às baterias contra o Equador.

A Argentina também está discutindo uma nova legislação na área midiática. O governo de Cristina Kirchner, que recém enviou projeto para a discussão do tema no Congresso, vem sofrendo duras críticas dos setores conservadores, que se repetem nos diversos meios de comunicação do continente. Ou seja, mesma pauta, mesmos pontos de vista, mesmo tudo, para evitar questionamentos e impedir que a democracia avance nos espaços midiáticos.

No Brasil, o patronato está se armando para evitar que em dezembro próximo, quando será realizada a Conferência Nacional de Comunicação, haja um avanço no processo de democratização dos meios de comunicação.

Como por aqui a mídia hegemônica tudo pode, sem questionamentos, acabou de acontecer um fato lamentável, para variar envolvendo a Rede Globo. Num dos capítulos do seriado Força Tarefa foi abordado o tema milícia, tendo como cenário a comunidade de Rio das Pedras, controlada por paramilitares (milicianos) e teve como ator coadjuvante José Roberto Moreth, mais conhecido como Beto Bomba, no papel de corregedor. O “ator” da Globo, que também preside a Associação de Moradores de Rio das Pedras, foi apontado pelo relator da Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Deputado Marcelo Freixo, como uma das 225 pessoas envolvidas com as milícias. Beto Bomba está sendo investigado pelo Ministério Público e é acusado de homicídio e extorsão. A Globo ainda por cima desrespeitou a legislação que exige o registro profissional de ator.

Será que os responsáveis pelo seriado não sabiam disso? Ou será que como acreditam que a Rede Globo tudo pode, nada acontece, não tem problema algum transformar um marginal como Beto Bomba em ator.

Não é de hoje que a teledramaturgia da Rede Globo faz das suas. Na novela Duas Caras, escrita por Aguinaldo Silva, teve um personagem, Juvenal Portela, interpretado por Antonio Fagundes, que era miliciano. Aguinaldo possivelmente também se inspirou em Rio das Pedras, que na ficção era a Portelinha.

Por estas e muitas outras, os espaços midiáticos não podem agir como bem entendem, visando apenas a corrida desenfreada pelo ibope. E questionar isso não é censura, como muitas vezes acusam os barões da mídia e seus áulicos.”

A EVOLUÇÃO DO EMPREGO PÚBLICO

O Jornal do Brasil publicou ontem a seguinte reportagem de Fernando Mattos, pesquisador do IPEA:

“A evolução recente do emprego público no Brasil revela a importância da expansão do mesmo para a melhoria dos serviços públicos.

Informações sobre o qüinqüênio 2002-2007 revelam que o emprego público municipal cresceu cerca de 27%; o estadual apenas cerca de 7,2% e o federal cerca de 40% no referido período. Tal diferença se explica pelo fato de que foi nos âmbitos municipal e federal, por razões diversas, que se expandiu de forma mais significativa a oferta.

No que se refere especificamente ao período 2002-2007, é interessante destacar que o crescimento do emprego público municipal deveu-se especialmente ao aumento das contratações de professores com formação superior para quinta a oitava séries e para ensino fundamental, dando continuidade a medidas recentes de melhoria na qualificação profissional dos servidores de Educação.

No âmbito federal, o crescimento do emprego público foi de 40% no qüinqüênio em questão, e o mesmo se deu de uma forma bem mais diversificada do que no âmbito municipal, talvez refletindo a maior amplitude de tarefas que se requer do setor público em âmbito federal.

Ciente de que o emprego público cresceu relativamente mais na Região Norte, nossa hipótese é de que uma boa parte desse crescimento deve-se ao aumento da presença do Exército brasileiro na fronteira da Região Norte.

Esta breve descrição revela que a melhoria dos serviços públicos é que explica o aumento do contingente do emprego público. E é justamente isso que se deseja para um país como o nosso: melhoria dos serviços públicos, para que a população possa viver melhor seu cotidiano e para que a Sociedade brasileira possa ser cada vez menos injusta.

A defesa do aumento do emprego no setor público, feita em trabalhos recentes do Ipea, não representa um fim em si mesmo, mas uma forma de se obter melhores e mais amplos serviços para a população brasileira.

Nos últimos tempos, a falta de informações sobre o tema e a postura ideológica de certos segmentos da sociedade brasileira, reverberada por grande parte da mídia e da academia brasileiras, insistiram em dizer que o Estado brasileiro é "inchado". Recentemente, o Ipea divulgou um comunicado da Presidência mostrando ser falsa essa afirmação. O Estado brasileiro, na realidade, é pequeno e sua ineficiência, em boa medida, deve-se justamente à falta de servidores públicos.

A sociedade brasileira precisa discutir de forma mais qualificada a seguinte questão: que Estado queremos? Se for um Estado que possa prover segurança pública, saúde e educação mais qualificadas e includentes, melhor assistência social e previdenciária, Justiça mais célere e qualificada, temos que colocar no centro do debate a questão do emprego público."

UMA EXPANSÃO MENOS ASSIMÉTRICA

Ontem, o jornal Correio Braziliense publicou a seguinte reportagem de Alon Feuerwerker:

“A convite do Exército, participei esta semana de visita à região de São Gabriel da Cachoeira, a capital de fato da área conhecida como Cabeça do Cachorro, no extremo noroeste do Brasil. Ali fazemos limite com a Colômbia e a Venezuela. Além de São Gabriel, pude conhecer o pelotão de São Joaquim, na fronteira colombiana, colado a áreas de ação das Farc (Forças armadas Revolucionárias da Colômbia) e, logicamente, do narcotráfico.

Apesar das sabidas dificuldades materiais das Forças armadas, fica visível para quem lá vai a ênfase no deslocamento da ação militar brasileira estratégica rumo ao norte. Um sinal dos tempos é o movimento para a Amazônia de unidades antes sediadas no Rio de Janeiro.

Não é novidade a posição especial da Amazônia no pensamento militar brasileiro. O novo está em que as Forças armadas transformam de fato, e aceleradamente, a preocupação em ação. Cresce o investimento nos pelotões de fronteira, ainda que dentro dos apertados limites orçamentários. Duas decisões recentes potencializaram essa orientação da caserna: o decreto presidencial 6.513, de julho passado, que determinou o reforço da presença militar nas terras indígenas, e as condições colocadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) quando confirmou a demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do Sol.

Com a decisão do STF, o Exército viu garantida legalmente a liberdade de fazer movimentos em terras indígenas, sem o que não poderia cumprir sua missão constitucional em defesa da integridade e da soberania do país. Aliás, uma preocupação dos comandantes na Amazônia é com possíveis pressões externas e internas que tentem “relativizar” a decisão do Supremo. Considerando o estágio atual da discussão na opinião pública, é bom mesmo ficar de olho. A tentativa de demonização da presença militar brasileira na região é a outra face do entreguismo.

Infelizmente, nota-se entre nós a costura de um discurso no qual o Brasil é apontado como “pouco capaz” de cuidar da Amazônia. Em geral, o “cuidar bem” é traduzido por deixar a floresta intocada. Como se algum povo, em algum momento de sua história, tivesse conseguido progredir sem alterar em certo grau o meio ambiente. Para agravar a situação, aceita-se aqui um debate em torno da ideia de “nações” indígenas. Como se os muitos grupos originais não integrassem a nacionalidade brasileira.

Contra essas ameaças o Exército está fazendo a parte dele. Basta ir a São Gabriel da Cachoeira, lugar de grande concentração e diversidade de comunidades indígenas, e constatar que ali as Forças armadas se estruturam com base na integração. Na tropa e fora dela. Os soldados são majoritariamente índios. E no hospital militar local (o único da área), mais de 80% da população atendida é de índios.

Mas o resto do país, será que também está fazendo a sua parte? Há dúvidas. A presença militar é um vetor importante na garantia de autoridade sobre o território. Mas soberania real só se mantém com população e desenvolvimento. O vácuo populacional é a porta de entrada para todo tipo de problema, começando pelo crime e terminando na vulnerabilidade diante da cobiça internacional. É um debate que o Brasil precisa fazer. Como ocupar o norte de modo não assimétrico. Não só com soldados, mas com povo, todo tipo de povo brasileiro.

Nas condições concretas do Século 21, isso só será possível dentro de parâmetros sociais e ambientais coletivamente aceitáveis, e seria adequado se o vetor dessa expansão fosse a agricultura familiar.

Lamentavelmente, os nossos movimentos pela reforma agrária estão presos numa armadilha, em parte por causa da aliança com o ambientalismo global. Em vez de pressionarem o governo pela distribuição e regularização de terras na Amazônia, desperdiçam tempo e energia na luta contra a grande propriedade produtiva, contra o agronegócio. Estão encalacrados num impasse, enquanto o imenso desafio nacional da expansão para o norte carece de uma força social transformadora à altura da grandiosidade da missão.”

domingo, 24 de maio de 2009

AS PRIVATIZAÇÕES DO GOVERNO FHC E SUAS VISÕES DA PETROBRÁS

Li hoje no blog “de um sem mídia” o seguinte artigo de Elton Leão, da Associação dos Engenheiros da Petrobras-AEPET, publicado no Correio da Cidadania:

“Sou empregado da Petrobrás há 19 anos e venho através deste espaço comentar a minha visão do que foi o idealismo do PSDB para com a Petrobrás no período de FHC.

De início, como todos sabem, o PSDB implantou no País um vasto programa de privatizações, colocando prioridades em setores de pouca relevância e posteriormente avançando sobre os braços fortes das empresas brasileiras.

Bancos estaduais, ferrovias, siderúrgicas, telecomunicações, energias, entre outras. Banco do Brasil, CEF (Caixa Econômica Federal), Petrobrás e Previdência Social eram as próximas instituições a serem negociadas. Graças à entrada do presidente Lula neste meio, e dos partidos de oposição, o processo foi interrompido.

Mais especificamente com a Petrobrás, o processo foi iniciado. Porém, o PSDB pensava em como poderia privatizar a Empresa sem que a população criasse resistência ao processo. Como fazer, então, com uma Empresa símbolo nacional desde a década de 1950?

Tarefa difícil, porém, nada impossível para o grupo de FHC. Em 1997, Joel Rennó, que era o presidente da Petrobrás na época, aquele francês naturalizado brasileiro, contratou uma consultoria internacional para orientar a empresa sobre como privatizar sem que a população percebesse a manobra. Aliás, tentou até mudar o nome da Petrobrás para Petrobrax, para que os gringos pudessem pronunciar melhor o nome da empresa.

Esta consultoria orientou o seguinte: 1) transformar a empresa numa holding; 2) não privatizar a empresa no todo, mas dividi-la em unidades independentes, a que chamaram de `Unidades de Negócios-UN`, as quais, aí sim, poderiam ser privatizadas; ou seja, não seria a `Petrobrás` que estaria sendo privatizada, mas a Unidade A, B ou C. Foi o artifício que a consultoria sugeriu.

O processo foi iniciado, e a Fronape (Frota Nacional de Petroleiros) foi uma das primeiras a serem preparadas. Mas, neste caso, o processo não chegou a ser concluído. Hoje ela existe com um CNPJ paralelo, com a denominação de Transpetro. A refinaria de Porto Alegre, Alberto Pasqualini (REFAP), foi negociada com a Repsol argentina/espanhola, e assim as demais seriam pulverizadas.

Se se observar o organograma da empresa, é possível verificar que o que antes eram `superintendências` hoje são `Unidades de Negócios` (passíveis de vendas). Temos UN-Reduc (RJ), UN-Replan (SP), UN-Regap (MG), UN-Revap (SP), UN-AM (AM), UN-RNCE(RN), UN-BA(BA), UN-BC (Bacia de Campos-RJ), UN-Rio (Macaé) e a mais recente UN-BS (Bacia de Santos), onde se encontram as reservas do pré-sal.

Para que as privatizações das UN fossem efetivadas, o `excesso` de contingente teria que ser minimizado, e com isto a empresa terceirizou o máximo que pôde a força de trabalho. Reduziu-a de 60 mil empregados em 1990 para 32 mil em 2000. A mão-de-obra terceirizada era despreparada e, junto com a falta de repasses de recursos para manutenção preventiva, observaram-se os maiores acidentes da história recente da Petrobrás: o derrame de óleo da baía da Guanabara, o derrame de óleo em Paranaguá e o mais crítico, pelas perdas humanas, o afundamento da P-36.

Portanto, esta é a minha visão do que o PSDB e afins pensam da Petrobrás e do mercado de petróleo brasileiro. Espero ter contribuído.”

SESSÃO DE AUTO-AJUDA

Li hoje no site “Vi o mundo” o seguinte texto escrito pelo jornalista Luiz Carlos Azenha::

“Frequentemente eu encontro leitores deste e de outros blogs na rua. Em geral muitos deles lamentam a dureza de se contrapor à mídia corporativa, que tem uma aparência muito mais sólida que o exército de Brancaleone dos blogs "independentes" ou "progressistas" da internet.

Depois de quase quarenta anos de Jornalismo, respondo: calma, gente. Vamos devagar, mas sempre em frente. A graça está em guerrear, nem toda vitória é definitiva, muitas derrotas são necessárias antes de uma conquista.

A primeira sugestão que faço é que não se fique dependente do reconhecimento da mídia corporativa em relação ao nosso trabalho. "Eles" jamais vão reconhecer que estão perdendo público -- o que é possível auferir matematicamente -- ou que nós estamos ganhando. Falo pelo Viomundo, que tem um medidor de audiência bastante confiável, da Hostnet: a audiência é crescente, desde que este site debutou, quando eu ainda morava em Nova York.

Hoje pipocam propostas para algum tipo de organização envolvendo a blogosfera progressista, talvez nos moldes do movimento que, quando amadureceu, teve papel essencial na eleição de Barack Obama, nos Estados Unidos. Sim, o evento anual da blogosfera progressista dos Estados Unidos é o maior do gênero, atrai patrocinadores e políticos de todos os tipos, é um sucesso comercial e jornalístico.

Àqueles que duvidam eu também costumo dizer: todos os grandes movimentos sociais começaram em torno de meia dúzia de pessoas. Não duvidem de seu próprio poder. Não duvidem do impacto que UM SÓ e-mail de protesto tem naquele que o recebe, especialmente se contém uma crítica de qualidade, verdadeira, justa. Não duvide da sua presença em uma manifestação de 100 pessoas, da faixa que você mandou pendurar, da camiseta que decidiu usar.

A sociedade é um ser vivo e a sua disposição de mudá-la não terá impacto imediato: tudo obedece a um lento processo de amadurecimento. Lembram-se quando se pregava a abolição pura e simples do Bolsa Família? Faz tão pouco tempo, não faz? Pois é, hoje os tucanos tentam se passar por pais do Bolsa Família. Isso reflete uma mudança na sociedade brasileira, que já se deu conta de que os projetos sociais são importantes para ampliar o mercado interno, que reduziu enormemente o impacto da crise financeira mundial no Brasil.

Ou seja, aquela mensagem que você deixou em um site defendendo o Bolsa Família fez seu trabalho. Se sua argumentação foi boa e alguém leu, você ajudou a mudar a sociedade brasileira.

A terceira coisa que digo aos meus interlocutores desanimados é que precisamos construir nosso próprio espelho. É óbvio que numa sociedade complexa e midiatizada a gente precisa ver o resultado de nosso engajamento social. Mas a mídia corporativa se nega a refletir esse resultado, uma vez que remamos contra a maré. Você só será reconhecido se remar em favor das Idéias "certas": apoio à ideologia econômica neoliberal, ao Gilmar Mendes, ao estado mínimo, à candidatura Serra e à elite política e econômica do Brasil. Aos brancos de olhos azuis.

Construir nosso próprio espelho significa ampliar o alcance de uma rede de informações que atinja a massa crítica de brasileiros. Uma rede formada por blogs, sites, rádios e TVs comunitárias, revistas,editoras, rádios e TVs educativas. É um trabalho de formiguinha, que só vai amadurecer mesmo dentro de uns dez anos.

Eu costumo criticar com frequencia a idéia da auto-estima, que importamos dos Estados Unidos. Você não está bem? A culpa é da auto-estima. Bateu o carro? É a auto-estima. Engordou? É a auto-estima. Tenho comigo que muito de nossa felicidade diária depende da organização social a que estamos submetidos. E essa em que vivemos, calcada na sobrevalorização do indivíduo, precisa nos deixar eternamente insatisfeitos para que a gente tente se satisfazer consumindo. Comprando. Acumulando. É uma sociedade escravocrata, em que poucos mandam e muitos obedecem. Em que a elite se acostumou a usar o Estado para manter seus privilégios políticos e econômicos.

Num país assim, o recurso à auto-estima desloca a crítica -- da sociedade para o indivíduo. Em vez de mudar o mundo, você é convocado a mudar apenas a si mesmo, lendo um livro, malhando ou dizendo diante do espelho: "Sou bom o suficiente, estou bem o suficiente e me importo" (Bordão do programa americano Saturday Night Life, que brincava com a auto-estima).

Não seja enganado. Mudar o mundo é essencial. É tarefa de todos. E você vai se sentir muito melhor se se der conta de que é capaz de fazê-lo. De que você também faz a diferença.

Acabou a sessão de auto-ajuda. Remeta 100 reais para a conta bancária do Viomundo.”

CAMPOS BAIANOS DA CPI

Li hoje no site “Terra Magazine”, do jornalista Bob Fernandes, a seguinte reportagem de Vitor Hugo Soares, jornalista, editor do site-blog “Bahia em Pauta”:

“Ninguém precisa procurar videntes com bola de cristal ou baralho em cima da mesa, nem mesmo ir a um terreiro em busca de sinais sobre o futuro da CPI da Petrobrás, como denominam os senadores que a convocaram (ou a "CPI dos Tucanos", como preferem o presidente Lula e seus seguidores). Basta prestar atenção nos primeiros noticiários e análises, ou nos movimentos de personagens de peso no Congresso e no poder federal esta semana - em Pequim, em Salvador, em Beirute, Ankara e Brasília - para se deduzir: algumas das mais acirradas batalhas políticas e pessoais da nova CPI que se anuncia serão travadas em campos da Bahia.

E isso não tem nada a ver com as colinas de Pirajá, das heróicas lutas do 2 de Julho, nem mesmo com o lendário poço do campo de Lobato, na área suburbana, onde o óleo jorrou pela primeira vez no País, e, hoje, abriga população tão pobre e abandonada quanto antes. Situação, diga-se a bem da verdade, elevada a grau de tragédia nos últimos dias de temporais que arrasam a capital e zonas metropolitanas.

Mas deixemos de lado a "conversa de cerca Lourenço", como dizem os soteropolitanos. Vamos aos fatos e situações atuais mais diretamente ligados aos movimentos e manobras com vistas à CPI, que devem ganhar mais intensidade a partir da segunda e terça-feira próximas.É quando o presidente Lula deve desembarcar em Salvador para um encontro com os colegas da Venezuela, Hugo Chavez, e do Senegal, Abdulaye Wade. Participam os três de uma série de eventos e inaugurações ao lado do governador Jaques Wagner, entre os quais a abertura da Semana da Africa na Bahia (TCA) e inaugurações na Universidade Federal do Recôncavo Baiano, em Cachoeira, palco primeiro das batalhas de resistência popular que desembocariam no 2 de Julho da Independência na Bahia. Signos não faltam nesta nova viagem do presidente.

São baianos tanto o presidente da Petrobras - o petista José Sergio Gabrielli -, quanto o diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP) - o comunista Haroldo Lima (PC do B). Este último também no olho do furacão, pois se situam nos limites do órgão que ele dirige, algumas das denúncias mais cabeludas entre as que estão na base da exposição de motivos para a criação da CPI no Senado.

Gabrielli e Lima, seguramente, estão mais que cientes de tudo isso, que por sinal nem começou agora.Vem de longe. Pelo menos desde quando era vivo ainda o senador Antonio Carlos Magalhães, que acusava a Petrobras de fazer política na Bahia, "patrocinando até festa de casamento de bonecas em prefeituras do interior".

Ultimamente, quando se aproxima a batalha eleitoral de 2010, as mesmas acusações partem de outras vozes próximas ou consanguíneas - do senador Antonio Carlos Magalhães Junior e do filho ACM Neto, ou do ex-governador Paulo Souto em manobra de vôo de retorno, todos do DEM. Ou aparentemente distantes, como prefeitos e parlamentares do PMDB ligados ao ministro da Integração Nacional do governo Lula, Geddel Vieira Lima, pilar da base de apoio do governo do petista Jaques Wagner.

Queiram ou não, Gabrielli e Lima sabem do papel de protagonistas que terão de assumir dentro e fora do palco da CPI.da Petrobras. Ambos formam na linha de frente das chamadas esquerdas baianas e no que se poderia chamar de "time titular do Presidente", para ficar na linguagem em moda. Em especial Zé Sérgio (como é chamado em Salvador), o presidente da Petrobras. Formado nas fileiras da antiga Ação Popular (AP), quadro da elite petista atual, respeitado articulador e polemista das lutas estudantis dos anos 70 em Salvador, ex-repórter da equipe pioneira do jornalista Quintino de Carvalho na origem da Tribuna da Bahia, ex-diretor da Faculdade de Economia da UFBA. Reconhecidamente um páreo duro em qualquer parada, se poderia dizer antes da batalha da CPI começar.

Na outra ponta da corda, o senador Antonio Carlos Magalhães Junior, apontado como um dos nomes prováveis para presidir a CPI, diz em entrevista à revista virtual Terra Magazine que não pensa no posto. Suas palavras, porém, revelam que ele não deseja outra coisa., principalmente quando se aproxima o fim de seu mandato e o DEM da Bahia sabe que Gabrielli é um dos nomes mais cotados nas hostes petistas para disputar uma cadeira no senado em 2010.

"A idéia não é fazer palanque eleitoral, é ter uma investigação séria para melhorar os procedimentos da empresa", diz o senador na TM. Na revista Veja, porém, ACM Neto, filho do senador ataca às vésperas do presidente desembarcar em Salvador. Diz que Lula "está se pelando de medo da CPI da Petrobras."

Novas batalhas à vista - e das mais ferozes - em campos baianos.”

UM PROBLEMA DE U$ 681 TRILHÕES: PORQUE A CRISE FINANCEIRA PERSISTE E O DÓLAR COMEÇA A DERRETER

Li hoje no site “Vi o mundo” o seguinte texto escrito pelo jornalista Luiz Carlos Azenha:

“Conheço gente que torce o nariz ao ouvir falar da crise financeira internacional. Gente que não entende nada de economia, nem do linguajar aparentemente complexo usado pelos comentaristas picaretas da mídia corporativa brasileira.

Em primeiro lugar é preciso considerar que "eles" usam um linguajar complicado com o objetivo de PARECER mais inteligentes, mais preparados ou melhor conectados do que você, caro leitor. Daí as constantes referências a "falei ontem com o ministro fulano" ou "estive hoje com o executivo sicrano". É tudo uma tentativa de fazer com que você ouça tudo calado e aceite sem questionar.

Eles são AUTORIDADE. Você, um mané qualquer que está diante do altar (a tela da TV ou o jornal). Quando eles pontificam no jornal, na TV, no rádio, nunca deixam claro que estão expressando apenas um ponto-de-vista, nem revelam que esse ponto-de-vista resulta de uma visão de mundo muito particular. Em geral nossos comentaristas econômicos são neoliberais de carteirinha tanto quanto os patrões e refletem a visão de que tudo o que é relacionado ao estado é uma droga e tudo o que é ligado à iniciativa privada é maravilhoso. A não ser que o estado seja o estado de José Serra: esse, sim, é O estado, que pode cometer um erro ou outro no varejo, mas em geral SÓ ACERTA.

É por isso que admiro o Mike Whitney, do site estadunidense Counterpunch. Com ele não tem BS, o popular bullshit. Ele corta o papo furado dos analistas econômicos e enfia a faca direto no coração dos assuntos que pretende abordar. Ele não esconde sua posição no espectro político. É um cara de esquerda. E a Miriam Leitão? É de direita? É liberal? É patronal?

Na análise que reproduzo abaixo, o Whitney fala dos negócios que considera o veneno do mercado financeiro internacional, conhecidos como CDS, ou credit default swaps. Não se assuste com o nome. Grosseiramente, bem grosseiramente, é a mesma coisa que o "vale" emitido pela vendinha da dona Maria quando falta troco, só que com um nome pomposo e com a "garantia" das melhores firmas dos Estados Unidos. Leia o artigo do Whitney, com tradução do Viomundo e algumas explicações minhas (do Azenha) entre colchetes:

May 22-24, 2009
CREDIT DEFAULT SWAPS, O VENENO DO SISTEMA

por MIKE WHITNEY, no Counterpunch

Em pouco mais de uma década, os negócios com os Credit Default Swaps (CDS) incharam em uma indústria multibilionária que mudou o caráter fundamental do sistema financeiro e aumentou o risco sistêmico em várias ordens de magnitude.

[Lembre-se, é como se a vendinha da esquina da sua casa, em vez de dar o troco, resolvesse emitir "vales" de forma adoidada para toda a clientela, com a garantia de que eles seriam honrados a qualquer momento, em troca de mercadoria]

Os CDS, que foram criados originalmente para reduzir o potencial de perdas com dívidas não honradas, se tornaram uma vaca leiteira para os grandes bancos, gerando mega-lucros. No caso da seguradora AIG, as perdas com as transações em CDS já custaram 150 bilhões de dólares ao povo americano e, ainda assim, não houve uma tentativa séria do Congresso de baní-los de uma vez por todas. Pior ainda, os CDS são a causa-raiz de um risco sistêmico que liga centenas de instituições financeiras, numa conexão letal.

[As vendinhas de outros bairros também decidiram emitir "vales", em vez de devolver o troco]

Os contratos de CDS não passam por um mercado centralizado, nem são regulamentados pelo governo. Isso significa que ninguém sabe se quem emite os CDS pode pagar o que promete ou não. É um esquema de pirâmide de primeira ordem. A AIG [a maior seguradora dos Estados Unidos] é um bom exemplo de companhia que explorou esse sistema e depois fugiu com alguns milhões em lucros. Ela vendeu muito mais CDS do que poderia cobrir e então -- quando a dívida começou a acumular até os olhos -- correu para o Fed [o Banco Central americano] em busca de um resgate multibilionário.

[Quando os clientes das vendinhas foram resgatar os vales, trocar os papéis por mercadoria, as vendinhas de sua cidade ficaram sem mercadoria. E correram em busca de ajuda do governo para poder honrar os compromissos]

O presidente do Banco Central, Ben Bernanke, mais tarde se disse furioso com o fiasco da AIG, mas isso não o impediu de jogar as perdas nas costas do público, colocando o contribuinte como garantidor das apostas ruins da AIG. Tenha em mente que a AIG estava vendendo papel com garantia de capital ZERO, uma atividade equivalente a falsificar dinheiro. Ainda assim, ninguém foi indiciado ou processado pelo caso. Fraudar clientes e empurrar a conta para o Zé da Silva é uma regra de Wall Street.

[O governo Lula -- não seria o governo Serra, certo? -- pegou o dinheiro que você paga em impostos, comprou mercadoria e despachou para as vendinhas para tapar o rombo. Mas nada fez para ACABAR COM A EMISSÃO DE VALES]

Os CDS formaram uma teia que cobre todos os cantos do sistema financeiro, juntando bancos e outras instituições financeiras de uma forma que, se um falir, outros vão junto. É isso o que significa o "muito grande para falir", um eufemismo que se refere ao emaranhado de negócios com esses papéis que se espalhou -- apesar do risco -- de forma que um punhado de banqueiros pode acumular lucros obscenos. Os CDS se tornaram a galinha dos ovos de ouro do cartel de bancos; uma locomotiva geradora de lucro sem risco que transfere riqueza pública para especuladores de alto risco. Não fosse pelos lucros turbinados nas transações com os derivativos (o CDS é um dos derivativos), muitos dos bancos já teriam falido.

[Com a garantia de que o governo vai ajudar sempre que houver problemas, os donos das vendinhas continuam a emitir vales em vez de dar o troco. Como os clientes APARENTEMENTE não perderam nada, eles continuam aceitando os vales. Mal sabem os clientes que, na verdade, é o dinheiro do imposto deles que está sustentando a emissão de vales]

Do Dr. Ellen Brown:

"Os CDS são o derivativo mais comum. São apostas entre duas partes se uma companhia vai ou não honrar os seus títulos. Num negócio típico, o "comprador de proteção" lucra se a companhia não honrar seus compromissos dentro de um certo período de tempo, enquanto o "vendedor de proteção" recebe pagamentos periódicos por assumir o risco".

[É como se as vendinhas apostassem entre elas e com terceiros se serão ou não capazes de honrar os vales que emitiram. Estes são os CDSs. Mas, lembre-se, as vendinhas lançam CDSs certas de que, se der confusão, poderão contar com o resgate do dinheiro público]

"Em dezembro de 2007, o Banco de Compensação Internacional (conhecido pela sigla BIS, em inglês) estimou em 681 trilhões de dólares os negócios com derivativos -- dez vezes mais o PIB de todos os países do mundo combinados.

(fonte: "Credit Default Swaps: Evolving Financial Meltdown and Derivative Disaster Du Jour", Dr. Ellen Brown, globalresearch.ca)

Os números são de confundir a cabeça, mas são reais, assim como as perdas, que eventualmente serão empurradas para o contribuinte. Sobre isso há certeza.

O secretário do Tesouro Timothy Geithner recentemente pediu maior regulamentação, mas é apenas relações públicas. Geithner é um representante da indústria (bancária) cuja maior qualificação para o cargo foi sua lealdade aos banqueiros. Ele não tem qualquer intenção de aumentar a regulamentação ou apertar a supervisão. Toda a conversa sobre mudança é uma forma de dar satisfações ao público enquanto ele tenta sabotar as tentativas do Congresso de re-regulamentar o mercado de derivativos.

Nas próximas semanas, Geithner provavelmente vai anunciar uma série de "novos produtos" da reforma, acompanhados do tradicional discurso sobre mercados livres, inovação e da "necessidade de proteger o interesse público". É tudo farsa. Afortunadamente, o pobre Geithner é o pior vendedor do mundo, o que significa que cada palavra do que ele disser será analisada por uma legião de blogueiros tentando entender o que ele quis dizer exatamente. Vai ser difícil para ele jogar um cobertor sobre os olhos do público novamente.

[Nos Estados Unidos, ninguém leva mais a sério os comentaristas econômicos da TV ou dos jornais, com algumas exceções. A mídia do país já se deslocou completamente para a internet, pelo menos aquela que é levada a sério em Wall Street. Os blogs do Wall Street Journal, por exemplo, são frequentados por analistas de mercado que, usando pseudônimos, contam todos os podres dos bastidores e deixam nuas as "otoridades" do governo]

Os swaps [operações que envolvem os CDS] se originaram nos anos 80 como forma de as instituições financeiras se garantirem contra variações repentinas de preços ou flutuações das taxas de juros. Mas os derivativos tomaram um caminho diferente quando o Congresso aprovou o Ato de Modernização do Mercado Futuro de 2000, no governo Clinton.

A lei causou uma grande mudança na forma como os CDS eram usados. A indústria descobriu fórmulas para expandir a emissão de papéis através de complexos instrumentos apoiados em quantidades cada vez menores de capital. Tudo para maximizar os lucros com dinheiro emprestado. Os CDS eram o veículo perfeito; afinal, sem qualquer regulamentação, é impossível saber quem tem o dinheiro para cobrir os papéis. Além disso, apostar no valor de papéis para os quais você não corre risco de perda é divertido; é como fazer uma apólice de seguro da casa de um rival enquanto você espera que ela queime.

Ainda assim, limpar o sistema financeiro não significa acabar completamente com todos os CDS. Existe uma solução e ela não é complicada. É preciso uma estrita regulamentação e supervisão de todos os emissores de CDS para ter certeza de que todos estão suficientemente capitalizados; e é preciso ter uma plataforma central onde são feitos os negócios. Só isso. (Nota do Whitney: Não pode ser a Bolsa Intercontinental, ICE, que é muito conectada aos bancos)

[Ou seja, o governo deveria regulamentar a emissão de vales das vendinhas para ter certeza de que todas tem estoque ou capital para comprar estoque e, portanto, honrar os vales emitidos.]

Geithner está tentando torpedear a reforma nascente ao propor consertos que preservam o monopólio dos bancos na emissão de derivativos. É o carregador de água dos banqueiros. Agora podemos ver porque a indústria financeira é a maior contribuinte das campanhas políticas.

"Muito grande para falir" é um slogan de relações públicas, mas acima de tudo é um mito. Nenhuma instituição financeira é muito grande para sofrer intervenção do governo; para que o governo leiloe os seus bens desvalorizados, para que mude os gerentes e reestruture a dívida. Isso já foi feito uma vez e pode ser feito de novo sem danificar o sistema como um todo.

O problema real é como separar as instituições financeiras saudáveis das insolventes, agora que o sistema está amarrado em uma rede complexa de negócios. Os CDS formam a maior parte dessas transações, o que os torna a principal fonte de risco sistêmico. Para consertar o problema, os contratos atuais deveriam ser desfeitos ou vencer sem renovação, enquanto os novos contratos deveriam ser fechados através de uma central na qual os inspetores do governo tenham poder de decidir se os vendedores estão devidamente capitalizados ou não.

[É o governo, não o dono da vendinha, que deveria decidir se a vendinha pode ou não emitir novos vales. Parece óbvio, mas isso tiraria dos banqueiros todas as "facilidades" para ganhar dinheiro mole]

A solução do Fed -- de garantir todo o sistema financeiro para evitar um novo fiasco como o da Lehman Brothers -- não ataca o problema fundamental; só coloca mais pressão sobre o dólar, que já começa a ceder. A questão agora é se o Congresso vai tirar a cabeça da areia por um tempo suficientemente longo para fazer o trabalho em nome do povo, aprovando leis para re-regulamentar o sistema. Existe uma saída, mas ela requer ação, e rápida. Sem uma correção de rota, a perspectiva de um derretimento do mercado de derivativos aumenta a cada dia.”

O BRASIL NÃO SABE BRINCAR DE CRISE: VEJAM AS PROVAS CONTUNDENTES

Li hoje no blog “FBI - Festival de Besteiras da Imprensa” o seguinte texto:

“Várias notícias, ontem e hoje (23/5/09), nos portais das Organizações Serra, confirmam a minha tese de que o Brasil não sabe brincar de crise.

O mundo todo desabando e leiam só o que o Brasil está aprontando:

FEIRÃO DA CASA PRÓPRIA EM SP JÁ ATRAIU 72 MIL E MOVIMENTOU MAIS DE R$ 1 BILHÃO

A expectativa da Caixa é atrair 150 mil pessoas em todo o feirão. A assessoria diz que o último dia deve ser o de maior movimento e que a meta deve ser atingida

BOVESPA SOBE MAIS DE 3% NA SEMANA E FECHA ACIMA DOS 50 MIL PONTOS

Operadores seguiam apontando o ingresso líquido de recursos de investidores estrangeiros como fator de sustentação ao Ibovespa. Segundo números da própria Bovespa, a tendência foi mantida esta semana mesmo nos dias em que prevaleceu a realização de lucros.

'ECONOMIST': EMERGENTES PODEM SAIR DA CRISE ANTES QUE OS EUA

Um artigo na edição mais recente da revista britânica The Economist afirma que as grandes economias emergentes, principalmente Brasil, China e Índia, podem se recuperar mais rapidamente da crise econômica do que os Estados Unidos.

VASCO 'DESLANCHA' NO FIM E VENCE O ATLÉTICO-GO POR 3 A 0

A nau vascaína segue de vento em popa em sua viagem de retorno à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, em 2010. Neste sábado, em São Januário, a equipe cruzmaltina bateu o Atlético Goianiense, por 3 a 0, gols dos atacantes Elton e Edgar, e do lateral-esquerdo Ramon.

Apesar disso tudo, o tucano Nouriel Roubini, que ganha uma "grana preta" fazendo palestras para os empresários trouxas de todo o mundo, fez o discurso padrão das Organizações Serra, como mostrado no Uol Economia:

ECONOMISTA DIZ QUE BRASIL PERDEU CHANCE DE CRESCER 8% POR GOVERNO DEMAIS E INVESTIMENTO DE MENOS

O economista Nouriel Roubini disse nesta sexta-feira, em seminário em São Paulo, que o Brasil perdeu a oportunidade de crescer de 7% a 8% nos últimos anos a exemplo de outros emergentes porque, apesar de ter potencial, precisa de um governo menor, mais investimento em infraestrutura e maior qualificação do trabalho.

Como ele não conhece nada da economia brasileira, pinçou alguns lugares-comuns tucanos e demos e liquidou a fatura em cima da platéia de trouxas que pagam até R$ 3 mil para ouvir o profeta do apocalipse.

Como ninguém deve ter feito as perguntas certas ao Roubini, o FBI faz:

1. O QUE É UM GOVERNO MENOR? IGUAL DO FHC QUE LEVOU O PAÍS À FALÊNCIA? E GOVERNO DE MAIS? IGUAL AO DO LULA QUE PREPAROU O BRASIL PARA QUALQUER CENÁRIO, INCLUSIVE O DE CRISE, PERMITINDO AO PAÍS SOFRER MUITO MENOS, SAIR MAIS RÁPIDO E CONTINUAR A CRESCER EM 2010?

2. O QUE SIGNIFICA MAIS INVESTIMENTO EM INFRAESTRUTURA PARA CRESCER 8% EM MÉDIA? QUER DIZER QUE INFRAESTRUTURA GERA CRESCIMENTO, INDEPENDENTEMENTE DA CAPACIDADE DE PRODUÇÃO DO PAÍS? INDEPENDENTE DA DEMANDA DO MERCADO INTERNO E DO COMÉRCIO EXTERIOR? POR EXEMPLO, MAIS PORTOS GERAM MAIS CARGAS? MAIS RODOVIAS E FERROVIAS GERAM MAIS PRODUÇÃO?

3. MAIOR QUALIFICAÇÃO NO TRABALHO GERA AUMENTO DO PIB, O QUE SIGNIFICA ISSO? OPERÁRIOS MAIS QUALIFICADOS GERAM MAIS PRODUÇÃO E DEMANDA? O BRASIL SÓ É O SEGUNDO MAIOR EXPORTADOR DE SOJA PORQUE OS TRABALHADORES SÃO MENOS QUALIFICADOS, SENÃO SERIA O PRIMEIRO? OU SERÁ QUE OS EMPRESÁRIOS É QUE SÃO POUCOS QUALIFICADOS PARA SEREM MAIS COMPETITIVOS NO COMÉRCIO EXTERIOR?

SABE QUANDO O ROUBINI VAI FALAR MAL DOS EMPRESÁRIOS QUE SUSTENTAM SUA VIDA NABABESCA DE ENROLÃO PROFISSIONAL?

Nunquinha!

Com essa palestra, Roubini passa a ser um forte candidato ao Prêmio FBI 2009 - Categoria Economistas.”

O PRESIDENTE PROIBIDO

Li hoje o seguinte artigo escrito por Eduardo Guimarães, em seu blog Cidadania.com:

“Nos últimos dias, apesar dos desmentidos veementes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de seus auxiliares diretos etc., jornais, tevês, rádios e portais de internet de grandes empresas que controlam conglomerados de mídia voltaram a ter faniquitos. E nem foi por conta da hipótese de Lula poder ser reeleito para um terceiro mandato consecutivo. Essas empresas têm feito campanha organizada e unificada para que o presidente não volte a se candidatar ao cargo que ocupa atualmente nem se a lei permitir, ou seja, a partir de 2014.

Praticamente todos os telejornais das tevês abertas, todos os grandes jornais, todos os grandes portais de internet, todas as emissoras de rádio desse reduzido grupo de mega empresários da comunicação que controlam todos estes veículos entraram em pânico na sexta-feira, quando Lula, perguntado por um repórter sobre se cogita tentar voltar ao poder em... 2014 (?!), disse que “só Deus sabe” a resposta a essa pergunta porque nem sabemos o que acontecerá em 2010, que ainda está longe.

Não é à toa que as famílias Marinho, Civita, Frias, Mesquita e agregados, sem falar no PSDB e no PFL, com destaque para o tucano José Serra, estão preocupados. E vocês, leitores, já entenderão por que.

Todos os fatos autorizam dizer que Lula deixará o planalto, no primeiro dia de 2011, como o presidente mais popular da história do país. E, como se fosse pouco, ainda por cima tão ou mais popular quanto os mais populares governantes de qualquer parte do mundo, seja em começo, em meio ou em fim de mandato.

A economia brasileira está dando um show. As atenções do mundo inteiro voltam-se a um país que, na contramão do mundo, está gerando empregos e voltando a crescer enquanto todos os outros países continuam gerando desemprego e mergulhando em recessão cada vez mais profunda.

Mais impressionante ainda, foi estudo recente divulgado pelo Ipea que deu conta de que durante o auge da crise o Brasil continuou diminuindo a pobreza e a miséria. Em termos internacionais, esses dados estão fazendo este país atrair as atenções do mundo todo.

De Obama à Unesco Lula é “o cara”, o mais popular chefe de governo e de Estado que há no planeta. E para quem acha pouco, ele ainda pode se tornar o prêmio Nobel da Paz deste ano.

Hoje, Lula é literalmente imbatível do ponto de vista eleitoral. Tanto como candidato quanto como apoiador. E é aí que reside essa paranóia descabida que está se abatendo sobre a oposição tucano-pefelista e os jornais, revistas, tevês, rádios e portais de internet seus aliados. E isso porque uma pesquisa eleitoral recente, feita pelo renomado – e esquecido até aqui – instituto Vox Populi, mostra vários fatos desesperadores para a direita brasileira.

A mídia oposicionista concentrou-se nos dados da pesquisa Vox Populi sobre os possíveis cenários na disputa pela Presidência da República em 2010, nos quais a candidata de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, aparece disparando na preferência do eleitorado, tendo atingido neste mês de maio um patamar de intenções de voto que há poucos dias especulava-se que ela só atingiria no fim deste ano, o que mostra a capacidade de transferência de votos de Lula para a eleição presidencial e, também, um desempenho considerável da própria candidata.

Porém, a mídia escondeu o dado mais impressionante da pesquisa, que revela um aumento exorbitante da popularidade do presidente da República se confrontarmos os números do Vox Populi com os últimos dados detectados pelos institutos de pesquisa da oposição (Datafolha e Ibope), que, recentemente, detectaram “queda” da popularidade do presidente, situando-a em pouco mais ou pouco menos de 70%.

Vejam, abaixo, os dados da pesquisa que a mídia desprezou e entendam, assim, por que a direita brasileira quer tornar Lula um político proibido para sempre de concorrer a cargos públicos.A pesquisa Vox Populi tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais. Em seguida prossigo comentando.

BRASIL

- 67% estão satisfeitos ou muito satisfeitos, igual a maio de 2008; 7% estão insatisfeitos; - 5% muito insatisfeitos

- Para 60%, Brasil melhorou nos últimos anos; - Para 14%, piorou; para 56%, vai melhorar nos próximos 2 anos; para 13%, vai piorar

PARTIDOS

PREFERÊNCIA


- PT tem 29% da preferência partidária; alta de 4 pontos em relação a 2008 e de 10 pontos sobre 2004; PMDB tem 8%; PSDB tem 7%; e DEM tem 1%

- Eleitores sem preferência: 49%, queda de 15 pontos em relação a 2004 (64%)

REJEIÇÃO

- PT tem 8% de rejeição, estável em relação a 2008; PMDB tem 5%; PSDB tem 5%; e DEM tem 3%; 67% não rejeitam nenhum partido, queda de 2 pontos em relação a 2008 (69%)

IMAGEM

- Primeiro partido que vem à cabeça: PT, 35%; PMDB, 24%; PSDB, 14%.

GOVERNO LULA

DESEMPENHO DO PRESIDENTE


- Avaliação positiva: 87% (ótimo, bom e regular positivo), contra 84% em 2008; avaliação negativa: 13% (ruim, péssimo e regular negativo), contra 15% em 2008

MELHORES AÇÕES DO GOVERNO

- Programas sociais, 36%; política econômica, 19%; Educação, 8%; Habitação, 7%

Além do dado importantíssimo sobre a recuperação da popularidade de Lula (em confrontação com as últimas pesquisas Datafolha, Ibope e Sensus), os números desta pesquisa recente sobre o desempenho da pré-candidata Dilma Rousseff também se descolaram fortemente dos dados daqueles institutos dirigidos por aliados da oposição tucano-pefelê.

É possível que tenha havido só agora mesmo esse forte aumento da popularidade do presidente Lula e da ministra Dilma. As últimas pesquisas dos institutos da oposição foram feitas no auge da crise, ainda no primeiro trimestre deste ano, quando foi revelado o forte tombo no nível de emprego ocorrido em dezembro do ano passado e seus reflexos em janeiro deste ano.

Dali em diante, o nível de emprego começou a aumentar, a produção industrial foi retomada, o crédito normalizou-se, as exportações aumentaram, o dólar passou a cair, descobriu-se que diminuiu o número de pobres em plena crise etc, etc.

OPOSIÇÃO EM APUROS

Não foi à toa que a mídia oposicionista parou de falar em “marolinha”, bem como os partidos aos quais ela serve. Depois do previsível primeiro trimestre depressivo e da recuperação previsível do segundo trimestre (e este blog previu, no fim do ano passado, que os dois trimestres seriam assim), não há mais clima para continuar explorando eleitoralmente o termo usado por Lula para descrever o efeito menor que a crise teria no Brasil.

Lula constitui hoje a maior ameaça à direita brasileira que já existiu. Mesmo na improvável hipótese de que não consiga fazer sua sucessora tendo aprovação popular tão impressionante, estando na oposição teria uma força moral e uma credibilidade enormes para criticar um hipotético governo José Serra, sobretudo quando este, previsivelmente, começasse o desmonte de políticas públicas do antecessor.

E para quem ainda tem alguma dúvida de que as coisas sejam como descrevo, que pergunte a si mesmo que outro presidente brasileiro, depois de governar por quase uma década, assustou seus adversários em qualquer hipótese eleitoral - se entrasse em disputa pela própria sucessão, se apoiasse um candidato a sucedê-lo e até, pasmem, se um dia quisesse disputar uma eleição de novo.”

SENHORA THATCHER E LORD KEYNES; FATOS E MITOS

Li hoje no site “Agência Carta Maior” o seguinte artigo de José Luís Fiori, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro:

“A crítica ou o entusiasmo apressado, às vezes esquece que existe um parentesco essencial entre as políticas econômicas de filiação neoclássica e keynesiana, que pertencem à mesma família ideológica liberal e anglo-saxônica, e são estratégias complementares e indissociáveis dentro do sistema capitalista.

A história da segunda metade do século 20 transformou a eleição da senhora Margareth Thatcher, como primeira-ministra britânica, no dia 4 de maio de 1979, numa fronteira simbólica entre dois grandes períodos do mundo contemporâneo: a “era keynesiana” e a “era neolibral”. Apesar disto, não é fácil explicar como foi que esta senhora virou emblema da reação conservadora frente à crise dos anos 70, vitoriosa na Inglaterra e em todo mundo.

O epicentro da crise foi nos EUA, e as principais decisões que mudaram o rumo da história da segunda metade do século passado, também foram tomadas nos EUA. Algumas delas, muito antes da eleição de Margareth Thatcher. No campo acadêmico e político, a inflexão neoliberal começou nos anos 60, durante o primeiro governo Nixon, e o mesmo aconteceu no campo diplomático e militar. Os principais responsáveis pela política econômica internacional do governo Nixon - como George Shultz, William Simon e Paul Volcker – já defendiam, naquela época, o abandono americano da paridade cambial do Sistema de Bretton Woods, a abertura dos mercados e a livre circulação dos capitais. E todos tinham como objetivo estratégico o restabelecimento do poder mundial das finanças e da moeda norte-americana, ameaçados pelos déficits comerciais, e pela pressão sobre as reservas em ouro dos EUA, que aumentaram na segunda metade da década de 60.

Mais tarde, depois do fim do “padrão-dolar”, em 1973, e dos primeiros passos da desregulação do mercado financeiro americano, em 1974, ainda no governo democrata de Jimmy Carter, foi Paul Volcker e sua estratégia de estabilização do dólar, de 1979, que foi o verdadeiro turning point monetarista da política econômica norte-americana. Antes da vitória republicana de 1980, e da transformação de Ronald Ragan, em ícone da reação conservadora nos Estados Unidos. Na própria Inglaterra, a “virada neoclássica” da política econômica começou antes da eleição da senhora Thatcher, durante o governo do primeiro ministro James Callaghan, depois da crise cambial de 1976.

Naquele momento, o governo trabalhista se dividiu entre os que defendiam uma “estratégia alternativa” de radicalização das políticas de controle, de viés keynesiano, liderados por Tony Benn, e a ala vitoriosa, dos que defenderam a ida da Grã Bretanha ao FMI, e a aceitação das políticas ortodoxas e monetaristas exigidas pelo Fundo, como contraparte dos seus empréstimos, aceitas pelo governo Callaghan, em sintonia com o governo social-democrata alemão, de Helmut Schmidt, que já havia “aderido” à mesma ortodoxia, antes do primeiro-ministro conservador, Helmut Koll.

Apesar de tudo isto, não há dúvida que foi a senhora Thatcher que passou para a história como porta-estandarte do neoliberalismo das últimas décadas do século 20. Uma troca ou fusão de cabeças e de papéis permanente, mesmo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Foi Keynes e não a Harry White, a figura forte na criação do Sistema de Breton Woods; foi Churchill e não Truman , o verdadeiro pai da Guerra Fria; foram os ingleses e não os norte-americanos, que criaram o “euromercado” de dólares – no início da década de 60 - que está na origem da globalização financeira; foi Tony Blair, mais do que Bill Clinton, quem anunciou numa entrevista coletiva, em fevereiro de 1998, a criação da “terceira via” ao mesmo tempo em que defendiam a necessidade de uma Segunda Guerra do Iraque; e o mesmo aconteceu com o anuncio conjunto – em 2000- da solução anglo-saxônica do enigma do genoma humano; e agora de novo - de volta ao campo econômico - foram os ingleses e não os americanos que lideraram a resposta das grandes potências frente à crise financeira, em outubro de 2008. E foi o primeiro ministro britânico, Gordon Brown, e não o presidente Barack Obama, quem anunciou na cidade de Londres, em abril de 2009, o fim do “Consenso de Washington”, apelido que foi dado pelos norte-americanos às políticas da “era Thatcher”. E depois de tudo, o que a imprensa internacional está anunciando é o retorno em todo mundo das idéias do Lord Keynes, e não de Ben Bernank ou Laurence Summers.

Ou seja, mesmo depois do que alguns analistas chamam de “fim da hegemonia britânica”, os ingleses seguem definindo ou anunciando a direção estratégica seguida pelos “povos de língua inglesa”, e pelo mundo em geral. Seja numa direção, ou na outra, porque na verdade as novas políticas preconizadas pelo eixo anglo-saxão, a partir de 2009, também não significam a morte da ideologia econômica liberal, ao contrário do que afirmam muitos analistas da conjuntura atual. Keynes revolucionou a teoria econômica marshalliana, mas era um liberal, e suas propostas de política econômica recuperam, em última instância, algumas teses essenciais do ultra-liberalismo econômico dos Fisiocratas franceses, e do próprio Adam Smith, que defendiam uma intervenção ativa do estado para garantir o funcionamento dos mercados sempre que sua “mão invisível” não conseguisse garantir a demanda efetiva indispensável aos investimentos privados. A crítica ou o entusiasmo apressado, às vezes esquece que existe um parentesco essencial entre as políticas econômicas de filiação neoclássica e keynesiana, que pertencem à mesma família ideológica liberal e anglo-saxônica, e são estratégias complementares e indissociáveis dentro do sistema capitalista, atendendo interesses e funções diferentes mas intercambiáveis, segundo o lugar e o momento da sua implementação. Ou seja: primeiro Keynes, depois Thatcher e de novo Keynes, e a história segue confirmando o que disse o pai da teoria internacional inglesa, Edward Hallet Carr, em 1939: “A idéia de que os povos de língua inglesa monopolizam a moralidade internacional, e a visão de que eles são consumados hipócritas internacionais decorre do fato de que são eles que definem as normas aceitas da virtude internacional, graças a um processo natural e inevitável” . Até o maior crítico alemão do capitalismo inglês escreveu e difundiu suas idéias econômicas, a partir da Inglaterra, através das veias do império britânico. E segue enterrado no cemitério de Highgate, na cidade de Londres.”

CUBA, A INDENIZAÇÃO DEVIDA

Li hoje no site “Agência Carta Maior” o seguinte artigo de Gilson Caroni Filho. O autor é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

“Se o objetivo do presidente Barack Obama é, de fato, “melhorar a vida do povo cubano", não há outra saída que não passe pelo levantamento total do injustificável embargo imposto ao país há quase meia década.

É um ótimo sinal o anúncio recente feito pelo presidente Barack Obama, dando conta do levantamento de algumas medidas do bloqueio comercial dos Estados Unidos a Cuba. Mas se, tal como afirmou o porta-voz da Casa Branca, o objetivo é “melhorar a vida do povo cubano", não há outra saída que não passe pelo levantamento total do injustificável embargo imposto ao país há quase meia década. Algo que Fidel definiu com precisão, quando falou em ”política genocida que custa vidas e que demonstrou ser um total fracasso"

Uma reorientação efetiva da política estadunidense teria um significado que ultrapassaria os limites da Ilha. Demonstraria uma sintonia fina com o que vem ocorrendo nos últimos anos na América Latina. E que não parece dar mostras de retrocesso.

Um redesenho de dinâmica política que só pode ser entendido a partir das raízes históricas da opressão e das lutas dos povos latino-americanos. Um continente que, sem receio de incorrer em argumentação simplificadora, se desenvolve seguindo dois traçados antagônicos: ou incorporando o elemento popular como protagonista ou elaborando processos de exclusão que remontam à época colonial.

Há 50 anos, o caminho escolhido por Fidel Castro, Juan Almeida, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, entre outros, foi o primeiro, o da incorporação. Aquele que vence porque os povos têm um instinto que os guia em seus grandes movimentos. Como destacou o historiador Hélio Silva, “os líderes só se afirmam quando conseguem captar, interpretar os sentimentos do povo. Não importa que ele apareça somente no fundo do quadro, deixando o proscênio livre para os heróis se destacarem. Há uma orquestração inaudível, uma coreografia silenciosa, que são imprescindíveis porque as primeiras figuras cairiam no vácuo se as suas atitudes não correspondessem ao movimento de massa".

É a isso, e não às alegadas disposições ditatoriais do regime instalado em 1959, que Fidel deve sua longevidade política. E, na quadra atual, é dentro desse marco que deve ser compreendida a popularidade das lideranças de esquerda da região. Não entender o processo é jogar com as pedras do imperialismo e da direita golpista.

Cuba, no ano da revolução, tinha 6,5 milhões de habitantes, dos quais 1 milhão e 200 mil estavam radicados em Havana, a pequena "Miami" dos cabarés e bordéis da máfia americana. Brilhavam os neons dos famosos magazines, iluminando o caminho para o desfile de carros do ano que, reluzentes, cortavam a cidade transportando uma burguesia alheia ao resto do país, colaboradora da dilapidação da sociedade cubana, cúmplice do alto índice de prostituição, do tráfico de drogas e do desemprego.

No entorno, como macabro contraponto ao luxo da capital, a massa de trabalhadores rurais, além de não dispor de qualquer tipo de amparo social, sequer tinha certeza do trabalho, pois terminada a safra da cana, nada havia a fazer. Eram quatro meses de trabalho por ano, depois não havia comida. Restava viver em "bohios"- choupanas feitas de folha de palmeira - sem água, luz elétrica, ou instalações sanitárias. Segundo o censo de 1953, uma entre 4 pessoas em Cuba não sabia ler nem escrever.

A taxa de mortalidade infantil era de quase 40 para cada mil nascidos vivos. Vinte anos depois (em 1979), como conseqüência das prioridades do governo revolucionário, a taxa recuou para 19,3, uma das menores do mundo. As promessas do tempo de guerrilha se transformaram em realidade através de um rigoroso plano de saúde, que ampara desde o momento da gravidez até a fase adulta.

Na educação, as mudanças não foram menos expressivas. Até a chegada de Fidel ao poder, 50% da população infantil não estudava. Após a revolução, a educação escolar foi nacionalizada. Como trabalho básico, foi organizada uma gigantesca campanha de alfabetização que erradicaria essa carência em 1961.

O Sistema Nacional de Educação, criado em seguida, assegurou ensino gratuito em todos os níveis. Não foram poucos os estrangeiros de países capitalistas que foram estudar na Ilha devido a excelência obtida em diversas especialidades. Era o homem novo que o embargo impediu que surgisse em outros países da América Latina.

Desde a fundação da Escola Nacional de Arte de Cubanacán, o ensino gratuito de múltiplas de manifestações artísticas, se estendeu a quase 50 escolas, com um número aproximado de 5 mil alunos. Eis a poética revolucionária que o imperialismo tolheu no restante da região.

O que era o esporte antes do triunfo da revolução? Uma coisa restrita ao boxe e ao beisebol profissionais, controlados pelas grandes máfias que transformavam Cuba em um grande celeiro para os empresários esportivos estadunidenses. O que veio depois? Coordenação e promoção maciça do esporte. Organizou-se uma Escola Superior de Educação Física e, atualmente, existem escolas provinciais de educação física com milhares de matrículas a cada ano. Vários cubanos são recordistas olímpicos e mundiais e Cuba ocupa posição de destaque no boxe, vôlei, atletismo e beisebol.

O presidente Obama diz que sua nova política pode alcançar o que o embargo nunca conseguiu uma verdadeira mudança política na Ilha. Se o objetivo é esse, o malogro não tardará a cobrar seu preço. Apesar das dificuldades decorrentes do bloqueio imperialista, a sociedade cubana ainda registra avanços notáveis. O que se espera dos EUA não são favores sujeitos a condicionalidades, mas indenização por uma prática criminosa. Não se barganha a soberania.”

O PAPEL DA LUTA PELA PAZ NA DISPUTA PELO DESFECHO DA CRISE

Li hoje no site “Vermelho” a seguinte entrevista realizada por Carla Santos com a presidente do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes:

“Em entrevista ao Vermelho, a presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz) e do CMP (Conselho Mundial da Paz), Socorro Gomes, fala sobre os desafios da 2º Assembléia Nacional do Cebrapaz — a se realizar de a 24 a 26 de julho, na cidade do Rio de Janeiro. Os eixos do encontro de julho e um balanço dos cinco anos de existência da entidade foram explorados pela ativista. Ao comentar a crise do capitalismo, Socorro destaca que a disputa por um desfecho favorável aos trabalhadores passa por fortalecer a luta pela paz.

PASSADOS CINCO ANOS DA FUNDAÇÃO DO CEBRAPAZ (10 DE DEZEMBRO DE 2004), QUAL É O BALANÇO QUE VOCÊ FAZ DA ATUAÇÃO DA ENTIDADE?

SOCORRO GOMES:
O Cebrapaz teve uma atuação intensa nesse período. Participou com solidariedade na luta contra as guerras: a invasão americana do Iraque, o genocídio do Estado de Israel ao povo palestino e outras campanhas de diversos povos do mundo. Realizamos o julgamento de George W. Bush (ex-presidente dos EUA) pela prática de crimes contra a humanidade. Continuamos combatendo as bases militares estrangeiras em países soberanos. A principal campanha da entidade no momento é contra a reativação da Quarta Frota (*) dos EUA no sul do nosso continente. A iniciativa busca intimidar e espionar o processo de integração que ocorre entre os países latinos americanos. Certamente ela veio com a intenção de barrar esse processo, impedir o avanço dos povos e nações da região pela construção de caminhos alternativos, soberanos e antiimperialistas.

A 2º ASSEMBLÉIA TEM QUATRO EIXOS: SOLIDARIEDADE AOS POVOS E A LUTA PELA PAZ; INTEGRAÇÃO LATINO AMERICANA; COMBATE À QUARTA FROTA E A CULTURA DA PAZ. O QUE LEVOU A ESCOLHA DESSES QUATRO EIXOS? QUAL A IMPORTÂNCIA DESSAS BANDEIRAS PARA O MOVIMENTO DE SOLIDARIEDADE BRASILEIRO?

SOCORRO GOMES:
A solidariedade é essencial. É obrigação de povos, militantes e pessoas prestar solidariedade aos países ocupados e invadidos, como é o caso da Palestina, do Iraque, do Afeganistão. O único objetivo dessas invasões é saquear e se apropriar de territórios e seus recursos naturais. É através da solidariedade que fortalecemos a corrente pela paz. Para conquistá-la, sabemos que precisamos remover os autores da guerra, derrotar o imperialismo. A integração dos povos é um instrumento fundamental para isso. O Mercosul, a Unasul, a Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), o Conselho de Segurança da Região Sul são exemplos de instrumentos de integração. É necessário desenvolver a consciência da necessidade da paz. A guerra é uma ameaça à existência da humanidade, à cultura da paz. Entendemos que a consolidação do Cebrapaz passa por esses eixos por seu dever. Eles fazem parte da Carta de Princípios fundadora da entidade.

A POPULAÇÃO AINDA NÃO SABE MUITO SOBRE A REATIVAÇÃO DA QUARTA FROTA, MOTE DA MOBILIZAÇÃO DA 2º ASSEMBLÉIA. COMO O CEBRAPAZ PRETENDE AMPLIAR A IDENTIDADE DESSA BANDEIRA COM A SOCIEDADE BRASILEIRA?

SOCORRO GOMES:
O Brasil, que já é rico em biodiversidade, recursos minerais e água potável, recentemente descobriu petróleo na área conhecida como pré-sal. Faz parte da estratégia americana o controle dos recursos naturais mundiais. Já são 835 bases militares espalhadas pelo mundo. Queremos os desmantelamento dessas bases, em especial a que está aqui, a Quarta Frota, justamente porque ela é uma ameaça a essas conquistas. A Quarta Frota está aqui, entre outros motivos, para saquear as riquezas que são dos brasileiros. É uma questão de soberania. Para ampliar o conhecimento sobre essa ameaça, o Cebrapaz já realizou conferências e diversos debates. Com a 2º Assembléia, teremos a oportunidade de discutir o assunto aonde ele ainda não chegou. Além disso, estamos lançando um livro sobre o tema. No dia 24 de junho, véspera da realização da 2º Assembléia, faremos uma Conferência Magna sobre a Quarta Frota.

VIVEMOS UM CENÁRIO DE CRISE ECONÔMICA, GUERRAS DEFLAGRADAS OU APOIADAS PELOS EUA E RESISTÊNCIA AO NEOLIBERALISMO NA AMÉRICA LATINA. ESSES, ENTRE OUTROS, FATORES INDICAM GRANDES MUDANÇAS NO QUADRO POLÍTICO DO MUNDO?

SOCORRO GOMES:
Em todas as grandes crises do capitalismo, o imperialismo sempre busca saídas que indicam mais exploração dos trabalhadores e avanço contra a soberania dos países. Até agora os especialistas do sistema apontam como saída para a crise a concentração do poder econômico. Várias fusões entre grandes empresas estão em curso. A “estatização” de instituições financeiras veio para salvar as empresas que estão falindo e garantir que elas estejam saudáveis para depois serem novamente entregues ao capital.

Outras medidas são o desemprego, a destruição das conquistas sociais que foram objeto de luta por anos dos trabalhadores, como a precarização do trabalho. Tudo indica que os detentores do poder não estão tomando medidas para proteger o povo ou estabelecer uma nova ordem mundial. Ainda não podemos descartar a agudização dos conflitos e o próprio perigo da guerra. Diante desta realidade, aumenta a importância do fortalecimento da cultura da paz. Para nós, o essencial é que o mundo seja desmilatarizado, a Assembléia das Nações seja democrática e que cada país escolha de forma soberana o seu futuro. Só os povos em luta, a elevação da consciência e a cultura pela paz levarão ao caminho da liberdade.”

(*) A Quarta Frota foi criada em 1943 para patrulhar submarinos nazistas nas águas da região da América Latina, mas foi desativada em 1950. Após a descoberta do pré-sal, os EUA anunciaram em 2007 a reativação da Quarta Frota.”

CONSTRUÇÃO DE SUBMARINOS CONSUMIRÁ R$ 17,6 BILHÕES

PLANO DO ACORDO BRASIL-FRANÇA PREVÊ CONSTRUÇÃO DO CASCO DO 1.º NUCLEAR

O jornal O Estado de São Paulo ontem publicou a seguinte reportagem de Alexandre Rodrigues:

“O comandante da Marinha, almirante Júlio Soares de Mora Neto, informou ontem que o pacote de construção de quatro novos submarinos convencionais (o que inclui um novo estaleiro e uma nova base) e do casco do primeiro submarino nuclear brasileiro vai consumir R$ 17,6 bilhões. Este é o valor do financiamento, previsto no acordo assinado entres os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy, que o Brasil negocia na França. O pacote integra o acordo de cooperação militar firmado entre os dois países no ano passado - os submarinos convencionais serão adaptados do modelo francês Scorpène.

Como o Estado informou no domingo, a Força já encontrou na Baía de Sepetiba, no litoral Sul do Rio, o terreno para o novo complexo naval, mas o início da obra depende da liberação do financiamento. Os trabalhos ficarão a cargo de um consórcio formado pela estatal francesa DCNS e a brasileira Odebrecht.

O comandante da Marinha espera que o acordo com o consórcio de bancos estrangeiros liderado pelo francês BNP Paribas, uma das maiores instituições financeiras da Europa, esteja concluído até o dia 7 de setembro, quando Sarkozy voltará ao Brasil para as comemorações da Independência no Ano da França no Brasil.

É o que falta para a validação do convênio e a largada para a construção do submarino nuclear, que poderá sair do estaleiro em 12 anos.

"O acordo estratégico só entra em vigor quando houver dinheiro", disse o comandante, depois de dar uma palestra num evento da Confederação Nacional de Jovens Empresários na Associação Comercial do Rio.

Apesar de o convênio ter sido assinado em dezembro, ele atribui a demora aos trâmites normais. Ainda estão em discussão detalhes do f