domingo, 14 de dezembro de 2008

HÁ 30 ANOS: A QUASE GUERRA ARGENTINA x CHILE

Li ontem no site defesa@net, o seguinte artigo de Kaiser Konrad, enviado especial a Punta Arenas, Puerto Williams, Puerto Natales e Santiago–Chile; Ushuaia, Rio Grande e Mendoza - Argentin:

OS 30 ANOS DO CONFLITO DO CANAL DE BEAGLE

“Em dezembro de 2008, Chile e Argentina relembram os trinta anos do Conflito pelo Canal de Beagle. Defesanet percorreu os mares do Sul, a zona de litígio e as principais bases militares da região para mostrar como essa disputa territorial - desconhecida da maioria dos brasileiros - poderia ter mergulhado a América do Sul numa guerra total, mudando fronteiras, mapas e alterando o curso da história.

A HISTÓRIA

O conflito pela posse do Canal de Beagle teve sua origem na disputa pela soberania das ilhas Picton, Lennox e Nueva, situadas entre a entrada oriental do Beagle e o Cabo Horn, entre os Oceanos Atlântico e Pacífico.

Os limites entre a Argentina e o Chile foram fixados no Século XIX tomando em conta a linha divisória natural que forma a Cordilheira dos Andes, numa extensão aproximada de cinco mil quilômetros. O problema apareceu nas discussões sobre a delimitação da região sul, que inclui o canal de Beagle, o Estreito de Magalhães e a Terra do Fogo.

Entre 1822 e 1833, os chilenos estabeleceram como seu limite sul o Cabo Horn, o ponto mais austral das Américas. A partir de 1840 o país começou a utilizar a zona do Estreito de Magalhães, um canal que liga os Oceanos Atlântico e Pacífico, fundamental na navegação internacional da época, pois livrava as embarcações de cruzar a temida Passagem de Drake, entre o Cabo Horn e a Antártida. Em 1856, foram instalados assentamentos militares em Punta Arenas o que causou um mal-estar com a Argentina, que afirmava serem suas estas possessões.

No mesmo ano os dois países firmaram um Tratado de Paz, Amizade, Comércio e Navegação, onde se aplicava o princípio de que a cada Estado corresponderiam os territórios efetivamente ocupados por eles em 1810. Em caso de conflito, eles seriam resolvidos pela via diplomática ou arbitral. Nesta época, a região da Patagônia era ocupada por pequenas populações indígenas e sua exploração praticamente inexistia.

A questão sobre o limite sul entre os dois países continuou sendo discutida pelos 150 anos seguintes, sem que fosse resolvida definitivamente, pois a cada novo Tratado assinado, uma série de contestações e interpretações se seguia, provocando crises diplomáticas e aumentando a tensão militar na região, demonstrando que na metade do Século XX, o continente americano ainda fervilhava com discussões territoriais.

Em 1959, após uma série de incidentes, foi firmada a declaração dos Cerrilos, onde os mandatários dos dois países se comprometeram em buscar uma solução por meio da arbitragem. Em março de 1960, se acordou que a Ilha Lennox seria domínio do Chile, e se submeteria a decisão inapelável da Corte de Haia a soberania das Ilhas Picton e Nueva. Este acordo não foi ratificado por nenhum dos dois países.

Para dirimir a questão pacificamente, se nomeou como árbitro em 1970, a Rainha Elizabeth II, da Grã-Bretanha, quem em 1977, considerou como chilena a posse das três ilhas em litígio, pois eram vistas como uma unidade, somando ainda a ilhota Snipe. À Argentina, caberia a posse da Ilha Becasses e a livre navegação para o acesso a Ushuaia. Para os argentinos, através da projeção territorial, a posse chilena destas ilhas atrapalharia sua reivindicação futura e seus direitos na divisão da Antártida. A decisão pró-Chile não foi bem recebida pelos argentinos que declararam no início do ano seguinte inválido o laudo arbitral, mostrando disposição de tomar pela força a posse das ilhas.

A PREPARAÇÃO PARA A GUERRA

Até 1978, a ditadura militar encabeçada pelo General Jorge Rafael Videla tinha como objetivo combater as denúncias de violação dos direitos humanos que se registravam na Argentina. A realização da Copa do Mundo de Futebol e a vitória da Seleção Argentina serviram como impulso no fortalecimento do sentimento nacionalista já acentuado dos argentinos. O governo militar, usando uma técnica comum de ditaduras enfraquecidas, buscou um inimigo externo como fator de união nacional.

A rivalidade histórica com os brasileiros foi posta em discussão através do Plano Rosário, que tinha como objetivo realizar uma guerra pela anexação do Sul do Brasil.

Havia ainda a velha discussão sobre a posse das Ilhas Malvinas. Mas naquele momento, o subestimado militarmente Chile era o principal alvo, principalmente pela Argentina poder contar com a força de aliados no Norte.

No Chile, o General Augusto Pinochet havia colocado suas tropas em alerta. Todos os homens a partir dos 18 anos foram convocados. Em Punta Arenas, a principal cidade da região sul, os preparativos para a guerra estavam avançados. O vice-prefeito Emílio Jiménez recorda que “um ataque aéreo argentino poderia acontecer a qualquer momento e os cidadãos pintavam de verde o telhado das casas e cruzes foram pintadas sobre os hospitais. As pessoas evitavam andar nas ruas e procuravam se proteger. A cidade, por ter uma forte tradição militar e sendo a capital da Província de Magalhanes sabia que seria a primeira a ser atacada. A população estava unida para reagir, mas todos temiam por suas famílias muitas delas vivendo no lado argentino”. À noite, as luzes das cidades eram apagadas. As mesmas medidas foram impostas no lado argentino.

Homens desconhecidos vestidos a paisana circulavam pela região. Eram agentes dos serviços de inteligência militares que buscavam informações a respeito da presença de espiões e dos planos de invasão. Toda área de fronteira foi minada para impedir a entrada das colunas de veículos militares argentinos. Trincheiras foram escavadas e ninhos de metralhadoras foram colocados em toda a fronteira. Negras torpedeiras chilenas estavam escondidas no Canal de Beagle.

Nas ilhas que eram disputadas, após minarem as praias, centenas de soldados da Infantaria da Armada Chilena enfrentavam o forte vento e temperaturas negativas à espera de um desembarque anfíbio argentino. A mesma situação acontecia no norte do país, onde as forças armadas peruanas e bolivianas estavam atentas para aproveitar a situação e também invadir o Chile. Em 21 de novembro de 1978, o governo Pinochet anunciou a finalização das negociações bilaterais diretas, e sua chancelaria advertiu os Estados Unidos de que um conflito militar poderia acontecer e se estender por todo o continente.

Na primeira semana de dezembro, a Esquadra argentina comandada pelo porta-aviões 25 de Mayo zarpou de Puerto Belgrano tomando posição a leste do Cabo Horn. No Chile, Pinochet ordenou o reforço da artilharia antiaérea nas principais cidades, assim como resistir ao ataque inicial e, na contra-ofensiva, conquistar a maior parcela do território argentino, principalmente a Terra do Fogo e a captura de Ushuaia. Os militares também deveriam executar ações de sabotagem e provocar o terror na população civil do inimigo.

Um navio da Armada Argentina ingressou no Canal de Beagle e foi detectado pela Armada Chilena, que ordenou que qualquer embarcação que navegasse naquelas águas deveria ser destruída. A frota argentina sofreu com a força da natureza nos mares austrais, as águas mais perigosas do mundo. O mau tempo retardou o encontro das Armadas, o que impossibilitou o desenvolvimento das ações navais e evitou o início da guerra.

“OPERAÇÃO SOBERANIA”

Em 22 de dezembro de 1978, ao longo da Cordilheira dos Andes, milhares de soldados chilenos e argentinos aguardam a ordem para abrir fogo. Os esforços diplomáticos estavam fracassando e a guerra era iminente. As esquadras dos dois países estavam no mar a poucas horas de fazerem contato. A Argentina havia posto em prática a Operação Soberania. O bombardeio e a subseqüente invasão do Chile estavam marcados para as 22 horas.

Cada país queria manter sua tradição de nação pacífica, e a Argentina, ao iniciar as hostilidades seria declarada internacionalmente País Agressor, o que não era de interesse do governo, que desesperadamente já queria renunciar a guerra. Ademais, o fato das duas nações serem católicas deu força à idéia de ter como árbitro o Papa João Paulo II. Apenas três horas antes do horário previsto para iniciar o ataque, a Junta Militar Argentina aceitou a mediação Papal e ordenou abortar a Operação Soberania.

A ordem foi transmitida diretamente aos destacamentos no Sul, mas, devido a uma falha no sistema de comunicação, os militares não receberam as instruções e começaram a se movimentar. Uma hora depois, as tropas da 20ª Brigada de Infantaria haviam atravessado a fronteira. Helicópteros especialmente destinados a dar a contra-ordem foram enviados ao local. O Exército Argentino já havia penetrado cinco quilômetros no território chileno antes de recuar à fronteira. Se os dois exércitos tivessem feito contato, ou se o mau tempo não tivesse retardado o encontro das Armadas, a guerra teria eclodido. Por um verdadeiro milagre a guerra tinha sido evitada.

Em 8 de janeiro de 1979, os chanceleres da Argentina e Chile firmaram a Ata de Montevidéu, onde se estabeleceu a mediação papal. As conversações entre o representante do Papa e dos dois países se iniciaram dois meses depois e mantiveram-se paradas por dois anos. Em 12 de dezembro de 1980, o Papa João Paulo II enviou sua proposta de paz onde reafirmava a soberania chilena sobre as ilhas localizadas ao sul do Canal de Beagle. A proposta aceita por Augusto Pinochet foi rejeitada pelo governo argentino, que a considerou injusta. Quatro anos depois, após a realização de um plebiscito, a proposta do Vaticano foi aceita e, em 1984, os dois países selaram um Tratado de Paz e Amizade que pôs fim a uma disputa centenária.

De qualquer forma, a Argentina necessitava de um inimigo externo que afastasse os demônios da situação interna. Para isso, escolheu um inimigo que “acreditava” não iria lutar por suas ilhas no Atlântico Sul, alcançando assim uma vitória fácil. Mais uma vez a Argentina estava errada, e o ódio e a desconfiança que plantou entre os chilenos foram o grande diferencial colhido pelos britânicos na retomada das Malvinas. O final dessa história, todos sabem.”

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