terça-feira, 24 de novembro de 2009

RECEITA PARA O SUCESSO DE UM JORNALISTA NA 'GRANDE' MÍDIA

"Curso de jornalismo prático: o manual do colunista

Quer virar colunista ou editorialista de jornalão impresso, de um telejornal noturno ou de uma revista semanal de grande circulação? Fácil. Basta seguir esse manual.

Para cada tema polêmico da atualidade, há um repertório de cinco argumentos que devem ser repetidos ad nauseum, sem margem para hesitação. Pintou o tema, escolha um dos cinco argumentos abaixo e tasque na sua coluna. Se quiser, use mais de um. Você é a estrela
.

O artigo é de Leonardo Sakamoto, publicado no "Blog do Sakamoto"

Agora que a obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão caiu, o Blog do Sakamoto reforça o seu Curso de Jornalismo Prático. Já em sua terceira aula (a primeira e a segunda, sobre o Disk-Fonte: O Jornalismo Papagaio de Repetição, foram um sucesso), o Curso é elaborado em conjunto com amigos que são grandes repórteres e conhecem como ninguém o universo das redações. Para esta aula, um deles foi certeiro na análise do problema, criando um manual que será de grande utilidade aos recém-formados, mas também àqueles com mais quilometragem que querem “chegar lá”.

Uma dica: para sua coluna parecer diversificada, democrática, procure colocar alguns dos argumentos abaixo na boca de “especialistas”. Veja a lista de nossos especialistas no Disk-Fonte e escolha livremente. Se já estiver na hora do fechamento e ninguém atender, ligue para o Demétrio Magnolli, pois esse está sempre à disposição e discorre sobre qualquer assunto. Ele é fera.

E atenção: não se preocupe se o seu concorrente direto anda usando exatamente esses mesmos argumentos há anos. Não importa também se quase todos esses argumentos já foram aniquilados pelos fatos. O importante, em todos os casos, não é citar fatos. O que conta é dar ênfase no argumento. Se você estiver apresentando um telejornal, faça cara de compenetrado. Se for uma coluna, um editorial, carregue no título.

Além da segurança, da facilidade e da comodidade, há várias outras razões para você usar esse manual: 1) você vai parecer erudito; 2) você vai gastar pouco tempo para fechar a coluna; e 3) seu texto irá repercutir muito bem junto ao dono do(a) jornal/revista/TV que você trabalha.

Ao manual:

Se o assunto é:

Cotas nas universidades, ação afirmativa, Estatuto da Igualdade Racial

Seus argumentos devem ser:


--“Para a biologia, a raça humana é uma só. Logo, não faz sentido dividir as pessoas por raças”

--“A política de cotas é perigosa. Irá criar conflitos que não existem hoje no Brasil”

--“É uma ameaça à qualidade do ensino, pois os beneficiários não conseguirão acompanhar as aulas”

--“Essas iniciativas representam uma ameaça ao princípio de que todos são iguais perante a lei”

--“Cotas são ruins para os próprios negros, pois eles sempre se sentirão discriminados na faculdade”

Se o assunto é: Reforma agrária, MST, agricultura familiar

Seus argumentos devem ser:


--“Não faz mais sentido fazer reforma agrária no século 21”

--“O agronegócio é muito mais produtivo, eficiente, rentável, moderno e lucrativo”

--“O Fernando Henrique já fez a reforma agrária no Brasil”

--“Se você distribui lotes, o agricultor pega a terra e a vende para terceiros depois”

--“O MST é bandido”

Se o assunto é: Bolsa Família

Seus argumentos devem ser:


--“O pobre vai usar o dinheiro para comprar TV, geladeira, sofá e outros artigos de luxo”

--“O pobre não terá incentivo para trabalhar. Vai se acostumar na pobreza”

--“Não adianta dar o peixe, tem de ensinar a pescar”

--“O programa não tem porta de saída” (não tente explicar o que é isso)

--“O governo só sabe criar gastos”

Se o assunto é: Mortos e desaparecidos políticos, abertura de arquivos da ditadura, revisão da Lei de Anistia

Seus argumentos devem ser:


--“Não é hora de mexer nesse assunto”

--“A Anistia foi para todos. Valeu para os militares; valeu para os terroristas”

Se o assunto é: Confecom, democratização da comunicação, classificação indicativa

Seus argumentos devem ser:


--“Qualquer regulamentação é ruim, o mercado regula”

--“É um atentado à liberdade de imprensa”

--“Querem acabar com o seu direito de escolha”

--“Já tentaram expulsar até o repórter do New York Times, sabia?”

--“A classificação indicativa é censura. Os pais é que têm que regular o que seus filhos assistem”

Se o assunto é: A política econômica

Seus argumentos devem ser:


--“O governo deveria aproveitar esse período de vacas gordas para fazer as reformas que o Brasil precisa, cortando custos”

--“Os gastos e a contratação de pessoal estão completamente fora de controle”

--“O país precisa fazer a lição de casa e cortar postos de trabalho”

--“Quem produz sofre muito com o Custo Brasil, é necessário cortar custos e investir em infra-estrutura”

--“Só dá certo porque é continuidade do governo FHC”

Se o assunto é: Trabalho e capital

Seus argumentos devem ser:


--“O que os sindicatos não entendem é que, nesta hora, todos têm que dar sua cota de sacrifício”

--“Os grevistas não pensam na população, apenas neles mesmos”

--“Sem uma reforma trabalhista que desonere o capital, o Brasil está fadado ao fracasso”

--“A CLT é uma amarra que impede a economia de crescer”

--“É um absurdo os sindicatos terem tanta liberdade”."

FONTE: O artigo é de Leonardo Sakamoto, publicado no "Blog do Sakamoto" e reproduzido hoje (24/11) no site "Carta Maior" [exceto o título, colocado por este blog].

2 comentários:

Anônimo disse...

Como não sou jornalista e sim um Educador, dedicado a ouvir e aprender as novas ideias, para utilizá-las na promoção do bem estar social, penso que estes "ensinamentos" me são úteis , pois mostram como NÃO ser mais um mero contribuinte do Sistema. Vou tentar escrever em meu humilde Blog, simplesinho e amador,dentro dos príncípios da lealdade de opiniões, da veracidade dos fatos e pulando fora do trem da ideologia política. Tomara que eu não erre muito.http://www.profegerson.blogspot.com

Política disse...

Prezado Professor Gerson,
Obrigado pela visita. Penso semelhantemente ao Sr. Inclusive, quanto ao status e objetivo de nossos blog. Penso que a ideologia política, em si, não necessariamente significa erro. O errado seria distorcer os fatos dolosamente com maquiavélicos objetivos corporativos ditos "políticos".
Maria Tereza