terça-feira, 3 de agosto de 2010

A PRIMEIRA MULHER


Até outubro, teremos que suportar muitas situações de antagonismo e de absurda perda de controle verbal. Pede-se desculpas à História e paciência aos nossos vizinhos” (Cláudio Lembo).

[Foram muito noticiados, e até endossados e enaltecidos pela mídia direitista, os ataques verbais de José Serra à Bolívia e à Venezuela. Neste artigo do Portal “Terra Magazine”, o ex-governador de SP Cláudio Lembo (DEM-PFL), apesar de ser 'demo', aliado carnal dos tucanos, elegante e indiretamente puxa as já longas orelhas de Serra]:

A PRIMEIRA MULHER

Terra Magazine

Cláudio Lembo, de São Paulo

“Em campanhas eleitorais, o artificial supera a realidade. Os políticos sempre procuram convencer os eleitores das maneiras mais exóticas. Criam a eventualidade de grandes conflitos internacionais.

Esquecem o difícil trabalho de se constituir uma comunidade internacional harmônica e capaz de conviver, em conseqüência, com objetivos comuns. A formação dos estados nacionais latino-americanos foi tarefa difícil.

Os antepassados das várias nacionalidades mantiveram batalhas sangrentas e diálogos intensos durante longos períodos. Os limites dos vários países foi obra de artesãos da diplomacia.

No entanto, na ânsia de marcarem posições, alguns candidatos agridem os países limítrofes e criam situações de antagonismo, gerando fricções desnecessárias entre os nacionais dos vários estados nacionais.

Nas últimas campanhas - bem como nas anteriores a 1964 - não se conheceram arremetidas contra os governos dos países limítrofes do Brasil.

Agora, parece que virou moda. À falta de assuntos locais capazes de estimular batalhas verbais entre candidatos, estes investem contra outras nacionalidades.

Esquecem as boas relações que os brasileiros mantiveram nestes últimos duzentos anos com todos os países desta America meridional. Romper esta tradição ou levá-la ao desgaste não é boa opção.

Já se conheceu, por aqui, longas e tumultuadas lutas entre irmãos. Ao sul do Brasil, onde hoje se localiza a República Oriental do Uruguai, argentinos e brasileiros se defrontaram durante longo período.

Havia os interesses econômicos de ambas as facções na rica região, onde se criava gado e, particularmente, bestas para o transporte de carga. As mulas, que formavam as tropas, originavam-se - e muito - da Banda Oriental.

A par deste elemento econômico, havia outro de grande importância: a navegação do Rio da Prata e dos grandes rios da região - Paraguai e Paraná -, essenciais à época para se atingir o oeste brasileiro.

Claro que, no caso, também ocorria a conhecida volúpia comercial dos ingleses que, como de costume, almejavam dominar os portos do sul do continente.

Nas planícies uruguaias, muito sangue derramou-se. Nos trabalhos constituintes de 1823, quando o estado nacional brasileiros era plasmado, um tema prevalente foi o envio de tropas para a região.

Os constituintes indicaram, como contingentes apropriados, os homens da Força Pública de São Paulo - hoje Polícia Militar - para defender os interesses nacionais na região.

O argumento primordial era a melhor adaptação dos paulistas ao clima frio da região. A região, após anos de combates, tornou-se a hoje República Oriental do Uruguai.

A paz se estabeleceu e laços fortes fixaram-se entre os povos. As lutas da Cisplatina contam com uma peculiaridade. Merece ser recordada nas vésperas do próximo pleito.

Muitos têm afirmado que a candidata do PT, se eleita, seria a primeira mulher a administrar o Brasil. Não é bem assim. A primeira mulher a gerir o estado nacional foi Dona Leopoldina, a primeira mulher de D. Pedro I.

Muitas vezes - particularmente quando D. Pedro foi à Cisplatina - Dona Leopoldina - Maria Leopoldina Josefa Carolina - assumiu, de fato, a regência e a presidência do Conselho de Estado.

Esta austríaca, pois, na condição de imperatriz do Império do Brasil teve o privilégio de ser a primeira mulher a administrar e indicar os rumos do país.

A última vez que ocupou o vértice da administração se deu em 1826, dias antes de seu falecimento. O registro é significativo, especialmente, para não permitir que inverdades históricas sejam integradas à campanha.

Até outubro, teremos que suportar muitas situações de antagonismo e de absurda perda de controle verbal. Pede-se desculpas à História e paciência aos nossos vizinhos.

A democracia exige paciência e certo grau de transigência. Quando os valores morais não são atingidos, pode-se conferir perdão aos antagonistas.”

FONTE: escrito por Cláudio Lembo, advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador. Publicado (02/08) no portal “Terra Magazine”, do jornalista Bob Fernandes [trecho inicial entre colchetes colocado por este blog].

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