terça-feira, 16 de novembro de 2010

PAULO NOGUEIRA BATISTA JÚNIOR: “NA CONJUNTURA ATUAL, É MUITO DIFÍCIL BAIXAR O JURO SEM AJUSTE FISCAL”

O BRASIL PRECISA MUDAR A COMBINAÇÃO DE POLÍTICAS MONETÁRIAS E FISCAIS”

Paulo Nogueira Batista Júnior, DIRETOR EXECUTIVO DO FMI PELO BRASIL

“O Brasil precisa mudar os ingredientes de sua política econômica para reforçar as defesas contra a enxurrada de capital externo que força a valorização do real. A avaliação é do economista Paulo Nogueira Batista, diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) pelo Brasil e mais oito países latino-americanos.

Ressaltando que fala a título pessoal, Batista defende uma receita que inclui ajuste fiscal para a redução dos juros, a continuidade da acumulação de reservas e medidas de restrição à entrada de capitais. A seguir, trechos da entrevista concedida em Seul, onde Batista participou da reunião do G-20.

O controle de capitais deixou de ser estigmatizado?

Não há consenso ainda, mas o tema está na mesa no âmbito do Fundo Monetário Internacional e do G-20. O quadro é muito diferente do que existia há poucos anos, quando havia rejeição desse tipo de instrumento e modismo pró-liberalização da conta de capitais, no qual o Brasil embarcou nos anos 90, enquanto outros países da periferia do sistema, como China e Índia, nunca desmontaram seus controles de capitais. Há resistências, mas, no comunicado do G-20, existe um endosso para que países em determinadas circunstâncias adotem medidas de regulação do controle de capitais.

Não é melhor baixar os juros?

O Brasil tem um diferencial de juros imenso, que atrai capitais e reforça o movimento que já é induzido pela política monetária expansiva dos principais países emissores de moeda de liquidez internacional, como os Estados Unidos. Uma das maneiras de enfrentar o problema é comprar reservas, mas, quando o diferencial de juros é tão alto, o custo fiscal de acumular reservas é muito grande. O Brasil precisa mudar a combinação de políticas monetárias e fiscais, o ‘policy mix’. É necessário ajustar mais a política fiscal, fazer um esforço fiscal maior, que permitiria reduzir a taxa de juros, aliviando a pressão sobre o câmbio. Não digo que isso resolva o problema. O Brasil tem de combinar várias medidas. Pode continuar acumulando reservas, mas deve adotar medidas de restrição à entrada de capitais, dada a política ultra-expansiva que o banco central americano (Federal Reserve, o FED) e outros bancos centrais importantes estão adotando.

Qual o tamanho do ajuste fiscal?

Não tenho elementos para dizer qual a meta de superávit primário adequada. Na conjuntura atual, é muito difícil baixar o juro sem ajuste fiscal. Não digo que seja um ajuste fiscal enorme. E é necessário combinar vários instrumentos. Mas eu destacaria o que o Tobin (James Tobin, economista americano que defendia uma taxa para limitar a especulação financeira global) falava sobre a necessidade de colocar areia nas rodas das finanças internacionais. Areia talvez seja pouco. Areia, cimento…”

FONTE: reportagem de Cláudia Trevisan e Fernando Dantas publicada no “O Estado de S.Paulo” e transcrita no blog de Luis Favre (http://blogdofavre.ig.com.br/2010/11/na-conjuntura-atual-e-muito-dificil-baixar-o-juro-sem-ajuste-fiscal/).

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