domingo, 11 de julho de 2010

FILME "RETREPO" MOSTRA A GUERRA NO AFEGANISTÃO


"Insurgente" sendo atacado

Filme aviva crítica à estratégia dos EUA

Documentário mostra esforço de jovens militares em combater enquanto buscam engajamento no Afeganistão

Diretor de "Restrepo" critica plano de guerra que cobra ação política dos militares treinados "para lutar e matar"


ANDREA MURTA, DE WASHINGTON

Há duas faces da estratégia da contrainsurgência, escolhida pelo presidente dos EUA, Barack Obama, para lutar a guerra no Afeganistão ["Insurgente" é a denominação utilizada pelos EUA (e Israel) para os patriotas que resistem à invasão militar. Assim, são insurgentes os palestinos, os iraquianos, os afegãos que lutam contra as tropas invasoras norte-americanas ou aliadas. "Contrainsurgência é a luta das tropas dos EUA contra esses patriotas]

Uma é a da discussão sobre como combater, conquistar o apoio dos afegãos e reconstruir o país. Outra bem diferente é a dos garotos de 18 anos treinados para matar que, de repente, têm que agir como diplomatas.

Essa segunda faceta é mostrada com crueza no documentário "Restrepo", que entrou em cartaz na última sexta, em Washington.

O filme é o resultado da imersão entre maio de 2007 e julho rael) de 2008 do jornalista americano Sebastian Junger e do fotógrafo britânico Tim Hetherington num grupo de soldados no vale do Korengal, perto da fronteira paquistanesa, por muito tempo considerado o lugar mais perigoso do Afeganistão.

Apesar de editado para ser apolítico, "Restrepo" contribui para o crescente questionamento da estratégia. A contrainsurgência exige muitos soldados não só para derrotar o inimigo mas para viver entre a população e reconstruir o governo, esforço que pode levar décadas.

As câmeras exibem com tom de futilidade reuniões organizadas pelos jovens soldados com líderes tribais.

Em uma cena, um idoso afegão gira nas mãos uma caixinha de suco dada pelos soldados sem saber onde enfiar o canudinho, em óbvio constrangimento. A distância aumenta quando ele diz: "Querem matar o inimigo, OK, mas estão matando gente daqui que não tem nada a ver com os insurgentes".

Os soldados não podem fazer mais do que pedir desculpas e voltar a uma base nas montanhas, onde sofrem até 14 ataques por dia.

Em outro momento, os militares se animam ao serem procurados por três líderes locais. "É a primeira vez que isso acontece." Mas os afegãos não querem discutir a guerra. Querem indenização após os americanos matarem uma vaca que se prendera no arame farpado, dias antes.

"O que vimos é uma contrainsurgência barata", disse Hetherington após uma pré-exibição do filme, na última quarta. "Respeito os rapazes, mas estamos pedindo a eles que ajam como políticos, enquanto são treinados para lutar e matar."

REVISÃO

Segundo Hetherington, os militares não se queixam do (pouco) resultado das tentativas de aproximação. Expressam frustração, sim, pela contenção de fogo para evitar a morte de civis, outra prática da estratégia.

Esse ponto passa atualmente por revisão. A orientação atual é limitar os ataques aéreos e com morteiros contra casas, a não ser em casos de risco iminente. Os soldados são forçados a analisar o movimento das construções por 48 horas para verificar que não há civis, antes de ataques. E dizem que isso os coloca em perigo.

"Restrepo" é ainda um retrato da vulnerabilidade dos soldados. Os diretores testemunharam com uma proximidade rara batalhas sangrentas e seus efeitos nos jovens americanos, que choram como crianças ao ver o melhor amigo ser morto.

O nome do documentário é oriundo disso: Restrepo é o nome do pequeno posto de combate no vale onde se desenrola a ação, homenagem a um membro morto em combate. O posto foi fechado em abril, após mais de 450 combates e quase 50 mortes.

FONTE:
publicado hoje (11/07) na Folha de São Paulo [título e entre colchetes colocados por este blog].

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