quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

10 ANOS DE BRICS, MUITO PARA COMEMORAR

Brasil, Rússia, Índia e China superaram as expectativas e não são mais “emergentes”; eles e mais um punhado de países devem ser chamados “mercados de crescimento”

Por Jim O"Neill, criador do termo BRIC, presidente da gestora de recursos do “Goldman Sachs” (tradução de Celso Paciornik)

Há dez anos, no dia 30 de novembro, criei o acrônimo BRIC para descrever a provável expansão vigorosa das economias do Brasil, Rússia, Índia e China. Comparada às minhas previsões na época, a história dos BRICs se mostrou sucesso muito maior do que eu podia imaginar. No quadro mais otimista, sugeria que os BRICs chegariam, talvez, a representar coletivamente 14% do Produto Interno Bruto (PIB) global, em relação aos seus então 8%. Na realidade, alcançaram cerca de 19%.

Há 10 anos, eu pensava que a China poderia se tornar tão grande quanto a Alemanha. No entanto, ela chegou ao dobro do tamanho da Alemanha e passou à frente do Japão. O Brasil superou a Itália e é hoje a 7ª maior economia mundial, muito mais do que eu calculara (na semana passada, divulgou-se que o Brasil passou a Grã-Bretanha e já é a sexta economia do mundo). No total, os países do BRIC cresceram de US$ 3 trilhões para cerca de US$ 13 trilhões, e os US$ 10 trilhões a mais quase poderiam criar outra economia americana, como ela era em 2001, ou mais de seis economias da Grã-Bretanha em 2001.

Para comemorar os dez anos, publiquei recentemente um livro intitulado “The Growth Map” (O Mapa do Crescimento), no qual falo do papel fundamental dos países do BRIC e as drásticas mudanças ocorridas no mundo.

Resolvi escrever esse livro há cerca de um ano, depois de uma longa viagem a Índia, China e Coreia. Ao regressar ao Reino Unido, me dei conta de que não havia avaliado a escala de mudança que os países do BRIC e algumas outras grandes economias estavam imprimindo ao mundo. Na realidade, foi então que entendi que precisava encontrar uma nova maneira de convencer as pessoas a parar de denominar estes países de “mercados emergentes”. Deveríamos chamar os quatro BRICs, além de Indonésia, Coreia, México e Turquia de “mercados de crescimento”, para destacar sua importância para o mundo.

Embora muitas pessoas nem percebam, apesar de duas crises distintas - a de 2001 e a de 2008/09 -, que levaram o mundo desenvolvido a crescer em média 1,5% na década passada, a economia global cresceu 3,5%, mais do que na década anterior. Isso ocorreu por causa da expansão de 8% dos países do BRIC. Na década que se inicia agora, a ascensão dos mercados de crescimento fará com que a expansão global atinja a média de 4,3%, apesar das dificuldades com que o Ocidente se depara neste momento. O que pressupõe que o crescimento dos BRICs será de aproximadamente 7%, e de cerca de 5% nas outras economias de crescimento. A expansão conjunta dos oito países será de pelo menos US$ 16 trilhões, ou cerca do dobro do que EUA e Europa contribuirão conjuntamente.

Somente em 2012, os BRICs contribuirão com outros US$ 2 trilhões ao PIB global, criando efetivamente outra Itália em um ano. O que acontece com esses países é muito mais importante do que o que acontece com cada país europeu individualmente. Em “The Growth Map”, discuto diversos aspectos das dificuldades e das oportunidades. Também analiso as questões com as quais se defronta cada um dos países do BRIC, assim como as outras economias de crescimento e ainda as que aspiram a pertencer ao grupo, como a Nigéria.

A maior oportunidade da história dos “mercados de crescimento” é a ascensão de suas classes médias e o enorme aumento do seu consumo. Essa é a questão estratégica fundamental da nossa geração, que proporciona chance fabulosa a todos nós, inclusive às principais empresas ocidentais. Até o fim desta década, o valor do consumo nas “economias de crescimento” será maior do que o dos EUA, e todas as empresas globais com ambições precisarão ser bem-sucedidas nos BRICs, do contrário, ficarão para trás em relação aos competidores.

Isso pode ser constatado no caso da Louis Vuitton, BMW e assim por diante. Essas companhias se multiplicarão, e outros nomes, que provavelmente muitos de nós sequer conhecem, se destacarão. A esse respeito, o mais crucial é o que acontecerá com a inflação chinesa em 2012, e se ela cairá o suficiente para permitir que Pequim abrande sua política monetária, fazendo com que a China tenha um pouso suave. Para nós, será vital que a China cresça menos, mas que dê mais espaço aos seus próprios consumidores.

Outro capítulo do livro analisa uma questão fundamental para o Brasil, o papel da energia e dos seus recursos. Embora a expansão mais acelerada nessas economias de crescimento não pressione o uso dos recursos, a elevação do preço das commodities determinará aumento da inovação e maior produtividade, o que trará novidades neste cenário - os que dependem da persistente elevação dos preços das commodities poderão se decepcionar.

Outro tópico que discuto em detalhes é toda a questão da governança global e com ela, do sistema monetário. Como vimos na crise europeia, é possível que os países do BRIC venham a influir de algum modo em sua solução, talvez por meio de um aumento de sua contribuição ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas isso só ocorrerá se, com todo o direito, eles obtiverem maior participação em termos de votos. Como, até 2015, eles alcançarão o tamanho dos EUA, será inevitável que algumas das moedas do BRIC passem a fazer parte dos “Direitos Especiais de Saque” (DES, moeda escritural do FMI). Até o fim da década, é perfeitamente concebível que o próprio sistema monetário tenha mudado, o que pretendo estudar com maior profundidade nestes tempos extremamente excitantes!”

FONTE: escrito por Jim O"Neill, criador do termo BRIC, presidente da gestora de recursos do “Goldman Sachs” (tradução de Celso Paciornik). Artigo publicado no “O Estado de São Paulo” e transcrito no site “DefesaNet”  (http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/4193/10-anos-de-Brics--muito-para-comemorar) [imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’].

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