sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

“SÍRIA: SOMBRAS POR TRÁS DO ESPELHO”

Damasco-Síria

Homs-Síria
Por Pepe Escobar, no “Asia Times Online – The Roving Eye”

“SYRIA THROUGH A GLASS, DARKLY”

“O drama sírio em andamento nada tem do enredo usual de “mocinhos versus bandidos” à moda de Hollywood. A suspensão da missão dos observadores da Liga Árabe; o duplo veto de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU; a violência crescente, sobretudo em Homs e em alguns subúrbios de Damasco: tudo isso está fazendo aumentar os temores, no mundo em desenvolvimento, de insurreição armada apoiada pelo ocidente, para tentar recriar, na Síria, o caos criado na Líbia – país que foi “libertado” e que é hoje governado por milícias pesadamente armadas. Se a Síria mergulhar numa guerra civil, estará aberta a porta para conflagração regional ainda mais terrível.

Aqui, um primeiro esforço para tentar ver através do denso nevoeiro.

1. POR QUE O GOVERNO DE BASHAR AL-ASSAD NÃO CAIU?

Porque a maioria da população síria ainda apoia o governo (55%, segundo pesquisa de meados de dezembro, feita pela “Qatar Foundation”). Basta ler “Árabes querem a saída do presidente Assad da Síria – pesquisa de opinião” [orig.”Arabs want Syria's President Assad to go - opinion poll[1]], e constatar que a manchete distorce o resultado da pesquisa.

Assad pode contar com o exército (nenhuma deserção no alto escalão); com a elite dos negócios e a classe média das principais cidades, Damasco e Aleppo; com os sunitas seculares, de mais alto grau de instrução; e com todas as minorias – dos cristãos aos curdos e druzos. Até os sírios favoráveis à mudança de regime – mas não os islamistas linha-dura – rejeitam as sanções ocidentais e o bombardeio humanitário ao estilo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Aleppo-Síria

Citadela de Aleppo – castelo medieval sobre pequeno monte, sítio de origem da cidade há 5000 anos

2. ASSAD ESTÁ “ISOLADO”?

Por mais que a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton deseje que estivesse, e por mais que a Casa Branca repita que “Assad tem de parar de matar o próprio povo” e “Assad deve sair” – não. Assad não está isolado. A “comunidade internacional” que propõe a mudança de regime na Síria é só o CCGOTAN (Conselho de Cooperação do Golfo + OTAN) – ou, para ser completamente claro: Washington, Londres e Paris e os xeiques-fantoches afogados em petróleo do Golfo Persa, com destaque para a Casa de Saud e o Qatar.

A Turquia está jogando jogo muito ambíguo; por um lado, hospeda um centro de comando e controle da OTAN na província de Hatay, próxima da fronteira síria; por outro lado, oferece asilo a Assad. E até Israel está sem saber o que fazer: Israel prefere o demônio que conhece bem, a um governo pós-Assad chefiado pela Fraternidade Muçulmana.

Assad é apoiado pelo Irã; pelo governo em Bagdá (o Iraque recusou-se a impor sanções à Síria); pelo Líbano (idem); e, sobretudo, pela Rússia (que não quer perder sua base naval em Tartus) e pela China, parceira comercial. Isso significa que a economia síria não será estrangulada (o país está habituado a viver sob sanções e não tem déficit nacional com o qual se preocupar). O grupo dos BRICS não arreda pé de sua posição: só os sírios podem resolver a crise síria.

3. QUAL É O JOGO DA OPOSIÇÃO?

O Conselho Nacional Sírio (CNS), grupo guarda-chuva comandado pelo exilado Barhoun Galyan, diz representar todas as forças da oposição. Dentro da Síria, a credibilidade do CNS é zero. O CNS é ligado ao Exército Sírio Livre (ESL) – constituído de desertores sunitas e fragmentado em muitas gangues armadas, algumas das quais infiltradas por mercenários do Golfo. Até o relatório da Liga Árabe reconheceu que o Exército Sírio Livre está assassinando civis, soldados e agentes de segurança, bombardeando prédios, trens e oleodutos.

A oposição armada não tem comando central; é essencialmente local; e não tem acesso a armamento pesado. A oposição civil está dividida – e não tem qualquer tipo de plataforma política, além de “o povo quer o fim do regime”, copiada da Praça Tahrir.

4. COMO SE DIVIDEM OS PRÓPRIOS SÍRIOS?

Os que apoiam o governo Assad veem uma conspiração EUA-sionista – com a Turquia e partes da Europa como coadjuvantes – empenhada em dividir a Síria. E vêem as gangues “terroristas” armadas – já infiltradas por estrangeiros – como únicas responsáveis pelas ações mais violentas.

Os dissidentes e a oposição civil fragmentada sempre fizeram oposição pacífica e não armada. Até que começaram a receber proteção de desertores do exército – que traziam com eles suas armas leves. Para esses, tudo que o governo diz é pura propaganda; e os verdadeiros “terroristas” armados são os sabbiha – das gangues paramilitares assassinas pagas pelo governo. Os sabbiha (palavra que significa “fantasmas”) são descritos como alawitas, cristãos e druzos; adultos, mas também muitos adolescentes; sempre de óculos escuros, tênis brancos, braçadeiras coloridas e armados com punhais e porretes, que se chamam entre si por codinomes; os líderes são tipos musculosos, adeptos do fisioculturismo, que se movimentam pela cidade em carros Mercedes escuros.

Há conflito até entre as manifestações de massa. Há manifestações de protesto (muzaharat) e manifestações de apoio ao regime (masirat). Não se sabe se os manifestantes manifestam-se porque querem, ou se são funcionários obrigados a manifestar-se. A mídia estatal síria apresenta os manifestantes como agentes provocadores ou mercenários e nega qualquer manifestação dos muitos que vivem há muito tempo em estado policial, sem liberdade política.

Fator extra de divisão é que o número de mortos divulgado pela ONU, de mais de 5.000 (até agora) não discrimina as vítimas favoráveis ao governo e da oposição; e a ONU simplesmente ignorou a morte de mais de 2.000 soldados do exército sírio (a televisão estatal mostra todos os dias os funerais dos soldados mortos).

5. O QUE OS CRISTÃOS SÍRIOS PENSAM DE TUDO ISSO?

O ocidente cristão – que adorava o turismo de compras no ‘souq’ de Damasco – deve prestar mais atenção ao modo como muitos cristãos sírios veem os protestos. Os cristãos sírios temem que, no poder, os sunitas passem a atacar as minorias (não só os próprios cristãos, mas também os druzos e os alawitas). Para os cristãos sírios, os sunitas são, na maioria, islamistas fanáticos “ignorantes” e “atrasados”, sem qualquer ideia sobre o que sejam democracia, direitos humanos ou via negociada, pacífica, que faça da Síria uma democracia.

Aquela horda de analfabetos, segundo os cristãos sírios, vive na periferia; nem conhece nem entende nem respeita as práticas urbanas da vida nas grandes cidades; apoiam as gangues armadas que espalham a violência; e deseja fazer da Síria estado islâmico (o que, aliás, a Casa de Saud também deseja para a Síria).

Os sunitas seculares, por sua vez, criticam os cristãos; lembram que muitos sunitas são empresários e grandes comerciantes, que têm ideias liberais – e que não, de modo algum, não desejam estado islâmico na Síria.

Detalhe importante, é que a oposição é transconfessional – inclui cristãos e até alawitas.

6. QUAL A ESTRATÉGIA OCIDENTAL EM CAMPO?

Borzou Daragahi do “Financial Times” acaba de confirmar que milícias, em Misrata, na Líbia, anunciaram a morte de três mercenários líbios, na Síria. São homens do “Conselho Nacional de Transição Líbio”, entregues na Síria – com um carregamento de armas roubadas dos arsenais de Gaddafi – voo de cortesia, em aviões cargueiros da OTAN.

Já há meses, como “Asia Times Online” tem noticiado, forças especiais francesas e britânicas estão treinando milicianos em Iskenderun, no sul da Turquia. E a CIA lá está fornecendo serviços de inteligência e comunicações.

O “Exército Sírio Livre” (ESL) circula à vontade através da ultraporosa fronteira sírio-turca. A Turquia construiu vários campos de refugiados; e Ankara hospeda os líderes do “Conselho Nacional Sírio” e do “Exército Sírio Livre”. Há também o front da Jordânia – a conexão com Daraa – de islamistas linha dura (e atrasados). Mas a fronteira entre Síria e Jordânia é atapetada de minas e muito pesadamente vigiada; o que implica uma volta de 200 km pelo meio do deserto.

A maioria dos milicianos do “Exército Sírio Livre” entra e sai à vontade, do/para o Líbano. A principal rota de contrabando liga o norte do vale Bekaa no Líbano, às cidades de Homs e Hama, cidades de maioria sunita e bases da oposição. Há outra rota, que liga o centro do vale Bekaa aos subúrbios de Damasco (o que explica que os quartéis-generais dos dois lados estejam sendo abastecidos regularmente). Mas é tudo muitíssimo perigoso, porque o Hezbollah, aliado da Síria, está muito profundamente enraizado no vale Bekaa.

7. QUEM ESTÁ VENCENDO?

Terça-feira, mais uma vez, Assad prometeu ao ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergei Lavrov que, até o verão, a Síria terá nova constituição e haverá eleições. Seja de coração, ou não, há aí disposição para fazer as reformas.

Mas os “altos funcionários não identificados” de sempre, dos EUA, já vazaram para a rede CNN que a Casa Branca ordenou que o Pentágono examine cenários simulados possíveis para uma intervenção direta dos EUA na Síria, a favor dos rebeldes. Significa que intervenção militar direta por soldados e agentes do CCGOTAN, ignorando a ONU, permanece como possibilidade real; uma operação clandestina, cuja responsabilidade seja atribuída ao governo de Assad, serviria perfeitamente como casus belli.

8. E SOBRE A CONEXÃO SÍRIA-IRÃ?

A Síria é crucialmente importante para definir a esfera de influência do Irã no Sudoeste da Ásia/flanco oriental da nação árabe. Rússia e China, países BRICSs, querem preservar o atual status quo – porque implica equilíbrio regional do poder que confronta a hegemonia dos EUA. Do ponto de vista da China, manter ininterrupto o suprimento de petróleo e gás vindos do Irã é questão de alta segurança nacional. Além disso, se os EUA não tiverem um pé já firmado no Oriente Médio, a tão falada “deriva” rumo à Ásia, do governo Obama/Pentágono, e, principalmente, a “deriva” rumo ao Mar do Sul da China, serão “derivas” muito mais lentas.

O núcleo das elites de Washington vê a mudança de regime na Síria como etapa crucial para debilitar o Irã. O que significa que a coisa vai muito além da Síria. Trata-se de destruir o governo iraniano, que não é satrapia ocidental; de manter fluindo a energia, do Oriente Médio para o ocidente; de manter o controle do ocidente sobre o “Conselho de Cooperação do Golfo”; da interseção entre os mundos árabe e persa; e de preservar o papel do petrodólar.

Síria-Irã é cenário hoje de luta de titãs entre o CCGOTAN e Rússia/China, com Rússia/China interessadas em expulsar o CCGOTAN do Oriente Médio. Quando as hienas da guerra põem-se a latir e uivar, ouve-se, mais viva do que nunca, a doutrina do Pentágono, de ‘Dominação de Pleno Espectro.”

[1] “Arabs want Syria's President Assad to go - opinion poll”

FONTE: escrito por Pepe Escobar no “Asia Times Online – The Roving Eye” sob o título “Syria through a glass, darkly”. Artigo traduzido pelo “pessoal da Vila Vudu” e transcrito no blog “redecastorphoto”  (http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/02/pepe-escobar-siria-sombras-por-tras-do.html). [Imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

2 comentários:

Probus disse...

10 de fevereiro de 2012

“Ao governo do Estado de Israel

Nós somos os Anonymous.

Há muito tempo vimos tolerando seus crimes contra a humanidade e permitindo que seus pecados fiquem impunes.

Por meio de mentiras nos meios de comunicação, e de corrupção política, vocês conseguiram a simpatia de muita gente. Alardeiam ser democráticos, mas na realidade isso está longe da verdade. Seu único objetivo é melhorar a vida de um grupo seleto enquanto atropelam, sem cuidado, a liberdade das massas.

Mas nós enxergamos o que há por detrás da propaganda que vocês fazem circular nas principais mídias e [enxergamos também o que há por detrás] das pressões que vocês operam nas instituições políticas.

Seu fanatismo sionista já deslocou e matou um grande número de pessoas. Enquanto o mundo chora, vocês riem, planejando seu próximo ataque. Tudo isso é feito sob o disfarce da paz, mas a paz vem sendo obstruída desde o início de seu regime.

Vocês rotulam de antissemitas todos aqueles que se recusam a acatar suas exigências supersticiosas. E vêm dando passos rumo a um holocausto nuclear. Vocês são indignos de existir em sua forma atual, e, portanto enfrentam a ira dos anônimos. Seu império carece de legitimidade e por isso vocês precisam governar atrás de uma cortina de fraudes.

Nós não permitiremos que vocês ataquem um país soberano com base em uma campanha de mentiras.

Seu domínio sobre a humanidade enfraquecerá e o ser humano estará mais próximo da liberdade.

Mas, antes que isso aconteça, os povos do mundo se levantarão contra vocês e os tirarão do poder, com toda a sua riqueza. Nossa cruzada contra seu reinado de terror será feita em 3 etapas.

A primeira terá início após o lançamento deste vídeo e terá como objetivo removê-los sistematicamente da internet.

A segunda será revelada mais tarde e já foi iniciada.

Em relação à etapa 3, bem, pensem nela como um presente dos Anonymous a vocês.

Nós não vamos parar até seu Estado policial tornar-se um Estado livre.

Nós somos anônimos.
Nós somos legião.
Nós não perdoamos.
Nós não esquecemos.

Governo de Israel, espere por nós.”

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EXTRAÍDO de: “Anonymous” declara guerra a Israel

Por Baby Siqueira Abrão

Em vídeo lançado na manhã desta sexta-feira, 10 de fevereiro, o grupo de hackerativistas promete “remover” o Estado de Israel... da internet

http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/02/anonymous-declara-guerra-israel.html

Anonymous Message To The State of Israel

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=nrJ551FFWp0

Política disse...

Probus,
Não conhecia essa iniciativa dos Anonymous. Nem todos, mas vários conceitos estão certos, na minha opinião.
Obrigada
Maria Tereza