quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A OTAN, A LÍBIA E A ESPERTEZA DOS TOLOS

Sarkozy e Cameron acham que conquistaram a Líbia...

“O portal “Conversa Afiada” reproduz texto de Mauro Santayana, extraído do JB:

A OTAN, A LÍBIA, E A ESPERTEZA DOS TOLOS

Por Mauro Santayana, no JB

“O dia 11 de novembro de 1630 foi decisivo para a história da França e da Europa. Nesse dia, em Versailles, um jovem rei, Luís 13, rompeu com a mãe, a Rainha Maria de Médicis, e entregou todo o poder político da França a seu ministro, o Cardeal de Richelieu. Richelieu amanhecera deposto pela Rainha, mas um de seus conselheiros o convenceu a ir até o monarca, e expor-lhe suas razões. Foi uma conversa sem testemunhas. O fato é que Luis 13 teve a atitude que correspondia ao filho de Henrique IV: “entre minha mãe e o Estado, fico com o Estado”.

Ao tomar conhecimento da reviravolta, quando os inimigos do Cardeal festejavam sua derrota, o poeta Guillaume Bautru, futuro Conde de Serrant –um dos fundadores da Academia Francesa, libertino, sedutor, e homem de frases curtas e fortes– resumiu os fatos, ao ridicularizar os açodados: “c’est la journée des dupes”. Em nossa boa língua pátria, “o dia dos tolos”.

Ao mesmo tempo em que se vingava da princesa italiana, que o humilhara, Richelieu iniciava uma fase de grandeza da monarquia de seu país que só se encerraria 162 anos depois, com a decapitação de Luís 16.

A história é cheia de jornadas semelhantes. Os planos, por mais bem elaborados sejam, nunca se cumprem exatamente e, na maioria das vezes, se frustram, diante dos caprichosos deuses do inesperado. O caso da Líbia, se o examinarmos com cuidado, está prometendo ser uma operação “des dupes”.

Não vai, nesta análise, qualquer juízo moral sobre Khadafi. É certo que se trata de um megalômano, que, tendo chegado ao poder aos 27 anos, provavelmente não estivesse preparado para administrar o êxito que coroou a sua participação na revolta contra outro déspota, o rei Idris. Mas Khadafi não teria sido quem foi, durante 42 anos, se a Europa e os Estados Unidos não tivessem tido atitude sinuosa e incoerente para com o seu regime. Reagan chegou a determinar o ataque aéreo a Trípoli e Bengazi, em 1986, quando uma residência de Khadafi foi atingida e uma sua filha adotiva morreu. Esses ataques, longe de enfraquecer o governante, fortaleceram-no, e desestimularam os poucos inimigos tribais internos.

Os interesses econômicos da Europa, que fazia bons negócios com o dirigente do velho espaço dos beduínos, berberes e tuaregues, ditaram as oscilações da diplomacia diante de Trípoli. A bolsa, sempre pejada e generosa, de Khadafi, favorecia seus entendimentos e os de seus filhos com altos funcionários das chancelarias européias e financiavam festas suntuosas a que eram convidadas as grandes celebridades do show business e dos círculos ociosos da grã-finagem internacional. Enfim, Khadafi fazia o que quase todos fazem. Não é por acaso que Berlusconi sempre o teve como um de seus mais devotados amigos, até que, coerente com seu caráter, somou-se à cruzada contra Trípoli.

Khadafi, por mais insano tenha sido –e todos podiam identificar os sinais de sua mente vacilante– fez um governo de bem-estar social, como nenhum outro da região. Contando com os recursos do petróleo, criou sistema de assistência à saúde que, mesmo restrito aos centros urbanos, tem sido exemplar. Reduziu drasticamente os níveis de mortalidade infantil, possibilitou o tratamento gratuito de toda a população, universalizou a educação, estimulou a agricultura nas raras terras cultiváveis, e fixou salários dignos para os trabalhadores. É certo que se enriqueceu e enriqueceu seus familiares e favoritos, mas os líbios não tinham por que se queixar de sua política social. Em contrapartida, não admitia qualquer tipo de oposição.

Monsieur Sarkozy, que anda fazendo apostas perigosas com a posteridade, e Cameron, da Grã Bretanha, foram os grandes animadores da intervenção maciça da OTAN contra a Líbia. A ocasião era propícia. A Europa se encontra combalida com a crise econômica e o avanço da corrupção está erodindo a coesão de seus povos. O tema é de particular intimidade da França, detentora, na História, dos mais espetaculares escândalos, entre eles o da frustrada construção do Canal do Panamá por uma companhia francesa: a empresa obtivera, mediante propinas a muitos parlamentares, a concessão de uma loteria especial para o financiamento da obra, recolhera investimentos pesados dos homens de negócios europeus e dos poupadores modestos, e quebrou espetacularmente poucos meses depois. Durante muito tempo, “panamá” passou a ser sinônimo, em todas as línguas, de negócios escusos e da corrupção política. Talvez com a única exceção dos tempos de De Gaulle, nunca houve governo na França imune a denúncias de sujeiras semelhantes. A corrupção foi uma das causas da Revolução Francesa.

Quase todos estão saudando a vitória contra Khadafi, mas isso não significa que tenham conquistado a Líbia. São grupos internos de interesses diferentes que se uniram para livrar-se de um inimigo comum, com o apoio das potências estrangeiras, que bombardearam sistematicamente a população civil –o que, convenhamos, é terrorismo puro. Mas, sempre que as armas se calam, novo e mais complicado conflito se inicia. Quem assumirá o poder? Irão as tribos do deserto, que se relacionam entre elas mediante complexa malha de fidelidade, fundada no parentesco e nas alianças bélicas seculares, unir-se sob um protetorado estrangeiro? É duvidoso.

Há uma questão de fundo, que Sarkozy e Cameron, em seu açodamento, desprezaram. Londres e Paris, pressurosos em aproveitar os episódios dos países árabes, a fim de reocuparem seu domínio colonial, tomando o lugar da Itália na influência sobre a Líbia, esqueceram-se de Israel.

Mubarak, do Egito, o principal aliado de Tel-Aviv, e fiel vassalo de Washington, perdeu o poder e corre o risco de perder também a cabeça. Israel tomou a iniciativa de provocar as novas autoridades do Egito ao cometer o ataque fronteiriço, que causou a morte de oficiais daquele país, na pressão para que se feche novamente a passagem aos palestinos.

Nada indica que os governos que, eventualmente, sucedam aos déspotas destituídos no Egito e na Tunísia, e os que possam vir a ser derrubados nas vizinhanças, sejam mais condescendentes com Israel. Até mesmo a Síria é uma incógnita, no caso em que Assad perca o mando.

A Itália, acossada pela crise econômica e pela desmoralização de Berlusconi, em lugar da neutralidade, somou-se, na undécima hora, aos agressores.

Os fundamentalistas se somam aos que saúdam os movimentos de rebeldia nos países árabes. A Palestina, por intermédio do Hamas, aplaude o fim de Khadafi. Terá suas razões para isso. E a rede Al Jazeera já está emitindo de Trípoli. Como se queixou Khadafi, a Al-Qaeda não o apoiava.

Enfim, para lembrar o burlador Conde de Serrant, é bem provável que este ano de 2011 fique na história como o ano dos tolos.”

FONTE: escrito pelo jornalista Mauro Santayana no Jornal do Brasil Online. Transcrito no portal “Conversa Afiada”  (http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/08/24/santayana-a-libia-e-o-festival-de-tolices/).

2 comentários:

Probus disse...

RECOMENDO ESTES DOIS POSTS E A REPORTAGEM ABAIXO:

Pepe Escobar: “Capitalismo de desastre: abutres sobre a Líbia”

http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/pepe-escobar-capitalismo-de-desastre.html

Caminha a Líbia para uma batalha final?
Por: Juliana Medeiros
Membro da delegação brasileira na Líbia

http://mariafro.com.br/wordpress/2011/08/24/juliana-medeiros-libia-maior-renda-per-capita-do-continente-africano/

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Rússia: ONU deve desempenhar principal papel na Líbia pós-guerra

MOSCOU (Reuters) - A Organização das Nações Unidas deve desempenhar um papel central nos esforços internacionais para ajudar a reconstruir a Líbia quando a guerra entre os partidários de Muammar Gaddafi e os rebeldes acabar, disse a Rússia na quinta-feira.

"Partimos da posição de que o trabalho no desenvolvimento da Líbia pós-conflito deve ser feito exclusivamente sob o mandato do Conselho de Segurança da ONU", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Alexander Lukashevich, em uma coletiva de imprensa.

Tanto a Rússia quanto a China enfatizam que o conselho, e não nações ocidentais ou alianças como a Otan, deve ter o papel principal em questões de segurança.

Lukashevich criticou o "grupo de contato" liderado pelo Ocidente, que inclui os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França e apoiou os rebeldes, que teve ajuda dos bombardeios de países da Otan.

"Acreditamos que o papel das Nações Unidas e do Conselho de Segurança na resolução política do conflito líbio é central, e não o de quase-estruturas como o grupo de contato internacional", disse.

A Rússia parece preocupada porque as nações ocidentais que apoiaram os rebeldes líbios podem ter maior influência no país norte-africano produtor de petróleo quando o conflito terminar.

Moscou não seguiu os Estados Unidos e a União Europeia no reconhecimento do Conselho Nacional de Transição como o governo legítimo da Líbia.

Rússia e China permitiram a intervenção militar ocidental na Líbia ao se absterem em uma votação sobre a resolução no Conselho de Segurança em março, mas Moscou acusou as forças da Otan de ultrapassar seu mandado para proteger os civis ao lançar ataques aéreos.

OBS: A ONU É UMA PIADA. A OTAN NÃO PASSA DE MILICIANOS DOS GROUP BILDERBERG QUE CONTROLAM TODAS AS AÇÕES DO TRIBUNAL DE HAIA.

TE CUIDA ORINOCO. TE CUIDA AMAZÔNIA. "ELES" não conseguirão se adentrar em Damasco nem em Teerã não,outros alvos virão!!!

ABRA OS OLHOS MADAME ROUSSEFF!!! NÃO CLAME DEPOIS POR SANTO ANTONIO PEQUENINO AMANSADOR DE BURRO BRABO NEM POR NOSSA SENHORA!!!

Fora EMBRAER. Fora HELIBRÁS. Fora EADS. FORA SIONISTAS!!

Política disse...

Probus,
Obrigada pelas sempre boas indicações de links e textos.
Maria Tereza