sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O BRASIL NA GUERRA DO CANAL DE SUEZ




Soldados gaúchos do Batalhão de Suez prestes a embarcar, em 1963

Avião B-17 "Fortaleza Voadora" da FAB, que fazia o "Correio de Suez"

A Guerra de Suez e a União Soviética no Egito

Por André Araújo

"Alguns observadores tem afirmado que é a primeira vez que a Rússia atua no Oriente Médio nos últimos cem anos. Não é bem assim. A antiga União Soviética teve papel preponderante no Egito de 1957 a 1970 e, por tabela, começou por aí a agregação da Síria à area de influência russa.

A entrada em cena da URSS se deu pela primeira vez na Guerra Fria em aliança com os EUA contra a França, Inglaterra e Israel. Esses três países invadiram a Zona do Canal de Suez em 29 de outubro de 1956; a França e Inglaterra em represália porque o líder egípcio Coronel Gamal Abdel Nasser tinha nacionalizado a "Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez", empresa francesa de controle britânico. Nasser pretendia, com a nacionalização, fazer caixa para pagar a construção da represa de Assuan, visando produzir energia elétrica e desenvolver o Egito, obra que não recebeu apoio de financiamento dos EUA por razões ideológicas. Nasser era considerado um populista esquerdista e fora do radar de apoio do governo Republicano do Presidente Eisenhower. O Egito tinha solicitado um empréstimo de 2 bilhões de dólares ao Banco Mundial e os EUA vetaram. Com o ultimato simultâneo da URSS e dos EUA, os invasores se retiraram de forma vexatória e Nasser manteve a nacionalização do canal. 

As razões da URSS e dos EUA eram diferentes, mas coincidiram em não querer um conflito naquele momento naquela região. A URSS estava às voltas com a Revolta da Hungria e os EUA não queriam conflitos perto da Arábia Saudita, sua grande província petrolífera sob controle da "Standard Oil Co.of California" (hoje Chevron).

O Egito entrou decisivamente para a área de influência soviética, que passou a ter papel preponderante na economia egípcia e na Síria desde então, porque Nasser, em conjunto com o Presidente sírio Shucri al Kwattli, formaram a "República Árabe Unida", Egito e Síria se fundindo em só País, experiência que durou pouco, sob a Presidência de Nasser. Egito e Síria têm histórias, população, economia e cultura muito diferentes, não poderia dar certo juntar tudo em um só balaio.

A influência soviética no Egito continuou até a morte de Nasser em 1970 e acabou sob a Presidência pró-ocidental de Anuar al Sadat, que o sucedeu e tinha como objetivo restabelecer os laços tradicionais com o Ocidente.

Com o fim da Guerra de Suez e para dar estabilidade política e militar à zona do Canal, as Nações Unidas, com a concordância de Nasser, passaram a ocupar a Zona do Canal com uma Força Internacional de Paz. Para Nasser, era uma segurança porque ele manteria o Canal nacionalizado com garantia da ONU. Foi negociada uma indenização que não chegou perto ao que os acionistas do Canal queriam, mas a Companhia já era muito rica e hoje é um dos maiores grupos financeiros da Europa, fortíssimo também na geração de energia elétrica no Brasil através da "Tractebel", que comprou a Eletrosul nas privatizações elétricas de 1996 [FHC/PSDB], o "Grupo Suez" é hoje um dos maiores grupos de energia do mundo.

BRASIL NO SUEZ

A Força Internacional do Canal de Suez teve como principal contingente o Batalhão Suez do Exército Brasileiro, que em dez anos mandou para a Zona 6.000 homens e teve papel de grande destaque pelo profissionalismo e excelente relação com os egípcios; aliás, é uma das razões pelas quais o Brasil é o Pais que mais participou de Missões de Paz da ONU.

A dominância soviética no Egito era pesada. Em 1967 viajei pelo País com minha esposa e lembro que o voo do Cairo a Luxor era em avião Antonov, com tripulação russa, inclusive a aeromoça, sendo o sanduíche com queijo russo Dimex.

O Egito passou a ser o epicentro da espionagem e propaganda soviética para a África, recebendo grande volume de armamento soviético, especialmente aviação e tanques, também muitos engenheiros de obras públicas.

A Guerra de Suez não foi um grande conflito físico, mas foi um evento geopolítico de vital importância e é a raiz da penetração russa na Síria desde então, que hoje tem seus desdobramentos na guerra civil daquele país."

FONTE: escrito por André Araújo e publicado no "Jornal GGN"  (http://jornalggn.com.br/noticia/a-guerra-de-suez-e-a-uniao-sovietica-no-egito). [Título, imagens e legendasacrescentados por este blog 'democracia&política'].

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