segunda-feira, 1 de outubro de 2012

OS ÚLTIMOS 18 ANOS E OS PRÓXIMOS, por Marcos Coimbra

Por Marcos Coimbra


OS ÚLTIMOS 18 ANOS E OS PRÓXIMOS

“Os primeiros 18 anos da ‘Carta Capital’ foram marcados, na política brasileira, por uma decepção e uma grata surpresa. Ambas tão intensas que, muito provavelmente, continuarão a marcar os próximos 18.

A decepção veio de havermos experimentado a melhor opção que as elites tradicionais tinham a oferecer ao País e de a experiência ter sido considerada quase consensualmente frustrante. A boa surpresa foi o desempenho de uma pessoa do povo como presidente da República.

Quando Fernando Henrique Cardoso venceu a eleição de 1994, encerrava-se o ciclo dramático do retorno à democracia. Nos dez anos anteriores, havíamos passado por uma combinação particularmente negativa de crises e desafios: economia estagnada, hiperinflação e as tensões provocadas pelo esforço de construir uma ordem democrática depois de longa ditadura.

Como se não bastassem os problemas inevitáveis, ainda tivemos que lidar com infortúnios imprevisíveis.

A de 1994 não foi uma eleição para ser disputada, pois seu resultado estava encomendado de véspera. Ninguém conseguiria bater um candidato apresentado [falsamente] como "autor" do mágico plano econômico lançado meses antes [no governo Itamar Franco]. Os eleitores foram às urnas maravilhados com o [falsamente apregoado] homem que, a "golpes de genialidade", acabara de "derrotar a inflação".

Com a mística do plano Real somada à legitimidade de sua trajetória de intelectual e político, FHC despachou a eleição no primeiro turno e tomou posse para inaugurar um “governo de 20 anos”.

Em seu círculo íntimo, ninguém acreditava que a esquerda teria forças, nesse horizonte, para se contrapor ao PSDB e à sólida aliança que formara ao centro e à direita. Povo encantado, empresariado satisfeito, políticos agradecidos, formariam o tripé de uma duradoura “pax tucana”.

E que não viesse alguém falar de alternância no poder! Como poderia ter dito Sérgio Motta, o “operador” desse plano: “Quem gosta disso é a oposição”.

Só o primeiro passo do projeto deu certo: garantir um segundo mandato a Fernando Henrique. No que foi, provavelmente, o mais bem-sucedido esquema de “conquista” de apoio parlamentar mediante “estímulos” [$] de nossa história, as regras do jogo foram mudadas com a bola [$] rolando (aliás, com muita bola rolando).

É possível que o fracasso do projeto de 20 anos peessedebistas tenha começado ali, com a obsessão de Fernando Henrique em permanecer no poder. O novo mandato acabou se revelando um péssimo negócio.

Seus problemas crônicos de imagem – pois ele nunca conseguiu estabelecer uma comunicação direta com a maioria da população e sempre foi percebido como distante e elitista - foram se agravando ao longo do primeiro governo, mas permaneceram sob controle pela aura "de competência" que o sucesso do Real transmitia.

Quando, no entanto, a moeda fraquejou na crise cambial de 1999, explodiram. Em outubro daquele ano, a aprovação do governo foi a 8%, menos que Sarney e Collor haviam obtido no pior momento.

Aí veio o “apagão” energético e até quem ainda gostava de FHC se assustou. Como explicar tanta imprevidência?

Faltando dois anos para completar o mandato, o mais ilustre representante das elites, o que de mais brilhante e habilidoso tinham a oferecer, havia se transformado em um presidente impopular, frágil e com imagem de incompetente. As principais políticas a ele associadas, como a privatização, pagavam o preço de ter sua marca.

Chega a ser cômica a insistência com que alguns teóricos da oposição explicam os insucessos de Serra e Alckmin por sua insuficiente defesa do “legado de FHC”. Deixaram de fazê-la para não cometer um suicídio eleitoral, que ninguém pode exigir de um candidato. Não foi a ausência, mas a presença desse legado que derrotou os tucanos três vezes.

O fenômeno político mais importante dos últimos 18 anos começou com uma vitória eleitoral e tomou corpo quando Lula se revelou, aos olhos da vasta maioria do País, um bom - para muitos, um ótimo - presidente.

Foi notável campanha, que deixou as pessoas mais tranquilas e diminuiu o receio que tinham de arriscar. E a frustração com o outro lado era tamanha que a maioria resolveu que era hora de fazer a grande mudança.

É bom, para o sistema político de um país, que o chefe de governo seja uma pessoa querida, que represente os cidadãos com autoridade legítima. Melhor ainda quando, além disso, é competente e capaz de criar boas políticas.

Depois da grave decepção com Fernando Henrique, a população teve grata surpresa com Lula.

Nossas elites tradicionais achavam que ele era um remédio amargo que o Brasil precisava tomar para expeli-lo para sempre. Que, vencendo uma vez, faria um governo tão ruim que nunca mais alguém como ele teria chance.

Pensavam que, se 2002 tinha se tornado inevitável pelos erros de FHC, de 2006 Lula não passaria.

Passou. Se reelegeu e fez um segundo governo melhor que o primeiro, na opinião de mais de 90% das pessoas.

As velhas elites engoliram em seco e pensaram: “Que seja, mas de 2010 não passará”.

Passou, com um gesto de alto risco. Só ele para lançar a candidatura de alguém com o perfil de Dilma.

E ela está sendo outra grata surpresa. Tanto que tem larga vantagem em relação a qualquer nome da oposição nas próximas eleições. Em todas as pesquisas conhecidas, alcança perto de 60% das preferências, contra não mais que 10% a 15% dos possíveis adversários.

Seu segundo ano de mandato está terminando com a popularidade em alta e nada indica que enfrentará problemas em 2013. Pelo contrário.

Melhor que Dilma, só Lula, que atinge 70% quando é apresentado como possível candidato. Ou seja: hoje, parece muito provável que Lula e Dilma passem de 2014.

O que aproxima muito o PT de realizar o sonho tucano de hegemonia durante 20 anos.

E 2018? E se Lula resolve voltar? E se Dilma e ele vierem a alternar candidaturas? E se os 16 anos do PT se estenderem com novos nomes (como [fez] o PSDB em São Paulo)?

É nesse contexto que a atual histeria de um pedaço das oposições se explica. Tudo que puderem fazer para impedir a concretização dessas tendências está sendo e continuará a ser feito.

Não é por outra razão que transformaram o julgamento do “mensalão” em um circo. São poucas as oportunidades que têm para desgastar o PT e Lula. Não vão desperdiçar nenhuma. E vão fazer um jogo cada vez mais bruto.”

FONTE: escrito por Marcos Coimbra. Transcrito no portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-ultimos-18-anos-e-os-proximos-por-marcos-coimbra). [Imagem do Google e pequenos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

GABRIELLI TOMOU A PETROBRÁS DE VOLTA DO PIG

Do “Conversa Afiada”


“O programa “Entrevista Record Atualidade”, que foi ao ar na sexta-feira (28), na “RecordNews”, (...) apresentou uma entrevista com o Secretário de Planejamento da Bahia, Sergio Gabrielli.

Sérgio Gabrielli foi diretor financeiro e, depois, por sete anos, presidente da Petrobrás.

Foi o presidente que ficou mais tempo no cargo.

Ao sair, o PiG (*) o atacou ferozmente.

Provavelmente, porque ele realizou uma obra imaterial, que não se mede em barris de petróleo ou dutos para passar gás.

Gabrielli foi decisivo na política de reconquistar a Petrobrás para o Brasil.

Como se sabe, no Governo FHC, onde o “Padim Pade Cerra” liderou a política de privatização, a começar pela Vale do Rio Doce, vendida a preço de banana, o projeto era vender a Petrobrax.

Devidamente fatiada, para ficar mais barata – no varejo.

Quando, na gestão Gabrielli, a Petrobrás descobriu o pré-sal, ele, Lula, a Ministra Dilma e o Ministro Edson Lobão asseguraram que o petróleo do pré-sal será explorado num regime de partilha com a União.

E a Petrobrás será a operadora única, com a obrigação de furar, pelo menos, 30% de cada descoberta.

O petróleo voltou a ser nosso, como queria Vargas.

Gabrielli também realizou a maior venda de ações da História do Capitalismo, ao lançar ações da Petrobrás no mercado financeiro internacional.

Hoje, o PiG (*) responsabiliza Gabrielli pela valorização do Real e a queda do preço internacional do petróleo.

Só porque não pode mais vender a Petrobras à [norte-americana] “Chevron”, como prometeu o então candidato à Presidência, o “Padim Pade Cerra”, segundo o “WikiLeaks”.

Hoje, Sergio Gabrielli é Secretário de Planejamento do Estado da Bahia.

Ele acaba de enviar o Orçamento de 2013 à Assembléia da Bahia, com a previsão de R$ 72 bilhões de investimentos privados e R$ 20 bilhões de investimentos públicos.

A economia da Bahia, com Pernambuco e o Ceará, cresce, consistentemente, a taxas superiores à do Brasil e muito parecidas com as da China.

A construção civil na Bahia cresce a 10% ao ano, há quatro anos.

O comércio, a 10,6%.

Além de investimentos do Governo Federal, como a ferrovia Oeste-Leste – ela poderia se chamar a “Ferrovia da Gabriela” -, que vai ligar Tocantins a Ilhéus, a Bahia investe em mineração (depois de Minas, é o maior estado mineral do país) e em energia eólica.

É o maior parque do país, com unidades geradores na região do semi-árido – e tudo investimento privado.

O crescimento da Bahia pode credenciar Gabrielli a ser o sucessor de Jacques Wagner.

A propósito, o ansioso blogueiro perguntou se ele era Bahia ou Vitória.

Ele disse que torce pelo Ipiranga."

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

FONTE: escrito pelo jornalista Paulo Henrique Amorim em seu portal “Conversa Afiada”  (http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2012/09/28/gabrielli-tomou-a-petrobras-de-volta-do-pig/).

UMA ACUSAÇÃO INFAMANTE MOVIDA PELO PRECONCEITO

Por J. Carlos de Assis

“Desde a infame condenação do capitão Dreyfus pela Justiça Militar francesa no início do século XX, sabe-se que a opinião pública, sensível a preconceitos e desorientada pela imprensa, nem sempre é a melhor conselheira de julgamentos que envolvem aspectos políticos apaixonados. Guardadas as distâncias de época e de tema, estamos diante de nosso caso Dreyfus no julgamento de alguns dos réus do chamado mensalão. Entre os principais deles, José Dirceu e José Genoíno.

Refiro-me, especificamente, à imputação do crime de formação de quadrilha a esses dois dirigentes. No caso de Dirceu, então Chefe da Casa Civil, é necessário um enorme contorcionismo jurídico para deduzir o crime de formação de quadrilha de um ou de outro encontro formal ou informal com dirigentes de bancos, na medida em que receber pessoas, empresários ou não, estava entre suas atribuições funcionais. Sem o crime de quadrilha, porém, não haveria base para o crime de corrupção ativa, a outra imputação dele derivada. Daí o contorcionismo.

Na verdade, há algo de podre no reino desse julgamento. Misturaram-se crimes reais com crimes fictícios, e crimes reais com irregularidades eleitorais que não estão capituladas como crimes (caixa dois de campanha). O que está sendo apresentado como comportamento exemplar da Justiça no fundo não passa de exemplo da tendenciosidade do Judiciário. É importante, pois, reconstituir os fatos passo a passo para tentar obter uma visão imparcial do conjunto.

Tudo começa com a “denúncia espetacular” de Roberto Jefferson, não motivada por sentimentos de justiça, mas como vingança por causa da exposição do esquema de corrupção do PTB, sob sua presidência, apanhado em plena tentativa de achaque ao PT. Da denúncia “bombástica”, por si mesma um meio de suscitar paixões na opinião pública acrítica, surgiu o inquérito pela Polícia Federal, que identificou outros beneficiários de esquemas de “caixa dois” de partidos aliados para cobrir supostas despesas eleitorais. Foi esse inquérito que resultou na denúncia formal de uma “quadrilha” chefiada por José Dirceu por parte do então Procurador-Geral da República, Antônio Fernando de Souza.

Passado algum tempo, o novo Procurador, Roberto Gurgel, vice do anterior, seguiu a mesma linha, repetindo a denúncia infamante de “quadrilha”. Carregar na denúncia é, aliás, quase um vício de ofício de qualquer promotor. Mas o ministro relator do STF, Joaquim Barbosa, não quis parecer frouxo: acolheu no seu voto o mesmo epíteto infamante. Não é preciso ser um especialista em reações de opinião pública para concluir que esses três movimentos se reforçaram na relação com ela. O procurador Antônio quis apresentar uma denúncia espetacular; Gurgel, seu vice anterior, não poderia ficar por menos. Nessa altura, excitada pelos dois procuradores, grande parte da opinião pública queria ver sangue. Barbosa lhe deu!

No fundo, estamos diante de um espetáculo de demagogia por parte de funcionários públicos que, não dependendo de votos, deveriam ser guardiães imparciais da Justiça, mas na verdade agem partidariamente. Alguns dizem que Dirceu é arrogante. Nas poucas vezes em que tratei com ele, não percebi nenhuma arrogância. Entretanto, se este for o caso, é preciso, desde logo, capitular arrogância no Código Penal que está sendo reformado tendo em vista a única jurisprudência nova que este julgamento está produzindo, ao lado da formação de quadrilha num conluio invisível “entre quatro paredes”.

Há em tudo isso um preconceito contra a democracia por parte dos que jamais aceitaram o fato de o PT ter ganhado duas vezes pelo voto a Presidência da República. Esclareço que não sou do PT, nunca fui e não pretendo ser. Mas, longe de ter o talento de Zola, move-me aquele sentimento de justiça que o levou a escrever “J’acuse”, em relação ao processo injusto contra, principalmente, José Dirceu. Se ele chefiou uma quadrilha, todos os partidos políticos do Brasil são quadrilhas. Se ele não chefiou, e vier a ser condenado, este Supremo mergulhará em indignidade. E teremos de esperar uma outra composição dele para que, no futuro, como aconteceu com Dreyfus, a Justiça brasileira venha a se desculpar perante Dirceu e Genoínio.”

FONTE: escrito por J. Carlos de Assis, economista e professor da UEPB, presidente do “Intersul”, autor, junto com o matemático Francisco Antonio Doria, do recém-lançado “O Universo Neoliberal em Desencanto”, Ed. Civilização Brasileira. Artigo publicado no site “Carta Maior”  (http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=5791). [Imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’].

BRASIL É OURO NA OLIMPÍADA IBEROAMERICANA DE FÍSICA

BRASIL VENCE OLIMPÍADA IBEROAMERICANA DE FÍSICA 2012


Do “Jornal da Ciência”

“Com duas medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze, o Brasil conquistou, mais uma vez, a primeira posição na “Olimpíada Iberoamericana de Física”.

A 17ª edição do evento aconteceu em Granada, na Espanha, entre 17 e 22 de setembro. "O Brasil participa desde 2000 e esta é a sexta vez que temos o primeiro lugar", diz Euclydes Marega Jr., coordenador da “Olimpíada Brasileira de Física” e pesquisador do “Instituto de Física de São Carlos” da “Universidade de São Paulo”. Além das seis vitórias, o Brasil terminou em segundo lugar outras quatro vezes, o que mostra o bom desempenho dos alunos brasileiros.

Na atual edição, as láureas couberam a Ilo Pereira Sá Emerenciano (ouro), Victor Matheo de Sousa Fernanders (ouro), Luciano Drozda Dantas Martins (prata) e Liara Guinsberg (bronze). Os três meninos atualmente cursam o terceiro ano do Ensino Médio; Liara está no segundo ano.

Três estados brasileiros estiveram representados: Victor e Luciano são de Fortaleza, no Ceará, Ilo é de Recife, em Pernambuco, e Liara é de São Paulo, capital.

Além do bom desempenho, Marega Jr. destaca o importante aumento da presença feminina - com sucesso - em eventos olímpicos de física. "Neste ano, além da Liara, que conquistou o bronze na Iberoamericana, tivemos na IPHO [Olimpíada Internacional de Física] a Lara [Timbó Araújo], de Fortaleza, que foi a primeira garota a ganhar medalha pelo Brasil na IPHO."

Os resultados sedimentam duas crescentes conquistas no ensino de física: o aumento da presença do sexo feminino e o alto nível de competitividade dos alunos brasileiros com relação aos do exterior.

E a “Olimpíada Iberoamericana de Física” tende a crescer em importância e representatividade nos próximos anos. "Neste ano, foi discutida a participação dos países da África de língua portuguesa e existe a possibilidade de eles partiparem em 2014", diz Marega Jr.”

FONTE: publicado no “Jornal da Ciência” e transcrito no portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/brasil-e-ouro-na-olimpiada-iberoamericana-de-fisica). [Imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’].

BRASÍLIA, MOSCOU E ATENAS

Por Miguel do Rosário, em “O Cafezinho”


“O ambiente político brasileiro, como sempre, está em chamas. Uns falam em preparação de um golpe branco, através do conluio entre mídia, judiciário e oposição partidária. A mídia, por sua vez, ridiculariza essas suspeitas. Presidentes dos principais partidos da base aliada divulgaram há pouco uma carta aberta em que denunciam a politização do julgamento do mensalão e a tentativa espúria, por parte de setores da imprensa, de macular a honra e a história do ex-presidente Lula.

Difícil se posicionar, ainda mais num momento eleitoral, que polariza e radicaliza as opiniões. Quem tenta ponderar acaba sendo arrastado para um dos extremos, ou então sendo visto com desconfiança por ambos os lados.

Não há meio termo. A internet ajuda a radicalizar as opiniões e cada um escolhe seu campo. Há alguns meses, li um artigo do Pedro Doria mencionando um estudo que mostra a tendência à radicalização no ambiente virtual. Como se escreve sempre para o mesmo grupo de opinião, cria-se um ciclo vicioso que gera um radicalismo cada vez maior e mais polarizado.

Ponderar é chato, recende à insegurança, oportunismo, covardia. No entanto, é necessário, inclusive para os que se envolvem de corpo e alma nas lides políticas.

ATENAS

Na Guerra do Peloponeso, o clássico de Tucídides, os grandes momentos literários são os discursos dos generais procurando incutir bravura nos soldados. Um dos mais belos é o de Péricles, falando aos atenienses. Ele é um dos mais inflamados partidários da guerra contra os peloponésios, porque entende que ela é inevitável e os atenienses, portanto, devem tomar a iniciativa antes que seja tarde. No entanto, quando os peloponésios, que tinham substancial superioridade numérica na infantaria (soldados em terra) invadem a Ática, o líder ateniense insta seu exército, tanto seu como dos aliados, a não contra-atacarem. Não era a primeira vez que Atenas tinha agido assim. Na guerra contra os persas, os atenienses chegaram a abandonar a cidade e seus campos, e refugiaram-se em seus barcos e nas ilhas próximas.

A estratégia consistia em não bater de frente contra um exército superior, mas deixá-lo se desgastar, e depois combatê-lo de preferência no mar, onde os atenienses levavam vantagem. E pegá-lo de surpresa.

A guerra do Peloponeso marca o fim da hegemonia ateniense e o declínio dos ideais democráticos no mundo grego. A estratégia de Péricles, contudo, estava certa, e enquanto ele viveu, Atenas levou a melhor. Após sua morte, assumiram a liderança do exército ateniense personagens menos brilhantes, mais imprudentes e ambiciosos, que acabariam por levar Atenas à derrota.

MOSCOU

Muitos séculos depois, um general russo derrotou o até então invencível Napoleão usando a mesma estratégia. A Rússia inteira, população e exército, recuou para o interior gelado de seu território e deixou a França entrar livremente em Moscou. O grande estrategista francês, considerado um dos cérebros militares mais brilhantes da história, cometera, enfim, um erro fatal.

O general russo, por sua vez, penou para convencer seus ardentes oficiais a recuar. Foi chamado de covarde para baixo, até que os resultados da guerra lhe deram razão. O terrível inverno russo sobreveio e Napoleão se viu no meio de uma cidade vazia, rodeada por campos devastados (pelos próprios russos), sem comida, sem infraestrutura, sem nada. Quando inicia o retorno à França, o clima inóspito faz o papel do mais impiedoso dos adversários. E aí, justamente nesse momento, o general russo ordena o ataque.

As tropas napoleônicas são dizimadas por um exército descansado, acostumado ao frio, e com a vantagem de conhecer melhor o terreno.

BRASÍLIA

Na guerra da comunicação em que vivemos, não creio que seja o momento de recuar. Ao contrário, a mídia conservadora vive um tempo de desmoralização e enfraquecimento moral e político, conforme se pode depreender a partir do comportamento patético da “Veja” e a repercussão de suas reportagens nos grandes jornais. Seus partidos preferidos (DEM e PSDB) têm perdido espaço rapidamente. Os colunistas, que vinham fazendo festinha com o bom posicionamento de seus aliados em algumas capitais nas pesquisas de intenção de voto para as eleições municipais deste ano, viram seus sonhos se desfazerem nos últimos dias.

A mídia já acusou o golpe, conforme se constata por essa notinha, que abriu a coluna de do Ilimar Franco, no “O Globo”:
Observe o final. “A oposição depende, cada vez mais, de um rompimento de Eduardo Campos com a presidente Dilma”.

Por isso mesmo, o PT e outras legendas aliadas terão quer ser muito inteligentes para não se deixarem influenciar pelos “Iagos” da mídia, que farão de tudo para pintar o PSB como um adúltero. Eleição é um tempo de tensão. E o PSB está em confronto com o PT em Belo Horizonte e Recife. O Brasil, porém, é muito maior que isso. Tenho achado, por isso mesmo, que algumas intervenções do presidente do PT, Rui Falcão, e do Secretário de Comunicação do partido, André Vargas, são desastradas. É um daqueles vícios do PT paulista, de ver somente o partido, e o curto prazo, sem enxergar as estratégias maiores.

Toda vez que as intrigas, constantes, diárias e crescentes, lançadas contra Eduardo Campos, se tornam alarmantes, o governador de Pernambuco viaja a São Paulo, encontra-se com Lula, os dois tiram fotos se abraçando, e Campos concede entrevistas onde reafirma a sua disposição de apoiar a reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Um pernambucano autêntico como Campos pode ser tudo, menos desleal, traindo suas próprias palavras. O PSB é aliado estratégico do PT, e por isso acho até saudável que o PSB ganhe as eleições em Recife. Isso fortalecerá Campos. Em 2014, o governador deverá ou ser vice da presidenta Dilma ou, melhor ainda, senador da república, tornando-se imediatamente presidente do Senado. Temos, assim, um quadro político da esquerda sempre a postos para defender o campo popular progressista.

Quanto à regulamentação da mídia, um setor significativo da classe política já entendeu que é necessária. O governo federal, não sei. Tenho a impressão que o governo federal ainda tem dúvidas sobre as iniciativas a serem tomadas no campo da luta política e ideológica que acontece na comunicação social brasileira. Ainda há insegurança, algumas pitadas de covardia, outras de prudência. Tanto ministros quanto a presidente sabem que se tornarão, imediatamente, alvos de uma terrível campanha de desconstrução simbólica a partir do momento em que emitirem sinais concretos de que vão tomar medidas para reduzir o poder político da grande mídia. Gostaria de acreditar, também, que há estratégia. Que o governo espera o inverno se tornar mais rigoroso para a mídia antes de contra-atacar com força total. Não para destruí-la, mas para torná-la menos tirânica, mais plural e mais democrática, abrindo espaço para que outras ideias, mais condizentes com o Brasil de hoje, circulem na opinião pública.

O governo, aparentemente, abandonou Atenas e seus campos à sanha devastadora de seus inimigos. Blogueiros e ativistas digitais lutam sozinhos, usando táticas de guerrilha que, se não ferem de morte a mídia, lhe obrigam a soltar gritinhos de dor de vez em quando, como temos visto ela fazer através de seus editoriais e colunistas.

Não precisamos, todavia, esperar o Congresso Nacional. Os estados e municípios podem dar início às mudanças, fazendo leis que priorizem jornais de bairro, rádios comunitárias, blogs e sites.

Entretanto, uma mudança concreta em nossa realidade política, que dê segurança ao campo progressista popular de que os anseios da maioria não serão frustrados por trapaceiros da mídia, quase sempre mancomunados com bandidos disfarçados de ideólogos conservadores, como era a dupla Demóstenes & Cachoeira, uma mudança concreta só virá através de uma lei nacional que coíba os abusos, as calúnias, os escândalos às vésperas de eleições, que proíba, enfim, as famigeradas “balas de prata”.

A vantagem do campo progressista é, justamente, estar ao lado do povo. A [última] pesquisa CNI-Ibope mostrou crescimento notável da aprovação da presidente Dilma (chegou a 77%), mesmo com todo estardalhaço em torno do mensalão. Caiu a aprovação entre os mais ricos, mas cresceu fortemente junto à classe média baixa. A tendência é crescer ainda mais, após constatarem que os juros do cartão de crédito, que muitos ainda estão começando a usar, registraram queda, que a conta de luz está mais barata, e o valor do novo salário mínimo, a entrar em vigor em janeiro de 2013, ficará em R$ 670,00. A esquerda deverá crescer este ano no país todo. E, em 2014, teremos oportunidade de eleger um congresso ainda mais alinhado ao campo progressista. Antes disso, porém, temos que construir fortalezas para defender a nossa democracia. Os grupos conservadores que almejam ampliar seu poder político terão de batalhar por votos. Ganhar no tapetão, através de jogadas ensaiadas entre mídia, direita partidária e segmentos conservadores ou corruptos do judiciário, é um golpe branco que a sociedade já manjou, e estará de olho bem aberto para que não ocorra por aqui.

APROVAÇÃO DA PRESIDENTE DILMA:
FONTE: escrito por Miguel do Rosário, em “O Cafezinho”, e transcrito no blog “Escrivinhador”  (http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/miguel-do-rosario-brasilia-moscou-e-atenas.html#more-15713).

OS 20 ANOS DO IMPEACHMENT DE COLLOR

1ª parte


Por Luis Nassif

A APOSTA DA GLOBO

“O primeiro nome nacional a dar impulso à candidatura Fernando Collor foi Chacrinha. Tendo passado a mocidade no Rio de Janeiro, Collor tornou-se amigo de Leleco, filho de Chacrinha. Ganhou espaço no programa “O Cassino do Chacrinha” para vender a imagem de “caçador de marajás”.

Embora filho de um amigo e ex-sócio de Roberto Marinho – o ex-senador Arnon de Mello – Collor não foi adotado de imediato pelas “Organizações Globo”.

Havia um foco na ação de Marinho: impedir a eleição de Lula. Depois, apostar no cavalo vencedor. Em determinado momento, parecia ser Guilherme Afif Domingos. Depois, mudou para Mário Covas que triturou Afif no debate da “Rede Bandeirantes”.

Para celebrar o acordo com Covas, houve famosa reunião no Rio, em que Covas e assessores encontraram-se com Roberto Marinho e seu “ghost writter”, Jorge Serpa. Um dos assessores de Covas – o jornalista Nirlando Beirão – preparou um artigo que seria publicado no jornal “O Globo” e repercutido no “Jornal Nacional”. Serpa ponderou que faltava o “lide”, a abertura de impacto capaz de marcar a campanha de Covas. E sugeriu o tal “choque de capitalismo”. Acabou colidindo com a imagem de Covas na Constituinte e foi enorme tiro na água.

Mas Serpa estava correto em relação à ideia-força da campanha.

Só depois que se consolidou como adversário de Lula, Collor recebeu as bênçãos de Roberto Marinho. Mas chegou aos 25 pontos do IBOPE por pura intuição, alicerçada nas análises de Marcos Coimbra, filho de um diplomata casado com uma irmã de Collor.

A INTUIÇÃO POLÍTICA

Seu pai, Arnon de Mello, alagoano, tornou-se jornalista conhecido dos “Diários Associados”. É dele a reportagem clássica do encontro de Poços de Caldas entre Getúlio e os governadores, que resultou no “Estado Novo”.

Os contatos com o mundo de Getulio Vargas se abriram depois que Arnon conheceu dona Leda Collor, filha do Almirante Souza e Silva. Viúva, a mãe casou-se com Lindolfo Collor, Ministro de Vargas, que educou e emprestou seu nome às filhas. Eram duas irmãs de temperamento fortíssimo. Mulher independente, estudou na Universidade do Brasil e teve presença marcante na vida dos filhos.

Collor foi criado no Rio, Maceió e em Brasília. Tornou-se governador de Alagoas e pavimentou a fase inicial da sua campanha com recursos levantados em um polêmico perdão de dívida de usineiros do Estado.

A primeira vez que soube de Collor foi através de seu irmão Leopoldo, que havia sido diretor comercial da sucursal paulista da “TV Globo”, demitido em um episódio rumoroso e, depois, transferira-se para a “TV Manchete”. Na época, eu estava com o programa “Dinheiro Vivo”, da “TV Gazeta”, depois de afastado da “Folha” por uma negociação entre o presidente José Sarney e o consultor geral Saulo Ramos com seu Frias.

Na “Gazeta”, batia diariamente em Sarney. Leopoldo me procurou dizendo que deveria aderir à candidatura do irmão. Foi em um almoço. Collor estava, então, com 5% dos votos, mas Leopoldo garantiu que ele seria eleito presidente. Falou de sua performance como “caçador de marajás”. Perguntei quem já havia aderido a ele. Respondeu-me que o polêmico apresentador Ferreira Neto. Agradeci o almoço e recusei o convite para aderir a Collor. Minha primeira impressão, a partir desse almoço, é que todos os aventureiros da República estavam aderindo a Collor.

Mas sua intuição política foi genial. O país saía do regime militar, pesadíssimo, burocrático, com a economia amarrada. Depois, passara pelo vexame do governo Sarney. Ele captou, de pronto, as novas tendências mundiais, expressas no “tactherismo” e, internamente, a resistência nacional contra Sarney e contra Brasília – já expressa na Constituição de 1988. Finalmente, a percepção da força dos “descamisados”, a massa de eleitores que o elegeria e, depois, ajudaria na eleição de Lula.

Naquela campanha, Collor intuíra as duas principais ideias-força que comandariam a política brasileira nas décadas seguintes: a redução do peso do Estado (e do predomínio de Brasília) e a ascensão futura das grandes massas de eleitores. Intuição de gênio; operação política de amador.

AS EQUIPES DE COLLOR

Sua equipe de assessores era de dar pena. A começar da responsável por seu programa de governo, Zélia Cardoso de Mello.

Mensalmente, tínhamos almoço com clientes da “Dinheiro Vivo” para discutir conjuntura. No início da campanha, convidei Zélia e Affonso Celso Pastore para uma exposição. Pastore expôs com o habitual brilhantismo. Zélia foi um vexame tão grande que fiquei com receio de que Pastore a desancasse. Ele se comportou cavalheirescamente.

Noutra vez, houve um evento da ANORO (Associação Nacional do Ouro) com representantes dos candidatos, para saber o que pensavam do mercado do ouro – na época, o mercado do ouro era a maneira de exercitar um arremedo de câmbio livre, impossível no câmbio oficial. O PT enviou como representante Carlos Eduardo, economista da PUC-SP que escrevia excelentes capas para a newsletter “Guia Financeiro”, da “Dinheiro Vivo”. A campanha de Collor enviou um economista da FGV-SP, sem o menor conhecimento da matéria. Carlos Eduardo apresentou um quadro tecnicamente correto do mercado. O economista da campanha de Collor falou sobre a poluição de mercúrio no garimpo de ouro. Foi um vexame amplo.

O episódio da Mirian Cordeiro provocou em mim uma repulsa ampla em relação aos métodos do candidato e ao lado mais obscuro da sua equipe: os irmãos Gilberto Miranda e Egberto Baptista, de larga influência.

No primeiro turno, votei em Mário Covas. Quando houve o episódio, bati pesado no meu programa, apesar da maioria absoluta do público telespectador ser antiLula. A partir dali,, torci tanto por Lula que devo ter sido o único comentarista a entender que ele venceu o famoso debate da “Globo”. Mesmo descontado a edição do “Jornal Nacional”, Collor se saiu melhor. Lula havia se excedido na campanha nos dias anteriores e chegou ao debate em pedaços, irreconhecível.

E foi essa implicância extrema que não me permitiu entender a abrangência de seu discurso de posse, preparado pelo filósofo José Guilherme Merquior. Foi um divisor de águas para o país, lançando as bases para o modelo que vigoraria, amplamente, nos dois governos FHC – embora, com sua suposta erudição, FHC não tivesse entendido um décimo do que Collor e, depois, Lula, entenderam sobre o país.

A visão de Brasil, de Collor, era imensamente mais objetiva que a de FHC. Disso só me dei conta algum tempo depois.

Collor chegou a Brasília sem equipe própria. Levou meia dúzia de alagoanos deslumbrados, um grupo de assessores de terceira categoria, arregimentados por Zélia e os barra-pesadas coordenados por Egberto Baptista. E a influência grosseira de Paulo César Farias.

Mas havia um outro grupo, de economistas e funcionários públicos – sobre os quais falarei mais adiante – que era o menos ostensivo, mas que teve papel central em mudanças fundamentais no estilo de governo, dali para diante. Foi a parte mais legítima e a menos conhecida de seu governo.

A falta de quadros, o parco conhecimento de Collor sobre quadros técnicos fê-lo cometer loucuras. Uma delas foi criar um superministério – o Ministério da Infraestrutura – entregando-o a João Santana.

Até então, o trabalho mais conhecido de João tinha sido o de assessor pessoal do ex-Ministro Dílson Funaro, depois que ele deixou o poder. Era um meninão, na idade e na cabeça. Na época, frequentávamos o “Bar Brasil”, perto da Avenida Paulista. Santana fazia parte do grupo e era motivo de chacota: cada vez que arrumava uma namorada nova, deslumbrava-se.

Pois, para ele, Collor deu a incumbência da reforma administrativa. Foi um desastre amplo, um desmonte sem pé nem cabeça que comprometeu, inclusive, o Censo Demográfico de 1990.

No Ministério da Infraestrutura, Santana foi responsável pela primeira licitação de telefones celulares para a TELESP – na época estatal. Montou um arremedo de licitação escandaloso. Haveria uma pré-licitação que escolheria três fornecedores de equipamentos. Depois, caberia a ele dar a palavra final.

De volta à “Folha”, fiz uma crítica pesada ao modelo. Ele me chamou a Brasília. Entrei em seu gabinete e ele estendeu uma minuta de licitação. Perguntei para que aquilo. Disse que era para eu analisar e fazer a crítica. Disse-lhe que estava brincando. Ele que divulgasse a minuta e eu iria ouvir especialistas para escrever sobre ela.

Era esse o nível de amadorismo.

Para sua equipe pessoal, Zélia levou um grande economista, Ibrahim Eris, que assumiu a presidência do Banco Central. E levou escudeiros complicados.

Há, pelo menos, dois episódios nebulosos similares, envolvendo Zélia, um que mereceu algum destaque, outro que passou em branco. O que recebeu destaque foi a acusação de que cobrara da “Associação Nacional do Transporte Rodoviário” para liberar reajuste de tarifas para as linhas intermunicipais. O que nunca mereceu destaque – e que me foi relatado pelo comandante Rolim, da TAM, pouco antes de morrer – foi a cobrança idêntica feita às companhias de aviação.”

FONTE: escrito por Luis Nassif em seu portal  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-20-anos-do-impeachment-de-collor-1). [Imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’].

2ª parte


Por Luis Nassif

O BLOQUEIO DE CRUZADO

“Collor assumiu, de fato, uma economia descontrolada. O país estava manietado pelo medo e pelos lobbies. E vítima de uma hiperinflação que teve em Mailson da Nóbrega o maior responsável.

Depois da saída de Luiz Carlos Bresser-Pereira da Fazenda, Sarney entregou o Ministério a Mailson.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Maílson cometeu um dos mais irresponsáveis atos da política econômica brasileira: permitiu a conversão de dívida externa em cruzados. Foi um jogo que enriqueceu inúmeros banqueiros de investimento, permitiu à recém-criada confraria dos economistas financistas do Cruzado intermediarem operações milionárias. E, inundando o país com cruzados – emitidos para a conversão – quase jogou o país em uma hiperinflação.

Collor assumiu com a ideia da bala de prata, o tiro único capaz de matar a inflação.

Houve uma reunião na casa do ex-Ministro Mário Henrique Simonsen, presentes André Lara Rezende e Daniel Dantas. Nela, Collor perguntou o que seria necessário para a bala de prata contra a inflação. André disse que a saída seria um superchoque de liquidez, algo que tirasse dinheiro da economia – da poupança, dos investimentos. Collor pediu a aprovação de Simonsen. O ex-Ministro disse que era aquilo mesmo, mas não haveria governante com peito para implementar a sugestão.

Collor resolveu apostar.

Era uma medida terrível, que exigiria comunicação clara com o país. Tal não ocorreu.

O dia do lançamento do plano foi um desastre. Cheguei em Brasília e rumei para o Clube de Tênis, onde a equipe econômica estava reunida para fechar o plano. Não se tinha sequer o valor máximo a ser mantido nas contas correntes.

Havia poucos jornalistas por lá. Fiquei conversando com alguém do lado de fora. Na sala, Zélia, sua equipe, Éris e Belluzzo. Em determinado momento, Éris deu uma saída, puxei algum assunto com ele e, apesar de não conhecê-lo pessoalmente, me tratou com educação.

De repente, saiu Zélia. Olhou-me de longe, chamou um segurança e deu uma ordem. O segurança veio até mim informando ser proibida a presença de jornalistas naquele local. Desci as escadas bufando. De repente, vejo Zélia vindo atrás.

- Desculpe, Nassif, mas ordens são ordens.

Respondi meio secamente que educação era educação.

Logo depois, a famosa reunião na Fazenda, para falar do bloqueio. Na sala, estava Zélia, Éris e mais alguns assessores. Do lado jornalístico, éramos uns 10, incluindo o Joelmir, Paulo Henrique e a Lilian Witte Fibe.

Zélia começa a descrever tecnicamente o plano. No meio da apresentação, mencionou um instrumento financeiro que era claramente o vetor – o desconto nos índices de inflação para impedir que a inércia inflacionária invadisse o espaço do congelamento de preços. Explicou que não era vetor. Mas a descrição técnica era de vetor.

Interrompi sua apresentação e disse-lhe que aquilo que ela descrevia era vetor. Ela insistia que não. Aí me deparo com Éris me olhando fixamente, quase suplicamente e meneando a cabeça, concordando que era vetor mas, com os olhos, quase implorando para não insistir no tema. A Ministra não daria conta das explicações.

O aturdimento dos jornalistas era um breve ensaio do espanto que tomaria conta do país dali para frente. Terminada a reunião, Lilian entrou ao vivo na “Globo”, com o ar de espanto que marcaria o anúncio do plano.

De lá, descemos para o auditório, onde Eduardo Teixeira, economista da Unicamp, comandava uma bancada incumbida das explicações sobre os contratos. A sessão estava sendo transmitida por todos os canais. Uma jornalista pediu a palavra e narrou um caso qualquer, de drama de alguém – acho que uma pessoa doente que ficou sem dinheiro para o tratamento. Eduardo ironizou.

Da platéia, rabisquei um recado e mandei para ele. Perguntava se ele estava louco de ironizar dramas pessoais no meio do anúncio de bloqueio de dinheiro. Tenho a impressão que o bilhete ajudou-o a cair em si, porque passou a se comportar com mais calma. Mas não refrescou em nada a situação.

Saí dali, peguei o avião. Na esteira de desembarque, encontrei com o herdeiro de um dos bancos do Ceará, filho de um dos primeiros coronéis a apoiar Collor. Perguntei o que tinha achado do anúncio.

Ele me disse para esperar um pouco, enquanto aguardava a chegada de seu filho, de uns 6 anos, que vinha correndo encontrá-lo. Enquanto o menino não chegava, ele me disse que o filho cortava o cabelo que nem Collor e colocou o nome do presidente em um passarinho que ganhara dias atrás.

Aí o menino pulou no seu colo e ele perguntou:

- Filho, o que você acha do Collor?

E o menino:

- Fiadaputa.

Pensei comigo mesmo: ferrou.

Nos dias seguintes, ocorreu um caos. Da noite para o dia, os bancos tiveram que desenvolver dois sistemas de computação, um em cruzados, outro em cruzados novos. Durante meses, o Banco Central andou no escuro, sem saber que banco estaria ou não quebrado.

Nos negócios empresariais e pessoais, uma desordem total. A lei era clara sobre o que podia ser pago em cruzados e em cruzados novos. Mas havia enorme dificuldade dos agentes assimilarem as regras que, embora claras, levavam a uma situação inusitada.”

FONTE: escrito por Luis Nassif em seu portal  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-20-anos-do-impeachment-de-collor-2)

3ª Parte:

O DIA EM QUE O PRESIDENTE COLLOR ME XINGOU [Nassif]

Por Luis Nassif

“O Thiago [leitor] conseguiu transcrever a reportagem do José Nêumane, do ‘Estadão’, no aniversário de 50 anos de Leopoldo Collor.

O Plano Collor já tinha começado a fazer água. Para segurar a explosão da inflação, Ibrahim Éris jogou a taxa de juros nas alturas.

Era óbvio, para mim - em meu programinha na “TV Gazeta”, retransmitido pela “TV Nacional” - que viria uma recessão. A economia ainda estava desarrumada, após o bloqueio de cruzados. A elevação exponencial dos juros completaria o trabalho de derrubá-la.

De fato, poucos meses após essa entrevista, as previsões se confirmariam e o país mergulharia em um período complicado.

Na época, estava fora da chamada grande imprensa. E era curioso que Collor assistisse e se exasperasse com o programa.

Pouco tempo depois, por ordem de Marcelo Netto, o programa foi tirado do ar na “TV Nacional”.

Por Thiago Costa

Nassif, aqui vai a transcrição da matéria do estadao que você tinha publicado ontem, tinha apenas uma ou outra palavra ininteligível:

"COLLOR APOSTA NA ELEIÇÃO DOS DEFENSORES DO PLANO

Presidente acredita que eleitores estão conscientes da importância de manter o projeto do governo

Por José Nêumanne, do “Estadão”

“O presidente Fernando Collor de Mello está convencido de que, nas próximas eleições parlamentares e estaduais, o povo brasileiro vai confirmar a decisão política de modernizar o Brasil, a qualquer custo, elegendo governadores afinados com o governo federal e deputados e senadores comprometidos com suas propostas. O projeto de governo - de levar o Brasil ao patamar de País do Primeiro Mundo - não admite, segundo ele, recuos(?) nem hesitações, mas exige firmeza.

Principal atração da festa na qual se comemorou o 50° aniversário de seu irmão mais velho, Leopoldo Collor de Mello, o presidente fez questão de, alto e bom som, assumir uma posição definida para as eleições de 3 de outubro próximo. "Estados como São Paulo e Minas Gerais precisam eleger governadores afinados com a política de modernização do governo federal. Tenho consciência de que isso acontecerá na grande maioria das unidades da Federação, muito embora em algumas não tenhamos conseguido, ainda, convencer o eleitorado da necessidade da adoção desse rumo", disse Collor, na sala de visitas de seu cunhado e secretário-geral do governo, Marcos Coimbra.

No caso de São Paulo, o presidente não citou nenhum nome, mas a frase foi pronunciada quando ele, com um charuto apagado entre os dedos, era ladeado por seu irmão mais velho e pelo ex-governador Paulo Maluf, candidato do PDS ao Palácio dos Bandeirantes. Maluf e Joaquim Roriz (do Distrito Federal) foram candidatos a governador convidados para o aniversário de Leopoldo Collor. A citação de Minas Gerais e São Paulo, que produzem 60% do PIB nacional, foi interpretada por assessores do presidente como um estímulo às candidaturas de dois ex-governadores, Hélio Garcia e o próprio Maluf. "Já pensou São Paulo e Minas contra o presidente? Isso poderia atrapalhar muito", insistiu Collor.

CONSCIÊNCIA

Mesmo assim, o presidente garantiu não abrir mão de sua decisão de evitar o uso da demagogia ou de métodos políticos do velho clientelismo para assegurar bons resultados eleitorais. A seu lado, o deputado paulista Arnaldo Faria de Sá (PRN) acrescentou: "Por isso, o presidente adotou medidas impopulares".

"Mas a sociedade brasileira está consciente do esforço que precisa ser feito para reconstruir o País", completou o próprio Collor. A essa consciência o presidente atribuiu os baixos índices de preferência popular dos candidatos que investem contra o Plano Collor.

PESSIMISMO

No meio da sala, em veemente tom oratório, o presidente da República dirigiu-se a seus interlocutores fazendo severas críticas aos economistas da oposição. Num balanço de seu primeiro semestre de governo, referiu-se a uma anedota familiar, citando o primo de sua primeira mulher, Lillibeth, Olavo Monteiro de Carvalho, também presente à festa: "Olavinho vive pagando, em dólares, a um bando de economistas, para eles irem às suas empresas fazer previsões. Eu já disse que ele poderia economizar esse dinheiro, limitando-se a dar um telefonema para mim ou para a Zélia (ministra da Economia). Nós lhe daríamos melhores informações de graça, ao contrário desses economistas que custam caro e valem pouco".

Sem interrupções dos interlocutores, que começavam a formar um bloco compacto em torno da mesa de centro da casa. Collor chegou a se exaltar ao comentar: "Esse Luis Nassif vive pregando o caos e a catástrofe na televisão. Ele faz parte do time dos economistas que tentam provocar uma recessão a qualquer custo", acusou. "Eles vivem garantindo que a recessão vem aí, mas a recessão não chega nunca. O povo já está escaldado com essa gente. É o caso de perguntar: se eles são tão bons economistas como pensam ser, por que não resolveram os problemas do País quando tiveram poder nas mãos? Ao contrário do que pregam, o que fizeram foi ajudar a criar os graves problemas de nossa economia."

CUT DE BATINA

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também foi tema da conversa do presidente. Escandindo as palavras e destacando as frases, Collor queixou-se da incompreensão dos liderados de Jair Meneguelli. "Ninguém está excluído do esforço do governo em procurar organizar, harmonicamente, a recuperação econômica do País. Por isso, a CUT foi chamada à mesa das negociações. Mas eles não entenderam nada."

Brandindo com a mão direita o charuto apagado, explicou por quê: "A CUT resolveu impor condições para negociar. Diz que só se senta à mesa se o governo detiver o plano de privatização de empresas estatais e se o presidente mandar readmitir os funcionários públicos demitidos na reforma administrativa. Em que mundo vive essa gente, meu Deus?" indignou-se(?) Collor.

Collor está convencido de que a aceitação das imposições dos sindicalitas da CUT significaria, para o governo, desistir do projeto de elevar o Brasil à condição de País de Primeiro Mundo e condená-lo à estagnação.

"O próximo passo será chamar a CNBB para a negociação. Como definiu com muita felicidade o jornalista Sebastião Nery (ex-assessor de Collor na campanha e atual adido cultural na embaixada brasileira em Roma, a CNBB é a CUT de batina. Pois bem, a CUT de batina também terá direito a voz na negociação que o governo federal propõe e realiza", disse.

FAIXA FORTE

O desabafo do presidente também enveredou pelo rumo das reminescências da campanha, usadas como reforço em sua argumentação. "Todos sabem que minha candidatura foi rejeitada pela Igreja, pela maioria dos artistas e intelectuais, pelos universitários, pela grande imprensa, pelos partidos maiores e pelos líderes políticos tradicionais. Eu sei quanto vale a faixa presidencial quando eu a uso. Sei que ela tem a força das urnas e não me disponho a abrir mão dessa força", assegurou.

Collor lembrou, também, os incidentes de violência na campanha e o nível dos programas no horário gratuito na televisão. "Nós ganhamos uma batalha porque estávamos preparados. Por que agora me faltaria coragem para enfrentar a mesma gente, com os mesmos propósitos? O povo está do meu lado e se cansou de tanta hipocrisia e desse atraso político", comentou.

Para Collor, "essas pessoas não entendem que o Brasil mudou e continua a mudar para melhor", garantiu. "Nossa campanha foi um [??] da queda do Muro de Berlim, que veio a acontecer na época da eleição."

A conversa foi interrompida pela orquestra que entoou o “Parabéns pra Você”. Depois das comemorações em família, o presidente insistiu no tema, ao levantar uma dúvida: "Você acha que eu fui incisivo demais?"

Talvez a resposta possa ser dada pelo comentário do irmão Leopoldo, que ouviu tudo, desde o início: "Ele estava com um grito parado na garganta. E desabafou".

FONTE: escrito por Luis Nassif em seu portal  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-dia-em-que-o-presidente-collor-me-xingou).

FAB JÁ USA AVIÃO SEM PILOTO PARA VIGIAR FRONTEIRAS DO PAÍS

Avião-robô RQ-450 (Hermes 450), da FAB 
Aviões-robô são capazes de localizar pessoas em movimento e transmitir imagens ao vivo. Com formato incomum, mais parecem um míssil.

"A FAB (Força Aérea Brasileira) tem treinado a utilização dos aviões-robô RQ-450 para vigiar as fronteiras do País. Denominados VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados), as duas [primeiras] aeronaves adquiridas pela corporação podem ser o futuro das operações aéreas no Brasil.

Segundo a FAB, o último teste dos aviões-robô RQ-450 aconteceu durante a “Rio+20”, em junho, quando o avião transmitiu imagens ao vivo para a central de operações que cuidava da segurança do Rio de Janeiro.

Em nota divulgada pela corporação, o brigadeiro Maximo Ballatore Holland, do Estado Maior da Aeronáutica, afirma que, como os aviões-robô são capazes de transmitir ao vivo imagens de áreas de interesse, é possível ter nova dinâmica nas ações de comando, que permite ganho maior de dados de inteligência e tomada de ações mais rápida.

A estreia dos RQ-450 foi na fronteira do Brasil com a Colômbia. Ali, durante a “Operação Ágata 1”, em agosto de 2011, um VANT monitorou pistas de pouso clandestinas que, pouco depois, foram bombardeadas por aviões de caça. A atuação dos aviões não tripulados no Brasil não ficou só por ali. Em junho deste ano, o governo da Bolívia afirmou que a destruição de 240 laboratórios de drogas na fronteira foi possível graças ao patrulhamento dos VANT brasileiros.

Holland afirma que os aviões também podem ser usados como auxílio em situações de calamidade e ações de segurança. Em operações como a “Ágata”, por exemplo, quando além das Forças Armadas participam órgãos de segurança pública e organizações como o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e a Receita Federal, a Força Aérea pode fornecer informações de acordo com a demanda de cada um deles.

De acordo com a FAB, as imagens transmitidas digitalmente dos aviões são obtidas em cores ou em preto e branco, quando é usado o modo infravermelho que permite identificar pessoas à noite ou sob árvores. Os novos aviões têm, também, sistemas de comunicações aperfeiçoados, designador laser e são equipados com radar de última geração que identifica alvos móveis no solo, através de uma função denominada MTI (“Indicador de Alvo Móvel”, na tradução em português).

Para quem está no chão, no entanto, é difícil enxergar os novos aviões. Com 10,5 m de envergadura e 6,1 m de comprimento, a aeronave é pintada em cores claras e pode voar em altitudes de até 5.500 m, além de seu baixo ruído ser bastante difícil de ser ouvido.

Os RQ-450 tem autonomia de voo de até 16 horas, o suficiente para, se necessário, uma dupla de aeronaves manter a vigilância de uma determinada área de interesse de forma ininterrupta.

Além dos dois aviões-robô, o contrato do governo brasileiro com a empresa “Aeroeletrônica”, subsidiária da israelense “Elbit”, assinado em 2010, incluiu uma estação de solo, sensores e a logística inicial associada, em investimento de mais de R$ 48 milhões.

TREINAMENTO

As duas primeiras unidades recebidas pela FAB estão alocadas no Esquadrão Hórus, da Base Aérea de Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. Criado em 2011, o esquadrão já voou mais de 600 horas com seus RQ-450 em treinamentos.

Para garantir a segurança do equipamento, foi definido que somente aviadores podem ter o controle dessas aeronaves. Apesar de não levar tripulantes a bordo, o RQ-450 é comandado por uma dupla de militares que permanecem em uma cabine de controle no solo. Por esse motivo, a Força Aérea designa o avião-robô como ARP (“Aeronave Remotamente Pilotada”).”

FONTE: “Midiacon News”. Transcrito no portal da FAB  (http://www.fab.mil.br/portal/capa/index.php?datan=29/09/2012&page=mostra_notimpol).

COMPLEMENTAÇÃO: NOTÍCIA ERRADA DA REVISTA "IstoÉ"

A RESPOSTA DA FAB À "ISTOÉ"

Nota Oficial - Esclarecimentos sobre reportagem da revista ISTOÉ (Ed.2238)

“O Comando da Aeronáutica repudia veementemente as inverdades, especulações e deturpações publicadas pela Revista ISTOÉ na reportagem "Intrigas, lobby e sabotagem", de autoria do jornalista Claudio Dantas Sequeira. A reportagem parte de informações parciais para sugerir fatos que não correspondem à realidade e assim promover um mau jornalismo, sem compromisso com a ética ou com os leitores.

A reportagem afirma que a Força Aérea Brasileira (FAB) favorece “escancaradamente” a empresa Aeroeletrônica; no entanto, deixa de informar, por exemplo, que em 2011 essa companhia perdeu o contrato para o fornecimento da aviônica do avião KC-390.

O curioso é que essa informação foi repassada ao jornalista no dia 21 de setembro, mas, lamentavelmente, o profissional preferiu ignorar a informação e oferecer ao público da revista ISTOÉ uma generalização sem embasamento.

A aquisição do Hermes 450, designados RQ-450 na FAB, aconteceu após uma análise técnica que teve como objetivo escolher um modelo que pudesse cumprir as missões atuais e também fornecesse a tecnologia necessária para que, futuramente, seja desenvolvido um VANT nacional. A empresa IAI também participou desse processo de seleção com um modelo diferente do Heron 1 (modelo adquirido pela Polícia Federal citado na reportagem).

Vale lembrar que os contratos da Força Aérea Brasileira são assinados a partir de critérios técnicos, logísticos, industriais e de transferência de tecnologia (offset). Também, passam por fiscalização e estão, todos, à disposição dos órgãos de controle. Não há qualquer parecer negativo sobre esse processo de aquisição de VANT para a FAB, assinado em 2010 e publicado no Diário Oficial da União.

A escolha pelo Hermes 450 ocorreu devido ao entendimento de que aquela plataforma atende aos requisitos atuais da FAB. Inclusive, o modelo é empregado com sucesso por outras Forças Armadas ao redor do mundo, entre elas o exército do Reino Unido.

Cada Força Armada ou órgão de segurança pública, no entanto, tem seus próprios critérios e adquire seus produtos de acordo com suas necessidades específicas. É natural que requisitos diferentes cheguem a soluções diferentes. O mesmo ocorre, por exemplo, com a frota de helicópteros: FAB e PF operam modelos distintos por terem necessidades distintas.

Essas informações também foram repassadas previamente para o jornalista, que preferiu omiti-las para o público leitor da revista ISTOÉ. O profissional preferiu dizer que o Comando da Aeronáutica "trabalhou para minar a compra da PF" de forma leviana, sem apresentar provas para uma afirmação tão grave.

Já a presença de militares da reserva em empresas que atuam na área de defesa no Brasil e no exterior é uma situação comum, até pela experiência e conhecimento que esses profissionais têm no assunto, o que não significa haver interferências de cunho pessoal.

A reportagem informa, ainda, que o Comando da Aeronáutica “disseminou que o VANT não poderia voar sem uma doutrina de emprego e autorização expressa da FAB”. O jornalista sugere que o objetivo seria impedir os voos de VANT da Polícia Federal quando, na realidade, o Comando da Aeronáutica, por ser responsável pela segurança do espaço aéreo brasileiro, precisou estabelecer regras para assegurar que os voos desses veículos aéreos não tripulados não oferecessem riscos aos milhões de passageiros que utilizam o transporte aéreo no país e a população das cidades sobrevoadas. Dessa forma, foi estabelecido que todos os voos de VANT precisam ocorrer em áreas previamente reservadas.

Essa regra, inclusive, não foi uma criação do Comando da Aeronáutica, e sim uma recomendação da “Organização da Aviação Civil Internacional”. No Brasil, ela é válida não apenas para a Polícia Federal, e sim para toda organização que opere “Veículos Aéreos Não Tripulados” no espaço aéreo brasileiro, inclusive os Comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O documento sobre o tema é a “Circular de Informação Aeronáutica” (AIC-N 21), emitida pelo “Departamento de Controle do Espaço Aéreo” (DECEA) em 23 de setembro de 2010 e disponível no site do DECEA.

Neste caso, o jornalista poderia oferecer ao leitor da ISTOÉ as informações completas, mas preferiu não enviar uma pergunta sobre esse tema específico e, assim, acabou cometendo mais um erro. O bom jornalismo ensina a questionar a instituição antes de tecer uma crítica, o que não foi feito. A informação precisa e correta, tão importante para o jornalismo de qualidade, mais uma vez foi deixada de lado.

Por fim, o Comando da Aeronáutica tem como missão a garantia da soberania e da defesa do Brasil, o que requer uma ação integrada, planejada e coordenada entre as Forças Armadas e os órgãos de segurança pública. É esse o principal interesse do Comando da Aeronáutica, que, em nenhum momento, trabalha contra ou põe em risco qualquer projeto da Polícia Federal. Ao contrário, o Comando da Aeronáutica colabora para que a Polícia Federal consiga cumprir sua missão institucional da melhor forma possível. A cooperação entre as duas instituições está acima de qualquer interesse e não será abalada por insinuações e manipulações de um falso jornalismo mais preocupado em criar polêmicas do que oferecer aos leitores uma visão verdadeira dos fatos. [...]

Brasília, 30 de setembro de 2012,
Brigadeiro-do-Ar Marcelo Kanitz Damasceno,
Chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica"

FONTE DA COMPLEMENTAÇÃO: portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-resposta-da-fab-a-istoe).