sexta-feira, 1 de maio de 2015

"FOLHA" (Janio de Freitas) CRITICA 'COERÇÃO' E 'COVARDIA' DE MORO




JANIO DE FREITAS CRITICA 'COERÇÃO' E 'COVARDIA' DE MORO

"Segundo o colunista, a soltura de presos da Lava Jato demonstra que coerção não é um recurso legítimo para obter informações; “Toda coerção provém da visão deformada que o autor tem do seu poder, exacerbando-o”, diz Janio sobre a condução da operação pelo juiz Sergio Moro, baseada em delações premiadas. 

Do "Brasil 247"

O colunista Janio de Freitas vê na “soltura de presos da Lava Jato, uma demonstração que coerção não é um recurso legítimo para obter informações”.

Ele se refere à condução da operação pelo juiz Sergio Moro, baseada em delações premiadas: “Toda coerção provém da visão deformada que o autor tem do seu poder, exacerbando-o”, diz.

Segundo ele, o essencial em tal questão foi levantado, com o percurso próprio e melhor estilo, pelo ministro Teori Zavascki como relator do habeas corpus que levou à meia liberdade dos nove:

‘Ao reconhecer que o juiz Sergio Moro não apresentara evidências de risco de fuga ou perturbação de investigações por parte dos presos, além da extensa prisão preventiva de quase meio ano, assim o ministro sintetiza a proposta de volta ao rigor legal: "A credibilidade das instituições somente se fortalecerá na medida em que forem capazes de manter o regime de estrito cumprimento da lei"’ 

Cercados e coagidos

Por JANIO DE FREITAS

"A soltura de presos da Lava Jato demonstra que coerção não é um recurso legítimo para obter informações.

O reconhecimento, por condutores da Lava Jato, de que a "meia libertação" de nove dos seus presos vai dificultar novas adesões à delação premiada não precisava de detalhamento para revelar a sua índole. Ainda assim, ao menos um dos condutores quis frisar que, até à decisão do Supremo, "a liberdade era um trunfo que a gente tinha para convencê-los a falar mais. Agora, teremos que repensar".

Toda coerção é violência. Por isso, coagir não é um recurso legítimo. Seja de obter informações, ou do que mais for.

Toda coerção provém da visão deformada que o autor tem do seu poder, exacerbando-o. Ocorra isso por circunstâncias em que o coagido não tem condições de reagir à altura, ou como manifestação de uma personalidade patológica. Neste ou naquele caso, a posição enfraquecida de um e a posição privilegiada de outro compõem sempre uma situação de covardia, além de física, moral.

O essencial em tal questão foi levantado, com o percurso próprio e melhor estilo, pelo ministro Teori Zavascki como relator do habeas corpus que levou à meia liberdade dos nove. Ao reconhecer que o juiz Sergio Moro não apresentara evidências de risco de fuga ou perturbação de investigações por parte dos presos, além da extensa prisão preventiva de quase meio ano, assim o ministro sintetiza a proposta de volta ao rigor legal:

"A credibilidade das instituições somente se fortalecerá na medida em que forem capazes de manter o regime de estrito cumprimento da lei".

Aí está um aprendizado que os brasileiros precisam fazer. Caso haja real desejo de chegar a um regime de fato democrático. Estamos cercados de coerções e outros autoritarismos e prepotências por todos os lados. Mas, se não forem fatos gritantes como a arbitrariedade policial ou o juiz que prende quem deve multá-lo, ou nem se percebe a predominância do autoritarismo, ou é aceito como natural.

Do próprio Congresso vem mais uma demonstração nesse sentido. Surgidos dois documentos feitos em computador do seu gabinete, suspeitos de conterem coerção para reativar subornos de duas empresas, a providência imediata de Eduardo Cunha é valer-se da presidência para a demissão sumária do diretor de informática da Câmara. Como complemento, diz que os documentos configuram uma conspiração em represália à disciplina que, dias antes, teria imposto à seção de informática.

Nas várias suspeitas que o atingem há muitos anos, é inegável que Eduardo Cunha tem sempre uma resposta pronta e articulada. O problema é que, de tão prontas e articuladas para transferir a suspeita, as explicações se tornam elas mesmas suspeitas de álibi construído.

À reprise foi agora acrescentada a prepotência. Nas circunstâncias e por ser sumária, a demissão do funcionário implica acusação grave. Sem a devida apuração, necessária também por lei. Mas, apesar de sua motivação e desregramento, sem reação do conjunto de deputados e do corpo de funcionários. Embora até as suspeitas suscitadas pelos documentos e por sua origem persistissem vivas.

A Lava Jato "tem que repensar". Pode ser um bom começo. Prender criminosos precisa ser um ato só da legalidade e da democracia."

FONTE: portal "Brasil 247"   (http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/179075/Janio-de-Freitas-critica-'coer%C3%A7%C3%A3o'-e-'covardia'-de-Moro.htm) e (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/217735-cercados-e-coagidos.shtml).

ALTA PREMIAÇÃO MUNDIAL DA PETROBRAS NOS EUA




Bendine convida Graça Foster para premiação da Petrobras nos EUA


"Um gesto de justiça e gentileza. É assim que pode ser interpretado o convite feito pelo presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine, à ex-presidente Graça Foster e a todos os diretores da gestão dela, para irem à Houston participar da cerimônia de entrega do prêmio que a empresa vai receber da OTC (Offshore Technology Conference).

Este prêmio é um reconhecimento das conquistas notáveis, significativas e únicas alcançadas pela Petrobrás", diz o comunicado da premiação.

A Petrobrás foi escolhida como a melhor empresa do mundo pelo desenvolvimento de novas tecnologias na exploração de óleo e gás em águas ultraprofundas no pré-sal brasileiro. A entrega do prêmio será num jantar especial na noite do próximo domingo (dia 3) na abertura oficial da OTC 2015, a maior feira de petróleo do mundo, no Reliant Stadium, em Houston.

Em carta comunicando a premiação à Petrobrás, o Presidente da "Offshore Technology Conference" (OTC), Edward G. Stokes, destacou: “Este prêmio é um reconhecimento das conquistas notáveis, significativas e únicas alcançadas pela Petrobrás, e das grandes contribuições para a nossa indústria (óleo e gás offshore). O comitê de seleção (da OTC) ficou extremamente impressionado com esta nomeação. As conquistas que a companhia fez na perfuração e produção desses reservatórios desafiadores são de classe mundial.

Terceira vez

É a terceira vez que a estatal brasileira leva o prêmio "OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations, and Institutions", recebido também em 1992, por conquistas técnicas notáveis relacionadas ao desenvolvimento de sistemas de produção em águas profundas relativas ao campo de Marlim e, em 2001, por avanços nas tecnologias e na economicidade de projetos de águas profundas no desenvolvimento do campo de Roncador.

Em março, a produção operada pela estatal no pré-sal das bacias de Santos e Campos bateu novo recorde, com uma média mensal de 672 mil barris de petróleo por dia (bpd), 0,5% acima do recorde anterior, de 669 mil bpd, em janeiro de 2015. Esse volume representa crescimento de 70% em relação à produção de março de 2014, que foi de 395 mil bpd."

FONTE: da "Petronotícias". Transcrito no portal "Vermelho"  (http://www.vermelho.org.br/noticia/263156-9).

COMPLEMENTAÇÃO

Do blog "Fatos e Dados", da Petrobras, em 1º de maio:

Destacamos as tecnologias do pré-sal na "Offshore Technology Conference 2015"



"Participaremos, de 3 a 7 de maio, em Houston, nos Estados Unidos, da 'Offshore Technology Conference' (OTC), o maior evento do mundo dedicado à área de exploração e produção de petróleo no mar. Na edição deste ano, receberemos o prêmio "OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations, and Institutions", reconhecimento mais importante que uma empresa de petróleo pode receber na qualidade de operadora offshore. Estarão presentes na conferência a diretora Solange Guedes (Exploração e Produção) e os diretores Hugo Repsold (Gás e Energia) e Roberto Moro (Engenharia, Tecnologia e Materiais).

Nossa participação no evento começa no domingo, dia 3 de maio, com o jantar de premiação, a partir de 17h30. Fomos escolhidos em reconhecimento ao conjunto de tecnologias desenvolvidas para a produção da camada pré-sal e o prêmio será recebido pela diretora Solange Guedes.

Na segunda-feira (4/5), às 14h, o ministro brasileiro de Minas e Energia, Eduardo Braga, e os diretores Solange Guedes, Hugo Repsold e Roberto Moro visitarão nosso estande na feira. O espaço contará com conteúdos audiovisuais e interativos sobre as nossas tecnologias pioneiras para a exploração e produção no pré-sal.

Na terça-feira (5/5), a diretora Solange Guedes apresentará a palestra “Pre-Salt: What Has Been Done So Far and What is Coming Ahead” (“Pré-sal: o que já foi feito e o que vem pela frente”), das 12h15 às 13h45. No mesmo dia, das 9h30 às 12h, haverá uma sessão técnica sobre o pré-sal, denominada "Pre-Salt: 8y Journey from the Wildcat Well to more than Half-million Barrels per Day" ("Pré-Sal: Jornada de 8 Anos desde o Poço Pioneiro até mais de Meio Milhão de Barris por Dia"). A sessão, que será aberta pela gerente executiva da Área de Libra, Anelise Lara, será dividida em sete apresentações, todas de nossos técnicos e executivos. Na tarde do mesmo dia, das 14h às 16h30, os trabalhos abordarão os campos do pré-sal de Sapinhoá e Lula Nordeste, na sessão denominada “Sapinhoá Lula NE Project Challenges & Lessons Learned” ("Projeto Sapinhoá Lula Nordeste: Desafios e Lições Aprendidas").

No dia seguinte (6/5), nossos técnicos apresentarão trabalho sobre processos de segurança em operações offshore, na sessão “Offshore Process Safety: Past, Present and Future” ("Segurança de Processo Offshore: Passado, Presente e Futuro"), das 14h às 16h30.

Eventos paralelos à OTC terão nossa participação

Além da conferência, teremos duas participações em eventos paralelos. O assessor da Presidência para Conteúdo Local e coordenador executivo do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp), Paulo Alonso, fará palestra no seminário “Providing goods and services for the oil industry in Brazil: opportunities for foreign suppliers in a new scenario" ("Fornecendo produtos e serviços para a indústria de petróleo no Brasil: oportunidades para fornecedores estrangeiros em um novo cenário"), que tem o objetivo de atrair empresas estrangeiras para o país. O evento ocorrerá no Crowne Plaza Houston, na segunda-feira (4/5), a partir de 14h. O gerente de Desenvolvimento de Mercado da área de Materiais, Ronaldo Martins, também falará no evento.

Paulo Alonso ainda fará a apresentação "Marine Demands for 2020-2030: Local Content and Opportunities in a new environment" (Demandas de equipamentos navais para 2020-2030: Conteúdo Local e Oportunidades em um novo ambiente) e em evento promovido pela Bratecc, Câmara de Comércio Brasil-Texas, no dia 6 de maio, das 7h às 10h30, na The Westin Galleria. No mesmo evento, a gerente executiva de Serviços de Exploração e Produção, Cristina Pinho, irá abordar o tema "A new business model applied to Upstream Logistics" ("A logística do E&P da Petrobras e um novo modelo de negócio").

FONTE da complementação: do blog "Fatos e Dados", da Petrobras    (http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/destacamos-tecnologias-do-pre-sal-na-offshore-technology-conference-2015.htm).

POR QUE OS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO SÃO DE DIREITA?




POR QUE OS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO TÊM VIÉS EDITORIAL DE DIREITA?

Por RÓBER ITURRIET AVILA, doutor em economia, professor da Unisinos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística

"Donos de empresas de comunicação figuram nas listas de famílias mais ricas do Brasil e representam interesses de anunciantes.

Conforme explorado neste mesmo espaço [no "Brasil Debate"], as posições políticas de direita e de esquerda expressam valores, diagnósticos e prescrições distintas para os problemas da sociedade. De maneira genérica, as perspectivas da direita econômica entendem que "o mercado" é eficiente na produção de bens e na distribuição da renda. Ao contrário da esquerda econômica, que prescreve tanto regulação na produção, quanto políticas distributivas.

Esse último aspecto se justifica, sobretudo, pela compreensão de que "o mercado" funcionando livremente tende a concentrar riqueza. De um lado porque o capital influencia a remuneração e a condição do trabalho, e de outro, pelas distintas grandezas dos capitais, uns com mais escala do que outros, desencadeando em poder de mercado de grupos empresariais e capacidades competitivas assimétricas.

Nesse sentido, muitas das políticas apregoadas pelas forças de esquerda objetivam melhorar a repartição da renda e da riqueza. Elevação dos níveis salariais, estabelecimento de um salário mínimo, políticas de crédito para microempresas e tributação progressiva são pautas comuns a esse campo do pensamento.

Especificamente no caso do Brasil, a política tributária é regressiva e penaliza mais os pobres. Já as fatias mais ricas da população brasileira pagam menos impostos do que seus congêneres na maioria dos países. Para além desse ponto, a "Operação Zelotes" da Polícia Federal e o caso "SwissLeaks" indicam alguns caminhos utilizados pelos estratos com elevada renda para pagarem menos impostos.

A participação do salário, do lucro e a estruturação dos tributos são focos de divergências importantes entre a direita e a esquerda. Geralmente, aqueles que são mais ricos são contra a esquerda porque não querem contribuir mais com o bem-estar coletivo, por entenderem que sua renda/riqueza é fruto de seu esforço.

Já a esquerda, genericamente, compreende que as condições de colocação no mercado são desiguais, sobretudo porque os pontos de partida e as possibilidades de ascensão não são equânimes. Além disso, o histórico familiar e as heranças recebidas são determinantes na colocação social dos indivíduos. Nessa medida, a renda individual é um resultado social, haja vista que sua distribuição reflete a assimetria de oportunidades e a influência que alguns estratos com poder político e econômico têm sobre as regras de distribuição e a tributação.

Sob esse pano de fundo, é possível levantar elementos que ajudam a compreender por que boa parte dos grupos jornalísticos brasileiros têm uma linha editorial de direita. A despeito de existir uma vasta pluralidade nas concepções teóricas de economia e de sociologia, os comentaristas, repórteres e analistas que expõem suas posições nos meios de imprensa de referência são, majoritariamente, de direita. Dessa maneira, a perspectiva que chega ao grande público pelos principais veículos transpassa a ideia de que existe apenas uma visão de mundo.

A "mídia" não conforma um grupo monolítico, há veículos de esquerda, sobretudo nos meios eletrônicos. Entretanto, as posições e as interpretações da realidade mais expostas nos principais canais de comunicação apontam que as soluções para os problemas sociais passam pela redução do Estado, pela redução de impostos, pela menor oneração tributária sobre as empresas, entre outros.

Adicionalmente, não é infundado aventar que há uma constante tentativa de denegrir políticas e governos de esquerda. Embora o público mais qualificado enxergue esse viés, todos os cidadãos deveriam estar a par de que os periodistas não são neutros. São de direita, por exemplo, Arnaldo Jabor, Bóris Casoy, Carlos Sardenberg, Demétrio Magnoli, Diogo Mainardi, Eliane Cantanhêde, Ferreira Gullar, Luiz Felipe Pondé, Merval Pereira, Miriam Leitão, Olavo de Carvalho, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo, Ricardo Amorim, Ricardo Noblat, Rodrigo Constantino, William Waack, entre outros tantos articulistas.

É preciso ter em mente que muitos donos das empresas de comunicação figuram entre as listas de famílias mais ricas do Brasil, encabeçada pela família Marinho. Isso ajuda a explicar as posições editoriais do "Globo" e da "Folha de São Paulo" a favor da PL 4330, abrindo caminho para a redução de direitos trabalhistas e dos salários. Em linha semelhante, o jornal "O Estado de São Paulo" se posiciona mais claramente como opositor aos governos de esquerda na América Latina.

A "Editora Abril" também reproduz a visão de mundo com base em interpretações de direita. O "Instituto Millenium", que defende abertamente as posições de direita, tem entre seus patrocinadores grandes empresas de imprensa como "Grupo RBS", "Estadão" e "Abril".

A métrica das manchetes mostra de forma objetiva o viés existente. Para além do interesse desses grupos empresariais, é preciso observar que grande parte de seus anunciantes não deseja elevações salariais que comprometam seus lucros e tampouco avanços na justiça fiscal, pois eles seriam chamados a contribuir mais com o bem-estar coletivo. Além disso, no âmbito econômico, os entrevistados são representantes do meio empresarial, os quais, legitimamente, defendem seus interesses.

Pondera-se que o ethos jornalístico interfere na produção e no fluxo das informações. Normas profissionais também intermedeiam o processo de escolha das pautas. A toda sorte, as linhas editoriais estão mais translúcidas: há escassez de pluralidade na interpretação da sociedade exposta nos principais veículos do País.

O viés antiesquerdista atinge patamares elevados no momento atual. A constante perspectiva pessimista da realidade, o enfoque em problemas pontuais sem uma análise ampla das questões, a seletividade na ênfase de denúncias de corrupção, o diagnóstico de que o governo federal intervém demais e, no limite, a completa distorção dos dados estão explícitas.

É justificável a plena autonomia editorial dos meios impressos; já a radiodifusão é concessão pública e deveria ter um papel educativo e imparcial. Mesmo que se leve em conta que as suas crenças e seus os valores são do campo direitista, convém desnudar os interesses por trás dessa parcialidade. O que eles têm a ganhar com políticas econômicas e sociais de direita?"

FONTE: escrito por Róber Iturriet Avila, doutor em economia, professor da Unisinos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística. Artigo publicado no "Brasil Debate" e transcrito no portal "Brasil 247" (http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/179127/Por-que-os-ve%C3%ADculos-de-comunica%C3%A7%C3%A3o-t%C3%AAm-vi%C3%A9s-editorial-de-direita.htm).

AS AMEAÇAS AO BRASIL E À AMÉRICA LATINA



          Dilma Rousseff e Barack Obama 

O contexto internacional e as ameaças ao Brasil e à América Latina

Do "Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais", na "Carta Capital Online"

"A crise brasileira segue uma dinâmica nacional clara, mas faz parte de uma investida contra o ciclo progressista latino.

Os processos históricos nacionais, sobretudo de países do porte do Brasil, estão cada vez mais imbricados com uma realidade mundial marcada por lutas para que se alterem suas relações de poder e pela dominância da lógica financeira, rentista, no âmbito de uma economia interligada e crescentemente globalizada. Assim, a luta política em curso no Brasil só pode ser compreendida em sua totalidade, situando o Brasil, a América Latina, e mesmo os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), no contexto de um mundo regido por uma crise estrutural e sistêmica do capitalismo que se estende para seu oitavo ano, denominada a “grande recessão”.

Em todo o globo, os trabalhadores e os povos resistem à dominação da oligarquia financeira e das forças pró-imperialistas. O mundo também se encontra envolto por uma luta que envolve países e blocos de países da qual resultará o desfecho da atual transição em curso no mundo. O imperialismo estadunidense que há muito descreve uma trajetória de declínio relativo, manobra no sentido de tentar contrariar essa tendência e busca relançar sua hegemonia. Nesse sentido, ganha destaque na situação internacional uma ação das potências imperialistas, lideradas pelos EUA, para conter e agredir qualquer país que contrarie seus interesses.

A aliança EUA-União Europeia-OTAN atua para cindir os países BRICS, seja cooptando-os – como buscam os EUA em relação à Índia –, seja agindo para tentar neutralizar e agredir países, como no caso do Brasil e da Rússia, do Irã, da Síria, e de muitos países da América Latina e Caribe, destacadamente Cuba, Venezuela e Argentina, submetidos a forte pressão econômica com expressivo componente exógeno, e a operações de “mudança de regime” e de guerra midiática. Ou até constrangendo diretamente por meio militares.

Afinal, os BRICS têm agido diretamente no sentido de acelerar a transição nas relações de poder no mundo em direção à multipolarização. A recente Cúpula dos BRICS em Fortaleza (julho de 2014) foi marca importante desse movimento, ao definir a constituição de meios para aprofundar a mudança na ordem econômica internacional, ao constituir um Banco de Desenvolvimento e um Fundo de Reservas para proteger as economias nacionais.

Na esfera da correlação de forças entre os campos políticos, pode-se afirmar que a crise, apesar de pôr a nu os limites históricos do capitalismo, e a despeito da luta e resistência dos povos, fortalece em plano mundial as forças conservadoras e reacionárias. São alvo dessa “geopolítica da contenção” os BRICS, e muito especialmente a China, e países como Rússia, Irã, além de vários países da América Latina. A intervenção aberta da OTAN nos conflitos da Ucrânia, e as sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia contra a Rússia constituem um verdadeiro cerco visando “estrangulá-la”, que objetivamente busca debilitar um dos principais vértices dos BRICS.

O Brasil é atingido, em pelo menos dois movimentos reativos da Casa Branca: ações para enfraquecer as articulações dos BRICS em termos de criar um novo arranjo de cooperação entre grandes nações em desenvolvimento e por uma nova ordem mundial, e a interveniência em países da América Latina para tentar derrotar o ciclo progressista, popular e patriótico, iniciado em 1998 com a vitória de Hugo Chávez na Venezuela e reforçado com a vitória de Luiz Inácio da Silva no Brasil, em 2002, e mais os êxitos no Uruguai, Bolívia, Argentina, Equador, Nicarágua, El Salvador, dentre outros.

Desde o final de 2013, as forças de esquerda e progressistas venceram as eleições presidenciais no Chile, em El Salvador, na Bolívia, no Brasil e no Uruguai. Essas vitórias políticas e o avanço do processo de integração continental propiciaram melhores condições para as lutas dos povos latino-americanos e caribenhos. É o caso das vitórias recentes de Cuba, com o retorno dos 5 heróis a Havana e o anúncio das negociações para normalizar as relações Cuba-EUA, após Barack Obama reconhecer o fracasso da tática de bloqueio econômico. E também é o caso do avanço recente das negociações de paz na Colômbia, entre as forças insurgentes e o governo.

Na América Latina e Caribe, há uma escalada da direita e do imperialismo para tentar por um fim aos governos de esquerda e progressistas da região. Utilizam variados meios e novas e velhas táticas como a guerra midiática, a guerra econômica, a judicialização da política, os intentos de golpe de estado, as ameaças de agressão militar, o apoio e o financiamento externo da oposição, entre outros, para tentar lograr as “mudanças de regime” que almejam.

Note-se que três dos principais países da América do Sul, Argentina, Brasil, Venezuela, passam por situações políticas críticas e são alvos dessa investida neste momento. Cada um com singularidades, mas tendo em comum a forte influência de fatores externos. Na Argentina, tentam judicializar a política com uma armação contra a presidenta Cristina Kirchner. Em relação à Venezuela bolivariana, o que se vê é um cerco brutal midiático, político e econômico que pode se agravar agora com novas sanções com a caracterização que o governo dos EUA faz da Venezuela como uma “extraordinária ameaça à segurança nacional e à política exterior dos Estados Unidos”.

No caso brasileiro, essa interferência do imperialismo ganhou visibilidade na espionagem da CIA em instituições e empresas do governo brasileiro, reveladas em 2013 – o que levou a presidenta Dilma a cancelar uma viagem oficial já marcada a Washington. Na campanha sucessória de 2014, organismos multilaterais hegemonizados pelos Estados Unidos, como é o caso do Fundo Monetário Internacional (FMI), e veículos da grande mídia, porta-vozes da oligarquia financeira, como é caso da revista britânica "The Economist", se imiscuíram indevidamente no debate eleitoral em favor do candidatado tucano. Neste início de 2015, proliferam análises nos principais meios de comunicação globais, como "The Economist", "Financial Times" ou "Time", colocando o Brasil no alvo e até mesmo fazendo ilações sobre a interrupção do mandato da presidenta Dilma.

Em suma, a tentativa de desestabilização do governo Dilma, embora siga uma dinâmica muito própria da luta de classes no país, como será analisado adiante, faz parte, inegavelmente, de uma investida mais ampla do imperialismo para tentar derrotar o ciclo progressista já em vigor há mais de 16 anos na América no Sul.

Seria ingenuidade imaginar que o Brasil, um dos grandes países das Américas, não enfrentaria as reações da direita local e do imperialismo, que se opõem à estratégia de fortalecer a integração latino-americana, a exemplo do Mercado Comum do Sul (Mercosul), União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac); e de se aliar com outras nações em prol de uma nova ordem mundial, com os BRICS e outras iniciativas. O imperialismo atua com ações próprias e prestando apoio aos setores mais poderosos das classes dominantes locais para tentar derrotar o ciclo dos governos Lula e Dilma.

A disputa política em torno dos rumos da América Latina e do Caribe, sobretudo da América do Sul, está sem desfecho certo e é cada vez mais acirrada. Cabe às forças populares e aos governos de esquerda e progressistas da região resistir à intensificação das pressões e agressões da direita e do imperialismo, defender a soberania da região e o princípio da América Latina como Zona de Paz (aprovada na Cúpula da Celac em Havana, Cuba, em janeiro de 2014), derrotar os intentos de golpe de estado e as ameaças de intervenção militar dos EUA, continuar vencendo as eleições e promovendo as reformas democráticas, e combater a crise econômica para garantir o desenvolvimento econômico e social.

Diante da crise capitalista mundial e dessas ameaças, é necessário aprofundar e acelerar o processo de integração solidária da América Latina e Caribe. Também é necessário impulsionar a unidade das forças populares na região e as ações de solidariedade internacional."

FONTE: do "Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais", na "Carta Capital Online". Transcrito no site "Patria Latina"  (http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?cod=15330).

A GUERRA PELO PETRÓLEO NO MUNDO SE DESENVOLVE NO MAR



Ilustração: André da Loba


DA ÁSIA AO CARIBE, A CORRIDA PELAS RESERVAS EM ÁGUAS PROFUNDAS - A guerra pelo petróleo se joga no mar


"As descobertas de novas reservas em águas profundas (mais 400 m) proliferam e se igualam ao total de reservas terrestres descobertas entre 2005 e 2009 fora da América do Norte. Dado ainda mais importante: as reservas descobertas em águas ultraprofundas (mais de 1.5 KM) são quase 50% das jazidas descobertas em 2010.

Por Michael T. Klare (professor de Relações Internacionais no Hampshire College), no francês "Le Monde Diplomatique"

No início de maio de 2014, a instalação da plataforma petrolífera de perfuração HYSY-981 nas águas contestadas do Mar da China Meridional suscitou especulações sobre as motivações chinesas. Na avaliação de diversos observadores ocidentais, Pequim pretendeu, com esse gesto, demonstrar que pode impor seu controle e dissuadir outros países de seguir com suas reivindicações de direito de exploração dessas águas, como é o caso do Vietnã e das Filipinas. A medida chinesa faria parte “do quadro de uma série de ações empreendidas pelos chineses nos últimos anos para afirmar a soberania do país em relação a partes contestadas do mar [da China Meridional]”, de acordo com Erica Downs, especialista em China na "Brookings Institution" (Washington). Entre essas ações, exemplifica, estão a tomada de controle do recife de Scarborough (ponta de terra não habitada, reivindicada pela China e pelas Filipinas) e o ataque repetido a navios de vigilância vietnamitas.

Para outros especialistas, essas ações são a expressão legítima da emergência de uma China como potência regional. Se por um lado o país não estava em condições de proteger seus territórios marítimos, agora lideranças afirmam que a China está suficientemente forte para fazê-lo. No entanto, se considerações nacionalistas e geopolíticas sem dúvida desempenharam um papel essencial na decisão de instalar a HYSY-981, não se pode subestimar o interesse relacionado a assuntos terrestres que essa plataforma oceânica representa para a busca de preciosas jazidas de petróleo e gás natural.

As necessidades chinesas aumentam, e as autoridades desaprovam a dependência crescente de fornecedores pouco confiáveis na África e Oriente Médio. O país procura suprir grande parte da energia utilizada por meio de fontes internas, entre elas os campos petrolíferos marítimos das zonas dos mares da China Oriental e Meridional, que considera estar sob seu controle. A China pretende monopolizar a exploração nessas áreas.

Pequim e Taiwan, a mesma área

Até agora, essas águas profundas foram exploradas de forma limitada, e a amplitude real da fonte de hidrocarbonetos permanece desconhecida. A "Agência de Informação sobre Energia" (Energy Information Administration, EIA), ligada à Secretaria de Energia dos Estados Unidos, estima que o Mar da China Oriental abrigue entre 60 milhões e 100 milhões de barris de petróleo, e entre 28 bilhões e 50 bilhões de metros cúbicos de gás.[1]  Os especialistas chineses falam em volumes muito maiores.

A China investiu consideravelmente no desenvolvimento de tecnologias de perfuração de águas profundas. Procurando reduzir sua dependência em relação a tecnologias estrangeiras, a "China National Offshore Oil Corporation" (CNOOC) investiu 6 bilhões de yuans (mais de R$ 3 bilhões) para construir HYSY-981, a primeira plataforma semissubmersa do país. Com a superfície do tamanho de um campo de futebol e uma torre de perfuração equivalente a um prédio de quarenta andares, essa plataforma pode operar a uma profundidade de 3 quilômetros oceano abaixo e 12 quilômetros na terra.[2]

A China alega que cerca de 90% do Mar Meridional faz parte de suas águas territoriais, de acordo com uma carta publicada pelo governo nacionalista de 1947 – chamada muitas vezes de “traçado de nove linhas”, em referência às linhas que delimitam a zona reivindicada. Outros quatro Estados – Brunei, Malásia, Vietnã e Filipinas – reivindicam zonas econômicas exclusivas na mesma área. Taiwan, que justifica sua reivindicação da área pela mesma carta usada pela República Popular, quer a totalidade das águas.[3]

No Mar da China Oriental, Pequim estima que seu platô continental exterior se estenda até a foz do Okinawa, não distante das ilhas ao longo do Japão – que, por sua vez, reivindica uma zona econômica exclusiva que se estende até a linha mediana entre os dois países. Até o momento, as duas partes respeitaram um acordo tácito segundo o qual nenhum dos dois países deve avançar a exploração para além dessa linha. Mas as empresas chinesas estão realizando perfurações em uma zona imediatamente a oeste da linha mediana e explorando um campo de gás que se estende até o território reivindicado pelo Japão.

Essa rivalidade pela energia reflete a dependência mundial e crescente do petróleo e do gás marítimos em detrimento das reservas terrestres. Segundo a "Agência Internacional de Energia" (AIE), a produção de petróleo bruto proveniente das jazidas existentes, em sua maioria situadas em terra ou em águas costeiras pouco profundas, baixará em dois terços entre 2011 e 2035. Essa perda, afirma a AIE, pode ser compensada, contudo, apenas se os campos atuais forem substituídos por outras jazidas no Ártico, nas águas profundas e em formações ricas em xisto na América do Norte.[4] Fala-se muito na extração por fraturação hidráulica do petróleo e gás natural contidos nas reservas de xisto dos Estados Unidos. Esforços mais importantes, porém, foram consagrados ao desenvolvimento de fontes marítimas. Segundo analistas do "IHS Cambridge Energy Research Associates", eminente escritório de consultores, as descobertas de novas reservas em águas profundas (mais de 400 metros) proliferam e se igualam ao total das reservas terrestres descobertas entre 2005 e 2009 fora da América do Norte. Dado ainda mais importante é que as reservas descobertas em águas ultraprofundas (mais de 1500 metros) representam quase metade das jazidas encontradas em 2010.[5]

Em alguns casos, os futuros campos de exploração se localizam em águas pertencentes a zonas econômicas exclusivas de um Estado, que podem chegar a 200 milhas náuticas (370 quilômetros) da costa do país. A regra evita contendas como as dos mares da China Oriental e Meridional. O Brasil, por exemplo, descobriu diversas jazidas importantes na bacia de Santos, no Atlântico Sul, a cerca de 180 quilômetros a leste do Rio de Janeiro. Nas zonas mais promissoras, contudo, nenhum Estado criou zonas econômicas exclusivas, e as atividades exploratórias são controversas.

Os conflitos se produzem geralmente nos mares semifechados, como o Mar Cáspio, o do Caribe e o Mediterrâneo. As fronteiras marítimas podem ser terrivelmente difíceis de estabelecer em razão de um litoral irregular e da presença de muitas ilhas, cuja propriedade muitas vezes é reivindicada por outros Estados. Além disso, a "Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar", que data de 1982, contém uma série de disposições sujeitas a múltiplas interpretações. Enquanto um Estado pode usar uma das causas para reivindicar uma zona econômica exclusiva a 200 milhas náuticas de seu litoral (como no caso do Japão e da China oriental), outro Estado pode se valer de uma disposição diferente que permite o controle sobre o platô continental exterior, mesmo que este se estenda sobre os domínios da zona exclusiva de seu vizinho (como a China alega nesse caso). Apesar de as Nações Unidas terem estabelecido uma Corte especial para cuidar desses desacordos – o Tribunal Internacional do Direito do Mar –, vários Estados não reconhecem sua autoridade, e os conflitos continuam crescendo. Algumas nações adotaram posições inflexíveis, ameaçando recorrer a forças militares para defender o controle do que consideram interesses nacionais essenciais.

Os perigos são patentes, como se observa no caso das águas do Atlântico Sul que contornam as Ilhas Malvinas (Ilhas Falkland, para os britânicos), reivindicadas tanto pelo Reino Unido como pela Argentina. Em 1982, os dois países entraram em guerra pelo controle do arquipélago. O conflito breve, porém sangrento, teve como motor o nacionalismo e a queda de braço entre os dirigentes políticos envolvidos: Margaret Thatcher em Londres e uma junta militar em Buenos Aires. Desde então, as partes acordaram um armistício, mas a questão da soberania sobre as ilhas não foi resolvida. Atualmente, a descoberta de campos submersos de petróleo e gás na região fez as tensões recrudescerem. Londres declarou uma zona exclusiva de 322 quilômetros ao redor das ilhas e autorizou empresas sediadas no Reino Unido a prospectar lá. De seu lado, a Argentina afirma que seu platô continental exterior se estende até as Malvinas e que essas empresas estão atuando de forma ilegal em seu território. Entre ameaças de outras represálias, proibiu navios britânicos do setor petroleiro de aportar em seu litoral. Londres reagiu reforçando destacamentos aéreos e navais no arquipélago.

Desenvolver as zonas disputadas

Uma situação ainda mais perigosa ronda o Mediterrâneo oriental, onde Israel, Líbano, Síria, Chipre, República Turca do Chipre do Norte, assim como autoridades palestinas de Gaza, reivindicam reservas promissoras de petróleo e gás. De acordo com o "Escritório de Estudos Geológicos dos Estados Unidos" (United States Geological Survey), o Mar Levantino, que corresponde ao quarto mais a leste do Mediterrâneo, abrigaria reservas de gás natural estimadas em 3,4 bilhões de metros cúbicos, aproximadamente o volume das reservas confirmadas no Iraque.[6]

Hoje, Israel é o único Estado costeiro que explora sistematicamente essas reservas. A produção começou em março de 2013 na jazida de gás natural de Tamar, e Tel-Aviv prevê explorar a jazida de Leviatã, muito mais vasta. O projeto provocou protestos no Líbano, que reivindica uma parte dessas águas. Enquanto isso, o Chipre concedeu licenças para as empresas "Noble Energy" (norte-americana), "Total" (francesa) e "Eni" (italiana) para a instalação de plataformas em seu território marítimo, e pretende começar a produção nos próximos anos. A Turquia, em apoio aos cipriotas turcos, condenou fortemente essas decisões.

Conflitos similares eclodiram em outros espaços marítimos ricos em recursos energéticos, como no Mar Cáspio (onde Irã, Uzbequistão e Turcomenistão disputam uma fronteira marítima) e nas águas situadas a nordeste da costa sul-americana (onde a Guiana e a Venezuela reivindicam a mesma zona de potencial exploração). Em todos esses casos, um nacionalismo exacerbado se alia à busca insaciável de recursos energéticos para evitar a importação de petróleo e gás natural.

Em vez de considerarem essas contendas um problema sistêmico, o que exigiria uma estratégia específica para resolvê-lo, as grandes potências tendem a tomar partido de seus respectivos aliados. Assim, com a pretensão de permanecer neutro em relação à questão da soberania das ilhas Senkaku/Diaoyu, no Mar da China Oriental, o governo de Barack Obama reafirmou várias vezes que apoiava o Japão e se comprometeu a enviar auxílio em caso de ataque chinês. Essa posição foi denunciada por Pequim como uma afronta inaceitável – e torna ainda mais difícil convencer partes adversárias, implicadas nessa querela ou em outras do mesmo tipo, a sentarem-se à mesa de negociações para encontrar uma solução e evitar que as coisas piorem.

Para tentar amenizar esses desentendimentos, há diversas iniciativas em andamento: explicações mais precisas sobre os direitos dos Estados costeiros e as zonas econômicas exclusivas em alto mar; eliminação das ambiguidades suscitadas pelas disposições da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar; esforço internacional para estabelecer instâncias neutras que possam encontrar soluções por meio de negociações pacíficas.

Enquanto esperam a consolidação de tais medidas, as partes engajadas nesses conflitos deveriam procurar desenvolver conjuntamente os espaços contestados – estratégia adotada pela Malásia e pela Tailândia no Golfo da Tailândia, assim como pela Nigéria e São Tomé e Príncipe no Golfo da Guiné. Na ausência de esforços nesse sentido, as contendas marítimas atiçadas pela disputa de recursos energéticos poderão estremecer o século XXI, assim como os conflitos fronteiriços terrestres abalaram os séculos passados."

REFERÊNCIAS:

[1]  “China”, Energy Information Administration, 4 fev. 2014. Disponível em: www.eia.gov.
[2]  “China Begins Deep-Water Drilling in South China Sea” [China começa a exploração em águas profundas no Mar da China Meridional], Xinhua, 9 maio 2012.
[3]  Cf. notadamente Ronald O’Rourke, “Maritime Territorial Disputes and Exclusive Economic Zone (EEZ) Disputes Involving China: Issues for Congress” [Disputas territoriais marítimas e disputas de zonas econômicas exclusivas envolvendo a China: temas para o Congresso], Congressional Research Service (Serviço de Pesquisa do Congresso), Washington, 24 dez. 2014.
[4]  International Energy Agency, “World Energy Outlook 2012” [Panorama da energia mundial 2012], Paris, 2012.
[5]  Philip H. Stark, Bob Fryklund, Steve DeVito e Alex Chakhmakhchev, “Independents Setting Sights on International Opportunities in Deep Water, Shale and EOR” [Estabelecimento unilateral de oportunidades em águas profundas e jazidas], The American Oil & Gas Reporter, Derby (Kansas), abr. 2011
[6]  US Geological Survey (USGS), “Natural Gas Potential Assessed in Eastern Mediterranean” [Potencial de gás natural no Mediterrâneo oriental], USGS Newsroom, Washington, 8 abr. 2010.

FONTE: escrito por Michael T. Klare, professor de Relações Internacionais no Hampshire College e autor de "Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy" (Metropolitan Books, 2008). Artigo publicado no periódico francês "Le Monde Diplomatique" e transcrito no site "Patria Latina"  (http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?cod=15341).

A FALÊNCIA DO PRESIDENCIALISMO (por Roberto Amaral)





A FALÊNCIA DO PRESIDENCIALISMO

Por ROBERTO AMARAL


"A crise política no Brasil deve ser entendida como crise republicana, da qual o mal-estar da economia é apenas um dos reflexos.

O Brasil vive um parlamentarismo de fato, imposto como golpe de Estado branco, o que vai totalmente na contramão do pronunciamento eleitoral do ano passado, que reafirmou o presidencialismo.

Foi instalado pelo Congresso a partir da composição entre Eduardo Cunha e Renan Calheiros em aliança oportunista do baixo clero (bem representado pelo presidente da Câmara) com a oposição biliosa, irresignada com a derrota eleitoral.

No primeiro e no segundo reinados, tínhamos um poder moderador, ora ressuscitado e que é exercido pelo vice-presidente da República, Michel Temer. É uma engenhosa alternativa à governança, mas está longe de abrir caminho para a saída da crise de representação política que nos aflige.

O regime representativo brasileiro faliu, o presidencialismo de coalizão está esgotado e as instituições da República não estão à altura dos desafios do país de hoje, mais próximo daquele das marchas de 2013, denunciadoras da orfandade político-partidária da cidadania.

Há uma crise rotunda do sistema de partidos, em profunda putrefação, incapaz que foi de recuperar-se do estupro da ditadura militar, primeiro decretando o fim das siglas que vinham da Constituição de 1946, depois impondo o bipartidarismo permissível com duas siglas de fancaria (Arena e MDB), virtualmente criadas por decreto.

A liberação, iniciada em 1982, e a reorganização partidária, em 1985, não foram suficientes para restabelecer o verdadeiro sistema de partidos, se entendidos como representações de interesses coletivos distinguidos ideologicamente.

Ao contrário, a proliferação desmedida e irresponsável de partidos --32 é o número de hoje-- resultou ainda mais na desmoralização das siglas. A permissividade desnaturou as coligações majoritárias e proporcionais, reduzidas a vil instrumento de cessão de tempo de rádio e TV e acesso ao fundo partidário.

A crise política deve ser entendida como crise republicana, da qual o mal-estar da economia é apenas um dos reflexos, requerendo transformações na organização do Estado e no processo eleitoral.

É preciso rever o funcionamento do Judiciário e do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Este deve ser aberto à sociedade, leniente que é com as falhas morais e éticas de parte da magistratura. É preciso acabar com a indústria das liminares e dos pedidos de vista que atingem o STF.

Como um ministro interrompe votação já com placar de 6 a 1 (decidida) com pedido de vista dos autos e sentado sobre eles permanece por um ano? É preciso rever o funcionamento do STF, que delibera menos de oito meses por ano, que absorve poderes do Legislativo e que, ao contrário deste e do Executivo, julga-se espaço de deuses inalcançáveis pela fiscalização da cidadania.

Os presidentes das Casas não podem ser os imperadores das pautas e das agendas, e o colégio de líderes não pode substituir o plenário.

A Câmara dos Deputados não pode ser instrumento do atraso social que a sociedade rejeita e o Senado precisa ter suas atribuições revistas. Assim, este pode concentrar-se na justificativa de sua existência, que é a representação igualitária dos interesses dos Estados e a estabilidade federativa, em face da representação proporcional assimétrica que caracteriza a Câmara.

O presidencialismo de coalizão impõe ao presidente a chantagem de siglas que o obrigam a abandonar o programa pelo qual foi eleito para poder governar, mesmo assim tendo de distribuir prebendas a cada votação do interesse do Executivo.

Uma forma de evitar esse deletério presidencialismo é manter eleições gerais no mesmo ano, separando as presidenciais das parlamentares e ensejando, assim, a coerência política entre a eleição do primeiro mandatário e a do Congresso que lhe der respaldo."

FONTE: escrito por ROBERTO AMARAL, cientista político e ex-ministro da Ciência e Tecnologia entre 2003 e 2004; artigo publicado no portal "Brasil 247" (http://www.brasil247.com/pt/247/artigos/179076/A-fal%C3%AAncia-do-presidencialismo.htm).

PEQUENA HISTÓRIA DA MÍDIA BRASILEIRA, NOS 50 ANOS DA "GLOBO"




Pequena história da mídia brasileira, nos 50 anos da Globo

Por Luis Nassif

"O avanço das telecomunicações, o desenvolvimento do micro-ondas, abriram novas perspectivas para as redes de TV norte-americanas.

Em fins dos anos 50 elas começaram a planejar sua expansão internacional, de olho na América Latina.

Coube a Henry Luce, fundador e mentor do grupo "Time-Life" a grande revolução do período, que o tornou o norte-americano mais influente de sua época.

Antes da TV, Luce se consagrara com um conjunto de revistas campeãs, a "Time" (que se tornaria o modelo das revistas semanais de informação, espelho da futura "Veja"), a "Life" (copiada pela "Manchete"), a "Fortune" (de negócios) e a "Sporteds Illustred", servindo de modelo para os novos grupos editoriais.

O lançamento da revista "Time" foi um divisor de águas na imprensa mundial, conferindo um novo status às revistas semanais, uma influência política sobre a opinião pública equiparável à dos grandes diários e inspirando similares em todos os países, muitos deles tendo a própria "Time-Life" como sócia.

O estilo "Time" consistia em organizar o universo (já abundante) das notícias diárias em uma periodicidade mais cômoda para o leitor – a semanal -, selecionando um universo restrito de temas, mas embalando-os de forma agradável, com um texto eminentemente opinativo que fosse compreendido pelo leitor mediano.



Para obter esse alcance, havia uma simplificação de tal ordem, especialmente em cima de temas complexos.

Para conferir credibilidade ao texto, o estilo contemplava uma largo descritivo, criando diálogos imaginários, mas verossímeis, descrevendo detalhes de ambientes, passando a ideia da “onipresença” e “onisciência”. Tipo: “Salvador Allende entrou sozinho no salão do Palácio La Moneda, olhou longamente a multidão pela janela, foi para um canto, tirou a espingarda, e, com o olhar grave, encaixou-a debaixo do queixo, aguardou alguns segundos e apertou o gatilho

Luce também inovou no modelo de negócios, ao criar uma nova empresa, a "Time-Life", que se valia da grande penetração das revistas para a venda de produtos de catálogo. Tinha o perfil dos donos de mídia criados pelo novo modelo, fundamentalmente comerciantes com visão de produto.

Quanto começou a era da televisão, promoveu uma transição bem sucedida para a nova mídia, tornando-se o primeiro grupo a juntar todas as formas de comunicação em um mesmo conglomerado, batizado de "Time-Life Broadcast Inc".

Nos anos 50, junto com as redes "NBC", "CBS" e "ABC", a "Time-Life" saiu à caça de parceiros internacionais, preferencialmente latino-americanos.

Em outubro de 1964, em um seminário do "Hudson Institute", um dos principais executivos da "Time Life" explicou a fórmula de expansão das redes norte-americanas:

1. Ter posição minoritária nos países da América Latina, devido às leis dos respectivos países sobre telecomunicações.

2. Ter sócios locais, e “eles têm provado ser dignos de confiança”.

3. A programação diurna da TV será importante para o êxito comercial e poderosamente eficaz e popular.

Ao mesmo tempo, propunha uma parceria com o governo norte-americano, “como um meio de atingir o povo do continente”. Um pouco antes, apontara sua mira para o Brasil.

O mercado de mídia no Brasil


Em 1928, quando o Brasil começou a se urbanizar e a lançar as bases de um mercado de consumo mais robusto, chegaram as primeiras agências de publicidade internacionais, com a "Ayer and Son" representando a "Ford". Logo depois, vieram a "J.W.Thompson" e a "McCan Erickson" ao mesmo tempo em que o modelo norte-americano de concessão de rádios começava a ser implantado no país.

O ecossistema dos grupos de comunicação com seus jornais, filmes e rádios começava a ensaiar a internacionalização, de mãos dados com as grandes multinacionais do país:

1. A rede afiliada.

2. As agências de notícias.

3. As agências de publicidade, sendo o elo de ligação com os patrocinadores.

4. O Departamento de Estado, conforme se verificou na Missão Rockefeller, na Segunda Guerra.

Nos anos 40, o esforço de guerra norte-americano incluiu decididamente a parceria com a indústria da comunicação. Jornais aliados ganhavam cotas de papel mas, principalmente, o conteúdo das agências puxado pelo fascínio de Hollywood.

No início dos anos 50, a imprensa brasileira de opinião resumia-se aos "Diários Associados", de Assis Chateaubriand, com sua rede de jornais regionais, "O Estado de São Paulo" da família Mesquita e, no Rio, um conjunto de diários, entre os quais "O Globo", "Jornal do Brasil", "Correio da Manhã", "Diário Carioca".

Entre as rádios, havia a "Globo", "Jornal do Brasil", "Mayrink Veiga" e a estatal "Nacional" no Rio; em São Paulo o sistema "Record", da família Machado de Carvalho; e os "Associados" espalhando-se por diversas capitais.


Inaugurada em 1950 pelo pioneiro Chateaubriand, rapidamente a televisão avançou sobre o bolo publicitário. Naquele ano, o meio rádio detinha 24% dos investimentos em publicidade. Em 1960, sua participação caía para 14% enquanto o novíssimo meio televisão já dominava 9% do mercado publicitário, apesar de o pais possuir apenas um milhão de aparelhos receptores contra 6 milhões de rádios.

Os "Associados" foram os primeiros a inaugurar um canal de televisão. Seguiram-se algumas tentativas individuais, dos Wallace Simonsen, com a "TV Excelsior", os Machado de Carvalho, com a "TV Record", as Organizações Victor Costa, com a "TV Paulista", Casper Líbero com a "TV Gazeta".

Direta ou indiretamente, Luce tornou-se o fator de desequilíbrio, principal inspirador dos dois grupos empresariais que acabariam modernizando e dominando a mídia brasileira nas décadas seguintes: as "Organizações Globo" e a "Editora Abril".

Na época, Marinho havia sido procurado pela "NBC" (National Broadcasting Corporation) e pela "Time-Life". A sócia escolhida foi a "Time-Life" devido à transição vitoriosa para a televisão.

O ponto de aproximação foi a diplomata Clare Booth Luce, que se tornou figura permanente nas manchetes lisonjeiras de "O Globo". Clare era esposa de Henry Luce. Escritora de sucesso, foi a primeira mulher indicada para cargos relevantes na diplomacia norte-americana.

No período em que Clare foi embaixadora na Itália, houve o lançamento do "Panorama", do "Time-Life" em sociedade com um "grupo Mondatori".

A internacionalização do grupo dava-se em torno da bandeira do anticomunismo e de alianças com algumas das mais corruptas ditaduras do mundo – a mais ostensiva foi a parceria com o casal Chiang Kai-shek, o ditador da China pré-Mao, considerado na época o regime mais corrupto do planeta.


Nomeada embaixadora do Brasil, Clare não chegou a assumir devido a problemas nos EUA justamente devido a amizades chinesas. Mas serviu de ponte para a sociedade com Roberto Marinho, firmada em 1961. Já nos anos 50, "O Globo" recebera substancial apoio da "American Tobacoo", que inclusive colocou seu diretor financeiro, Herbert Moses, na direção administrativa do jornal. Aliás, a mesma empresa que décadas antes valeu-se do poder da imprensa norte-americana para levar o governo norte-americana à guerra contra a Espanha pela posse de Cuba.

O grupo "Time-Life" injetou quantia considerável no "Globo", algo em torno de US$ 5 milhões da época. Com esses recursos, mais uma série infindável de privilégios – como a importação de equipamentos sem pagamento de impostos e com um câmbio especial -, a "Globo" logrou contratar as melhores atrações dos concorrentes.

Além disso, representantes da "Time" passaram o know how da programação, da comercialização, as séries-novela que fidelizavam o público diariamente, o modelo dos grandes eventos.

A sociedade ganhou velocidade após 1964 e só foi interrompida em 1971, quando Marinho adquiriu a parte da "Time-Life", com o sócio incomodado pela CPI e pelas restrições do governo brasileiro.

A compra final foi uma novela à parte.

Marinho tinha sido sócio do banqueiro Walter Moreira Salles e do jornalista Arnon de Mello no Parque Lage. Quando Carlos Lacerda elegeu-se governador do Rio, mandou desapropriar o parque. Os três sócios ingressaram na justiça.

Quando Chagas Freitas foi eleito governador do então estado da Guanabara, Marinho apressou-se em negociar com ele a reintegração do parque, mas não avisou seus sócios. Pelo contrário, adquiriu a parte de Moreira Salles por valor irrisório, alegando que tinha caixa sobrando e queria apostar no parque a longo prazo.

Moreira Salles sentiu-se enganado e partiu à forra. Marinho precisava de US$ 5 milhões para quitar o empréstimo dado pelo grupo "Time-Life". Na véspera do prazo fatal, Walther foi aos Estados Unidos e tentou adquirir as ações de Roberto Marinho caucionadas para a "Time-Life".

Mas Robert Marinho agiu rápido e conseguiu um empréstimo com José Luiz de Magalhães Lins, que dirigia o "Banco Nacional" de seu tio Magalhães Pinto. Quitou o empréstimo e consolidou o controle da "Globo".

Na área das revistas, Luce foi essencial também para alavancar os irmãos Civita – dois [judeus] ítalo-americanos que aportaram no Brasil e Argentina, respectivamente, sem capital e com a intenção de explorar o mercado de revistas.

Civita tinha sido empregado do grupo "Time-Life" e chegou ao Brasil sem dispor de maiores capitais, enquanto um irmão ficava na Argentina.

Em pouco tempo, a "Editora Abril", do Brasil, e o "Editorial Abril", da Argentina, lançaram 19 títulos de revistas. Na Argentina, seguindo a fórmula "Time", o carro-chefe tornou-se a revista "Panorama" – que ostentava na capa a parceria da "Abril" com a "Time-Life". No Brasil, a revista "Veja".

No final dos anos 60, com a doença de Assis Chateaubriand e a crise dos "Associados", a "Globo" assumiu a liderança na TV aberta e a "Abril" a do mercado de revistas.

O mercado de opinião passou a ser dominado por ambos, mais alguns jornais tradicionais – como o "Jornal do Brasil" no Rio e "O Estado de São Paulo". Nos anos 80, graças ao gênio de Otávio Frias, a "Folha" entrou nesse Olimpo, transformando-se no mais influente jornal brasileiro, mas longe dos modelos contemporâneos da "Globo" e da "Abril".

O "JB" desaparece com problemas de má gestão. E a entrada do Brasil na era da Internet se dá com a mídia tradicional sendo liderada pelo grupos dos 4: "Globo", "Abril", "Folha" e "Estadão". Nenhum deles chegando perto do poder da "Globo".

FONTE: escrito pelo jornalista Luis Nassif no "Jornal GGN" (http://jornalggn.com.br/noticia/uma-pequena-historia-da-midia-brasileira-nos-50-anos-da-globo).