quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

EMBRAER: RESULTADOS DO 4º TRIM. DE 2013 E ESTIMATIVAS PARA 2014





EMBRAER DIVULGA RESULTADOS DO 4º TRIMESTRE DO ANO DE 2013 [4T13] E ESTIMATIVAS PARA 2014

DESTAQUES

- A Companhia atingiu todas suas principais estimativas para 2013, como entregas de aeronaves, Receita líquida, Margens operacionais (EBIT1) e EBITDA², mesmo excluindo-se alguns itens não recorrentes que impactaram positivamente o 4º trimestre de 2013 (4T13);

- No 4T13, a Embraer entregou 32 aeronaves comerciais e 53 aeronaves executivas (38 jatos leves e 15 jatos grandes), encerrando o ano com um total de 90 aeronaves comerciais e 119 executivas (90 jatos leves e 29 jatos grandes) entregues;

- Como resultado das entregas de aeronaves e do crescimento do negócio de Defesa&Segurança, a Receita líquida atingiu R$ 5.295,7 milhões no 4T13 e R$ 13.635,8 milhões no ano, atingindo as estimativas da Companhia para o ano;

- As margens EBIT e EBITDA atingiram 20,2% e 23,7%, respectivamente, no 4T13, e no ano ficaram em 11,8% e 16,4% respectivamente, considerando alguns itens não recorrentes do 4T13. Como resultado, a Companhia superou suas estimativas anuais de margens operacional e EBITDA, de 9,0% a 9,5% e de 13,0% a 14,0%, respectivamente;

- O forte fluxo de caixa operacional de R$ 1.354,5 milhões durante 2013 aumentou a posição de caixa líquido da Companhia, que atingiu R$ 1.005,5 milhões ao final do ano;

- No 4T13, a Embraer apresentou Lucro líquido de R$ 607,2 milhões e Lucro por ação de R$ 0,8329. No ano, o Lucro líquido total foi de R$ 777,7 milhões e o Lucro por ação ficou em R$ 1,0668;

- Em 2014, a estimativa da Companhia é de atingir Receita líquida de US$ 6,0 a US$ 6,5 bilhões, impulsionada pelo crescimento no segmento de Defesa&Segurança e pelas entregas estimadas de 92 a 97 jatos na Aviação Comercial, de 25 a 30 jatos grandes e de 80 a 90 jatos leves na Aviação Executiva;

- A carteira de pedidos firmes (backlog) aumentou para US$ 18,2 bilhões, atingindo 46% de crescimento se comparada aos US$ 12,5 bilhões ao final de 2012.

Receita Líquida por Segmento 
(Milhões de Reais)

Acum 2012 / % / Acum 2013 / %

   Aviação Comercial

7.371,3 / 60,5 / 7.186,4 / 52,7

   Defesa&Segurança

2.059,5 / 16,9 / 2.601,0 / 19,1

   Aviação Executiva

2.601,9 / 21,4 / 3.658,7 / 26,8

   Outros

147,8 / 1,2 / 189,7 / 1,4

Total

12.180,5 / 100,0 / 13.635,8 / 100,0

DEFESA&SEGURANÇA

O mercado de defesa e segurança continua a apresentar cenário favorável para o crescimento, com uma série de campanhas em curso para várias aplicações, incluindo o transporte de autoridades, treinamento e ataque leve, sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento, sensoriamento remoto e monitoramento, modernização de aeronaves, transporte militar, sistemas de comando e controle, e serviços. A Embraer lidera projetos importantes no Brasil, tais como o desenvolvimento do jato de transporte militar tático KC-390 e o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON).

A Embraer Defesa&Segurança finalizou a adequação do hangar da planta de Jacksonville e os materiais para a montagem da primeira aeronave Super Tucano para o programa LAS (Light Air Support, ou Apoio Aéreo Leve), da Força Aérea dos Estados Unidos, começaram a chegar para início das atividades produtivas em fevereiro de 2014. A fábrica já conta com efetivo necessário para o início da produção de acordo com o cronograma previsto originalmente, com início das primeiras entregas em meados de 2014. Em dezembro, foi realizado o translado para Angola das últimas três aeronaves Super Tucano. O processo produtivo das próximas entregas está dentro do cronograma contratado.

Com relação aos programas de modernização de aeronaves, a Embraer Defesa&Segurança concluiu, em dezembro, a modernização da segunda aeronave de série do programa A-1M, da Força Aérea Brasileira (FAB), e realizou o primeiro voo do protótipo biposto, que inicia a campanha de ensaios em 2014. O programa A-1M prevê a revitalização e a modernização de 43 jatos subsônicos AMX, 23 dos quais já se encontram nas instalações da Empresa. Quanto ao programa de modernização de 11 caças F-5, também da FAB, a Embraer já conta com sete aeronaves recebidas.

O Programa AF-1M, de modernização de 12 caças AF-1 (A-4 Skyhawk) para a Marinha do Brasil, continua sua execução conforme previsto. Seis aeronaves já se encontram nas dependências da Embraer, em Gavião Peixoto e, ao final do quarto trimestre, teve início a campanha de ensaios em voo do primeiro protótipo. As primeiras aeronaves modernizadas serão entregues em 2014.

No segmento de Tráfego Aéreo, a ATECH realizou a aceitação em campo (SAT) de sistemas estratégicos como o SIGMA e versões do SAGITARIO em diversas regiões do país e assinou um novo contrato para implantação do sistema SAGITARIO em 19 APPs, cujo valor contratual adicionou um montante de R$ 83,4 milhões à sua carteira de pedidos (backlog).

A BRADAR Indústria S/A fechou 2013 com um resultado significativo, apresentando lucro operacional relevante e valorização do negócio acima do esperado. Na área de defesa, a BRADAR entregou mais 4 radares de vigilância a baixa altura "Saber M60" para a FAB e, com isso, possui hoje 22 radares operacionais nas Forças Armadas brasileiras. Também, fechou contrato de fornecimento de uma unidade do radar "Sentir M20" para o Exército Brasileiro. Na área de Sensoriamento Remoto, a BRADAR concluiu, no mês de dezembro, o mapeamento cartográfico de todo o Panamá e também do departamento de Cundinamarca, na Colômbia. A Bradar também renovou o contrato de monitoramento da Usina Hidroelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira em Porto Velho (RO), e foi contratada pela Mineradora Rio do Norte S.A. para novo mapeamento cartográfico.

A VISIONA Tecnologia Espacial S.A. – uma joint-venture entre a Embraer S.A. e a Telecomunicações Brasileiras S.A. (Telebras) – assinou em novembro de 2013 o contrato para desenvolvimento e integração do sistema SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações estratégicas) com a Telebras, com valor total aproximado de 1,3 bilhão de Reais. Em dezembro de 2013, foram assinados os contratos com os fornecedores do satélite e do lançamento.

INVESTIGAÇÕES DA SEC/DOJ

Em setembro de 2010, recebemos intimação (subpoena) da "Securities and Exchange Commission" (SEC) com pedido de informações a respeito de certas transações relativas à venda de aeronaves no exterior. Em resposta à intimação da SEC e outros pedidos de informações relacionadas à possibilidade de não conformidade com o "U.S. Foreign Corrupt Practices Act" (FCPA), a Companhia contratou advogados externos para realizar investigação interna em operações realizadas em três países específicos.

Posteriormente, em função de informações adicionais, a Companhia, voluntariamente, expandiu o escopo da investigação interna para vendas em países adicionais e reportou sobre esses fatos à SEC e ao "U.S. Department of Justice" (DoJ). A investigação interna e os procedimentos governamentais relativos a esses assuntos permanecem em andamento. A Companhia continuará atuando em relação a informações adicionais e cooperará com a SEC, o DoJ e outras autoridades competentes, conforme as circunstâncias requeiram.

A Companhia, com o suporte de seus advogados externos, concluiu que, em 31 de dezembro de 2013, ainda não é possível estimar a duração, o escopo ou os resultados da investigação interna ou de procedimentos relacionados, conduzidos pelas autoridades pertinentes. Caso as autoridades tomem medidas contra a Companhia em relação a esses ou quaisquer outros casos relacionados que possam surgir no futuro, ou caso celebremos um acordo, podemos ser obrigados a pagar multas substanciais e/ou incorrer em outras sanções ou responsabilidades. A Companhia, com base no parecer dos advogados externos, acredita que, em 31 de dezembro de 2013, não existe base para estimar provisões ou quantificar possíveis contingências.

ESTIMATIVAS 2014: RECEITA LÍQUIDA, MARGENS E INVESTIMENTOS

Durante 2013, o mercado de aviação comercial mostrou sinais contínuos de recuperação, especialmente no mercado norte-americano, permitindo que a Companhia aproveitasse o aumento de demanda por jatos regionais de 76 assentos e acumulasse parte significativa destes novos pedidos. No mercado de jatos executivos, apesar dos níveis recordes de lucros das empresas e do número de indivíduos com alto patrimônio líquido, o estoque e os preços de aeronaves usadas ainda pressionam a demanda por aeronaves novas, impactando uma recuperação que ainda não se concretizou plenamente.

Diante disso, a Embraer espera que [aumentem] as receitas e entregas de 2014 dos segmentos de Aviação Comercial e Executiva quando comparadas a 2013. Com relação ao segmento de Defesa&Segurança, a Companhia espera crescimento contínuo de dois dígitos na receita de 2014, na medida em que a Empresa avança na execução dos programas existentes, incluindo o KC-390, o sistema de monitoramento de fronteiras (SISFRON) e o programa Super Tucano LAS, bem como o programa do satélite.

Tendo em vista o cenário descrito acima, em 2014 a Embraer espera entregar 92 a 97 jatos comerciais, 80 a 90 jatos executivos leves e 25 a 30 jatos executivos grandes. A Receita líquida total deverá ficar entre US$ 6,0 e US$ 6,5 bilhões, com a seguinte contribuição aproximada de cada segmento de negócio: 53% da Aviação Comercial; 26% da Aviação Executiva; 20% da Defesa&Segurança e 1% de Outros negócios.

Em 2014, a Companhia espera entregar quantidade maior de E-Jets E175 no segmento de Aviação Comercial, o que resultará em um mix de produtos menos favorável no que se refere às margens que, no entanto, serão parcialmente compensadas pelas iniciativas de produtividade em curso, bem como por uma taxa de câmbio esperada mais favorável em relação a 2013. 

Além disso, o aumento de participação da receita do segmento de Defesa&Segurança, juntamente com uma melhoria da margem prevista para o segmento de Aviação Executiva, devem também compensar em parte o declínio da margem esperada no segmento de Aviação Comercial. Como resultado, em 2014 a Empresa espera alcançar Margem EBIT consolidada de 9,0% a 9,5% (de US$ 540 milhões a US$ 620 milhões) e Margem EBITDA de 13,0% a 14,0% (de US$ 780 milhões a US$ 910 milhões).

Com o aumento das atividades relacionadas ao desenvolvimento do programa E-Jets E2, finalização do desenvolvimento do jato executivo Legacy 500 e a aproximação da conclusão do desenvolvimento do jato executivo Legacy 450, a Embraer espera que os investimentos totais alcancem US$ 650 milhões em 2014.

Desse total, a Pesquisa representará US$ 80 milhões; Desenvolvimento de produto representará US$ 320 milhões; e CAPEX será de US$ 250 milhões.

Como resultado das estimativas de receita, lucro operacional e investimentos, assim como outros fatores, a Companhia espera que, em 2014, seu Fluxo de Caixa livre seja levemente positivo em dois dígitos.

Essas estimativas são baseadas em suposições que estão sujeitas a vários fatores, muitos dos quais não estão e nem estarão sob o controle da Companhia."

[Clique no link abaixo para acessar o arquivo na íntegra: http://tinyurl.com/lbp2782]


FONTE: site "DefesaNet" (http://www.defesanet.com.br/embraer/noticia/14353/EMBRAER---Resultados-Balanco-e-Area-Defesa/).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O STF E A PARÁBOLA SOBRE "A QUADRILHA"




Você pode ter a opinião que quiser sobre os condenados da AP 470. Mas não pode dizer que se uniram para "o fim de cometer crimes"

Por Paulo Moreira Leite, na revista "IstoÉ"

"O Supremo encara nesta quarta-feira o debate sobre os embargos infringentes contra a condenação de crime de quadrilha contra os réus da Ação Penal 470.

Conforme o artigo 288 do Código Penal, "quadrilha" é uma associação de “três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes".

A condenação [na AP 470] por esse crime é inaceitável.

Você pode ter a opinião que quiser sobre os réus da AP 470. Pode dizer que eles cometeram delitos e mesmo crimes.

Mas não pode dizer que se articularam “para o fim de cometer crimes.”

A menos, claro, que pretenda criminalizar a atividade política.

A atividade dos condenados não era cometer crimes – mas fortalecer e consolidar um projeto político.

É uma diferença que a maioria da população distingue com clareza. Essa distinção explica as três vitórias eleitorais consecutivas obtidas pelo condomínio Lula-Dilma e, a julgar pelas pesquisas eleitorais mais recentes, pode lhe dar a quarta eleição em outubro, feito inédito desde a proclamação da República, em 1889.

A menos que você tenha visão preconceituosa sobre os valores do brasileiro, como sugerem tantos antropólogos de botequim e até alguns de nossa academia, irá reconhecer que isso acontece porque a população reconhece os benefícios produzidos pelas mudanças de natureza social e econômica que foram feitas no país. Aprova a distribuição de renda, a queda da desigualdade, o menor desemprego em muitos anos de história.

É disso que estamos falando.

É errado dizer que erros e ilegalidades, que podem ser apontados no processo, eram o “fim” do projeto.

Embora seja possível concordar com a noção de que mais vantajoso do que assaltar um banco é fundar um, uma instituição financeira que cobra taxas indevidas de seus clientes deve ser punida pelos desvios cometidos, mas não vamos dizer que é uma “quadrilha”, certo?

Uma empresa que não paga direitos trabalhistas aos empregados deve ser acionada na Justiça, mas não vamos dizer que seus executivos formam uma “quadrilha”, não é mesmo?

Falar em quadrilha, na AP 470, não é correto, quando a melhor prova do “fim” é um Land Roover de um acusado de periculosidade afinal tão relativa que sequer foi incluído entre os 40 réus da AP 470.

Ou quando José Genoíno, "um dos principais chefes", conforme a denúncia, reside numa casa modesta na Previdência, em São Paulo, comprada a prestações na Caixa Econômica.

Imagine que, até hoje, não se falou num único projeto do governo Lula que tenha sido aprovado pela “compra de votos.” Nenhum. Com toda sua retórica, o delator Roberto Jefferson não citou um único caso.

Quem fala da Previdência apenas demonstra que caiu num conto do vigário e desconhece um fato político elementar. Com as mudanças na Previdência, o governo Lula aderiu às propostas de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.

O problema de seu governo, então, não era conquistar votos adversários, que eram fartos, mas resolver o que fazer com os descontentes do próprio PT. A maioria foi enquadrada e disciplinada. Uma pequena parte fundou o PSOL.

Com tudo o que se disse e se escreveu sobre a AP 470, não se produziu nada que se compare, por exemplo, aos R$ 200 000 embolsados pelos parlamentares que venderam seus votos para aprovar a emenda da reeleição [de FHC e PSDB/DEM] em 1997.

Aquilo sim era compra de votos,” me disse o então deputado Pedro Correa (PP-PE), que testemunhou a presença de banqueiros que, à saída do plenário, entregavam a senha que os deputados convertidos deveriam apresentar a um doleiro.

Olha a verdadeira parábola do mensalão e sua quadrilha.

Dez anos depois da compra de votos da emenda da reeleição, uma parte dos vendidos de 1994 foi atrás das verbas do esquema do PT em 2004. Estavam quebrados. Aquela denúncia da emenda da reeleição virou processo na Justiça e aqueles que foram apanhados precisavam de dinheiro para pagar advogado.

Boa parte era do PP, o partido de Pedro Correa, que era contra a emenda da reeleição. Queria impedir a reeleição porque ela iria atrapalhar uma possível candidatura de Paulo Maluf. Quase dez anos depois, quando Fernando Henrique já havia deixado o Planalto, onde foi reeleito com ajuda daquela turma, o PP precisava de dinheiro para pagar a defesa dos deputados.

Hoje, condenado na AP 470, de onde seu partido tirou recursos para livrar seus colegas da cadeia, Pedro Correa cumpre pena em Pernambuco.

Cadê a quadrilha? Quem faz parte dela?

Isso só acontece porque nossa democracia mantém regras que estimulam o que é clandestino, irregular e pouco transparente. Apesar de falhas, defeitos e imperfeições, a democracia deve ser defendida de modo incondicional.

Não precisa de tutelas nem de salvadores de nenhum tipo.

As principais tentativas sérias de reformar o sistema eleitoral, impedindo relações promíscuas entre o financiamento dos partidos e o setor privado, foram bloqueadas pelos que, agora, emitem suspiros horrorizadas com as falhas e desvios com as quais conviveram alegremente por anos e anos.

Então, chegamos a uma segunda parábola. Impedimos toda e qualquer mudança nas regras do jogo, mas, quando o adversário está ganhando, fazemos uma seleção sob medida para que sejam julgados e condenados sem que o direito à ampla defesa tenha sido assegurado, como observou o insuspeito jurista Ives Gandra Martins. Não demos sequer o direito ao desmembramento, assegurado [privilegiadamente] aos réus do PSDB-MG que não tinham direito ao foro privilegiado -- situação de 34 dos 37 réus, entre os quais Dirceu e Delúbio Soares. 

Repare em quem se opôs com todas as forças ao debate no local adequado – o Congresso -- sobre a reforma eleitoral encaminhada depois dos protestos de junho.

Repare em quem dizia que o governo (mas também a OAB, o movimento Ficha Limpa e outros) queria financiamento público exclusivo, com base no desempenho eleitoral de cada legenda, porque o PT iria beneficiar-se com isso. (Não pergunte, é claro, que outro critério, além do apoio popular, deveria ser empregado nesse caso).

Repare em quem disse que uma reforma iria fortalecer as burocracias partidárias, fingindo desconhecer que elas são a única forma de resistência aos mercadores que adquirem parlamentares como quem compra automóvel numa concessionária.

Repare em quem se disse indignado com a possibilidade de a atividade política ser financiada pelo dinheiro do contribuinte – como se não fosse claro que o dinheiro que financia campanhas é devolvido, com lucros, pelos contratos favorecidos.

Cadê a quadrilha? Quem faz parte dela?"

FONTE: escrito por 
Paulo Moreira Leite, na revista "IstoÉ" (http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/48_PAULO+MOREIRA+LEITE).

"É CEDO PARA CRAVAR A VITÓRIA DE DILMA"





Wanderley Guilherme dos Santos: "é cedo para cravar vitória de Dilma"

Do "Brasil Econômico"

Por Eduardo Miranda e Octávio Costa

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos não nega o favoritismo da presidenta, mas alerta que muita coisa pode acontecer

Neste ano em que seminários e debates lembrarão o cinquentenário do golpe militar de 1964, o cientista Wanderley Guilherme dos Santos será referência obrigatória. Seu texto "Quem dará o golpe no Brasil", publicado em 1962, acertou em cheio ao antecipar a derrubada do presidente João Goulart. 


Famoso desde aquela época, ele produziu uma obra respeitada no Brasil e no exterior. Em 2004, recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo livro "O cálculo do conflito: estabilidade e crise na política brasileira" e, em 2011, assumiu a direção da "Casa Rui Barbosa" a convite da presidenta Dilma Rousseff.

Em entrevista ao "Brasil Econômico", o professor aposentado de Teoria Política da UFRJ e fundador do IUPERJ, apesar de sua capacidade de projetar os fatos, não se arrisca a fazer um vaticínio sobre a sucessão presidencial. "Ainda é cedo, falta muito tempo. Em 55, a UDN estava com a faca e o queijo na mão para ganhar a eleição, não fosse o suicídio de Getúlio Vargas. Não precisa do suicídio de ninguém, mas, de repente, tudo muda". A cautela não impede que ele reconheça o favoritismo de Dilma e diga que o quadro atual "não está fácil para a oposição", porque sempre que se faz uma crítica, "Dilma vai e cria um programa". Se há um desafio hoje para o governo, é o do investimento em infraestrutura e na inovação tecnológica, mas, em sua opinião, "esse é um bom problema". Quanto às manifestações e protestos previstos para a Copa do Mundo, o professor afirma que não representam de forma alguma ameaça à democracia. Ao contrário: as manifestações de rua, diz ele, mostram instituições democráticas fortes no país.

Em 2014, o golpe militar completa 50 anos. A democracia brasileira já está consolidada?

A democracia é um sistema aberto em constante ebulição, e é o único que permite manifestações explicitamente destinadas a substituí-la. Nenhum outro sistema permite isso. Absolutismo, obviamente não; ditadura, não; oligarquia, também não. Toda democracia com raízes fortes aceita, contempla e absorve esse tipo de manifestação. Na medida em que temos uma multiplicação acentuada de movimentos e protestos, isso não é indicador de fragilidade da democracia. Ao contrário, significa que você tem instituições democráticas fortes. Ninguém diz que as instituições democráticas estejam abaladas. As análises em jornais têm a ver com as perspectivas eleitorais, tanto da oposição quanto do governo. Portanto, quem está discutindo as possibilidades de vencer as eleições futuras está, consequentemente, preocupado com a disputa democrática. Não é como a "Primavera Árabe", que levou à queda do regime.

Qual é a diferença?

Todos os governos que sucederam a ditadura, na "Primavera Árabe", foram extremamente frágeis, e todos já foram praticamente substituídos por outro tipo de ditadura. Por isso, é preciso não confundir o que acontece no Brasil como movimento de massas com o que acontece em outros regimes. A repercussão e o significado político deles variam, mas isso faz parte da abertura permanente do processo de democracia, que pode, por isso mesmo, sofrer atrasos, recuos, na medida em que essas instituições conseguem fazer com que conquistas democráticas percam vigência, como aconteceu nos Estados Unidos depois da queda das torres gêmeas. Lá, foi criado um "ato patriótico", algo semelhante ao AI-5. Ele só não foi implementado totalmente. As pessoas são grampeadas e presas sem aviso prévio e podem ficar incomunicáveis o tempo que o governo julgar necessário, sem assistência jurídica. O "ato patriótico" é um AI-5 para uma democracia daquele tamanho e com aquela tradição. Esse é um recuo que as pessoas não mencionam, mas que também é possível em democracias, sem que elas desabem como um todo.

Como o sr. vê a lei antiterrorismo que pode surgir a partir da morte do cinegrafista Santiago Andrade?

Pode sair uma lei boa ou péssima. Tenho a impressão de que esse debate deve se estender, porque uma das formas benevolentes da democracia é não julgar as coisas no tempo quente, no calor da hora. Que sejam criadas comissões, que peçam vistas para termos uma discussão racional. Acho que agora não sairá lei nenhuma. Retomando a questão, acho que os movimentos no Brasil não são indicadores de fragilidade democrática. Precisamos distinguir, também, os movimentos brasileiros dos europeus, que são em função de desemprego e miséria; de uma perda de renda per capita impressionante na Espanha, em Portugal, na França, na Inglaterra; de taxas altíssimas de desemprego; com aumento da concentração econômica, aumento da desigualdade, algo que vem acontecendo nos Estados Unidos e que está deixando os teóricos assustados com essa polarização da América. No caso do Brasil, a motivação é heterogênea, enquanto lá todos são desempregados.

Em linhas gerais, quais seriam as motivações aqui?

Há uma motivação que, ao contrário de ser antidemocrática, é pela democracia, é pela inclusão no sistema. Há os grupos que querem a exclusão, como os "Black Blocs". Esses não estão interessados em melhorar o sistema, eles querem atingir pela violência todas as instituições que são simbólicas do capitalismo. Por outro lado, "rolezinho" é inclusão, "Movimento do Passe Livre" também é inclusão. As pessoas que foram contra o arbítrio do Estado nunca tiveram medo de ir às ruas receosas de que esse arbítrio fosse cair em cima delas. Com o saldo destrutivo predatório negativo das passeatas, superior ao saldo positivo, as pessoas se afastaram, e tudo terminou com meia dúzia de gatos pingados.

A motivação seria, então, uma demanda pela inclusão?

São demandas dentro da democracia. Você pede educação melhor, saúde, segurança, e isso faz parte de todos os protestos do mundo democrático desde que a democracia existe

Mas havia, também, um viés de insatisfação com a classe política. Parece que isso persiste.

A classe política é pessimamente avaliada no mundo inteiro por uma razão simples: as pendências e demandas de uma sociedade complexa não podem ser atendidas todas ao mesmo tempo. Tuberculose, por exemplo, não se cura com passeata. Contra a tuberculose, é preciso ter vacinação, médicos. Essas questões não estão no final das manifestações. Há passeatas cujo final termina em vitória, porque são viáveis, mas há outras que trazem frustração a segmentos mais exacerbados. Aquilo que é emoção e vibração ao longo da passeata, quando chega na dispersão, vira frustração, como a dispersão num desfile de escola de samba. É preciso a inteligência e o entendimento de quem as organiza. É preciso entender que há demandas sociais que demandam muito tempo.

E cobra-se urgência dos políticos exatamente por isso?

Aqui e na Conchinchina. Os culpados são sempre os políticos, mas as pessoas esquecem que grandes projetos, como "Bolsa-Família", mudança do esquema de partilha do petróleo, "Mais Médicos", "Minha Casa Minha Vida", tudo isso foi aprovado pelo Congresso, senão não poderia existir. Várias propostas do Executivo são melhoradas no Congresso, que trabalha nas comissões de Justiça, de Economia e por aí vai. As pessoas só veem o Congresso na hora do pinga-fogo. Os investimentos em saúde e educação no Brasil são brutais. Não estou convencido da justeza dessa medida de reservar uma porcentagem do óleo para educação e saúde, porque isso, daqui a pouco, estará mais ou menos resolvido, e precisaremos de mais dinheiro para políticas sociais, investimentos. Não sei se, no médio prazo, essa medida será uma vitória de Pirro.

Há uma crítica sobre o nível dos parlamentares de hoje, ao mesmo tempo em que se diz que o Congresso é reflexo da sociedade...

São opiniões cíclicas. Há cerca de dois anos, foi feita uma pesquisa sobre a imagem que o Congresso tinha de si próprio. E eles foram muito autocríticos, reconhecendo, ao mesmo tempo, o que fazem de bom. As casas legislativas na eleição de 1950 foram muito ruins porque permitiram toda aquela criação de golpes em 1954; foi um Congresso que não trabalhava, não produzia. Enquanto a UDN pedia golpe de estado, os governistas ameaçavam com os militares nacionalistas. Era péssimo. Durante o período ditatorial, então, nem tem comparação.

Existe, hoje, uma visão, principalmente no exterior, de que a economia brasileira está desandando. O que explica essa avaliação negativa?

O que vale é a versão. Quando você tem agências, como "Standard & Poor's", e o FED norte-americano, dizendo que só a Turquia é mais vulnerável que o Brasil, eu cobro do (Alexandre) Tombini uma resposta oficial do Banco Central, e não o que ele fez, que foi uma reunião fechada com a imprensa estrangeira. Ele precisa responder oficialmente. É falso o que o FED está dizendo, mas o Tombini está contemporizando e o que está prevalecendo é a versão. Aí, você tem uma pesquisa mostrando a contradição dos cidadãos: 85% dizem que querem mudança, mas dizem também que melhorou de vida e que o ano que vem será melhor. Então, qual é a mudança? É claro que a gente sempre pensa em mudança. Mas eu jamais deixaria de votar num partido porque ele está atrasado em saúde e educação, a não ser que eu veja que ele fez uma política errada. O número de universidades no país dobrou e há uma demanda pela qualidade dos professores. Mas as duas coisas não podem ser conseguidas ao mesmo tempo. Tudo isso cria espaço para demandas razoáveis. E isso não aparece na hora do voto.

Em sua opinião, a economia brasileira está bem?


A economia não está bem não por ausência de políticas. O presidente Juscelino Kubitschek, em 1960, não estava mais à altura dos problemas nacionais por conta do excelente governo que fez em 55. A pergunta, agora, é: depois de dez anos de inclusão social, os novos problemas criados estão sendo bem percebidos pelo governo? Depois do aumento da renda e da expansão econômica interna, o problema dos portos e das ferrovias adquire uma dimensão que não tinha dez anos atrás, porque isso não tinha importância. São novos problemas, resultado de dez anos de bom governo. Será que o governo está consciente e com planejamentos para a nova etapa? Eu não sei. E a oposição também não mostrou nada.

Três mandatos seguidos de PT não provocam uma fadiga?

Isso não é a lei da natureza. A Social Democracia Sueca ficou 40 anos no poder e foi capaz de resolver os problemas que ela própria foi criando por conta de suas políticas. O momento atual é de infraestrutura e inovação. O Brasil não pode mais ficar tão dependente e abaixo na capacidade de gerar tecnologia.

O que deveria ser feito para gerar essa capacidade?

Não vejo solução no curto prazo. Não é falta de dinheiro também. Os grandes países com capacidade tecnológica fizeram um investimento maciço e aleatório em educação, já que nunca se sabe de onde surgirá a inteligência criadora. Os 10% do pré-sal poderiam ser transformados em financiamento de laboratórios de pesquisa nas universidades ou em isenção tributária para empresas que criam centros de pesquisas. Como é que pode o grupo Votorantim ou a Odebrecht não terem um centro de inovação e de pesquisa a fundos perdidos? Quando a União Soviética rompeu com a China, o primeiro movimento foi retirar 200 mil cientistas soviéticos que estavam trabalhando lá. Esse é o nervo exposto no mundo moderno. Passagem de ônibus, se resolve na passeata.

Como o senhor está vendo esse quadro de pré-candidatos à Presidência da República?

Ainda é cedo. Falta muito tempo. Em 55, a UDN estava com a faca e o queijo na mão para ganhar a eleição, não fosse o suicídio de Getúlio Vargas. Não precisa do suicídio de ninguém, mas, de repente, tudo muda.

As pesquisas apontam um grande favoritismo da Dilma.

Mas o Lula não tinha esse favoritismo no início da campanha e depois ganhou. A Dilma, na metade da campanha de 2010, também ganhou. Na hora do voto, é sempre complicado. Mesmo a classe média que está deslumbrada, gostando muito da Dilma, pode chegar na hora e votar diferente. Fiz um levantamento da margem de vitória, de Collor para cá. Só Lula, em 2006, justamente depois do mensalão, teve 56% dos votos. A Dilma teve 53% de votos válidos. Não só aqueles que estão protestando vão deixar de votar, como também aquele cara que acha que as coisas melhoraram e podem melhorar mais, aí vota num Aécio, num Joaquim Barbosa. Portanto, ainda é cedo para cravar a vitória de Dilma. Eu não me arrisco, é difícil.

Falam que a oposição está fraca.

Não está fácil para a oposição. Você até pode criticar, mas o governo tem política em tudo. Quando falam alguma coisa, a Dilma não polemiza, ela vai e cria um programa. Não acho que Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB) sejam incompetentes. Não acho tanta coisa da Marina, que é fechada, dogmática e não tem sensibilidade para nada além do seu universo. Não é esse o caso do Eduardo e do Aécio. Mas está difícil. Você vai ser contra o "Mais Médicos"? Agora, eles dizem que o "Mais Médicos" está sendo mal administrado, mas no início eram contra. E tudo tem seu tempo de maturação, não é a curto prazo. Uma hidrelétrica não surge de uma passeata. A oposição reclama da saúde, mas não tem nem foto nos jornais, é uma dificuldade para arrumar uma imagem com hospitais caindo aos pedaços. Hoje, os grandes temas são a falta de aeroportos, e isso é verdade. Mas são outros problemas, é infraestrutura, inovação.

Nas passeatas falou-se muito, também, de corrupção.

É um tema permanente na democracia. Lembrando meus tempos mais radicais, onde há mercadoria, há corrupção. Recolhi textos da Grécia Antiga, de Atenas. A origem do problema não está apenas na moral das pessoas, mas também no modo de interação. No nosso caso, temos um país que está mudando de pele sem entrar no isolamento, sem entrar em quarentena. Até recentemente, o Brasil era oligárquico na sua estrutura e não estava preparado para ter políticas sociais. A primeira grande transformação é no período varguista, porque não havia instituições públicas para levar em frente essas políticas. O Brasil mudou de tamanho, mudou de complexidade e o Estado não estava preparado para isso, era um estado oligárquico. É uma classe política que está acabando e cobra muito caro pelo seu desaparecimento. É o fim de um grupo político comprometido como Estado atrasado. É claro que tem que bater (na corrupção), mas generalizam no discurso. É a versão, mas não é o fato.

Mas quando o Judiciário bate, dizem que ele está judicializando a política.

O Judiciário está passando dos limites. É da legislação estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que qualquer partido possa fazer coalizão com quantos partidos quiser. E eles fazem isso para ter tempo de televisão, um mercado bilionário, um show criado pelas leis. Olha a origem do mensalão: na hora de os partidos coligados terem um caixa 1, não pode. O partido líder da coalizão faz, então, o caixa 2. Ele financia as candidaturas dos que estão na coalizão, mas que não têm dinheiro. Quem fez isso? Quem condicionou dessa forma? O TSE. Passando para o Supremo Tribunal Federal (STF): há juízes bons lá, inclusive o ministro mais novo, o Roberto Barroso, que é excelente, honestíssimo. Mas, para ele, o que o Congresso deixa de fazer, o Judiciário tem que fazer. Não pode. Não decidir é autonomia e garantia que os legisladores têm. Entre as soberanias que eu, como eleitor, transfiro ao Congresso, está a de ele não decidir. O Judiciário só pode se manifestar quando convocado.

E as "Ações Diretas de Inconstitucionalidade" (ADIN)?

Aí, tudo bem. Mas não é só isso. Eventualmente, eles aproveitam uma ADIN e criam legislação - ou seja, ele (o Judiciário) legisla. E a grande maioria dos juízes que estão lá é a favor. O Ayres Britto era a favor, o Peluso era a favor, o Barroso é a favor, o Joaquim Barbosa também. A Carmem Lúcia não gosta dessa ideia. Isso é um problema democrático sério. A não ação não justifica a ação de terceiros.

Me parece que a opinião pública acaba apoiando a ação do STF.

É a urgência natural da população. Essas manifestações são compreensíveis, o que não quer dizer que todas tenham boas consequências. O povo também erra. Como não?

Como o sr. vê as manifestações que devem acontecer na Copa?

Vejo com apreensão por dois motivos. De um lado, há grupos que definitivamente vão provocar, receber e ter brutalidade, custe o que custar. Na realidade, até, faz parte da teoria dos "Black Blocs". Eles querem pancadaria. Do outro lado, quando leio que a polícia não está preparada, concordo, apesar de não ser especialista. Também não sei o que é uma polícia preparada para lidar com uma coisa como essa. Como tenho certeza do que um vai fazer, e não sei como o outro reage, eu temo.

Parece que vai ser algo como a final da Copa das Confederações, com cordão de isolamento, mas sem impedir a realização das manifestações.

Não faço ideia da magnitude do conflito, mas que vai ter conflito, vai. Não confio nos "Black Blocs" nem na polícia. O "Black Bloc" está dizendo que vai atacar as delegações. Você não tem uma polícia preparada para administrar isso.

Essa crise da representatividade trouxe o debate da reforma política. Em que medida o Congresso e o governo federal responderão a essa demanda?

Há grupos que querem introduzir o voto proporcional. Em que consiste a reforma política? Vamos mudar para o voto em lista? Sou contra. Não é que a reforma não avance, é que os legisladores são contra esse tipo de proposta. O voto em lista não é um avanço, mas um retrocesso. Se fizer como na Nova Zelândia, onde tem voto em lista, mas você pode votar nominalmente, eu sou a favor. Mas como você coloca ordem de preferência no voto em lista? A partir de 50, 60 candidatos, como você ordena? A não ser que, nesse voto em lista, se crie uma limitação de dez candidatos por partido. E aí você fica com oligarquias de representação. A competição eleitoral no Brasil é elevadíssima, na base de dez, onze candidatos por vaga. Outra opção é reduzir o número de partidos. Eu também sou contra, porque os grandes partidos não vão às fronteiras do Brasil. Nos últimos 15 anos, o Norte e o Centro-Oeste não faziam parte do país. O crescimento do eleitorado nessas regiões, na última década, é brutal. Acontece que os grandes partidos não vão lá criar diretório, porque o custo não vale a pena. Quem faz diretório lá são os chamados nanicos. Eles estão trazendo os conflitos para dentro da institucionalidade. Então, eu sou a favor dos nanicos. Eles não atrapalham em nada, nunca chegam na Câmara federal. E se chegam, não são maioria.

E o financiamento de campanha, cujo modelo o Supremo deseja mudar?

Não consigo ter opinião sobre isso. Acho que é um problema insolúvel. Tanto o financiamento público quanto o privado só para pessoas físicas - ao qual eu sou simpático - têm brechas. Para a lei, sempre há uma contra lei. Não tem jeito. O que eu sei é que, caso o sistema mude, novas reclamações surgirão. Eu realmente não consigo ver qual seria o menor dos males.

O senhor não acha que o modelo atual impede uma moralização da política?

Não gosto do financiamento por empresas. Mas também não acho que o problema da corrupção se deva só a isso. As pessoas esquecem que a corrupção não está só na política. O aparelho de Estado brasileiro é de tal modo burocratizado que você não consegue nada de graça, embora seja seu direito. Ninguém vai nas entranhas do Estado ver o que as grandes empresas têm que pagar para o burocrata fazer andar o processo. Essas empresas são corruptoras. Mas, ou corrompem, ou o processo não anda. Isso é grave no mundo inteiro. O problema do azeitamento da máquina política não é barato, em nenhum país. Nos Estados Unidos, não existe fundo orçamentário municipal. E nas pequenas cidades, uma das fontes fundamentais de receita são as multas de trânsito. Em microcidades cortadas por rodovias federais, há um rigor excessivo nas fiscalizações e uma série de multas é aplicada. Portanto, esse controle é muito complicado. O que não quer dizer que não se deva criar controles. Mas sem a perspectiva demiúrgica, ou evangélica, de que você vai conseguir um sistema imune; isso não é humano."


FONTE: reportagem de Eduardo Miranda e Octávio Costa no "Brasil Econômico". Transcrito no "Jornal GGN" (http://jornalggn.com.br/noticia/wanderley-guilherme-dos-santos-e-cedo-para-cravar-vitoria-de-dilma).

BRASIL PRESTES A SER O 3º DO MUNDO EM AVIAÇÃO DOMÉSTICA



"A tendência é que o trabalho de ampliação e revitalização nos aeroportos do Brasil seja algo constante daqui pra frente", disse o ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco.

Brasil vai dobrar número de passageiros do transporte aéreo

O Brasil está prestes a alcançar o terceiro lugar no ranking mundial de transporte aéreo doméstico e o quinto em cargas. 


A afirmação é do diretor-presidente da IATA (sigla em inglês da Associação Internacional de Empresas de Transporte Aéreo), Tony Tyler, em visita ao país.

Hoje, os Estados Unidos, China e Japão são, respectivamente, os maiores do mundo em transporte aéreo doméstico de passageiros. No Brasil o número de pessoas voando de avião quase quadruplicou na ultima década, saltando de 30 para 100 milhões/ano. A projeção é de que esse número chegue a 200 milhões até 2024.

Parte desse avanço se deve aos investimentos do Governo Federal em infraestrutura aeroportuária. O valor já passa de R$ 7 bilhões. Acompanhado disso, são desenvolvidas ações para o fortalecimento da aviação regional, da executiva, além da concessão de aeroportos a iniciativa privada. "O Brasil precisava avançar nesse setor", explica o ministro Moreira Franco, que há um ano está à frente da Secretaria da Aviação Civil da Presidência da República.

Reformas

Não apenas por conta da Copa do Mundo, praticamente todos os grandes aeroportos brasileiros estão passando por reforma e ampliação. O Santos Dumont, no Rio, vai receber novo sistema de ar refrigerado. O terminal 1 do Galeão também passa por uma completa transformação. E a parte nova do terminal 2 já estará liberada no Carnaval. "As obras não vão parar por aí. A tendência é que o trabalho de ampliação e revitalização nos aeroportos do Brasil seja algo constante daqui pra frente, pois esses espaços precisam se adaptar a realidade do século 21", completa o ministro Moreira Franco.

Em Brasília, estão sendo construídos novos píers de embarque e desembarque de passageiros. Só o píer sul, que será inaugurado na primeira quinzena de abril, terá onze pontes de embarques novas. Com isso, a capacidade de atendimento passará de 16 para 21 milhões de passageiros por ano.

No aeroporto internacional Luis Eduardo Magalhães, em Salvador, as melhorias estão na iluminação, nos banheiros e na área de check in, que foi ampliada. O mesmo ocorre em Manaus e em Cuiabá, que além de um novo terminal terá o estacionamento ampliado.

Concessões

Ainda dentro das políticas de melhoria para o setor, o governo decidiu repassar à iniciativa privada a construção e a gestão de alguns aeroportos. São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, será o primeiro construído 100% com recursos privados. Já os aeroportos de Brasília, de Guarulhos, de Viracopos, do Galeão e de Confins em Minas Gerais foram concedidos a empresas privadas, mas contam com participação da Infraero na composição societária.

No Estado de São Paulo, o foco é a aviação executiva. O Aerovale, um novo aeroporto em Caçapava, está com obras aceleradas. A pista será usada para receber pequenas aeronaves e helicópteros que têm como destino a capital paulista. "Os aeroportos de São Paulo estão saturados. Esse aeroporto, que fica a uns 20 minutos da capital, vai ajudar a desafogar a demanda da aviação executiva", conta Moreira Franco, que na semana passada visitou o local.

Regionalização

Outro desafio para que o Brasil alcance, de fato, a projeção da IATA está no fortalecimento da aviação regional. Para tanto o governo elaborou um plano de ação que prevê, na primeira etapa, investimentos da ordem de R$ 7,3 bilhões. Inicialmente, serão contemplados 270 aeroportos regionais. As medidas permitirão aperfeiçoar a qualidade do serviço prestado ao passageiro, agregar novos aeroportos à rede de transporte aéreo regular, aumentar o número de rotas operadas pelas empresas aéreas.

Os investimentos previstos são da ordem de R$ 1,7 bilhão em 67 aeroportos na região Norte; R$ 2,1 bilhões em 64 aeroportos na região Nordeste; R$ 924 milhões em 31 aeroportos no Centro-Oeste; R$ 1,6 bilhão em 65 aeroportos no Sudeste; e R$ 994 milhões em 43 aeroportos na região Sul. "O programa visa ampliar o acesso da população brasileira a serviços aéreos. O objetivo é que 96% da população brasileira esteja a menos de 100 km de distância de um aeroporto apto ao recebimento de voos regulares", afirma o ministro.

Os projetos promoverão a melhoria, o reaparelhamento, a reforma e a expansão da infraestrutura aeroportuária, tanto em instalações físicas quanto em equipamentos. Os investimentos incluirão, por exemplo, reforma e construção de pistas, melhorias em terminais de passageiros, ampliação de pátios, revitalização de sinalizações e de pavimentos, entre outros. Os recursos virão do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC).

Dentre os critérios para análise de relevância do aeródromo serão consideradas características como o volume de passageiros e de cargas, os voos regulares e os resultados operacionais. Além disso, serão considerados aspectos socieconômicos, o nível de acessibilidade na Amazônia Legal, o potencial turístico e de fomento da integração nacional. Além de investimentos em aeroportos em cidades de pequeno e médio porte, serão contempladas medidas de incentivo à aviação regional com foco na viabilização de rotas de baixa e média densidades de tráfego."

FONTE: "Jornal do Brasil". Transcrito no portal "Vermelho" (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=236611&id_secao=1).

DIREITA AVANÇA NO EQUADOR




Direita avança também no Equador

A velha nova direita

Por Altamiro Borges, no "Blog do Miro"

"Após sofrer duros revezes em vários nações da América Latina, a oligarquia local – com apoio aberto ou enrustido dos EUA e a cobertura da mídia colonizada – volta a mostrar suas garras no continente. Em alguns países, ela aposta escancaradamente na desestabilização da economia e no caos político, como na Venezuela e na Argentina. Em outros, ela tenta superar a sua divisão e apresenta candidatos “jovens”, com o discurso da “inovação”, para atrair eleitores. No domingo (23), a “nova direita” do Equador obteve importantes vitórias eleitorais nas disputas para as três principais cidades do país – inclusive na capital, Quito, além de Guayaquil e Cuenca.

O próprio presidente Rafael Correa, que chegou ao poder em 2007, reconheceu a derrota. Ele realçou a vitória do partido governista na maioria das cidades, mas apontou o revés em Quito como forte obstáculo ao avanço da chamada “revolução cidadã” – que combina medidas de distribuição de renda, maior incentivo à participação democrática da sociedade e uma política externa mais independente. O atual prefeito de Quito, que tem 2,2 milhões de habitantes, também admitiu o revés. “Reconhecemos e estamos encarando diretamente os resultados”, afirmou Augusto Barrera.

Mauricio Rodas, de 39 anos, venceu o pleito com 58% dos votos. Ele é o principal expoente da “nova direita” do Equador. Formado nos EUA e proveniente de uma família abastada, ele prega a redução do papel do Estado, a diminuição dos impostos e medidas de estímulo ao setor privado. Eleito pela coalizão "Suma-Vive", uma aliança de partidos de centro e direita, ele pediu uma “transição ordenada” na prefeitura e felicitou Augusto Barrera por “reconhecer democraticamente” o resultado. “Quito não é apenas de uma cor, é de todas as cores. Hoje venceu a dignidade”, afirmou aos seus seguidores.

Já em Guayaquil, com 2,3 milhões de habitantes, o prefeito Jaime Nebot foi reeleito com 60% dos votos, contra 38% de Viviana Bonilla, candidata de Rafael Correa, segundo as projeções da boca de urna. Em Cuenca, terceira cidade do Equador, com 712 mil habitantes, a oposição de direita venceu com Marcelo Cabrera, que derrotou o atual prefeito, Paul Granda, do partido governista. Antes dos resultados, o presidente equatoriano já havia advertido para os riscos. “A revolução está ameaçada pelo assédio de toda a direita unida – que tem financiamento nacional e internacional -, por assessores estrangeiros e por uma campanha suja impressionante”. Seu temor, agora, está confirmado!

Segundo o sítio "Opera Mundi", Mauricio Rodas “foi integrante da juventude social-cristã do Equador, força política de direita que elegeu León Febres Cordero (1984-1988), acusado por uma comissão da verdade de ter instalado um regime de torturas, desaparecimentos forçados e terrorismo de Estado. O político recebe orientações de Moisés Naim, membro da NED (Fundação Nacional para Democracia dos EUA), da Junta Diretiva do Banco Mundial e ex-ministro da Indústria e Comércio de Carlos Andrés Perez, na Venezuela, conhecido por levar a cabo um governo neoliberal. A ponte aconteceria por meio do ‘think thank’ Ethos, baseado no México e fundado por Rodas em 2008″.


FONTE: escrito por Altamiro Borges, no "Blog do Miro". Transcrito no blog "Escrivinhador" http://www.rodrigovianna.com.br/vasto-mundo/nova-direita-avanca-tambem-no-equador.html#more-25739).

A UCRÂNIA E O RENASCIMENTO DA HISTÓRIA




Por Fábio de Oliveira Ribeiro

"Na década de 1990,  a imprensa anunciou exultante que a História havia acabado. Vários pseudointelectuais das redações dos jornalões brasileiros se renderam à tese de Francis Fukuyama, segundo a qual "o advento da Democracia Liberal ocidental seria o ponto final da evolução sociocultural humana e a forma final do governo humano."

A História, entretanto, seguiu seu curso. Na última década, os EUA, a maior Democracia Liberal ocidental segundo o autor nipo-americano, se transformou num Estado policial que vigia a totalidade das ligações telefônicas e das comunicações virtuais de seus cidadãos. Isso além de espionar de maneira sistemática países adversários e até governantes de potências aliadas.

Na última década, em decorrência da crise financeira, a participação dos EUA no PIB mundial declinou. E a China continuou crescendo até se transformar na maior potência industrial e comercial do planeta. O regime político chinês, entretanto, é autoritário e muito diferente da Democracia Liberal sugerida como ponto final da História por Fukuyama. Ironicamente, não foi a Democracia Liberal norte-americana que influenciou a China, mas o autoritarismo chinês que parece ter fornecido inspiração para os EUA construir seu próprio pesadelo orwelliano.

Encurradados entre a eficiência econômica do autoritarismo chinês e as ambições de hegemonia global da ex-Democracia Liberal norte-americana, os países da Europa seguem tentando preservar seus regimes democráticos. O declínio continuado do padrão de vida dos europeus, porém, parece estar corroendo sua esperança. O nacionalismo e a xenofobia ganham terreno e alimentam o crescimento de partidos políticos de estrema direita na França, Áustria, Grécia e alhures.

Semana passada, um novo capítulo da História supostamente finda foi escrito na Ucrânia. O governo pró-russo foi derrubado por uma coalizão de forças em que se destaca um partido nazista que espalha imensas fotos de Hitler pelo país. Seus militantes são organizados como as "Sturmabteilung"  nazistas e agem como as mesmas. Monumentos aos heróis ucranianos que combateram o III Reich estão sendo destruídos por todo o país. EUA e UE estão apoiando a nova europeização da Ucrânia, muito embora ninguém tenha entendido bem o que essa "europeização" significa.

A Rússia está em estado de alerta. Os russos construíram a infraestrutura petrolífera que existe na Ucrânia e dependem dela para exportar dois dos seus principais itens de exportação (petróleo o gás) para a UE. Se o novo regime ucraniano nacionalizar os oleodutos russos, a guerra será inevitável, pois a Rússia não pode aceitar ser transformada num refém do novo vizinho apoiado por UE e EUA. Se os EUA tentarem instalar bases de mísseis na Ucrânia, também haverá guerra, pois Moscou não aceitaria essa afronta (como não aceitou a construção de bases de mísseis da OTAN na Polônia).

O governo norte-americano alertou a Rússia para ficar fora da Ucrânia. Apesar de interferir direta ou indiretamente na política de vários países, a Casa Branca parece acreditar que seu sonho de domínio global inconteste não pode se transformar num pesadelo caso resolva confrontar abertamente a Rússia. Os russos não se curvaram diante das ambições de hegemonia global nazista no passado e nada indica que farão isto no presente ou no futuro por mais que o poder militar deles seja hoje inferior que o dos EUA.

De tudo que foi dito, podemos concluir que a tese do fim da História foi definitivamente enterrada. A Democracia Liberal não é mais o paradigma de organização política ocidental. O autoritarismo chinês inspirou o novo regime norte-americano que apóia nazistas na Ucrânia por causa de obscuras razões geopolíticas. Retornamos, enfim, àquele momento de gravidade e silêncio que precede um grande conflito europeu. A Guerra da Ucrânia ficará confinada àquele país ou se espalhará pelo globo? Qualquer que seja a resposta, apenas uma certeza já podemos ter. Estamos diante de um capítulo tardio daquela guerra que foi iniciada pelos nazistas alemães em 1939. Mas os nazistas agora serão os ucranianos e os norte-americanos."


FONTE: escrito por Fábio de Oliveira Ribeiro no "Jornal GGN" (http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/a-ucrania-e-o-renascimento-da-historia).

A DOENÇA DA UCRÂNIA...E A CURA DA EUROPA



Manifestantes do "Pravy Sektor" (Setor Direita) enfrentam policiais com barricadas móveis (20/2/2014)


A Doença da Ucrânia...e a Cura da Europa

Por Eric Draitser, no "Counterpunch", sob o título original “Ukraine’s Sickness... and Europe’s Cure”. Traduzido por João Aroldo e postado por Castor Filho no "Redecastorphoto"

"A situação na Ucrânia está evoluindo a cada hora. Ultranacionalistas de direita e seus colaboradores "liberais" tomaram o controle da Rada (Parlamento ucraniano) e depuseram o presidente democraticamente eleito, embora totalmente corrupto e incompetente, Yanukovich.

A ex-primeira-ministra e condenada criminalmente, Yulia Timoshenko, foi libertada, e agora está a fazer causa comum com o Setor da Direita, Svoboda, e os outros elementos fascistas, enquanto os líderes nominais da oposição, como Arseny Yatsenyuk e Vitali Klitschko começam a ir para o segundo plano.

Em Moscou, o presidente russo, Vladimir Putin, sem dúvida, observa com ansiedade. Em Washington, Victoria Nuland e a administração Obama se alegram. No entanto, talvez o desenvolvimento mais importante esteja prestes a surgir na Europa, enquanto as forças do capital financeiro ocidental se preparam para receber a Ucrânia no rebanho. Eles virão com os presentes neoliberais de sempre: austeridade e “liberalização econômica”.


Destroços da Praça Maidan em 20/2/2014

Com a derrubada do governo Yanukovitch, os 15 bilhões de dólares em assistência financeira que a Rússia prometeu à Ucrânia estão em dúvida. 

De acordo com a agência de classificação Moody's:

"A Ucrânia vai exigir 24 bilhões de dólares para cobrir um déficit orçamental, o pagamento da dívida, contas de gás natural e apoio a pensões apenas em 2014.

Sem continuidade da compra de títulos por Moscou e outras formas de ajuda financeira, e com as forças pró-UE assumindo o controle da política econômica e externa do país, o resultado não é difícil de prever: um pacote de resgate da Europa com todas as condições de austeridade habituais.

Em troca de “ajuda” europeia, a Ucrânia será forçada a aceitar a redução dos salários, cortes significativos no setor público e nos serviços sociais, além de aumento dos impostos sobre a classe trabalhadora e corte de pensões. Além disso, o país será obrigado a aderir a um programa de liberalização que permitirá à Europa despejar mercadorias no mercado ucraniano, a desregulamentação e a maior abertura do setor financeiro do país à especulação e à privatização predatória.
"

Não são necessários poderes psíquicos para prever esses acontecimentos. Basta olhar para a onda de austeridade nos países europeus, como Grécia e Chipre. Além disso, os países do Leste Europeu, com as condições econômicas e históricas semelhantes à Ucrânia - a Letônia e a Eslovênia especificamente - fornecem um roteiro para o que a Ucrânia deve esperar.


Yulia Timoshenko 


O modelo de "sucesso” 

Quando a “liderança” pró-UE da Ucrânia sob Timoshenko & Cia. (e a direita fascista) começar a olhar para futuro, eles imediatamente vão olhar para a Europa para resolver os problemas econômicos mais urgentes. O povo ucraniano, no entanto, faria bem em examinar o precedente da Letônia para entender o que os aguarda. Como os renomados economistas Michael Hudson e Jeffrey Sommers escreveram em 2012:

"O que permitiu à Letônia sobreviver à crise foram os resgates da UE e do FMI... Elites à parte, muitos emigraram... Demógrafos estimam que 200.000 partiram na última década - cerca de 10% da população ... A Letônia experimentou os efeitos da austeridade e do neoliberalismo. As taxas de natalidade caíram durante a crise - como é o caso em quase toda parte, são impostos programas de austeridade. Ela continua tendo uma das maiores taxas da Europa de suicídio e de mortes nas estradas causadas por dirigir embriagado. O crime violento é alto, sem dúvida, por causa do desemprego e cortes orçamentários prolongados da polícia. Além disso, há a fuga de cérebros em conjunto com a emigração de trabalhadores."


Manifestantes eslovenos contra "austeridade" em Liubliana (20/8/2013)

O mito da prosperidade a acompanhar a integração e resgates da UE é apenas isso, um mito. A realidade é a dor e o sofrimento em uma escala muito maior do que a pobreza e o desemprego que a Ucrânia já experimentou, especialmente na parte ocidental do país. O mais educados, os mais preparados para assumir a liderança, vão fugir em massa. Os líderes que permanecerem vão fazê-lo enchendo seus bolsos e insinuando-se aos financistas europeus e norte-americanos que migram para a Ucrânia como abutres em cima de carniça. Em suma, a corrupção e a má administração do governo Yanukovitch vão parecer uma memória agradável.

A “liberalização” que a Europa demanda criará enormes lucros para os especuladores, mas muito poucos empregos para as pessoas que trabalham. A melhor terra será vendida às empresas estrangeiras e grileiros, enquanto os recursos, incluindo o setor agrícola altamente cobiçado, serão tomados e vendidos no mercado mundial deixando, tanto os agricultores como os moradores das cidades, em pobreza extrema, os seus filhos irão para a cama com fome. Esse será o “sucesso” da Ucrânia. É assustador pensar que como seria o fracasso

Na Eslovênia, outro país do Leste Europeu que tem experimentado o “sucesso” que a Europa deseja, os ditames econômicos de Bruxelas têm devastado as pessoas que trabalham no país e suas instituições. A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou um relatório de 2013, em que se recomenda que, como primeiro passo, a Eslovênia aja para “ajudar o setor bancário a ficar de pé outra vez”, acrescentando que “são necessárias medidas adicionais e radicais o mais rápido possível”.


Protestos em Liublana (Eslovênia) contra a privatização dos bancos públicos (20/6/2013)

Além disso, a OCDE recomendou a privatização total dos bancos da Eslovênia e outras empresas importantes, apesar de prever contração maior que 2% da economia. Em termos leigos, a Europa recomenda que a Eslovênia e seu povo se sacrifiquem para as forças do capital financeiro internacional, nada menos. Esse é o custo da “integração” europeia.

A Ucrânia está passando por uma transformação da pior espécie. Suas instituições políticas foram pisoteadas por uma coleção heterogênea de liberais delirantes, políticos espertos em ternos extravagantes e extremistas nazistas. O tecido social está se rasgando, com cada região em busca de uma solução local para os problemas do que costumava ser sua nação. E, no meio de tudo isso, o espectro de financistas em busca de lucros com cifrões nos olhos é tudo o que o povo ucraniano pode esperar."


FONTE: escrito por Eric Draitser, no "Counterpunch", sob o título original “Ukraine’s Sickness... and Europe’s Cure”. Traduzido por João Aroldo e postado por Castor Filho no seu blog "Redecastorphoto"  (http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/02/a-doenca-da-ucraniae-cura-da-europa.html). O autor, Eric Draitser, é analista independente de Geopolítica com sede em Nova Yorque e fundador do sítio "Stop Imperialism". É colaborador regular de "Russia Today", "Counterpunch", "Research on Globalization", "Press TV", "New Eastern Outlook" e muitos outros meios de comunicação. Produz também podcasts; disponíveis no "iTunes" e "Stop Imperialism", bem como "The Reality Principle", disponível exclusivamente no sítio "BoilingFrogsPost.com".