“Não sei se o mais adequado é falar de ‘desindustrialização’ ou em ‘retorno ao primarismo’. O fato é que somos, cada vez mais, produtores de matérias-primas e de suas exportações dependentes para salvar a balança comercial. Dependência perigosa do ponto-de-vista estratégico, se pensarmos no futuro do país.
Por Roberto Amaral, na revista “Carta Capital”
E, ainda mais perigosa, se pensarmos no curto prazo, pois a tendência mundial, alimentada pela crise global do capitalismo é, com a queda geral da demanda, a inevitável queda dos preços das ‘commodities’ (consultores de mercado internacional estimam em 10% a queda dos preços da soja, da carne, do açúcar e do café nas bolsas de mercadorias).
Quando um país reconhece que está em recessão (Itália e Espanha), ou, como a China de nossos dias, anuncia que vai controlar (leia-se reduzir) seu nível de crescimento (que dos fogosos 10% de tantos anos agora é projetado em 7,5%), ele está dizendo que vai comprar menos insumos. O outro lado da moeda é o que nos diz respeito, pois sua tradução é que venderemos menos e, se venderemos menos, teremos menos receita.
Tudo isso ocorre quando as chamadas grandes economias (EUA, China e Alemanha à frente) aumentam o cardápio de suas medidas protecionistas, adotam políticas comerciais agressivas (de que são alvo os ‘emergentes’, isto é, nós) e o grande irmão do Norte inunda o mercado com dólares impressos sem lastro que deságuam nos países emergentes (de novo eles), agravando a crise cambial, caso específico brasileiro.
Aqui, um real artificialmente sobrevalorizado estreita as margens de nossas exportações (de manufaturados, principalmente, mas também de ‘commodities’) e arromba as portas de nosso mercado interno para as importações de produtos industrializados, numa concorrência desleal com a produção nacional. Essa sofre com os juros altos, altíssimos (os maiores do mundo) ainda, embora em queda, e com problemas estruturais que deitam raiz na origem no ciclo de desenvolvimento dos anos 1950, e do modelo de industrialização tardia adotado, apoiado na importação de fábricas de baixo emprego de tecnologia ou de tecnologia ultrapassada (o bom exemplo são sempre as montadoras e suas ‘carroças’). Em outras palavras: o futuro imediato aponta para a associação dos preços mais baixos das ‘commodities’ com as importações em patamar elevado; donde, um saldo comercial crescentemente estreito.
E não poderia ser diferente, pois nossas exportações de produtos primários superam as de manufaturados. No ano passado, informa Luiz Guilherme Gerbelli (OESP, 11/3/2012), “apenas seis grupos de produtos – minério de ferro, petróleo bruto, complexo de soja e carne, açúcar e café – representaram 47,1% do valor exportado. Em 2006, essa participação era de 28,4%”.
Mas, infelizmente, essa ainda não é a verdade toda. O Brasil é o maior exportador mundial de café em grão, e a Alemanha, que não produz um só grama, é o maior exportador mundial de café solúvel; a Itália, o maior exportador de máquinas de fabricação da bebida e criador de variadas formas de seu preparo. O Brasil exporta pedras preciosas para importá-las lapidadas. Paro nesses dois exemplos escolhidos ao acaso, pois a listagem seria interminável.
Na listagem de Gerbelli, está o petróleo, mas o petróleo bruto! Esse despautério é uma das heranças do neoliberalismo e do fim de investimentos pela Petrobras no refino, política de lesa-pátria “dos Fernandos” só corrigida no governo Lula, com o atual programa de ampliação e construção de novas refinarias. Mas, qual a política para a era do Pré-sal? Ao contrário do que mais preocupa a imprensa ligeira e alguns governadores, a questão menos relevante é a distribuição dos royalties, em torno do qual tanto brigam. O essencial é saber se nos conformaremos em ser grandes exportadores de óleo bruto, como um Iraque, um Irã, uma Arábia Saudita, uns Emirados Árabes. Qual será nossa política? Eis o que precisamos discutir já e com atraso.
A questão que aflige a produção brasileira de manufaturados, especialmente de bens de consumo, é menos de sobrecarga fiscal e mais de política industrial, que precisa ser concebida dentro de um projeto de retomada do planejamento público. Mais Ministério do Planejamento e menos Tesouro Nacional. Não conheceremos o crescimento (com bem-estar social) de que carecemos, nem ele será sustentável se, puxada a economia pelo Estado, não investirmos pelo menos 25% do PIB.
Queiram ou não os oráculos do neoliberalismo.
O industrial brasileiro, que jamais conheceu o pioneirismo (Mauá, o grande símbolo de empreendedorismo, era um dependente de concessões de serviços públicos e, por isso mesmo, atrelado à banca do Império), ora é um associado de multinacionais, ora um rentista do BNDES, o sócio capitalista de nossos capitalistas.
A regra é esta: quando se trata de empreendimento que exija alto emprego de capital, algum nível de risco ou lenta maturação, o erário entre com o capital e o empresário privado – isto é, o “grande empresário” – com o lucro. O orgulhoso “agronegócio” deve ao Banco nada menos de 13 bilhões de reais e muito mais do que isso à carteira agrícola do Banco do Brasil. Mantém custosa bancada de ‘deputados ruralistas’ para, além do lobby legítimo, impor à União, periodicamente, a anistia de suas dívidas. Como sempre: prejuízo socializado, lucro privatizado.
O grande problema do capitalismo brasileiro é exatamente este, a ausência de capitalistas, e o que nos salva é exatamente a existência de um Estado ainda indutor do desenvolvimento (em que pese a insistente cantilena das grandes empresas de comunicação de massa).
No plano industrial, o pouco ou muito que temos inexistiria se não houvesse o BNDES; no plano agrícola, nossos empresários dependem da EMBRAPA (investimento do Estado em pesquisa) e da carteira agrícola do BB, que vive levando beiço de seus rentistas. No plano da tecnologia e da inovação, nada teríamos logrado sem o MCT, o CNPq, a FINEP e as agências estaduais de fomento, como a FAPESP.
Enquanto a necessidade não cria nossos capitalistas, cabe ao Estado retomar com força seu papel desenvolvimentista, controlar o câmbio, aumentar os mecanismos de proteção de nosso mercado, cujo bom sinal é a renegociação com o México do acordo de importação de veículos, aumentar os custos das importações (e para elas adotar critérios seletivos) e conservar a atual política de queda de juros.
E, para maior irritação da direita impressa, acelerar o processo de distribuição de renda, que compreende o contínuo aumento dos salários em geral e do salário-mínimo de forma especial. País rico é aquele que exporta os excedentes não absorvidos pelo consumo interno, que é tanto maior quanto mais justa seja a sociedade.”
FONTE: escrito por Roberto Amaral, na revista “Carta Capital”. Transcrito no portal “Vermelho” (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178172&id_secao=2) [imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].
sexta-feira, 16 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
A EGOISTA POLÍTICA PARA OS RICOS POR TRÁS DO “TSUNAMI MONETÁRIO”
[Para os não-ricos, Angela Dorothea Merkel (Alemanha), diplomaticamente, disfarça seu recado com gesto significativo. Christine Lagarde (FMI) aprova]
O artigo é de J. Carlos de Assis.
“A investida da presidenta Dilma contra o tsunami monetário promovido pelo FED e pelo BCE foi golpe de mestre para justificar a intervenção brasileira no mercado de câmbio através da elevação do “Imposto sobre Operações Financeiras” (6%). A Presidenta também advertiu a Europa para a necessidade de políticas desenvolvimentistas, o que é boa indicação de que, aqui, vamos controlar os fluxos de capitais e abandonar o ensaio fiscal tosco que nos jogou na quase recessão de 2,7% de aumento do PIB no ano passado.
Faltou dizer uma coisa de que poucos se dão conta: por trás do tsunami monetário existe a opção de distribuição de renda a favor dos ricos. Ao contrário dos gastos fiscais, que usam empréstimos do setor privado e receita de senhoriagem para financiar o gasto público de infraestrutura e a favor dos menos afortunados, a política de expansão monetária em sua forma atual beneficia exclusivamente ricos, pois só ricos, via bancos, podem tomar dinheiro na caixa do FED [Banco Central dos EUA] e do BCE a custo quase nulo e aplicar a taxas maiores.
As políticas de “austeridade”, nesse contexto, não passam de truque semântico da tecnocracia para iludir a opinião pública e o meio político. Afinal, como classificar de “austeridade” a concessão pelo BCE e o FED de empréstimos aos bancos privados à taxa de 1% ou 0,25%, quando nada se faz para impedir que esses mesmos bancos continuem se lançando ao mesmo tipo de aventuras especulativas fraudulentas que levaram à bancarrota de 2008? E o lado mais espantoso dessa história é que não estamos diante de uma questão moral, mas de eficácia.
Desde a “Grande Depressão” nos anos 30, sabe-se que política monetária pode travar a economia, mas não tem como estimulá-la. Ou seja, mesmo que a liquidez bancária esteja elevada, os empresários não tomam empréstimos para investir porque não têm confiança na demanda. Em consequência, o dinheiro “empoça”. A metáfora histórica que descreveu o processo aponta a política monetária como um barbante amarrado numa pedra: ele puxa a pedra, mas não consegue empurrá-la.
diferenças entre a crise dos anos 30 e a de hoje
Por que, então, a Europa, liderada pela Alemanha, dá preferência a política monetária em vez de política fiscal para, supostamente, reanimar a economia? A resposta já está indicada acima: a política monetária expansionista é, sobretudo, a favor dos ricos, enquanto a política fiscal tende a beneficiar os pobres através de políticas públicas, assim como o conjunto da sociedade, e não especificamente os ricos, quando se trata de investimentos de infraestrutura. É claro que o protocolo impedia Dilma de dizer isso a Merkel. Mas ela bem que merecia ouvir.Vejamos um pouco mais. O BCE, a contragosto, comprou no mercado secundário títulos dos governos italiano e espanhol, assim como da Grécia: supostamente, seria benefício indireto aos referidos países. Falso. O alívio funcionou para os detentores originais dos títulos que os haviam comprado dos governos no passado. Em nenhuma hipótese, o BCE assegurou liquidez aos governos, mediante compra direta de seus títulos, mesmo porque isso está proibido pelo estúpido “Tratado de Maastricht” e pelo “Pacto de Estabilidade e Crescimento” que implementou o euro.
É fato que a compra pelo BCE de títulos dos governos europeus no mercado secundário poderia abrir espaço para os governos colocarem novos títulos, conseguindo assim dinheiro novo para financiar suas políticas públicas e, até, a retomada do crescimento. Isso, contudo, não acontece, nem pode acontecer: os governos estão atrelados a políticas fiscais ditadas pela “troika” (BCE, FMI, Comissão Européia) que impede qualquer veleidade de política voltada para o financiamento do investimento público novo.
A Europa está, assim, no pior dos mundos para a população geral, e o melhor dos mundos para os ricos: de um lado, o BCE bombeia dinheiro para os bancos; de outro, falta dinheiro para os governos financiarem as políticas públicas; de outra parte, o setor produtivo privado, temeroso de investir, “empoça” o dinheiro abundante ou se volta para a especulação. De fato, as corporações globais americanas têm em caixa quase 2 trilhões de dólares líquidos para investir, mas não investem. É que, sem aumento do gasto fiscal, não haverá demanda para sustentar o crescimento dos países industrializados, a despeito de sua elevada liquidez.
Há uma situação em que o tsunami monetário pode se voltar contra os ricos: na medida em que gera inflação, diluirá o valor real dos títulos de riqueza líquida não indexados. No curto prazo, porém, essa hipótese é improvável. Com os países industrializados em recessão e uma imensa capacidade ociosa nas economias, e com a menor pressão da economia chinesa (7%) sobre matérias-primas, não há espaço para inflação de origem monetária. No médio prazo, quando surgirem sinais de recessão, o FED e o BCE apertarão, mais uma vez, a política monetária, gerando recessão e desemprego, e mais uma vez os ricos estarão a salvo.”
FONTE: artigo de J. Carlos de Assis, economista, professor da UEPB, autor, com Francisco Antônio Doria, do recém-lançado “O universo neoliberal em desencanto”, editado pela “Civilização Brasileira”. Artigo publicado no site “Carta Maior” (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19759 [título, imagens do google e suas legendas adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
MERCOSUL REQUER AVANÇOS, diz Samuel Pinheiro Guimarães
SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES, DIRIGENTE DO MERCOSUL, VÊ EXCESSO NA DEFESA BRASILEIRA CONTRA BENS DE URUGUAI E PARAGUAI
PARA EX-MINISTRO, BLOCO PRECISA CRIAR MEIOS PARA IMPEDIR DESEQUILÍBRIOS NO MOMENTO DE ATRAIR INVESTIMENTO EXTERNO
Por Álvaro Fagundes, na "Folha de São Paulo"
“Alto Representante-Geral do Mercosul desde 2011, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães defende que os sócios menores do bloco (Uruguai e Paraguai) tenham tratamento preferencial.
Ele diz que é preciso igualar as condições (por meio de subsídios, por exemplo) para que as empresas estrangeiras invistam não só no Brasil.[
Para o ex-ministro de Assuntos Estratégicos, há excessos na defesa brasileira contra a entrada de produtos dos países vizinhos. Leia a seguir trechos da entrevista.
--Folha - O presidente do Uruguai, José "Pepe" Mujica, disse recentemente à “Folha” que o intercâmbio do Mercosul está muito bem, mas que ninguém bate na porta do bloco e isso é sinal de que ele está estancado. O Sr. concorda?
Samuel Pinheiro Guimarães - Eu acho que ele tem cumprido de certa forma seus objetivos iniciais, de expansão do comércio. A existência de divergências comerciais não é sinal de fracasso, é normal. O aumento das exportações muitas vezes significa o deslocamento de um produtor local, criando preocupações com emprego etc.
--Mas alguém bate na porta do bloco?
Primeiro, não há necessidade de o bloco crescer indefinidamente. Um bloco econômico é feito para dar preferência a seus integrantes. Se todo mundo entrar, ele deixa de ser bloco econômico. O ambiente dele é a América do Sul, não podemos imaginar países asiáticos com uma tarifa externa comum à do Mercosul. O segundo ponto é que o Equador deseja entrar no Mercosul, e outros países não podem, casos do Chile, do Peru e da Colômbia, devido ao acordo que têm com os EUA e com outros países.
--O Sr. vê alta do protecionismo?
Não há dúvida, inclusive porque os países menores, na minha opinião, têm o direito de se proteger, seja dos chineses, seja contra quem quer que seja, assim como nós queremos nos proteger dos chineses.
--Ao mesmo tempo, nós queremos nos proteger do leite em pó uruguaio, por exemplo.
O que é excessivo. Se formos comparar os níveis de produção, o que significa isso no mercado brasileiro é muito pequeno.
--Mas então por que a pressão?
Porque no Brasil é assim: ou se é competitivo e se quer toda liberdade para exportar, ou tem setor menos competitivo e quer impor restrições.
--Não falta política integrada do bloco para a China?
Na realidade, seria conveniente que houvesse. O que acontece é que os países têm preocupações distintas.
--Qual a razão de não se adotar política comum?
É preciso primeiro que se discuta esse tema, que os países abandonem a sua visão nacional e desejem coordenar políticas. Para isso, é preciso que se debata esse tema.
--E por que não se debate?
Talvez os países maiores escolham caminhos nacionais.
--Por que isso?
As dimensões são muito diferentes. Agora, é de grande interesse do Brasil o desenvolvimento do Mercosul e dos seus vizinhos. O mercado natural para nós são os países mais próximos.
--Tudo o que está ocorrendo hoje na União Europeia pode ser um freio para o desenvolvimento do Mercosul?
São coisas totalmente diferentes. Para ter uma ideia, a Comissão Europeia tem 30 mil funcionários em Bruxelas; o Mercosul, 30. Os países da UE têm política comercial supranacional. O Mercosul é um acordo intergovernamental que criou união aduaneira.
--E esse é o futuro dele?
É importante que ele se conscientize da necessidade de se transformar em projeto de desenvolvimento econômico dos países que são membros. É preciso mecanismos que estimulem o comércio entre os países e que não ocorra o desequilíbrio na atração dos investimentos.
--Como criar condições para que uma empresa prefira investir no interior do Uruguai, em vez de no Brasil?
É preciso igualar as condições de atração, por meio de subsídios, por exemplo. Por que as montadoras não se instalaram todas em São Paulo? Porque houve vantagens que compensaram as desvantagens locais. É preciso certa compreensão com os parques produtivos menores, não colocar sistematicamente barreiras a produções que são pequenas diante do mercado nacional. Sócios menores precisam de tratamento preferencial, ainda que já exista isso em muitos casos. É do nosso interesse econômico e político o avanço dos nossos vizinhos.”
FONTE: reportagem de Álvaro Fagundes, na "Folha de São Paulo" (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/30964-mercosul-requer-avancos-diz-diplomata.shtml) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
OS NÚMEROS DO MERCOSUL:
--US$ 2,1 TRILHÕES: PIB DO BRASIL EM 2010
O montante representa 83% do PIB do conjunto dos países do Mercosul
--US$ 370 BILHÕES: PIB ARGENTINO EM 2010
Esse valor é igual a 14,7% do PIB do bloco
--US$ 40 BILHÕES: PIB DO URUGUAI EM 2010
A quantidade equivale a 1,5% do total de bens e serviços e serviços produzidos pelos quatro países
--US$ 18 BILHÕES: PIB PARAGUAIO EM 2010
Montante equivale a 0,7% do PIB do Mercosul
--10,9% É O PESO DO BLOCO NAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS EM 2011
Foram US$ 27,9 bilhões, alta de 23% na comparação com o ano anterior
--25,1% É O PESO DO BLOCO NAS EXPORTAÇÕES ARGENTINAS EM 2011
Foram US$ 21,2 bilhões, 23% mais que em 2010
--30% É O PESO DO BLOCO NAS EXPORTAÇÕES URUGUAIAS EM 2011
--VENDAS SOMARAM US$ 2,4 BILHÕES, ALTA DE 14% ANTE 2010
FONTE: publicado na "Folha de São Paulo" (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/30969-os-numeros-do-mercosul.shtml) [imagem do google adicionada por este blog ‘democracia&política’]
LÍBIA: COMEÇA A FRAGMENTAÇÃO TERRITORIAL
“Quando a OTAN assassinou a sangue frio o líder líbio Muammar Gaddafi, observadores previram que a morte de Gaddafi não marcaria o final da guerra, mas, de fato, a escalada [1]. A Líbia estava no olho do furacão.
O chefe do “Conselho Nacional de Transição” instalado na Líbia pela OTAN e com base em Trípoli ameaça usar “a força” para impedir a divisão do país, mas suas palavras cairão em ouvidos surdos, pela suficiente razão de que o “Conselho Nacional de Transição” não tem poder para fazer o que diz: não passa de um fantoche do ocidente.
De fato, vários membros do “Conselho Nacional de Transição” estão sitiados em Trípoli e não podem sequer movimentar-se livremente pela Líbia. Alguns pernoitam em Malta, do outro lado do Mediterrâneo, por medo de represálias.
Quase cinco meses depois do assassinato-linchamento de Muammar Gaddafi e de a OTAN ter declarado “vitoriosa” sua guerra para mudança de regime na Líbia, o confronto entre Trípoli e Benghazi, cidade do leste, onde foi tomada a decisão de dividir o país, já faz ressurgir o monstro de uma guerra civil.
Em comunicado pela televisão, na 4ª-feira (7), da cidade de Misrata, Mustafa Abdel Jalil, presidente do “Conselho Nacional de Transição” rejeitou categoricamente a divisão do país.
“Não estamos preparados para dividir a Líbia”, disse ele. “Os divisionistas deveriam saber que há interesses infiltrados entre eles, além de remanescentes do regime de Gaddafi, que agora tentam manipulá-los. Estamos prontos a impedir que alcancem seu objetivo, inclusive pela força”.
Em conferência de imprensa em Trípoli, Jalil acusou “países árabes” (que não identificou) de estarem financiando “a sedição” na Líbia. “Algumas nações árabes irmãs estão, infelizmente, apoiando e financiando essa sedição que está acontecendo no leste” – disse ele. Jalil, que foi ministro da Justiça do governo de Gaddafi, declarou, mais uma vez, que o “Conselho Nacional de Transição” seria “o único representante legítimo do povo líbio”; e, Trípoli, “a eterna capital” líbia.
Mais cedo, o primeiro-ministro interino do “Conselho Nacional de Transição”, Abdel Rahim al-Kib, também rejeitara qualquer iniciativa na direção de criar-se um estado federado na Líbia. “Não queremos regredir 50 anos”, disse ele. Referiu-se assim, sem dar nomes, ao regime reacionário e corrupto do rei Idris, que governou a Líbia até ser destronado pelo “Movimento dos Oficiais Livres”, de inspiração nasserista, liderado por Gaddafi.
O rei Idris sempre serviu como fantoche do imperialismo norte-americano e britânico, assegurando àqueles governos o direito de manter bases militares na Líbia, inclusive a gigantesca base Wheelus, da Força Aérea dos EUA, na Líbia ocidental.
Base Aérea Wheelus, da Força Aérea dos EUA, na Líbia
Depois da descoberta de petróleo no país, Idris serviu como complacente braço armado das grandes empresas norte-americanas de petróleo, que redigiram as leis líbias sobre petróleo e asseguraram para elas mesmas direitos irrestritos de exploração. Ao assumir o poder, Gaddafi fechou as bases militares de Grã-Bretanha e EUA e impôs rígido controle sobre todas as empresas estrangeiras que exploravam o petróleo no país.A conexão entre o projeto do rei Idris e o movimento separatista é hoje muito direta e muito fácil de ver. O rei deposto por Gaddafi governava uma monarquia federada, absolutamente dominada pelas potências imperialistas e pelas empresas que exploravam o petróleo.
Os três estados – a Cirenaica, no leste; a Tripolitânia, no oeste; e Fezzan, no sul, eram jurisdições territoriais herdadas do governo italiano fascista e, antes dele, do Império Otomano – tinham tanto poder quanto o governo central. O próprio rei Idris vivia em Benghazi e considerava-se, antes de tudo, rei da Cirenaica.
O Xeique Ahmed Zubair al-Senussi emergiu da conferência em Benghazi, como escolha dos 3.000 representantes de tribos, milícias e grupamentos políticos ali reunidos, como chefe de um novo “Conselho Provisório da Cirenaica”, em árabe, Barqa. O objetivo já declarado do novo conselho é reviver a constituição de 1951 imposta pelo rei Idris.
Al-Senussi, que é membro do “Conselho Nacional de Transição”, é também sobrinho-neto do deposto rei Idris. Tem repetido que a declaração de autonomia da Cirenaica não é movimento de “sedição” e que o “conselho de Benghazi” não tem qualquer interesse em trocar nem a bandeira nem o hino nacionais, e que deixará as questões de política exterior a cargo do “Conselho Nacional de Transição”, em Trípoli.
Mas, em entrevista à CNN, falando de Benghazi, al-Senussi disse que “questões sociais” devem ser assunto dos governos locais, inclusive saúde e educação. Sob o governo de Gaddafi, parte significativa dos lucros do petróleo era canalizada para garantir saúde e educação públicas, completamente gratuitas, a todos os líbios. A ideia de entregar esses setores a governos regionais é ameaça clara e direta à sobrevivência da maioria da população, mas pesa mais sobre os líbios que dependem dos programas públicos no leste da Líbia, onde está organizado o movimento separatista.
Segundo a “Companhia Árabe de Petróleo do Golfo” [Arabian Gulf Oil Company (AGCO)], que tem sede em Benghazi, ¾ das reservas de petróleo da Líbia estão em território da Cirenaica. Perguntado pela agência norte-americana de notícias Reuters sobre se a criação do novo “Conselho de Benghazi” alterara o modo como a AGCO opera ali, um porta-voz da empresa respondeu: “Até agora, nada mudou”. A declaração de autonomia de Benghazi está sendo vista por muitos na região como mais um passo na direção de concentrar nessa região todo o controle sobre o petróleo líbio – o que significa o fim de qualquer projeto de distribuição nacional da riqueza gerada pelo petróleo.
O movimento para criar um governo autônomo com base em Benghazi é parte do projeto mais amplo para fraturar o território da Líbia de Gaddafi ao longo de linhas regionais de divisão. Mais de 100 diferentes milícias tribais e milícias instaladas na cidade – as forças que a OTAN apoiou com armamento, instrutores e bombardeios aéreos no ataque para derrubar Gaddafi – controlam hoje grandes áreas do país.
O “Conselho Nacional de Transição”, apesar de instalado na Líbia por EUA e OTAN como governo oficial, já se comprovou incapaz de controlar sequer a capital, Trípoli, cujo principal aeroporto continua até hoje controlado por milícias.”
NOTA DOS TRADUTORES
[1] Ver, por exemplo, 9/10/2011, “Resistência e guerra sem fim, na Líbia”, Pepe Escobar, entrevista a "Russia Today" (traduzida).
FONTE: escrito por Farirai Chubvu, no “The Herald Online”, no Zimbábue, sob o título “Libya: The partition begins”. Traduzido pelo “pessoal da Vila Vudu” e transcrito no blog “redecastorphoto” (http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/03/libia-comeca-divisao.html) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
BRASIL VAI DOAR AVIÕES "BANDEIRANTE-PATRULHA" PARA CABO VERDE, se Congresso aprovar
P-95 Bandeirante-Patrulha (Foto: Sgt Jonhson/FAB)
Da agência angolana de notícias “Angola Press”“Cidade da Praia - O ministro da Defesa brasileiro manifestou a vontade do Governo de doar aviões Bandeirante para auxiliar Cabo Verde no patrulhamento da sua zona marítima, noticia ontem (terça-feira) a edição "online" do jornal cabo-verdiano “A Nação”.
Celso Amorim ressaltou, porém, que o processo de doação depende de aprovação do Congresso Nacional (Parlamento), além da preparação das aeronaves pela Força Aérea Brasileira (FAB), não adiantando o número de aparelhos a disponibilizar.
A confirmar-se, será um dos resultados da visita que o ministro da Defesa cabo-verdiano, Jorge Tolentino, efetua há cerca de uma semana ao Brasil, em que também já foram acertados aspectos da cooperação bilateral nas áreas da defesa e segurança, que não foram especificados.
Segundo Celso Amorim, o Brasil pretende contribuir para o aumento da segurança na região do Atlântico, onde Cabo Verde está situado, contribuindo com isso "para a paz e a segurança" na região.
O mesmo foi dito em 01 deste mês pelo comandante da Marinha brasileira, almirante de esquadra Júlio Moura Neto, durante visita de trabalho a Cabo Verde, lembrando que a pirataria marítima alastra-se no Atlântico Médio e que o Brasil quer prevenir a chegada às suas águas, admitindo a possibilidade de enviar navios patrulha para a costa ocidental africana banhada pelo oceano.
No Brasil, e além da defesa dos domínios marítimos de Cabo Verde, Jorge Tolentino mostrou particular interesse na experiência brasileira nas áreas de segurança marítima e de busca e salvamento.
Entre os problemas que o arquipélago cabo-verdiano enfrenta, encontram-se, disse Jorge Tolentino à “Agência Lusa” antes de embarcar para o Brasil, os tráficos de droga e de pessoas, bem como a pesca ilegal, enquanto aumentam as informações sobre atos de pirataria marítima na região oeste-africana.
No Brasil, Jorge Tolentino e Celso Amorim, antigo chefe da diplomacia brasileira, acertaram também que o Brasil dará apoio técnico e científico a Cabo Verde para o levantamento da sua plataforma marítima continental, tendo em conta a experiência brasileira na Namíbia, já concretizado.
Em 20 de fevereiro último, o porta-voz do Conselho do Ministério da Defesa cabo-verdiano, major António Silva Rocha, indicou que o Governo está à procura de financiamento para reforçar as esquadrilhas naval e aérea de Cabo Verde, incluindo, entre os parceiros contatados, Portugal e Brasil.
Já em 01 deste mês, o comandante da Guarda Costeira (Marinha) cabo-verdiana, coronel António Monteiro, disse estar equacionando a aquisição de navios-patrulha do Brasil para fazer face aos desafios e ameaças que surgem na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do arquipélago, área de 723.265 km2, 182 vezes superior ao território terrestre.
navio-patrulha brasileiro
Na mesma altura, o almirante de esquadra Júlio Soares de Moura Neto lembrou que o Brasil constrói navios de fiscalização de 200 e 500 toneladas e manifestou abertura para negociar com as autoridades cabo-verdianas uma forma de os disponibilizar ao arquipélago.”
Navio-patrulha Macaé
FONTE: da agência angolana de notícias “Angola Press”. Transcrito no site “DefesaNet” (http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/5152/Brasil-vai-doar-avioes--Bandeirantes--se-Congresso-o-aprovar) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
O “MARRUÁ” E O SISTEMA DE CONTROLE PARA ARTILHARIA ANTIAÉREA (tecnologia 100% brasileira)
MARRUÁ - Plataforma para Sistema de Artilharia Antiaérea de Última Geração (Foto de Júlio Soares)
VEÍCULO TEM RADAR QUE RASTREIA AVIÕES EM BAIXA ALTITUDE
“Caxias do Sul (RS) - O utilitário militar Agrale Marruá AM 20 é a base transportadora do avançado sistema de controle para a artilharia antiaérea, desenvolvido para o Exército Brasileiro pela ORBISAT e controlada pela “EMBRAER Defesa e Segurança”.
O projeto, que conta com a parceria do “Centro Tecnológico do Exército” (CTEx), integra o Sistema de Defesa Antiaérea do Exército, abastecendo-o com informações capazes de contribuir para a tomada de decisões em inúmeras situações que envolvam questões de defesa e segurança.
Desenvolvido com tecnologia 100% brasileira e sem similar no mercado nacional, o sistema pode ser utilizado para coordenação da defesa de tropas e instalações militares, em situações de combate e em grandes eventos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada. O sistema funciona como base para o comando e controle das informações enviadas, em tempo real, pelo radar “Saber M60”, também produzido pela ORBISAT, e usado para vigilância aérea e terrestre de aviões a baixa altura, que rastreia alvos em um raio de até 60 quilômetros e a altitude de até cinco mil metros.
radar “Saber M60”
De acordo com a Agrale, o modelo “Agrale Marruá AM 20” – que tem diferentes configurações, como AM 20 GE (Guerra Eletrônica) e AM20 VCC (Viatura Comando e Controle) - foi escolhido por suas características de robustez, durabilidade e facilidade de manutenção, além de poder ser utilizado em diferentes tipos de serviços e terrenos.
modelos Agrale AM 20
Nos últimos anos, a Agrale tem se firmado como uma das principais fornecedoras de veículos militares para as forças armadas brasileiras e de diversos países da América Latina.”
FONTE: site DefesaNet (http://www.defesanet.com.br/terrestre/noticia/5148/MARRUA-Plataforma-para-Sistema-de-Artilharia-Antiaerea-de-Ultima-Geracao) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
O DESENVOLVIMENTISMO AINDA É POSSÍVEL?
“O governo anuncia esta semana uma série de medidas destinadas a proteger e impulsionar a indústria brasileira, cuja participação no PIB definha: caiu de 16,5% para algo como 14,3% entre 2010 e 2011. No final dos anos 90, essa fatia correspondia a quase 30% do PIB.
Esmagada pelo duplo torniquete de câmbio valorizado e juros recordes, a balança comercial dos manufaturados saiu de um superávit de US$ 6 bilhões, em 2006, para déficit de US$ 92 bilhões em 2011. Se nada for feito, o quadro vai se agravar.
O 'tsunami de liquidez', denunciado pela Presidenta Dilma Rousseff, forma, por enquanto, apenas as suas primeiras marolas nas praias tropicais. Mas a 'solução' do caso grego tende a abrir um dique devastador de dinheiro em busca de operações lucrativas nos mercados ditos emergentes.
O debate sobre o que fazer guarda aparência técnica e não raro é tratado de forma tecnocrática, à direita, mas também por setores da própria esquerda. Sua essência, porém, é visceralmente política. A grande interrogação é saber se os Estados nacionais, amarrotados e jogados no fundo da gaveta da história pelo vagalhão neoliberal tem sobrevida e nervura política para liderar a resistência ao imperialismo monetário que benefícia os bancos, fundos especulativos e corporações das economias ricas [e seus empregos]. A dúvida remete a um debate que, de alguma forma, já se trava na academia: existe desenvolvimentismo possível no mundo pós-neoliberal?”
FONTE: cabeçalho do site “Carta Maior” domingo, 11/03/2012( http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
Esmagada pelo duplo torniquete de câmbio valorizado e juros recordes, a balança comercial dos manufaturados saiu de um superávit de US$ 6 bilhões, em 2006, para déficit de US$ 92 bilhões em 2011. Se nada for feito, o quadro vai se agravar.
O 'tsunami de liquidez', denunciado pela Presidenta Dilma Rousseff, forma, por enquanto, apenas as suas primeiras marolas nas praias tropicais. Mas a 'solução' do caso grego tende a abrir um dique devastador de dinheiro em busca de operações lucrativas nos mercados ditos emergentes.
O debate sobre o que fazer guarda aparência técnica e não raro é tratado de forma tecnocrática, à direita, mas também por setores da própria esquerda. Sua essência, porém, é visceralmente política. A grande interrogação é saber se os Estados nacionais, amarrotados e jogados no fundo da gaveta da história pelo vagalhão neoliberal tem sobrevida e nervura política para liderar a resistência ao imperialismo monetário que benefícia os bancos, fundos especulativos e corporações das economias ricas [e seus empregos]. A dúvida remete a um debate que, de alguma forma, já se trava na academia: existe desenvolvimentismo possível no mundo pós-neoliberal?”
FONTE: cabeçalho do site “Carta Maior” domingo, 11/03/2012( http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]
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