terça-feira, 20 de março de 2012

Mercadante: GOVERNO DILMA TRATA EDUCAÇÃO COMO QUESTÃO DE ESTADO

Ministro da Educação, Aloizio Mercadante

Por Rosângela Bittar e João Villaverde, no jornal “Valor Econômico”

“Ao completar dois meses à frente do Ministério da Educação, Aloizio Mercadante, afirma que possui mais do que visão global dos desafios que precisará enfrentar, dos equívocos administrativos que urge remodelar, das correções de rumo em programas que têm sérios problemas de execução, como já visitou, por todo o Brasil, obras e realizações da sua área.

Em entrevista publicada na segunda (19) no jornal “Valor Econômico”, Mercadante diz que o projeto do governo Dilma supõe a educação como uma questão de Estado, à qual serão dados instrumentos e condições para promover o crescimento do país, é como define o ministro.

Nele, destacam-se programas como o “Ciência Sem Fronteiras”, de bolsas para estudantes brasileiros em instituições estrangeiras, que está sendo agora ampliado. São também instrumentos de qualificação iniciativas como o aperfeiçoamento do exame de avaliação ENEM e a fixação do piso salarial do magistério.

Sobre o piso, apesar dos protestos de governadores e prefeitos que acreditam não ter como pagar o piso de R$ 1.451 sem ultrapassar o limite de gastos com pessoal da lei de responsabilidade fiscal, o ministro diz que o professor não pode ser punido pela falta de reformas da previdência nos Estados, e que o piso tem que continuar crescendo. Estuda uma política de reajuste automático, em conjunto com uma comissão do Congresso.

"Custa caro o piso? Custa, mas a ignorância custa mais", afirmou Mercadante nesta entrevista, na quinta-feira (15), em seu gabinete. O ministro fará apenas correções no ENEM, não mudanças radicais, e o exame continuará sendo nacional e não regional como querem alguns especialistas: "O sarrafo republicano tem que ser igual para todos."

Mercadante defende, como absolutamente adequado a esse projeto, que os recursos do pré-sal sejam para a educação. "Ou vamos aplicar esses recursos na estratégia, ou dispersar isso na máquina pública e nos acomodar nesse parasitismo. Nosso projeto é que a educação passe a ser central."

E diante de todo um histórico de manipulação político-partidária desse assunto, faz uma declaração veemente: "O MEC tem que ser despartidarizado, tem que ser política de Estado. Enquanto eu estiver ministro não estarei envolvido em nenhum debate político, partidário e ideológico."

Valor: Há 4 milhões de crianças fora da escola, o ensino tem baixa qualidade em todos os níveis e o Brasil está no piso do ranking mundial nessa área. Qual política será capaz de aproximar a educação do projeto de crescimento do país?


Mercadante: Não basta ser país rico, ou mesmo rico sem pobreza. O país não pode se acomodar em ser grande exportador de “commodities”. O Brasil precisa se preparar para a economia do conhecimento, e não seremos competitivos sem inovação, ciência e tecnologia. O Brasil, especialmente com o pré-sal, pode dar o salto estratégico nesse sentido. Ou simplesmente se acomodar com a doença holandesa e agravar as deficiências históricas. Ou vamos aplicar esses recursos na estratégia, ou dispersar isso na máquina pública e nos acomodar nesse parasitismo. Nosso projeto é que a educação passe a ser central. Pela primeira vez o tema da ciência, da tecnologia, da inovação, está no Plano Plurianual.

Valor: A disputa político-partidária polarizada não é destrutiva para instrumentos fundamentais do desenvolvimento, como a política de educação?


Mercadante: O Ministério da Educação é de política de Estado. O governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, trouxe muitos avanços. A universalização do ensino básico, o FUNDEF (fundo de valorização do magistério) para financiamento, os mecanismos de avaliação do ensino, que depois o Lula transformou no FUNDEB, ao incluir o ensino pré-escolar e médio. Além disso, expandiu a rede universitária, fez um grande programa, o “Bolsa Família”, com exigência de manter crianças na escola, expandiu os institutos federais de ensino técnico. O MEC tem que ser despartidarizado, com relações republicanas, com metas comuns, e com complementaridade com estados e municípios. A concorrência entre os entes federativos é muito mais disputa político-eleitoral do que qualquer outra questão racional. Enquanto eu estiver ministro não estarei envolvido em nenhum debate político, partidário e ideológico.

Valor: A expansão do ensino superior no governo Lula parece não ter ocorrido como era a intenção e o crescimento se deu mais na rede privada. As universidades novas têm campus inacabados, abandonados, os alunos não se interessam muito. Estariam assim no interior de Pernambuco, do Ceará, de São Paulo...

Mercadante: Não é verdade. No mundo inteiro o ensino privado é predominante. Demos um salto extraordinário no ensino superior, não só de inserção no ensino privado, através do PROUNI e do financiamento subsidiado do FIES. A rede pública universitária melhorou a relação professor-aluno e houve desconcentração. O Nordeste tem 27% da população brasileira, mas até alguns anos atrás apenas 1,9% dos nordestinos eram estudantes no ensino superior, percentual que conseguimos elevar para quase 10%. O PROINFRA, que é uma parceria entre a FINEP e a CAPES, faz grandes investimentos nessa expansão. Essa política deu certo. O vestibular da Universidade do ABC é um dos mais concorridos, e como tem foco em engenharia, os alunos chegam com problemas em matemática, em física, há dificuldades de acompanhamento.

Valor: A baixa oferta de engenheiros não é prejudicial ao projeto de crescimento?


Mercadante: Há problema geral na engenharia que acaba atingindo também matemática e física. No Brasil, formamos apenas seis engenheiros para cada mil habitantes, enquanto no Japão são 40. Temos um programa de estímulo à universidade. Temos também déficit de cursos de medicina. Nossa oferta de médicos e engenheiros é muito aquém do necessário. Enquanto isso, há oferta muito grande na área de direito, administração, enfermagem e pedagogia, que são 41% das inscrições nas universidades. O foco do programa “Ciência Sem Fronteiras” é justamente nesses grandes desafios para o desenvolvimento do Brasil: áreas tecnológicas, ciências médicas, física, química e matemática.
Valor: Há planos de ampliação do “Sem Fronteiras”, programa que inova a política educacional no governo Dilma?


Mercadante: Fechamos na semana passada 20 mil novas bolsas para estudantes brasileiros irem a universidades nos Estados Unidos. Tivemos já dois editais pelo “Ciência Sem Fronteira”, e no segundo foram mais de 20 milhões de acessos ao portal. O critério de acesso é ter no mínimo 600 pontos no ENEM. Ao todo, já temos 546 bolsas para doutorado de quatro anos, 922 bolsas de doutorado de um ano, 629 bolsas de pós-doutorado e 5.783 bolsas para graduação de um ano, porque não queremos graduação plena, queremos que esse estudante volte depois de um ano. Hoje, o programa abarca intercâmbios acadêmicos para EUA, Alemanha, França, Reino Unido e Itália. O terceiro edital sairá ainda neste mês e vai incluir parcerias com universidades do Japão, Coreia do Sul, Suécia e Holanda.

Valor: A valorização da carreira e a remuneração digna dos professores, em todos os níveis, especialmente o básico, sempre foram considerados requisitos para uma educação de qualidade. Os governadores, inclusive do PT, reagem à política do piso salarial. Dizem que ou pagam o piso, ou cumprem a Lei de Responsabilidade Fiscal que tem um teto para gasto com pessoal. Como vencer o impasse?


Mercadante: O piso nacional dos professores é essencial para que tenhamos educação de qualidade no médio prazo. Se quisermos bons profissionais no setor, então precisamos ser competitivos do ponto de vista salarial. Nós precisamos, e vamos fazer, o piso continuar crescendo em termos reais nos próximos anos. Mas é evidente que reajuste como o deste ano, de 22,2%, é muito forte, não podemos dizer que não é. É um reajuste do Congresso, eu apenas cumpri a lei que o Congresso aprovou. Mas era fundamental que, nesses dois, três primeiros anos, déssemos um empurrão no piso para começar a estabilizar a carreira.

Valor: Vai continuar crescendo?


Mercadante: Mesmo com esse reajuste, o piso, de R$ 1.451, é pouco mais de dois salários mínimos, ainda é pouco. O Congresso está criando uma comissão para pensar uma regra de reajuste para o futuro, de forma a atrair os melhores profissionais, porque precisamos fazer o piso continuar crescendo em termos reais.

Valor: Com uma política de reajuste automático como a do salário mínimo?


Mercadante: É, o salário mínimo, por muito tempo, tinha muita tensão, precisava um reajuste forte e o governo segurava. Com o mecanismo PIB mais inflação, esse ano injetamos R$ 27 bilhões a mais na economia devido ao novo salário mínimo. Mas tem havido crescimento sustentado do salário mínimo, que melhorou a distribuição de renda, os índices de desigualdade social, e diziam que a economia não iria absorver, e a economia absorveu. Custa caro o piso do professor? Custa. Mas a ignorância custa muito mais.

Valor: E a alegação de que, se o governador pagar o piso, rompe o limite do gasto com pessoal, ferindo a Lei de Responsabilidade Fiscal?


Mercadante: Tem que analisar situações específicas. Em alguns estados, mais da metade da folha de pagamentos é de aposentados e pensionistas. Então, o problema não é o piso dos professores, mas a equação geral da remuneração e a relação entre aposentados e pensionistas. Ou seja, de reformas que não estão sendo feitas.

Valor: Como enfrentar esses desafios com os recursos orçamentários que a educação tem hoje?


Mercadante: A minha prioridade são os royalties do pré-sal. Em vez de pulverizar os recursos na máquina pública, vamos vincular prefeituras, Estados e União para impulsionar a educação.

Valor: A indústria registra altas taxas de rotatividade, fala-se em importação de mão de obra, e se defende criticando a baixa qualificação dos trabalhadores, o que amplia os custos de produção. Como o seu projeto no MEC pode participar da solução?


Mercadante: Temos 1,9 milhão de trabalhadores com carteira assinada na indústria de transformação que são analfabetos funcionais. Estamos fazendo esforço enorme com o PRONATEC, por meio da ampliação de bolsas para SESI, SENAI e redes federais. Além disso, o FIES também pode ser acessado pelas empresas. Ou seja, a companhia financia o estudo e o aprimoramento de seu trabalhador a custo subsidiado pelo Estado. Estamos dando instrumento novo para as empresas, que antes reclamavam que o custo para a bolsa de estudos do trabalhador era coberto com capital de giro. Mas é verdade que indústria tem problemas, ainda que as condições tenham melhorado muito com o dólar a R$ 1,80, com juros de um dígito, e vão melhorar mais com o grande esforço do governo para elevar a infraestrutura do país, com o PAC, além do mercado interno forte, que funciona como âncora.

Valor: Não há uma contradição entre a necessidade de formar mão de obra e o descredenciamento de instituições de excelência que faziam esse trabalho, como a fundação Dom Cabral e o Hospital Sírio-Libanês?


Mercadante: Para oferecer cursos de pós-graduação é preciso ser instituição educacional, que passa pela fiscalização e supervisão de educadores e técnicos. O critério foi esse. Mas queremos que haja a constituição de cursos, de instituições de ensino dentro de centros de excelência, claro. Estamos brigando para que hospitais de primeira linha como o Sírio-Libanês, Einstein, e outros, abram seus cursos de medicina, estamos com déficit de médicos.
Valor: O Exame de Ensino Médio (ENEM), mecanismo de avaliação importante da política educacional, teve problemas na sua execução nos últimos três anos. Desde administrativos e policiais até de conteúdo e estratégia de aplicação da prova. Que solução o Sr. dará a isso?


Mercadante: O ENEM é estratégico. Os EUA têm um exame similar há 85 anos. Outros países como Alemanha, Itália, Inglaterra e China também têm. Na China já teve problema, inclusive com a prisão de 65 pessoas. Nos EUA, deu problema no ano passado. A primeira dificuldade que temos no Brasil é logística, uma vez que falamos de 5,4 milhões de estudantes que precisam estar no mesmo horário com a prova em mãos. Temos de percorrer 309 mil km, 9,7 mil rotas, levando quase uma tonelada de papel, 71 batalhões do Exército, mais PM e Exército, para garantir o sucesso do ENEM. O Senado fez prova de concurso nesta semana com instituição de excelência, com 10 mil provas, e mesmo assim, devido a problemas de logística, algumas provas atrasaram para chegar nos lugares certos. No último ENEM, não tivemos nenhum problema logístico. Estamos construindo uma experiência, já que o ENEM é muito novo, e estamos desenvolvendo um método.

Valor: E o conteúdo da prova?


Mercadante: Tem que ser nacional, o sarrafo republicano tem que ser igual a todos. Como escolho aluno para o “Ciência Sem Fronteiras”? Pelo ENEM. Como escolho os alunos para o PROUNI? Pelo ENEM. Como escolho os melhores para as melhores universidades? Pelo ENEM. Com o ENEM a chance passou a ser igual, do filho do reitor ao filho da faxineira. O ENEM é necessário a um sistema republicano e democrático de meritocracia do estudante. Estamos tomando medidas para aperfeiçoar o exame.

Valor: Quais medidas estão encaminhadas?


Mercadante: Até agora, são dois examinadores para cada redação, e se a nota entre eles registrar diferença de 300 pontos, a redação é encaminhada a um terceiro examinador. Estamos concluindo a revisão desse processo, mas devemos alterar para um modelo que reduz a diferença a 200 pontos. Se a diferença de nota entre dois avaliadores for superior a 200 pontos, a redação vai a uma banca de três examinadores. O INEP, que executa a prova, tem novo presidente, vamos fortalecer o INEP. Mas nada disso altera o ENEM para os estudantes.

Valor: O ensino médio, sempre esquecido, entra de que forma no novo projeto?


Mercadante: O ensino médio é um setor nevrálgico. Temos hoje 83% estudantes matriculados, mas apenas metade (50,9%) estão na idade certa para a série em que estão. Além disso, temos evasão muito alta, de 10%, que se explica pelo mercado de trabalho aquecido, o que atrai esses jovens para o trabalho e não para a escola. Por fim, os professores e as escolas não estão conseguindo atrair o jovem no ensino médio. Queremos incluir 2 mil escolas, neste ano, no ensino médio profissionalizante, expandindo o PRONATEC. A segunda iniciativa é o tablet para o professor. O professor ainda é um imigrante digital, enquanto o aluno é um nativo digital. O quadro negro é do século XVIII. E o Brasil é o terceiro país onde mais se vende computador no mundo.

Valor: Entre seus novos projetos para o ensino médio e básico há uma reviravolta na educação no campo, certo?


Mercadante: Vamos lançar ainda neste mês o programa PRONACAMPO, que é fundamental para resolver uma dívida histórica do país. Só 18,4% dos alunos no campo estão na escola. Vamos levar carretas às escolas, com óculos e exames. O equivalente a 11 mil escolas, ou 15% do total, não têm luz, 10,4% não têm água, 14% não têm esgoto, 94% não têm banda larga, e 90% não têm internet. Primeira providência: todo o material didático será do universo rural, queremos criar bibliografia que estimule a permanência no campo. Outro problema é o transporte. A partir deste ano, vamos distribuir 8 mil ônibus para facilitar o transporte de alunos e criar escolas com alojamento para professores e alunos. Fizemos uma parceria com a EMBRAPA para saber qual é o tipo de estrutura em cada região para desenhar o ensino profissionalizante. Temos que estudar as cadeias produtivas para isso.

Valor: No ensino básico, ainda há analfabetos e milhões fora da escola. Como resolver?


Mercadante: Vamos tornar menos desigual o ensino na faixa de alfabetização, isto é, das crianças de seis a oito anos. No Paraná, apenas 4,9% das crianças não se alfabetizaram quando completam oito anos, enquanto que em Alagoas são 35%. No Nordeste e Norte em geral, são acima de 20%. Se não alfabetizarmos na idade certa, a evasão no ensino médio está colocada. Vamos fazer duas avaliações: uma aos sete anos, de forma a ter ainda um ano para corrigir se for preciso, e outra aos oito anos.”

FONTE: reportagem de Rosângela Bittar e João Villaverde, no jornal “Valor Econômico”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178505&id_secao=1) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

PRESTE ATENÇÃO, DILMA

Por José Inácio Werneck

“Bristol (EUA) – Volta e meia, encontro um brasileiro orgulhoso, ao estilo do Conde Afonso Celso (“Porque me ufano do meu país”) ou do “olha que céu! que mar! que rios! que floresta!…”. Em geral, puxa a conversa para o inegável progresso dos últimos anos, o petróleo da plataforma continental, o “coração de ouro num peito de ferro” e assim por diante.

Retruco: “devagar com o andor, que o santo é de barro”. Vamos com calma, pois não estamos a um passo de liderar o mundo. Há alguns problemas sérios no Brasil, como a precariedade do ensino e o “jeitinho” que torna a maioria da população conivente com atos de corrupção.

A O.E.C.D. vem a ser a “Organização para Desenvolvimento e Cooperação Econômica”, que recentemente conduziu um estudo dos exames PISA (Program for International Student Assesment). Como o nome indica, trata-se de avaliação internacional de estudantes, aí pela faixa dos 15 anos.


O que há de interessante no estudo é que faz comparação entre a contribuição das riquezas naturais de um país com o desempenho de seus estudantes. Os resultados mostraram que há “importante relação negativa entre o dinheiro produzido pela extração de recursos naturais e o nível de escolaridade e de conhecimento de seus jovens”.

Os países africanos não foram testados, mas países ricos em recursos naturais como Qatar, Kazaquistão, Brasil, Argentina, México, Peru, tiveram colocação ruim no exame PISA. Países ou regiões como Hong-Kong, Taiwan, Coréia do Sul, Japão, Finlândia, Dinamarca, Singapura, com poucos recursos naturais, tiveram ótimos resultados no exame PISA.

Dirão alguns que tais países têm que se estafar nos bancos escolares porque são pobres em recursos naturais. Em primeiro lugar, ser pobre em recursos naturais não significa ser pobre em renda bruta ou renda per capita. Comparem a renda per capita de Hong Kong, Taiwan, Japão, Coréia do Sul, Finlândia, Dinamarca ou Singapura com a brasileira e verão que perdemos nesse quesito.

Depois, há países ricos em recursos naturais, como Canadá, Austrália e Noruega (lembrem-se do petróleo no Mar do Norte) que também obtêm bons resultados nos exames PISA. Sào os donos da melhor relação entre riqueza natural e intelectual, por dependerem não apenas de reservas de petróleo ou de minas de ouro, mas também de ótimos professores, alunos motivados e pais interessados.

A qualidade de vida de um país, seu índice de desenvolvimento humano, o bem-estar social dependem altamente do nível do ensino, e o ensino brasileiro é precário. Dependem, também, muito da transparência, da obediência às normais legais, do combate à corrupção, e o Brasil igualmente está longe do desejado nesse aspecto.

Na Índia, há um site na Internet chamado “itookabribe.com” que convida o povo a ser vigilante contra a corrupção. Há algo semelhante no Brasil? Todos nós que assentimos ao pedido do guarda para “uma cervejinha” ou embarcamos na sugestão do despachante para “um dinheirinho, senão o papel não anda lá na repartição”, somos cúmplices em nosso atraso.”

FONTE: rscrito por José Inácio Werneck, de Bristol, EUA. O autor é jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou "Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos", estudo sociológico, e "Sabor de Mar", novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut. Trabalha na ESPN e na “Gazeta Esportiva”  (http://www.diretodaredacao.com/noticia/preste-atencao-dilma) [imagem do google adicionada por este blog ‘democracia&política’].

Líbia: A "PRIMAVERA" VIROU CAOS

Ataque dos EUA/OTAN em Tripoli, Líbia, na tentativa de assassinar Kadhafi e sua família

“Há precisamente um ano, as forças aéreas da França, Reino Unido e EUA deram início à operação militar contra a Líbia. O objetivo [diferente do realmente aplicado pelos EUA/OTAN] foi formulado na resolução do Conselho de Segurança da ONU, aprovada a 17 de março de 2011.

Anunciava-se que se tinha em vista [na ONU] “garantir o observância do embargo para o fornecimento de armas ao regime de Muamar Kadhafi” e a “interdição do espaço aéreo para a aviação líbia”, a fim de tornar impossível a sua utilização contra a população pacífica.

A Rússia, a China e a Alemanha abstiveram-se na votação. Moscou recusou-se a votar a favor, pois supunha que a resolução poderia ser interpretada livremente pelo Ocidente [como veio a ser] e servir de sinal para o início de uma intervenção militar. Ao mesmo tempo, não impôs o seu veto, pois esperava que a observância rigorosa da resolução resultasse na cessação da confrontação militar entre as autoridades e os insurretos.

Em resultado disso, a variante líbia da “Primavera Árabe” resultou na [cruel, mortífera e dolosa] intervenção [dos EUA/OTAN] e no derrubamento e assassinato de Muamar Kadhafi. A operação militar do Ocidente e dos seus aliados “Odisséia, o Alvorecer” fez o país mergulhar no caos, - opina o presidente do “Instituto do Oriente Médio”, Evgueni Satanovski.

O motim separatista em Benghazi, que dera outrora início à “Primavera Árabe”, teve sua continuação lógica. A Cyrenaica anunciou a sua autonomia e isso torna evidente por que motivo a Arábia Saudita e o Qatar levaram a cabo a operação de derrubamento de Kadhafi. Hoje, a hostilidade entre as tribos já alcança o nível de genocídio, são massacradas algumas tribos africanas. A bandeira da “Primavera Árabe” não resultou na formação de nenhuma democracia na Líbia – o país está à beira do desmoronamento”.

Ao apoiar a luta dos insurretos contra Muamar Kadhafi, o "Ocidente" [leia-se "os EUA/OTAN"] pensava em tudo menos nas reformas democráticas na Líbia, - tinha em vista apenas os recursos do país. Mas os países ocidentais não conseguiram estabelecer o seu controle nem sequer sobre esses recursos, - assevera Serguei Demidenko, perito do “Instituto de Estimativas e Análises Estratégicas”.

O Reino Unido e a França tentaram estabelecer o seu controle sobre o petróleo líbio. Mas esse objetivo também não foi alcançado, pois a exploração de jazidas petrolíferas é possível apenas quando existe estabilidade política. Quando no país se trava uma guerra de todos contra todos, esse objetivo torna-se irrealista. Por outro lado, a União Européia obteve um foco poderosíssimo de proliferação do radicalismo islâmico”.

O poder local está nas mãos de comandantes de campo. Mais de cem mil líbios estão armados e a atividade do “Conselho Nacional de Transição” é confusa e nebulosa. Até hoje, nem sequer se sabe ao certo quem é que faz parte desse tal conselho.

E quem é que ganhou com a variante líbia da “Primavera Árabe”? O perito do “Instituto de Estudos Orientais” junto da “Academia de Ciências da Rússia” Aleksei Podserob tentou dar uma resposta a essa questão:

Ganharam os países em cujos bancos se encontram os ativos líbios, que não foram descongelados definitivamente até hoje. Ganhou, certamente, o Qatar, pois o derrubamento do regime de Kaddafi permitiu-lhe reforçar consideravelmente a sua influência política nessa região”.

O perito constatou que, durante o ano passado, o PIB da Líbia baixou bruscamente, o desemprego aumentou, enquanto o nível de vida decaiu. Mais de dez mil pessoas estão nas prisões e as repressões contra os partidários de Kadhafi continuam. Todas as tentativas da “Corte Criminal Internacional” de conseguir informações objetivas sobre a situação nas prisões resultam invariavelmente em fracasso.”

FONTE: do site “Voz da Rússia”. Transcrito no site “DefesaNet”  (http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/5213/Domino-Arabe---Libia--a--Primavera--virou-caos) [imagens do google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

Robert Fisk: O MASSACRE NO AFEGANISTÃO NÃO FOI LOUCURA

corpos dos 16 civis afegãos (9 crianças) assassindos por soldado(s) norte-americanos 

“Começa a cansar-me essa história do "soldado louco". Era previsível, é claro. Nem bem o sargento de 38 anos - que massacrou no último domingo (11) 16 civis afegãos perto de Kandahar, incluindo nove crianças - retornou para sua base, os especialistas em Defesa e os meninos e meninas dos centros de pensamento já anunciavam que “ele havia enlouquecido”...

Por Robert Fisk (jornalista inglês), em “La Jornada” (do México)
Não era um "perverso terrorista" sem entranhas - como seria, é claro, se fosse afegão, em especial talibã -, mas apenas “um cara que foi à loucura”.

Essa mesma bobagem foi usada para descrever os soldados estadunidenses homicidas que realizaram uma orgia de sangue na cidade iraquiana de Haditha. Com a mesma palavra se descreveu o soldado israelense Baruch Goldstein, que massacrou 25 palestinos em Hebron, algo que fiz notar neste mesmo jornal, poucas horas antes que o sargento “enlouquecesse de repente”, na província de Kandahar.

Ao que parece, enlouqueceu, anunciaram jornalistas. Um homem "que provavelmente havia sofrido algum colapso (The Guardian)", um soldado perverso (Financial Times), cujo distúrbio (The New York Times) foi sem dúvidas (sic) perpetrado em um acesso de loucura (Le Figaro).

Sério? Supõe-se que acreditamos nisso? Claro, se estivesse completamente louco, nosso sargento teria matado 16 de seus colegas norte-americanos. Ele teria matado seus companheiros e, em seguida, atearia fogo aos corpos. Mas não, ele não matou estadunidenses; escolheu matar afegãos. Houve uma escolha. Por que, então, matou afegãos?

tropas dos EUA ensinando "democracia" e "liberdade" aos afegãos
Há uma pista interessante em tudo isso, que não tinha aparecido em reportagens da mídia. Na verdade, a narração dos fatos foi curiosamente lobotomizada-censurada, inclusive por aqueles que têm tentado explicar o terrível massacre em Kandahar. Lembraram a queima de exemplares do Alcorão - quando soldados norte-americanos em Bagram jogaram os livros sagrados em uma fogueira - e as mortes de seis soldados da OTAN, incluindo dois norte-americanos, que vieram depois.

Mas explodam-me em pedaços se não esqueceram - e isso se aplica a todas as matérias sobre o recente massacre - uma afirmação notável e extremamente significativa do comandante em chefe do Exército estadunidense no Afeganistão, o general John Allen, há exatamente 22 dias. Na verdade, foi uma declaração tão inusitada que eu recortei as palavras em meu jornal matutino e coloquei o recorte na minha pasta para referência futura.

General John Allen: "não é a hora da vingança pelas mortes de soldados norte-americanos [invasores]"

Allen disse aos seus homens: “esta não é a hora da vingança pelas mortes de soldados norte-americanos nos distúrbios de quinta-feira”. Alertou que “eles deveriam resistir a qualquer tentação de revidar”, depois que um soldado afegão matou dois norte-americanos. "Haverá momentos como este, em que vocês estarão procurando o significado dessas mortes", continuou. "Momentos como este, em que suas emoções serão governadas pela raiva e pelo desejo de vingança. Esta não é a hora da vingança; é a hora de olhar no fundo de sua alma, de recordar a sua missão, lembrar a sua disciplina, lembrar-se de quem vocês são."

Foi um chamado extraordinário, vindo do comandante em chefe dos EUA no Afeganistão. O general se viu forçado a dizer para o seu exército, supostamente bem disciplinado, profissional, de elite, que não cobrasse vingança aos afegãos aos quais, supostamente, está "ajudando/ protegendo/ educando/ adestrando" etc. Teve que dizer aos seus soldados que não cometessem assassinato.

Eu sei que os generais diziam essas coisas no Vietnã. Mas no Afeganistão? As coisas chegaram a esse extremo? Temo que sim. Porque, por mais que eu não goste de generais, tenho lidado com muitos deles pessoalmente, e geralmente têm ideia bastante acertada do que acontece em suas fileiras. E eu suspeito que o general John Allen já havia sido advertido por seus oficiais de que seus soldados estavam irritados com as mortes que se seguiram à queima de exemplares do Alcorão e, talvez, tivessem decidido empreender uma escalada de vingança. Por isso, tratou de um modo tão desesperado - em uma declaração tão impactante como reveladora - de prevenir um massacre exatamente como o que ocorreu no último domingo.

No entanto, essa mensagem foi completamente apagada da memória dos peritos quando eles analisaram essa matança. Não se permitiu em seus relatos nenhuma alusão às palavras do general Allen, nenhuma referência, porque, naturalmente, isso teria tirado o nosso sargento do grupo dos “enlouquecidos” e lhe teria dado um possível motivo para o massacre. Como de costume, os jornalistas tiveram que se meter na cama com os militares para procriar um louco e não um assassino. "Pobre rapaz: andava mal da cabeça". "Não sabia o que fazia". Não é de admirar que o tenham tirado do Afeganistão tão rápido.

Todos tivemos nossos massacres. Há “My Lai” (aldeia vietnamita onde, em 16 de março de 1968, centenas de civis, na maioria mulheres e crianças, foram executados por soldados do exército dos Estados Unidos), e nosso próprio “My Lai” britânico, em uma aldeia da Malásia chamada “Batang Kali”, onde os guardas escoceses - envolvidos em um conflito contra os insurgentes comunistas - assassinaram 24 indefesos trabalhadores da borracha, em 1948.

Claro, pode-se argumentar que os franceses na Argélia foram piores que os norte-americanos no Afeganistão - diz-se que uma unidade de artilharia francesa fez desaparecer 2 mil argelinos em seis meses -, mas isso é como dizer que somos melhor que Saddam Hussein. Certo, mas veja que parâmetro de moralidade.

É disso que se trata. Disciplina. Moralidade. Valor. O valor de não matar por vingança. Mas quando se está perdendo uma guerra que se finge estar ganhando - me refiro ao Afeganistão, é claro -, suponho que isso seja esperar demais. Parece que o general Allen perdeu seu tempo.”

FONTE: escrito pelo jornalista inglês Robert Fisk do "The Independent", e publicado no “La Jornada” (jornal online do México, Espanha, América Central e América do Sul); transcrito no portal “Vermelho” com tradução de Joana Rozowykwiat  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178507&id_secao=9) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

segunda-feira, 19 de março de 2012

KONY 2012


Marcos Coimbra: 100 MILHÕES

“Às vezes, a história acontece sob nossos olhos e não nos damos conta. Só mais tarde atinamos com a importância de algumas mudanças.

Semana passada, tivemos uma novidade na internet. Justo onde são tão frequentes que nem merecem registro. Mas não foi coisa pequena ou corriqueira.

Pela primeira vez, um vídeo de conteúdo inteiramente político postado no YouTube se transformou em grande fenômeno de massa, pelo volume de acessos e as reações que despertou.

Em apenas três dias, chegou a mais de 50 milhões de visualizações. Dois dias depois, passou a marca de 70 milhões. Contadas as alcançadas pelas diferentes versões que atualmente existem, é provável que já tenha ultrapassado 100 milhões. Em sete dias.

Os números são eloquentes, mas não constituem o aspecto mais relevante e peculiar do ocorrido. Afinal, virais com estatísticas notáveis não são tão raros. Outro dia mesmo, o vídeo clipe da canção “Ai se eu te pego”, de Michel Teló, se transformou em acontecimento mundial bem maior que o caso que estamos discutindo: só sua versão oficial teve mais de 230 milhões de visualizações.

Mas as diferenças entre esse e o de Michel Teló são enormes.

A principal é o conteúdo. O vídeo “Kony 2012” nada tem de entretenimento. É um documentário político, dura 30 minutos e é falado em inglês. E trata de assunto de política internacional e de direitos humanos que se poderia considerar árido.

O vídeo é uma denúncia das atrocidades cometidas por um tal Joseph Kony, personagem menor e lamentável dos conflitos que, nos últimos vinte anos, vêm devastando a África Central. Em uma região do mundo que vive o pesadelo hobbesiano da ausência do Estado - onde a “guerra de todos contra todos” está declarada e os fortes esmagam os fracos, Kony se distinguiu pelas barbaridades dos soldados de seu “exército”. O palco é Uganda, seu país de origem.

Joseph Kony

Entre muitíssimas violências, sequestrou milhares de crianças de suas famílias para escravizá-las e obrigá-las a fazer parte de suas tropas. Esse é o fulcro da denúncia que motivou o vídeo, produzido e postado por uma organização chamada “Invisible Children”, em alusão à ausência de percepção internacional a respeito de Kony e suas vítimas.

A discussão do caso em si - quem é Kony, como chegou a ser o que é, que importância tem hoje em Uganda e na política regional - escapa a nosso interesse. O notável é como um tema que poucos especialistas conheciam até semana passada se transformou em assunto que motiva 100 milhões de pessoas mundo afora.

A imensa maioria das reações ao vídeo foi positiva, mas o caráter vagamente esquerdista de seus produtores suscitou a costumeira reação contrária. A internet também se encheu de vociferações contra a “fraude” que estariam perpetrando - sabe-se lá o porquê – com os argumentos típicos da mesma direita raivosa que temos no Brasil.

Isso em meio a tudo que é característico da internet - paródias espontâneas, manifestações de apoio, postagens com legendas em dezenas de idiomas etc.

Que consequências concretas o documentário terá? Vai fazer com que 2012 seja o ano do acerto de contas da comunidade internacional com Kony, como desejam seus realizadores? Fará com que o governo norte-americano pare de fazer vista grossa aos conflitos que não colocam em risco os interesses geopolíticos e econômicos do país?

Difícil dizer. Mas “Kony 2012” criou um precedente: 100 milhões de pessoas pararam para ver - nem que seja em parte – uma denúncia política e foram discuti-la, sem que fosse necessário exibir imagens chocantes ou sensacionalistas.

O YouTube tem milhares de vídeos de conteúdo político. Mas nenhum tinha tido o impacto desse.

Será que começou um novo tempo, em que milhões de pessoas mundo afora podem ser mobilizadas por causas políticas e humanitárias?

Veja o vídeo e tire suas conclusões.
Abaixo, temos o vídeo legendado, com discutível qualidade da tradução:



FONTE: escrito por Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178082&id_secao=9) [imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

WASHINGTON PERDE AS GUERRAS, MAS QUEM SOFRE SÃO OS POVOS

Fuga norte-americana de Saigon

“Os Estados Unidos exibem ostensiva incapacidade para ocupar, manter a ordem e vencer a resistência dos povos que invadem. Invasões injustas, imorais e ilegais, sempre encobertas por mentiras antes e depois que são realizadas. Por exemplo, as indústrias culturais do império têm feito todo o possível para que as novas gerações se esqueçam ou recebam uma imagem falsa da humilhante derrota sofrida no Vietnã.

Por Angel Guerra Cabrera

Para quem viu ao vivo pela televisão, são inesquecíveis os helicópteros gringos voando de Saigon para os porta-aviões, com pencas de estadunidenses em pânico pendurando-se nos trens de pouso. Recentemente, a hidra midiática estendeu uma cortina de fumaça sobre a vergonhosa retirada do Iraque, onde Washington teve que renunciar a sua exigência de deixar indefinidamente estacionado um contingente militar, pois o governo de Bagdá - de relações cordiais com Teerã, por certo - se negou a conceder imunidade nos tribunais iraquianos a seus integrantes.

Agora, o massacre de 16 civis na província de Kandahar, Afeganistão, supostamente por um sargento alienado do Exército dos Estados Unidos, reafirma a derrota moral, política e, por conseguinte, militar, da superpotência no país centro-asiático. Não estão claras as circunstâncias do incidente nem a versão do lobo solitário dos ocupantes coincide com a de residentes nas três aldeias onde viviam as vítimas e autoridades afegãs, que insistem em dizer que mais soldados estadunidenses participaram nos fatos.

Seja como for, depois disto e dos contínuos agravos aos afegãos – o anterior foi a queima de exemplares do Alcorão em uma base ianque - a Washington não resta mais nada a fazer do que antecipar os prazos para a retirada. Já não pode confiar em suas contrapartes afegãs e até o parlamento já disse que “esgotará sua paciência” e concordou em exigir que os culpados sejam julgados por um tribunal afegão. Há tempos os Estados Unidos tiveram que renunciar à ideia de derrotar os talibãs e admitir que para retirar-se e salvar a cara tinham que negociar com eles e é exatamente isso o que estão fazendo.

Isto para não falar da propalada “reconstrução” com a qual – como não?! - várias corporações têm ganho milhões, mas os afegãos não veem mais que uma economia sustentada pelo auge do narcotráfico, um país devastado, com cidades em ruínas sem os mais elementares serviços públicos, ausência quase absoluta de infraestrutura e dezenas de milhares de civis mortos. Para não falar das promessas de democratização e reconhecimento dos direitos das mulheres. Afortunadamente, cada vez são menos pessoas que creem que os Estados Unidos sejam “modelo de democracia e direitos humanos”, muito menos os que aceitam que esses podem “impor-se pela força das armas”.

Lênin tinha toda a razão ao afirmar que o imperialismo necessita gerar, constantemente, guerras de rapina. Muitas coisas mudaram desde então, mas permanecem essências como essa. Agora mais acentuadas devido à avidez compulsiva pelo petróleo e outras matérias-primas e a cobiça pelas jazidas de água, que levaram ao paroxismo a agressividade do imperialismo estadunidense. Se não fosse assim, seria inexplicável que depois dos desastres no Afeganistão e Iraque, os Estados Unidos se disponham, junto com Israel, a atacar nada menos que o Irã. Um osso muito duro de roer, impossível de reduzir com armas convencionais.

Se as instalações nucleares para fins pacíficos do Irã forem bombardeadas e o país se sentir mais gravemente ameaçado, seguramente responderá de maneira muito dura, incluindo o fechamento do estreito de Ormuz, por onde flui vital rio de petróleo para o mercado mundial. A grande incógnita é o que farão os Estados Unidos diante de um rival que só podem destruir com armas nucleares, e se as usar, o que farão a Rússia, a Índia, o Paquistão e a China, todas potências atômicas vizinhas. Vistas as coisas assim, se compreende perfeitamente as intensas gestões diplomáticas de Moscou e Pequim em prol de uma solução política na Síria, aliado fundamental do Irã, onde Washington arma e infiltra terroristas e aplica um plano de “mudança de regime”, e o duplo veto daquelas duas grandes nações para impedir a intervenção estrangeira.

Voltando ao Afeganistão, o máximo a que Obama pode aspirar agora é sair de lá rapidamente sem que isto pareça uma debandada. Com a esperança de que, antes das eleições de novembro, não se complique a situação a ponto de obrigá-lo a uma retirada precipitada e à entrega do poder aos talibãs sem mais negociações.”

FONTE: escrito por Angel Guerra Cabrera, publicado originalmente em “La Jornada” e transcrito no “Cubadebate” e no portal “Vermelho”, com tradução da sua redação  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178352&id_secao=9) [imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

OS BRICS, O DINHEIRO, A VIDA E A MORTE

Índia
Da “Carta Maior”:

“O tratamento de câncer de fígado e rim pode custar U$ 5.500 por mês, ou US$ 175, caso o medicamento existente para essa finalidade seja vendido, respectivamente, pela multinacional Bayer (que o patenteou), ou pelo fabricante de genéricos Natco, da Índia, que recebeu autorização do governo para produzir uma droga equivalente com o mesmo efeito, sob o nome de Naxavar. A única diferença é o preço: 30 vezes mais barato.

A Índia é um dos países mais ativos na quebra de patentes farmacêuticas que permitem o acesso a drogas e tratamentos de outra forma inviáveis ao sistema de saúde pública de países pobres.

Em 2007, o Brasil quebrou a patente da droga anti-HIV Efavirenz, passando a importar um genérico da Índia, por preço equivalente a um quarto do que pagava ao laboratório americano Merck. O Brasil teria de pagar US$ 42,9 milhões por ano à Merck pelo fornecimento da droga a cerca de 75 mil pacientes de AIDS do SUS. O genérico passou a ser comprado na Índia por US$ 0,44, contra US$ 1,65 cobrados pela Merck.

No caso do Naxavar, a Índia pretende remunerar a Bayer pagando royalties de 6% sobre o preço de custo do genérico. Há na legislação internacional uma janela que sanciona essa prática: a OMC aceita a quebra de patentes em nome do interesse público. A Índia formalizou juridicamente a medida como: "um contrato involuntário entre um comprador disposto e um vendedor não disposto". Forma elegante de dizer: os limites entre a doença e a cura não podem ser determinados pelos mercadores da vida e da morte.

Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que se reúnem dia 28 em Nova Déli, com a presença da presidenta Dilma, poderiam se transformar numa sigla inteligível à humanidade, sobretudo às nações pobres, se adotassem uma política conjunta e ativa de parceria na esfera da saúde pública, tomando o exemplo da Índia como estratégia comum.”

FONTE: cabeçalho do site “Carta Maior” domingo (18)  (http://www.cartamaior.com.br/templates/index.cfm) [imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].