Li ontem os seguintes artigos no blog de Luis Nassif:
“Um pouco tarde, mas vou opinar sobre o tema, considerando o acirramento da controvérsia.
A questão toda está no "timing" dos acontecimentos. Gilmar é estrela de Veja há várias edições, desde que se começou a impostura do "Estado Policial". O Ministro serve à veja capas e declarações bombásticas. Ganha dela a repercussão positiva de seus atos e o silêncio sobre as graves denúncias de a) exercício de administração empresária por magistrado; b) favorecimento em contratos sem licitação com órgãos públicos.
Mendes reuniu-se comprovadamente com a direção da editora Abril no auge dos acontecimentos da Satiagraha, na condição de presidente do STF e sabendo que há pelo menos colunistas da revista suspeitos de envolvimento com Dantas. E agora esse anúncio de alto valor do instituto do Supremo Presidente na Veja.
Sinceramente, é demais”.
SUPREMO ANULA LIMINAR DE MENDES QUE LIBERTOU EX-SENADOR ACUSADO DE FRAUDE
Texto elaborado por Tomás Rosa Bueno (li no blog de Luis Nassif):
O ex-senador Mario Calixto Filho (PMDB-RO) deverá retornar à prisão. A 2ª Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) revogou, nesta terça-feira (28/10), liminar que havia libertado o ex-parlamentar, acusado pela Operação Titanic, da Polícia Federal, de participar de um esquema de importação fraudulenta de produtos de luxo, em que teria cometido tráfico de influência para conseguir benefícios.
Após ficar 95 dias preso preventivamente, Calixto conseguiu um habeas corpus com o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, durante o recesso forense. No entanto, a relatora do caso, a ministra Ellen Gracie, entendeu que houve equívoco na concessão da liminar, pois a jurisprudência do STF impede que se analise habeas corpus sobre decisão de ministro de tribunal superior (Súmula 691).”
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
UNIÃO CONTRA MARTA VISA 2010
Li ontem no blog de Luis Favre o seguinte texto de Conrado Corsalette e Ranier Bragon, do jornal “O Estado de São Paulo”, sobre entrevista com o deputado estadual Rui Falcão (PT):
“RUI FALCÃO MINIMIZA REJEIÇÃO A EX-PREFEITA E AFIRMA QUE FORÇAS POLÍTICAS SE UNIRAM “TENTANDO PROVOCAR REFLEXOS NACIONAIS’
Coordenador critica mídia e o uso da máquina municipal e diz que campanha petista valorizou suas propostas a ponto de Kassab copiá-las.
O deputado estadual Rui Falcão (PT), 64, diz que Marta Suplicy foi derrotada no domingo não pela rejeição que enfrenta, mas pela “união de forças políticas” com vistas às eleições de 2010. Vice na chapa reeleitoral de Marta e secretário de Governo de sua gestão (2001-2004), Falcão foi um dos coordenadores desta campanha, mas diz fazer uma avaliação pessoal. Para ele, o uso da máquina, a mídia e a Justiça Eleitoral também contribuíram para a derrota.
FOLHA - POR QUE MARTA PERDEU?
RUI FALCÃO - Duas grandes lideranças foram derrubadas nesta eleição: Marta e Geraldo Alckmin. O governador José Serra também, pois apoiou Alckmin.
FOLHA - SÓ FORMALMENTE.
FALCÃO - Ele gravou na TV, disse que apoiava o candidato do seu partido, o PSDB, então nós temos de acreditar na palavra dele. O aspecto principal é que houve, nacionalmente, a tendência de continuidade administrativa. A política econômica do governo Lula fez parte dos municípios reconduzirem seus prefeitos ao poder.
FOLHA - O MARKETING DA CAMPANHA DE MARTA ERROU?
FALCÃO - Não. Foi uma campanha competente, que valorizou propostas do PT. Elas foram explicitadas com clareza a tal ponto de Kassab copiá-las.
FOLHA - ENTÃO POR QUE MARTA PERDEU VOTOS EM RELAÇÃO A 2004?
FALCÃO - Se pegarmos a votação do primeiro turno, ganhamos em quase todos os lugares que tínhamos ganho na eleição passada. O que ocorreu agora é que se somaram as duas principais forças do outro lado, com votos de Maluf, contra Marta.
FOLHA - O PT TEM UMA REFLEXÃO SOBRE A REJEIÇÃO AO PARTIDO E A MARTA?
FALCÃO - O problema não é a rejeição. O que houve foi uma união de forças políticas para nos derrotar na cidade mais importante do país tentando provocar reflexos nacionais.
Acho que precisamos analisar o resultado, ver a própria inserção do PT na cidade. Falta uma compreensão maior da complexidade do eleitor paulistano.
FOLHA - PELA LÓGICA QUE O SR. APRESENTA, A DERROTA ERA INEVITÁVEL?
FALCÃO - Não. O que disse aqui foi que as forças poderosas se uniram contra nós, foram duas máquinas poderosas.
FOLHA - E A MÁQUINA FEDERAL?
FALCÃO - Não teve uso da máquina do governo federal em São Paulo. Teve uso da máquina municipal, que foi apontado várias vezes, nos episódios dos e-mails, na ação das subprefeituras, teve o peso do Estado com ações administrativas.
FOLHA - HÁ PREOCUPAÇÃO COM A PERDA DO ELEITORADO DA PERIFERIA?
FALCÃO - É preciso analisar todo o movimento eleitoral. Houve uma grande aliança para derrotar o PT. E houve um movimento de mídia, que foi favorável a Kassab. Isso, no caso da Folha, foi reconhecido pelo ombudsman do jornal. Houve diferença de tratamento da Justiça Eleitoral. São fatos reais e não interpretativos.
FOLHA - ATÉ AGORA O SR. NÃO CITOU UM ERRO DA CAMPANHA DE MARTA.
FALCÃO - [Longa pausa] Talvez ter subestimado a ação dos subprefeitos na eleição. Eles usaram bastante a máquina.
FOLHA - KASSAB FOI SUBESTIMADO?
FALCÃO - Nossas pesquisas indicavam que ele tinha potencial. O que não houve foi um esgarçamento tão grande da briga do Kassab com o Alckmin. Os projetos futuros fizeram as feridas se cicatrizarem rápido".
“RUI FALCÃO MINIMIZA REJEIÇÃO A EX-PREFEITA E AFIRMA QUE FORÇAS POLÍTICAS SE UNIRAM “TENTANDO PROVOCAR REFLEXOS NACIONAIS’
Coordenador critica mídia e o uso da máquina municipal e diz que campanha petista valorizou suas propostas a ponto de Kassab copiá-las.
O deputado estadual Rui Falcão (PT), 64, diz que Marta Suplicy foi derrotada no domingo não pela rejeição que enfrenta, mas pela “união de forças políticas” com vistas às eleições de 2010. Vice na chapa reeleitoral de Marta e secretário de Governo de sua gestão (2001-2004), Falcão foi um dos coordenadores desta campanha, mas diz fazer uma avaliação pessoal. Para ele, o uso da máquina, a mídia e a Justiça Eleitoral também contribuíram para a derrota.
FOLHA - POR QUE MARTA PERDEU?
RUI FALCÃO - Duas grandes lideranças foram derrubadas nesta eleição: Marta e Geraldo Alckmin. O governador José Serra também, pois apoiou Alckmin.
FOLHA - SÓ FORMALMENTE.
FALCÃO - Ele gravou na TV, disse que apoiava o candidato do seu partido, o PSDB, então nós temos de acreditar na palavra dele. O aspecto principal é que houve, nacionalmente, a tendência de continuidade administrativa. A política econômica do governo Lula fez parte dos municípios reconduzirem seus prefeitos ao poder.
FOLHA - O MARKETING DA CAMPANHA DE MARTA ERROU?
FALCÃO - Não. Foi uma campanha competente, que valorizou propostas do PT. Elas foram explicitadas com clareza a tal ponto de Kassab copiá-las.
FOLHA - ENTÃO POR QUE MARTA PERDEU VOTOS EM RELAÇÃO A 2004?
FALCÃO - Se pegarmos a votação do primeiro turno, ganhamos em quase todos os lugares que tínhamos ganho na eleição passada. O que ocorreu agora é que se somaram as duas principais forças do outro lado, com votos de Maluf, contra Marta.
FOLHA - O PT TEM UMA REFLEXÃO SOBRE A REJEIÇÃO AO PARTIDO E A MARTA?
FALCÃO - O problema não é a rejeição. O que houve foi uma união de forças políticas para nos derrotar na cidade mais importante do país tentando provocar reflexos nacionais.
Acho que precisamos analisar o resultado, ver a própria inserção do PT na cidade. Falta uma compreensão maior da complexidade do eleitor paulistano.
FOLHA - PELA LÓGICA QUE O SR. APRESENTA, A DERROTA ERA INEVITÁVEL?
FALCÃO - Não. O que disse aqui foi que as forças poderosas se uniram contra nós, foram duas máquinas poderosas.
FOLHA - E A MÁQUINA FEDERAL?
FALCÃO - Não teve uso da máquina do governo federal em São Paulo. Teve uso da máquina municipal, que foi apontado várias vezes, nos episódios dos e-mails, na ação das subprefeituras, teve o peso do Estado com ações administrativas.
FOLHA - HÁ PREOCUPAÇÃO COM A PERDA DO ELEITORADO DA PERIFERIA?
FALCÃO - É preciso analisar todo o movimento eleitoral. Houve uma grande aliança para derrotar o PT. E houve um movimento de mídia, que foi favorável a Kassab. Isso, no caso da Folha, foi reconhecido pelo ombudsman do jornal. Houve diferença de tratamento da Justiça Eleitoral. São fatos reais e não interpretativos.
FOLHA - ATÉ AGORA O SR. NÃO CITOU UM ERRO DA CAMPANHA DE MARTA.
FALCÃO - [Longa pausa] Talvez ter subestimado a ação dos subprefeitos na eleição. Eles usaram bastante a máquina.
FOLHA - KASSAB FOI SUBESTIMADO?
FALCÃO - Nossas pesquisas indicavam que ele tinha potencial. O que não houve foi um esgarçamento tão grande da briga do Kassab com o Alckmin. Os projetos futuros fizeram as feridas se cicatrizarem rápido".
COM LULA NO PODER, OPOSIÇÃO PERDE 910 PREFEITURAS
O blog de Luis Favre ontem postou o seguinte texto de Marcelo de Moraes, do jornal O Estado SP:
“DEM é partido mais ‘desidratado’ da era petista e deixou de controlar 532 municípios em relação a 2000, quando ainda se chamava PFL”
“O período de poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou uma desidratação municipal dos partidos de oposição. Em relação ao mapa eleitoral municipal de 2000, quando o tucano Fernando Henrique Cardoso ainda era o presidente, PSDB, DEM e PPS, atualmente as principais legendas da oposição, já encolheram em 910 prefeituras. A maior redução aconteceu com o DEM, que deve comandar a partir do próximo ano 532 cidades a menos do que fazia em 2000, quando ainda se chamava PFL.
Esses números apontam claramente a volatilidade da política nacional, onde grande parte dos políticos se alia automaticamente aos principais núcleos de poder do País, independentemente de ideologia.
Assim, o PMDB, que se manteve na base de sustentação do governo federal durante as gestões de Fernando Henrique e de Lula, conseguiu preservar nos últimos anos sua condição de partido com o maior número de prefeituras. Enquanto era aliado de Fernando Henrique em 2000, os peemedebistas conquistaram a gestão de 1.257 cidades.
Na eleição seguinte, em 2004, houve uma queda por conta da demora do partido em aderir completamente ao novo governo petista. O PMDB perdeu 200 prefeituras, mas mesmo assim ainda venceu em 1.057 cidades. Agora, completamente afinado com o governo Lula, o partido voltou a se fortalecer, com vitórias em 1.203 municípios.
DECLÍNIO
Para a oposição, ao contrário, o afastamento do Palácio do Planalto significou a redução de sua capilaridade municipal. Em 2000, quando ocupava a Vice-Presidência da República e era o segundo partido mais forte do governo Fernando Henrique, o então PFL ganhou em 1.028 cidades. Quatro anos depois, caiu para 790. Desde então, já com o nome novo e um discurso muito forte de oposição ao governo federal, a queda foi mais drástica ainda, com a vitória em apenas 496 cidades, embora tenha vencido em São Paulo - a maior de todas. Um desempenho pior, por exemplo, que o modesto e governista PP, que ganhou em 549 municípios.
O comando nacional do DEM atribui também essa queda à suposta cooptação feita pelo governo federal sobre os quadros do partido. Segundo o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), somente a adoção do princípio da fidelidade partidária - que puniu os infiéis com a perda de mandato - foi capaz de frear a sangria nos quadros do partido.
Entre os tucanos, a queda foi menos sensível até por conta dos importantes governos regionais controlados pelo partido, como São Paulo e Minas Gerais, e pela expectativa de poder para a sucessão presidencial de 2010. Afinal, o partido tem hoje nos governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, dois nomes com grande potencial político para disputar a sucessão de Lula. Mesmo assim, os tucanos perderam 204 cidades desde 2000.
PPS
Menor dos três partidos de oposição, o PPS também sentiu na pele os efeitos de ser ou não aliado do governo. Em 2000, tinha 166 prefeituras. Embora tivesse candidato à Presidência em 2002, com Ciro Gomes, sua direção mantinha boa relação com o governo Fernando Henrique.
Com a vitória de Lula, o PPS se juntou à base aliada, ganhando o Ministério da Integração Nacional, entregue justamente a Ciro, e outros cargos importantes. Assim, saltou em 2004 para 306 prefeituras.
Mas o PPS rompeu com o governo nesse mesmo ano e Ciro acabou se mudando para o governista PSB. Na oposição, o PPS voltou a encolher, caindo agora para 132 prefeituras.”
“DEM é partido mais ‘desidratado’ da era petista e deixou de controlar 532 municípios em relação a 2000, quando ainda se chamava PFL”
“O período de poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou uma desidratação municipal dos partidos de oposição. Em relação ao mapa eleitoral municipal de 2000, quando o tucano Fernando Henrique Cardoso ainda era o presidente, PSDB, DEM e PPS, atualmente as principais legendas da oposição, já encolheram em 910 prefeituras. A maior redução aconteceu com o DEM, que deve comandar a partir do próximo ano 532 cidades a menos do que fazia em 2000, quando ainda se chamava PFL.
Esses números apontam claramente a volatilidade da política nacional, onde grande parte dos políticos se alia automaticamente aos principais núcleos de poder do País, independentemente de ideologia.
Assim, o PMDB, que se manteve na base de sustentação do governo federal durante as gestões de Fernando Henrique e de Lula, conseguiu preservar nos últimos anos sua condição de partido com o maior número de prefeituras. Enquanto era aliado de Fernando Henrique em 2000, os peemedebistas conquistaram a gestão de 1.257 cidades.
Na eleição seguinte, em 2004, houve uma queda por conta da demora do partido em aderir completamente ao novo governo petista. O PMDB perdeu 200 prefeituras, mas mesmo assim ainda venceu em 1.057 cidades. Agora, completamente afinado com o governo Lula, o partido voltou a se fortalecer, com vitórias em 1.203 municípios.
DECLÍNIO
Para a oposição, ao contrário, o afastamento do Palácio do Planalto significou a redução de sua capilaridade municipal. Em 2000, quando ocupava a Vice-Presidência da República e era o segundo partido mais forte do governo Fernando Henrique, o então PFL ganhou em 1.028 cidades. Quatro anos depois, caiu para 790. Desde então, já com o nome novo e um discurso muito forte de oposição ao governo federal, a queda foi mais drástica ainda, com a vitória em apenas 496 cidades, embora tenha vencido em São Paulo - a maior de todas. Um desempenho pior, por exemplo, que o modesto e governista PP, que ganhou em 549 municípios.
O comando nacional do DEM atribui também essa queda à suposta cooptação feita pelo governo federal sobre os quadros do partido. Segundo o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), somente a adoção do princípio da fidelidade partidária - que puniu os infiéis com a perda de mandato - foi capaz de frear a sangria nos quadros do partido.
Entre os tucanos, a queda foi menos sensível até por conta dos importantes governos regionais controlados pelo partido, como São Paulo e Minas Gerais, e pela expectativa de poder para a sucessão presidencial de 2010. Afinal, o partido tem hoje nos governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas, Aécio Neves, dois nomes com grande potencial político para disputar a sucessão de Lula. Mesmo assim, os tucanos perderam 204 cidades desde 2000.
PPS
Menor dos três partidos de oposição, o PPS também sentiu na pele os efeitos de ser ou não aliado do governo. Em 2000, tinha 166 prefeituras. Embora tivesse candidato à Presidência em 2002, com Ciro Gomes, sua direção mantinha boa relação com o governo Fernando Henrique.
Com a vitória de Lula, o PPS se juntou à base aliada, ganhando o Ministério da Integração Nacional, entregue justamente a Ciro, e outros cargos importantes. Assim, saltou em 2004 para 306 prefeituras.
Mas o PPS rompeu com o governo nesse mesmo ano e Ciro acabou se mudando para o governista PSB. Na oposição, o PPS voltou a encolher, caindo agora para 132 prefeituras.”
JOSÉ SERRA É O “NOSSO GUIA”
O jornalista Paulo Henrique Amorim escreveu com fina ironia ontem em seu blog “Conversa Afiada”:
“Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista”
A tenacidade e o sangue frio de José Serra fizeram dele o maior vencedor da eleição de domingo. Aliou-se ao PMDB, elegeu seu poste, derrotou os adversários internos e, num lance de SORTE CRONOLÓGICA (sic), habilitou-se para UMA LIDERANÇA POLITICA QUALIFICADA PARA TRATAR COM OS EFEITOS DA CRISE INTERNACIONAL SOBRE A ECONOMIA BRASILEIRA (sic).”
É assim que começa a colona (*) de Elio Gaspari, hoje, na Folha (da Tarde**) e no Globo, dois baluartes do PiG.
Gaspari, como se sabe, preside, na sombra da madrugada, a bancada de jornalistas que trabalha à luz do Sol para José Serra.
Ninguém tem mais ascendência sobre Serra do que Gaspari.
Nem a filha, Veronica Allende Serra, que mereceu da Istoé Dinheiro (onde pontifica Leonardo Attuch), na Web, um perfil encomiástico.
Veronica Serra, como se sabe, fez negócios com a irmã de Daniel Dantas na empresa Decidir.Com Inc.
É “a mulher mais importante da internet brasileira”, diz a IstoÉ de Leonardo Attuch ...
Nem ela, tão importante, tem sobre José Serra a ascendência que Gaspari tem.
Serra não dá um passo sem consultar Gaspari.
A recíproca não é verdadeira, porque Gaspari não leva Serra tão a sério quanto Serra leva Gaspari ...
Nesta colona de hoje, como sempre, é muito difícil entender o que diz Gaspari.
Mas, supõe-se que seja o seguinte:
Serra deu uma sorte danada: ganhou a eleição na hora em que a economia mundial (e brasileira) foi para o saco.
(Serra e Fernando Henrique co-presidem o movimento “Quanto Pior Melhor”.)
É o que Gaspari chama de “sorte cronológica” ...
E por que a “sorte cronológica” ?
Porque Serra “habilitou-se para uma liderança política”.
Se o amigo leitor prestar muita atenção e tiver acompanhado a carreira de Gaspari como ghost adviser de Serra, terá percebido que Gaspari quis dizer:
Só Serra está preparado para resolver a crise.
Serra, como se sabe, é muito “preparado”.
“Preparado” para quê, não se sabe.
Mas é o que seus bajuladores dizem.
Serra está “preparado” para tudo.
Essa conversa é velha.
Serra se vende como o ÚNICO capaz de resolver qualquer crise, há muito tempo.
Ele sempre teve “sorte cronológica”.
Quando o Governo do Farol de Alexandria ia à breca – e foi três vezes - , Serra tinha “sorte cronológica” e se apresentava – em off, no PiG - como o que poderia salvar o Brasil, desde que Fernando Henrique o colocasse no lugar do Pedro Malan.
Na sucessão de Fernando Henrique, quando Serra disse que o Brasil ia virar uma Argentina e a Regina Duarte morria de medo, Serra teve “sorte cronológica”, já que seria o ÚNICO capaz de resolver aquela crise, porque ele é “preparado”.
Quando estourou a crise financeira corrente, Serra voltou aos colonistas do PiG para “explicar” como administrar o câmbio.
E já se sabe como é que se resolve o câmbio, para Serra: o câmbio tem que ficar no ponto exato para ajudar as exportações paulistas e impedir a importação de produtos que venham a competir com os produtos paulistas.
Essa é a “política cambial” de Serra, a “política cambial paulista” do Serra.
Serra entende tanto de câmbio quanto de Polícia Civil ...
Mas, ele é “preparado”.
Na verdade, o Gaspari acaba de transformar o Serra no verdadeiro “Nosso Guia” !
(*) Se refere à “colônia”, dá a idéia de pessoa “colonizada”, submetida ao pensamento hegemônico que se originou na Metrópole e se fortaleceu nos epígonos coloniais. Epígonos esses que, na maioria dos casos, não têm a menor idéia de como a Metrópole funciona, mas a “copiam” como se a ela pertencessem”.
“Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista”
A tenacidade e o sangue frio de José Serra fizeram dele o maior vencedor da eleição de domingo. Aliou-se ao PMDB, elegeu seu poste, derrotou os adversários internos e, num lance de SORTE CRONOLÓGICA (sic), habilitou-se para UMA LIDERANÇA POLITICA QUALIFICADA PARA TRATAR COM OS EFEITOS DA CRISE INTERNACIONAL SOBRE A ECONOMIA BRASILEIRA (sic).”
É assim que começa a colona (*) de Elio Gaspari, hoje, na Folha (da Tarde**) e no Globo, dois baluartes do PiG.
Gaspari, como se sabe, preside, na sombra da madrugada, a bancada de jornalistas que trabalha à luz do Sol para José Serra.
Ninguém tem mais ascendência sobre Serra do que Gaspari.
Nem a filha, Veronica Allende Serra, que mereceu da Istoé Dinheiro (onde pontifica Leonardo Attuch), na Web, um perfil encomiástico.
Veronica Serra, como se sabe, fez negócios com a irmã de Daniel Dantas na empresa Decidir.Com Inc.
É “a mulher mais importante da internet brasileira”, diz a IstoÉ de Leonardo Attuch ...
Nem ela, tão importante, tem sobre José Serra a ascendência que Gaspari tem.
Serra não dá um passo sem consultar Gaspari.
A recíproca não é verdadeira, porque Gaspari não leva Serra tão a sério quanto Serra leva Gaspari ...
Nesta colona de hoje, como sempre, é muito difícil entender o que diz Gaspari.
Mas, supõe-se que seja o seguinte:
Serra deu uma sorte danada: ganhou a eleição na hora em que a economia mundial (e brasileira) foi para o saco.
(Serra e Fernando Henrique co-presidem o movimento “Quanto Pior Melhor”.)
É o que Gaspari chama de “sorte cronológica” ...
E por que a “sorte cronológica” ?
Porque Serra “habilitou-se para uma liderança política”.
Se o amigo leitor prestar muita atenção e tiver acompanhado a carreira de Gaspari como ghost adviser de Serra, terá percebido que Gaspari quis dizer:
Só Serra está preparado para resolver a crise.
Serra, como se sabe, é muito “preparado”.
“Preparado” para quê, não se sabe.
Mas é o que seus bajuladores dizem.
Serra está “preparado” para tudo.
Essa conversa é velha.
Serra se vende como o ÚNICO capaz de resolver qualquer crise, há muito tempo.
Ele sempre teve “sorte cronológica”.
Quando o Governo do Farol de Alexandria ia à breca – e foi três vezes - , Serra tinha “sorte cronológica” e se apresentava – em off, no PiG - como o que poderia salvar o Brasil, desde que Fernando Henrique o colocasse no lugar do Pedro Malan.
Na sucessão de Fernando Henrique, quando Serra disse que o Brasil ia virar uma Argentina e a Regina Duarte morria de medo, Serra teve “sorte cronológica”, já que seria o ÚNICO capaz de resolver aquela crise, porque ele é “preparado”.
Quando estourou a crise financeira corrente, Serra voltou aos colonistas do PiG para “explicar” como administrar o câmbio.
E já se sabe como é que se resolve o câmbio, para Serra: o câmbio tem que ficar no ponto exato para ajudar as exportações paulistas e impedir a importação de produtos que venham a competir com os produtos paulistas.
Essa é a “política cambial” de Serra, a “política cambial paulista” do Serra.
Serra entende tanto de câmbio quanto de Polícia Civil ...
Mas, ele é “preparado”.
Na verdade, o Gaspari acaba de transformar o Serra no verdadeiro “Nosso Guia” !
(*) Se refere à “colônia”, dá a idéia de pessoa “colonizada”, submetida ao pensamento hegemônico que se originou na Metrópole e se fortaleceu nos epígonos coloniais. Epígonos esses que, na maioria dos casos, não têm a menor idéia de como a Metrópole funciona, mas a “copiam” como se a ela pertencessem”.
O INIMIGO (DO PAQUISTÃO) NÃO É A ÍNDIA
O site do jornal inglês International Herald Tribune publicou ontem o seguinte texto postado em Nova Déli (Índia), que li no UOL em tradução de Deborah Weinberg.
Os autores são Maharaja Krishna Rasgotra, presidente do Observer Research Foundation, grupo de estudos em Nova Déli, secretário de relações exteriores da Índia, e Stanley A. Weiss, diretor da organização Washington Business Executives for National Security.
“Agora ficou claro que o caminho para a estabilidade no Afeganistão passa pelo Paquistão - especificamente pelas áreas tribais que o Taleban e os combatentes da Al Qaeda usam como santuário. Menos compreendido é o caminho para a estabilidade das áreas tribais e pela região que também atravessa a Índia.
Temores antigos com relação à Índia, com a qual o Paquistão travou três guerras desde a partição de 1947, estão na base de grande parte do comportamento perigoso paquistanês de hoje. O objetivo antigo de Islamabad de alcançar "profundidade estratégica" com um Afeganistão complacente ainda resiste em partes de seu exército e da poderosa agência de espionagem, a Inter-Services Intelligence, que dão apoio aos militantes islâmicos que agem contra o Afeganistão.
Mesmo hoje, quando esses militantes voltam suas armas contra o governo paquistanês e as forças paquistanesas estão engajadas em uma ofensiva há muito devida nas áreas tribais, a maior parte do exército paquistanês continua empregada no Leste - na direção da Índia e da região disputada da Cachemira.
Resultado? Quando as autoridades americanas recentemente pressionaram o chefe das forças armadas paquistanesas, Ashfaq Kayani, para ser mais agressivo nas áreas tribais, ele alegou que não tinha capacidade militar para confrontar vários redutos de insurgentes ao mesmo tempo, de acordo com a "Newsweek".
Os temores de Islamabad em relação à Índia são superados apenas por seu medo diante da possibilidade de uma desintegração étnica. Muitas de suas etnias, reunidas em uma colcha de retalhos como em muitos outros Estados pós-coloniais, nunca aceitaram a dominação punjabi do governo e dos militares que, diferentemente da Índia, impediu a emergência de uma estrutura federal de unidades autônomas mais ou menos simétricas.
De fato, uma das maiores preocupações de Islamabad é que as dezenas de milhões de pashtuns dos dois lados da fronteira com o Afeganistão possam realizar seus sonhos antigos de um Pashtunistão independente.
Assim, Islamabad entende mal os esforços indianos para promover a segurança e o desenvolvimento econômico no Afeganistão, inclusive o programa de reconstrução de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 2 bilhões) oferecido por Nova Déli como tentativa de isolar o Paquistão.
A resposta dos militantes paquistaneses? O atentado suicida mortal deste verão contra a embaixada indiana de Cabul.
Se os antigos temores paquistaneses em relação à Índia são a chave para compreender o comportamento paquistanês no Afeganistão, então remover esses temores é a chave para mudar esse comportamento.
Enquanto poder econômico e político dominante da região, a Índia deve tomar a dianteira. Nova Déli deve continuar a assegurar Islamabad de que o único objetivo da Índia é um Afeganistão verdadeiramente independente, unido, estável e livre de drogas.
Especificamente, a Índia pode oferecer garantias de segurança e explorar reduções mútuas de forças na fronteira Leste do Paquistão. A Índia pode abrir suas fronteiras unilateralmente, inclusive a Linha de Controle que divide a Caxemira, ao livre comércio.
De sua parte, Islamabad precisa reconhecer que um Afeganistão estável a Oeste e uma Índia amigável a Leste ajudarão a impedir uma implosão catastrófica no Paquistão.
Finalmente seguro em sua fronteira oriental com a Índia, o Paquistão deve reforçar sua recente ofensiva e empregar tropas suficientes no Oeste para garantir a fronteira com o Afeganistão, e depois investir extensivamente na educação e desenvolvimento das regiões tribais.
Islamabad deve colocar um fim ao financiamento, armamento, treinamento e infiltração de terroristas na Cachemira e em outras partes da Índia. Isso pavimentaria o caminho para outros passos de reforço da confiança - visitas de altos líderes militares, comércio livre e joint ventures.
Os EUA poderiam ajudar a aplacar os temores de Islamabad endossando as garantias indianas da integridade da fronteira Leste do Paquistão. Mais amplamente, Washington deveria apoiar a frágil democracia do Paquistão concentrando seu auxílio no desenvolvimento social e econômico em vez de militar.
Com o Paquistão finalmente seguro de que a Índia não é mais uma ameaça, a Índia poderia então considerar um passo verdadeiramente histórico, digno de um poder grande e em ascensão - contribuir com forças militares para estabilizar Afeganistão.
Tal emprego de tropas exigiria um pedido conjunto de Cabul, Washington e da ONU. As equipes de treinamento indianas poderiam ter um papel crítico no fortalecimento do exército e da polícia afegãos.
A reconciliação entre o Paquistão e a Índia e a presença de forças indianas no Afeganistão podem parecer fantasias. Mas a volta de um governo civil em Islamabad dá novas esperanças.
Se for possível concentrar a atenção na ameaça terrorista real e crescente na região - não nas imaginadas por Islamabad - então o temor e o ódio no Paquistão finalmente darão espaço para a confiança e a cooperação no Afeganistão.”
Os autores são Maharaja Krishna Rasgotra, presidente do Observer Research Foundation, grupo de estudos em Nova Déli, secretário de relações exteriores da Índia, e Stanley A. Weiss, diretor da organização Washington Business Executives for National Security.
“Agora ficou claro que o caminho para a estabilidade no Afeganistão passa pelo Paquistão - especificamente pelas áreas tribais que o Taleban e os combatentes da Al Qaeda usam como santuário. Menos compreendido é o caminho para a estabilidade das áreas tribais e pela região que também atravessa a Índia.
Temores antigos com relação à Índia, com a qual o Paquistão travou três guerras desde a partição de 1947, estão na base de grande parte do comportamento perigoso paquistanês de hoje. O objetivo antigo de Islamabad de alcançar "profundidade estratégica" com um Afeganistão complacente ainda resiste em partes de seu exército e da poderosa agência de espionagem, a Inter-Services Intelligence, que dão apoio aos militantes islâmicos que agem contra o Afeganistão.
Mesmo hoje, quando esses militantes voltam suas armas contra o governo paquistanês e as forças paquistanesas estão engajadas em uma ofensiva há muito devida nas áreas tribais, a maior parte do exército paquistanês continua empregada no Leste - na direção da Índia e da região disputada da Cachemira.
Resultado? Quando as autoridades americanas recentemente pressionaram o chefe das forças armadas paquistanesas, Ashfaq Kayani, para ser mais agressivo nas áreas tribais, ele alegou que não tinha capacidade militar para confrontar vários redutos de insurgentes ao mesmo tempo, de acordo com a "Newsweek".
Os temores de Islamabad em relação à Índia são superados apenas por seu medo diante da possibilidade de uma desintegração étnica. Muitas de suas etnias, reunidas em uma colcha de retalhos como em muitos outros Estados pós-coloniais, nunca aceitaram a dominação punjabi do governo e dos militares que, diferentemente da Índia, impediu a emergência de uma estrutura federal de unidades autônomas mais ou menos simétricas.
De fato, uma das maiores preocupações de Islamabad é que as dezenas de milhões de pashtuns dos dois lados da fronteira com o Afeganistão possam realizar seus sonhos antigos de um Pashtunistão independente.
Assim, Islamabad entende mal os esforços indianos para promover a segurança e o desenvolvimento econômico no Afeganistão, inclusive o programa de reconstrução de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 2 bilhões) oferecido por Nova Déli como tentativa de isolar o Paquistão.
A resposta dos militantes paquistaneses? O atentado suicida mortal deste verão contra a embaixada indiana de Cabul.
Se os antigos temores paquistaneses em relação à Índia são a chave para compreender o comportamento paquistanês no Afeganistão, então remover esses temores é a chave para mudar esse comportamento.
Enquanto poder econômico e político dominante da região, a Índia deve tomar a dianteira. Nova Déli deve continuar a assegurar Islamabad de que o único objetivo da Índia é um Afeganistão verdadeiramente independente, unido, estável e livre de drogas.
Especificamente, a Índia pode oferecer garantias de segurança e explorar reduções mútuas de forças na fronteira Leste do Paquistão. A Índia pode abrir suas fronteiras unilateralmente, inclusive a Linha de Controle que divide a Caxemira, ao livre comércio.
De sua parte, Islamabad precisa reconhecer que um Afeganistão estável a Oeste e uma Índia amigável a Leste ajudarão a impedir uma implosão catastrófica no Paquistão.
Finalmente seguro em sua fronteira oriental com a Índia, o Paquistão deve reforçar sua recente ofensiva e empregar tropas suficientes no Oeste para garantir a fronteira com o Afeganistão, e depois investir extensivamente na educação e desenvolvimento das regiões tribais.
Islamabad deve colocar um fim ao financiamento, armamento, treinamento e infiltração de terroristas na Cachemira e em outras partes da Índia. Isso pavimentaria o caminho para outros passos de reforço da confiança - visitas de altos líderes militares, comércio livre e joint ventures.
Os EUA poderiam ajudar a aplacar os temores de Islamabad endossando as garantias indianas da integridade da fronteira Leste do Paquistão. Mais amplamente, Washington deveria apoiar a frágil democracia do Paquistão concentrando seu auxílio no desenvolvimento social e econômico em vez de militar.
Com o Paquistão finalmente seguro de que a Índia não é mais uma ameaça, a Índia poderia então considerar um passo verdadeiramente histórico, digno de um poder grande e em ascensão - contribuir com forças militares para estabilizar Afeganistão.
Tal emprego de tropas exigiria um pedido conjunto de Cabul, Washington e da ONU. As equipes de treinamento indianas poderiam ter um papel crítico no fortalecimento do exército e da polícia afegãos.
A reconciliação entre o Paquistão e a Índia e a presença de forças indianas no Afeganistão podem parecer fantasias. Mas a volta de um governo civil em Islamabad dá novas esperanças.
Se for possível concentrar a atenção na ameaça terrorista real e crescente na região - não nas imaginadas por Islamabad - então o temor e o ódio no Paquistão finalmente darão espaço para a confiança e a cooperação no Afeganistão.”
RÚSSIA PROMOVE REFORMA RADICAL DAS FORÇAS ARMADAS
O PLANO PRETENDE AGILIZAR E MODERNIZAR UMA APARELHO MACIÇO MAS OBSOLETO
Rodrigo Fernández, em Moscou, escreveu para o jornal espanhol El Pais o seguinte texto que li no UOL em tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves:
“Os militares russos estão consternados. O governo decidiu realizar em passo acelerado uma reforma que tem como objetivo reduzir as forças armadas a um milhão de efetivos até 2012 e transformar seu exército em estruturas móveis e ágeis, dotadas de armas modernas. Motivo da pressa?
A guerra com a Geórgia deixou claro que o exército atual é um aparelho atrofiado, lento, e suas armas estão velhas não só no plano moral, mas também físico. A reforma anunciada pelo ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, é, segundo especialistas, a mais radical que houve na história russa desde a empreendida por Nikita Kruschev e prevê uma drástica diminuição da quantidade de oficiais, dos atuais 350 mil para 150 mil nos próximos quatro anos.
A guerra dos Cinco Dias, como chamam na Rússia o conflito armado com a Geórgia, mostrou que o sistema de direção do exército está completamente obsoleto e levou o Kremlin a abandonar o sistema de quatro escalões tradicional da época soviética - distrito militar, exército, divisão, regimento - e substituí-lo por um de três, mais moderno: distrito militar, comando operacional, brigada.
Tanto o armamento como a preparação estão no nível dos anos 1960, segundo o primeiro vice-ministro da Defesa, Alexandr Komakov. O mais novo que se pode encontrar no exército data dos anos 1980. E há uma quantidade excessiva de generais e coronéis, mas poucos tenentes.
Durante o recente conflito, os militares não tinham meios de comunicação modernos e os que possuíam eram inúteis contra os georgianos, que demonstraram uma excelente guerra radioeletrônica.
O jornal "Komsomolsakaya Pravda" conta que um correspondente teve de emprestar ao comandante do 58º Exército, quando este avançava para Tskhinvali, seu telefone via satélite porque o general não podia se comunicar com a artilharia e precisava que esta disparasse contra as colinas dominadas pelos georgianos. Os russos também careciam de meios de comunicação individuais, de dispositivos para enxergar à noite e muitos outros equipamentos.
O sistema russo Glonass - equivalente ao GPS americano - não funciona porque não há quantidade suficiente de satélites no espaço.
As unidades do distrito militar do Cáucaso do Norte "combateram como fazia o exército soviético há 20, 30 e até 50 anos", resume a situação o presidente do Instituto de Avaliações Estratégicas, Alexandr Konovalov.
Os planos de modernização das forças armadas russas prevêem até 2020 não só solucionar essas deficiências como também investir grandes somas na construção de novos porta-aviões, submarinos, aviões de quinta geração e no desenvolvimento da defesa aeroespacial. Para cumprir esses planos serão necessários no mínimo US$ 15 bilhões, segundo cálculos de Konovalov, o que exigirá aumentar substancialmente o orçamento destinado aos encargos estatais de armamento. Por enquanto, o orçamento militar aumentará no próximo ano 26%, chegando a cerca de US$ 47 bilhões (37 bilhões de euros): será o mais alto desde a queda da União Soviética, mas ainda menos de 3% do PIB e muito inferior ao dos EUA.
Especialistas independentes, como Pavel Felgengauer, afirmam que dar essas quantias ao complexo da indústria militar (CIM) russo é simplesmente gastar mal o dinheiro, e o que se deve fazer é comprar armamento moderno no estrangeiro, o que se fazia na época czarista e inclusive na soviética e hoje é proibido. O principal problema é que o CIM não tem mais capacidades que as atuais, e por isso simplesmente não pode produzir mais, por mais dinheiro que se injete.
Como injetar, em tempos de crise econômica, as enormes somas de que o exército precisa é algo que cada vez mais especialistas se perguntam. Mas, deixando de lado o problema do financiamento, os planos anunciados pelo presidente Dimitri Medvedev continuam difíceis de cumprir. Por exemplo, a Rússia não tem onde construir os porta-aviões. Na época soviética faziam isso em Nikolayevsk, hoje Ucrânia. Para cumprir os planos declarados seria preciso construir estaleiros especiais em outro lugar, e sem experiência nesse campo. Além disso, os construídos em Nikolayevsk não eram muito bons, segundo Felgengauer.
Não menos grave é o problema humano: a resistência que, segundo especialistas, haverá contra a reforma, sobretudo de parte dos oficiais que ficarão na rua. A verdade é que estes serão menos que a simples diferença entre 350 mil e 150 mil, já que há dezenas de milhares de postos que estão vagos, mas em todo caso serão mais de 100 mil homens”.
Rodrigo Fernández, em Moscou, escreveu para o jornal espanhol El Pais o seguinte texto que li no UOL em tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves:
“Os militares russos estão consternados. O governo decidiu realizar em passo acelerado uma reforma que tem como objetivo reduzir as forças armadas a um milhão de efetivos até 2012 e transformar seu exército em estruturas móveis e ágeis, dotadas de armas modernas. Motivo da pressa?
A guerra com a Geórgia deixou claro que o exército atual é um aparelho atrofiado, lento, e suas armas estão velhas não só no plano moral, mas também físico. A reforma anunciada pelo ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, é, segundo especialistas, a mais radical que houve na história russa desde a empreendida por Nikita Kruschev e prevê uma drástica diminuição da quantidade de oficiais, dos atuais 350 mil para 150 mil nos próximos quatro anos.
A guerra dos Cinco Dias, como chamam na Rússia o conflito armado com a Geórgia, mostrou que o sistema de direção do exército está completamente obsoleto e levou o Kremlin a abandonar o sistema de quatro escalões tradicional da época soviética - distrito militar, exército, divisão, regimento - e substituí-lo por um de três, mais moderno: distrito militar, comando operacional, brigada.
Tanto o armamento como a preparação estão no nível dos anos 1960, segundo o primeiro vice-ministro da Defesa, Alexandr Komakov. O mais novo que se pode encontrar no exército data dos anos 1980. E há uma quantidade excessiva de generais e coronéis, mas poucos tenentes.
Durante o recente conflito, os militares não tinham meios de comunicação modernos e os que possuíam eram inúteis contra os georgianos, que demonstraram uma excelente guerra radioeletrônica.
O jornal "Komsomolsakaya Pravda" conta que um correspondente teve de emprestar ao comandante do 58º Exército, quando este avançava para Tskhinvali, seu telefone via satélite porque o general não podia se comunicar com a artilharia e precisava que esta disparasse contra as colinas dominadas pelos georgianos. Os russos também careciam de meios de comunicação individuais, de dispositivos para enxergar à noite e muitos outros equipamentos.
O sistema russo Glonass - equivalente ao GPS americano - não funciona porque não há quantidade suficiente de satélites no espaço.
As unidades do distrito militar do Cáucaso do Norte "combateram como fazia o exército soviético há 20, 30 e até 50 anos", resume a situação o presidente do Instituto de Avaliações Estratégicas, Alexandr Konovalov.
Os planos de modernização das forças armadas russas prevêem até 2020 não só solucionar essas deficiências como também investir grandes somas na construção de novos porta-aviões, submarinos, aviões de quinta geração e no desenvolvimento da defesa aeroespacial. Para cumprir esses planos serão necessários no mínimo US$ 15 bilhões, segundo cálculos de Konovalov, o que exigirá aumentar substancialmente o orçamento destinado aos encargos estatais de armamento. Por enquanto, o orçamento militar aumentará no próximo ano 26%, chegando a cerca de US$ 47 bilhões (37 bilhões de euros): será o mais alto desde a queda da União Soviética, mas ainda menos de 3% do PIB e muito inferior ao dos EUA.
Especialistas independentes, como Pavel Felgengauer, afirmam que dar essas quantias ao complexo da indústria militar (CIM) russo é simplesmente gastar mal o dinheiro, e o que se deve fazer é comprar armamento moderno no estrangeiro, o que se fazia na época czarista e inclusive na soviética e hoje é proibido. O principal problema é que o CIM não tem mais capacidades que as atuais, e por isso simplesmente não pode produzir mais, por mais dinheiro que se injete.
Como injetar, em tempos de crise econômica, as enormes somas de que o exército precisa é algo que cada vez mais especialistas se perguntam. Mas, deixando de lado o problema do financiamento, os planos anunciados pelo presidente Dimitri Medvedev continuam difíceis de cumprir. Por exemplo, a Rússia não tem onde construir os porta-aviões. Na época soviética faziam isso em Nikolayevsk, hoje Ucrânia. Para cumprir os planos declarados seria preciso construir estaleiros especiais em outro lugar, e sem experiência nesse campo. Além disso, os construídos em Nikolayevsk não eram muito bons, segundo Felgengauer.
Não menos grave é o problema humano: a resistência que, segundo especialistas, haverá contra a reforma, sobretudo de parte dos oficiais que ficarão na rua. A verdade é que estes serão menos que a simples diferença entre 350 mil e 150 mil, já que há dezenas de milhares de postos que estão vagos, mas em todo caso serão mais de 100 mil homens”.
OS HISPÂNICOS NOS EUA SÃO UM ASSUNTO DA ESPANHA?
No portal UOL li o seguinte texto de Javier Valenzuela do jornal espanhol El País, traduzido por Luiz Roberto Mendes Gonçalves:
“A Espanha carece de uma política de Estado para os mais de 45 milhões de hispânicos dos EUA, uma comunidade chave nas próximas eleições e no futuro desse país. Uma relação mais estreita seria mutuamente vantajosa”
“Poucos compatriotas de Obama e McCain sabem que o primeiro europeu que pisou o solo do que hoje conhecemos como EUA foi um espanhol: Juan Ponce de León, em 1513, nas costas da Flórida. Ou que a cidade americana mais antiga é San Agustin, na Flórida, fundada em 1565. Ou que o nascimento de Santa Fe (Novo México) foi anterior à chegada a Massachusetts, em 1620, do navio inglês Mayflower com seus peregrinos.
Escritos a partir do anglocentrismo, os manuais americanos ignoram a história de um terço desse país. Mas quantos conhecem esses fatos na própria Espanha? Poucos, muito poucos.
O espanhol não é nenhuma novidade nos EUA, embora a maioria de seus habitantes, educados em uma mitologia estritamente branca, anglo-saxã e protestante (wasp), o desconheça. Os ancestrais de muitos hispânicos do Novo México, Texas ou Califórnia viviam ali muito antes da independência americana (1776). Como dizem achando graça, não é que eles atravessaram a fronteira, foi a fronteira que os atravessou quando em 1847 os jovens Estados Unidos anglos arrebataram ao México a metade setentrional de seu território.
Há pouco tempo soubemos que a valenciana Noelia Zanón tinha sido contratada para cantar os temas em castelhano da campanha de Obama.
Aqui houve alguns risos a respeito (quem é Noelia Zanón?) e nenhuma reflexão sobre o fundo do assunto: por que o Partido Democrata escolhe uma espanhola para se dirigir aos eleitores latinos? E, sobretudo, a Espanha pode desempenhar um papel no universo das comunidades hispânicas ao norte do rio Bravo?
Calcula-se que em 4 de novembro cerca de 10 milhões de latinos irão às urnas. A maioria deles, 3 em cada 5, parece inclinada por Obama; é o presidente poeta, como o chamou Ariel Dorfman. Mas essa é só a ponta de um grande iceberg. Os hispânicos, 45 milhões de pessoas no mínimo, já são a primeira minoria dos EUA, 15,1% da população, segundo o centro de pesquisas Pew. E o castelhano, usado por Obama e McCain para divulgar mensagens eleitorais, não é só a segunda língua dos EUA como esse país é o segundo de fala hispânica no mundo, depois do México e à frente da Espanha e da Colômbia.
É verdade que os hispânicos constituem um mosaico. Suas divisões são inúmeras: em função das cerca de 20 origens nacionais diferentes; da data de sua chegada aos EUA e de suas motivações (políticas para os exilados cubanos, econômicas para os mexicanos e quase todos os demais). Mas embora a grande maioria ganhe a vida em inglês já não existe como em tempos distantes a vontade de esquecer a língua de Cervantes e as raízes hispânicas.
Perderam o complexo, acaba de indicar Eduardo Lago, diretor do Instituto Cervantes em Nova York, na apresentação da Enciclopédia do Espanhol nos EUA. E acima da diversidade de suas procedências surge a consciência de uma identidade comum. Além disso, já não são só trabalhadores braçais - sua transformação em classe média é galopante.
O interesse do fenômeno para a Espanha deveria ser evidente. Para começar, os hispânicos (cerca de US$ 60 mil de renda média anual) são um mercado natural para produtos editoriais e culturais espanhóis, assim como uma via de entrada para outro tipo de bens e serviços no mercado americano em geral. Podem, é claro, desempenhar o papel de ponte política, econômica e cultural entre a Espanha e os EUA, sem esquecer as possibilidades de "triangulação" com a América Latina.
A maioria dos latinos dos EUA desconhece a Espanha; mal a localiza no mapa, e quando o faz não lhe dá mais importância que à Itália ou o Reino Unido. No entanto, uma estratégia espanhola de penetração e influência nesse mundo, da qual participassem os poderes públicos, empresas privadas e meios de comunicação, poderia lhes oferecer um pacote interessante:
1. Um elemento simbólico unificador das diferentes comunidades hispânicas. O que todas têm em comum - idioma, tradições, forma de vida, elementos culturais... - não se explica sem a Espanha. É o que disseram o rei Juan Carlos em Nova York (1997) e Washington (2001) e o príncipe de Astúrias em Washington (2003).
2. Uma raiz na própria história americana. O reino da Espanha teve uma ampla presença ao norte do rio Bravo tanto no tempo (1513-1822) como no espaço (do Caribe ao Pacífico). Os hispânicos não são recém-chegados aos EUA, estão em casa. Não tanto quanto os indígenas, mas tanto ou mais que os anglos.
PRESTÍGIO
3. A Espanha é um país europeu tão antigo ou mais que a Inglaterra e hoje constitui uma sociedade democrática, aberta, tolerante, com um nível razoável de proteção social e uma cultura atraente (Pedro Almodóvar, Antonio Banderas, Javier Bardem...), onde vivem amplas comunidades procedentes do outro lado do Atlântico e que renovou seus vínculos com a América Latina. Diante da superioridade política, econômica e cultural dos wasp, os hispânicos têm uma grande necessidade do que eles mesmos chamam de "respeito", e a Espanha pode lhes oferecer uma imagem de qualidade, suscetível de ser um patrimônio próprio.
4. Porta da Europa, o maior mercado do mundo. Como escreveu neste jornal Vicente Palacio, a Espanha deve se apresentar aos hispânicos dos EUA como "um parceiro europeu confiável, dinâmico e que vai ao encontro em seu mesmo idioma".
EDUCAÇÃO E FINANCIAMENTO
5.Em um congresso de empresários hispânicos e espanhóis realizado em 2004, na Casa América, os primeiros contaram que as duas grandes demandas de sua comunidade são educação e capital. Em relação à educação, salientaram que a contribuição espanhola poderia consistir na concessão de bolsas para universitários e uma maior presença editorial e cultural.
Em relação ao segundo, convidaram as entidades bancárias espanholas a se implantar em localidades com alta presença latina, coisa que o BBVA e o Santander Central Hispano já começaram a fazer.
INDÚSTRIAS DE PONTA
6. Jaime Malet e Paul Isbell lembraram aqui mesmo que a Espanha é vanguardista no setor de energias renováveis e que isso é muito atraente para os EUA, que já não podem continuar funcionando com o consumo ilimitado de petróleo barato. O setor espanhol das grandes infra-estruturas tem muitas possibilidades nesse país.
Na segunda metade dos anos 1990, coincidindo com o crescente peso latino nos EUA de Clinton - a moda Macarena - e com a maré de investimentos espanhóis na América Latina, começou-se a falar na Espanha sobre os hispânicos como um possível assunto de Estado. "Os espanhóis temos a obrigação de definir que papel podemos ter em uma nova dinâmica social que pode mudar os próprios EUA", disse Antonio Garrigues Walker na qualidade de presidente da Fundação Conselho Espanha-Estados Unidos. De fato, as primeiras análises sobre o fenômeno procederam dessa entidade, que definiu os hispânicos como um potencial aliado estratégico da Espanha.
Deve-se reconhecer que Aznar incorporou os hispânicos às prioridades de sua política externa, a ponto de ele mesmo ter feito várias viagens aos EUA destinadas exclusivamente a esse universo; em 2003 dirigiu-se em Austin (Texas) à assembléia anual do Conselho Nacional La Raza.
Lamentavelmente, tudo ficou na retórica, o apoio a Bush na guerra do Iraque e a um Aznar falando com um grotesco sotaque "tex-mex". Cabe igualmente lamentar que nem Zapatero nem Moratinos tenham evidenciado a menor preocupação por esse tema.
E se algum destinatário evidente tem o projeto de uma marca Espanha que vários organismos públicos e privados tentam promover, é essa comunidade de comunidades que são os hispânicos dos EUA. Segundo especialistas, seria preciso forjar uma política de Estado da qual participassem não só os governos, mas também as empresas e a sociedade civil. Seus primeiros destinatários teriam de ser os líderes e as organizações do mundo latino-americano, em particular os que transcendem suas origens nacionais e defendem o pan-hispanismo. E não se trata de que a Espanha pretenda substituir países como México, Cuba ou Brasil. A estratégia espanhola deve se inserir no âmbito ibero-americano.
Esperando Obama, há aqui o que María Jesús Criado, do Real Instituto Elcano, definiu uma vez como uma "relação por construir".
“A Espanha carece de uma política de Estado para os mais de 45 milhões de hispânicos dos EUA, uma comunidade chave nas próximas eleições e no futuro desse país. Uma relação mais estreita seria mutuamente vantajosa”
“Poucos compatriotas de Obama e McCain sabem que o primeiro europeu que pisou o solo do que hoje conhecemos como EUA foi um espanhol: Juan Ponce de León, em 1513, nas costas da Flórida. Ou que a cidade americana mais antiga é San Agustin, na Flórida, fundada em 1565. Ou que o nascimento de Santa Fe (Novo México) foi anterior à chegada a Massachusetts, em 1620, do navio inglês Mayflower com seus peregrinos.
Escritos a partir do anglocentrismo, os manuais americanos ignoram a história de um terço desse país. Mas quantos conhecem esses fatos na própria Espanha? Poucos, muito poucos.
O espanhol não é nenhuma novidade nos EUA, embora a maioria de seus habitantes, educados em uma mitologia estritamente branca, anglo-saxã e protestante (wasp), o desconheça. Os ancestrais de muitos hispânicos do Novo México, Texas ou Califórnia viviam ali muito antes da independência americana (1776). Como dizem achando graça, não é que eles atravessaram a fronteira, foi a fronteira que os atravessou quando em 1847 os jovens Estados Unidos anglos arrebataram ao México a metade setentrional de seu território.
Há pouco tempo soubemos que a valenciana Noelia Zanón tinha sido contratada para cantar os temas em castelhano da campanha de Obama.
Aqui houve alguns risos a respeito (quem é Noelia Zanón?) e nenhuma reflexão sobre o fundo do assunto: por que o Partido Democrata escolhe uma espanhola para se dirigir aos eleitores latinos? E, sobretudo, a Espanha pode desempenhar um papel no universo das comunidades hispânicas ao norte do rio Bravo?
Calcula-se que em 4 de novembro cerca de 10 milhões de latinos irão às urnas. A maioria deles, 3 em cada 5, parece inclinada por Obama; é o presidente poeta, como o chamou Ariel Dorfman. Mas essa é só a ponta de um grande iceberg. Os hispânicos, 45 milhões de pessoas no mínimo, já são a primeira minoria dos EUA, 15,1% da população, segundo o centro de pesquisas Pew. E o castelhano, usado por Obama e McCain para divulgar mensagens eleitorais, não é só a segunda língua dos EUA como esse país é o segundo de fala hispânica no mundo, depois do México e à frente da Espanha e da Colômbia.
É verdade que os hispânicos constituem um mosaico. Suas divisões são inúmeras: em função das cerca de 20 origens nacionais diferentes; da data de sua chegada aos EUA e de suas motivações (políticas para os exilados cubanos, econômicas para os mexicanos e quase todos os demais). Mas embora a grande maioria ganhe a vida em inglês já não existe como em tempos distantes a vontade de esquecer a língua de Cervantes e as raízes hispânicas.
Perderam o complexo, acaba de indicar Eduardo Lago, diretor do Instituto Cervantes em Nova York, na apresentação da Enciclopédia do Espanhol nos EUA. E acima da diversidade de suas procedências surge a consciência de uma identidade comum. Além disso, já não são só trabalhadores braçais - sua transformação em classe média é galopante.
O interesse do fenômeno para a Espanha deveria ser evidente. Para começar, os hispânicos (cerca de US$ 60 mil de renda média anual) são um mercado natural para produtos editoriais e culturais espanhóis, assim como uma via de entrada para outro tipo de bens e serviços no mercado americano em geral. Podem, é claro, desempenhar o papel de ponte política, econômica e cultural entre a Espanha e os EUA, sem esquecer as possibilidades de "triangulação" com a América Latina.
A maioria dos latinos dos EUA desconhece a Espanha; mal a localiza no mapa, e quando o faz não lhe dá mais importância que à Itália ou o Reino Unido. No entanto, uma estratégia espanhola de penetração e influência nesse mundo, da qual participassem os poderes públicos, empresas privadas e meios de comunicação, poderia lhes oferecer um pacote interessante:
1. Um elemento simbólico unificador das diferentes comunidades hispânicas. O que todas têm em comum - idioma, tradições, forma de vida, elementos culturais... - não se explica sem a Espanha. É o que disseram o rei Juan Carlos em Nova York (1997) e Washington (2001) e o príncipe de Astúrias em Washington (2003).
2. Uma raiz na própria história americana. O reino da Espanha teve uma ampla presença ao norte do rio Bravo tanto no tempo (1513-1822) como no espaço (do Caribe ao Pacífico). Os hispânicos não são recém-chegados aos EUA, estão em casa. Não tanto quanto os indígenas, mas tanto ou mais que os anglos.
PRESTÍGIO
3. A Espanha é um país europeu tão antigo ou mais que a Inglaterra e hoje constitui uma sociedade democrática, aberta, tolerante, com um nível razoável de proteção social e uma cultura atraente (Pedro Almodóvar, Antonio Banderas, Javier Bardem...), onde vivem amplas comunidades procedentes do outro lado do Atlântico e que renovou seus vínculos com a América Latina. Diante da superioridade política, econômica e cultural dos wasp, os hispânicos têm uma grande necessidade do que eles mesmos chamam de "respeito", e a Espanha pode lhes oferecer uma imagem de qualidade, suscetível de ser um patrimônio próprio.
4. Porta da Europa, o maior mercado do mundo. Como escreveu neste jornal Vicente Palacio, a Espanha deve se apresentar aos hispânicos dos EUA como "um parceiro europeu confiável, dinâmico e que vai ao encontro em seu mesmo idioma".
EDUCAÇÃO E FINANCIAMENTO
5.Em um congresso de empresários hispânicos e espanhóis realizado em 2004, na Casa América, os primeiros contaram que as duas grandes demandas de sua comunidade são educação e capital. Em relação à educação, salientaram que a contribuição espanhola poderia consistir na concessão de bolsas para universitários e uma maior presença editorial e cultural.
Em relação ao segundo, convidaram as entidades bancárias espanholas a se implantar em localidades com alta presença latina, coisa que o BBVA e o Santander Central Hispano já começaram a fazer.
INDÚSTRIAS DE PONTA
6. Jaime Malet e Paul Isbell lembraram aqui mesmo que a Espanha é vanguardista no setor de energias renováveis e que isso é muito atraente para os EUA, que já não podem continuar funcionando com o consumo ilimitado de petróleo barato. O setor espanhol das grandes infra-estruturas tem muitas possibilidades nesse país.
Na segunda metade dos anos 1990, coincidindo com o crescente peso latino nos EUA de Clinton - a moda Macarena - e com a maré de investimentos espanhóis na América Latina, começou-se a falar na Espanha sobre os hispânicos como um possível assunto de Estado. "Os espanhóis temos a obrigação de definir que papel podemos ter em uma nova dinâmica social que pode mudar os próprios EUA", disse Antonio Garrigues Walker na qualidade de presidente da Fundação Conselho Espanha-Estados Unidos. De fato, as primeiras análises sobre o fenômeno procederam dessa entidade, que definiu os hispânicos como um potencial aliado estratégico da Espanha.
Deve-se reconhecer que Aznar incorporou os hispânicos às prioridades de sua política externa, a ponto de ele mesmo ter feito várias viagens aos EUA destinadas exclusivamente a esse universo; em 2003 dirigiu-se em Austin (Texas) à assembléia anual do Conselho Nacional La Raza.
Lamentavelmente, tudo ficou na retórica, o apoio a Bush na guerra do Iraque e a um Aznar falando com um grotesco sotaque "tex-mex". Cabe igualmente lamentar que nem Zapatero nem Moratinos tenham evidenciado a menor preocupação por esse tema.
E se algum destinatário evidente tem o projeto de uma marca Espanha que vários organismos públicos e privados tentam promover, é essa comunidade de comunidades que são os hispânicos dos EUA. Segundo especialistas, seria preciso forjar uma política de Estado da qual participassem não só os governos, mas também as empresas e a sociedade civil. Seus primeiros destinatários teriam de ser os líderes e as organizações do mundo latino-americano, em particular os que transcendem suas origens nacionais e defendem o pan-hispanismo. E não se trata de que a Espanha pretenda substituir países como México, Cuba ou Brasil. A estratégia espanhola deve se inserir no âmbito ibero-americano.
Esperando Obama, há aqui o que María Jesús Criado, do Real Instituto Elcano, definiu uma vez como uma "relação por construir".
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