domingo, 29 de janeiro de 2012
A VINGANÇA DOS DINOSSAUROS
Por Mauro Santayana
“Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo federal durante o mandato de Collor, quando o ‘caçador de marajás’ iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da ‘modernidade’. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como ‘dinossauros’, ou seja, ‘animais dos tempos jurássicos’.
Iniciou-se, com o confisco dos haveres bancários, o processo de desnacionalização da economia, sob o comando da senhora Zélia Cardoso de Melo e do economista Eduardo Modiano, nomeado presidente do BNDES com a missão de desmantelar o setor estatal e entregar suas empresas aos empreendedores privados que se associassem às multinacionais.
Naquela época, publiquei artigo na ‘Gazeta Mercantil’, em que fazia a necessária distinção entre os ‘dinossauros’ – uma espécie limpa, sólida, quase toda vegetariana – e os ‘murídeos’: camundongos, ratos e ratazanas.
É difícil entender como pessoas adultas, detentoras de títulos acadêmicos, alguns deles respeitáveis, puderam fazer análise tão grosseira do processo histórico. Mas eles sabiam o que estavam fazendo. Os economistas, sociólogos e políticos que se alinharam ao movimento neoliberal – excetuados os realmente parvos e inocentes úteis – fizeram das torções lógicas um meio de enriquecimento rápido.
Aproveitando-se dos equívocos e da corrupção ideológica dos quadros dirigentes dos países socialistas – que vinham de muito antes – os líderes euro-norte-americanos quiseram muito mais do que tinham, e resolveram recuperar a posição de seus antecessores durante o período de acumulação acelerada do capitalismo do século 19. Era o retorno ao velho liberalismo da exploração desapiedada dos trabalhadores, que havia provocado a reação dos movimentos operários em quase toda a Europa em 1848 (e animaram Marx e Engels a publicar seu ‘Manifesto Comunista’) e, logo depois, a epopéia rebelde da Comuna de Paris, com o martírio de milhares de trabalhadores franceses.
Embora a capitulação do Estado se tenha iniciado com Reagan e Thatcher, no início dos oitenta, o sinal para o assalto em arrastão veio com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989 – coincidindo com a vitória de Collor nas eleições brasileiras. Não se contentaram os vitoriosos em assaltar os cofres públicos e em exercer a prodigalidade em benefício de seus associados do mercado financeiro. A arrogância e a insolência, nas manifestações de desprezo para com os pobres, que, a seu juízo, deviam ser excluídos da sociedade econômica, roçavam a abjeção. Em reunião realizada então na Califórnia, cogitou-se, pura e simplesmente, de se eliminarem quatro quintos da população mundial, sob o argumento de que as máquinas poderiam facilmente substituir os proletários, para que os 20% restantes pudessem usufruir de todos recursos naturais do planeta.
Os intelectuais humanistas – e mesmo os não tão humanistas, mas dotados de pensamento lógico-crítico – alertaram que isso seria impossível e que a moda neoliberal, com a globalização exacerbada da economia, conduziria ao malogro. E as coisas se complicaram, logo nos primeiros anos, com a ascensão descontrolada dos administradores profissionais – os chamados ‘executivos’, que, não pertencendo às famílias dos acionistas tradicionais, nem aos velhos quadros das empresas, atuavam com o espírito de assaltantes. Ao mesmo tempo, os bancos passaram a controlar o capital dos grandes conglomerados industriais.
Os “executivos”, dissociados do espírito e da cultura das empresas produtivas, só pensavam em enriquecer-se rapidamente, mediante as fraudes. É de estarrecer ouvir homens como George Soros, Klaus Schwab e outros, outrora defensores ferozes da liberdade do mercado financeiro e dos instrumentos da pirataria, como os paraísos fiscais, pregar a reforma do sistema e denunciar a exacerbada desigualdade social no mundo como uma das causas da crise atual do capitalismo.
Isso sem falar nos falsos ‘repentiti’ nacionais que, em suas “análises” econômicas e políticas, nos grandes meios de comunicação, começam a identificar a desigualdade excessiva como séria ameaça ao capitalismo, ou seja, aos lucros. Quando se trata de jornalistas econômicos e políticos, a ignorância costuma ser companheira do oportunismo. Da mesma maneira que louvavam as privatizações e a “reengenharia” das empresas que “enxugavam” as folhas de pagamento, colocando os trabalhadores na rua, e aplaudiam os arrochos fiscais, em detrimento dos serviços essenciais do Estado, como a saúde, a educação e a segurança, sem falar na previdência, admitem agora os excessos do capitalismo neoliberal e financeiro, e aceitam a intervenção do Estado, para salvar o sistema.
Disso tudo nós sabíamos, e anunciamos o desastre que viria. Mas foi preciso que dezenas de milhares morressem nas guerras do Oriente Médio, na Eurásia, e na África, e que certos banqueiros fossem para a cadeia, como Madoff, e que o desemprego assolasse os países ricos, para que esses senhores vissem o óbvio. Na Espanha, há hoje um milhão e meio de famílias nas quais todos os seus membros estão desempregados.
Não nos enganemos. Eles pretendem apenas ganhar tempo e voltar a impedir que o Estado volte ao seu papel histórico. Mas o momento é importante para que os cidadãos se mobilizem, e aproveitem esse recuo estratégico do sistema, a fim de recuperar para o Estado a direção das sociedades nacionais, e reocupar, com o povo, os parlamentos e o poder executivo, ali onde os banqueiros continuam mandando.”
FONTE: escrito por Mauro Santayana, colunista político do “Jornal do Brasil”, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da “Ultima Hora” (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a “Folha de S. Paulo” (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.” Transcrito no site “Carta Maior” (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5430) [imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’].
PETROBRAS ENTRE AS MAIS SUSTENTÁVEIS DO MUNDO
“Pelo terceiro ano consecutivo, a Petrobras integra o “Global 100”, ranking anual das 100 empresas mais sustentáveis do mundo, elaborado pela revista canadense “Corporate Knights”. O anúncio foi feito durante o “Fórum Econômico Mundial”, em Davos ["World Economic Forum Annual Meeting 2012". Davos-Klosters, Switzerland (Suiça)].
A Petrobras subiu sete posições em relação ao ano passado e alcançou a 81ª posição do ranking, figurando mais uma vez entre as três empresas brasileiras da lista, junto com Natura e Bradesco.
O “Global 100” avaliou 3500 empresas de 22 países e de todos os setores da economia. Foram avaliados critérios como gestão energética, emissões de gases do efeito estufa, recursos hídricos, resíduos, inovação, segurança, transparência, entre outros. Criado em 2005, o ranking é divulgado todos os anos no ‘Fórum Econômico Mundial’.”
FONTE: blog “Fatos e Dados”, da Petrobras (http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2012/01/27/petrobras-ranking-mais-sustentaveis-mundo/).
A Petrobras subiu sete posições em relação ao ano passado e alcançou a 81ª posição do ranking, figurando mais uma vez entre as três empresas brasileiras da lista, junto com Natura e Bradesco.
O “Global 100” avaliou 3500 empresas de 22 países e de todos os setores da economia. Foram avaliados critérios como gestão energética, emissões de gases do efeito estufa, recursos hídricos, resíduos, inovação, segurança, transparência, entre outros. Criado em 2005, o ranking é divulgado todos os anos no ‘Fórum Econômico Mundial’.”
FONTE: blog “Fatos e Dados”, da Petrobras (http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2012/01/27/petrobras-ranking-mais-sustentaveis-mundo/).
O ANO DA BATALHA CONTRA OS JUROS
Por Fernando Brito
“Como dissemos em post anterior [ver neste blog postagem de 28 de janeiro de 2012, sob o título “ATA DO COPOM MOSTRA AS APOSTAS DO BANCO CENTRAL”: http://democraciapolitica.blogspot.com/2012/01/ata-do-copom-mostra-as-apostas-do-banco.html], não há quem possa alegar “surpresa” no mercado com a – mais que indicação – afirmação do Banco Central descerá à casa de um dígito.
E o boletim Focus, que será divulgado segunda-feira (30), com as estimativas de sexta-feira, sobre inflação e juros, embora não vá trazer baixa muito expressiva na previsão inflacionária – o mercado vai “resistir” ainda por mais algum tempo em admitir que a taxa pode, inclusive, ficar abaixo de 5%, ajudado por um IPCA de janeiro que se situará ainda acima do 0,5% – o que seria o cenário ideal estabelecido pelo Governo – mas a expectativa sobre os juros públicos, que vinha estável em 10,5%, deve levar um “tombo” de quase um ponto.
Ou seja, o índice-base sobre o qual os bancos calculam o custo dos empréstimos vai sofrer, de uma só vez, impacto de magnitude poucas vezes experimentada nos últimos tempos.
O cenário de expansão do crédito, que já se comportou mais incisiva do que esperavam as próprias análises do BC, apontando crescimento de 19% em 2011, mesmo com juros mais elevados, sem que isso comprometesse a regularidade dos pagamentos.
Aliás, o blog [“Projeto Nacional”] já advertia, em meio às matérias que proclamavam aumento da inadimplência, que o movimento real seria o contrário, o que é confirmado não apenas pelos dados gerais dos bancos como, ainda, pela melhoria da qualidade do crédito medida pelo SERASA.
O gráfico publicado sábado pela [revista britânica] “The Economist”, que a gente reproduz aí em cima, comparando as taxas de juros reais (descontada a inflação) dos países em desenvolvimento – nos desenvolvidos está negativa em todos – mostra que não há que temer que baixa nos nossos juros sirva de razão para fuga de capitais. Exceto a China, não há país com estabilidade político-econômica que ofereça taxas sequer a metade das nossas, e olhe lá.
O governo brasileiro sabe que será este ano a sua batalha decisiva contra os juros e que essa luta terá vários fronts: câmbio, inflação, arrecadação/superávit das receitas e crédito para investimentos ou consumo.
Os dois primeiros -embora sujeitos a imprevisibilidades – mostram-se relativamente serenos. Os dois últimos, sensíveis a medidas e ações governamentais, também são de mais lenta construção.
É por isso que ninguém deve se enganar com resultados relativamente modestos nos primeiros meses do ano. É de abril em diante que os reflexos da política anticíclica que está em curso começarão a mostrar seus resultados mais consistentes.
E é também aí que aquela barrinha azul do gráfico, que é uma cruz nas costas de nosso país, vai começar a encolher.”
FONTE: escrito por Fernando Brito no blog “Projeto Nacional” (http://blogprojetonacional.com.br/o-ano-da-batalha-contra-os-juros/) [trechos entre colchetes adicionados por este blog 'democracia&política'].
“Como dissemos em post anterior [ver neste blog postagem de 28 de janeiro de 2012, sob o título “ATA DO COPOM MOSTRA AS APOSTAS DO BANCO CENTRAL”: http://democraciapolitica.blogspot.com/2012/01/ata-do-copom-mostra-as-apostas-do-banco.html], não há quem possa alegar “surpresa” no mercado com a – mais que indicação – afirmação do Banco Central descerá à casa de um dígito.
E o boletim Focus, que será divulgado segunda-feira (30), com as estimativas de sexta-feira, sobre inflação e juros, embora não vá trazer baixa muito expressiva na previsão inflacionária – o mercado vai “resistir” ainda por mais algum tempo em admitir que a taxa pode, inclusive, ficar abaixo de 5%, ajudado por um IPCA de janeiro que se situará ainda acima do 0,5% – o que seria o cenário ideal estabelecido pelo Governo – mas a expectativa sobre os juros públicos, que vinha estável em 10,5%, deve levar um “tombo” de quase um ponto.
Ou seja, o índice-base sobre o qual os bancos calculam o custo dos empréstimos vai sofrer, de uma só vez, impacto de magnitude poucas vezes experimentada nos últimos tempos.
O cenário de expansão do crédito, que já se comportou mais incisiva do que esperavam as próprias análises do BC, apontando crescimento de 19% em 2011, mesmo com juros mais elevados, sem que isso comprometesse a regularidade dos pagamentos.
Aliás, o blog [“Projeto Nacional”] já advertia, em meio às matérias que proclamavam aumento da inadimplência, que o movimento real seria o contrário, o que é confirmado não apenas pelos dados gerais dos bancos como, ainda, pela melhoria da qualidade do crédito medida pelo SERASA.
O gráfico publicado sábado pela [revista britânica] “The Economist”, que a gente reproduz aí em cima, comparando as taxas de juros reais (descontada a inflação) dos países em desenvolvimento – nos desenvolvidos está negativa em todos – mostra que não há que temer que baixa nos nossos juros sirva de razão para fuga de capitais. Exceto a China, não há país com estabilidade político-econômica que ofereça taxas sequer a metade das nossas, e olhe lá.
O governo brasileiro sabe que será este ano a sua batalha decisiva contra os juros e que essa luta terá vários fronts: câmbio, inflação, arrecadação/superávit das receitas e crédito para investimentos ou consumo.
Os dois primeiros -embora sujeitos a imprevisibilidades – mostram-se relativamente serenos. Os dois últimos, sensíveis a medidas e ações governamentais, também são de mais lenta construção.
É por isso que ninguém deve se enganar com resultados relativamente modestos nos primeiros meses do ano. É de abril em diante que os reflexos da política anticíclica que está em curso começarão a mostrar seus resultados mais consistentes.
E é também aí que aquela barrinha azul do gráfico, que é uma cruz nas costas de nosso país, vai começar a encolher.”
FONTE: escrito por Fernando Brito no blog “Projeto Nacional” (http://blogprojetonacional.com.br/o-ano-da-batalha-contra-os-juros/) [trechos entre colchetes adicionados por este blog 'democracia&política'].
O ISLÃ NORTE-AMERICANO AVANÇA NO ORIENTE MÉDIO
Por MK Bhadrakumar, no “Indian Punchline”
MK Bhadrakumar
“AMERICAN ISLAM ON MARCH IN MIDDLE EAST”
“O primeiro-ministro do Qatar, Xeique Hamad bin Jasem Al Thani, está comandando pessoalmente a carga da brigada ligeira na Baía da Tartaruga, em Manhattan, à margem do East River, no prédio da ONU, onde a Liga Árabe passa a bandeira aos EUA e aliados ocidentais para que comandem o assalto diplomático e arranquem da ONU a resolução que autorize a intervenção na Síria [1].
Está para começar uma batalha de titãs no Conselho de Segurança, tarde da noite, com todas as escaramuças de uma guerra fria.
Por ironia da história, pouco antes de subirem as cortinas no Conselho de Segurança da ONU, notícias interessantíssimas começavam a pipocar, vindas dos desertos líbios [2]: a Líbia está rachando ao meio. A tribo Warfallah, pró-Gaddafi, de Bali Walid e das maiores tribos líbias, expulsou de lá a milícia anti-Gaddafi (treinada e equipada e financiada pelo Qatar e seus mentores ocidentais) e, esta semana, formou um governo tribal local. Que Trípoli já “reconheceu”. Isso, além dos tumultos que crescem na Benghazi ocidental e por todo o país, com a insatisfação já impossível de conter contra o governo fantoche de Trípoli, lá instalado pelo Qatar e pelas potências ocidentais comandadas pelos EUA.
Mas Xeique Hamad já não tem tempo para pensar na Líbia, onde já fez o que podia e de onde seus mentores ocidentais lhe disseram que se escafedesse, porque agora o problema é a Síria. O espetáculo acabou na Líbia, já que o ocidente controla agora os grandes campos de petróleo do país. E disseram a Hamad que o resto dos desertos líbios podiam ser jogados aos cães. Hamad obedeceu. Tira o sobretudo manchado de sangue, veste uma túnica imaculadamente branca e, no sábado, embarca no avião rumo a New York.
Não é trágico que Hamad e o rei Abdullah da Arábia Saudita, um depois do outro, tenham-se autoarrogado o papel de porta-estandartes da democracia no Oriente Médio muçulmano? A tragédia dos muçulmanos do Oriente Médio está condensada nesses dois patéticos autocratas que, sob as vestes reais, tremem de medo pela própria sobrevivência. Não vá uma avalanche de reformas genuínas desabar sobre seus reinos! Portanto, Hamad e Abdullah farão das tripas coração para perpetuar a dominação ocidental – política, militar, econômica e cultural – na região.
Conselho de Segurança da ONU
A batalha diplomática que começará hoje à noite em New York tem importância histórica. Rússia e China enfrentarão pressão tremenda, porque estão exatamente no caminho da – e contra a – intervenção militar do ocidente na Síria. Se a coisa chegar até lá, será que vetarão o projeto de resolução e negarão ao ocidente a autorização para atacar a Síria? Eis a grande questão. Em alguns dias, todos saberemos a resposta.
No fundo, a intervenção clandestina por ocidente-turcos-e-árabes, já em curso, só precisa ser legitimada e levada à conclusão lógica.
Por que os muçulmanos culpam os EUA por suas desgraças? A culpa é exclusivamente deles mesmos, que permitem que gente como Hamad e Abdullah fale pelos muçulmanos.
Qual o plano de jogo dos EUA? “Russia Today” ofereceu uma brilhante análise do ABC da chamada “Primavera Árabe”, sucintamente explicada por John Bradley, autor e arabista britânico [3]. Em resumo, o levante no Oriente Médio muçulmano e a cisão entre xiitas e sunitas, artificialmente disparados, estariam criando o ambiente político ideal para semear as primeiras sementes do “Islã norte-americano” no Oriente Médio.
O grande objetivo seria perpetuar a hegemonia ocidental sobre o Oriente Médio muçulmano por mais um século, sob novos arranjos políticos locais. Autocratas como Hamad e Abdullah esperam sobreviver nessa barganha, quando o ocidente afastar-se dali. Se suas tórridas esperanças de sobrevivência são realistas ou não, só o tempo dirá. Meu palpite é que serão descartados como restos de comida num prato, tão logo o ocidente conclua a implantação das forças do Islã norte-americano no Qatar e na Arábia Saudita.
Não se trata de renascimento muçulmano ou árabe no Oriente Médio. Não se trata de democracia nas sociedades muçulmanas. O levante conhecido como “Primavera Árabe” não é sequer autóctone. Está em curso uma operação cesárea, conduzida cirurgicamente pelo ocidente em terras muçulmanas. É bem possível que o Corão que os muçulmanos do Oriente Médio terão para ler nas próximas décadas seja impresso no ocidente, financiado por Hamad e Abdullah. O mundo muçulmano bem merece espetáculo menos repugnante.
Uma variante da mesma tragédia está surgindo, também, na fímbria do “Oriente Médio Expandido” – no Afeganistão. O Qatar foi trazido por Washington para repetir a performance no Hindu Kush. Os Talibã governarão Kabul. De diferente, só, que aparecerão reciclados como islâmicos – tão logo despachem para a estratosfera sua forma arcaica de Islã tradicional e passem a praticar o “Islã norte-americano”.
Ryan Crocker
O embaixador Ryan Crocker tem razão [4]. Não se trata de dividir o Afeganistão. Trata-se de “islamizar” o Afeganistão. De fato, a unidade do Afeganistão é terrivelmente importante para a geoestratégia dos EUA. O Afeganistão deve permanecer inteiro, como entidade geopolítica una no tabuleiro da Ásia Central, com todos os adereços ideológicos de democracia islâmica. É isso, ou todo o grande jogo vira beco sem saída.
Porque, tão logo a conversão-reciclagem dos Talibã esteja completada sob supervisão de EUA-Qatar, os Talibã serão a vanguarda da mudança nas estepes da Ásia Central para o norte e demais regiões muçulmanas do Paquistão (e das regiões indianas da Caxemira, onde o “Islã norte-americano” ainda não conseguiu fincar pé).
Quando isso acontecer, algo como metade dos vastos espaços territoriais da China habitados por povos não Han (muitos dos quais são muçulmanos) e o ‘soft underbelly’ da Rússia estarão maduros para a mudança. E Paquistão e Índia que deem adeus às nascentes esperanças de se manterem como estados independentes com autonomia estratégica. Desgraçadamente, também há Hamads e Abudllahs nas elites paquistanesas e indianas.
Contudo, paradoxalmente, o que os EUA e aliados esperam de Rússia e China (e da Índia e do Paquistão), no Conselho de Segurança, é que se mantenham como audiência passiva, meros assistentes inanimados, de uma empreitada que, afinal de contas, pode ser a nêmese para esses todos – a implantação do islamismo sob controle dos EUA, como força vital, na carne de seus corpos.
O grande projeto dos EUA é meterem-se profundamente no Oriente Médio Expandido, antecipando um século ao longo do qual a Ásia estará dedicada a interromper 500 anos de dominação global exclusiva. O ocidente não cederá a hegemonia sem luta. Controlar o Oriente Médio é questão crucial na estratégia global dos EUA.
Se os EUA não conseguirem enfraquecer Rússia e China, e Índia e Paquistão – o que tentam fazer explorando as contradições mútuas (e esmagando o desafiador regime iraniano, que se rege por valores de justiça e resistência), não conseguirão deter a marcha da história em direção à liderança asiática.
Moscou sabe do que fala, quando diz que a Síria não é problema só da Rússia, quando o Conselho de Segurança da ONU reunir-se hoje para debater uma resolução que abrirá caminho para a intervenção do ocidente que tentará derrubar o governo de Damasco. A Síria é problema também da China – de todos os BRICS e do Paquistão.”
NOTAS DOS TRADUTORES:
[1] 27/1/2012, Al-Jazeera, “UN Security Council discusses Syria crisis”
[2] 27/1/2012, Hurriet News, “Libya splits before seeing unity”
[3] 26/1/2012, Russia Today, “Arab spring: Western-backed exported Islamist revolution”
[4] 24/1/2012, The Globe and Mail, “U.S. envoy in Kabul denies partition rumours”
FONTE: escrito por MK Bhadrakumar, no “Indian Punchline”, sob o título “AMERICAN ISLAM ON MARCH IN MIDDLE EAST”. O autor foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala. Transcrito no blog “redecastorphoto” traduzido pelo “Coletivo da Vila Vudu” (http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/01/o-isla-norte-americano-avanca-no.html) [Postagem por sugestão do leitor Probus].
sábado, 28 de janeiro de 2012
EUROPA CASTIGADA PELO PRÓPRIO VENENO DO EMBARGO
bandeira do Irã
“EMBARGO [contra o IRÃ]: A VOLTA DO CHICOTE NO LOMBO DE QUEM BATEU”
Por Pepe Escobar, no “Asia Times Online”
“THE IRANIAN OIL EMBARGO BLOWBACK”
“Se aquela patética coleção de poodles europeus – que o analista Chris Floyd chama deliciosamente de 'Europuppies' – conhecesse alguma coisa da cultura persa, saberia que a volta do chicote da guerra econômica, que declarara sob a forma de embargo ao petróleo do Irã, não tardaria e viria dura como rock-pauleira.
Melhor dizendo: como rock-pauleira-pauleira-mesmo. O Majlis (Parlamento do Irã) decidirá amanhã, domingo, em sessão aberta, se cancela completa e absolutamente todas as exportações de petróleo iraniano para todos os países europeus que aceitarem o embargo – segundo Emad Hosseini, relator da Comissão de Energia do Majlis [1]. E com aviso, em tom apocalíptico, via a agência de notícias FARS, cortesia do deputado Nasser Soudani: “A Europa arderá no fogo dos poços iranianos.” [2]
Soudani manifesta o pensamento de todo o establishment em Teerã, quando diz que “a estrutura das refinarias europeias só é compatível com o petróleo iraniano” – portanto, os europeus não têm alternativa; o embargo “fará subir o preço do petróleo, os europeus terão de comprar e serão obrigados a pagar mais”. Quer dizer: a Europa “terá de comprar petróleo iraniano indiretamente, dos intermediários”.
Nos termos do pacote de sanções da União Europeia, todos os contratos continuam vigentes até 1º de julho; e ficam proibidos quaisquer novos contratos. Então... imaginem que a nova legislação “preventiva” seja aprovada no Irã, nos próximos dias. Países do Club Med europeu, como Espanha e, principalmente, Itália e Grécia, estarão encurralados nas cordas, sem tempo para buscar alguma possível alternativa para o cru iraniano, extremamente leve, de altíssima qualidade.
A Arábia Saudita – e digam o que disserem os ‘especialistas’ em petróleo da imprensa corporativa ocidental – não tem capacidade reserva para suprir a demanda extra. E, sobretudo, a absoluta prioridade da Casa de Saud é vender petróleo ao preço mais alto possível (porque os sauditas precisam de muito dinheiro para subornar – além de reprimir – a própria população e fazê-la esquecer aquelas ideias estúpidas de primaveras árabes).
Então, é isso. As economias europeias já quebradas podem ser obrigadas a continuar comprando petróleo iraniano, não do Irã, diretamente, mas dos vencedores selecionados: os intermediários-abutres.
Não surpreende que os derrotados nessas táticas de Guerra Fria, anacronicamente requentadas, em tempos de mercado aberto global, sejam os próprios europeus. A Grécia – que já está à beira do abismo – compra petróleo do Irã com grandes descontos no preço. Há alta probabilidade de que o embargo lance o governo grego diretamente em situação de calote – e, daí em diante, há alta probabilidade de um efeito cascata catastrófico na eurozona (Irlanda, Portugal, Itália, Espanha e por aí vai).
O mundo carece de um Heródoto digital que explique como esses poodles europeus, que dizem representar a “civilização”, conseguiram, num só golpe, fazer sofrer, simultaneamente, a Grécia – onde nasceu a civilização ocidental – e a Pérsia, uma das civilizações mais sofisticadas que o mundo jamais conheceu. E que espantosa reencenação histórica da tragédia, como farsa! É como se gregos e persas estivessem lado a lado, nas Termópilas, assistindo ao massacre dos exércitos da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN.
ENTRE NA DANÇA DA EURÁSIA [3]
Agora, comparem aquele cenário e a ação que se vê por toda a Eurásia. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse que “Sanções unilaterais não servirão para nada”. O ministro das Relações Exteriores da China, em Pequim, com muito tato, mas irrepreensivelmente direto ao ponto, disse que “Pressionar cegamente e impor sanções ao Irã não são abordagens construtivas”. [4] O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, disse que “Temos muito boas relações com o Irã, e estamos empenhando muitos esforços para reabrir as conversações entre o Irã e os mediadores do [grupo] “5+1” [chamado “Irã 6”: os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha]. A Turquia continuará a buscar solução pacífica para a questão”.
A Índia, dos BRICS – como Rússia e China – também desaprovou as sanções. A Índia continuará a comprar petróleo do Irã, pagando em rúpias ou em ouro. Coreia do Sul e Japão, sem dúvida, arrancarão isenções do governo de Barack Obama.
Por toda a Eurásia, o comércio afasta-se rapidamente do dólar norte-americano. E, muito importante: a “Zona Asiática de Exclusão do Dólar” implica também que a Ásia, aos poucos, já se está afastando dos bancos ocidentais.
O movimento pode ser liderado pela China – mas, em todos os casos, é movimento irreversivelmente transnacional. Como sempre, siga o dinheiro. China e Brasil, dois países BRICS, começaram a afastar-se do dólar norte-americano nas transações comerciais em 2007. Rússia e China, também BRICS, seguiram o mesmo caminho em 2010. Japão e China – os dois gigantes asiáticos-, fizeram exatamente o mesmo, mês passado.
Semana passada, Arábia Saudita e China assinaram contrato para a construção de uma refinaria gigante de petróleo no Mar Vermelho. E a Índia, mais ou menos secretamente, está decidindo pagar em ouro, pelo petróleo que compre do Irã – com o que deixará de lado também o atual intermediário, um banco turco.
A Ásia quer um novo sistema internacional – e está trabalhando nessa direção.
Consequências inevitáveis no longo prazo: o dólar norte-americano – e, claro, o petrodólar – encaminha-se lentamente para a irrelevância. “Grande demais para falir” acabará por ser, não imperativo categórico, mas epitáfio.”
NOTAS DOS TRADUTORES:
[1] 27/1/2012, Press TV, Teerã, “Oil war with Iran will cripple EU”
[2] 25/1/2012, Mehr News, Teerã, “Iranian parliament mulling plan to cut oil exports to Europe”
[3] Orig. "Hit the eurasian groove". "Hit the groove" é expressão que equivale, em português, a “entre no ritmo”, “acerte o ritmo”, “caia na festa” etc. Vê-se e ouve-se uma gravação de “Hit the groove”, com o grupo Echobeat
[4] 26/1/2012, Xinhuanet, Pequim, “China says sanctions on Iran not constructive”
FONTE: escrito por Pepe Escobar, no “Asia Times Online”, sob o título “The Iranian oil embargo blowback”. Transcrito no blog “redecastorphoto” traduzido pelo “pessoal da Vila Vudu” (http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/01/pepe-escobar-embargo-volta-do-chicote.html) [título e imagem do Google adicionados por este blog ‘democracia&política’] [Postagem por sugestão do leitor Probus].
Emir Sader: “DILMA NO FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO”
“Por ser o país e a cidade sede original do “Fórum Social Mundial”, os governantes brasileiros sempre tiveram presença importante nos Foros. Lula esteve aqui ainda candidato, em 2001, voltou várias vezes. Se pode dizer que Lula esteve aqui em diferentes momentos do seu governo e do próprio Fórum, desde a vez em que esteve em Porto Alegre e em Davos, em seguida, gerando mal estar em Porto Alegre, até sua participação já como presidente consagrado, dentro do país e internacionalmente, no “Fórum Social Mundial” de Belém, em 2008, situação confirmada na ida de Lula ao FSM do Senegal, no ano passado.
O Brasil – e Porto Alegre, em particular – foi escolhido como sede do FSM por ser, ao mesmo tempo, país do Sul do mundo, vítima privilegiada do neoliberalismo; por ter uma esquerda viva e atuante; por ter uma prefeitura com as políticas públicas mais avançadas (o PT ainda não governava o país). O FSM se consagrava como o espaço de congregação e intercâmbio entre a grande maioria dos movimentos que resistiam ao neoliberalismo.
Quando Dilma – que havia estado com Lula em Belém – volta a um evento do FSM, o Brasil é outro e o próprio FSM é outro. O governo Lula, por vias menos previsíveis, foi um sucesso. E o FSM está longe do vigor que teve no passado.
As reuniões dos membros do “Conselho Internacional” com os presidentes brasileiros foram momentos tradicionais do FSM. Desta vez, a Dilma estreou nessa circunstância, da melhor maneira possível. A reunião foi realizada no hotel Plaza São Rafael, onde ela e uma parte dos que viemos a Porto Alegre estamos hospedados. Em torno de uma mesa retangular, tendo a seu lado Gilberto Carvalho – que dirigiu brevemente a palavra aos presentes, antes da fala da Dilma -, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, a ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e o assessor especial Marco Aurelio Garcia, Dilma ouviu seis intervenções de membros do FSM, 3 brasileiros e 3 de outros países – uma uruguaia, um português (Boaventura de Sousa Santos) e um venezuelano.
[Destaco uma] intervenção, a de João Pedro Stedile, que se valeu dos seus 5 minutos da melhor maneira possível. Em primeiro lugar, saudando que a presidenta do Brasil tenha vindo a Porto Alegre e não ido a Davos. Em seguida, Stedile colocou, objetivamente, com argumentos diretos, reivindicações importantes sobre a política de reflorestamento, sobre a situação dos quilombolas, sobre a economia familiar, sobre a reforma agrária. Dilma respondeu, incluindo o reconhecimento de que a extensão dos assentamentos tem que ser agilizada, com a observação de que a qualidade de vida e de trabalho nos assentamentos tem que ser substancialmente melhorada.
No conjunto da sua intervenção, pudemos ver Dilma muito segura de si, muito à vontade diante das observações críticas, enfrentando a todas com desenvoltura e argumentos. Um acento fundamental na aceleração do ritmo de crescimento econômico e de fortalecimento das políticas sociais, com a obsessão em torno do programa “Brasil sem Miséria” – é o eixo central do seu discurso, o compromisso de terminar com a miséria no país.
Dilma declarou que o povo brasileiro não aceitará mais políticas neoliberais. Que seu governo faz, multiplica e tem orgulho de desenvolver políticas de subsídios como instrumento para se opor aos automatismos do mercado, de promover os setores que foram vítimas privilegiadas do neoliberalismo – os mais pobres.
A presidenta reiterou, múltiplas vezes, a necessidade da criação do outro mundo possível, que temos que lutar conjuntamente para que seja a mensagem central da “Rio+20”. Ela alertou que nenhum governo vai defender posições anticapitalistas na “Rio+20”, que isso é tarefa dos movimentos sociais.
A exposição da Dilma deixou claro que o Brasil está engajado, desde o governo Lula, na construção de alternativa ao neoliberalismo. Retomou a declaração de Mujica, de que o Brasil não tem culpa de ser um país grande, como o Uruguai não tem culpa de ser um pais pequeno, mas que se relacionam em igualdade de condições, respeitando a soberania de cada um.
No "Gigantinho" lotado, Dilma retomou vários desses pontos, começando pela afirmação de que, na América do Sul, são os povos os que ordenam. Que o Brasil está mostrando que é possível crescer, incluir e proteger ao mesmo tempo. Que a retirada de 40 milhões de pessoas da pobreza é conquista que terá continuidade no seu governo, até o término da pobreza no país.
Que o Brasil, hoje, já é outro país, mais forte, mais desenvolvido e mais respeitado. Que conversa com todos os países do continente de igual para igual, qualquer que seja o tamanho de cada um, de forma soberana e solidária.
Dilma manifestou sua esperança de que a Palestina possa logo ter seu Estado, livre e soberano. Que o mundo possa se transformar em mundo multipolar. Que o século XXI há de ser o século das mulheres, que o Brasil contribui fortemente para isso.
Que a longa luta que sua geração desenvolveu valeu a pena. Que consigamos construir juntos o outro mundo possível. Marcou encontro na "Rio+20".
Os dois encontros mostram como precisamos multiplicar essas conversas e que Dilma precisa contar com canais de difusão das suas palavras, que hoje são filtradas pela velha mídia, que impede que o povo conheça na integralidade as posições da sua Presidenta. Para isso, a democratização dos meios de comunicação é passo essencial.”
Vídeo (fonte:blog “Tijolaço” (http://www.tijolaco.com/dilma-no-forum-social/):
FONTE: escrito pelo cientista político Emir Sader no site “Carta Maior” (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=875) [imagem do Google, entre colchetes e vídeo adicionados por este blog ‘democracia&política’]
LUCRO DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA: “ELES PRECISAM DE NÓS. MAIS DO QUE PRECISAMOS DELES”
Por Leonardo Sakamoto, no “Blog do Sakamoto”
“A indústria automobilística remeteu 5,58 bilhões de dólares em lucros e dividendos ao exterior no ano passado. O valor – equivale a 19% de todas remessas brasileiras desse tipo e é 36% superior ao montante enviado em 2010 – foi tema de boa matéria de Pedro Kutney, na sexta-feira no UOL (http://carros.uol.com.br/ultnot/2012/01/27/montadoras-fazem-remessa-recorde-de-us-56-bilhoes-ao-exterior-em-2011.jhtm).
Lucro pode se traduzir em empregos, geração de renda, impostos e tudo o mais. Contudo, quando ele surge em ambiente com problemas sociais, ambientais e trabalhistas não resolvidos, deveria ser melhor avaliado.
Por exemplo, as montadoras não colocam em prática certas ações importantes para garantir qualidade de vida ao brasileiro, como a adaptação da frota nacional para diesel com menos enxofre na sua composição e que, portanto, mataria menos os moradores das grandes cidades. Ou controle mais rígido sobre sua cadeia produtiva. Hoje, ao comprar um carro, você não tem como saber se o aço ou o couro que entrou na fabricação do veículo foram obtidos através de mão-de-obra escrava e trabalho infantil ou se beneficiando de desmatamento ilegal – ilegalidades que vêm sendo apontadas pelo Ministério Público Federal e pela sociedade civil.
Alguns “especialistas” repetem que é irracional a solicitação de contrapartidas à indústria, uma vez que o aumento nas vendas gira a economia e gera empregos. Afirmam que as empresas não podem operar esquecendo que estão inseridas em economia de mercado, buscando taxa de lucro para continuar sendo viável. E que, se problemas existem, é pela falta de fiscalização do governo.
Ou seja, o Estado tem que garantir e ajudar o funcionamento das empresas, mas as empresas não podem sofrer nenhuma forma de intervenção em seu negócio – mesmo se ele for vetor de problema. Um liberalismo de brincadeirinha...
E recordar é viver: durante o pico da crise econômica de 2008, a General Motors demitiu 744 trabalhadores de sua fábrica em São José dos Campos (SP) sob a justificativa de “diminuição da atividade industrial”. Mesmo após ter recebido apoio da União e do governo do Estado de São Paulo no sentido de facilitar a compra de seus produtos por consumidores.
Se o Estado pensar só com cabeça de planilha, vai continuar fazendo do Brasil suporte para as empresas automobilísticas de outros países durante épocas de crise, deixando o nosso meio ambiente e nossos trabalhadores pagarem a conta por isso.
Sugestão: quando constatados problemas na cadeia produtiva das montadoras, que tal taxar o lucro delas a ser remetido e usar o montante para cobrir esses danos ao homem e ao meio? OK, a idéia é quase impossível (por aqui, a dignidade é relativa, enquanto a propriedade é absoluta). Mas, por isso mesmo, deliciosamente interessante imaginarmos as reações.
“Ah, isso afastará os investidores internacionais”, dirão xororôs do mercado.
Vai não… Eles precisam de nós. Mais do que precisamos deles.”
FONTE: blog “Escrivinhador” (http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/eles-precisam-de-nos-mais-do-que-precisamos-deles.html) [imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’]
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