segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A GUERRA FRIA E OS NOVOS PARADIGMAS


Manuel Cambeses Júnior, no Jornal de Angola

“O termo Guerra-Fria foi batizado por um conhecido político e economista norte-americano, de nome Bernard Baruch, e popularizado pelo célebre jornalista Walter Lippman. Entre 1945 e 1989, a ordem mundial encontrou-se regida pelas normas definidas pela Guerra-Fria. Nessas condições o planeta ficou dividido em dois grandes blocos que se enfrentavam numa intensa competição pela supremacia.

O termo “paradigma” encontra-se na moda nos nossos dias. Na essência, este pode definir-se como uma visão simplificada do mundo e que busca proporcionar sentido de direção.

É exatamente por isso que, ao enquadrar-se qualquer conflito regional, qualquer conflito étnico ou cultural, dentro do contexto de competição entre as superpotências, a Guerra-Fria passara a assumir o caráter de “modelo”.

Com a queda do Muro de Berlim, a sua preeminência desapareceu. A partir desse momento, apareceram novos paradigmas disputando o lugar que durante 45 anos correspondeu ao período da bipolaridade mundial.

O primeiro dos modelos surgidos à luz do esfacelamento da União Soviética e também o mais simplista deles foi o proclamado no livro de Francis Fukuyama: O fim da História.

De acordo com o autor, o mundo está a chegar a um ponto definitivo no seu processo evolutivo, como resultado da homogeneização de valores e crenças. O duplo triunfo da democracia e da economia de mercado passaria a unificar as diversas regiões do planeta, brindando-as com um claro denominador comum.

Ainda que esse modelo tenha sido questionado pelo seu excessivo otimismo, são muitos ainda os que crêem que, com a imposição dos valores da economia de mercado e da democracia, o mundo está a caminhar para um lugar muito mais seguro e apto para a prosperidade ilimitada.

Outro dos paradigmas diz respeito ao aspecto cultural. O seu máximo expoente é Samuel Huntington, para quem “a cultura e as identidades culturais estão a dar forma aos padrões de coesão, desintegração e conflito no mundo pós Guerra-Fria (...), e as políticas globalizadas estão a ser reconfiguradas ao redor de linhas culturais”.

Com diversas variáveis e matizes, esse paradigma cultural é também perfilhado por autores como Lawrence Harrison, Thomas Sowel, Roger Peyreffite e Benjamin Barber. Muito curiosamente, o próprio Fukuyama, após haver divulgado a sua teoria, parece ter acolhido com simpatia esse outro modelo. Já no seu livro “Confiança”, surgido em 1995, o autor reconsidera muitas de suas ideias e convicções sobre a homogeneização dos valores para concluir que o mundo continua a ser um lugar marcado pela diversidade de culturas e, portanto, de valores.

Entre os modelos emergentes encontramos o denominado “Dois Mundos”. Esse pretende explicar a orientação dos novos tempos sob a óptica de “zonas de paz e prosperidade” e “zonas de conflito e regressão”. Baseado nele, cairiam todas aquelas teorias que visualizavam o mundo a partir de uma clara linha divisória entre países e regiões que marcham para cima e os que caminham para baixo. Entre aqueles que sustentam esse pensamento, encontram-se autores como Jacques Attali, Robert Gilpin e Jean Christophe Ruffin.

O primeiro profetizou sobre um mundo formado por algumas poucas ilhas de riqueza em meio a um mar de pobreza global. O segundo referiu-se ao surgimento de um Novo Muro de Berlim entre a prosperidade crescente do mundo industrializado e a miséria irreversível do Terceiro Mundo. O último assinala que, entre os hemisférios Norte e Sul, não existe articulação possível e que são duas esferas totalmente divorciadas que se movimentam em direção contrária.

Outro dos novos paradigmas é o do caos. Segundo essa visão, o mundo está a caminhar para uma era de quebra da autoridade governamental, de crises e secessão dos Estados; de intensificação dos conflitos étnicos, tribais e religiosos; de consolidação das máfias criminais internacionais; de proliferação indiscriminada de armas de destruição em massa; de expansão do terrorismo e de generalização de migrações massivas. Entre os que sustentam essa tese encontram-se autores como Patrick Moynahan, Zbignew Brzezinski, Walter Saqueur e Michael T. Klare. A diferença fundamental entre os apologistas dessa linha e os que comungam as ideias contidas no modelo “Dois Mundos” é que para uns o caos é seletivo, enquanto que, para outros, é global.

Os diversos paradigmas, que se manejam nos dias atuais, encontram-se numa escala de graduação que abarca desde o otimismo do “Fim da História” até ao acentuado pessimismo dos cultores do caos. A verdade, como sempre ocorre, deve encontrar-se em algum ponto intermediário entre os dois extremos e deve incluir boa parte das ideias sustentadas por cada um dos modelos apresentados.”

FONTE: artigo de Manuel Cambeses Júnior publicado no Jornal de Angola Online em 05 de Janeiro, 2010 (http://jornaldeangola.sapo.ao/19/0/a_guerra_fria_e_os_novos_paradigmas). O autor é Coronel Aviador da FAB Ref  [imagem do Google adicionada por este blog].

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