segunda-feira, 5 de março de 2012

MARINHA E PETROBRAS RECUPERAM CHATA DE ÓLEO QUE HAVIA AFUNDADO NA ANTÁRTICA

Dispositivo de içamento do Navio da Petrobras “Gulmar Atlantis”, já com a chata ao lume d'água (Foto:MB)

MARINHA DO BRASIL - CENTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA MARINHA

Nota à Imprensa – REFLUTUAÇÃO DA CHATA NA ANTÁRTICA

“A Marinha do Brasil (MB) informa que a chata de óleo que havia afundado no final do ano passado, nas proximidades da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), quando realizava transporte do óleo “gasoil arctic”, foi reflutuada e levada para terra, onde se encontra em segurança, sem causar qualquer dano ambiental.

A reflutuação foi conduzida por mergulhadores embarcados no Navio “Gulmar Atlantis”, cedido pela Petrobras, e apoiado pelo Navio Polar (NPo) “Almirante Maximiano” da MB. A operação levou cerca de cinco dias para ser executada.

Navio oceanográfico polar "Almirante Maximiano"
No primeiro dia, 28 de fevereiro, foi feita inspeção por meio de “Veículo Submersível de Operação Remota” (ROV) e mergulhadores, quando se observou que as condições da chata eram semelhantes às da filmagem realizada em dezembro por uma equipe da Marinha.

No segundo dia, 29 de fevereiro, as equipes de mergulhadores se revezaram e foram feitas diversas excursões à chata, preparando-a para a reflutuação. Foram retirados componentes instalados nela, que poderiam dificultar seu içamento, tais como: as rampas de acesso e a barreira de contenção de óleo que sempre é colocada quando é feita uma faina de abastecimento, e que também afundou.

No terceiro dia, 1º de março, a chata foi levantada parcialmente para que as equipes pudessem passar as cintas por baixo de seu casco, de forma que toda a sua estrutura fosse içada pelo guindaste do Navio “Gulmar Atlantis”. O trabalho teve que ser interrompido diversas vezes tendo em vista que as condições meteorológicas reinantes não permitiam que os mergulhadores executassem suas tarefas com a devida segurança. Essas atividades foram concluídas na manhã de sábado (3).

Após a colocação desse dispositivo, ela foi içada ao lado do navio. Uma vez na superfície, os mergulhadores instalaram uma série de flutuadores ao longo de seu casco e, após isso, iniciou-se o bombeamento do óleo que estava nos seus tanques, para ser armazenado em recipientes que foram disponibilizados para o navio. Com a chata flutuando em segurança, os botes do NPo “Almirante Maximiano” e da EACF a conduziram até a praia, onde ela se encontra. Os recipientes com o óleo serão trazidos para o Rio de Janeiro pela MB.

Durante toda a operação, foi estabelecida uma barreira, com equipamentos da Petrobras, para conter possíveis vazamentos de óleo, que não ocorreram.

A Marinha do Brasil reconhece que só foi viável realizar essa complexa operação de reflutuação, no presente verão Antártico, com a parceria da Petrobras que, desde o início do planejamento, reconheceu que evitar qualquer dano ao ambiente Antártico é compromisso da nação brasileira.”

FONTE: site “DefesaNet”  (http://www.defesanet.com.br/defesa/noticia/5000/MB----Nota-a-Imprensa-–-Reflutuacao-da-chata-na-Antartica) . [Título e imagem do Google adicionados por este blog ‘democracia&política’].

A FILOSOFIA DOS EUA POR TRÁS DA “GUERRA PERPÉTUA”


MENTIRAS “NOBRES” E “GUERRA PERPÉTUA: Leo Strauss, os Neocons e o Iraque”

Por Danny Postel, em 18/10/2003, no “Information Clearing House”

AS IDEIAS DO FILÓSOFO POLÍTICO CONSERVADOR LEO STRAUSS ESTÃO INFLUENCIANDO A VISÃO DE MUNDO DO GOVERNO [DOS EUA] BUSH?

Danny Postel entrevista Shadia Drury — uma acadêmica crítica de Strauss — e pergunta a ela sobre a conexão entre os diálogos de Platão, o segredo e as mentiras e a guerra liderada pelos Estados Unidos contra o Iraque.

Shadia Drury

O que foi inicialmente um argumento contra a guerra agora faz parte do conhecimento público. É reconhecido amplamente que o governo Bush não foi honesto sobre as razões que deu para invadir o Iraque. Paul Wolfowitz, o influente subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, reconhece que as provas oferecidas para justificar a guerra eram “obscuras” e agora diz que as armas de destruição em massa não eram uma questão crucial (vejam o livro de Sheldon Rampton e John Stauber, “Armas de Enganação em Massa: os usos da propaganda na guerra de Bush contra o Iraque”, 2003).

De outra parte, Shadia Drury, professora de teoria política na Universidade de Regina em Saskatchewan, argumenta que o uso da enganação e da manipulação na atual política dos Estados Unidos deriva diretamente das doutrinas do filósofo político Leo Strauss (1899-1973). Seus discípulos incluem Paul Wolfowitz e outros neoconservadores que dirigiram boa parte da agenda do governo Bush.

Se Shadia Drury está certa, então os formuladores da política norte-americana exercem a enganação com maior coerência que seus aliados britânicos na “10 Downing Street” de Tony Blair. No Reino Unido, uma investigação pública está em andamento sobre a morte do especialista em armas biológicas David Kelly. Um tema central é se o governo enganou o público, como sugeriu um repórter da BBC.

A investigação documentou pelo menos algumas formas usadas pela equipe do primeiro-ministro para inflar a apresentação de inteligência sobre a ameaça iraquiana. Mas poucos duvidam que, em termos de sua filosofia, se tem uma: os integrantes da equipe de Blair acreditavam que precisavam parecer honestos. Se houve enganação por parte deles, é uma questão de apresentação ou de ’spin’: tentativas de projetar honestidade sob o cerco de uma mídia desonesta.

A profunda influência das ideias de Leo Strauss nos atuais arquitetos da política externa dos Estados Unidos já foi citada, esporadicamente, na mídia (daí a gozação sobre a influência dos “Leo-cons”). Christopher Hitchens, um ardente defensor da guerra, escreveu sem pejo em novembro de 2002 (num artigo intitulado “Maquiavel na Mesopotâmia”) que:

Parte do charme do argumento pela troca de regime [no Iraque] (do ponto-de-vista dos que apoiam essa política) é que depende de premissas e objetivos que não podem ser declarados publicamente, pelo menos pelo governo. Já que Paul Wolfowitz é da escola intelectual de Leo Strauss — e aparece assim na ficção de Saul Bellow na novela “Ravelstein” — podemos até supor que ele aprecia este aspecto omitido do debate”.

Talvez nenhum acadêmico tenha feito tanto para iluminar o fenômeno Strauss como Shadia Drury. Por quinze anos, ela tem colocado uma lâmpada sobre os straussianos com livros como “The Political Ideas of Leo Strauss” (1988) e “Leo Strauss and the American Right” (1997). Ela também é autora de “Alexandre Kojève: the Roots of Postmodern Politics” (1994) e “Terror and Civilization” (a ser publicado).

Argumenta que os pontos centrais do pensamento straussiano têm influência crítica nos homens de poder contemporâneo nos Estados Unidos. Ela trata disso nesta entrevista:

UMA ORDEM NATURAL DE DESIGUALDADE

Danny Postel: Você argumenta que existe importante conexão entre os ensinamentos de Leo Strauss e a forma como o governo Bush vendeu a guerra do Iraque. Qual é a conexão?

Shadia Drury: Leo Strauss era um grande crente na eficácia e na utilidade das mentiras na política. O apoio público para a guerra do Iraque se baseou em mentiras sobre o Iraque representar uma ameaça iminente aos Estados Unidos — a questão das armas de destruição em massa e a aliança fictícia entre a Al-Qaeda e o regime iraquiano.

Agora que as mentiras foram expostas, Paul Wolfowitz e outros do “partido da guerra” estão negando que essas tenham sido as razões reais para a guerra. Quais foram então as verdadeiras razões? Reorganizar o equilíbrio de poder no Oriente Médio em favor de Israel? Expandir a hegemonia dos Estados Unidos no mundo árabe? Possivelmente. Mas essas razões não seriam em si suficientemente fortes para mobilizar o apoio dos norte-americanos para a guerra. E a cabal straussiana no governo se deu conta disso.

Danny Postel: A visão dos neoconservadores é comumente identificada com “exportar democracia e valores liberais globalmente”. E quando Strauss é mencionado na imprensa, ele é tipicamente descrito como um “grande defensor da democracia liberal contra a tirania totalitária”. Você escreveu, no entanto, que Strauss tinha “uma profunda antipatia pelo liberalismo e pela democracia”.

Shadia Drury: A ideia de que Strauss era um grande defensor da democracia liberal é risível. Eu acho que os discípulos de Strauss a consideram uma mentira nobre. Ainda assim, muita gente na mídia tem sido suficientemente ingênua para acreditar nela. Como pode um admirador de Platão e Nietzsche ser um democrata liberal? Os filósofos antigos que Strauss mais celebrou acreditavam que as massas sujas não estavam prontas para a verdade ou a liberdade, e que dar a elas esses tesouros sublimes seria como jogar pérolas aos porcos. Por contraste com pensadores políticos modernos, os antigos negavam que havia qualquer direito natural à liberdade. Os seres humanos não eram nascidos nem livres, nem iguais. A condição natural humana, diziam, não é de liberdade, mas de subordinação — e na avaliação de Strauss, eles estavam certos de pensar assim.

Elogiar a sabedoria dos antigos e condenar a bobagem dos modernos foi o ponto central do livro mais famoso de Strauss, “Direito Natural e História”. A capa do livro tem uma “Declaração de Independência dos Estados Unidos”. Mas o livro é uma celebração da natureza — não dos direitos naturais do homem (como a aparência da capa do livro poderia levar a crer), mas da ordem natural de dominação e subordinação.

A NECESSIDADE DAS MENTIRAS

Danny Postel: Qual é a relevância da interpretação que Strauss deu à noção de Platão sobre ‘mentira nobre’?

Shadia Drury: Strauss, raramente, falou em seu próprio nome. Ele escreveu como comentarista de textos clássicos de teoria política. Mas ele era um comentarista extremamente opinador e maniqueista. A distinção fundamental que permeia e informa todo o seu trabalho é entre os antigos e os modernos. Strauss dividiu a história do pensamento político em dois campos: os antigos (como Platão) são sábios e decididos, enquanto os modernos (como Locke e outros liberais) são vulgares e tolos. De qualquer forma, me parece eminentemente justo e razoável atribuir a Strauss as ideias que ele atribui a seus amados antigos. Nos diálogos de Platão, todos assumem que Sócrates é o porta-voz de Platão. Mas Strauss argumenta em seu livro “The City and Man” (pp. 74-5, 77, 83-4, 97, 100, 111) que Thrasymachus é o verdadeiro porta-voz de Platão (ver também, nesse ponto M.F. Burnyeat, “Sphinx without a Secret”, “New York Review of Books”, 30 de maio de 1985).

Disso podemos subentender que Strauss compartilha a visão sábia de Platão (alias, Thrasymachus) que “a justiça é meramente o interesse do mais forte”; que os que estão no poder fazem as regras em defesa de seus próprios interesses e chamam isso de justiça. Leo Strauss repetidamente defende o realismo político de Thrasymachus e Maquiavel (veja, por exemplo, seu “Natural Right and History”, p. 106). Essa visão de mundo está claramente manifesta na política externa do atual governo dos Estados Unidos.

Uma segunda crença fundamental dos antigos de Strauss tem a ver com a insistência na necessidade do segredo e das mentiras. Em seu livro “Persecution and the Art of Writing”, Strauss descreve por que o segredo é necessário. Ele argumenta que os sábios precisam esconder seus pontos-de-vista por duas razões — para poupar o sentimento do povo e proteger a elite de possíveis vinganças. O povo não ficará feliz ao saber que existe apenas uma ordem natural — o direito dos superiores de governar os inferiores, do dono sobre o escravo, o marido sobre a mulher, dos poucos sábios contra os muitos vulgares. Em “On Tyranny”, Strauss se refere a este direito natural como “ensinamento tirânico” de seus amados antigos. É tirânico no sentido clássico da regra superior a todas as regras ou da ausência da lei (página 70).

Note, os antigos estavam determinados a manter o ensinamento tirânico em segredo, já que o povo não toleraria o fato de que estava destinado à subordinação; na verdade, eles poderiam usar o seu ressentimento contra o punhado de superiores. As mentiras, portanto, eram necessárias para proteger os poucos superiores da perseguição dos muitos vulgares.

O efeito do ensinamento de Strauss é de convencer seus acólitos de que eles são a elite governante natural e os poucos perseguidos. E não é preciso ter muita inteligência para concluir que eles estão de fato numa situação de grande risco, especialmente num mundo devotado às ideias de direitos e liberdades para todos. Agora mais que nunca, os sábios devem proceder com cautela e circunspecção. Assim, eles chegam à conclusão que têm uma justificativa moral para mentir como forma de evitar perseguição. Strauss chega a ponto de dizer que a enganação e a mentira — na verdade, a cultura das mentiras — é a justiça peculiar dos sábios. Strauss justifica sua posição apelando para o conceito de ‘mentira nobre’ de Platão. Mas, na verdade, Strauss tem um conceito empobrecido da ‘mentira nobre’ de Platão. Platão achava que a ‘mentira nobre’ era uma história com detalhes fictícios, mas que no coração guardava uma verdade profunda.

No mito dos metais, por exemplo, algumas pessoas têm almas douradas — significando que são mais capazes de resistir às tentações do poder. E esses tipos moralmente confiáveis são os mais capazes de governar. Os detalhes são fictícios, mas a moral da história é que todos os seres humanos são moralmente iguais.

Em contraste com essa leitura de Platão, Strauss acredita que a superioridade dos filósofos governantes é uma superioridade intelectual e não moral (“Natural Right and History”, página 151). Para os muitos que leram Platão como totalitário (como Karl Popper), a consequência lógica é duvidar que filósofos devam receber o poder político. Aqueles que leram Platão assim, invariavelmente o rejeitaram. Strauss é o único intérprete que tem uma leitura sinistra de Platão e ainda assim o celebra.

A DIALÉTICA DO MEDO E A TIRANIA

Danny Postel: No esquema straussiano, existem os “poucos sábios” e os “muitos vulgares”. Mas também existe um terceiro grupo — os “cavalheiros”. Poderia explicar quem são?

Shadia Drury: Existem de fato três tipos de homens: os sábios, os cavalheiros e os vulgares. Os “sábios” são os amantes da verdade dura e não adulterada. Eles são capazes de olhar no abismo sem medo ou tremor. Eles não reconhecem nem Deus, nem imperativos morais. Eles são devotos acima de tudo de sua busca por prazeres “maiores”, o que significa se juntar a suas “crias” ou jovens iniciados. O segundo tipo, os “cavalheiros”, são amantes da honra e da glória. Eles são os que mais se interessam pelas convenções da sociedade — ou seja, a ilusão da caverna. São crentes em Deus, na honra e nos imperativos morais. São capazes e desejosos de embarcar em atos de grande coragem e autossacrifício a qualquer tempo.

O terceiro tipo, os “muitos vulgares”, é o dos amantes da riqueza e do prazer. São egoístas e indolentes. Só podem ser convencidos de ir além de sua existência bruta pelo medo da morte ou da catástrofe iminente. Como Platão, Strauss acreditava que o ideal político supremo era o governo dos sábios. Mas o governo dos sábios é inalcançável no mundo real. Mas, de acordo com o senso comum, Platão conseguiu isso e escolheu o governo das leis. Mas Strauss não endossa essa solução inteiramente. Nem pensa que era a verdadeira solução de Platão — Strauss aponta para o “conselho noturno” nas Leis de Platão para ilustrar esse argumento.

A verdadeira solução platônica como entendida por Strauss é o “governo disfarçado dos sábios” (ver “The Argument and the Action of Plato’s Laws”, de Strauss). Este governo disfarçado é facilitado pela grande estupidez dos cavalheiros. Quanto mais ingênuos ou incapazes eles forem, melhor para que os sábios os controlem e manipulem. Supostamente, Xenophon deixa isso claro para nós. Para Strauss, o governo dos sábios não trata de valores clássicos como ordem, estabilidade, justiça e respeito pela autoridade. O governo dos sábios é visto como um antídoto para a modernidade. A modernidade é a época em que os muitos vulgares triunfaram. É a idade em que eles chegaram mais perto exatamente do que os corações deles desejam — riqueza, prazer e entretenimento sem fim. Mas ao conseguir o que desejam, eles foram reduzidos a bestas.

Em nenhum outro lugar, esse estado de coisas está mais avançado que nos Estados Unidos. E o alcance global da cultura norte-americana ameaça trivializar a vida e torná-la um entretenimento. Isso era um espectro aterrador para Strauss, da mesma forma que para Alexandre Kojève e Carl Schmitt.

Isso fica claro na discussão entre Strauss e Kojève (impressa em “On Tyranny”, de Strauss) e no seus comentários sobre “The Concept of the Political”, de Schmitt (reimpresso em “The Hidden Dialogue”, de Heinrich Meier, Carl Schmitt e Leo Strauss). Kojève lamenta a animalização do homem e Schmitt se preocupa com a trivialização da vida. Os três estão convencidos de que a economia liberal transforma a vida em entretenimento e destrói a política; todos entendiam a política como um conflito entre grupos mutualmente hostis dispostos a lutar com o outro até a morte. Em resumo, todos entendem a humanidade do homem como sua disposição de correr nu para a batalha e de cara aberta para a morte. Somente a “guerra perpétua” pode acabar com o projeto moderno, com sua ênfase na autopreservação e nas “criaturas do conforto”. A vida pode voltar a ser politizada e a humanidade do homem restaurada.

Essa visão terrível se encaixa perfeitamente bem no desejo de honra e glória que os cavalheiros do movimento neoconservador perseguem. Também se encaixa muito bem nas sensibilidades religiosas dos cavalheiros. A combinação de religião e nacionalismo é o elixir que Strauss advoga para transformar homens hedonistas, naturais e relaxados em devotos nacionalistas dispostos a lutar e morrer pelo seu Deus e seu país. Nunca imaginei quando escrevi o meu primeiro livro sobre Strauss que a elite sem escrúpulos que ele defende poderia chegar tão perto do poder político, nem que a terrível tirania dos sábios chegaria tão perto de se realizar na vida política de uma grande nação como os Estados Unidos. Mas o medo é o maior aliado da tirania.

Danny Postel: Você descreveu o Strauss como niilista.

Shadia Drury: Strauss é niilista na medida em que acredita que não há fundação racional para a moralidade. Ele é ateu e acredita que, na ausência de Deus, a moralidade não tem base. É sobre beneficiar aos outros e a si mesmo; não há razão objetiva para fazer isso, apenas punições e recompensas nesta vida. Mas Strauss não é um niilista se isso significa a negativa sobre a existência da verdade, uma crença de que não passa de interpretação. Ele não nega que exista uma realidade independente. Ao contrário, ele pensa que a realidade independente consiste na natureza e sua “ordem de ranqueamento” — os altos e os baixos, o superior e o inferior. Como Nietzsche, ele acredita que a história da civilização ocidental levou ao triunfo dos inferiores, a ralé — algo que ambos lamentaram profundamente.

Danny Postel: Essa conexão é curiosa, já que Strauss é assombrado por Nietzsche. Um dos estudantes mais famosos de Strauss, Allan Bloom, fulmina profundamente em seu livro “The Closing of the American Mind” contra a influência de Nietzsche e de Martin Heidegger.

Shadia Drury: A crítica de Strauss aos existencialistas, especialmente Heidegger, é que eles tentaram derivar uma ética do abismo. Era a ética da determinação — faça sua escolha e seja leal a isso até a morte; o conteúdo não importa. Mas a reação de Strauss ao niilismo moral era diferente. Filósofos niilistas, ele acredita, deveriam reinventar o Deus judaico-cristão, mas viver como deus pagãos — tirando prazer dos jogos que jogam uns com os outros e também dos jogos que praticam com os mortais comuns.

A questão do niilismo é complicada, mas não há dúvida que a leitura que Strauss fez de Platão significa que os filósofos deveriam retornar à caverna e manipular as imagens (na forma de mídia, revistas, jornais). Eles sabem muito bem que o que defendem é mentiroso, mas estão convencidos de que suas mentiras são nobres.

A INTOXICAÇÃO DA “GUERRA PERPÉTUA”

Danny Postel: Você caracteriza o perfil do governo Bush como uma espécie de realismo, no espírito de Thrasymachus e Maquiavel. Mas não é a verdadeira divisão no governo (e na direita norte-americana mais geralmente) mais complexa: entre realistas na política externa, que são mais pragmáticos, e os neoconservadores, que se enxergam como idealistas — até mesmo como moralistas — numa missão de derrubar tiranos e, assim, em luta contra os realistas?

Shadia Drury: Penso que os neoconservadores são quase sempre genuínos quando dizem que querem espalhar o modelo comercial norte-americano de democracia liberal em todo o mundo. Eles estão convencidos de que é a melhor coisa, não apenas para os Estados Unidos, mas para o mundo. Naturalmente, existe uma tensão entre esses “idealistas” e os realistas mais duros dentro do governo. Eu argumento que as tensões e conflitos dentro do governo refletem as diferenças entre o ensinamento superficial, que é apropriado para os cavalheiros, e o ensinamento “noturno”, clandestino, que só os filósofos podem alcançar. É muito pouco provável que uma ideologia inspirada num conhecimento secreto seja totalmente coerente.

A questão do nacionalismo é um exemplo disso. Os filósofos, buscando segurança da nação contra seus inimigos externos bem como contra a decadência, o prazer e o consumo internos, encorajam um forte fervor patriótico entre os cavalheiros que amam a honra e tem nas mãos o poder. O forte espírito nacionalista consiste na crença de que aquela nação e seus valores são os melhores do mundo, e que todas as outras culturas e seus valores são inferiores por comparação.

Irving Kristol, o pai do neoconservadorismo e discípulo de Strauss, denunciou o nacionalismo num ensaio de 1973; mas em outro ensaio, escrito em 1983, ele declarou que a política externa do neoconservadorismo deveria refletir tendências nacionalistas. Uma década depois, num ensaio de 1993, ele argumentou que “religião, nacionalismo e crescimento econômico eram os pilares do neoconservadorismo”. (Veja “The Coming ‘Conservative Century’”, em “Neoconservatism: the autobiography of an idea”, p. 365.)

Em “Reflections of a Neoconservative” (p. xiii), Kristol escreveu que: “o patriotismo nasce do amor pelo passado de uma nação; o nacionalismo nasce da esperança no futuro na nação, de sua grandeza distintiva… os neoconservadores acreditam… que os objetivos da política externa dos Estados Unidos deveriam ir muito além de uma definição estreita e literal de ’segurança nacional’. É o interesse nacional de um poder mundial, definido como sentimento do destino nacional… não de uma segurança nacional míope”.

O mesmo sentimento ecoa no papa do straussianismo contemporâneo, Harry Jaffa, quando ele diz que os Estados Unidos são “o Zion que vai iluminar o mundo”.

É fácil de entender como esse tipo de pensamento pode ficar fora de controle e por que muitos realistas acham que é ingênuo e perigoso. Mas as preocupações de Strauss com as aspirações globais dos Estados Unidos são completamente diferentes. Como Heidegger, Schmitt e Kojève, Strauss está mais preocupado com o sucesso dos Estados Unidos nessa tarefa do que com o seu fracasso. Naquele primeiro caso, o “último homem” extinguiria toda a esperança na Humanidade (Nietzsche), a “noite do mundo” teria chegado (Heidegger); a animalização do homem seria completa (Kojève); a trivialização da vida seria alcançada (Schmitt). Isso é que o sucesso das aspirações globais dos Estados Unidos significaria para eles.

O “Fim da História” e o “Último Homem”, de Francis Fukuyama, representam a popularização desse ponto-de-vista. Ele antevê a catástrofe do poder global dos Estados Unidos como inevitável e busca tirar o melhor de uma situação ruim. Não é uma celebração da dominação norte-americana, longe disso. Nessa perversa visão de mundo, se os Estados Unidos fracassarem no alcance de seu “destino nacional” e se envolverem em uma “guerra perpétua”, tudo está bem. A humanidade do homem, definida em termos da luta contra a morte, está resgatada da extinção. Mas homens como Heidegger, Schmitt, Kojève e Strauss esperam pelo pior. Eles acreditam que o alcance universal do espírito do comércio ameaça amolecer os comportamentos e emascular os homens. Em minha opinião, essa glorificação fascista da morte e da violência nasce de uma profunda incapacidade de celebrar a vida, o prazer e a pura emoção da existência.

Para ser mais clara, Strauss não era tão hostil à democracia quanto ao liberalismo. Isso porque ele reconhece que as massas vulgares tem os números ao lado delas e o simples poder dos números não pode ser completamente ignorado. O que quer que possa ser feito para trazer as massas para seu lado é legítimo. Se você pode usar a democracia para jogar as massas contra sua própria liberdade, é um grande triunfo. É o tipo de tática que os neoconservadores usam consistentemente, e algumas vezes com muito sucesso.

ENTRE OS STRAUSSIANOS

Danny Postel: Finalmente, gostaria de perguntar sobre a curiosa recepção dada a você pelos straussianos. Muitos descartam sua interpretação de Strauss e denunciam seu trabalho em termos inflexíveis (“bizarro”). Ainda assim, um acadêmico, Laurence Lampert, repreendeu seus colegas straussianos, escrevendo em seu Leo Strauss and Nietzsche que seu livro “The Political Ideas of Leo Strauss” “contém muitas leituras céticas dos textos de Strauss e sacadas agudas sobre as verdadeiras intenções dele”. Harry Jaffa sugeriu de forma provocativa que você é straussiana no armário.

Shadia Drury: Fui denunciada publicamente e adorada privadamente. Depois da publicação do “The Political Ideas of Leo Strauss” em 1988, cartas e presentes de estudantes e professores straussianos chegaram de toda a América do Norte, fitas com as aulas dele na “Hillel House” de Chicago, transcrições de todos os cursos que ele deu na universidade, até mesmo uma escultura de uma “Coruja de Minerva” com uma carta me declarando a deusa da sabedoria! Eles ficaram surpresos como é que uma pessoa de fora poderia penetrar num ensinamento secreto. Eles me mandaram material não publicado marcado com claras instruções para não distribuir para “pessoas suspeitas”. Recebi cartas de estudantes de Toronto, Chicago, Duke, Boston College, Claremont, Fordham e outros centros de “ensino” straussiano. Um dos estudantes comparou sua experiência na leitura de meu trabalho como “uma pessoa perdida na imensidão que de repente encontra um mapa”. Alguns foram levados a trocar suas escolas por ar fresco; mas outros ficaram felizes ao descobrir no que deveriam acreditar para poder pertencer ao charmoso círculo de futuros filósofos e iniciados.

Depois de meu primeiro livro sobre Strauss, alguns straussianos do Canadá me batizaram de “puta de Calgary”. De todos os meus títulos, é o que mais me orgulha. A hostilidade dá para entender. Nada é mais ameaçador para Strauss e seus acólitos que a verdade em geral e a verdade sobre Strauss em particular. Os admiradores dele estão dispostos a esconder a verdade sobre suas ideias.

Minha intenção ao escrever o livro foi expressar as ideias de Strauss com clareza para que elas pudessem se tornar objeto de debate e crítica filosófica e não de fervorosa convicção. Eu queria jogar fumaça para tirar os straussianos das cavernas e trazê-los para a luz filosófica do dia. Mas em vez de se engajar em debate filosófico, eles negaram que Strauss representava qualquer das ideias que atribui a ele. Laurence Lampert é o único straussiano que declarou valentemente que é hora de parar de jogos e admitir que Strauss era um pensador na linha de Nietzsche — que é hora de parar de negar e de começar a defender as ideias de Strauss. Eu suspeito que a honestidade de Lampert é ameaçadora para os straussianos que estão interessados na filosofia mas buscam o poder. Não há dúvida de que um debate aberto sobre Strauss provavelmente diminuiria a perspectiva deles em Washington.

PS do Viomundo: Embora antigo, esse texto ainda hoje ajuda a iluminar a tração que a extrema direita deriva, nos Estados Unidos, do milenarismo sustentado em ameaças externas (Aceb informa, sai a islamofobia, entra a sinofobia), que justifica a guerra perpétua. Curioso notar como o complexo industrial-militar assumiu a hegemonia econômica e logo se apresentaram à sociedade os filósofos para justificar o estado de alerta permanente. Não menos interessante é o fato de que muitos neoconservadores migraram da esquerda, preservando intacto o arcabouço intelectual segundo o qual fazem parte de uma elite iluminada, pronta para tanger o gado.”

FONTE: entrevista de Danny Postel com a Dra (PhD) Shadia Drury, em 18/10/2003, no “Information Clearing House”. Transcrito em 04/03/2012 no portal “Viomundo”  (http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/a-filosofia-por-tras-da-guerra-perpetua.html) [Título e imagens do Google adicionados por este blog ‘democracia&política’].

domingo, 4 de março de 2012

BRASIL DEVE AUMENTAR SEU PODERIO MILITAR, diz diplomata norte-americano

A 1ª linha de defesa aérea brasileira é composta por velhos F-5, projeto idoso, com mais de 50 anos


Richard Haass, do ‘Council on Foreign Relations’ dos EUA

BRASIL DEVE AUMENTAR SEU PODERIO MILITAR, diz diplomata norte-americano [obviamente, desde que seja somente como parceiro para ajudar os EUA a exercerem o "poder duro" (“hard power”) pelo mundo]

Por Claudia Antunes, da Folha/UOL [jornal e portal tucanos que, tradicionalmente, defendem prioritariamente os interesses dos EUA/Israel]

“O Brasil deve aumentar seu poderio militar porque só ‘soft power’ (poder brando) não basta, e uma maior capacidade brasileira em defesa abre a possibilidade de cooperação com os EUA. É o que sugere Richard Haass, que fez carreira na diplomacia americana, ocupando postos importantes em governos republicanos, e desde 2003 preside o ‘Council on Foreign Relations’, centro de estudos influente na política externa do seu país.

Ele falou à “Folha” após viagem de estudos de uma semana em que liderou uma delegação de 19 pessoas por Rio, São Paulo e Brasília, incluindo reuniões com a presidente Dilma Rousseff e o chanceler Antonio Patriota.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

FOLHA - Em que essa viagem mudou ou não sua percepção do Brasil?

RICHARD HAASS - Tenho vindo aqui há 15, 20 anos. É difícil não ficar impressionado com o [recente] sucesso econômico. O que realmente me impressionou é que parei de pensar no Brasil como um país em desenvolvimento; o vejo como um país maduro. Seus desafios econômicos e sociais me lembram os EUA: a infraestrutura obsoleta, a educação, o capital humano, o peso dos impostos e da estrutura regulatória.

Outra coisa é como é boa relação entre EUA e Brasil. Não significa que concordamos em tudo, mas o nível de conforto é alto.

FOLHA - O subsecretário de Estado William Burns descreveu o Brasil como uma "potência global emergente". Usaria a mesma descrição?

HAASS - A resposta curta é sim. A palavra emergente é difícil. Em alguma medida, o Brasil já chegou lá. Economicamente, o Brasil já é uma potência mundial. Diplomaticamente, tem assumido um papel maior. Militarmente, ainda é modesto, e tem que decidir que tipo de capacidade o país quer, que papel quer desempenhar.

Grande parte da FAB é composta de pequenos aviões de treinamento e transporte (como o Bandeirante da foto). Não tem poder dissuasório
FOLHA - Sobre o que foi a conversa com a Dilma, sobre a relação bilateral?

HAASS - Foi bastante sobre isso, e também sobre a visão dela sobre a América. Como americano, achei alentador. Nos EUA, temos um debate permanente sobre se estamos em declínio. É bom ter uma conversa com sua presidente em que ela se mostrou tão confiante e positiva sobre a capacidade de os EUA superarem seus problemas, nossa flexibilidade, nossa abertura, nossa criatividade, nossa tradição de inovação, a capacidade de adaptação. Às vezes, em nossos debates internos, esquecemos disso.

FOLHA - Dilma tem ressaltado a vontade de aprofundar o intercâmbio com os EUA em educação, inovação. Isso é suficiente para a relação? Toda a viagem de Burns girou em torno da decisão da Força Aérea de cancelar a licitação vencida pela Embraer.

HAASS - Sempre haverá dificuldades sobre essa ou aquela decisão, mas fora do governo coisas como essas parecem pequenas, uma distração em relação ao quadro maior de uma relação cada vez maior entre dois países que enfrentam desafios comuns em suas economias, suas sociedades.

FOLHA - Aprofundar a parceria em defesa é importante para a relação bilateral?

HAASS - Apoio uma relação maior entre os dois países no campo da defesa. Gosto da ideia de que o Brasil desenvolva maiores capacidades nessa área. Isso abre a possibilidade de que o Brasil e os EUA possam ter parcerias em desafios na Ásia, no Oriente Médio ou na América Latina. Não vamos concordar sempre, mas se o Brasil não tem essa capacidade e se nós não temos a cooperação, mesmo se concordarmos, não podemos fazer muito.

Gosto da ideia de o Brasil, gradualmente, desenvolver maior poder militar. Precisamos de parceiros. Não precisa ser um aliado, pode manter sua independência, mas ter uma colaboração seletiva quando vermos coisas do mesmo modo, e a defesa é parte disso.

As pessoas aqui gostam de falar de “soft Power”, muito bem. Mas há épocas no mundo em que você precisa se voltar para o “poder duro”. Às vezes a economia e a diplomacia são suficientes, mas às vezes nenhuma das duas funciona, e você precisa usar a força militar. Nessas ocasiões, esperaria que houvesse ao menos a possibilidade de cooperação entre Brasil e EUA.

Os M-113 do Exército Brasileiro foram introduzidos no mundo em 1960, há 52 anos
FOLHA - Uma pergunta que se faz aqui é se o Brasil pode ser uma potência mundial sem armas nucleares, como as potências atuais têm. Qual a sua opinião?

HAASS - Um país pode ser um poder regional ou global sem armas nucleares. Pense no Japão, na Alemanha, na Turquia e na África do Sul. Em segundo lugar, ter armas nucleares não torna um país uma potência necessariamente. Veja o caso da Coreia do Norte e do Paquistão.

Finalmente, a maioria dos países que são potências e têm armas nucleares são potências por outras razões. Isso se aplica aos EUA, à China e a outros. O Brasil pode se tornar uma potência global sem armas nucleares. Não vejo nenhuma razão estratégica para que o Brasil as desenvolva. Não aumentaria a segurança do país, mas complicaria muitas de suas relações e drenaria recursos

FOLHA - Por suas conversas aqui, considera que há consenso sobre o papel que o Brasil deve desempenhar no mundo?

HAASS - Consenso é uma palavra muito forte. Acho que há um debate sobre as prioridades internas e internacionais. Não é surpreendente porque a ideia de o Brasil ser um ator global e não regional é relativamente nova.

Um exemplo: agora vocês têm a realidade desses grandes recursos petrolíferos na costa. Isso tem consequências, o Brasil vai ter que repensar como dar segurança a esses grandes investimentos.

Um caça A-4 Skyhawk no porta-aviões NAe São Paulo. O A-4 foi desenvolvido nos anos 50, há sessenta anos. A Marinha do Brasil comprou um lote antigo, já desativado pelo Kuweit. Tem somente um ou dois raramente em condições de voo (e em precárias condições operacionais). É a "defesa" do pré-sal, cobiçado por grandes potências, especialmente os EUA

FOLHA - Por que, apesar de ainda haver divergências entre os dois países sobre o Irã, a tensão não é a mesma de dois anos atrás?

HAASS - Em parte é porque, quando a relação melhora, você aprende a discordar. Também acho que o critério de uma relação não é se você concorda todo o tempo, isso é impossível. Mas você faz com que as áreas em que você discorda não travem o caminho daquelas em que você coopera. Acho que há mais áreas de concordância na economia e na diplomacia. Na Síria há bastante concordância.

Muitos norte-americanos no negócio, entre aspas, da política externa, não pensávamos no Brasil há 20 anos. Isso mudou e essa é uma das razões pelas quais o “Council on Foreign Relations” está no Brasil agora, porque é importante globalmente. A relação está se tornando mais ampla e profunda.

FOLHA - O Sr. teme uma nova guerra no Oriente Médio antes do fim do ano?

HAASS - É uma possibilidade. No caso do Irã, uma possibilidade real. Escrevi um artigo em que argumentei que, além de continuar pressionando com sanções, deveríamos oferecer uma proposta diplomática ampla. Não sei se o Irã vai aceitar, e se não aceitar, acho que as chances de um ataque por Israel, pelos EUA ou por outro país é uma possibilidade real. Claro que é passo arriscado e custoso, mas ninguém deve subestimar o custo de o Irã ter armas nucleares.

FOLHA - O Brasil consultou o secretário-geral da ONU sobre a legalidade de um ataque ao Irã. O Sr. conversou sobre esses temas com o Patriota?

HAASS - Um ataque às instalações nucleares do Irã seria o se chama de ataque preventivo. É controvertido legalmente, diplomaticamente. A questão é se, apesar disso, dada a trajetória do Irã, dada a implicação potencial de uma bomba iraniana, ainda vale a pena fazer. Para mim, a lei internacional não é preto e branco, tem muito cinza. Um líder israelense pode pensar que tem que pesar a lei, mas também a segurança de seu país. Os EUA têm que pensar em seu compromisso com Israel, sua oposição à proliferação nuclear, o preço e a oferta de petróleo, a criação de um precedente nas relações internacionais sobre o uso da força. Há toda uma gama de considerações, e não será uma decisão fácil para ninguém.

FOLHA - O Brasil deveria voltar a ser chamado para as negociações com o Irã?

HAASS - Não vejo razão no momento. O Irã tem uma linha de comunicação clara com a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). No momento, o problema não é a falta de mediadores, mas a recusa do Irã em cumprir suas obrigações internacionais. Se o P5+1 (as cinco potências do Conselho de Segurança) e a ONU estiverem dispostos a pôr na mesa uma oferta razoável, que não seja para humilhar o Irã, mas permita que o país tenha atividades limitadas nessa área, desde que coopere com os inspetores internacionais, não precisamos do Brasil ou de outro país nas negociações. Não queremos ter uma situação em que temos cinco mediadores e os iranianos escolham qual querem, e usam a situação para ganhar tempo. Isso não é uma crítica ao Brasil, acho que há clareza sobre o que é necessário e a verdadeira questão é se o Irã está disposto a compromissos.

FOLHA - A força-tarefa do CFR recomendou que os EUA apoiem a candidatura brasileira ao Conselho de Segurança da ONU. Isso lhe pareceu importante para os brasileiros?

HAASS - O assunto aparece algumas vezes, mas não sempre. Para alguns, é importante como um símbolo, para outros por causa da substância, porque o Brasil estaria numa posição de maior influência. Para outros não tem tanta importância.

Para ser honesto, eu tenho duas posições sobre isso. Eu acho que Brasil, Índia e Japão deveriam ter cadeiras permanentes no Conselho de Segurança, que não reflete mais a realidade geopolítica.

Por outro lado, por causa dos vetos e com mais países, a inação que às vezes existe hoje vai continuar. Não acho que se deve equiparar a ONU com multilateralismo. O Brasil não precisa ser membro do CS para ter papel importante no mundo.

FOLHA - Os EUA anunciaram prioridade para o Pacífico, por causa da China. Como o Brasil se encaixa nisso?

HAASS - Há um ajuste na política externa americana, de afastamento do Grande Oriente Médio e aproximação com a Ásia-Pacífico, onde acredito que muito do século 21 será traçado e decidido. Para os EUA fazerem isso, precisamos pôr a economia interna em ordem e ter parceiros para trabalhar conosco na região. O Brasil é um parceiro potencial. Também precisamos que este hemisfério permaneça estável. Parte da capacidade de nos envolvermos mais com a Ásia depende da estabilidade das Américas. Há poucas grandes potências na história com vizinhanças pacíficas e estáveis. Nós temos, em grande medida. É uma exceção extraordinária e um luxo em termos históricos. Mas é também algo que deve continuar a ser trabalhado pelo Brasil e os EUA. Para mim, tudo isso reforça o argumento de que Brasil e EUA devem ter um diálogo estratégico.

FOLHA - Já se falou muito na perspectiva de uma rivalidade crescente entre Brasil e EUA. Acredito nisso?

HAASS - De jeito nenhum. Brasil e EUA enfrentam desafios e oportunidades. De certa maneira, ou vamos ter sucesso juntos ou vamos fracassar juntos, seja no hemisfério ou além.”

FONTE: reportagem de Claudia Antunes, da Folha/UOL  (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1056692-brasil-deve-aumentar-seu-poderio-militar-diz-americano.shtml) [Imagens do google, suas legendas e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

MINISTRO DO ESPORTE DESARMA SABATINADORES DA “FOLHA” E “UOL”

Aldo Rebelo

Copa e Olimpíadas não são apenas atividades esportivas. Servem para que o país se defronte com as suas potencialidades, com as suas capacidades, e elevá-las, como no caso da engenharia, das telecomunicações, da saúde pública esportiva. É também quando o país se depara com as suas deficiências, com as suas debilidades. É a ocasião em que se pode propor a enfrentá-las e recuperá-las”, pontuou Aldo Rebelo, ministro do Esporte, durante a sabatina promovida pela “Folha de S. Paulo” e portal UOL.

Durante uma hora e quarenta minutos, quatro jornalistas do grupo “Folha” se revezaram em artilharia provocadora para tentar extrair do representante comunista do governo, responsável pela realização da Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016), algo que satisfizesse o apetite do grupo, para vender jornal.

Apesar dos esforços em impor pauta negativa ao sabatinado, como as recentes denúncias envolvendo o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que está à frente do “Comitê Organizador Local da Copa-2014” (COL), temas e reflexões relevantes foram colocados e bem explicados pelo ministro, como o legado a ser deixado com os investimentos na construção de estádios em todas as regiões do país, obras e incremento ao turismo. Para Aldo, que visitou, recentemente, quase todos os canteiros de obra, tudo está dentro do cronograma previsto.

Com relação à infraestrutura, reconheceu que é preciso corrigir algumas deficiências, mas ressaltou que o Brasil detém um conjunto relevante a oferecer. “Boa parte já está pronto; já temos grande infraestrutura aeroportuária no Brasil. O que precisamos, não para a copa, mas para o país, é melhorá-la”, disse. Em tom de brincadeira, que em muitos momentos dominou a sabatina, o ministro disse que seu único receio em relação à Copa é a seleção brasileira: “Torço, mas ali não podemos fazer nada".

Ao ser questionado pelo comentarista esportivo, Juca Kfouri, sobre o subsídio do governo federal na construção de estádios em tantas capitais – Kfouri chegou ao exagero de comparar a situação atual com a vivida no regime militar, afirmando: “não estaríamos repetindo o que se fez na ditadura, construindo verdadeiros elefantes brancos?” -, Aldo Rebelo explicou que os estádios serão úteis para as cidades, como São Paulo, que não têm onde fazer mais feiras e convenções. A região de Itaquera e adjacências, por exemplo, que tem população de quatro milhões, precisa de investimento na área de lazer e turismo.

O colunista da “Folha” também questionou o subsídio por se tratar de empreendimentos privados.

Vai servir à sociedade, à população. Da mesma forma, oferecemos incentivo fiscal para fazer jornal. O papel para fazer jornal não paga ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Também, oferecemos incentivos para as montadoras, entre outros incentivos fornecidos pelo governo para atividades industriais”, comparou o ministro do Esporte.

[Em benefício de maiores ganhos das famílias Frias, Mesquita, Civita etc, elas ficam com parte do dinheiro que deveria ser público. A imprensa tem o privilégio de não pagar ICMS pelo papel que usa]

Ele explicou que todos os investimentos feitos são com base nas demandas e necessidades dos brasileiros como, por exemplo, o setor hoteleiro, que é bastante deficitário.

É uma das áreas que carece investimento, antes mesmo da Copa. Recife recebeu no carnaval 750 mil turistas, muito acima de sua capacidade. Investimento em hotelaria vai acontecer não por causa da copa, porque hotel não é carro alegórico que se faz e depois se retira. Só se faz um hotel se tiver demanda para aquela região e não só para um mês da copa. O país está crescendo, tem demanda para Cuiabá, tem para Manaus, turismo ecológico, histórico, encontro das águas”, completou.

Com relação às Olimpíadas, Aldo avaliou que o principal legado do processo é a construção de “uma mentalidade, de um estado de espírito”, não somente do ponto de vista de governo, mas da sociedade, que vai passar a valorizar mais o esporte. Ele citou um convênio que está sendo firmado com a “Sociedade Brasileira de Cardiologia” para disseminar o esporte como forma de evitar problemas relacionados à saúde. Segundo a “Organização Mundial de Saúde”, para cada US$ 1 investido em esporte, se economizam US$ 3,2 na Saúde.

Vamos tentar, a partir desse convênio, criar uma plataforma de mensagens para reduzir o preconceito contra a atividade física, recuperar a prática da educação física nas escolas, que sempre existiu de forma marginal”, falou.

SOBERANIA

"A FIFA pode até achar que o Brasil pede demais, mas o fato é que o Brasil já fez muito mais pelo futebol mundial do que o que está pedindo agora", respondeu Aldo Rebelo ao ser questionado sobre a “Lei Geral da Copa”, aprovada na terça-feira (28), mas que precisará ser novamente votada por um "vício de procedimento". O também deputado federal frisou os interesses diferentes entre Brasil e FIFA, em relação ao Mundial de futebol.

"A FIFA é uma entidade privada, ela não quer a mesma coisa que nós da Copa. Eles visam lucro. Eu quero ingresso para indígena assistir aos jogos em Manaus, quero que pessoas de baixa renda, como as beneficiadas pelo Bolsa Família, possam participar do evento. Então, temos que negociar", argumentou.

BEBIDA

Aldo lembrou que o consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, segundo o “Estatuto do Torcedor”, está proibido, mas que, para cumprir compromissos firmados com organizadores internacionais do evento, os mesmos cumpridos por todos os países que desejaram concorrer à sede dos mundiais, o “Congresso encontrou uma solução salomônica.”

A Europa não proíbe, mas restringe a determinados locais e quantidades. Acho que temos que adotar procedimentos que assegurem a proteção da saúde, da segurança, do acesso de bebidas a menores, e que garanta atividade de lazer nesses ambientes, que as pessoas possam ter acesso com essas restrições. É uma solução adotada apenas na copa do mundo e o congresso que decida o que fazer nas demais atividades”.

POLÍTICA NACIONAL

O ministro do Esporte defendeu, veementemente, a formulação e aprovação de uma lei que imponha ao país uma política nacional de Esporte. Indagado sobre manter posicionamento divergente de seu antecessor, o ministro Orlando Silva (PCdoB-SP), com relação à política nacional, Aldo esclareceu que já há elementos para a implantação de uma política nacional como a “Lei de Incentivo ao Esporte”, programas do ministério como o “Segundo Tempo”, que proporciona hoje acesso ao Esporte a quase dois milhões de crianças, “Lei Agnelo Piva” (que destina 2% do prêmio pago aos apostadores de todas as loterias federais do país ao COB e ao “Comitê Paraolímpico Brasileiro”), entre outras iniciativas dos ministros anteriores, além de Orlando, nos 10 anos de existência do ministério, que deram continuidade a políticas adotadas anteriormente.

Algumas delas tiveram início em outros governos, pelo menos desde o governo Fernando Henrique. Agora, isso não constituiu uma estrutura, um sistema legal, tanto é que qualquer governo pode alterar o programa, por decreto, de qualquer forma. Uma política baseada na lei só indo ao congresso”, defendeu.

Questionado sobre a presença de organizações não governamentais nos programas do governo, Aldo lembrou que, na falta de uma estrutura esportiva mínima nas escolas, os governos tiveram que recorrer a elas. “Eu respeito essas organizações, que cooperam , que ajudam, mas elas não dão sustentação a uma política que tenha o marco legal permanente, que é o que o Estado brasileiro precisa”, completou.

Aldo reiterou seu posicionamento favorável à intervenção do Estado na questão do esporte. “Gostaria de ter força legal para ajudar a corrigir uma série problemas na estrutura esportiva do Brasil. A lei retirou do Estado o que se achava que era herança da ditadura, retirou todas as atribuições do estado de intervenção nos assuntos privados da federação e dos clubes”, recordou o ministro.

Para concluir a questão, lembrou que o governo Dilma trabalha para recuperar o papel do Estado no Esporte. “O que temos atualmente não é ainda o ideal, mas já é uma promessa importante do que pode ser feito. Esbarramos na ausência do equipamento nas escolas, temos que deslocar, com custo por criança, até outro local que haja equipamento. O governo lula fez grande esforço de criar os alicerces dessa política e, agora, cabe ao governo atual encaminhar ao congresso, para dar contorno e marco legal e lei geral a essa política”, disse.

PATROCÍNIO DE ATLETAS

Ele contou que fez reunião com a presidente Dilma Rousseff e que vai apresentar a ela planejamento, detalhando a questão do patrocínio de atletas para as Olimpíadas, modalidade por modalidade, relacionado com 2016: “Dizer que não há dinheiro para o esporte olímpico no Brasil não é verdade. Há dinheiro público e privado. O governo repassa recursos hoje para o COB e para as confederações”.

INDIGNADO

A indignação tomou conta do comunista quando foi lembrando que a relatora especial da ONU para a “Moradia Adequada”, Raquel Rolnik, divulgou, em abril de 2011, um relatório criticado pela “Anistia Internacional” e que ganhou as páginas da imprensa em outros países, em que ela afirmava que há desocupações violentas em áreas reservadas às obras para a Copa e Olimpíadas. Em um tom de voz mais grave, Aldo criticou a comparação feita (em 2011), por Leonardo de Souza, Subprocurador Geral de Justiça, de que as ações de desapropriações eram semelhante a dos nazistas, por marcar as casas (pela falta de numeração), disse:

O que pode é um ministro do PCdoB ou de qualquer outro partido ser tomado de indignação porque um promotor comparou o que acontece nesses locais com o regime nazista. Esse promotor não sabe o que é o nazismo, ele ignora o que é o nazismo e não tem o direito de, neste país, onde há democracia, os prefeitos, os governadores, a presidente da república são eleitos, onde funciona o ministério público, o poder judiciário, ele precisa saber o que é o nazismo. Talvez ele desconheça.”, enfatizou Aldo.

Ele lembrou que não há nenhum caso em que essas áreas estejam relacionadas ao governo federal e que o mesmo é solidário com toda população brasileira mais pobre envolvida com qualquer caso de violência.

Questionado se já havia conversado com ela, Rebelo disse que nunca foi procurado pela mesma e que o ministério está aberto para conversar e negociar, com qualquer entidade, em assuntos relacionados às atribuições do ministério.

O que sei é que ela é da ONU e que a ONU deveria prestar mais atenção à violência na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, [em Gaza]. Não vejo um pronunciamento da entidade sobre isso. Mas parece que o Brasil, nessa matéria, virou um alvo preferencial”, revelou Aldo, que colocou em dúvida o papel da representante.

Ele recordou que “a geopolítica mundial, as divisões de interesse do mundo, em certos momentos colocam alguns países no alvo, ora é Cuba, a China, a Rússia, o Irã, o Brasil. Isso não é segredo para ninguém. Eu não sou ingênuo para desconhecer esses interesses”, refletiu Aldo, que reafirmou a importância das instituições do judiciário.

No Brasil, não há nada que possa ser feito ao arrepio da lei. A casa não pode nem ser desapropriada por dívida, é um bem de natureza elevada”, assegurou.”

FONTE: reportagem de Deborah Moreira publicada no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177056&id_secao=1) [Imagens do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

MINO E “CERRA”: AS PROVAS VERGONHOSAS DA PRIVATARIA


Por Paulo Henrique Amorim, no “Conversa Afiada”

“Na revista ‘Carta Capital’ desta semana, na imperdível ‘Rosa dos Ventos’, de Maurício Dias, há análise da ‘reencarnação de Cerra’, e possível saída de ‘Aécio Never’ do PSDB.

Na “Folha” (*), pág. A10, Kassab confirma: “contra Aécio, Cerra apoiará Dilma”.

Mino Carta, no editorial da mesma “Carta” desta semana, atinge duas das feridas mais fundas de Cerra: o udenismo de oportunidade (ou será PRPismo ?) e a “Privataria Tucana”: as provas contra Cerra são vergonhosas.

O que fará o PT, Mino, sobre a CPI ?

“O CANDIDATO DA UDN

Há dez anos, a mídia apresentava José Serra, candidato à Presidência da República pelo PSDB, como cidadão “preparado”. À época, meus dedutivos botões esclareceram que, segundo editorialistas, colunistas, articulistas, todos os demais candidatos eram “despreparados”, a começar, obviamente, por Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-operário metido a sebo. Dez anos depois, o cenário do quartel de Abrantes não mudou.

Os jornalões paulistas vivem em êxtase diante da decisão de José Serra de concorrer à prefeitura de São Paulo.

Parece, até, que o nosso herói se tornou ainda mais “preparado”, o próprio diz representar uma visão distinta do Brasil e da política que convém ao País, em defesa da democracia e da fé republicana, ameaçadas pelo petismo no poder. Na corte tucana, não falta quem denuncie o projeto “chavista” posto em prática pelo partido de Lula e Dilma. Deste, Chávez é o profeta. Palmas febris dos jornalões.

Qualquer partido que atue sobre esta nossa medíocre bola de argila a girar em torno do Sol visa ao poder para manter-se nele quanto mais puder. Talvez, Serra tenha esquecido que, ao eleger Fernando Henrique Cardoso, o tucanato urdia o plano de permanecer na cúspide da pirâmide, a contemplar a nação do alto, pelo menos por 20 anos. Temo, porém, que o candidato tenha esquecido coisas mais. Evitarei o pieguismo de evocar as crenças que o moviam na juventude. Refiro-me, simplesmente, ao senso do real.

Hóspede da minha cozinha, há dez anos Serra mostrou-se preparado a consumir “risotto ai funghi” da lavra do acima assinado, tivesse mais espaço, eu declinaria a receita. De todo modo, o convidado apreciou, enquanto afirmava que em matéria de política social, se eleito, seria muito mais ousado do que Lula. Illo tempore considerava-o um amigo. Tenho motivos para entender que não perdoou a opção de “CartaCapital” pela candidatura do ex-operário. Salvo raríssimas exceções, os jornalistas nativos e seus patrões estavam com Serra. Como neste exato instante.

Certos apoios custam caro. Não sei, porém, se a observação no caso faz sentido. Há tempo, Serra soube insinuar-se nas graças dos patrões, em primeiro lugar destes antes que dos jornalistas. Melhor ser amigo do rei. A esta altura, admito que uma afinação perfeita se instalou entre o político e quem agora o promove, em função, precisamente, de uma invejável harmonia de ideias e propósitos. Trata-se, tudo indica, de uma convergência natural, de um acerto espontâneo. Diria mesmo fatal porque inescapável.

Serra, não menos que o mundo mineral, está em condições de registrar o óbvio: a mídia nativa representa o reacionarismo mais retrógrado e preconceituoso. Não triunfam ali os mais genuínos valores democráticos e republicanos, Serra sabe disso. E então, o que o leva a se colocar à direita da direita? Pelos atalhos da vida, às vezes os homens enterram o seu passado, honroso ou não, em nome de interesses contingentes ou de impulsos d’alma, redentores ou interesseiros.

Certo é que essa mídia a favor da treva, com extrema coerência, é preciso reconhecer, silencia, por exemplo, a respeito das denúncias do livro “A Privataria Tucana”, na singular certeza de que não aconteceram os fatos por ela deixados de noticiar. Os fatos, ora os fatos… No libelo do repórter Amaury Jr. há provas de mazelas vergonhosas que incriminam Serra. Vale a pena ignorá-las, contudo, a bem do privilégio na terra dos herdeiros da casa-grande. E assim queira o deus dos prepotentes e dos hipócritas.

O candidato Serra acaba de anunciar que seu sonho de Presidência da República está adormecido até 2016. Ou seja, se for prefeito, cumprirá seu mandato por completo. Fernando Henrique achava o sonho aposentado de vez, mas, já que o homem resiste, mudou de ideia. Supõe, arrisco-me a crer, que vencedor em São Paulo, o velho companheiro de tucanagens ganhará cacife para voltar à carga ao sabor do intuito supremo. Veremos o que veremos. Resta a evidência: o PSDB assumiu o papel outrora arcado pela UDN velha de guerra e José Serra figura à perfeição como seu candidato ao que bem entender.

Em tempo: Saiu no IG:

‘É ALGUM OUTRO PAÍS NA CABEÇA DE SERRA’, DIZ HADDAD

Petista aproveita gafe de tucano, que se referiu ao Brasil como “Estados Unidos do Brasil”, e rebate críticas ao governo Dilma

O pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, aproveitou hoje a gafe cometida pelo adversário e pré-candidato do PSDB, José Serra, que se referiu ao Brasil como ‘Estados Unidos do Brasil’ quando o correto é ‘República Federativa do Brasil’, para defender a presidenta Dilma Rousseff (PT) das críticas do tucano.

Talvez estejamos falando dos Estados Unidos do Brasil e não da República Federativa do Brasil. É algum outro País na cabeça do candidato José Serra e não o Brasil”, ironizou Haddad.

(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é, porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.”

FONTE: escrito pelo jornalista Paulo Henrique Amorim em seu portal “Conversa Afiada”  (http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2012/03/03/mino-e-cerra-as-provas-vergonhosas-da-privataria/).

AS CONTRADIÇÕES DA FRENTE NEODESENVOLVIMENTISTA


A FRENTE POLÍTICA NEODESENVOLVIMENTISTA E AS CLASSES POPULARES

Por Armando Boito Jr.

I – A DIVISÃO DE CAMPOS NA POLÍTICA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

1. A política brasileira contemporânea está dividida entre, de um lado, as forças que defendem o modelo capitalista neoliberal na sua versão ortodoxa e propõem uma nova onda de reformas neoliberais e, de outro lado, as forças que apoiam a versão reformada do modelo capitalista neoliberal, versão essa criada pelo neodesenvolvimentismo dos governos Lula e Dilma.

2. A frente neodesenvolvimentista é a frente política integrada por classes e frações de classe muito heterogêneas que sustentou os governos Lula da Silva e que, agora, sustenta o governo Dilma. Essa frente representa prioritariamente os interesses de um setor importante da burguesia brasileira que é a grande burguesia interna. Essa frente contempla também, ainda que de maneira periférica e pontual, alguns interesses das classes populares – operariado urbano, baixa classe média, campesinato e a massa empobrecida pelo desemprego e pelo subemprego.

3. O inimigo político da frente neodesenvolvimentista é o campo político neoliberal ortodoxo. Esse campo é formado pelo capital financeiro internacional, pela fração da burguesia brasileira perfeitamente integrada aos interesses desse capital e pela alta classe média cujo padrão de vida se assemelha ao das camadas abastadas dos países centrais.

Lula e Dilma (e Marisa, esposa de Lula)

II – O PROGRAMA DA FRENTE NEODESENVOLVIMENTISTA E OS INTERESSES DOS SEUS INTEGRANTES

1. O neodesenvolvimentismo é o desenvolvimentismo da época do capitalismo neoliberal. Em relação ao velho desenvolvimentismo, essa nova política de crescimento apresenta taxas de crescimento econômico menores, dá importância menor ao mercado interno, é, no tocante à renda, menos distributivo e aceita passivamente o papel subordinado da economia brasileira na divisão internacional do trabalho.

2. A grande burguesia interna é a força dirigente da frente neodesenvolvimentista. Ao contrário de uma idéia corrente, a chamada “globalização” não fundiu a burguesia dos diferentes países numa suposta burguesia mundial. Pois bem, esse setor da grande burguesia brasileira acumulou, ao longo dos anos 90, contradições com aspectos secundários do modelo capitalista neoliberal e passou a reivindicar proteção do Estado – ou seja, justamente aquilo que a burguesia condena no seu discurso ideológico – para não ser engolida pelo grande capital financeiro internacional. A priorização dos interesses dessa fração do grande capital pelo Estado brasileiro aparece em inúmeros aspectos da política econômica dos governos Lula e Dilma.

3. O operariado urbano e a baixa classe média, por intermédio do sindicalismo e do Partido dos Trabalhadores (PT) têm participação organizada na frente neodesenvolvimentista. Essas classes trabalhadoras ganham algo com a frente neodesenvolvimentista. O crescimento econômico permitiu recuperação do emprego, reduzindo à metade o índice de desemprego da era FHC; a política de salário mínimo permitiu um aumento real significativo desse que é um dos mais baixos salários mínimos de toda América Latina; inúmeros setores das classes trabalhadoras obtiveram, ao longo dos anos 2000 e como evidenciam os dados do DIEESE, ganhos reais de salário.

4. O campesinato também está presente na frente e de forma organizada. Organizações de luta pela terra, a começar pela mais importante que é o MST, e organizações baseadas em camponeses e em trabalhadores rurais assalariados, como a CONTAG, representam o trabalhador do campo. O campesinato está dividido em camadas. O camponês remediado está presente, principalmente, na CONTAG e também no setor assentado do MST. Reivindica assistência técnica, financiamento para a produção, mercado e preço para seus produtos. Os governos neodesenvolvimentistas têm atendido, de maneira parcial, essas reivindicações com o financiamento à agricultura familiar, que, embora insuficiente, cresceu muito quando comparado com o que havia na era FHC. O campesinato pobre, que corresponde aos camponeses sem-terra ou com pouca terra, reivindica a desapropriação das terras ociosas e uma política agressiva de abertura de novos assentamentos. Essa camada camponesa é a mais marginalizada pela frente neodesenvolvimentista.

5. Os trabalhadores desempregados, subempregados, vivendo do trabalho precário ou “por conta própria” representam o extremo da frente neodesenvolvimentista. Esses trabalhadores formam aquilo que a sociologia crítica latino-americana já denominou “massa marginal”, massa cuja existência e amplitude indicam a incapacidade do capitalismo dependente brasileiro de explorar produtivamente, para o próprio capital, os recursos humanos disponíveis no país. Convém distinguir dois setores na massa marginal. Parte dessa massa é social e politicamente desorganizada. Ela foi incluída na frente neodesenvolvimentista graças às políticas de transferência de renda que possuem amplitude muito maior nos governos Lula e Dilma. Essa massa desorganizada forma base eleitoral passiva, mas tem tido peso decisivo na eleição dos candidatos da frente neodesenvolvimentista. Outra parte da massa marginal está organizada em movimentos populares, como movimentos por moradia e movimentos de desempregados. As vitórias desses movimentos na luta reivindicativa aparecem, no plano da ação direta, nas ocupações urbanas que conseguiram se colocar fora do alcance da repressão e, na política nacional, em medidas de política habitacional como o programa “Minha casa, minha vida” criado no final do governo Lula.

III – AS CONTRADIÇÕES DA FRENTE POLÍTICA NEODESENVOLVIMENTISTA

1. A frente política não é uma aliança de classes. No caso de uma aliança, as classes e frações que participam de luta comum estão, no geral, organizadas como forças sociais distintas, dotadas de programa político próprio e têm consciência dos objetivos limitados e comuns que a aliança persegue. No caso de frente política, como é a frente neodesenvolvimentista, as classes e frações que a integram não estão, necessariamente, organizadas como forças sociais distintas, não possuem, necessariamente, um programa próprio e podem não ter consciência de que participam de empreitada comum; suas contradições internas são mais importantes e a sua unidade é muito mais frouxa ou, dito de outro modo, o compromisso de cada força integrante da frente com as demais é frouxo.

2. A unidade da frente política aparece, principalmente, nos momentos críticos – nas eleições presidenciais e nos momentos de instabilidade ou de crise política a “Crise do Mensalão” – e na participação, central ou periférica, nas instituições governamentais. Porém, cada uma das forças integrantes da frente persegue também objetivos próprios e pode entrar em conflito com as demais. Contudo, esse conflito é, basicamente, uma disputa econômica – salário, alocação do orçamento do Estado, criação de novos assentamentos rurais etc. – e não chega a ameaçar o programa neodesenvolvimentista que é o que unifica, ainda que frouxamente e de modo muito amplo, tal frente política.

3. Uma questão chave para as forças populares que a integram é antever e preparar o momento em que deverão romper com o campo neodesenvolvimentista.”

FONTE: escrito por Armando Boito Jr., Professor Titular de Ciência Política da UNICAMP e editor da revista “Crítica Marxista” e um dos fundadores do “Centro de Estudos Marxistas” (Cemarx) do IFCH-UNICAMP. Este texto retoma, em versão resumida, as idéias apresentadas na palestra proferida no “Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra” (MST), ocorrido em Aracaju em 6 de fevereiro de 2012. A forma esquemática do texto torna as afirmações mais taxativas. Artigo transcrito no portal “Viomundo”  (http://www.viomundo.com.br/politica/armando-boito-jr-as-contradicoes-da-frente-neodesenvolvimentista.html) [Imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

BRASIL E CHINA: DOIS GIGANTES TENTAM EQUILIBRAR DISPARIDADES

“Brasil e China, dois dos gigantes da economia mundial atual, puseram suas cartas sobre a mesa e concordaram em equilibrar as disparidades do comércio bilateral, e ao mesmo tempo fortalecer ainda mais seus nexos estratégicos em diversas esferas.

O palco propício para esse diálogo foi a segunda reunião da “Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Acordo e Cooperação” (COSBAN), efetuada em Brasília, copresidida pelo vice-presidente do Brasil, Michel Temer, e o vice-primeiro-ministro da China, Wang Qishan.

A presidente Dilma Rousseff se reuniu segunda-feira (13), no Palácio do Planalto, com o vice-primeiro ministro da China, Wang Qishan

Dados oficiais refletem que, desde 2009, a China é o primeiro sócio comercial do Brasil e a principal fonte de novos investimentos no gigante sul-americano. Precisam que, em 2011, o intercâmbio comercial totalizou 77,1 bilhões de dólares, dos quais 44,3 bilhões corresponderam a exportações brasileiras e 32,8 bilhões a importações chinesas.

As estatísticas mostram que o superávit comercial do Brasil com a China em 2011, crescente a US$ 11,5 bilhões, equivale a 38% de saldo positivo total da balança comercial nacional.

Tal relação e nível de comércio não pode, então, ser desprezada, muito menos neste momento em que as potências econômicas do mundo, Estados Unidos e as pertencentes à União Europeia, atravessam a pior crise financeira desde 1929. Para muitos analistas, a presente é ainda mais grave que aquela.

Prova irrefutável da importância que concede Brasília a seus laços com Pequim foi dada pela própria presidente Dilma Rousseff ao escolher o gigante asiático como destino de sua primeira viagem a um país fora do âmbito regional, em abril de 2011, a três meses e dias de se ter convertido na primeira mulher em comandar os destinos desta nação sul-americana. Mas, como em todo nexo entre dois colossos, existem diferenças a equilibrar e para isso precisamente viajou Qishan ao Brasil, acompanhado de uma extensa delegação de servidores públicos e de empresários chineses, interessados em incrementar ainda mais a presença de Pequim no gigante sul-americano.

Qishan e Temer
Em conferência de imprensa conjunta no Palácio de Itamaraty, onde se realizou a reunião da COSBAN, Temer e Qishan coincidiram na necessidade de fortalecer os nexos bilaterais e trabalhar para diversificar ainda mais o comércio, os investimentos e a cooperação em diversas esferas, bem como incrementar a coordenação nas reuniões internacionais.

Sobre os vínculos comerciais bilaterais, Temer apontou o interesse brasileiro de incrementar as exportações de carnes (avícola, de porco e bovina) e de produtos manufaturados, uma vez que atualmente 80% dos envios de Brasília a Pequim são básicos: soja, ferro e petróleo.

Também, prosseguiu, solicitamos à parte chinesa que coloque no centro de sua atenção nosso desejo de regulação voluntária de suas exportações para o Brasil, pois estamos preocupados com o aumento em massa e indiscriminado de produtos chineses no mercado brasileiro.

Nessa mesma semana, o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, foi mais explícito e indicou que o governo brasileiro pediu a seu par chinês que reduza voluntariamente suas exportações de produtos como têxteis, calçados e eletrônicos, a fim de proteger a indústria nacional.

Não obstante a petição, Temer expressou sua segurança de que a segunda COSBAN incrementará ainda mais as relações entre os dois países e revelou a conformidade de ambas partes de realizar este tipo de encontro anualmente e não bienal como se projetou de início.

Por seu lado, Qishan manifestou a necessidade de que Pequim e Brasília reforcem a colaboração bilateral e trabalhem de maneira conjunta contra o protecionismo, bem como pelo sucesso das cúpulas dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), do G-20 -as principais 20 economias do mundo- e da “Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável”, a Rio+20.

Destacou que os dois países avaliaram positivamente os resultados da cooperação nas áreas econômico-comercial, investimentos, financeira, ciência, cultura, educação, tecnologia, turismo e esportes e manifestaram seu interesse de incrementá-las ainda mais.

Reafirmamos, apontou Qishan, a intenção de manter a trajetória de crescimento de nosso intercâmbio comercial e otimizar a pauta bilateral (atualmente favorável ao Brasil em 11,5 bilhões de dólares), além de aumentar os investimentos recíprocos em infraestrutura e indústria.

A parte chinesa continuará incrementando a importação de produtos brasileiros de alto valor agregado, precisou Qishan, quem chamou a aproveitar a COSBAN para criar bom ambiente de cooperação. Pontuou que "com o esforço conjunto das duas partes nosso futuro será ainda mais esplendido".

COOPERAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

Como resultado da segunda COSBAN e a visita da extensa delegação chinesa, ambas nações decidiram criar o “Centro Brasil-China de Pesquisa e Inovação em Nanotecnologia” (CBC-NANO), ciência que trabalha com objetos e matérias 10 mil vezes menores ao diâmetro de um cabelo.

A ordem para a instalação do CBC-NANO apareceu no Diário Oficial da União no dia seguinte de realizada a COSBAN, e estabelece que o centro terá a forma de rede cooperativa de pesquisa e desenvolvimento como mecanismo de implementação do “Acordo sobre Colaboração Científica e Tecnológica”, assinado entre os dois países como parte dos objetivos estratégicos nacionais nesta esfera.

O CBC-NANO coordenará as atividades vinculadas com a cooperação Brasil-China na área da nanotecnologia, deve promover o avanço científico e tecnológico da investigação e aplicações das matérias nanoestruturadas.

Assim mesmo, consolidar e ampliar a pesquisa em nanotecnologia, expandindo a capacitação científica com o objetivo de explorar os benefícios resultantes dos desenvolvimentos associados a envolvimentos tecnológicos, e desenvolver programas de mobilização de empresas instaladas em Brasil para possíveis extensões no área de nanomatérias.”

FONTE: publicado no site da “Prensa Latina” e transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177076&id_secao=2) [Imagens do Google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].