domingo, 28 de dezembro de 2014

ENTREVISTA COM O MINISTRO LAVROV SOBRE UCRÂNIA. EUA, OTAN, CHINA E EI



Segundo Lavrov, ainda falta muito até que a tensão na Ucrânia seja reduzida Foto: Vladímir Péssnia/RIA Nóvosti

Segundo Lavrov, situação na Ucrânia não será normalizada em breve 

Por Ígor Rózin, na "Gazeta Russa"

O diplomata russo abordou o estado das atuais relações da Rússia com os EUA e a União Europeia, as perspectivas da regularização da crise ucraniana e a vertente oriental da política do país.

"Serguêi Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, fez um balanço de 2014 durante uma entrevista concedida à agência "RIA Nóvosti".

Confira trechos da entrevista:

Sobre a regularização da crise ucraniana

O ministro salientou que o presidente da Ucrânia, Petrô Porochenko, é para Moscou o parceiro principal na busca de uma saída para a crise.

"O plano de paz por ele avançado, conjuntamente com as iniciativas de Vladímir Pútin, são o fundamento dos acordos alcançados em Minsk, cujo cumprimento literal é a chave da regularização viável da crise atual", disse Lavrov.

O chefe da diplomacia russa afirmou que a Rússia está esperando uma reforma constitucional praticável que conduza à aprovação "de um acordo social atualizado e aceito, em todos níveis, pela pluriétnica sociedade civil ucraniana, como um documento sólido de longa duração, como o fundamento de um Estado de direito que garanta a igualdade de direitos a todas regiões e etnias" na Ucrânia.

Segundo Lavrov, ainda falta muito até que a tensão na Ucrânia seja reduzida.

"Por enquanto, é bem claro que estamos longe da meta desejada", declarou o ministro.

Moscou e Washington

Passando às relações entre a Rússia e os EUA, Lavrov frisou que Moscou está aberta ao diálogo com Washington, embora não queira negligenciar seus interesses seja em que situação for.

"Quanto a nós, estamos sempre dispostos a dialogar com os EUA, construtiva e honestamente, tanto nos assuntos bilaterais como no palco mundial, onde nossos países têm responsabilidades específicas em relação à segurança e à estabilidade internacional. A questão é saber quando os dirigentes norte-americanos estarão prontos para cooperar com base numa verdadeira igualdade de direitos e respeito para com os interesses da Rússia, os quais não deixaremos de defender seja em que circunstância for", declarou o ministro russo.

Sobre a defesa antimísseis e os mísseis de médio e curto alcance

Lavrov disse que os EUA acusam a Rússia, sem qualquer fundamento e sem apresentar qualquer prova até hoje, de violar o acordo de desmantelamento dos mísseis de médio e curto alcance (MMCA). O ministro também notou que Washington está fechando os olhos à visível preocupação das autoridades russas nesse domínio.

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"Já no próximo ano, os Estados Unidos estão planejando instalar na Romênia e na Polônia sistemas de defesa antimísseis, com capacidade também de lançar mísseis de cruzeiro de médio alcance, tipo Tomahawk, o que é contra o acordo (de desmantelamento dos MMCA) (...) Lamentavelmente, Washington finge não entender as preocupações russas", realçou o ministro.

"Estamos avisando que, se o projeto de defesa antimísseis norte-americano atingir certa fase, teremos de tomar medidas para providenciarmos a nossa segurança", observou Lavrov.

Relacionamento Rússia-OTAN

As relações entre a Rússia e o bloco entraram, hoje, na crise mais grave desde os tempos da Guerra Fria; mesmo assim, a Rússia se esforça para preservar vias de diálogo político, na opinião do ministro.

"O bloco teima no rumo das limitações em relação à Rússia, reforçando, ao mesmo tempo, seu potencial bélico e aumentando substancialmente sua presença militar junto das fronteiras russas", disse o ministro.

Sobre sanções ocidentais e a resposta da Rússia

Moscou não tomará qualquer iniciativa em relação ao levantamento das limitações de importação de produtos alimentares originários da União Europeia, decretadas em resposta às sanções, pois o relacionamento Rússia-UE “chegou a um ponto em que gestos de boa vontade deixaram de dar resultado”, sublinhou Lavrov.

"Não pretendemos discutir critérios de levantamento das sanções. Deixamos tal tarefa para quem as introduziu. É evidente, porém, que estaremos prontos para uma interação construtiva, caso a UE demonstre bom senso nessa matéria", garantiu o ministro.

Rússia e Oriente

Segundo Lavrov, a Rússia não busca alterar o rumo da cooperação com a China, já que ela atende aos interesses essenciais de ambos os países.

"São, realmente, relações mutuamente vantajosas, nelas não há parceiros maiores ou menores, guias ou guiados. O trajeto do relacionamento entre a Rússia e a China foi traçado visando os interesses fundamentais dos dois países; longe de nós querermos mudar algo."

"As razões desse claro êxito residem na sólida cooperação com base em interesses comuns, respeito mútuo e não intervenção nos assuntos internos", frisou o ministro.

Sobre a colaboração entre Moscou e Washington na luta contra o terrorismo

O chefe do corpo diplomático da Federação da Rússia deu a entender que, por enquanto, não se pode falar de colaboração entre seu país e os EUA na luta contra o grupo terrorista Estado Islâmico.

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"Washington nunca encarou nosso país como possível participante da coligação contra essa organização; tal coligação foi construída conforme regras e parâmetros norte-americanos, restritamente em seus interesses, sem ter em conta o direito internacional. Mais do que isso: o presidente Barack Obama costuma inscrever a Rússia no rol das ameaças globais, como o Estado Islâmico e o vírus Ebola."


FONTE: escrito por Ígor Rózin, na "Gazeta Russa". Publicado originalmente pela agência de notícias "RIA Nóvosti". Transcrito no "Patria Latina"  (http://br.rbth.com/politica/2014/12/24/segundo_lavrov_situacao_na_ucrania_nao_sera_normalizada_em_breve_28867.html) e (http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=2c7c8ec529d898f2a3ba4d0666b4468f&cod=14847). 

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