terça-feira, 13 de março de 2012

O DINHEIRO É VERMELHO

“Barba e cabelos grisalhos, magro, voz baixa e jeito tímido formam a figura de pacato senhor inglês do geógrafo David Harvey, cuja aparência esconde um ferrenho crítico do capitalismo, animado por um debate que toma as ruas desde a crise americana de 2008, que ele chama de "mãe de todas as crises".

Por Carla Rodrigues, no jornal “Valor Econômico”

Com o Movimento "Ocupar Wall Street", a desigualdade se tornou um assunto importante, como sempre deveria ter sido, mas foi afogado por temas como dívidas e austeridade (Foto: Luciana Whitaker)

Considerado um dos autores que oxigenam o pensamento marxista na atualidade, seus cursos sobre "O Capital" estão disponíveis na internet e serão, em breve, publicados no Brasil pela “Boitempo”, mesma editora de seu trabalho mais recente, "O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo". O livro é resultado de uma provocação: Harvey foi chamado a explicar o que Marx teria dito sobre a crise. Para responder ao desafio, ele trata o capitalismo como um ser vivo, dependente do fluxo de capital como o corpo humano depende do fluxo sanguíneo. Na originalidade desse pensamento está a percepção de que todas as receitas para a crise econômica propõem a estranha combinação entre transfusão de sangue, de um lado, e sangria, do outro.

"A regra do neoliberalismo é a de que, entre salvar a instituição e o bem-estar das pessoas, opta-se por salvar a instituição financeira."

Para Harvey, o capital só sobrevive se movimentando: entre setores econômicos, como o mercado financeiro e o mercado imobiliário, e geograficamente, entre países e regiões. O diagnóstico serve como um alerta ao Brasil, onde o fluxo de capital estrangeiro, as taxas de crescimento econômico, o vigor do mercado imobiliário, o maciço investimento em infraestrutura e a atração de grandes eventos internacionais, são sinais de crescimento e podem ser prenúncio de uma queda vertiginosa em breve.

Doutor pela Universidade de Cambridge, professor emérito na Universidade da Cidade de Nova York, sua carreira de geógrafo foi se voltando para os problemas econômicos e urbanos a partir dos anos 1980, e hoje é, principalmente, dedicada aos reflexos sociais e políticos do capitalismo e a seus desdobramentos na vida cotidiana e nos espaços urbanos. Nesta entrevista que concedeu ao jornal “Valor Econômico”, Harvey defende o movimento "Ocupar Wall Street", embora admita sua surpresa com a baixa capacidade de mobilização dos estadunidenses. "Era de se esperar que os seis milhões de pessoas que perderam suas casas fossem fazer fila para se unir aos movimentos sociais e protestar."

O fato de isso não ter acontecido não desanima Harvey. Pelas três universidades por onde passou nos poucos dias em que esteve no Brasil, arrebatou alunos, professores e pesquisadores reunidos em plateias atentas a um conferencista de 76 anos que tem sido inspiração para jovens estudantes ainda entusiasmados com a ideia de mudar o mundo.

Valor Econômico: O senhor compara o capitalismo a um corpo e o fluxo de capital ao fluxo sanguíneo. O capitalismo é um doente terminal e incurável? Ou a doença é o estímulo para a busca da cura?

David Harvey: Comparo o capitalismo a um corpo que pode ficar doente se houver restrições ao fluxo sanguíneo. É importante perceber como o capitalismo depende da continuidade do fluxo de capital e como qualquer interrupção, por qualquer motivo, pode ter custos muito altos. A grande questão é: o capitalismo é um sistema que está ficando esclerosado? Tem recebido muitos bloqueios por todos os lados, atualmente. Parte da análise que faço sobre o capitalismo sugere que há muitos pontos de bloqueio com potencial de oferecer riscos à saúde e à continuidade do sistema. Além disso, há o fato de que esse corpo está crescendo e há expansão infinita das artérias do fluxo de capital e do fluxo de mercadorias. A maioria dos economistas não pensa em termos de continuidade e circularidade de fluxo. Tendem a pensar na produção e nos bens de produção, que depois vão para o mundo e são consumidos, como um processo linear, e não um fluxo circular.

Valor Econômico: Como esses bloqueios acontecem e como interferem no funcionamento do sistema?

DH: Existem dois tipos de bloqueios. Primeiro, os econômicos. Há problemas sérios para manter a taxa de crescimento em 3%. O único lugar onde não há restrição é na criação de dinheiro. O “Federal Reserve” [banco central estadunidense] pode criar quanto dinheiro quiser, a hora que quiser. Marx fala sobre a capacidade ilimitada de criar dinheiro. Acabo de me lembrar do último capítulo da "Teoria Geral" de Keynes. Ele conta uma história bíblica do vaso da viúva. Há uma criatura com dificuldades e a viúva lhe dá um vaso que se enche de óleo sozinho constantemente, sem ninguém precisar fazer nada. É uma fonte infinita de energia, uma fonte eterna. Keynes faz um paralelo entre essa história e o capitalismo: o dinheiro é o vaso da viúva. Pode ser perigoso acreditar nisso. Voltando à analogia do sangue: há duas maneiras de olhar para esse corpo politicamente. Podemos usar a antiga técnica de sangria. Quando há excesso, é feita a extração de sangue do sistema. Então, percebe-se que não há sangue suficiente. Outra opção é a transfusão de sangue. Temos apenas duas políticas no momento: uma é a sangria, a outra, a transfusão de sangue. Eu me pergunto quanto tempo um ser humano viveria se, de um lado fizessem a sangria, e do outro a transfusão de sangue.

Valor Econômico: O senhor acredita que uma solução como a da Islândia [que deixou seus bancos falirem] poderia salvar a Grécia e servir de exemplo para outros países?

DH: Sim, com certeza. Acho que há também outros exemplos que a Grécia poderia seguir, como o da Argentina. A Argentina entrou em crise em 2001. A moeda desvalorizou, houve uma grande crise econômica, mas três ou quatro anos depois estava recuperada. E agora o país está bem. São exemplos em que o paciente, livre dos "médicos" que vão extrair sangue e fazer transfusões, podem correr, se alimentar, e retomar a vida.

Valor Econômico: O senhor afirma que movimentos imobiliários e megaeventos podem anteceder grandes crises econômicas. Esta poderá ser a razão para o próximo alvo da crise ser o Brasil? Até que ponto pode ser um risco para o país ser atualmente o destino de grandes fluxos de capital?

DH: Não há uma relação automática entre "booms" imobiliários especulativos e colapsos posteriores. Tudo depende da força do resto da economia. O mesmo pode ser dito de países que têm fortes fluxos de capital. Alguns países estão bem posicionados para convertê-los em um grande benefício para si (por exemplo, a China nos anos 1990), enquanto outros podem ser vitimados por eles (por exemplo, Indonésia e Argentina na década de 1990). É por isso que é importante olhar para o processo de desenvolvimento econômico como um todo, ao invés de isolar apenas um fator, embora esse fator possa ser um determinante muito poderoso.

Valor Econômico: Por mais paradoxal que seja, o fato de a crítica ao capitalismo não promover mudanças pode ser mais uma demonstração da força do capital?

DH: O poder do capital é um poder de classes, hoje altamente concentrado. Poucas famílias controlam grande parte da economia global. Vimos um enorme aumento na desigualdade social nos últimos 30 anos. A classe capitalista controla a mídia, a política, e agora controla o judiciário, de forma que o judiciário ajuda a classe capitalista a controlar a mídia, como vimos recentemente nos Estados Unidos. Os efeitos disso são catastróficos para a democracia. Vimos a derrubada dos governos democráticos e eleitos na Grécia e na Itália, com a nomeação de governos tecnocratas, que deveriam ser neutros e, no entanto, estão lá para cumprir a vontade do grande capital. Portanto, o grande capital tem o controle de tudo.

Valor Econômico: Tudo ainda se resumiria a uma luta de classes?

DH: Pode-se dizer que há dominação de uma classe. Gosto de uma citação de Warren Buffett, quando perguntaram a ele se existia luta de classes. Ele respondeu: "Claro que existe. A minha classe, a classe rica, promove a luta, e nós estamos vencendo". Uma das coisas que achei muito importantes no movimento "Ocupar Wall Street" foi que mudou os termos do diálogo. A desigualdade social se tornou um assunto importante. Sempre deveria ter sido considerado importante, mas foi afogado por temas como dívidas e austeridade. O controle que existe nos principais instrumentos de poder, como o judiciário, a política, a mídia, precisa acabar. Uma das formas talvez seja promover movimentos de rua como o "Ocupar Wall Street". É o primeiro passo diante de um problema muito grande. Considero que o movimento afirmou o que pretendia, mas ainda existe a questão: poderá se transformar em algo maior e mais geral? Caso se transforme em um movimento maior, poderá haver novas discussões. O fato de a ocupação ter sido encerrada pela força policial foi provavelmente algo positivo. Por duas razões. Expôs os objetivos da força policial e quem está por trás dela. A outra é que os manifestantes não sabiam mais o que fazer. Por terem sido expulsos, puderam recuar e discutir os próximos passos.

Repressão policial ao movimento "Ocupar Wall Street"
Valor Econômico: O movimento ambientalista pode contribuir para a percepção de que outro mundo é possível? De todo modo, não é ingenuidade demais pensar que podemos retroceder em níveis de consumo e conforto?

DH: É difícil generalizar, porque há movimentos ambientalistas em diversos lugares. Existem grupos ingênuos, que acreditam que podemos voltar a viver da terra. Mas se considerarmos, por exemplo, a campanha "Climate Justice", que reúne cientistas preocupados com as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, começam a haver possibilidades políticas diferentes. Embora a retórica sobre a mãe natureza me aborreça um pouco, acho que isso apresenta uma possibilidade progressiva. E há o capitalismo verde, que é uma grande bobagem. Há pessoas sérias que acreditam que a forma capitalista de fazer as coisas é um bom caminho a seguir. Existe uma parte da classe capitalista que considera necessário fazer alguma coisa em relação a questões ambientais. E existe outra ala que não quer fazer absolutamente nada. Portanto, há uma divisão, e a questão está aberta a debates.

Valor Econômico: No livro "A Condição Pós-Moderna", o senhor associa o capitalismo à volatilidade, insegurança, flexibilização e compressão espaço-tempo. Nenhuma dessas características do capital se modificou. Ao contrário, a mão de obra tem sido cada vez mais exposta a todo tipo de insegurança, o que enfraqueceu todo movimento organizado de trabalhadores. Qual seria, então, o motor de uma mudança?

DH: O livro foi escrito no estágio inicial do que eu chamaria hoje de contra-revolução neoliberal, que começou com Reagan, Pinochet [FHC, Ménem], e o resto. Já existia antes, mas se tornou hegemônica nos anos 1980. Essa crise não mudou as regras do jogo neoliberal. Na verdade, de certa forma a crise derrubou as máscaras, revelando as soluções neoliberais. Uma das soluções criada nos anos 1970 e 80 é a regra do neoliberalismo: caso uma instituição passe por dificuldades financeiras, entre salvar a instituição e o bem-estar das pessoas, opta-se por salvar a instituição financeira. Nada disso mudou. Na verdade, só se aprofundou e se tornou mais nu e cru. A crise me surpreendeu com a falta de resposta política. Certamente, houve respostas localizadas, mas fiquei surpreso, por exemplo, ao ver que todas aquelas pessoas que perderam suas casas nos Estados Unidos não protestaram. Existem movimentos, mas dificilmente se tornaram protestos em massa. Era de se esperar que os seis milhões de pessoas que perderam suas casas fossem fazer fila para se unir aos movimentos sociais e protestar. Isso me diz algo sobre o aspecto psicológico do projeto neoliberal. Margaret Thatcher disse que não estava preocupada em mudar a economia, mas em mudar a mentalidade das pessoas. Há pesquisas nos Estados Unidos que indicam que as pessoas que perderam suas casas não culpam o sistema, elas culpam a si próprias.

Valor Econômico: Em "A Invenção do Capital", o senhor retoma o clássico conceito de Marx de exército industrial de reserva, observando que a entrada das mulheres no mercado de trabalho ajudou na expansão capitalista. Isso quer dizer que nós, mulheres, deveríamos ter ficado em casa?

DH: Não, de forma alguma, e por várias razões. Uma delas é que o movimento revolucionário tem que incluir um princípio igualitário, no qual homens e mulheres são iguais. Se a mulher quiser trabalhar, ela pode e deve, e se não quiser, não deve. Se o homem não quiser, também. Como Marx diz, ironicamente, o capitalismo trata de liberdade. A liberdade em um duplo sentido: você é livre para contratar quem você quiser, ou você é livre para trabalhar com o que quiser no mercado de trabalho, mas você também é "livre" de todas as possibilidades alternativas. Você é "livre", mas não tem outra opção a não ser entrar no mercado de trabalho. Quando isso acontece, o que infelizmente muitas vezes se dá é a submissão à dominação patriarcal. A libertação das mulheres é essencial como base para se construir um movimento político alternativo.”

FONTE: reportagem de Carla Rodrigues publicada no jornal “Valor Econômico” e transcrita no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177641&id_secao=10) [imagens do google e pequeno entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’]

segunda-feira, 12 de março de 2012

GOVERNO ATUA PARA REDUZIR DE 17 PARA 2 DIAS O TEMPO DE NAVIOS EM PORTOS

Porto de Rio Grande-RS
Por Pedro Peduzzi, Repórter da Agência Brasil

“Para dar conta do rápido crescimento de demanda pelos serviços portuários, o governo federal tem apostado na desburocratização de diversos procedimentos. De acordo com a Secretaria de Portos, órgão ligado à Presidência da República, atualmente os navios podem levar até 17 dias entre a chegada aos portos, a descarga dos contêineres e a saída da embarcação.

O navio “Independente”, de 170 metros, após operação no Porto de Itajaí
Mas acreditamos que, com os programas que já estão sendo implantados, vamos reduzir isso para dois dias, como fazem os grandes portos do mundo”, disse à “Agência Brasil” o diretor do Departamento de Sistemas e Informações Portuárias da Secretaria de Portos, Luís Cláudio Montenegro.

Segundo ele, o crescimento da economia causa reflexos imediatos na movimentação portuária do país, o que torna necessário, além de investimentos, "um olhar cuidadoso" com a infraestrutura. “Sabemos que o crescimento do movimento nos portos é, pelo menos, duas vezes maior do que o crescimento do PIB [Produto Interno Bruto]. Portanto, se o PIB cresceu quase 3% em 2011, o movimento portuário cresceu aproximadamente 6%. E isso pode gerar congestionamento”, disse.

Felizmente, esse congestionamento já era esperado, e temos trabalhado muito para lidar com a situação. E, por isso, não há situações emergenciais nos nossos portos”, acrescentou.

Entre as ações que estão sendo implementadas pelo governo, Montenegro destaca o “Porto sem Papel”, programa que concentra, de forma eletrônica na internet, informações enviadas pelas agências marítimas para a liberação de atracação e operação dos navios. Com ele, são eliminados os trâmites de 112 documentos (em diversas vias) e 935 informações para seis órgãos diferentes.

Os portos recebem informações dos navios com cerca de 15 dias de antecedência. Com isso, os navios já são liberados para atracar três dias antes de chegarem. Isso já está sendo feito nos portos de Santos, do Rio de Janeiro e de Vitória (ES) e está sendo implantado nos portos de Salvador e Ilhéus (BA), de Recife (PE) e de Fortaleza (CE), onde já demos treinamento e instalamos sistemas”, disse o diretor da Secretaria de Portos.

Segundo ele, o programa será implantado até o final do mês nos portos baianos. “Muitas das taxas portuárias são pagas por diárias. Ao obtermos ganhos em capacidade e eficiência, reduziremos os custos com logística, tanto para produtos exportados como para importados”.

A secretaria pretende melhorar, ainda, a gestão das cargas provenientes de acessos terrestres. “O projeto ‘Cargas Inteligentes’ é similar ao ‘Porto sem Papel’. Nele, as informações das cargas vindas de rodovias, ferrovias e, em alguns casos, de hidrovias, serão repassadas com antecedência ao porto, também antes de chegarem para serem descarregadas”.

Atualmente, informa Montenegro, as autoridades começam a analisar a liberação de cargas seis dias após a chegada. “Com o ‘Carga Inteligente’, elas já estarão liberada antes mesmo de chegarem aos portos”.

A implantação de radares para tráfego marítimo também beneficiará os portos brasileiros. Esses radares ajudarão na chegada de navios nos períodos noturnos, nas tempestades, ou quando houver neblina. “É como ocorre no posicionamento de aviões por instrumentos. Eles permitem melhor organização dos portos, por sabermos com antecedência que embarcação chegará primeiro”, explica o diretor.

Há, segundo a Secretaria de Portos, a previsão, para os próximos anos, de licitações para quase 100 arrendamentos portuários, entre operadores com prazos a serem vencidos e novas áreas a serem utilizadas. “Isso também nos ajudará a ampliar consideravelmente a atividade portuária brasileira”, prevê Montenegro.

FONTE: reportagem de Pedro Peduzzi, repórter da Agência Brasil (edição de Fernando Fraga)  (http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-03-11/governo-pretende-reduzir-de-17-para-dois-dias-tempo-gasto-por-navios-em-portos) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

CONTINUA O GENOCÍDIO DOS PALESTINOS


[OBS deste blog 'democracia&política': hoje e nos últimos dias, têm chegado notícias de dezenas de "militantes terroristas" palestinos mortos pelas Forças Armadas israelenses em Gaza. A maior parte dos "militantes" mortos compõe-se de crianças e mulheres. A mídia internacional e brasileira sempre, de antemão, justifica qualquer ato de violência de Israel como "em resposta". No caso, foi "em resposta" a "grande ataque de mísseis" pelos palestinos. Sabemos que os palestinos não têm Forças Armadas e são proibidos de receber e possuir armamentos para a sua defesa. Os tais "mísseis" não são mísseis. São, na verdade, pequenos, de curto alcance e quase inofensivos foguetes artesanalmente feitos. As demais armas que os tais "militantes terroristas" utilizam são pedras, lançadas com as mãos ou atiradeiras, contra os poderosos e moderníssimos carros de combate e aviões das tropas invasoras que abrem caminho para a contínua usurpação e ocupação da Palestina por "colônias" de judeus.

Vejamos o seguinte artigo de Yuri Martins Fontes, publicado no “Diário Liberdade”, de Portugal]:
  
PALESTINA: A DEMOGRAFIA E O TERROR

“A disparidade de meios militares entre o Estado de Israel (apoiado pelos EUA) e o povo palestino, sem exército, dispondo apenas de arcaicas armas caseiras, transformou o conflito num lento genocídio.

O terror chegou a tal ponto que são várias as vítimas do Holocausto que começam a denunciar publicamente a semelhança das práticas do governo sionista com as do regime hitleriano.

Tortura, uso de seres humanos como cobaias e racismo são práticas comuns do governo de Telavive, que se estão a agravar devido a um fator – a elevada taxa de natalidade dos palestinos, muito superior à dos israelenses.

Esse fato vai, em poucos anos, obrigar Israel, para manter os privilégios dos seus habitantes, a abandonar os últimos resquícios de "Estado democrático", limitando o direito de voto aos cidadãos não-judeus ou, ainda pior, expulsar ou assassiná-los, realizando uma limpeza étnica.

Esse aparente absurdo institucional está perto de se tornar realidade. Basta atentar nos dados divulgados pelos organismos internacionais. E é, paradoxalmente, a representação diplomática do líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abas, na ONU que, ao defender a solução de "dois Estados" oferece ao povo judeu a única solução para evitar tão bárbaro rumo.

CRIMES DE GUERRA, COBAIAS HUMANAS E CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

Recordemos os dados mais recentes do terrorismo israelense: no último bombardeamento massivo de Gaza (2008/2009), a desproporção de forças foi tal que, por cada israelense morto, foram assassinados 100 palestinos. Dois terços das 1.300 vítimas eram civis, a maioria delas crianças.

Conforme a análise do sociólogo Emir Sader, da Universidade do Rio de Janeiro, a matança "foi uma das piores que o mundo conheceu nos últimos tempos".

Sob a premissa de que "não há inocentes em Gaza", essa zona de alta densidade populacional foi bombardeada como se de um campo de tiro a céu aberto se tratasse.

Foram lançados sobre o território mil toneladas de bombas, que destruíram o pouco que ainda restava das infraestruturas públicas – hospitais, fábricas e escolas – numa zona das mais pobres do mundo e onde se amontoam milhão e meio de pessoas.

Segundo a Cruz Vermelha e a ONU, os comandos israelenses ordenaram o uso de armas químicas, em clara violação das leis internacionais de guerra.

Os documentos referem que os paraquedistas lançaram, pelo menos, 20 bombas de fósforo branco sobre o campo de refugiados de Biet Lahaiya.

bombas de fósforo lançadas sobre os palestinos
O fósforo branco é substância altamente inflamável, que reage ao oxigênio e causa graves queimaduras. Ao explodir, as bombas pulverizam o fósforo, que é lançado a grandes distâncias e se pega à pele, continuando a arder depois de a penetrar.

Mais ainda, os médicos noruegueses da ONG “Norwac”, Mads Gillbert e Erik Fosse, denunciaram o uso de nova arma conhecida como “Explosivo de Metal Denso”.

Trata-se de pequena munição envolta em carbono, com cobertura de ferro, cuja explosão "corta um corpo ao meio". Ao experimentar essas armas nunca usadas, nem pelos EUA, os israelenses fizeram dos palestinos cobaias, repetindo prática abominável dos tempos de Adolf Hitler.

O ÓDIO QUE SE SEMEIA

Desde então, realizaram-se diversas manifestações israelenses de protesto. Norman Finkelstein, filho de sobreviventes do Holocausto e autor de “A indústria do Holocausto”, afirmou que as ações israelenses contra os árabes "são comparáveis às dos nazistas contra os judeus".

E, como exemplo, lembrou a expulsão dos palestinos, depois da guerra de 1948, quando os israelenses ocuparam – com a ajuda do exército – imensos territórios árabes dizendo serem terras "abandonadas".

Após 1999 (último mapa à direita), continuou a invasão, o confisco e a ocupação dos territórios palestinos (em verde) por Israel, com apoio dos EUA. Hoje, a invasão ainda continua e quase nada resta.

O autor, depois de visitar o Sul do Líbano, que esteve sob domínio israelense durante duas décadas, declarou: "Era um campo de concentração".

Outra significativa denúncia dos crimes israelenses partiu de uma judia que fugiu da Alemanha e cujos pais morreram em Auschwitz.

Para Hedy Epstein, as ações do governo israelense mostram que não aprenderam nada: "Como podem fazer aos palestinos o mesmo que os nazistas?", declarou à BBC, acrescentando: "Essas ações horríveis aumentam o antissemitismo".

DA PRÁTICA DO TERROR À SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO

Michel Warschawski, diretor do “Centro de Informação Alternativa de Jerusalém”, considera "particularmente significativo" que um setor da direita já tenha percebido que a "democracia israelense está em perigo".

Israel converteu-se num Estado fundamentalista e poderá caminhar para o fascismo. Um quinto da sua população é árabe e é a parte mais pobre de uma sociedade em que a concentração de riqueza é das maiores do mundo.

Vários analistas vêm referindo que a "solução de dois Estados" é a que mais convém a Israel porque, como explica o professor de Relações Internacionais da Universidade Hebraica, Arye Katzovich, "se Israel não permitir a independência dos territórios ocupados, o país não poderá sobreviver como 'Estado judeu e democrático', já que a população árabe-israelense em poucos anos superará a judia – devido às altas taxas de natalidade e o não acesso à informação sobre planejamento familiar."

"Os árabes-israelenses são 19,4% numa população de quase oito milhões. Porém, têm taxa demográfica duas vezes superior à dos judeus".

"Se os sionistas impedirem a criação de um Estado palestino para onde possam 'deportar os árabes', só restam duas possibilidades: ou os árabes acabam por controlar o Estado ou, à semelhança do apartheid, haverá necessidade de um regime autoritário e segregacionista que permita manter o poder nas mãos da minoria judia".

No limite, poderá acontecer algo semelhante ao extermínio nazista – sempre em nome da manutenção do Estado do "povo eleito". Henri Lefebvre, filósofo de meados do século 20, já tinha notado a semelhança: "Os ideólogos hitlerianos tomaram do antigo judaísmo a ideia de um povo eleito e de uma raça, a qual aperfeiçoaram recorrendo a considerações biológicas discutíveis".

Agora, os novos membros do “povo eleito”, depois do débil otimismo da experiência liberal, parecem querer voltar ao pessimismo do fundamentalismo político-religioso baseado no terror."”

FONTE: escrito por Yuri Martins Fontes, no “Diário Liberdade”, sediado em Ferrol (Galícia), Portugal. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177630&id_secao=9) [Imagens do google e observação inicial entre colchetes adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

REPRESSÃO CONTRA O POVO QUE PROTESTA NA ESPANHA, EUA E MÉXICO

Estudantes protestam em Barcelona

“No mundo todo, os selvagens policiais “da ordem” – sob mandatos de governos fascistas – abastecidos e armados até os dentes, submetem campesinos, operários, estudantes, o povo, que protesta para defender suas condições de vida.

Por Pedro Echeverría

Nas fotos, vemos os valentes estudantes de Barcelona, Madri e Valência, que saíram às ruas, resistindo aos selvagens policiais do governo espanhol franquista de Rajoy, para expressar sua indignação frente ao governo, diante de cortes e medidas de austeridade que estão – disseram – “hipotecando nosso futuro”.

Ocorre no Estado espanhol, na Grécia, na Itália e nos Estados Unidos. Em Nova York, as chamadas forças da ordem capitalista atacaram os jovens de Wall Street e Madison que protestavam diante dos bancos e na estação central. No México, com o pretexto da luta contra o narcotráfico, se reprime a campezinos, operários e forças de esquerda. Mas as batalhas de resistência continuam.

Repressão contra protestos em Nova York

Depois de ver uma dúzia de fotografias acerca da repressão no Estado espanhol e na Grécia, os crânios ensanguentados de jovens e a um ou outro cavaleiro milico usando seu sabre, me pergunto: como é possível que, sendo nós os manifestantes, os mais numerosos, não botemos a polícia para correr, tal como deveria ser? Bem, porque eles estão munidos de cacetetes, gases lacrimogêneos, armas longas e curtas, assim como possuem cavalos e cães para introduzi-los de assalto quando seja necessário. Ao contrário, os manifestantes vamos sem carregar nenhuma pedra ou pau para que não nos acusem de estarmos armados.

Parece que os policiais lançam toda sua fúria contra os manifestantes e pensa-se que, para isso, estão muito preparados. Lembra-me o treinamento de militares dos EUA no filme de Kubrick, "Nascido para matar”. Bastará uma ideologia anticomunista para a selvageria na repressão?

No Estado espanhol, as coisas se colocaram em vermelho vivo. A mobilização social aumenta porque tem a taxa de desemprego mais alta de sua história - 5 milhões e trezentas mil pessoas, 23% da população economicamente ativa-, o aumento da pobreza – com 21% dos habitantes em risco de exclusão social- e uma economia agonizante, que está à beira de entrar em recessão. A construção, que já foi o motor do crescimento do Estado espanhol, se encontra paralisada. Mariano Rajoy e seu gabinete puseram em marcha um programa neoliberal para reduzir ao máximo a função do Estado e suprimir gastos em prol [do pagamento aos bancos, para] redução do déficit. Os sindicatos e os trabalhadores estão indignados com o governo de Rajoy por causa do decreto da reforma trabalhista, que barateia a demissão e outorga todo o poder da negociação ao empresário frente à comissão de empresa ou o sindicato.

Enquanto isso, o Banco Mundial publicou, na quarta-feira (7), valores alarmantes sobre as condições de vida dos habitantes do México e América Latina; elementos tão injustos que deveriam sacudir-nos e nos pôr a lutar ou, pelo menos, nos defender.

Vejamos. No México, enquanto 20% mais pobre da população só realiza 3,79% do consumo, o segundo grupo, de 20% de pessoas que se localiza na seguinte escala da pirâmide, realiza 9% do gasto; o grupo posterior, também em direção ascendente, aporta 12,54% do consumo; o quarto grupo, 19,48% e o último, o de maior ingresso, 56,17% do total. O México é comparável ao que se observa em outros países da região como a Guatemala, Nicarágua, Panamá ou Paraguai, onde a quinta parte dos habitantes na ponta da pirâmide realizam 58% do consumo, no primeiro caso, e 57% em cada um dos seguintes.

Enquanto no México e na América Central se vive essa terrível desigualdade entre o enorme ingresso dos ricos e o aprofundamento da pobreza em milhões de seres humanos, a Europa – particularmente no Estado espanhol, Grécia, Itália e França - parece se acender, pelo descontentamento dos trabalhadores que lutam nas ruas contra a lei trabalhista, a falta de trabalho, o assalto dos banqueiros e demais condições econômicas e financeiras que sofrem. No México, esses dados demonstram que os governos do PRI e do PAN – durante mais de um século - nada fizeram para solucionar o problema da desigualdade ou para fazê-lo menos grave. Pelo contrário, o crescimento do país demonstra a cada ano gigantesca acumulação de riqueza entre os poderosos empresários e políticos, assim como o crescimento da pobreza entre 70% da população. No entanto, a resposta dos mexicanos é mínima, comparada com a Europa e EUA.

Os EUA – país culpado pelas grandes guerras, saques e crises no mundo há um século – parece entrar num longo período de protestos nas ruas, parecidos e ainda superiores aos dos anos 1960 e 1970, contra a guerra do Vietnan e a discriminação racial. Desde as concentrações em Wall Street contra os bancos e as bolsas de valores no ano passado em Nova York, os jovens voltaram a tomar as ruas e seu alto nível de consciência anuncia que vão permanecer por muito tempo. Policiais a pé, assim como em motocicletas e patrulhas – fortemente armados- tentaram destruir as barricadas que os jovens haviam construído. Disse a imprensa: "Quando a polícia deixou desprotegido por um momento um dos lados do edifício da Pfizer, um contingente de trabalhadores do setor de saúde chamado 'doutores dos 99%', conseguiu se colocar valentemente na entrada do enorme edifício”.

Não sabemos bem a fase do capitalismo que vivemos. Ainda que Obama seja reeleito, os EUA estão sendo derrotados no Afeganistão e buscam pretextos para invadir o Irã, se é que, por acaso, o exército assassino de Israel não se adiante. Porém, não medimos bem a erupção da força econômica e política dos chineses, ainda que vemos os yanques muito preocupados com os avanços que a cada dia alcança a China nos mercados. As batalhas das forças progressistas nas ruas da Europa, Ásia e América para contribuir com que os yanques limitem suas intervenções e seus saques. Aparentemente, os EUA sofrem crise terminal como império, mas desconhecemos as alianças que fizeram para seguir dominando nas próximas duas décadas. As batalhas vão continuar pelas condições de vida dos povos; esperamos que essas sejam, cada dia, maiores e combativas.”

FONTE: escrito por Pedro Echeverría para o “Diário Liberdade”, de Portugal, e divulgado pela Argenpress. Transcrito no portal “Vermelho” com tradução de Cássia V. Marques (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177545&id_secao=9) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

ALEMANHA, O PASSADO E O PRESENTE



“Há mais de 20 anos que o grande capital alemão anda a rever a História, a criminalizar as vítimas da opressão nazista e as forças que mais lhe resistiram, como a URSS, os comunistas e o movimento operário.

Por Rui Paz


Durante 45 anos, a Alemanha Federal esteve sob controle dos seus aliados militares. Os laços, que sempre ligaram o capital monopolista ao regime hitleriano, derrotado em 1945, estão bem visíveis não só nas dinastias de industriais e banqueiros que transitaram do nazismo para a República Federal, mas também no elevado número de altos dirigentes do Estado que fizeram carreira em ambos os regimes.

Recordar algumas dessas figuras mais significativas é importante para se compreender a nova vaga de ataques aos direitos dos trabalhadores e de desrespeito pela soberania dos povos desencadeada por Berlim desde a chamada “unificação”.

Palácio do Reichstag, Berlim

O primeiro presidente da República da Alemanha, Theodor Heuss, foi um dos deputados que, em 23 de março de 1933, votou, no “Reichstag”, a lei que deu a Hitler plenos poderes (Ermächtigunsgesetz). O seu sucessor será Heinrich Lübke, construtor de campos de concentração e de centros de trabalho escravo no III Reich. Após curto interregno, seguir-se-ão Walter Schell e Karl Carstens, ambos antigos membros do partido de Hitler, o NSDAP. Kurt Georg Kiesinger, membro do partido nazista desde fevereiro de 1933, será chanceler da Alemanha entre 1966 e 1969.

A subida de Hans Globke ao cargo de secretário de Estado da chancelaria de 1953 a 1963 veio demonstrar não haver limites para a recuperação de nazistas pelo regime de Adenauer. Globke foi o comentador oficial das leis racistas de Nuremberg, cuja finalidade era a defesa da pureza do sangue e da superioridade da raça ariana. Enquanto nazistas ocupavam cada vez mais importantes funções políticas, o governo de Bonn ilegalizava em 1956 o Partido Comunista Alemão (KPD) e desencadeava nova vaga de perseguições contra os comunistas.

Um Estado como a Alemanha Federal, fundado sob a proteção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) por “democratas” que serviram um regime de terror, refletirá, forçosamente, na sua doutrina e comportamento, os princípios avessos à igualdade de direitos e ao respeito pela soberania dos povos.

Se lançarmos olhar muito breve sobre a Alemanha de hoje, o que verificamos? Tribunais que proíbem greves, como aconteceu nestes dias com os controladores aéreos no aeroporto de Frankfurt. Serviços secretos que espionam ideologicamente milhares de cidadãos e registram em ficheiros as suas convicções políticas. Anticomunismo de Estado, visando a criminalizar as forças que procuram alternativas para o capitalismo e novos caminhos para uma sociedade mais justa e mais democrática.

Promiscuidade entre os serviços secretos e organizações terroristas de extrema-direita, permitindo, durante mais de 10 anos, o assassínio impune de estrangeiros e a prática de atentados racistas. Dois presidentes da República demitidos, no espaço de ano e meio. O primeiro, por ter confirmado que as tropas alemãs no Afeganistão defendem os interesses econômicos da Alemanha e o segundo, possuidor de uma infinidade de “amigos” empresários prestadores de tais favores que o Ministério Público se viu obrigado a intervir. Mas a surpresa não será menor face à decisão do “partido único europeu da Alemanha” (constituído pela CDU, SPD, Liberais e Verdes) de escolher, como candidato conjunto a presidente da República, um pastor protestante visceralmente anticomunista.

É nos momentos de crise do sistema capitalista que a verdadeira natureza reacionária, obscurantista e de classe dos estados imperialistas se revela."

FONTE: escrito por Rui Paz, colunista do “ODiario.info”, de Portugal. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177592&id_secao=9) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

A “DOUTRINA RUMSFELD” dos EUA: ALTA TECNOLOGIA E PRIVATIZAÇÃO DA GUERRA


“Nos últimos dias, nos deparamos com noticias sobre o uso civil dos veículos aéreos não tripulados, VANT. Os VANT são fruto do desenvolvimento tecnológico militar que, por suas virtudes, ao agregar poder de fogo e observação, mobilidade e redução de custos, foram impondo-se nos exércitos de todo o mundo. Hoje em dia, existem 700 tipos, 500 deles exclusivamente militares, presentes em 25 países.

Por Javier Couso

Os líderes na fabricação desses aparatos são Estados Unidos e Israel, e não é casualidade, já que seu desenho e implantação foi favorecido de maneira decisiva pela chamada “Doutrina Rumsfeld”, que é, de fato, um projeto de reorganização das forças armadas estadunidenses, similar ao que foi impulsionado anteriormente por Brzezinsky, eminência parda do verdadeiro poder estadunidense.

O que torna diferente ambas a doutrinas é o aspecto tático, o qual gira exclusivamente sobre o poder aéreo, as forças especiais, a tecnologia, a informação e, como elemento coesionador, a privatização de grandes áreas que dizem respeito à defesa.

Frente à visão de Colin Powell sobre o uso de poder militar esmagador e decisivo, Rumsfeld propõe reduzir os gastos em armamentos, já que, na concepção das novas guerras, e sem ter em frente exércitos de divisões com similar poder, é preferível força menor e apoiada, isso sim, pela mais alta tecnologia e a melhor informação.

Curiosamente, e apesar de ser republicano neoconservador, Rumsfeld, em sua visão estratégica, coincide com o democrata Brzezinsky. Este aponta a China como o verdadeiro inimigo, prevê isolamento dos EUA cada vez maior, descarta o Atlântico Norte e a Europa Central como eixos centrais e dedica cuidados aos países europeus da OTAN, outorgando uso tático ao Oriente Médio onde, se as forças de intervenção estadunidenses se adiantem e se essas dominam zonas estratégicas, podem propiciar, como objetivo prioritário, o isolamento que leve à neutralização da China.

No princípio, o conceito “complexo militar industrial” se opunha frontalmente aos planos de Rumsfeld, mas a realidade nos demonstra que, finalmente, houve adequação dos mesmos, já que o orçamento da Defesa aumentou com orientação mais tecnológica, e os empreendimentos que se dedicam à construção de material militar de alta tecnologia saíram reforçados.

Quando se reflete sobre doutrina estratégica estadunidense, se observam mudanças de elementos táticos, novos teatros de operações, mas a indicação da China como prioridade é anterior à queda da URSS, embora se consolide depois desse fato.

Dentro dessas similitudes, vemos que Rumsfeld impulsiona, desde 2001, o falsamente denominado “Escudo antimísseis”, que pretende deixar fora do jogo a Rússia ao obrigá-la a empreender nova corrida aos armamentos, deixando o peso dessa iniciativa aos países europeus da OTAN (mais a Turquia).

Polônia, Romênia e Espanha são atores destacados. Uns põem bases de mísseis e esta última aporta os melhores e mais modernos meios navais, as fragatas dotadas com o sistema Aegis.

O importante do pensamento de Rumsfeld não é tanto o conceito estratégico que, como já vimos, bebe de Brzezinsky, mas sua aplicação tática nova, que dá o pontapé inicial à preeminência de alta tecnologia fundida com o pensamento neoliberal de privatização de áreas e recursos, os quais, na concepção de Estado Nação tradicional, estavam em mãos exclusivas do Estado.

Essa ideia é a que faz com que, para manter essa pequena força estatal, se recorra a ceder à iniciativa privada áreas de segurança e informação vitais. Funções assumidas imediatamente por empresas de segurança, conhecidas popularmente como “contratistas”, maneira eufemística de chamar o que sempre foi o “aluguel de mercenários”.

Forças mercenárias na Líbia

A partir das invasões do Afeganistão e Iraque, assistimos à proliferação dessa privatização da guerra e da inteligência, que leva a criar grandes empresas com mais poder que alguns países. Seus benefícios imediatos convencem os governos: são mais baratas de manter do que as estruturas castrenses tradicionais, não têm responsabilidades fora do tempo de contrato e, ao mesmo tempo, se estabelece o negócio com setores ideologicamente afins que podem chegar aonde as próprias Forças Armadas, algo constrangidas pelo “Direito Internacional Humanitário”, não convém que cheguem.

Igual ao que ocorre com a segurança, na logística se aplica o mesmo princípio. A alimentação, os transportes, a construção de bases, sua manutenção … tudo é posto em mãos privadas. Nas mãos privadas dos amigos.

Ainda que menos vistosa, a logística é a alma de um exército. Não é em vão que os grandes historiadores militares falam com admiração da logística das Legiões Romanas ou da dos exércitos de Alexandre, o Grande, que lhes permitia percorrer centenas de quilômetros tendo assegurados a comida, o descanso, o material… em definitivo, todas as necessidades na vida de milhares de homens em movimento. Imaginemos o formidável negócio que é manter o deslocamento de centenas de milhares de soldados em oitocentas bases ao redor do mundo.

Como conclusão, devemos ter sempre presente o pensamento de Rusmfeld, pois, com as bases estratégicas de Brzezinski, faz uma construção tática e ideológica da projeção do poder estadunidense que estamos vivendo hoje em dia, que se resume em: alta tecnologia e privatização. Puro pensamento neoliberal no âmbito militar imperial.

Tudo está relacionado nesse tabuleiro mundial onde se joga a geopolítica, embora o emaranhado de ações não nos deixe ver o núcleo do bosque.

Fica claro que essa é a construção ideológica de um futuro em que as grandes corporações vão minando e substituindo o poder dos Estados, chegando, inclusive, a devorar quem lhes permitiu crescer e desenvolver-se: os Estados Unidos.

O que pareciam distopias literárias ou cinematográficas de um mundo dominado por um governo mundial de grandes corporações, que se torna cada vez mais possível com a permissividade e o impulso de um pensamento que enfraquece as competências do Estado dos cidadãos, emanado da Revolução Francesa, para entregá-lo a entidades privadas com visão feudal do mundo.”

FONTE: escrito por Javier Couso no site “Cubadebate”. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177551&id_secao=9) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

BANQUEIRO DANIEL DANTAS: O “HONOURABLE MAN”


A OPERAÇÃO SATIAGRAHA E OS SINAIS DE ALENTO

RECURSO NO STF

Por Mauro Santayana, na "Carta Maior"

“O recurso da Procuradoria Geral da República junto ao Supremo Tribunal Federal, contra a decisão do STJ que anulou toda a “Operação Satiagraha”, traz novo ânimo à cidadania. É mais um dos sinais alvissareiros de que a República se aprimora, apesar da reincidência da corrupção em certas áreas da sociedade.

Operação Santiagraha

A operação, autorizada pela Justiça, e comandada pelo delegado Protógenes Queiroz, foi conduzida dentro dos procedimentos rotineiros da Polícia Federal, sem fugir dos trilhos da realidade. É possível, conforme acusam os defensores do banqueiro Daniel Dantas, que os policiais se tenham entusiasmado, diante das provas recolhidas, e deixado vazar algumas informações à imprensa. Esses descuidos, no entanto, não invalidam o processo. As provas recolhidas – e conhecidas – não deixam dúvida de que houve atos ilícitos, previstos na legislação penal.

Mas o banqueiro Daniel Dantas é um “honourable man”. Todos nos recordamos de seu comparecimento à CPI que não prosperou. O banqueiro não foi inquirido, mas, sim, homenageado, pela maior parte dos parlamentares presentes. Ele estava à vontade, e se esgueirava das poucas e pertinentes perguntas que lhe faziam, discorrendo sobre a sua vitoriosa vida empresarial. Não se encontrava na cadeira dos acusados, mas no púlpito em que, de forma sutil, pregava a filosofia do êxito capitalista.

Daniel Dantas, muito elogiado e homenageado pelos parlamentares da oposição na CPI

E havia razões para isso. Daniel Dantas é um dos fenômenos de nossos tempos neoliberais. Recorde-se, entre outros fatos, a admiração quase reverencial do então presidente Fernando Henrique Cardoso – admiração emulada por sua equipe econômica – pelo “gênio” das finanças. Recordem-se os esforços dos responsáveis pela privatização criminosa das empresas estatais a fim de privilegiar o Banco Opportunity, de acordo com as interceptações telefônicas, nunca contestadas. É difícil esquecer o fato de que, nas semanas finais do mandato de Fernando Henrique, o presidente recebeu, no Palácio da Alvorada, o banqueiro, para um jantar a dois, sem testemunhas.

O Brasil é um dos poucos países do mundo em que os homens de negócios têm acesso direto aos chefes de Estado. Não é um bom hábito. Os homens de Estado, ainda que se procurem manter bem informados sobre os assuntos, devem ser preservados desses contatos pessoais. Para receber os mercadores, os banqueiros, os empreiteiros, investidores – seja lá que títulos tenham esses homens de negócios-, existem os ministros de Estado, responsáveis pelas áreas de interesse. E é importante que esses encontros sejam registrados e tenham a presença de testemunhas. Se os negócios são lícitos, não há por que manter os encontros secretos, ainda que possam ser provisoriamente sigilosos; se não são lícitos, não podem ser realizados.

Será difícil ao STF negar o pedido da Procuradoria, diante dos argumentos expostos. Como considerar ilícita uma prova, apenas pelo fato de que mais de um órgão legítimo do Estado tenha contribuído para a investigação?

É certo que, no entendimento jurídico do Ministro Gilmar Mendes e, provavelmente de mais um ou outro juiz, o banqueiro Dantas sempre terá razão. Mas, pelas decisões recentes, sabemos que, provavelmente, esse não será o entendimento da maioria da alta corte.”

FONTE: escrito por Mauro Santayana, na “Carta Maior”, e transcrito no blog “Escrivinhador”  (http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/a-operacao-satiagraha-e-os-sinais-de-alento.html) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]