quinta-feira, 15 de março de 2012

SÃO PAULO É 4ª CIDADE DO MUNDO COM MAIS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS EM 2011, mostra estudo francês

Da agência britânica de notícias BBC

“A cidade de São Paulo é a quarta no mundo que mais recebeu investimentos estrangeiros em 2011, segundo estudo divulgado ontem (14), em Paris, que inclui 22 grandes cidades internacionais.

A capital paulista avançou três posições no ranking em relação ao ano anterior, de acordo com o estudo “Observatório dos Investimentos Internacionais” – realizado pela “consultoria KPMG” e pela agência de investimentos francesa “Paris-Ile de France Capital Économique”.

O levantamento revela que São Paulo, com o total de 195 investimentos internacionais realizados em 2011, ultrapassou cidades como Paris, Moscou e Pequim e só está atrás de Londres, Xangai e Hong Kong, que continuam mantendo, como no estudo anterior, os três primeiros lugares do ranking, nessa ordem.

O aumento no número de investimentos estrangeiros em São Paulo foi quase 55% no ano passado em relação a 2010 e 160% em relação a 2009.

As cinco principais cidades da lista (a quinta é Nova York) representam 50% do total de investimentos realizados nas 22 metrópoles analisadas. A América Latina foi a região do mundo onde o número de investimentos mais cresceu em 2011.

O estudo leva em conta os investimentos produtivos, como aberturas de filiais, novas fábricas, serviços ou lojas, a ampliação das atividades já existentes, as inaugurações de escritórios e centros de pesquisas ou ainda 'joint ventures' (associação de empresas), mas não inclui privatizações, fusões ou aquisições em seus cálculos.

Av Paulista-São Paulo
A capital paulista representa 39% do número total de investimentos estrangeiros realizados no Brasil, segundo a KPMG.

Na América Latina, além de São Paulo, apenas a Cidade do México faz parte do estudo. Mas o documento revela que a América Latina representa 10% do número de investimentos internacionais realizados em 2011, que cresceram 29% na região.

O estudo também mostra que, no período de 2006 a 2011, o total de investimentos em São Paulo quase quadruplicou, passando de 51 para 195. O crescimento mais acentuado começou a ser registrado a partir de 2008.

Em 2009, São Paulo ocupava ainda a 12ª posição entre as cidades que mais recebem investimentos internacionais - ou seja, avançou oito posições no ranking em apenas dois anos.

"A partir de 2008 e 2009, houve aceleração nos investimentos internacionais em São Paulo. O dinamismo da economia brasileira contribuiu para isso", disse à 'BBC Brasil' Christophe Scheidhauer, um dos autores do estudo. "O Brasil conseguiu enfrentar melhor a crise financeira e, por isso, a aceleração nos investimentos surgiu a partir daquele período", completou.

Também houve aceleração dos investimentos em Mumbai, na Índia, e em Moscou, na Rússia, no período de 2006 a 2011.

Segundo o levantamento, São Paulo ocupa a quinta posição na categoria de investimentos internacionais em "funções estratégicas", como a criação de sedes e de centros de pesquisa, de marketing ou de design e de serviços de atendimento ao consumidor. Nesse quesito, São Paulo está à frente de cidades como Pequim, Paris e Nova York e atrás de Londres, Xangai, São Francisco e Hong Kong.

A maior parte dos investimentos estrangeiros em São Paulo (43%) foi realizada justamente nessa área de "funções estratégicas" em 2011. Os setores da indústria e da construção representaram 31% do número de investimentos na capital paulista e, o de serviços, 25%.”

FONTE: divulgado pela agência britânica de notícias BBC e transcrito no portal da Agência Brasil  (http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-03-14/sao-paulo-e-4%C2%AA-cidade-com-mais-investimentos-estrangeiros-em-2011-mostra-estudo). [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

quarta-feira, 14 de março de 2012

PARA HADDAD, PSDB É “BOLA DE FERRO QUE PRENDE PAÍS PELOS PÉS”

Fernando Haddad

“Em entrevista exclusiva à ‘Carta Maior’, Fernando Haddad, pré-candidato petista à prefeitura de São Paulo, não subestima o trabalho que terá para tentar romper a hegemonia do PSDB na capital paulista. “São Paulo tem pensamento conservador muito consolidado (…). Se optar pela renovação, no entanto, irradiará rapidamente essa tendência para o país. O Brasil poderia mais, não fosse a âncora conservadora do PSDB de São Paulo. Tem uma bola de ferro no nosso pé que ainda segura muito o país”.

Por Maria Inês Nassif

São Paulo - Estreante nas lides eleitorais, o pré-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad, entra na disputa com as vantagens e desvantagens de ser um nome novo. A vantagem óbvia é não apenas o apoio, mas o comprometimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com sua candidatura – Lula articulou intensamente para que o PT paulistano o assumisse como candidato e será fundamental no processo eleitoral. Isso, o ex-ministro reconhece, é o mais importante. “Lula é (…) personalidade que tem a força e a frequência de um cometa, aparece a cada 70 anos”.

Haddad tem também o apoio da presidenta Dilma Rousseff, e muito menos a perder do que o possível candidato do PSDB à prefeitura, José Serra. “A perda dessa eleição, no caso do nosso adversário, seria uma derrota dura”, afirmou Haddad, em entrevista exclusiva à “Carta Maior”.

As desvantagens de sua candidatura são óbvias: um nome desconhecido, para ser apresentado ao eleitorado da maior metrópole da América Latina, precisa contar com os meios de comunicação de massa – e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) [coincidentemente?] subtraiu essa oportunidade do PT, ao punir o partido com a proibição de veicular o horário de propaganda partidária. O PT foi condenado por usar o programa partidário para propaganda eleitoral no ano passado. Os demais partidos terão horário no primeiro semestre; Haddad ficará de fora até o início oficial do horário de propaganda eleitoral gratuita, que começa apenas em agosto.

A outra dificuldade também é a amarração de apoios à sua candidatura. Haddad garante que o único interesse do ex-presidente Lula no apoio à coligação com o PSD foi a filiação de Henrique Meirelles. “Se o Meirelles tivesse ido para o PMDB, o Lula iria atrás”, afirmou. “A hipótese de uma chapa com dois ministros de seu governo o agradava”. Na avaliação do candidato, mais importante do que o apoio do PSD é manter o PT unido em torno de sua candidatura e fechar com os tradicionais aliados petistas – o PSB, o PDT e o PCdoB. A pesquisa eleitoral feita pelo “Datafolha”, divulgada no início do mês, que o colocou como lanterninha das pesquisas, dificultou as coisas. “As pesquisas foram mais importantes no jogo de barganhas do que propriamente no ânimo das pessoas envolvidas com a minha candidatura”, afirmou. “Aumentou o preço?”, pergunta a repórter. “Não é isso”, responde Haddad, rapidamente. Apenas os partidos postergaram as conversas, deixaram o acordo para depois, diz ele. “Mas nem sempre os apoios levam à vitória”, relativiza.

O pré-candidato petista não subestima o trabalho que terá para tentar romper a hegemonia do PSDB na capital paulista. “São Paulo tem pensamento conservador muito consolidado (…) que sempre dá peso muito forte para qualquer plataforma do establishment”, analisa. Se optar pela renovação, no entanto, irradiará rapidamente essa tendência para o país. O Brasil poderia mais, não fosse a âncora conservadora do PSDB de São Paulo. “Tem uma bola de ferro no nosso pé que ainda segura muito o país”, concluiu.

Abaixo, a íntegra da entrevista do ex-ministro Fernando Haddad à “Carta Maior”:

CARTA MAIOR: O PT assimilou sua candidatura?


FERNANDO HADDAD: Acredito que sim. O processo foi muito bem conduzido e elogiado internamente. É curioso o argumento de que as prévias no PT não ocorreram por pressão. No PT, sempre teve pressão e sempre teve prévias. O Lula já perdeu prévias dentro do PT apoiando um candidato, já ganhou, ele próprio já enfrentou prévias. Isso é da cultura do partido. Óbvio que todo mundo sabe que isso tem consequências, mas ninguém abdica de disputar prévias quando entende ser o caso. A verdade é que, no final do processo, nós contávamos com o apoio da maioria dos militantes. Colhemos mais de 20 mil assinaturas para inscrição, quando eram necessárias apenas 3 mil. Nós tínhamos o apoio de 7 dos 11 vereadores. O processo estava muito avançado.

CARTA MAIOR: O maior desconforto foi o namoro com o prefeito Gilberto Kassab?


HADDAD: Não chegou a ser namoro porque sequer houve aproximação formal. O que houve foram duas ou três conversas com dirigentes do PSD sobre remota possibilidade de o partido me apoiar – o que ocorreria se, e somente se, o [José] Serra [PSDB] não saísse e o PSDB se recusasse a apoiar o Afif, que era cenário pouco provável. Eu sempre disse, desde que o assunto ganhou os jornais, que nós éramos a terceira prioridade do prefeito, que antes vinham o Serra e o Afif, e que a nossa prioridade é outra, são os partidos da base aliada do governo Dilma. Sempre ficou claro que ele [Kassab] iria caminhar para um lado e nós iríamos caminhar por outro.

CARTA MAIOR: O PT valorizava essa possibilidade, numa estratégia de romper a hegemonia do PSDB junto à classe média conservadora paulistana?


HADDAD: O interesse no PSD, a meu ver, tem muito mais a ver com a filiação do [Henrique] Meirelles [ex-presidente do Banco Central], que foi ministro do governo Lula por oito anos. O presidente [ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva] considerou que essa seria uma chapa interessante, complementar. Desde a vitória de 2002, quando compôs a chapa com José de Alencar [empresário e então filiado ao PL], isso sempre contou nas reflexões de Lula sobre a composição de chapa. Ele entendia que o Meirelles tinha perfil muito interessante. Se Meirelles tivesse se filiado ao PMDB, Lula também iria atrás de uma composição. Nas conversas que tive com o presidente, a hipótese de ter uma chapa com dois ministros de seu governo o agradava.

CARTA MAIOR: O Lula, então, não forçou a barra para uma aliança com o PSD?


HADDAD: Não, de forma alguma. Ele até recomendou cautela, com medo de que isso não fosse compreendido.

CARTA MAIOR: E o apoio dos pré-candidatos do PT que desistiram da prévia?


HADDAD: Acho que é muito importante o partido estar coeso em torno da campanha e nós todos em campo – o presidente Lula, Marta e todos do partido. Mas eu não reduziria a questão a isso. Há um conjunto de problemas a serem enfrentados. Nós fomos muito prejudicados pela questão da TV e praticamente não teremos inserção no primeiro semestre. Todos os outros partidos terão. Isso traz prejuízo enorme para um estreante, que nunca disputou uma eleição, nunca teve programa de televisão. Nós temos que lidar com isso.

CARTA MAIOR: Como?


HADDAD: Nós estamos formulando programa de governo e circulando os bairros para colher subsídios. São dois dias de estudo fora do escritório, nos bairros, e três dias de estudo interno, em que eu recebo técnicos e acadêmicos para colher dados para a elaboração do programa – que, para a minha surpresa, está indo bem demais. Acho que nós vamos chegar num diagnóstico e numa formulação para apresentar à cidade seguramente até maio.

CARTA MAIOR: Você tem diagnóstico preliminar da cidade?


HADDAD: Acho que os erros cometidos já estão diagnosticados. Por exemplo, no caso dos transportes, é evidente que não houve aceleração das obras do Metrô, apesar do aumento de investimento. Houve aumento de custos: o dinheiro adicional só serviu para pagar mais a mesma coisa, os mesmos dois quilômetros todo ano. Todo o sistema de transporte foi relegado a segundo plano: o Metrô está muito aquém do que o de qualquer outra metrópole; houve o abandono do sistema de ônibus e não se tem a compreensão de que São Paulo precisa de sistema multimodal. E falta parceria com o governo federal. A adesão ao “PAC Mobilidade” traria muitos recursos para São Paulo, mas se dinheiro não chegou, foi por falta de interesse local.

CARTA MAIOR: A moradia de baixa renda hoje é um problema?


HADDAD: É grande problema. São Paulo teve o pior momento nesse quesito. Nunca se produziu tão poucas moradias populares na cidade de São Paulo. Qualquer gestão, de direita ou de esquerda, não importa, produziu mais moradias do que as construídas nos últimos sete anos. Hoje, a estimativa é de que 20 mil famílias estejam recebendo “Bolsa Aluguel”, mas sem perspectiva de casa própria, e logo deixarão de receber esses recursos porque existe um limite a partir do qual, por lei, a cidade não pode continuar pagando. Não há ofertas de moradias populares em São Paulo e a remoção de famílias de moradias precárias, em áreas de manancial e áreas de risco, deveriam ter sido combinadas com programa de construção de moradias, como o “Minha Casa, Minha Vida”. Isso não aconteceu.

CARTA MAIOR: Quais são suas vantagens em relação ao Serra?


HADDAD: Serra não fez uma reflexão sequer sobre a cidade quando disputou a prefeitura de São Paulo. Até porque estava de passagem, ele não se debruçou sobre as questões urbanas. Aliás, ele não tem reflexão sobre as questões urbanas. Como candidato que disputou cinco das últimas seis eleições, acho muito provável que ele tenha pretensões, se eleito, de disputar 2014. Estará de novo de passagem. E a cidade fica sempre como um degrau, um apoio para outras pretensões. São Paulo não suporta mais isso.

CARTA MAIOR: A questão é estar de passagem ou capacidade de pensar a longo prazo?


HADDAD: Na verdade, mesmo quando nós levamos em consideração a experiência do Serra no Ministério do Planejamento, nota-se que não se trata de pessoa que lida com facilidade com o planejamento. Ele não soube elaborar um plano plurianual. Isso era tarefa dele e quatro anos depois nós tivemos restrição de energia elétrica que foi a maior da história do país. Não houve planejamento de longo prazo lá e não haverá cá. Sem planejamento, não se muda nada que é estrutural; muda-se a conjuntura, mas não a estrutura das coisas. É só comparar o que foi feito no setor elétrico por ele e pela Dilma [como ministra de Lula].

Av Paulista na época do apagão de FHC/Serra

No caso do “Plano de Desenvolvimento da Educação”, que está até hoje em vigor, fizemos planejamento até 2021. Quando assumi o MEC, no segundo mandato do presidente Lula, lançamos um plano com metas delineadas até 2021 e, dificilmente, alguém vai revê-lo. Na cidade, não se sabe o que vai acontecer, não se sabe sequer o que está acontecendo hoje [dia 5, segunda, início da greve de caminhões que terminou dia 8, quinta]. Durante a gestão de Marta Suplicy, eu trabalhava com [João] Sayad [na secretaria de Finanças]. Começamos a desenhar o que seria São Paulo dali a algumas décadas: o sistema de transportes, a questão dos resíduos sólidos, iluminação pública, educação com os CEUS, tudo isso foi pensado estruturalmente, mas muitas dessas coisas foram abortadas a partir de 2004.

CARTA MAIOR: Como você interpretou a pesquisa Datafolha do início do mês?


HADDAD: Apesar de cientista político e acompanhar até com interesse as pesquisas, não consigo me sensibilizar com elas tanto tempo antes da eleição, sobretudo porque é a minha primeira eleição. Nessas alturas, elas têm muito mais impacto no jogo de barganha (o aliado pergunta, “o que garante que você vai estar bem daqui a seis meses?”) do que propriamente no ânimo das pessoas que estão envolvidas na minha candidatura.

CARTA MAIOR: As pressões aumentaram?


HADDAD: Não há pressão. Apenas as pesquisas postergaram alguns acordos.

CARTA MAIOR: O preço aumentou?


HADDAD: Não, não é isso. Na verdade, as pesquisas interditam as negociações por mais tempo. É um jogo de adiar, deixar as conversas para depois. Mas, enfim, o PT já concorreu sozinho, já concorreu coligado, já concorreu com chapa pura, já concorreu com um amplo espectro de apoio. E nem sempre o apoio leva à vitória. Em 2002, o presidente Lula não tinha tantos aliados e ganhou as eleições. Compôs depois com outros partidos, porque a democracia tem três turnos: o primeiro, o segundo e o governo. Em algum momento, ou nas eleições ou depois da posse, vai ser preciso fazer um acordo.

CARTA MAIOR: É uma tarefa possível quebrar a hegemonia do PSDB em São Paulo?


HADDAD: Aqui em São Paulo, essa é uma tarefa difícil em qualquer hipótese. Há aqui um pensamento conservador muito consolidado, historicamente saturado, que dá sempre um peso muito forte para qualquer plataforma do establishment. O candidato do establishment sempre vai ter muito apoio. É difícil romper o conjunto de forças midiáticas e econômicas que se une em torno do status quo.

CARTA MAIOR: Qualquer estratégia passaria pela sensibilização de parcela desse eleitorado?


HADDAD: Sim, e se isso acontecer abre-se caminho para a renovação. A conservação e a inovação sempre estão em jogo no Brasil. O governo do presidente Lula foi caracterizado pela inovação – teve erros e acertos, mas sempre inovou, em todas as situações: da política externa à política educacional, da moradia popular à reforma agrária, da política de crédito ao acúmulo de reservas cambiais, enfim, sempre fez coisas diferentes dos seus antecessores. Em São Paulo, o ritmo é sempre o da conservação. A metáfora dos dois quilômetros de metrô por ano dá a medida do que estou dizendo: serão necessários 65 anos para chegar ao que é hoje o metrô do México – mais de seis décadas para que cheguemos ao caos do México – no ritmo atual do governo do Estado. E não há indignação em relação a isso. As pessoas vão parando, demoram duas a três horas por dia se deslocando e as coisas vão sendo empurradas, sem que se discutam alternativas.

CARTA MAIOR: A quebra da hegemonia do PSDB em São Paulo mudaria muito o perfil político do Brasil?


HADDAD: Acho que mudaria. Primeiro, porque a alternância no poder é sempre boa – e nós não temos tido alternância. No Estado, o governo está com o PSDB há 20 anos. Isso não oxigena a máquina. Não é possível se reinventar o tempo todo. Outra coisa é que houve sopro de renovação no Brasil que varreu boa parte do Nordeste, pensando em Jaques Wagner, Marcelo Déda, Eduardo Campos, Cid Gomes, para citar alguns; chegou ao Rio também: na minha opinião, Sérgio Cabral é boa novidade. É uma geração com ideias novas, com vontade de colocar o Brasil numa outra rota, de pensar o país grande. Aqui, o peso de renovação seria ainda maior. Se São Paulo irradiasse o novo, isso teria efeito muito grande sobre o país. Hoje, São Paulo está estagnado. Se você pegar qualquer livro ou artigo sobre desenvolvimento nacional, o Brasil vai ser referência, mas se o livro for sobre metrópoles, São Paulo não é citado, a não ser pelos problemas que enfrenta.

Na gestão da Marta, as pessoas vinham conhecer o bilhete único, os CEUs, os corredores de ônibus. Estava começando um processo de rejuvenescimento da cidade, como Nova York, Santiago e Bogotá viveram, como Curitiba ao seu tempo, e como cidades na Ásia, sobretudo na Índia e na China, estão vivendo. Hoje, São Paulo tem pouco a ensinar, porque foram oito anos de muita calmaria, muito dinheiro arrecadado e pouco impacto na qualidade de vida da população. Da porta para dentro de casa, o paulistano reconhece que sua vida melhorou, em função do que o governo Lula propiciou, mas da porta de casa para fora, onde o cara depende do poder local, a vida ficou mais dura.

corredores de ônibus

CARTA MAIOR: Qual a mensagem que você teria para todos os paulistanos? O que sensibilizaria a cidade como um todo? A questão da mobilidade?


HADDAD: A questão da mobilidade sem dúvida, que é onde o poder público está devendo demais. Há estagnação de investimentos. O ritmo de obra não vai dar conta. E a tendência, se o Brasil continuar crescendo, é piorar, porque as pessoas vão cada vez mais migrar para o transporte individual. Se o transporte público não responder, o cidadão vai dar a resposta, comprando um carro, uma moto, e resolvendo individualmente problema que teria de ser resolvido de forma coordenada. É uma questão de vaso comunicante: melhorou a renda, comprou um carro. E vai tudo parando. O que está acontecendo do ponto de vista econômico é isso: as pessoas estão ganhando mais e saindo do transporte público por falta de alternativa. Isso vai continuar acontecendo se nada for feito, e pouco está sendo feito na direção correta.

CARTA MAIOR: Este é o centro de seu programa?


HADDAD: Não. Considero que uma visão estratégica é fundamental. São Paulo não tem visão de longo prazo sobre si mesma. Nós temos problema gravíssimo de centralização de serviços e oportunidades econômicas que não foi enfrentado até hoje. A cidade é uma megalópole com 31 subprefeituras esvaziadas do ponto de vista de poder resolutivo. A oferta de serviços públicos não é uniforme. Existe problema de logística na cidade que não envolve só transporte, mas o investimento que está sendo feito. Não há política de descentralização e isso agrava o problema.

CARTA MAIOR: Que papel o Lula vai ter nessa eleição? Você seria candidatura viável sem o Lula?

HADDAD: Essa pergunta é difícil de responder quando dirigida ao PT, imagina dirigida a mim. O Lula é um político único. Desde os meus 15 anos de idade, tudo o que vejo acontecer na política nacional está relacionado a ele: se vai ter eleição direta ou não, se vai ter constituinte exclusiva ou não, se vai ter reeleição ou não. A política toda gira em torno dele desde final dos anos 70 vai continuar girando. É a liderança em torno da qual orbitam os demais interesses. Falar do Lula é falar de uma personalidade que tem a força e a frequência de um cometa, é uma vez a cada 70 anos. Quem me convidou foi ele. Ele me sondou numa conversa em que eu disse que pretendia deixar o governo federal e voltar para São Paulo. “Olha, se você precisa renovar, vamos enfrentar São Paulo.” Lula me perguntou se eu queria – e respondi seria experiência extraordinária. Eu me encantei com a ideia de fazer gestão em São Paulo com a visão de longo prazo que São Paulo não tem, apesar de sua dimensão.

CARTA MAIOR: Você acha que os dois governos Lula serviram para quebrar aqui em São Paulo essa resistência ao próprio Lula?


HADDAD: Nós temos que admitir: depois de oito anos de Lula, a presidenta Dilma perdeu a eleição na cidade, mas ampliou em relação à eleição de 2008, em que a Marta teve 36%. Antes, já havia ocorrido um refluxo. Nós ganhamos a eleição de 2000 na capital, ganhamos em 2002 e perdemos em 2004. Fizemos 39,5% em 2008, e em 2010, 46,5%. Se não fossem alguns episódios, a Dilma teria feito mais de 50%.

CARTA MAIOR: Você acha que existe medida preventiva contra uma onda conservadora? O episódio do “kit gay” foi um ensaio, não foi?


HADDAD: Esse é o típico não assunto: a liberação de uma emenda ao orçamento e a entrega de um material que foi considerado inadequado e não foi distribuído. Resume-se a isso o episódio. Escreveu-se mais do que isso do que o aumento da qualidade da educação no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ou a expansão da educação profissional, ou a expansão da educação superior. Está tudo melhorando na educação, mas se passa meses discutindo um não evento. É incrível a capacidade da mídia de pautar não problemas, não assuntos, não eventos. A população não é informada do que é estrutural e realmente relevante.

CARTA MAIOR: É factível para o PSDB assumir discurso agressivo, udenista, nessas eleições? O livro “Privataria Tucana” não pode inibir esse tipo de discurso?


HADDAD: O quanto a pessoa está disposta a perder o verniz é proporcional ao desespero de perder a eleição. E digamos que perder essa eleição, no caso do nosso adversário, representaria derrota dura. Eu não me surpreenderia se forças obscurantistas fossem mobilizadas se o quadro lhe retirar o favoritismo que todos dizem que ele (Serra) tem. Daí o desespero bate. Nem todo mundo tem elegância ao participar do jogo eleitoral.

CARTA MAIOR: E você vai ser elegante?


HADDAD: Vamos pegar o caso do presidente Lula. Ele foi atacado várias vezes, teve material para pagar na mesma moeda e sempre abdicou disso. São conhecidas as histórias em que o presidente Lula foi sondado sobre se usaria determinada informação, e ele disse que não. Algumas são públicas. Por exemplo, quando se imaginava que o PT pudesse usar o suposto caso do filho do ex-presidente Fernando Henrique e o presidente Lula respondeu para o seu interlocutor que, se dependesse disso, ele preferia não ser presidente da República. E sofreu esse tipo de ataque em 1989, de envolvimento de assuntos de sua família na campanha, e nunca revidou. Existem perfis de candidatos. A presidenta Dilma também preferiu ir para o debate político.

CARTA MAIOR: Você acha que ganhar essa eleição é importante para a quebra da hegemonia do PSDB no Estado?


HADDAD: Eu entendo que o Brasil não vai voltar a ser o que era nunca mais depois dos oito anos do presidente Lula com a continuidade. A cada eleição se consolida um patamar de exigência diferenciado. Hoje, o Brasil é um país mais crítico, mais democrático, mais reflexivo, mais exigente. O Nordeste nunca mais vai ser o mesmo, com a superação de uma realidade de poder daquelas oligarquias atrasadíssimas. Eu não tenho dúvida de que o Brasil poderia mais, se não fosse essa âncora conservadora [em São Paulo]. Tem uma bola de ferro no nosso pé que ainda segura muito o país. E nós já deveríamos ter perdido o medo de avançar, porque, depois que você avança e vê que é bom, deveria querer mais, mas ainda tem gente indisposta com o progresso, com o desenvolvimento humano.

Está mais do que provado que, quando há combate de desigualdade, todo mundo ganha. A visão de que está tudo ruim porque agora todo mundo anda de avião, e os aeroportos estão lotados, é errada. O mesmo empresário que reclama dobra o seu lucro no seu negócio, porque as pessoas compram mais. E tem um despertar para várias coisas. As pessoas vão ter de se habituar com isso. O Brasil ultrapassou a China em taxas de escolaridade. A escolaridade média é similar aqui e na China, mas na velocidade de aumento foi diferente. Nos últimos 10 anos, o Brasil passou de 3,5 milhões de universitários para 6,5 milhões. E pessoas educadas são diferenciadas, não apenas porque ganham mais, mas porque se colocam de forma diferente em relação à sociedade.

Temos que nos habituar a isso. Hoje, muitas pessoas até fazem trabalho doméstico, mas esse tipo de atividade é usado como uma escala para os que estão estudando, estão fazendo um curso técnico, uma faculdade, e dali a pouco já estarão em outra atividade. A transformação social é muito visível. Mudou o perfil do trabalhador. O problema não é lavar pratos, mas passar a vida inteira lavando pratos. Não pode um indivíduo pagar por toda a espécie.”

FONTE: entrevista com Fernando Haddad conduzida por Maria Inês Nassif , na “Carta Maior”  (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19746) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

MALDADES ESCONDIDAS NO "NOTICIÁRIO ECONÔMICO"

O NOTICIÁRIO ECONÔMICO ENTRE A IDEOLOGIA E A IGNORÂNCIA

“Não sei se se trata de jogo ideológico ou se é pura ignorância, mas o abuso de terminologia enganosa no noticiário econômico neste tempo de crise global beira o paroxismo. Quando se trata de comentarista de televisão, então, se chega ao clímax. Contudo, mesmo os jornais especializados, que por serem especializados deveriam ser mais rigorosos na matéria, não escapam do alinhamento ao besteirol generalizado. Seguem-se exemplos.

Por J. Carlos de Assis, em “Carta Maior”

Quando anunciam mensalmente o “superávit primário”, os comentaristas da Globo o “explicam” invariavelmente como a “poupança feita pelo Governo para pagar os juros da dívida pública”. Ora, se o dinheiro é para pagar juros, não pode ser poupança. É uma despesa. Dizer que é “poupança” dá uma ideia de austeridade no setor público totalmente falsa. Despesa com juros significa esbanjamento de dinheiro de impostos de forma improdutiva, sobretudo quando puxada pela taxa de juros mais alta do mundo.

Quando anuncia mensalmente a taxa oficial de desemprego, praticamente toda a mídia parece ignorar que ela se refere às seis maiores regiões metropolitanas, não à totalidade do país. Assim, ao inferir da taxa oficial de desemprego o número de desempregados nas regiões, a mídia refere-se a esse número como se fosse o total dos desempregados brasileiros, não os desempregados das seis regiões metropolitanas. Isso subestima e dá ideia falsa do número total efetivo de desempregados no Brasil.

O noticiário de televisão sobre as decisões do Copom [sobre as taxas SELIC] tem sido uma piada. Já foi pior quando o Banco Central estava aumentando a taxa de juros, e era necessário justificá-lo. Nesse caso, o modelo de metas funcionava como um recurso de mistificação para dizer que o aumento dos juros era necessário para "combater a inflação", escondendo o propósito verdadeiro de "atrair dinheiro estrangeiro para colorir o balanço de pagamentos". Agora que o BC, sabiamente, reduz a taxa de juros, e a inflação estranhamente baixa, os comentaristas não se dão conta de que juros menores são, sobretudo, uma barreira para a entrada de recursos estrangeiros indesejáveis em face da necessidade de segurar o câmbio.

Estimulada pelo sociólogo corporativo José Pastore, a mídia sistematicamente afirma que os custos sociais representam 100% ou mais da folha salarial no Brasil. Trata-se de mistificação. Contabiliza-se como custo social o que não passa de salário indireto: FGTS, férias, décimo terceiro, PIS/Pasep, vales refeição e de transporte, tudo isso é salário indireto. Custo social mesmo é o previdenciário, menos de 30% da folha. Compare-se o total do salário de um trabalhador brasileiro com o de um trabalhador chinês especializado, e certamente já começamos a perder!

A Associação Comercial mantém em São Paulo, num grande painel, o impostômetro. Mede o imposto que o brasileiro paga por minuto [teoricamente deveria ter pagado], e sempre que atinge marca sugestiva a televisão noticia. Sugeri a um dirigente do PT, já que o PT é o principal partido do Governo, que preste um serviço de esclarecimento à população sobre o uso dos recursos públicos colocando ao lado do impostômetro em São Paulo um investômetro público, ou seja, uma medida do que o setor público investe por minuto para atender a clientela do SUS, da Previdência, da Educação, dos transportes, do financiamento ao setor privado pelos bancos oficiais etc, etc

[Tucanos felizes porque, com apoio doloso da mídia, conseguem "vender" a falsa ideia de que os impostos ali indicados são "arrecadações federais". Não revelam que aqueles impostos, que deveriam ser dinheiro público, são, em grande parte, estaduais e municipais e apropriados por grandes empresários, comerciantes e profissionais liberais, por meio do crime de sonegação]
Não quero com isso justificar a carga tributária brasileira, sobretudo o imposto sobre pessoa física da classe média e baixa (está indecentemente elevada por causa do baixo patamar de rendimento sobre o qual recai o imposto de renda), mas quando se trata da carga total ainda estamos longe do que é necessário para construirmos um verdadeiro estado de bem estar social.

O setor público nos três níveis representa 35% no Brasil, enquanto chega a 66% na França e a 56% na Alemanha. Alguns comentaristas da direita, quando se referem à carga tributária, indiretamente admitem que é baixa, mas logo acrescentam que é alta se comparada aos serviços prestados pelo Estado. Perguntem a eles se topam elevar a carga, sobretudo criando novas alíquotas marginais do IR para aliviar as de baixo, a fim de melhorar os serviços públicos?

O programa econômico imposto aos países europeus pela “troika” (FMI, BCE e Comissão Europeia) é, certamente, o maior arrocho fiscal jamais observado na Europa desde a Segunda Guerra. No entanto, é vendido pela mídia como um programa de “austeridade”. “Austeridade”, diferentemente de “arrocho”, tem um sentido positivo. O uso dessa palavra esconde o propósito subjacente de destruir o sistema de bem estar social europeu - como, aliás, deixou claro o presidente do BCE, Mario Draghi, em entrevista recente.

austeridade
Antes da proposição de “austeridade”, falava-se em “responsabilidade fiscal”. A terminologia da responsabilidade fiscal, cujo objetivo último tem sido o de reduzir o papel do estado na economia, inclusive na área social, deu o rótulo a uma lei extremamente regressiva no Brasil, anulando a federação em matéria financeira. No novo contexto mundial, contudo, responsabilidade fiscal parece pouco. É preciso dar um passo adiante. Austeridade implica impor “sacrifícios à sociedade e reduzir seu nível de bem estar”, tudo considerado como “algo positivo”.

O porta-voz preferencial da mídia para o anúncio de políticas regressivas sob rótulos ideológicos positivos é o “mercado”. O “mercado” é um ente de razão que assume características antropomórficas singulares: fala, critica, elogia, reage, argumenta, desconfia. O “mercado” diz por que a bolsa caiu, por que o governo tem que reduzir a dívida pública, por que o BC deve aumentar a taxa de juros. É a cobertura do anonimato para as opiniões dos próprios jornalistas. Ao lado do “mercado”, claro, estão os “especialistas” de banco. Sobre eles, dizia Galbraith: não dá para confiar em opinião de quem tem interesse próprio em jogo.”

"O mercado"
FONTE: escrito por J. Carlos de Assis, economista, professor da UEPB, coautor, junto com Francisco Antonio Doria, de “O universo neoliberal em Desencanto”, recém-lançado pela “Civilização Brasileira”. Artigo publicado no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177826&id_secao=6) [imagens do google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’]

E SOBRE AS BOMBAS ATÔMICAS DE ISRAEL?


Por John Cassidy, no “The New Yorker”, em New York, sob o título: “WHAT ABOUT ISRAEL’S NUKES?

John Cassidy
“Caso você tenha esquecido – e não seria difícil, dado que ninguém jamais fala delas em debates públicos – Israel tem cerca de cem bombas atômicas, talvez o dobro ou o triplo, e a capacidade técnica e os equipamentos necessários para dispará-las de silos subterrâneos, de submarinos e de jatos bombardeiros [norte-americanos] F-16.

Além do ministro da Defesa de Israel, pouca gente sabe precisamente quantos mísseis armados com ogivas nucleares o país tem. Segundo estimativa não secreta divulgada em 1999 pela Agência de Inteligência da Defesa dos EUA, citada num boletim da “Federação dos Cientistas Norte-americanos” de 2007, Israel tinha, então entre 60 e 80 ogivas nucleares. Estimativas mais recentes dizem que o número é consideravelmente maior.

O “Instituto de Estudos Estratégicos” com sede em Londres diz que Israel tem “cerca de 200” ogivas nucleares carregadas em mísseis terra-ar “Jericho 1” e “Jericho 2” de curto e médio alcance. Jane, a empresa da “Defesa-informação”, estima que, no total, o número de ogivas nucleares esteja entre cem e 300, o que põe o arsenal nuclear de Israel lado a lado com a capacidade nuclear de britânicos e franceses. E muitos acreditam que essas ogivas já estejam carregadas nos novos mísseis balísticos intercontinentais “Jericho 3”, que têm alcance de mais de 7.200km – o que significa que, em teoria, podem atingir alvos na Europa e na Ásia.

Jericho 3
Desde os anos 1960s, quando Israel construiu sua primeira bomba atômica, governos sucessivos têm-se recusado a reconhecer a existência do programa israelense de armas atômicas – posição oficial designada por uma palavra em hebraico, “amimut”, que significa “opacidade”, “transparência-zero”.

E não se trata só de Israel reconhecer ou não reconhecer. Israelense que revele detalhes sobre o programa nacional de bombas atômicas comete crime, pelo qual pode ser condenado a longas penas de prisão. Em 1986, Mordechai Vanunu, ex-técnico nuclear, entregou ao “Sunday Times”, de Londres, fotografias que havia tirado do “Centro de Pesquisa Nuclear do Negev”, próximo à cidade de Dimona. Depois de publicada a história de Vanunu, agentes do Mossad sequestraram-no em Roma, onde passava férias, e o levaram de volta a Israel. Cumpriu pena de 18 anos de prisão, 11 dos quais em confinamento (solitária).

Avner Cohen, o historiador israelense-norte-americano que, em 1998, publicou livro-tese acadêmica sobre o programa nuclear israelense, “Israel and the Bomb” [Israel e a Bomba] teve melhor sorte. Mas quando voltou a Israel em 2001, para uma conferência, foi preso e submetido a 50 horas de interrogatório por agentes de segurança do Ministério da Defesa, que queriam saber sobre suas fontes e motivações para escrever o livro. E em 2002, Yitzhak Yaakov, ex-chefe do programa de pesquisa de armas do exército de Israel recebeu pena de dois anos de suspensão depois de escrever suas memórias [1].Para mim, tudo isso é um pesadelo” – disse Yaakov, durante seu julgamento. “Acordo pela manhã e lembro que fui interrogado, acusado de espionagem. Disseram-me que eu era pior que Vanunu e que minha esposa é Mata Hari”.

Agora que Israel ameaça bombardear o programa de pesquisas nucleares para finalidades pacíficas do Irã – porque nem os serviços de inteligência dos EUA acreditam que tenha evoluído até o estágio de poder tentar construir bombas atômicas, segundo o Times [2] – a encenação continua. Considerem a entrevista que Benjamin Netanyahu concedeu em 2010 ao meu ex-colega, Jeffrey Goldberg, publicada em “The Atlantic”:

"Netanyahu não poria a questão em temos de paridade nuclear – a política israelense do “amimut” (opacidade, transparência zero) proíbe reconhecer a existência do arsenal nuclear israelense, de mais de 100 bombas atômicas, bombas termonucleares de dois estágios, que podem ser disparadas por mísseis, aviões bombardeiros ou submarinos (dois dos quais, segundo fontes da inteligência estão atualmente posicionados no Golfo Persa). Em vez disso, preferiu falar sobre o programa iraniano como uma ameaça não só a Israel, mas a toda a civilização ocidental. [3]

Evidentemente, o governo de Israel tem pleno direito de formular como lhe apraz suas políticas, considerados os interesses do país. E, também evidentemente, os EUA devem fazer o mesmo. Em seu discurso ao AIPAC, semana passada, o presidente Obama disse o seguinte:

“Um Irã nuclear é completamente contrário aos interesses da segurança de Israel. Mas também é contrário aos interesses da segurança nacional dos EUA. Na verdade, todo o mundo tem interesse em impedir que o Irã chegue a uma arma nuclear. Um Irã armado com arma nuclear poria abaixo todo o regime de não-proliferação que tanto nos custou construir. Há riscos de que uma arma nuclear iraniana caia em mãos de alguma organização terrorista. É quase certo que outros, na região, sentir-se-ão obrigados a ter sua própria arma nuclear, o que dispararia uma corrida armamentista numa das regiões mais voláteis do mundo”. [4]

E em todo aquele longo discurso, nem uma vez houve qualquer menção às bombas atômicas israelenses, nem à persistente recusa, por Israel, a assinar o “Tratado de Não Proliferação Nuclear” (do qual o Irã é signatário). Algum presidente dos EUA algum dia reconheceu publicamente a existência das bombas atômicas de Israel?

Em seu livro mais recente, “The Worse Kept Secret: Israel’s Bargain with the Bomb” [O segredo mais mal guardado: a barganha de Israel com a bomba], [5] Avner Cohen refere-se a um encontro, em setembro de 1969, entre o presidente Richard Nixon e Golda Meir sobre as bombas atômicas clandestinas de Israel.

Nenhum registro escrito ou testemunho oral sobre o que se disse naquele encontro sobreviveu, que se conheça; e o que os líderes disseram naquela reunião permanece cercado do mais denso mistério. Em retrospectiva, pode-se dizer que, naquele encontro, foi instituído o ‘amimut’ como posição estratégica apoiada mútua e simultaneamente por Israel e EUA. O encontro Nixon-Meir marca o local e dada do nascimento da barganha”.

Num momento em que o lobby nos EUA, com a cooperação dos candidatos Republicanos, pressiona o governo norte-americano para que apoie a linha dura de Netanyahu contra o Irã, talvez seja hora de reavaliar aquela barganha. Nem é preciso mudar muito. O regime de Teerã é profundamente antipático, e muitos de nossos outros aliados, incluídos a Grã-Bretanha, França e Arábia Saudita, também estão decididos a impedir que se una ao clube atômico. Mas reconhecer publicamente o que todos sabem sobre Israel – que, sim, é uma das potências nucleares do planeta – teria a grande vantagem de salvar os EUA, tirando-o da posição vulnerável em que está, repetidamente acusado de servir-se de dois pesos e duas medidas, no relacionamento com o Irã.”

NOTAS DOS TRADUTORES

[1] 20/6/2002, Haaretz, em: “Two-year suspended sentence for Brig. General Yitzhak Yaakov”.
[2] 24/2/2012, New York Times, em: “U.S. Agencies See No Move by Iran to Build a Bomb”.
[3] Set. 2012, The Atlantic, em: “The Point of No Return”.
[4] Ver “‘Bibi’ continua a sacudir o cachorro americano?”, Pepe Escobar, 5/3/2012, Asia Times Online, traduzido.
[5] Amazon: “The Worst-Kept Secret: Israel's Bargain with the Bomb”.

FONTE: escrito por John Cassidy, no “The New Yorker”, em New York, sob o título “WHAT ABOUT ISRAEL’S NUKES?”. Traduzido pelo “pessoal da Vila Vudu” e postado no blog “redecastorphoto”  (http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/03/e-sobre-as-bombas-atomicas-de-israel.html) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

EM 2011, ISRAEL DEMOLIU 622 CONSTRUÇÕES PALESTINAS (antes, muito mais)

Israel derruba casas palestinas em construção em Jerusalém Oriental, uma das áreas da Palestina invadida pelas tropas israelenses (foto: agência norte-americana de notícias Associated Press (AP)

“No caminho do Mar Morto, Jerusalém esquece que é uma cidade e se transforma. Começa o deserto rochoso, a estrada se enche de caminhões a caminho do grande porto de Eilat e, à frente, em um planalto enorme rodeado de verde, domina a colônia de Ma´ale Adumim (40 mil habitantes).

À esquerda, desenvolvido em meio à paisagem bela, o quadro é outro: ali está o muro de concreto que isola a Cisjordânia e, ao pé, pequenos barracos destroçados que um dia abrigaram vida, que um dia foram um lugar, e hoje são sucata empilhada.

Ali, em Anata, Israel realizou outra demolição na capital, casas de palestinos que foram derrubadas entre 23 e 25 de janeiro. Em todo ano de 2011, 622 estruturas foram derrubadas pelo governo israelense, das quais 36% (222) eram moradias particulares e o restante eram infraestruturas essenciais para a subsistência, como depósitos de água, granjas de animais ou propriedades agrícolas. Quase 1,1 mil palestinos tiveram que se mudar ao ver destroçado seu lugar ou seus meios de vida, praticamente o dobro de 2010.

Entre eles, ainda, haviam 609 crianças, arrancados de sua rotina, sua escola, seu centro de saúde. A estatística vem do “Comitê Israelense contra a Demolição de Casas” (ICAHD).

Mas por que estão tirando essas casas? Ann Harrison, diretora adjunta do programa da “Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África”, explica: "A Cisjordânia está [sendo continuamente invadida por Israel e] dividida em zona A, B e C. Nesta última, Israel tem plena autoridade em assuntos civis e no controle da segurança. Isso supõe que quase 62% da terra palestina são controlados por eles.

Nessas zonas, nas quais vivem 200 mil pessoas (entre Cisjordânia e Jerusalém Leste), as restrições de movimento e de construção são muito elevadas. Cerca de 94% dos pedidos de licença de obras são rechaçadas, essa é a tendência da última década, enquanto a população continua crescendo com média de cinco filhos por família. Os palestinos se veem obrigados a construir onde não podem, mas onde precisam”, relata.

Segundo a taxa atual de crescimento demográfico, a ONU afirma que, em Jerusalém Oriental, a diferença entre a necessidade de moradia entre os palestinos e as construídas legalmente era de ao menos 1.100 ao ano (segundo o balanço de 2010; o de 2011 ainda não está fechado). O problema também chega à Faixa de Gaza, apesar do plano de desconexão de 2005 que tirou de lá os últimos colonos. “Isso não impede que o Exército entre de vez em quando para demolir algo”, denuncia Raji Sourani, que está à frente do “Centro Palestino pelos Direitos Humanos” (PCHR).

Israel insiste que está "aplicando a sua lei" e as divisões dos "Acordos de Oslo", e que não pode consentir a construção de “estruturas ilegais”, explica a assessoria do primeiro ministro, Benjamín Netanyahu. O argumento dos palestinos é que conseguir uma permissão é um “caro, longo e muitas vezes infrutífero processo” que não resolve sua urgente necessidade de espaço e que não cairiam na ilegalidade se não fosse a “asfixia” a que os submete Israel, destacam os informes da “Sociedade para o Desenvolvimento Al Maqdese”.

Um exemplo: só 13% da superfície de Jerusalém Oriental está catalogada como edificável, sendo que a zona “legal” se encontra hiperpovoada e são cada vez mais habituais os casos de exílio ou de tentativa de expansão em zonas vetadas. Já 35% das terras da zona palestina de Jerusalém estão sendo confiscadas “para fazer assentamentos ilegais com 195 mil israelenses” e 18% da Cisjordânia têm sido declarados “zona militar fechada”, o que veta as edificações palestinas e limita a circulação de pessoas, especialmente no Vale do Jordão nos montes do sul de Hebrom, denuncia o informe “Seguros em casa?”, editado pela Anistia.

As demolições são realizadas habitualmente sem aviso prévio, segundo os afetados, e com a notificação correspondente, segundo Israel. O enviado humanitário das Nações Unidas nos Territórios, Maxwell Gaylard, avaliza a versão dos palestinos. “Quase não há possibilidade de recolherem seus pertences antes que a máquina comece a quebrar tudo”, denuncia.

Quando tudo está quebrado, não há abrigo, nem indenização, os palestinos buscam acomodação em casas de familiares (sobretudo do marido, o que submete ainda mais a mulher ao clã patriarcal), amigos ou espaços cedidos por ONGs. Gaylard entende que, segundo a jurisdição internacional, “a potência invasora ocupante tem a responsabilidade de proteger a população civil palestina debaixo de seu controle e garantir sua dignidade e bem-estar”.

A destruição de suas moradias e meios de subsistência não é compatível com essa responsabilidade, nem com os ideais humanitários”, disse enquanto visitava as casas tiradas em Anata, uma ordem que desabrigou 52 pessoas, 29 delas menores de idade. “Os palestinos precisam de um sistema de planejamento justo e não discriminatório que satisfaça suas necessidades de crescimento e desenvolvimento”, acrescentou.

A ONU afirma, em sucessivos comunicados, que as demolições violam a Quarta Convenção de Genebra, sobre proteção de civis em “tempo de guerra”, cujo artigo 53 “veta a destruição de uma propriedade se não está militarmente justificado” e impede de igual modo “a transferência de população” (artigo 49). Ao primeiro ponto, Israel responde que todos os palestinos estão sujeitos “por segurança” à lei militar. Ao segundo, simplesmente despreza as repreensões do Ocidente sobre suas “provocantes expansões de colônias [em território dos palestinos]”.

Em setembro passado, três relatores das Nações Unidas pediram formalmente a Israel que pare com as demolições que, “por sua natureza discriminatória”, são “completamente inaceitáveis”. “Os israelenses não desejariam ser submetidos a semelhantes práticas”, assinalaram.

Não eram funcionários de classe média, senão vozes muito respeitáveis no organismo: Raquel Rolnik, relatora especial sobre direito a uma moradia adequada; Catarina de Albuquerque, relatora sobre o direito à água potável e aos serviços sanitários; e Olivier de Shutter, do direito à alimentação. Todos eles, do escritório da Alta Comissionada para os Direitos Humanos da ONU. Rolnik acaba de começar uma visita de duas semanas à zona, ante à convocação das ONGs que trabalham na zona para que conheça em primeira mão a situação.

Itay Epstein, codiretor do ICAHD, explica que Israel não só trata de impor uma divisão de terreno que lhe é favorável, nem busca a legalidade acima de tudo, mas que há importante objetivo, menos claro, atrás das demolições: o empenho em “judaizar” a Palestina. 90% do vale do Jordão (apreciado pela água e pelos cultivos) [foi invadido por Israel e] está nas mãos de Israel, ocupado por 37 colônias, com quase 10 mil residentes (12% do solo, 119 quilômetros quadrados), com 26 reservas naturais (20%, 318 quilômetros quadrados) e com 736 quilômetros quadrados (46% do total) fechados, por ser “zona militar”.

["militante rebelde terrorista" palestino ataca tropas invasoras israelenses. "Em represália", centenas de casas são destruidas]

Sob suas palavras, surgem casos como o de Arabiya e Salim, proprietários de uma das casas tiradas no final de janeiro. Era a quinta vez que as pás mecânicas de Israel destruíam sua casa, Beit Arabiya, a casa de Arabiya. A moradia era um símbolo de resistência, levantada quatro vezes com a ajuda de voluntários internacionais (muitos deles, espanhóis), o ICHD e ONGs locais como “Rabinos pelos Direitos Humanos”.

Na residência, levantada em homenagem à ativista Rachel Corrie (morta ao tentar frear as demolições), estavam no momento do despejo o casal e seus sete filhos. Os operários se apresentaram às 11 da noite do dia 23 de janeiro, uma escavadeira com potente reforço militar que acabou com esta casa e várias estruturas residenciais e agrícolas vizinhas na zona de Jahalin, uma comunidade beduína vizinha. Outras 20 pessoas expulsas do lugar no meio do deserto, em um frio inverno.

No dia seguinte, tiraram a casa dos Abu Omar, levantada em 1990 em terrenos de sua propriedade em Anata. Onde estava então o problema se a terra era sua? Israel sustentava que a área estava “reservada para seu uso agrícola”. Por isso, já havia sido demolida em 2005. Demoraram todos estes anos para recuperá-la, tijolo por tijolo, e no dia 24 de julho passado a terminara. Seis meses depois, voltaram a estar desabrigados. Um grupo de 17 pessoas, entre eles várias crianças. E menos de 12 horas depois desse acontecimento, outras duas casas foram eliminadas na aldeia beduína de Umm Al Kheir, ao pé da colônia de Karmel, em plena expansão. Em uma residia um casal de idosos; na outra, uma viúva com nove filhos. Os soldados “ficaram” [roubaram], além disso, com o trator com o qual a mulher lavrava a terra.

Todos os afetados ficaram circulando pela zona, sem saber bem que caminho tomar, onde refazer sua vida. Durante os primeiros dias, recolheram tábuas, malas e colchões, o pouco que poderiam continuar usando. Um pequeno tesouro. A rede de cooperação tecida em torno das demolições está lhes ajudando, mas demora a apagar-se a aparência de desolação total, a esperança perdida com o teto que as máquinas derrubaram.

Essa história se repete em uma das zonas mais afetadas por essas demolições, Jiftlik, no Jordão, onde se concentrou no ano passado 32% do total de atuações de Israel (109 estruturas demolidas, delas 89 residenciais, e 401 deslocados, segundo o ICAHD). A população, de algo mais de 5 mil habitantes, tinha “extensas terras de lavoura” antes de 1967 e sua guerra. Agora, esse espaço é “zona militar protegida”. Em 2005, denuncia Al-Maqdese, o Ministério da Defesa de Israel elaborou um “plano de traçado” que determinava onde podiam viver os palestinos.

O fizeram “sem avisar aos vizinhos nem abrir período para argumentações”. 40% das moradias ficaram fora desse limite permitido, sendo que 30 edifícios foram reprovados nesses últimos anos e há 10 ordens de demolição mais pendentes. As casas que ficaram dentro do perímetro legal também necessitam tirar licença prévia se fizerem obras, uma documentação que demora ao menos um ano e meio, explica a ONG.

A última grande luta contra os despejos forçados é a ameaça de demolição de um grupo poderoso de famílias em Khan al Ahmar. Israel planeja que os 2.300 residentes beduínos que agora estão nesse canto da Cisjordânia vão viver a 300 metros do aterro municipal de Jerusalém, uma zona insuportável pela orografia (condições do relevo) e pelas condições sanitárias (recebe 1.100 toneladas de lixo por dia).

A campanha da Anistia Internacional está sendo muito forte para evitar o deslocamento desstas 20 comunidades. O ministério, que tem o plano escrito desde o verão, tem dito que não vai executá-lo por completo, mas não esclarece sua posição. Inclusive, tem prometido que, uma vez reassentados, os beduínos terão acesso às conexões de água e eletricidade. Está sendo criado um comitê para protegê-los e planejar suas exigências; sendo: regressar ao deserto do Neguev, de onde os tiraram nos anos 50; ficar onde estão com melhores serviços ou pactuar um deslocamento com garantias.

É emblemática nessa zona a chamada “escola das 3 mil rodas”, que também corre o risco de ser derrubada, junto com moradias. Quase uma centena de crianças se beneficiam do edifício; até há pouco careciam de educação, porque tinham que deslocar-se 30 quilômetros até os colégios mais próximos da UNRWA, cruzando estradas, buscando alguém que os levassem, a poucos metros de Kfar Adumim, uma colônia, de onde veio a denúncia ante o governo israelense que, já em 2009, deu a primeira ordem de demolição.

A ONG italiana “Vento da Terra”, junto a Mãos Unidas e várias missões combonianas, levantaram a administração, um banheiro, um pátio.... Reconhecidas pelo Ministério de Educação palestino, as professoras são meninas do povoado formadas como professoras, fechando o círculo de dignidade e oportunidades. Mas ninguém sabe o quanto ainda fica em pé. O Executivo italiano e sua “Conferência Episcopal” estão pressionando para evitar o fim. Seria importante, mas apenas o começo. Segundo a ONU, hoje há cerca de 4 mil ordens de demolição pendentes de execução.”

FONTE: publicado no site “Brasil de Fato” e transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177928&id_secao=9) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’]

SERÁ PUTIN TÃO "MAU" ASSIM?

Vladimir Putin
Por Luiz Carlos Bresser-Pereira

“Ele liderou a retomada econômica do país e fez os cidadãos voltarem a ter orgulho de serem russos

O Ocidente tem uma opinião sobre quais são os bons e os maus governantes nos países em desenvolvimento. São "bons" os dirigentes que abrem as portas de seus países para suas empresas multinacionais, para suas exportações e para as operações de suas instituições financeiras. São "maus" os que são nacionalistas e pensam em termos do interesse nacional de seus países; que buscam construir ou consolidar sua nação e garantir seu desenvolvimento industrial.

Vladimir Putin, que acaba de ser eleito presidente da Rússia com enorme maioria, está entre os maus. Não se chega a dizer que é um "ditador" -adjetivo de eleição para os governantes nacionalistas, mas geralmente esquecido quando se trata de um ditador "aliado"-, mas é qualificado de autoritário, de corrupto e de perseguidor de empresários por definição. Será o líder russo tão "mau" assim?

De tanto o Ocidente repetir suas críticas, elas parecem verdadeiras. E, certamente, há algo de verdade nelas. Mas é preciso considerar os resultados alcançados, o que podemos fazer, primeiro, comparando os oito anos do governo que o antecedeu -de Boris Ieltsin- com os primeiros oito anos do seu governo. E, em seguida, comparar os dois períodos com o Brasil. O crescimento do PIB nesses quatro períodos está no quadro ao lado.

Boris Ieltsin
Nos anos 90, Boris Ieltsin era um dos "heróis reformistas" do Ocidente. O único outro governante que com ele podia ser comparado era Carlos Menem, na Argentina, [e FHC no Brasil], embora [Ieltsin] fosse sabidamente corrupto e estivesse frequentemente alcoolizado. Durante seu governo, o PIB da Rússia, naquela época inteiramente subserviente ao Ocidente, caiu 24,8%. Foi um desastre nacional.

Carlos Menem

FHC, também “querido” dos EUA
Nesses anos, [na Rússia] o número de suicídios no país aumentou exponencialmente. Já nos oito anos seguintes, sob Putin, o PIB cresceu 83%, e os padrões de vida melhoraram.

Não é difícil, portanto, compreender por que o povo russo tem lhe dado um apoio tão forte. Ele não só liderou a retomada do desenvolvimento econômico; também fez os russos voltarem a se orgulhar de serem russos. E isso não é pouco.

Mas não era de se esperar para a Rússia esse crescimento extraordinário? Se fosse, seria também de se esperar para o Brasil. Afinal, os dois países são BRICS. Entretanto, enquanto entre 2000 e 2008 o PIB brasileiro cresceu 38,8%, o russo cresceu mais que o dobro. Parte do crescimento russo foi para recuperar a perda. Deixemos dois anos de lado e comparemos o período de 2002 a 2010. O resultado é ainda favorável aos russos: 36,6% para o Brasil contra 44,8% para a Rússia, não obstante essa tenha sido atingida mais duramente pela crise de 2008.

Logo, considerando-se os dados apresentados, fica difícil considerar Vladimir Putin "mau", e o povo russo incompetente por elegê-lo. Não poderíamos, então, recorrer ao critério ético? Esse não é o critério do Ocidente, mas pode ser o nosso.

Mas é preciso considerar que os grandes políticos raramente são santos. São sempre ambiciosos, implacáveis com seus adversários e nem sempre muito honestos, mas muitos combinam esses defeitos com competência e espírito público. Logo, se julgarmos os políticos apenas de acordo com critérios éticos, teremos que rejeitar muitos que sempre consideramos estadistas.

Ao avaliarmos os governantes, é mais razoável ver aquilo que eles realmente fazem por seus países.”

FONTE: escrito por Luiz Carlos Bresser-Pereira e publicado na “Folha de São Paulo”  (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/30751-sera-putin-tao-quotmauquot-assim.shtml) [imagens do google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’]

Emir Sader: “FANTASMAS DO PASSADO DIREITISTA VISITAM A VENEZUELA”


“A América Latina foi a região do mundo que teve mais governos neoliberais e nas suas modalidades mais radicais. Praticamente, nenhum país foi poupado desses governos – com exceção de Cuba – que devastaram os direitos sociais, o potencial de desenvolvimento econômico, a soberania nacional, os Estados latino-americanos.

Por Emir Sader, em seu blog

O neoliberalismo começou pela extrema direita – com Pinochet e sua ditadura -, mas depois se alastrou para correntes originariamente nacionalistas – como o PRI mexicano e o peronismo de Carlos Menem. Para, posteriormente, ser incorporado por partidos social-democratas – como o Partido Socialista do Chile, a Ação Democrática da Venezuela, o PSDB do Brasil.

Pinochet, o neoliberal precursor

George Bush e Carlos Andrés Pérez (Venezuela)

Clinton e Menem (o governo Menem se ofereceu para “conjunção carnal” com os EUA)

FHC, feliz por ser apoio, embaixo

FHC chama Fujimori (Peru) de “grande democrata” e o condecora
Todos foram ao governo e colocaram em prática políticas neoliberais muito similares: privatização do patrimônio público, abertura das economias ao mercado externo, desarticulação dos Estados em favor da centralidade dos mercados, alienação das soberanias nacionais, expropriação dos direitos sociais, precarização das relações de trabalho. Todos têm em comum outro traço: todos fracassaram estrepitosamente, saíram do governo expulsos pelo povo, não puderam eleger seus sucessores e vários deles foram processados, condenados e presos; alguns outros fugiram dos seus países.

Entre tantas consequências negativas, promoveram a degeneração das democracias, mediante o poder do dinheiro, que corrompeu os sistemas políticos. São uma geração de políticos fracassados, que buscaram seu exemplo nos socialistas espanhóis.

A direita latino-americana, tendo fracassado, não tem hoje o que propor. Fizeram o que se haviam proposto e levaram nossos países à ruína. À falta de propostas, a direita retoma bandeiras da guerra fria, se articula em torno dos monopólios privados da mídia, lançam mão de personagens fracassados como os únicos apoios que lhes restam.

Convidados por um banco privado, três desses personagens foram à Venezuela, não se sabe bem fazer o quê. Quem sabe, sentindo falta do seu amigo Carlos Andres Perez, vão transmitir as experiências frustradas que tiveram e que os levaram à derrota e à “débâcle” dos seus países. Basta que Felipe González conte como, na Espanha, eles aplicaram brutal pacote econômico antipopular e entregaram o governo à direita, com economia desfeita, desemprego juvenil de 49%, com retrocesso recorde da economia. González pode recordar como, há 10 anos, apoiou o golpe militar contra Hugo Chávez.

Ricardo Lagos pode contar como os governos socialistas chilenos não saíram do modelo herdado de Pinochet e, finalmente, foram derrotados e entregaram a presidência a um mandatário neo-pinochetista.

FHC teria que convencer o candidato da direita venezuelana que deveria reivindicar sua figura e não a de Lula. Deveria explicar por que Lula é o presidente mais popular da história do Brasil, enquanto que ele é o político com maior rejeição. Deveria explicar ao candidato da direita de lá que seu partido e seu governo são os parentes mais próximos deles e que Lula certamente apoia Hugo Chávez.

Grotesca a imagem dessa caravana dos derrotados, de um passado que não volta mais, viajando para levar uma palavra de desesperança ao candidato da direita venezuelana. Não é um bom augúrio para a oposição a Hugo Chávez.”

FONTE: escrito por Emir Sader, em seu blog, e transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=177787&id_secao=7) [imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].