segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O SOCIALISMO SOCIAL-DEMOCRATA DE FERNANDO HADDAD

Fernando Hadad e esposa Ana Estela

Do “Estadão”

AO COMENTAR LIVROS QUE ESCREVEU, EX-MINISTRO SE REAFIRMA COMO SOCIALISTA E EXPLICA PROVÁVEL ALIANÇA COM KASSAB

Por Fernando Gallo [do jornal  da direita internacional “O Estado de S.Paulo”, autodeclarado pró-tucanos em editorial de outubro 2010]

"O tempo livre, a alma e, quem diria, uma prótese de primeira natureza, tudo é insumo precioso na busca do lucro. Sob o pretexto de satisfazer as necessidades humanas, a parafernália capitalista não faz mais do que zelar pela sua perpetuação, rebaixando os homens a meios de sua própria conservação." Talvez pudesse ser Marx, mas é um autêntico Fernando Haddad, atirando contra o sistema.

O intelectual, confrontado com o hoje candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, ainda se classifica como socialista, mantém a crítica à "esquerda autoritária" e não dá sinais de que pretende rever o que escreveu. Assegura que algumas "ideias-força" de suas obras permanecem atuais e, quando questionado sobre como defender o socialismo depois de eventual aliança com o PSD do prefeito Gilberto Kassab, se justifica: "O grande erro da esquerda autoritária foi imaginar que não precisava de ninguém".

O ex-ministro recebeu o jornal “Estado” na sede do PT nacional em São Paulo para falar sobre os livros e situações políticas contemporâneas que parecem se chocar com suas antigas ideias.

"Em defesa do socialismo - Por ocasião dos 150 anos do Manifesto", referência à obra comunista de Marx e Engels, é a obra mais política da bibliografia de Haddad, que ainda conta outros quatro títulos. Era 1998, último ano do primeiro mandato de FHC, quando o ex-ministro da Educação lançava a obra pela editora Vozes.

Sobre o modelo soviético, escreveu que "ruiu em boa hora, tirando dos ombros socialistas um fardo político descomunal".

Em 2001, na exposição que originou o livro sobre cooperativas, argumentou: "O PT deveria empunhar com mais brio a bandeira do socialismo". Hoje diz: "Podemos nos valer dessa bandeira com tranquilidade".

-O que quer dizer ser socialista no século 21?

Afastar a tradição autoritária que permeou a ação política, sobretudo do stalinismo e variantes, sem abdicar de dois valores: o combate às desigualdades socioeconômicas e a celebração da diversidade, da tolerância.

-Aquilo que o Sr. escreveu em 1998 continua valendo?

Meus livros ficaram sempre na primeira edição. Não saberia dizer se publicaria tal qual foi lançado, mas algumas ideias-força permanecem atuais. Aproveitei minha tese de mestrado, sobre o colapso do sistema soviético, para promover acerto de contas com a esquerda autoritária, particularmente o stalinismo e o trotskismo, que via naquela experiência perspectivas emancipatórias. Eu via um modo sui generis de transição de velhas sociedades asiáticas, em geral organizadas sob o manto do despotismo, na longa transição para o modo capitalista de produção. Enquanto as pessoas pensavam que pudesse desembocar numa sociedade sem classes, eu via o contrário.

-A crítica vale para Cuba?

A qualquer modelo autoritário e de economia centralmente planejada.

-A presidente Dilma, na visita a Cuba, deveria ter condenado a situação dos presos políticos?

O que a presidenta disse é que todos têm o dever de casa a fazer quando se trata de direitos humanos. A questão dos direitos humanos não pode se restringir a direitos civis e políticos. A humanidade estendeu esse conceito e trabalha também com direitos sociais. Os países têm que ser analisados à luz desse conjunto de direitos historicamente consagrados.

-Mas há uma questão histórica da esquerda com Cuba, que não condena problemas da ilha.

O excepcional trabalho que Cuba faz em relação aos direitos sociais, sobretudo no que diz respeito a saúde e educação, não pode servir de pretexto para diminuir a agenda dos direitos civis e políticos. Mesmo se valendo da explicação clássica das consequências do embargo econômico que os EUA impõem sobre a ilha, ainda assim essa questão deveria ser endereçada, porque é parte da problemática da expansão da liberdade e da igualdade entre indivíduos.

-Como defender o socialismo depois de uma eventual aliança com o prefeito Kassab?

Servi o governo Lula com gosto. Ele representou um momento da história do Brasil que eu nunca tinha vivido. Tenho 49 anos de idade e vivi a melhor década da minha história. O governo Lula abriu um leque de oportunidades de desenvolvimento do País que não estavam dadas. O governo Lula teve que fazer alianças. Na política, você não pode abdicar dos seus princípios, sobretudo éticos. Não pode abdicar das suas pretensões de transformação da sociedade. O PT vai ser sempre um partido que vai buscar a transformação da sociedade para melhor. O grande erro da esquerda autoritária com a qual o PT rompeu foi imaginar que não precisava de ninguém para mudar o mundo. Nós compreendemos os dilemas da democracia, os constrangimentos nacionais de uma vida política onde as pessoas têm opiniões diversas, onde não há amadurecimento para algumas propostas. Temos, também, que compreender que muitas ideias de esquerda se mostraram infrutíferas, outras estão mostrando potencial importante de transformação.

-Não incomoda, como intelectual (de esquerda), a frase "nem direita, nem esquerda, nem de centro" do Kassab?

Ele não é filiado ao meu partido, mas a um outro, que tem outra visão de mundo. Em segundo lugar, se você decide participar do jogo da política democrática, você não pode abdicar... deixa eu achar a palavra correta... (pensa alguns segundos) Quando se faz esse compromisso com a democracia, você está, de certa maneira, se comprometendo em respeitar as regras desse jogo. E a democracia é um governo de maioria. É um governo de coalizão. Não estamos num sistema bipartidário, mas pluripartidário. Todo partido que ganhar uma eleição vai ter que promover aliança para governar. Como sair dessa aparente contradição? Você tem uma visão de mundo e terá que se aliar com quem pensa diferente de você. A partir do resultado. O governo Lula, apesar de ter feito uma coalizão com partidos que não professam a ideologia do PT, resultou em mais igualdade e mais liberdade para a população. Se uma coalizão colocar em risco os princípios que você defende, aí ela compromete o ideário. Esse é o limite de qualquer aliança. As alianças têm que ser pautadas de tal maneira a não comprometer o objetivo do processo.

-O Sr. argumenta em um livro que, para subverter a lógica do capital, seria necessário criar um "imposto sobre a superfluidade dos bens". Como?

Outra medida de se fazer essa discussão é quando você discute a taxação das grandes fortunas. Ou quando você aumenta impostos sobre bens supérfluos, como bebida e cigarro. Você deve usar o sistema tributário para orientar a produção, emitir sinais do que a sociedade deseja que seja produzido. Quando você isenta bens de primeira necessidade, desonera de impostos a cesta básica ou o material de construção para moradias populares, você está pensando a partir dessa lógica.

-O Sr. citou bebida e cigarro...

Dou um exemplo de uma das coisas mais regressivas do ponto de vista tributário: você tem 7 milhões de veículos em São Paulo que pagam IPVA. E tem iates, jatos executivos e helicópteros que não pagam imposto...

-O Sr. acha que helicópteros deveriam que pagar IPVA?

A Constituição autoriza a cobrança de imposto de todos os veículos automotores. Se você cobra 4% sobre o patrimônio de quem tem um carro popular, não vejo razão para não cobrar os mesmos 4% de quem circula pela cidade de helicóptero. São Paulo tem uma das maiores frotas [de helicópteros] do mundo.

-Em sua obra, o Sr. sugere a socialização dos meios de comunicação, com cooperativas.

Quando se fala em socialização da propriedade privada as pessoas imediatamente associam com privatização. Esse foi um dos grandes equívocos que a esquerda cometeu. Em geral, pensamos cooperativas com aquela visão romântica do começo do século 19. Mas o que é o Linux, senão uma produção cooperativa de um sistema operacional? E a Wikipedia, senão a produção cooperativa de uma enciclopédia eletrônica?

-O Sr. é contrário à regulamentação da mídia?

No que diz respeito a conteúdo, sim.

-E no que diz respeito à forma?

No que diz respeito a propriedade cruzada, a impedir monopólio como nos EUA, penso que é agenda até liberal. A questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação já foi solucionada há muito tempo no mundo desenvolvido. É papel do Congresso discutir os modelos.”

FONTE: entrevista com Fernando Hadad conduzida por Fernando Gallo, do jornal autodeclarado pró-tucanos “O Estado de S.Paulo”. Transcrita no portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-socialismo-social-democrata-de-fernando-haddad#more). [Imagem do Google e trecho inicial entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’]

IMPUNIDADE É REGRA NAS GUERRAS IMPERIALISTAS

soldado Michael Wagnon
“As forças armadas dos EUA retiraram, sexta-feira (3), todas as acusações contra o quinto soldado acusado de assassinar civis afegãos e guardar os restos mortais "como troféus". Para o Pentágono, a absolvição de Michael Wagnon foi "do interesse da justiça" [?].

O caso tornado público em maio de 2010 já levou à condenação de quatro dos cinco envolvidos na morte e profanação dos cadáveres de três civis afegãos, entre 2009 e 2010, na província de Kandahar, no Sul do território, incluindo o sargento Calvin Gibbs, de 26 anos, sentenciado a prisão perpétua por ser o alegado líder do grupo.

O conclusão desse caso ocorre dias depois de o sargento Frank Wuterich, chefe de pelotão de infantaria, se ter declarado culpado da morte de 24 iraquianos desarmados em novembro de 2005, na cidade de Haditha.

O massacre onde morreram mulheres e crianças (e no qual número indeterminado de pessoas ficaram feridas), ocorreu depois de a explosão de uma mina antipessoal ter morto um soldado norte-americano e ferido outros dois.

A assunção da culpa por parte de Wuterich valeu-lhe um acordo com as autoridades militares, mediante o qual lhe foram retiradas as acusações de homicídio.

Assim, e por “negligência no cumprimento do dever”, o agora ex-sargento do exército só cumprirá três meses de prisão, será rebaixado ao posto de soldado, e terá o seu salário reduzido em dois terços durante os 90 dias de detenção. Os restantes sete implicados nos acontecimentos foram absolvidos.

Em Hadita, a decisão do tribunal militar dos EUA foi recebida com comoção e asco, relataram meios de informação locais citados pela TELESURTV. Já a AFP [Agência France Press] deu voz ao advogado dos familiares das vítimas, para quem “matar 24 civis e ser castigado com três meses de prisão representa crime contra a humanidade”.

A agência noticiosa ouviu, ainda, um médico do hospital de Haditha, Ayad Ghazi, Musleh que considerou “que o sangue dos iraquianos e dos habitantes do [chamado] terceiro mundo é o mais barato”.

GLORIFICAÇÃO DA DESUMANIDADE

Antes da última sentença sobre o caso de Haditha ser conhecida, um franco atirador de um pelotão das tropas especiais, Chris Kyle, afirmou, publicamente, ter morto 255 iraquianos [na guerra criada pelos EUA e aliados, com pretextos falsos, para se apossarem do controle da produção e exportação do petróleo iraquiano], fato do qual não só não se arrepende como, pelo contrário, se orgulha.

Chris Kyle
Oficialmente, o Pentágono reconhece-lhe ["somente"] cerca de 150 vítimas, mas Kyle garante que a cifra é muito maior, vangloriando-se com a sua participação no assalto a Fallujah, onde, exemplifica, matou pelo menos 40 iraquianos.

Pelos feitos que intitula de “históricos”, relatados no livro “American Sniper”, Kyle aceita a denominação de “demônio de Ramadi”, “lenda” ou “o exterminador”. "Faria tudo de novo", assegura o agora instrutor de tiro no Estado do Texas.

Segundo o grupo de defesa dos direitos humanos “Iraq Body Count”, em 2011 morreram no país 4059 civis, mais 83 que em 2010.

Em sentido contrário ao juízo dos casos de massacres perpetrados por tropas norte-americanas no Iraque e Afeganistão – em que a regra é a impunidade para executantes e decisores políticos –, a justiça militar de Washington decidiu, no passado dia 4 de fevereiro, levar por diante o processo contra o soldado Bradley Manning, acusado de [supostamente] fornecer ao Wikileaks documentos militares sobre as guerras no Médio Oriente e Ásia Central, e aproximadamente 260 mil mensagens trocadas entre representações diplomáticas da Casa Branca e o Departamento de Estado.

Manning pode ser condenado a prisão perpétua por “conluio com o inimigo”.

FONTE: site “Avante!”. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=175252&id_secao=9) [Imagens do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’]

O XADREZ DAS AMEAÇAS AO IRÃ


“Será 2012 o ano do fim do mundo? É o que, dizem, vaticina uma lenda maia — que inclusive fixaria a data exata do apocalipse: o 12 de dezembro próximo (12/12/12). Em qualquer caso, num contexto de recessão econômica e grave crise financeira e social em diversas partes do mundo (especialmente na Europa), não faltarão riscos este ano – que verá, entre outros fatos, eleições decisivas nos Estados Unidos, Rússia, França, México e Venezuela.

Por Ignacio Ramonet, jornalista e diretor do jornal francês “Le Monde Diplomatique”

Mas o principal perigo geopolítico continuará situado no Golfo Pérsico. Israel e Estados Unidos lançarão o anunciado ataque militar contra as instalações nucleares do Irã?

O governo de Teerã reivindica o seu direito a dispor de energia nuclear civil. E o presidente Mahmud Ahmadinejad repetiu que o objetivo do seu programa não é militar; que a sua finalidade é simplesmente produzir energia de origem nuclear. Também, lembra que o Irã assinou e ratificou o “Tratado de Não-Proliferação Nuclear” (TNP), enquanto Israel nunca o fez.

As autoridades israelenses pensam que não se deve esperar mais. Segundo elas, aproxima-se perigosamente o momento em que o regime dos ayatollahs disporá da arma atômica; e a partir desse instante, já não se poderá fazer nada. Estará rompido o equilíbrio de forças no Médio Oriente, onde Israel já não gozará de supremacia militar [e atômica] incontestável. O governo de Benjamin Netanyahu avalia que, nessas circunstâncias, a própria existência do Estado Judeu estaria ameaçada.

Segundo os estrategistas israelenses, o momento atual é o mais propício para golpear. O Irã está debilitado. Tanto no âmbito econômico – após as sanções impostas desde 2007, pelo Conselho de Segurança da ONU, com base em informes [duvidosos e tendenciosos] alarmantes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – quanto no contexto geopolítico regional. O seu principal aliado, a Síria, vive insurreição interna e está impossibilitado de prestar-lhe ajuda. A incapacidade de Damasco repercute-se noutro parceiro iraniano, o Hezbollah libanês, cujas linhas de abastecimento militar desde Teerã deixaram de ser confiáveis.

Por essas razões, Israel deseja que o ataque seja executado o quanto antes. Para preparar o bombardeio, já há, infiltrados no Irã, efetivos das forças especiais [israelenses]. E é muito provável que agentes israelenses tenham concebido os atentados que causaram, nestes últimos dois anos, as mortes de cinco importantes cientistas nucleares iranianos.

Ainda que Washington também acuse Teerã de levar a cabo um programa nuclear clandestino para dotar-se de armas atômicas, a sua análise sobre a oportunidade do ataque é diferente. Os Estados Unidos estão saindo de duas décadas de guerras nessa região, e o balanço não é animador. O Iraque foi um desastre, e terminou em mãos da maioria xiita, que simpatiza com Teerã. No lodaçal afegão, as forças norte-americanas mostram-se incapazes de vencer os talibãs, com quem a diplomacia da Casa Branca se resignou a negociar, antes de abandonar o país ao seu destino.

Esses conflitos custosos debilitaram os Estados Unidos e revelaram aos olhos do mundo os limites da sua potência, assim com o início de seu declínio histórico. Não é hora de novas aventuras. Muito menos num ano eleitoral, em que o presidente Barack Obama não tem a certeza de ser reeleito. E quando todos os recursos são mobilizados para combater a crise [interna] e reduzir o desemprego.

Além disso, Washington tenta mudar a sua imagem no mundo árabe-muçulmano, sobretudo depois das insurreições da “Primavera Árabe”, no ano passado. Antes cúmplice de ditadores – em particular, o tunisiano Ben Ali e o egípcio Mubarak –, deseja agora aparecer como mecenas das novas democracias árabes. Uma agressão militar contra o Irã, sobretudo em colaboração com Israel, arruinaria esses esforços e despertaria o antinorte-americanismo latente em muitos países. Especialmente naqueles cujos novos governos, surgidos das revoltas populares, são dirigidos por islamitas moderados.

Uma importante consideração complementar: o ataque contra o Irã teria consequências não apenas militares (não se pode descartar que alguns mísseis iranianos alcancem o território israelense, ou consigam atingir as bases norte-americanas no Kuwait, Barhein ou Omã), mas, principalmente, econômicas. A resposta mínima do Irã a um bombardeio das suas instalações nucleares consistiria, como os seus dirigentes militares não se cansam de alertar, no bloqueio do Estreito de Ormuz. É o funil do Golfo Pérsico, por lá passa um terço do petróleo do mundo, 17 milhões de barris por dia. Sem esse abastecimento, os preços do combustível chegariam a níveis insuportáveis, o que impediria reativar a economia mundial e deixar a recessão para trás.

O Estado-maior iraniano afirma que “não há nada mais fácil que fechar esse Estreito”. Multiplica as manobras navais na região, para demonstrar que está em condições de cumprir as suas ameaças. Washington respondeu que o bloqueio da passagem estratégica de Ormuz seria considerado “caso de guerra”, e reforçou a sua 5ª Frota, que navega pelo Golfo.

É muito improvável que o Irã tome a iniciativa de bloquear a passagem de Ormuz (embora possa tentá-lo, em represália a uma agressão). Em primeiro lugar, porque daria um tiro no pé, já que exporta o seu próprio petróleo por essa via, e que os recursos dessas exportações lhe são vitais.

Em segundo lugar, porque atingiria alguns dos seus principais parceiros, que o apoiam no seu conflito com os Estados Unidos. Principalmente, a China, cujas importações de petróleo, que chegam a 15% do consumo, procedem do Irã. A sua eventual interrupção paralisaria parte do aparelho produtivo.

As tensões estão abertas. As chancelarias do mundo observam, minuto a minuto, perigosa escalada que pode desembocar num grande conflito regional. Estariam implicados não apenas Israel, os Estados Unidos e o Irã, mas também três outras potências do Médio Oriente: a Turquia, cujas ambições na região voltaram a ser consideráveis; a Arábia Saudita, que sonha há décadas em ver destruído o seu grande rival islâmico xiita; e o Iraque, que poderia romper-se em duas partes: uma xiita e pró-iraniana; outra sunita e pró-ocidental.

Além disso, um bombardeio das instalações nucleares iranianas pode provocar nuvem radioativa nefasta para a saúde de todas as populações da área (incluídos os milhares de militares norte-americanos e os habitantes de Israel). Tudo isso conduz a pensar que, embora os belicistas ergam a voz com força, o tempo da diplomacia ainda não terminou.”

FONTE: escrito por Ignacio Ramonet, jornalista e diretor do jornal francês “Le Monde Diplomatique”. Transcrito no portal "Vermelho"  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=175424&id_secao=9) [Imagens do Google e pequenos trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’]

SÍRIA - GUERRA POR PROCURAÇÃO

Reunião do Conselho de Segurança da ONU

Se fosse necessário fixar uma data que assinalasse o fim da "era pós-soviética" na política mundial, esse dia seria 4 de Fevereiro de 2012. O duplo veto da Rússia e da China à resolução proposta pela Liga Árabe ao Conselho de Segurança da ONU é evento histórico monumental.

Por M.K. Bhadrakumar, ex-embaixador da Índia em Moscou

Curiosamente, o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, escolheu o próprio dia do veto para provocar a Rússia. Disse ele que a OTAN terá os primeiros elementos do sistema de mísseis antibalísticos (ABM) dos EUA implantados e em atividade na Europa na data da próxima cimeira da OTAN, em maio, em Chicago, sejam quais forem as objeções de Moscou.

O primeiro duplo veto de russos e chineses na questão síria, em reunião do Conselho de Segurança da ONU em outubro, foi movimento coordenado, com o objetivo de fazer gorar uma resolução que poderia ser aproveitada pela OTAN para montar uma operação militar na Síria. Mas o segundo duplo veto, em movimento para pressionar o presidente Bashar al-Assad da Síria a deixar o poder, tem significado muito mais amplo.

GUERRAS POR PROCURAÇÃO

A situação na Síria evoluiu desde Outubro e aparece, afinal, como disputa geopolítica pelo futuro do regime iraniano, pelo controle do petróleo do Oriente Médio e pela perpetuação da influência dominante do ocidente naquela região. Rússia e China sentem que pode acontecer de serem despachadas para fora do Oriente Médio.

Com o duplo veto, a única opção deixada para os EUA e seus aliados na Síria é atropelar a lei internacional e a Carta da ONU e derrubar o governo sírio. Há, também, a opção da intervenção clandestina, mas é possibilidade remota. Segundo Philip Giraldi, ex-analista da CIA, em artigo publicado na última edição da revista “The American Conservative”:

Aviões da OTAN sem identificação estão aterrando nas bases militares turcas próximas de Iskenderum, na fronteira síria, trazendo armas recolhidas do arsenal de Muammar Kaddafi e voluntários do “Conselho de Transição da Líbia”, milícias treinadas, a fim de recrutar grupos locais para combater contra soldados regulares do governo sírio. Tais competências adquiriram no combate contra o exército de Kaddafi. Iskenderum também é base do “Exército Síria Livre”, braço armado do “Conselho Nacional Sírio”. Instrutores das forças especiais francesas e britânicas também estão em campo, auxiliando os rebeldes sírios; e a Agência Central de Inteligência (CIA) e agrupamentos de Operações Especiais dos EUA fornecem e operam equipamentos de comunicações ao serviço dos grupos rebeldes – o que garante que as milícias possam concentrar-se nos combates contra o exército sírio".

Giraldi acrescenta que os próprios analistas da CIA "duvidam de qualquer possibilidade de guerra", porque sabem que os números de baixas entre os civis citados e repetidos em relatórios da ONU são obtidos de fontes rebeldes, sem qualquer confirmação. A CIA também se "recusou a confirmar notícias sobre deserção em massa de soldados sírios". E, para a CIA, relatos de combates entre desertores e soldados leais "parecem não passar de boatos", uma vez que, até agora, "só se confirmaram pouquíssimas deserções".

Se Washington conhece a real situação em campo na Síria, Moscou e Pequim também a conhecem. Assim, está em curso um "braço de ferro" na disputa pela Síria. Os EUA, os seus aliados e a Turquia podem optar por escalada nas operações clandestinas. Mas a Rússia tem meios para fazer com que o 'custo' militar da guerra clandestina aumente muito. O ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov disse, em Moscou, no final de semana, que Moscou "fará todo o possível para evitar agressão militar armada contra a Síria", mas que nada poderá fazer "para impedir intervenção militar nos assuntos sírios, se a decisão de intervir for tomada por qualquer outro país".

Por outro lado, o ocidente não aceita a Rússia como árbitro na Síria e tem-se dedicado a frustrar as repetidas tentativas russas de levar as facções da oposição e o governo sírio à mesa da negociação e do diálogo políticos. Moscou sente que a posição política do presidente Bashar Al-Assad está enfraquecendo; e o ocidente avalia que a posição russa se vai tornando cada dia menos sustentável.

Quanto à China, o ocidente decidiu ignorar o veto chinês. Obviamente, o ocidente tende a não dar importância às ambições do dragão no Oriente Médio; e concentra-se em resistir furiosamente aos avanços do urso – porque o urso, muito mais que o dragão, tem vastíssima experiência acumulada em longa história de participação nos negócios da região. Assim sendo, a barragem de propaganda ocidental já está a apresentar a Rússia como obstáculo a quaisquer reformas ou mudanças democráticas no Oriente Médio. A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, escolheu cuidadosamente as palavras, para dizer, em tom grandiloquente, que os EUA se sentiam "desgostosos" ("disgusted") perante o veto russo.

A Rússia está decidida a não se deixar arrastar para guerras por procuração, que são sorvedouros de recursos insaciáveis. O Ocidente sente-se seguro, porque o emir do Qatar pôs sua fabulosa fortuna à disposição, para financiar as operações. A Rússia não poderá abandonar a Síria, seu aliado tradicional, exatamente quando esta está sob ataque, porque esse movimento comprometeria muito gravemente a imagem que a Rússia tenta construir e preservar no Oriente Médio, num momento crucial, logo nas primeiras escaramuças de nova disputa geoestratégica – que terá impactos globais de longo prazo. Por tudo isso, é prioridade absoluta nas estratégias ocidentais, já há várias décadas, impedir que a Rússia – grande consumidora de energia – construa laços de solidariedade e amizade com as oligarquias do petróleo e gás do Golfo Persa.

Por via das dúvidas, Lavrov e o chefe da Inteligência Exterior da Rússia Mikhail Fradkov estão em Damasco. O ministro russo de Relações Exteriores disse, no domingo (5) que "a Rússia, depois de ouvir vários outros países, está decidida a buscar a imediata estabilização da situação na Síria, o que será alcançado mediante a rápida implantação das transformações democráticas há muito necessárias."

Na declaração, Lavrov sugere que a Liga Árabe envie missão de observadores também à Síria, "dado que aquela comissão já se demonstrou eficaz para promover a desescalada da violência". É evidente o senso de urgência. Mas não há dúvida de que o ocidente bloqueará os efeitos da missão de Lavrov.

O fato é que o ocidente não sabe como agir, porque o seu procurador oficial, Burhan Ghalioun, do chamado “Conselho Nacional Sírio” (exilado sírio que vive na França e dá aulas na Sorbonne) não desperta nenhum entusiasmo entre os sírios e nada garante que possa retornar à Síria nos próximos tempos. E a guerra civil espalha-se pelo interior da Síria. Por tudo isso, a situação vai rapidamente ganhando contornos idênticos aos de outras guerras por procuração típicas da Guerra-Fria.

O pano de fundo também está carregado de paralelos muito perturbadores. Não só a Rússia, mas também a China, está sob pressão dos EUA, desde o anúncio da "virada estratégica" dos EUA na direção da Ásia.

'PREOCUPAÇÕES SINO-RUSSAS'

Depois de os EUA inaugurarem uma base militar na Austrália, Washington trabalha hoje em contactos com Manilha [Filipinas] para aumentar a presença militar dos EUA no Sudeste da Ásia. Manilha está disposta a receber navios e aviões de vigilância dos EUA para manobras militares conjuntas e pede o apoio dos EUA, duas décadas depois de soldados norte-americanos terem sido expulsos da base de Subic Bay, então a maior base dos EUA no Pacífico.

Na conferência anual de segurança em Munique, dias 4 e 5 de fevereiro, Pequim não escondeu seu desagrado. O vice-ministro de Relações Exteriores Zhang Zhijun conclamou "países fora da Ásia" a desistir de qualquer tentativa de "deliberadamente expandir suas agendas militares e de segurança, criar novas tensões ou reforçar a presença militar ou alianças militares" na região, e a não procurarem "impor seus desejos à Ásia". Disse ele: "A via asiática deve ser respeitada". E repetiu o alerta contra "qualquer tentativa de subverter o direito internacional." Zhang sublinhou que o crescimento da Ásia "indica movimento na direção de maior equilíbrio na estrutura internacional do poder."

Significativamente, o jornal “The Global Times”, de Pequim, sugeriu há pouco que a beligerante projeção do poder militar dos EUA vai aos poucos deixando Pequim e Moscou sem alternativa, obrigando-as a reagir. Lê-se ali:

Até aqui, Moscou e Pequim têm-se mantido relativamente contidas, apesar de a OTAN procurar expandir sua presença estratégica na Europa Oriental, e de os EUA reforçarem suas alianças militares na Ásia. Mas não poderão permanecer contidas para sempre. Tanto para Pequim como para Moscou, os laços com os EUA sempre foram complexos e tensos. As duas capitais não querem que se gerem suspeitas sobre o recente 'aquecimento' das relações entre elas. Mas nos dois países cresce o número de vozes que agora advogam uma aliança Moscou-Pequim. Ambas as capitais têm contramedidas a implantar contra os EUA, e competências para conter aliados dos EUA. Se realmente decidirem darem-se as mãos, o equilíbrio do poder em muitas questões mundiais começará a ser deslocado”.

Do mesmo modo, deterioraram-se os laços entre Moscou e o ocidente. As conversações entre EUA e Rússia sobre os mísseis antibalísticos estão paralisadas. Washington rejeita a exigência de Moscou, para que se criem mecanismos que impeçam os EUA de usarem os sistemas de mísseis antibalísticos a serem implantados na Europa como arma de contenção estratégica contra a Rússia

Dmitry Rogozin, vice-primeiro-ministro russo, disse, recentemente, em Moscou, que os EUA e seus aliados da OTAN têm, atualmente, mil mísseis capazes de interceptar os mísseis balísticos intercontinentais russos, cobrindo toda a Rússia europeia até os Urais. Disse ele:

Não há quaisquer garantias de que depois de a primeira, segunda e terceira fase [do projeto de mísseis antibalísticos dos EUA] estarem completadas, não virão fases quarta, quinta e sexta. Alguém supõe que os EUA paralisarão todas as suas tecnologias depois de 2020? Não faz sentido! É claro que prosseguirão e desenvolverão parâmetros técnicos sempre superiores para seus mísseis de interceptação e para as capacidades e desempenho de seus sistemas de interceptação [os mísseis de defesa]” (...).

O fato de o sistema de mísseis de defesa ter capacidade para destruir mísseis estratégicos e o fato de essas bases e frotas estarem estacionadas em mares do Norte evidenciam o claro caráter antirrusso que se constata em todo o programa de mísseis de defesa dos EUA.

Muito claramente, o duplo veto russo e chinês contra a resolução sobre a Síria é movimento coordenado para desafiar os planos de marcha triunfalista dos EUA, da Líbia à Síria e dali ao Irã. Lavrov reuniu-se com o embaixador chinês no Conselho de Segurança, Yang Jiechen, pouco antes da votação no Conselho de Segurança. Ao apresentar seu voto, o embaixador chinês, Li Baodong, afirmou: "A China apoia a proposta de resolução revista e emendada pela Rússia."

A Agência Xinhua comentou que o duplo veto "visa a estimular a busca de solução pacífica" na Síria e "a evitar possíveis soluções drásticas e arriscadas." Explicou detalhadamente "as preocupações sino-russas" sobre a Síria. Os comentaristas chineses destacaram que "a globalização impôs nova lógica nas relações internacionais" e a Síria é teatro-chave na agenda ocidental, para fazer do Oriente Médio esfera de influência do ocidente.”

FONTE: escrito por M.K. Bhadrakumar, ex-embaixador da Índia em Moscou. Transcrito no site “Resistir.info”, de Portugal, e no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=175117&id_secao=9) [Imagem do Google adicionada por este blog ‘democracia&política’]

O VETO DA RÚSSIA E CHINA

menina estende bandeira da Síria

“O veto da Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU [não concordando com o ataque militar dos EUA/OTAN à Síria sob pretexto de ajudar e proteger os rebeldes, como na Líbia] é uma rara notícia positiva a emanar daquele órgão. Positiva por ser um entrave a mais uma agressão imperialista. Quase seguramente, não impedirá que o imperialismo avance, tal como a ausência da cobertura pela ONU não impediu que os democratas de Clinton e sociais-democratas da UE atacassem a Iugoslávia, ou os republicanos de Bush e a troika Blair-Aznar-Barroso invadissem o Iraque.

Por Jorge Cadima, no jornal Avante!, de Portugal

O VETO

Mas é positivo que não possam invocar a chancela da ONU, ao contrário do que aconteceu no caso da Líbia.

A reação do imperialismo ao veto foi delirante. A representante dos EUA na ONU, Susan Rice, declarou que "aqueles que bloquearam o último esforço para resolver "pacificamente" [sic] essa questão terão as suas mãos manchadas pelo sangue que se verterá no futuro" (CNN, 5.2.12).

Além de confirmar que se verterá mais sangue com uma "solução" não pacífica – na qual os EUA assumirão o seu habitual papel de primeiríssimo plano – a Sra.Rice não conhece o sentido do ridículo. Representa um país que tem, não apenas as mãos, mas todo o seu corpo submergido em caudalosos rios do sangue de muitos milhões de mortos e vítimas dos seus crimes de guerra.

O cada vez mais patético Secretário-Geral da ONU, Ban Ki Moon (BKM), afirmou que o veto "enfraquece o papel da ONU e da comunidade internacional" (Televideo RAI, 4.2.12). Faz de conta que não sabe que o preâmbulo da Carta da organização a que preside começa dizendo: "Nós, os povos das Nações Unidas estamos determinados a salvaguardar as gerações futuras do flagelo da guerra...".

Durante o seu mandato, Israel lançou o criminoso ataque militar contra a faixa de Gaza, sem que BKM tenha achado seu dever intervir ativamente pela paz. Na sua recente passagem por Gaza, BKM foi acolhido por "dezenas de palestinos num protesto hostil […]. Muitos eram familiares de presos palestinos nos cárceres de Israel, zangados com a recusa de Ban Ki Moon em se encontrar com eles para discutir as condições dos presos. Alguns atiraram-lhe sapatos e mostravam cartazes onde se lia “chega de favorecimento de Israel”" (BBC, 2.2.12).

Ouve-se pias afirmações de que a resolução agora vetada não previa uma intervenção militar e já não continha passagens apelando a uma mudança de regime. Também a resolução nº 1973 sobre a Líbia não dizia nada disso. "Apenas" decretava "um embargo de armas", a "interdição aérea", falava em "proteger civis" e em "soluções pacíficas". Mas Sirte e outras cidades foram arrasadas pelas bombas da NATO (OTAN). Houve dezenas de milhares de mortos pela OTAN.

O “New York Times” (21.1.12) agora confessa que o linchamento de Kadafi teve a participação dos drones (aviões não tripulados) dos EUA, que estiveram em ação "até ao último dos ataques, que atingiu a caravana do Coronel Kadafi no dia 20 de outubro e levou à sua morte". A imprensa ocidental confessa agora (só agora) que os "rebeldes" que a NATO colocou no poder torturam sistematicamente. Até a organização “Médicos sem Fronteiras” se retirou da "livre" cidade líbia de Misrata por achar que "a nossa missão é dar cuidados médicos a feridos de guerra ou presos doentes, e não tratar repetidamente os mesmos doentes por entre sessões de tortura" (“The Independent”, 27.1.12).

Quem esteja impressionado pela desinformação sobre a Síria deve recordar as mentiras – monumentais – com que nos venderam todas as anteriores guerras imperialistas. Lembrar que o embaixador de Portugal em Tripoli desmentiu, aos microfones da “Antena 1” no dia 23.2.11, as "notícias" de massacres a partir de aviões – citados como fatos na Resolução nº 1973 da ONU, que o governo Sócrates [de Portugal]votou favoravelmente – tal como o Governo Passos-Portas fez agora – numa clara afronta à nossa Constituição.

Deve dar ouvidos às denúncias de um ex-agente da CIA, Philip Giraldi (na revista “American Conservative”, citada em “globalresearch.ca”):

"Aviões da NATO sem identificações estão chegando às bases militares turcas perto de Iskenderum, na fronteira síria, transportando armas dos arsenais do falecido Muamar Kadafi, bem como voluntários do CNT líbio […]. Iskenderum é também a sede do “Exército Livre Sírio”, braço armado do “Conselho Nacional Sírio”. Instrutores das forças especiais francesas e britânicas estão no terreno, assistindo os rebeldes sírios, enquanto a CIA e Forças Especiais dos EUA fornecem equipamento de comunicações e informações para ajudar a causa rebelde, permitindo aos seus combatentes evitar concentrações de soldados sírios". A agressão externa já começou.

O imperialismo em profunda crise está ateando fogo ao planeta. O veto na ONU foi positivo. Mas cabe aos povos a palavra decisiva em defesa do seu futuro coletivo.”

FONTE: escrito por Jorge Cadima, no jornal “Avante!”, de Portugal. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=175250&id_secao=9) [Imagem do Google, trechos entre colchetes e aspas adicionados por este blog ‘democracia&política’]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O BRASIL É O PAÍS MAIS ESTÁVEL POLÍTICA E ECONOMICAMENTE ENTRE OS BRICS, diz S&P

BRASIL É O MAIS ESTÁVEL DOS BRICS, diz Standard & Poor's

“SEGUNDO A AGÊNCIA Standard & Poor's, SOLIDEZ POLÍTICA E ECONÔMICA DO BRASIL CRIA CONDIÇÕES MELHORES PARA ENFRENTAR A CRISE GLOBAL.

[Acrescenta a "Folha de São Paulo, com o seu tradicional "pessimismo" dos últimos nove anos: “Mas, devido à baixa taxa de investimento, o Brasil é o que menos cresce entre os nove emergentes analisados]

Por Mariana Schreiber [do jornal tucano “Folha de São Paulo”, que prega a volta da direita neoliberal ao poder. Trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

O Brasil é o país mais estável política e economicamente entre os BRICS (grupo que reúne também China, Rússia, Índia e África do Sul) e outros quatro emergentes, mas, por outro lado, é o que menos cresce.

Essa é a conclusão de um estudo da agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor's) divulgado na última semana, que comparou o Brasil também [além dos BRICS] com Colômbia, México, Peru e Panamá.

Para o analista de crédito da agência Sebastian Briozzo, a grande vantagem do Brasil sobre esses demais países é a estabilidade e a transparência do seu sistema político.

Ele observa que o país passou em 2003 de um governo de “centro” (FHC) [ou melhor, de direita, neoliberal] para um de centro-esquerda (Lula) sem mudanças significativas na política macroeconômica [apesar da enorme melhoria na eficiência dessa política. Seria como dizer que o Barcelona joga com "as mesmas regras" de futebol que o Olaria, porém mais eficientemente].

"Se as instituições políticas são fortes, é mais difícil ter uma virada no modelo econômico", observa.

Segundo ele, a solidez e a prudência da política econômica fortalecem as contas externas (ou seja, atrai dólares para cá) e possibilitam a diversificação da economia.

"Isso reduz a dependência externa, sustenta o crescimento e dá flexibilidade para suportar riscos advindos da crise global", afirma.

Esses aspectos positivos, no entanto, não são suficientes para alavancar o crescimento. Comparado aos demais países analisados, o Brasil é que tem as menores taxas de expansão.

Segundo Briozzo, como a maioria desses países é mais pobre que o Brasil, principalmente do ponto de vista de renda per capita, é natural que eles tenham espaço para crescer mais rápido.

Mas o principal fator que limita o crescimento do país, diz, é o baixo volume de investimentos. Entre os países analisados, o Brasil tem a menor taxa de investimento.

Após reduzir os investimentos no ano passado, o governo promete elevar esses gastos neste ano. A promessa é pouco compatível com outro objetivo: economizar o equivalente a 3,1% do PIB para pagar juros da dívida. [Isso se deve, em grande parte, ao exponencial aumento da dívida pública ocorrido no governo FHC/PSDB/DEM, que elevou a dívida de 30% para acima de 51%. A tabela a seguir mostra esses percentuais até 2009. Em 2010 e 2011 essa relação caiu para 36,6%]:


"O rigor fiscal é muito importante. O governo tem que aumentar os investimentos, mas controlar os outros gastos", afirma Briozzo.

Em novembro, a S&P elevou a nota de risco soberano do Brasil para BBB, indicando que o investimento no país ficou mais seguro.”

FONTE: escrito por Mariana Schreiber, na Folha de São Paulo  (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/25038-brasil-e-o-mais-estavel-dos-brics-diz-agencia.shtml) [imagens do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

DISCURSOS PESSIMISTAS SOBRE O BRASIL TÊM VISÃO DE PROVÍNCIA [de colônia, da oposição]

Evolução do Brasil de 2000 a 2050 (necessita zoom para visualizar)

O BRASIL JÁ DEU CERTO - APESAR DOS CÉTICOS

Por Alberto Carlos Almeida, no jornal “Valor Econômico”

“Grande parte da mídia brasileira [pró-EUA/Israel/Europa, de direita, pautadora do PSDB/DEM/PPS] se especializou em falar mal do Brasil [nos últimos nove anos]. Graças a isso, a percepção que a sociedade tem de si mesma, em diversos aspectos, é inteiramente equivocada. Vende-se algo que não existe: a visão de que somos piores em quase tudo, quando comparados com a maioria dos países desenvolvidos.

Nem mesmo as boas notícias são recebidas de maneira positiva. Por exemplo, a recente informação de que ultrapassamos o Reino Unido quanto ao PIB foi divulgada cheia de ressalvas, afirmando-se que "o PIB per capita é um indicador mais relevante" e coisas do gênero.

A covardia com o Brasil atinge o ápice quando se tenta comparar nosso sistema político com o dos outros países. Afirma-se que o presidencialismo é pior do que o parlamentarismo, mas não dizem que os países parlamentaristas têm gastos públicos sistematicamente maiores do que os presidencialistas e que é justamente por isso que a Europa se encontra mergulhada na pior crise econômica de sua história recente. Diz-se que o sistema eleitoral distrital é melhor do que o proporcional com lista aberta, mas não dizem que um dos países que melhor escapou da crise mundial é a Suécia, que adota o mesmo sistema eleitoral que o nosso tão criticado Brasil.

Como sempre, a lista de críticas ao Brasil é muito longa. É difícil imaginar como um país tão ruim, com tantas coisas negativas, possa ter chegado aonde chegou. Opa, para os críticos ele não chegou a lugar algum, continua lá atrás, sendo um dos países mais problemáticos do mundo.

A crítica permanente ao Brasil está fundamentada em excesso de provincianismo: como não se conhece o que acontece em outros lugares, assume-se que aquilo que conhecemos de muito perto, em detalhes, é muito ruim.

A greve dos policiais da Bahia e a desordem e criminalidade resultantes é um prato cheio para a frase típica dos que sofrem de complexo de inferioridade: "Isso só acontece no Brasil". É possível ver o outro lado da moeda, o lado positivo. A greve dos policiais baianos será resolvida de forma inteiramente diferente de greves congêneres que ocorrem nos Estados Unidos. Ao contrário de nosso vizinho mais rico, aqui não será dado aumento salarial que comprometa a situação de nossas finanças públicas.

É isso mesmo. Para aqueles que não sabem, vários Estados e municípios americanos estão quebrados porque concederam aumentos salariais a perder de vista para policiais e bombeiros. Esse é o caso, tão bem relatado por Michael Lewis em seu livro "Bumerangue", recentemente publicado no Brasil, da Califórnia e dos municípios de San Jose e Vallejo. Aqueles que idolatram o federalismo americano deveriam saber que, justamente por isso, lá não há nada que se assemelhe a nossa Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Governadores e prefeitos estão livres para exercer sua prerrogativa de gastar muito, endividar o setor público ao ponto de comprometer seu funcionamento para as futuras gerações. Não serve aqui o argumento em abstrato, o princípio teórico, de que descentralizar é necessariamente melhor do que centralizar.

Os policiais da Bahia e de outros Estados estão limitados pela nossa centralização, que se traduz na possibilidade de ter algo como a LRF. Mais do que isso, a simples discussão ora em curso sobre a PEC 300, um sinal evidente de nossa centralização, mostra que jamais nossos Estados ou municípios ficarão na situação, como é o caso de Vallejo, de ter somente um funcionário público, aquele que tem como função pagar os salários, aposentadorias e pensões de policiais e bombeiros. Isso mesmo, em Vallejo, os sinais de trânsito estão todos piscando permanentemente em amarelo. O município, falido, não tem recursos para sustentar uma burocracia que faça valer as leis de trânsito. Isso jamais ocorreu ou ocorrerá no Brasil.

Na Grécia, não há cartões de crédito na grande maioria dos estabelecimentos comerciais. A razão é simples: o pagamento em dinheiro vivo está a serviço da mais fácil e completa sonegação de impostos. Não adianta dizer que os gregos são uma piada e isso e aquilo. Sempre foi assim, desde o momento em que a Alemanha aceitou a entrada da Grécia no acordo que estabeleceu o euro.

Os gregos vão muito além de não utilizar cartões de crédito. Em ano eleitoral, o governo relaxa o controle fiscal, faz vista grossa para o não pagamento de impostos. É muito interessante que o Brasil seja tão ruim, mas que um país europeu utilize o (não) pagamento de impostos como moeda de troca eleitoral. Cá entre nós, comprar votos em comunidades pobres é muito mais redistributivo. Nosso sistema de controle fiscal pode não ser germânico, mas certamente temos uma burocracia muito mais avançada do que muitos países europeus. Os críticos contumazes do Brasil não sabem disso, são provincianos demais para imaginar que algum país supostamente desenvolvido possa não controlar o pagamento de impostos, como se faz na nação de Macunaíma.

Aliás, nada mais distante do espírito germânico do que Macunaíma, nosso herói sem caráter. Ele é um retrato da nossa incredulidade. O brasileiro jamais acredita no que se diz. Essa credulidade alemã não faz parte da nossa cultura. Foi graças a isso que os alemães sempre acharam que a Grécia estava cumprindo as metas de gastos definidas pelo tratado de Maastricht. Um burocrata ou um ministro da Fazenda brasileiro jamais confiaria na Grécia quanto a isso.

O livro "Bumerangue" é um excelente antídoto para o excesso de pessimismo quanto ao Brasil. Michael Lewis mostra que, nos Estados Unidos, Grécia, Islândia, Irlanda e Alemanha aconteceram e acontecem coisas terríveis, que jamais atingiram e provavelmente nunca farão parte de nossa realidade. É claro que temos coisas ruins e abomináveis, mas isso está longe de ser o cenário catastrófico pintado pelos críticos. Todo país e toda sociedade têm problemas, mas também não somos piores do que os outros em tudo ou quase tudo.

Os alemães de Lewis são crédulos ao ponto de serem os únicos que, já com a crise no horizonte, continuavam comprando os papéis do "subprime" em Wall Street. Aliás, quando um "trader" americano tinha dificuldade para vender tais papéis, recebia invariavelmente a seguinte recomendação: "Venda para aqueles otários de Dusseldorf, que eles compram de tudo". Não creio que algum dia será possível trocar otários de Dusseldorf por otários de São Paulo ou do Rio de Janeiro, e muito menos de Brasília.

Os brasileiros acreditam em coisas mágicas como o boto da Amazônia ou o nêgo d'água em Minas Gerais. Ambos cumprem o mesmo papel de justificar, em uma sociedade conservadora, a gravidez de mulheres solteiras ou a traição das casadas. Isso causa muito menos prejuízo aos cofres públicos do que os duendes nos quais acreditam. Isso mesmo, na Islândia se acredita em duendes e quando uma empresa como a Alcoa foi se instalar por lá teve que aguardar por seis meses, até que fosse concluído um estudo que verificaria que em determinada área não havia duendes. É a mesma Islândia que transformou dezenas de pescadores em banqueiros. Isso mesmo, os banqueiros islandeses tinham sido pescadores durante toda sua vida profissional.

Mais do que isso, David Oddsson, que foi primeiro-ministro e presidente do Banco Central islandês, nunca teve experiência alguma com bancos e era poeta de formação. Talvez por isso os bancos alemães tenham colocado US$ 21 bilhões na Islândia, a Holanda tenha apostado US$ 305 milhões, o Reino Unido US$ 30 bilhões e a Universidade de Oxford tenha perdido US$ 50 milhões. No Brasil, é impensável que alguém que não tenha familiaridade com o mercado financeiro assuma a presidência do Banco Central. Mesmo assim, há aqueles que insistem em criticar tudo ou quase tudo.

Trata-se de questão de ponto de vista, de como olhamos o Brasil. O exemplo da centralização é emblemático. Não há nada necessariamente melhor em ser tão descentralizados como são os Estados Unidos. Uma postura cética indica que o melhor e pior, o benéfico e maléfico, dependerão das consequências. A comparação entre os gastos com funcionários públicos estaduais e federais no Brasil e nos Estados Unidos mostra que a centralização política e administrativa tem sido mais efetiva para conter seu descalabro. Indo além, ser um pouco macunaímico quando se trata de comprar papéis do "subprime" teria sido bom para os germânicos. Nada disso se escolhe: são coisas que as nações são ou não são. Ultimamente, temos sido os grandes beneficiários de ser como somos.”

FONTE: escrito por Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário. É autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo". Artigo transcrito no portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/discursos-pessimistas-sobre-brasil-tem-visao-de-provincia#more) [imagem do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].