terça-feira, 29 de outubro de 2013

Argentina: DOIS ANOS DE CRISTINA. O QUE SERÃO?


A "Frente para a Vitória", dos partidos que apoiam Cristina, conseguiu reter maioria, ainda que apertada, na Câmara e no Senado. Isso bastará para 2015?

Por Emir Sader

“Veinta años no es nada”, cantam Gardel e Le Pera em "Volver". Dois anos, quanto serão?

A "Frente para a Vitória", dos partidos que apoiam a Cristina, conseguiu reter maioria – ainda que apertada, em alianças – na Câmara e no Senado. Mas isso bastará para dar uma virada no quadro politico apresentado pelas eleições parlamentares desta semana até a presidencial de 2015?

Três anos atrás, morria Nestor Kirchner e o clima – combinado com o bicentenário da independência – favoreceram uma virada no clima politico, que levou Cristina a reeleger-se, em 2011, com 54% dos votos, recuperando-se do baque provocado pelo movimento opositor de 2008, dos exportadores de soja com a classe média portenha. Essa montanha russa levou agora à queda dos 54% das presidenciais a 32% dos partidos que a apoiam. Uma perda de mais 20% em dois anos.

A oposição, por sua vez, está menos dividida que há dois anos. Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, representando a direita, já se lançou candidato à presidencia. O Partido Radical, como sempre, deve apresentar seu candidato, talvez o ex-vice presidente Julio Cobos. Mas a novidade é o surgimento de Sergio Massa, ex-kirchnerista, prefeito de Tigre, cidade da província de Buenos Aires, o grande vencedor das eleições desta semana, que se projeta como o favorito para unificar a oposição, pelo menos no segundo turno.

O governo, sem a possibilidade de reeleição de Cristina, fica entre o ex-vice presidente de Nestor Kirchner, o moderado Daniel Scioli, governador da província de Buenos Aires, com bom apoio na província que reúne quase 40% do eleitorado nacional, ou algum kirchnerista que representaria uma continuidade mais direta do governo de Cristina, como governadores que tiveram boas reeleições, porém de províncias de pouca expressão, mas com maiores riscos de derrota para Cristina.

A mudança ou não do quadro atual desfavorável para o governo vem da comprometida situação econômica do país. O governo arrasta déficits públicos elevados, em grande medida pelos subsídios ao consumo de energia, depois que, entre as heranças [neoliberais] malditas que Carlos Menem deixou a seus sucessores, estava a privatização da YPF, fazendo a Argentina passar da autossuficiência energética à necessidade de compras gigantescas de petróleo e gás e do subsidio ao consumo, para impedir que a inflação disparasse. Os déficits públicos sobem incessantemente, sem impedir que exista inflação real de 25%, mesmo se índices oficiais digam que é de 10%.

A renegociação da imensa dívida deixada pela política suicida de paridade entre o dólar e o peso, de Menem – bomba de tempo que terminou explodindo no começo do século, levando o pais à sua pior crise econômica, social e política –, realizada por Nestor Kirchner, teve sucesso, salvo que 8% dos credores a rejeitaram e seguem bloqueando os créditos internacionais à Argentina. O controle cambial não é suficiente para frear a queda das reservas e ainda introduz desequilíbrios que afetam a economia, não impedindo o mercado negro, em que o peso custa 70% mais do que o preço oficial.

Esses desequilíbrios econômicos se refletem no desgaste dos salários, pela inflação real, sendo o responsável por parte da perda de apoio do governo.

A essa conjuntura difícil se soma a situação de saúde da Cristina. Depois da operação no cérebro, como resultado de uma queda que ela teve em agosto, se revela que ela tem arritmia, o que pode levar a que tenha que se submeter a uma outra operação, mais delicada.

Quando, pela combinação da situação econômica difícil e do revés eleitoral, se requer, mais do que nunca, sua capacidade de direção política. O vice-presidente, Amado Boudou, tem pouca legitimidade, pelas processos de corrupção ainda pendentes, que desgastaram muito sua imagem. A equipe econômica, dividida entre a possibilidade de uma desvalorização da moeda ou não, requer ainda mais uma condução unificada, que só Cristina pode dar. E não se sabe quando ela pode reassumir a presidência.

O tempo passa a contar contra o governo, numa contagem regressiva que faz dos dois anos que restam para o terceiro – e último - mandato sucessivo dos Kirchner – anos decisivos para o processo de reconstrução que lograram ao longo da última década.”

FONTE: escrito pelo cientista político Emir Sader no site "Carta Maior"  (http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Dois-anos-de-Cristina-o-que-serao-/2/29356).

EUA CAMINHAM SOBRE GELO FINO NO ORIENTE MÉDIO


Novas e inesperadas tensões com Arábia Saudita e Turquia, maiores aliados norte-americanos no Oriente Médio, expõem desafios do governo de Barack Obama.

Pelo norte-americano Jim Lobe

WASHINGTON - Novas e inesperadas tensões nas relações dos Estados Unidos com a Arábia Saudita e a Turquia, seus mais estreitos aliados no Oriente Médio, expõem os desafios do governo de Barack Obama para navegar nas águas cada vez mais turbulentas dessa região.

Neoconservadores, membros do opositor Partido Republicano e outros falcões (ala mais belicista de Washington) atribuem essa situação à tendência de Obama de se desentender da região e a sua renúncia em usar o poder militar para defender agressivamente os interesses de Washington.

Outros consideram que as novas forças que se desataram com a invasão ao Iraque em 2003 e com a Primavera Árabe transformaram a região e estão desafiando o controle dos Estados Unidos.

“Nós, os estadunidenses, já não temos a capacidade de marcar tendências no Oriente Médio”, admitiu Chas Freeman Jr., diplomata aposentado que se desempenhou como embaixador na Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo de 1991.

Mas “as ilusões de onipotência imperial são difíceis de dissolver”, acrescentou.

“Os atores regionais estão duplicando esforços para convocar o apoio de potências externas”, disse Freeman na terça-feira (22), na "Conferência de Políticos Árabes/Estadunidenses", celebrada em Washington. “Isso poderia gerar surpreendentes realinhamentos geopolíticos”, prognosticou.

A Casa Branca recebeu uma bofetada na semana passada, quando a Arábia Saudita se recusou a sentar pela primeira vez como membro não permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando o fracasso desse organismo para resolver o conflito palestino-israelense e a atual crise na Síria.

O impacto foi maior na terça-feira (22), quando o "The Wall Street Journal" informou em sua portada que diplomatas europeus haviam se reunido em Yeda com o chefe de inteligência saudita, Bandar bin Sultan al Saud, ex-embaixador de seu país em Washington.

Nesse encontro, Bandar teria dito claramente que o boicote ao Conselho de Segurança era “uma resposta para os Estados Unidos, não para a ONU”.

Também segundo fontes do jornal, Bandar revelou que Riyadh não só considera reduzir sua cooperação com Washington no treinamento e na provisão de armas aos rebeldes sírios, mas que também explora relações militares com outras potências que sirvam mais aos interesses sauditas.

Consultado a respeito em Londres, onde participava da reunião do "grupo Amigos da Síria", o secretário de Estado (chanceler) estadunidense John Kerry comentou que havia mantido uma série de reuniões com o ministro de Relações Exteriores saudita, Saud al Faisal.

Nesses encontros, afirmou Kerry, chegaram a vários acordos sobre a Síria e outros temas. O funcionário estadunidense assegurou ter “grande confiança” em que os dois países “continuarão sendo importantes e achegados amigos e aliados que temos sido”.

Ainda que as palavras de Bandar pareçam ser, por enquanto, só uma advertência, é fácil notar que Washington e Riyadh se afastam cada vez mais nesses e outros assuntos.

O respaldo de Riyadh à repressão de movimentos opositores no Bahrein e no Egito não agrada a Casa Branca, nem sua lentidão para agir contra os sauditas que apoiam financeiramente grupos afiliados à rede radical islâmica Al Qaeda na Síria e no Iraque.

Por sua parte, a Arábia Saudita está preocupada com uma possível distensão entre os Estados Unidos e o Irã, pois teme que Teerã recupere a primazia que gozava no Oriente Médio, com apoio de Washington, antes da Revolução Islâmica de 1979.

Enquanto isso, na frente turca, o governo de Obama ficou desconcertado por uma série de acontecimentos que muito provavelmente complicarão seus vínculos com o único aliado de maioria muçulmana na "Organização do Tratado do Atlântico Norte" (OTAN), se é que já não o fizeram.

David Ignatius, colunista do "The Washington Post", informou na semana passada que o chefe de inteligência turco havia revelado a Teerã a identidade de 10 iranianos que realizavam espionagem para Israel.

Dessa forma, Ankara pôs fim a uma longa história de colaboração em inteligência com o governo israelense, que começou a sair dos trilhos após a ofensiva do Estado judeu a Gaza em 2008 e 2009.

A imprensa turca informou, na terça-feira, que Washington havia cancelado o envio de aviões não tripulados "Predator" a Ankara em represália por essa colaboração com o Irã.

Ainda que o governo do primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan tenha negado o relatório de Ignatius, crescem as suspeitas de que esse se encontra hoje mais próximo de Teerã que de Telavive.

Isso marcaria uma mudança na histórica rivalidade entre a Turquia e o Irã e confirmaria o fracasso dos esforços de Obama para voltar a estreitar os laços entre turcos e israelenses.

Como se fosse pouco, a Turquia anunciou, surpreendentemente, no mês passado, que escolheu uma companhia chinesa, e não suas competidoras estadunidenses e europeias, para construir um novo sistema de defesa antimísseis. A assinatura está sujeita a sanções
de Washington [à companhia chinesa] por ter vendido equipamento militar nada menos que ao Irã.

Além disso, o sistema chinês seria incompatível com o equipamento utilizado pelos membros da OTAN.

Inclusive, os simpatizantes de Erdogan e de seu "Partido da Justiça e do Desenvolvimento" reconhecem que a aliança entre a Turquia e os Estados Unidos está com sérios problemas.

“Considerando o histórico da Turquia, como pode a administração de Obama continuar dizendo que é um ‘sócio modelo’ ou sequer considerá-lo um aliado?”, escreveu Steven Cook, especialista em assuntos turcos para o "Independiente Council on Foreign Relations".

“Ultrapassamos a linha do desacordo razoável e chegamos a um ponto no qual a Turquia está trabalhando clara e ativamente para perturbar os objetivos estadunidenses no Oriente Médio”, acrescentou.

A mutabilidade que caracteriza hoje a região e as dificuldades dos Estados Unidos para navegar nela ficam inclusive melhor ilustradas com as cada vez mais complexas relações que, por sua vez, têm os governos da Arábia Saudita e da Turquia. Unidos, ao menos até agora, em demanda de que Bashar al Assad abandone o poder na Síria, discrepam no caso do Egito.

Enquanto Riyadh ajuda o regime militar egípcio com milhares de milhões de dólares, Erdogan exige o regresso do derrubado presidente Mohammad Morsi e o fim da repressão contra a Irmandade Muçulmana, movimento transnacional considerado uma mortal ameaça pelas monarquias da região.

E enquanto Riyadh e sus aliados no Golfo estão cada vez mais preocupados com a distensão entre os Estados Unidos e o Irã, a Turquia parece ter a esperança de poder retomar a pleno seus laços comerciais com seu vizinho do leste.

O Oriente Médio ingressa em uma era de multipolaridade, onde a maioria das mudanças são impulsionadas por forças internas. “O simples mundo das rivalidades coloniais das superpotências se desvaneceu há tempo”, disse Freeman.

“O conceito de que se está ‘conosco ou contra nós’ perdeu toda o significado no Oriente Médio atual. Nenhum governo da região está disposto hoje a confiar seu futuro a estrangeiros, muito menos a uma única potência estrangeira”, afirmou.”

FONTE: escrito por Jim Lobe. O seu blog, em inglês, sobre política exterior dos Estados Unidos, pode ser lido em Lobelog.com. Segundo o "Wikipedia": "James R. Lobe (born January 4, 1949 in Seattle, Washington) is an American journalist and the Washington Bureau Chief of the international news agency Inter Press Service. He has also written for Foreign Policy In Focus, Oneworld.net, Alternet, TomPaine.com, Asia Times, and other internet news publications. Lobe is best known for his criticism of U.S. foreign policy, American militarism, critic of anti-Semitism, with a particular focus on the neo-conservatives, their worldview, their relationship to other political tendencies, and their influence in the Bush administration". 

NEVOEIRO ESTRATÉGICO NO MUNDO

Ida
Volta

Por Rubens Ricupero [no jornal da direita, pró-EUA e Israel, "Folha de São Paulo"]

"Faz quase 25 anos que o vazio criado pelo fim do antagonismo entre EUA e URSS não é preenchido.

Nunca foi tão difícil como hoje captar a essência que define a política internacional. O ano próximo assinala não só um século da Primeira Guerra Mundial, mas 25 anos da queda do muro de Berlim e início do fim do comunismo.

Entre 1914 e 1989, jamais se teve dúvida sobre qual era o jogo estratégico dominante, ou a respeito da identidade dos principais adversários de cada lado. Quando as guerras mundiais não ocupavam esses anos, uma trégua precária e sinistra antecipava o conflito seguinte.

Faz quase um quarto de século que o vazio criado pelo desaparecimento do antagonismo entre EUA e União Soviética não consegue ser preenchido por nada permanente.

O ideal, é claro, seria que a colaboração para fortalecer as Nações Unidas e resolver os problemas globais do clima e da miséria substituísse em definitivo os conflitos do passado.

Como a consciência moral da humanidade está longe desse nível, o que temos visto é a disputa entre dois conflitos para definir a agenda dos grandes problemas internacionais. Aquele que vem dominando até agora é o choque entre o Ocidente e o fundamentalismo islâmico.

Os problemas do Oriente Médio, que sob a forma da primeira guerra do Golfo tinham se apoderado do centro do palco antes até da morte formal da URSS (31/12/1991), ganharam o componente novo do fundamentalismo religioso depois dos atentados de 11 de Setembro. A partir de então, [sob esse pretexto talvez até planejado] os EUA vivem no Afeganistão, Iraque, Iêmen, em qualquer refúgio de "terroristas" [assim são denominados todos que lutam contra as invasões e interesses norte-americanos]. Essa guerra já dura 12 anos, o dobro da Segunda Guerra Mundial!

O desígnio de Obama era libertar-se dessas guerras e transferir o eixo estratégico para a Ásia do Leste e o entorno da China. Lá é que se concentraria cada vez mais o crescimento econômico e de população; nessa área é que os americanos julgavam necessário conter o poderio chinês e tranquilizar os vizinhos assustados com a ascensão do antigo 'Império do Meio'.

As precondições para a chamada 'política do pivô' sair do papel, porém, não se realizaram. A primeira consistia na plena recuperação da economia dos EUA, o que, com desemprego acima de 7%, obviamente não se concretizou, apesar das melhoras. As duas condições seguintes se frustraram ao fracassarem a missão do senador Mitchell junto a palestinos e israelenses assim como a de Holbrooke no Paquistão-Afeganistão.

Não só essas feridas permanecem abertas. Outras novas supuraram: o caos na Líbia, o fracasso da Primavera Árabe no Egito, a carnificina na Síria, da qual Obama foi salvo por um triz pela malícia de Putin.

Nessa região, avanços num setor criam complicações em outros. Israel não confia nas negociações com o Irã; a Arábia Saudita não se conforma com o adiamento do ataque à Síria; a Turquia compra sistema antibalístico dos chineses!

Com tais aliados e desafios, é difícil crer num desengajamento próximo dos americanos no Oriente Médio. O panorama estratégico se parece aos versos do poema de Fernando Pessoa: "Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro." Cada vez mais, o mundo está envolto em nevoeiro.”

FONTE: escrito por Rubens Ricupero e publicado na "Folha de São Paulo"  (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/136181-nevoeiro-estrategico.shtml). [Imagens do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

“REVIRAVOLTA” NAS RUAS FORTALECE DILMA PARA 2014

                                Em 2014, celebrando a Copa?

Por Luiz Carlos Azenha

"Quatro meses se passaram desde o início das grandes manifestações de junho. Uma eternidade na política. Dilma Rousseff termina 2013 fortalecida. O "Movimento Passe Livre" (MPL), estopim dos protestos que acabaram mirando não só, mas também a presidente, está enfraquecido.

Dilma reagiu, mas,
como escreveu Maria Inês Nassif, também contou com circunstâncias sobre as quais não tinha controle. A reação corporativa ao "Mais Médicos", por exemplo, suscitou um debate nacional que acabou ajudando a legitimar o programa emergencial. A oposição atacou, falando em "improviso", depois de 10 anos do PT no poder, mas na célebre frase recém-lembrada por um governista, para quem recebe atendimento dos médicos cubanos não importa a cor do gato, desde que cace o rato (a frase foi usada durante o debate sobre o leilão de Libra, onde a cor do gato realmente não importa, mas para onde ele leva o rato).

O povo na rua mexeu com as instituições, mas desde então o foco da mídia, especialmente a televisiva, se concentrou no espetáculo dos "confrontos" associados à tática black bloc. Não é por acaso que, segundo pesquisa "Datafolha", 95% dos paulistanos rejeitam hoje a ação dos mascarados. A selvageria contra o coronel Reynaldo Simões Rossi, em São Paulo, na noite de sexta-feira, acabará respingando no MPL por associação. Ainda que involuntariamente, a tática black bloc fez com os movimentos sociais o que nem
o famoso "assassinato dos laranjais" pelo MST, numa fazenda do interior de São Paulo, em 2009, conseguiu, pelo menos em parte significativa da opinião pública: provocar ojeriza aos protestos. Ponto para a modernização conservadora.

Antes do leilão de Libra e de viajar para a África, o ex-presidente Lula condenou a ação black bloc. No dia do leilão, dada a enormidade do que estava em jogo, havia pouca gente nas ruas do Rio. A cobertura da mídia focou nos que se moviam protegidos por escudos em direção ao hotel-sede da partilha do pré-sal. As imagens que dominaram a cobertura foram as dos enfrentamentos. Não houve tempo na mídia para o debate do que estava em jogo. Nem antes, nem durante, nem depois. Ponto para a presidente Dilma, que ocupou o centro, a voz da razão, entre a Força Nacional e os mascarados.

Dado o que a grande mídia mostrou das ruas nos últimos quatro meses, Dilma representa hoje, mais do que nunca, a mudança lenta, gradual e segura que agrada à base social do lulismo, na definição de André Singer. "Mudança na qual se pode confiar", parafraseando o slogan de campanha de Barack Obama. É justamente esta base, garantidora do sucesso eleitoral contínuo da coalizão governista, o foco do "Mais Médicos" e de outras medidas tomadas pelo Planalto nos últimos meses. Ela não é de "esquerda", nem mesmo "petista". É entre ela e a tradicional base do partido nos sindicatos e movimentos sociais que Dilma se move.

Dilma recolheu dividendos políticos e eleitorais, mesmo do leilão de Libra, onde sofreu críticas à esquerda:

1. Adeus às capas da "Economist" e às críticas do "Financial Times". Os investidores estrangeiros queriam mais, muito mais — é só ler a mídia tradicional para saber quanto –, mas com a anglo-holandesa Shell firmemente instalada em Libra também para eles, Dilma representa alguém que "deliver", ou seja, com a qual é possível fazer negócios com segurança e previsibilidade. Num quadro de crise econômica e de domínio das estatais sobre as reservas de petróleo, são raríssimas as oportunidades como a que se abriu no Brasil.

2. O Planalto foi muito hábil ao apresentar, em rede nacional de TV, os resultados do leilão. O discurso de Dilma foi escrito de tal forma a comunicar aos brasileiros que, se não tivesse havido o leilão, eles não teriam acesso a todos aqueles benefícios bilionários do pré-sal. Em resumo: sem leilão, sem dinheiro. Riqueza enterrada para sempre nas profundezas do mar. O brilhantismo da tática é que ela legitima todos os próximos leilões do petróleo. Serão — os leilões, não o pré-sal em si — a fonte de nossa riqueza. Ela não virá das ruas — de onde só podemos esperar os "malditos" mascarados — mas da firmeza presidencial, que paira sobre os conflitos e nos traz resultados práticos. A disputa privatistas x não privatistas, que marcou 2010, é coisa do passado. Amaury Ribeiro Jr. vai morrer de fome se depender do "Privataria Tucana 2". Agora, a disputa é entre quem está capacitado ou não para nos proporcionar a riqueza do pré-sal. Ponto para Dilma.

3. Ao adotar o discurso do "razoável", Dilma negou aos adversários o espaço político onde as eleições são decididas no Brasil: o centro. De tal forma que levou Aécio Neves, do PSDB, aquele partido que vendeu a Vale [por tostões] e acabou com o monopólio do petróleo, a adotar um discurso eleitoralmente pouco plausível por vir de quem vem:
"Aécio Neves defende a reestatização da Petrobras

O senador Aécio Neves defendeu, na terça-feira, em Brasília, a reestatização da Petrobras. A declaração foi dada no seminário promovido pelo PSDB para discutir a situação da empresa. Aécio Neves destacou que a Petrobras foi partidarizada e aparelhada pelo governo do PT nos últimos dez anos, acarretando perda de eficiência e de competitividade à empresa e prejuízos ao Brasil. "Não vamos permitir que o Brasil continue iludido pelo ufanismo da propaganda oficial. Estamos assistindo, ao longo dos últimos dez anos, uma perda enorme de competitividade da empresa. É preciso que alertemos o Brasil das consequências perversas no valor da Petrobras, que atinge de 55 mil trabalhadores que investiram em suas ações e perderam metade do valor".


4. Se havia dúvidas quanto à solidez da aliança PT-PMDB, elas foram desfeitas. A parceria com o Centrão do senador José Sarney — representada pelo ministro Edison Lobão — segue firme e forte, especialmente em torno do setor de energia, dominado por grandes financiadores de campanha: empreiteiras, mineradoras, fabricantes de turbinas, empresas de serviços ligadas à exploração do petróleo. É "mudança na qual se pode confiar" em torno de grandes projetos de infraestrutura que rendem bilhões e bilhões de reais.

5. Com o sinal de que o Brasil está aberto aos negócios, Dilma foge do figurino de "estatista" que se tenta colar nela e ajuda a incorporar à base tradicional do PT setores de classe média que poderiam gravitar em direção a Eduardo Campos e, na prática, funcionam como contrapeso na coalizão governista ao sindicalismo e aos movimentos sociais. É o fenômeno que explica o fato de gente que nunca militou no PT, nem tem relação com a história do partido, hoje se colocar na posição de acusar os petroleiros — logo os petroleiros! — de corporativistas e oportunistas. Dilma, feito Lula, faz a arbitragem interna dessa disputa expandida. É a mediadora. O senso comum nem sempre está certo, muitas vezes encobre a verdade, mas, nos debates superficiais e ligeiros da Era das Redes Sociais, é uma poderosa ferramenta eleitoral.

Quatro meses se passaram desde o início das manifestações que chacoalharam a cena política brasileira. Se Dilma ainda não recuperou totalmente a popularidade que tinha antes, parece a caminho. A campanha de 2014 será dura, com o antipetismo reforçado pela adesão de Eduardo Campos. Mas o grande risco para Dilma, que era o retorno de manifestações populares antes e durante a Copa do Mundo, parece definitivamente afastado. 
Desmoralizado.

Quanto às disputas internas no PT, não há nada que uma vitória eleitoral não consiga resolver."

FONTE: escrito pelo jornalista Luiz Carlos Azenha em seu portal "Viomundo"  (http://www.viomundo.com.br/politica/reviravolta-nas-ruas-fortalece-dilma-para-2014.html).

FERROVIA NORTE-SUL: FHC vs 'LULILMA'


 


















Fernando Brito responde, desde já, à campanha eleitoral das "obras inacabadas".

Como se sabe, nos bons tempos do
Príncipe da Privataria, era o FMI quem dizia qual obra era "adequada" e qual não era.

Obra de saneamento ou construir metrô, por exemplo, o FMI não deixou o FHC fazer e o FHC tirou os sapatos.

Não é isso, governador Alckmin? –
clique aqui para ir ao vídeo em que a Dilma lembra daquele momento de glória do PSDB (como é que ele vai governar ?).

Por isso, amigo navegante, é imprescindível ir ao post do "Tijolaço", que coloca os trilhos nos "is" da Norte-Sul, antes que o "Fantástico" faça
uma daquelas lambanças que fez no rio São Francisco:

 
"A EFICIÊNCIA DA INÉRCIA

Caro e raro leitor deste blog, poderia auxiliar-me citando uma obra "estruturante" de vulto construída nos governos Fernando Henrique? Não lembra?

Espiche a memória para o período Itamar, Collor, Sarney…

Ah, neste aí houve a Ferrovia Norte-Sul…

Houve, nada…

Só dez anos depois, já no período FHC, completou-se o primeiro trecho da obra, de apenas 215 km, de Açailândia a Porto Franco. Lula, sozinho, fez mais 550 km até Palmas e Dilma está fazendo mais 1.536 km, entre a capital do Tocantins e Anápolis (90% de 881 km concluídos) e daí a Estrela d´Oeste, em São Paulo, onde as obras estão com 45% de realização.

Menciono esse caso porque, não tenham dúvidas, esse será um dos pontos mais explorados pela mídia, daqui até as eleições: obras atrasadas, por conta de uma pretensa "incapacidade do governo".

 Mas também poderia falar de rodovias, refinarias, obras portuárias, energia elétrica, construção naval…

Os competentíssimos administradores [demotucanos] que não fizeram nada vão encher a boca para falar da incompetência da administração, numa conversa recorrente que vem desde sempre.

Claro que se vai pinçar, aqui e ali, situações de atrasos, impasses e até má execução. Numa simples reforma doméstica, quantas vezes a gente não tem de agir para resolver algo que está encruado ou foi feito de maneira errada?

Mas os mesmos que não fizeram coisa alguma, senão vender – e mal – o que este país já havia feito em matéria de infraestrutura, vão encher a boca para dizer que "está muito lento" o que eles nem sequer começaram.

Quem não faz nada, nunca está atrasado, não é?

Até em situações obviamente demoradas, como a exploração de um petróleo que está sete quilômetros abaixo do nível do mar, não cansam de dizer que isso "só será para daqui a cinco ou seis anos". Não importa que, no mundo, a média de prazo para a produção, em condições parecidas, leve uma década para se iniciar, por cara e complexa que é.

Claro que isso vai ter pouca eficácia, porque, mesmo com problemas, a grande maioria dos projetos está madura e, dentro em pouco, poderão ser entregues, total ou parcialmente.

E aí a crítica será às "inaugurações eleitoreiras".

Atropelados pela realidade, os nossos "engenheiros de obras não-feitas" vão reclamar sempre.

Mas vão ter de murchar as orelhas, como já andam tendo de fazer com as "obras da Copa que não vão ficar prontas".

E aí, sem outra alternativa, vão ter de apelar para os black blocs.
Os das máscaras negras, da tela colorida e do papel pintado."
 
Clique aqui para ler "Dudu desmonta a partilha. E prega ‘pau nos juros’ !".
E
aqui para ler "A fraude da ‘nova política’. O PSB e PSDB vão governar ?". 

FONTE: escrito por Fernando Brito no blog "Tijolaço" e transcrito e comentado no portal "Conversa Afiada"  (
http://www.conversaafiada.com.br/economia/2013/10/27/ferrovia-norte-sul-fhc-vs-lulilma/).

OS PRIMEIROS ENSAIOS DAS ELEIÇÕES DE 2014



Por Luis Nassif

"A última pesquisa Ibope traz algumas informações que devem ser relativizadas e outras são relevantes.

No primeiro grupo, os índices de aprovação dos novos candidatos em comparação com os que participaram de eleições presidenciais. Políticos como José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva são mais conhecidos do que Aécio Neves e Eduardo Campos.

Mesmo assim, chamam a atenção as seguintes conclusões:

1. Na pesquisa espontânea (na qual os pesquisados indicam seu candidato espontaneamente), Dilma recebeu 21% das indicações, Aécio 5%, acima dos 4% de Serra, dos 2% de Campos e abaixo dos 6% de Marina.

2. Entre eleitores com ensino superior, Dilma cai para 15%, Marina sobe para 11%, Aécio vai para 7%, acima dos 5% de Serra e dos 3% de Campos.

3. É curioso avaliar o desempenho de Serra no extrato superior e no extrato inferior de renda. No superior, fica com 4%, atrás dos 17% de Dilma, 10% de Marina e Aécio. No extrato inferior, cai para 2%, contra 33% de Dilma, 3% de Campos, 3% de Marina a 0% de Aécio.

No caso da pesquisa dirigida (aquela em que o entrevistado recebe uma cartela com nomes de candidatos), Dilma Rousseff reina absoluta em qualquer cenário. Tem 41% de preferência em um cenário com Marina (22%), Aécio (14%) e Campos (10%). E com expressivos 22% de brancos e nulos.

Sem Marina, Dilma mantém os 41% contra 14% de Aécio e 10% de Campos. E os mesmos 22% de brancos e nulos. Entrando Marina no lugar de Campos, Dilma cai levemente para 39%, Marina vai para 21% e Aécio para 13%.

Dilma mantém 40% em um confronto com Serra (18%) e Campos (10%).

Mas o ponto central de análise é a taxa de rejeição. É ela que determina o teto de cada candidato.

Três candidatos ficam na faixa de 40% de rejeição – Aécio com 40%, Dilma com 38% e Campos com 39%. Serra salta para expressivos 47% e Marina cai para cômodos 31%.

À medida que os candidatos se tornem mais conhecidos e a batalha, mais acirrada, haverá aumento da taxa de rejeição dos demais.

Nas eleições, os candidatos não constroem a imagem de forma homogênea. Nas classes de menor renda, sobressaem as impressões sobre cada candidato, sua capacidade de se mostrar mais ou menos solidário com os mais pobres.

Fica evidente nas pesquisas a dificuldade do PSDB em desenvolver um discurso minimamente atraente para essas faixas. Mas é curioso que o discurso ecológico de Marina – visando aos leitores de média e alta renda – é mais forte do que sua origem humilde – que poderia provocar alguma identificação nos eleitores de menor renda. Decididamente, até agora eles não parecem se identificar com ela.

Há uma faixa de formação de imagem que passa pelo discurso político, pela visão programática. Nesse campo, Dilma se alicerça no discurso social do PT e do lulismo. E Marina herdou o contraponto do discurso neoliberal – que está migrando rapidamente do PSDB para ela.


Aécio e Campos são candidatos ainda à procura do discurso.

Aécio teria algumas boas experiências mineiras para mostrar. Mas parece preso a um invencível sentimento de inferioridade em relação ao núcleo paulista do PSDB – que oscila entre o discurso vazio de FHC e o fundamentalismo de Serra."

FONTE: escrito pelo jornalista Luis Nassif e publicado no "Jornal GGN" 
  (http://jornalggn.com.br/noticia/os-primeiros-ensaios-das-eleicoes-de-2014).

Elio Gaspari: TRENSALÃO DO PSDB ULTRAPASSA DE LONGE MENSALÃO DO PT


"Elio Gaspari arriscou-se a dar uma sopradinha mais forte no trombone. Em sua coluna dominical, publicada nos dois jornais [tucanos] de maior circulação no país (Folha e Globo), encontrei a seguinte nota, de potencial altamente explosivo:

"ALSTOM

Ou o tucanato paulista tem uma estratégia capaz de causar inveja ao comissariado petista que pretende livrar seus caciques das penitenciárias pelo mensalão, ou está numa tática suicida, jogando o escândalo do propinoduto denunciado pela Siemens para dentro da campanha eleitoral do ano que vem.

Pelas provas, depoimentos e cifras, esse caso ultrapassa, de longe, o mensalão. Ali não há "domínio do fato" [ilações, depreensões, palpites], o que há são fatos dominantes."


Bem, se o trensalão "ultrapassa, de longe, o mensalão", como diz Gaspari (e eu concordo), teríamos de ver o seguinte:

1) O Ministério Público Federal teria de publicar em seu portal uma "historinha para crianças" sobre o trensalão igual àquela que fez para o mensalão petista.

2) Os jornais deveriam escalar a mesma quantidade de repórteres que usaram no mensalão para sondar os bastidores das campanhas tucanas abastecidas com dinheiro do trensalão.

3) A quantidade de editoriais sobre o trensalão, e suas implicações morais, teria que ser multiplicada por cem para chegar perto do [que fizeram no] mensalão.

4) Os jornais têm de publicar enormes infográficos, a ocupar páginas inteiras dos jornais, trazendo os rostos de todos os implicados no trensalão tucano.

5) Chico Caruso, chargista d’O Globo, teria que fazer umas duzentas charges sobre o trensalão.

6) Os movimentos anticorrupção, sobretudo no Facebook, têm que começar a fazer pressão nas autoridades, para que o trensalão chegue à cúpula do poder e aos financiamentos de campanha.

7) Os ministros do STF deitarão discursos raivosos e épicos sobre o trensalão, dizendo que se trata do "maior escândalo de corrupção da república". E que, à diferença do mensalão, não há necessidade de se usar nenhuma teoria do "domínio do fato", porque há provas abundantes.

8) Ex-ministros do STF, como Ayres Brito, e ex-procuradores gerais da república, como Antônio Fernando de Souza e Roberto Gurgel, que atuaram de maneira tão virulenta no mensalão, darão entrevistas dizendo que o trensalão tucano é um caso muito pior, porque há provas, emails, depoimentos, além de investigação internacional em curso.

9) Roberto Freire denunciará essa "ignomínia" e dirá que o PPS se decepcionou profundamente com o PSDB paulista, que achava ser um grande bastião da ética.

Eremildo, o idiota criado por Gaspari, acredita piamente que tudo isso pode acontecer."

FONTE: postado por Miguel do Rosário no blog "Tijolaço"     (
http://tijolaco.com.br/index.php/gaspari-trensalao-ultrapassa-de-longe-mensalao/).
 [Título modificado e trechos entre colchetes adicionados por este blog 'democracia&política'].