sexta-feira, 2 de março de 2012

TSUMANI MONETÁRIO ATINGE O BRASIL

Em cerimônia no Palácio do Planalto, presidenta Dilma afirmou que países desenvolvidos vivem "tsunami monetário”, e lamenta guerra cambial (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

PRESIDENTA DILMA LAMENTA GUERRA CAMBIAL E POLÍTICA MONETÁRIA EXPANSIONISTA DOS PAÍSES DESENVOLVIDOS

“A presidenta Dilma Rousseff afirmou ontem (1º) que os países desenvolvidos estão recorrendo a uma política monetária “inconsequente” para sair da crise, o que cria condições desiguais de concorrência no mercado internacional. Segundo ela, as medidas adotadas são “perversas” para os países emergentes que enfrentam uma guerra cambial baseada na política monetária expansionista usada pelos países em crise.

É por isso que nós nos preocupamos, sim, com esse tsunami monetário dos países desenvolvidos que não usam políticas fiscais de ampliação da capacidade de investimento para sair da crise em que estão metidos.

Nós sabemos que, hoje, as condições de concorrência são adversas, não porque a indústria brasileira não seja produtiva, mas porque há guerra cambial baseada numa política monetária expansionista que cria condições desiguais de concorrência”, disse a presidenta em cerimônia no Palácio do Planalto.

Ela acrescentou que o governo vai defender a indústria brasileira e criar condições para que o mercado interno continue em crescimento.

Nós vamos continuar desenvolvendo este país, defendendo a indústria, impedindo que os métodos de saída da crise dos países desenvolvidos impliquem na canibalização dos mercados dos países emergentes, ao mesmo tempo assegurando que nosso mercado interno, nosso mercado de massa cresça, mas qualitativamente.”

FONTE: Blog do Planalto  (http://blog.planalto.gov.br/presidenta-dilma-lamenta-guerra-cambial-e-politica-monetaria-expansionista-dos-paises-desenvolvidos/)

AINDA O PROBLEMA DO CÂMBIO VALORIZADO!


“Sucessivos governos pouco ou quase nada têm feito para intervir no câmbio, sob o medo da reação do “mercado”. Com isso, não são apenas as nossas contas externas que vão para a cucuia. Isso representa perda de competitividade de nossas exportações de manufaturados no exterior e aumento mais do que proporcional de importações desse tipo de produto.

Por Paulo Kliass

Não são poucas as vezes em que os agentes econômicos atuam e operam segundo normas ditadas por fenômenos semelhantes ao que poderíamos qualificar de “inconsciente coletivo”. Fixam-se metas, estabelecem-se barreiras, atingem-se cifras carregadas de um simbolismo que, no-fundo-no-fundo, pouco significam. Mas a vida continua seguindo em frente.

Na verdade, são consensos construídos de forma bastante arbitrária e muitas vezes de maneira casuística. Na sequência, o enredo pressupõe o acompanhamento da evolução do cenário, para saber como o experimento caminhou. Superávit primário superior a 3%. Desemprego inferior a 10%. Valor das exportações superior a US$ 100 bilhões. São números cabalísticos, mas que ajudam a sociedade a criar uma imagem de si mesma (positiva ou negativa, segundo o desempenho observado) e de sua trajetória na seara econômica.

No momento atual, um dos nós da política econômica refere-se ao já bem conhecido “problema do câmbio valorizado”. De tão falado e de tão prejudicial para a economia real, o fenômeno já ganha até nome no noticiário da grande imprensa. Aliás, dado que sua existência não passa nem mesmo a ser questionada pela maioria dos analistas, a passividade com que o governo tem tratado a questão há mais de uma década ganha áreas de acompanhamento de um campeonato, onde a luz do “perigo” ganha evidência a partir de alguns valores atingidos. Agora, o risco é que a taxa de câmbio ameace ficar abaixo da marca de R$ 1,70 por dólar norte-americano. Essa é a barreira a ser acompanhada no momento. Mas é bom lembrarmos que ela já esteve em condições ainda piores, próxima de R$ 1,50. E que tornou a subir, tendo atingido R$ 1,90 há pouco tempo.

Mas, afinal de contas, o que esse comportamento de gangorra tem a ver com a economia brasileira concreta e quais suas consequências para a maioria da população? O risco de nos determos apenas nesse “sobe-e-desce” do acompanhamento cotidiano da taxa de câmbio é perdermos de vista o processo como um todo. E a avaliação do fenômeno a partir de uma abordagem mais abrangente nos evidencia que o câmbio brasileiro está, efetivamente, supervalorizado. Quanto a isso, parece não haver a menor dúvida!

EXEMPLOS DO REAL SOBREVALORIZADO

Nossa moeda está dentre as que mais se valorizaram no mundo diante da moeda norte-americana e das demais moedas fortes nos últimos tempos. E para escapar aos números cabalísticos propostos para tentar definir uma taxa de câmbio “ideal”, vamos permanecer apenas face aos fenômenos econômicos que comprovam a valorização.

A conhecida elaboração do índice de um famoso sanduíche de uma rede de ‘fast food’ de implantação global (e assim, ao não dar nome aos bois, me iludo achando que não faço propaganda gratuita por aqui...) mostrou que a referida mercadoria produzida no Brasil está entre as mais caras do mundo, perdendo apenas para alguns dos países escandinavos. Realmente, algo deve estar fora de equilíbrio. Pois nesse cálculo o que mais pesa é mão-de-obra, aluguel, eletricidade, farinha de trigo, carne, queijo e outros itens. E São Paulo fica mais caro que Paris, Londres e Nova Iorque! No mínimo, muito estranho. Alguma coisa deve estar errada.

Os valores relativos ao número de viagens e às despesas dos turistas brasileiros no exterior seguem batendo recordes, seguidos de novos recordes. Em 2011, esses gastos lá fora alcançaram US$ 21,2 bilhões. Isso significou uma alta de quase 30% sobre os US$ 16,4 bilhões totalizados em 2010. Fazendo as contas na ponta do lápis, chega-se à conclusão que fica mais barato viajar para o exterior do que para os tradicionais pontos de destino nacionais. E as malas voltam abarrotadas de compras, na maior parte das vezes de supérfluos. Compra-se porque está barato, e não por necessidade. E a Polícia Federal bate recordes sucessivos, também na retenção de bagagens irregulares nos desembarques internacionais dos aeroportos.

Os valores de nossas importações totais atingiram US$ 226 bilhões em 2011, um crescimento de quase 25% sobre o ano anterior. Ou seja, o ritmo das compras externas segue mais ou menos o mesmo das exportações, que cresceram 26% no mesmo período, tendo atingido o total de US$ 256 bilhões ao longo do ano passado. Assim, em tese, a situação não seria preocupante, pois a Balança Comercial registra saldo superavitário anual de quase US$ 30 bilhões.

Porém, o dado preocupante surge quando são incorporados ao cálculo os resultados das contas financeiras nas transações internacionais. E aí surge o famoso resultado do Balanço de Pagamentos. Nesse caso, 2011 foi também um ano muito especial. O Brasil atingiu o maior déficit em Conta Corrente de sua história, no valor de US$ 52 bilhões. Ou seja, isso significa que, não obstante o bom resultado no balanço de mercadorias, o Brasil ainda remete para o exterior valores perigosamente superiores aos que para cá se destinam. Assim, as principais saídas referem-se a remessas de juros, lucros e aluguéis. Em 2011, esse déficit nas contas externas representou 2,2 % do PIB.

Ora, esse conjunto de informações parece ser mais do que suficiente para caracterizar quadro de desequilíbrio no setor externo. Está mais “barato” comprar lá fora do que produzir aqui dentro. E isso tudo pode ser sintetizado na taxa de câmbio, a relação da moeda brasileira na sua relação com a principal moeda internacional, o dólar estadunidense.

“LIBERDADE” CAMBIAL DESDE O PLANO REAL

A causa de tal desajuste tem sua origem ainda no Plano Real. Em 1994, a adoção do importante plano de combate à inflação incorporou um perigoso pressuposto de “liberdade cambial”. De acordo com o diagnóstico da época, o governo deveria se preocupar com as metas de inflação e de superávit primário. O câmbio seria obtido, de forma praticamente “natural”, como resultado de ação das “livres forças de mercado”.

No entanto, como todo o esforço estava sendo feito para atrair capitais externos, o principal atrativo passou a ser a taxa oficial de juros – a SELIC. Que começou sua curva de ascensão para tornar-se o maior índice de remuneração do planeta. Ora, diante de um quadro como esse, o capital especulativo internacional começou a migrar em larga escala para nossas praias, em busca de tal rentabilidade extraordinária.

A entrada desses recursos externos voláteis e de curto prazo começou a pressionar o mercado interno de divisas. Uma vez aqui dentro, o capital externo se converte em moeda nacional para operar no mercado interno. E esse movimento leva à valorização de nossa taxa de câmbio. Uma oferta excessiva de dólares provoca queda no preço, ou seja, baixa na cotação da moeda norte-americana aqui no nosso mercado. E isso significa alta na cotação de nosso real e uma taxa de câmbio artificialmente valorizada.

Os sucessivos governos têm demonstrado enorme receio em alterar esse quadro. Pouco ou quase nada fazem para intervir no câmbio, sob o medo da reação do “mercado”. E com isso, não são apenas as nossas contas externas que vão para a cucuia. Isso representa perda de competitividade de nossas exportações de manufaturados no exterior e aumento mais do que proporcional de importações desse tipo de produto. Em síntese, assiste-se à marcha da desindustrialização de forma irresponsavelmente passiva. São empregos e renda que o Brasil exporta, deixando de gerar aqui dentro o que importa do resto do mundo, em especial da China.

CONTROLAR E TRIBUTAR O CAPITAL ESPECULATIVO

O governo tem instrumentos à mão. Falta, como sempre, optar por aquilo que considera efetivamente prioritário. No caso, basta aumentar a tributação sobre a massa de capital especulativo. A incidência atual de impostos é insuficiente para desencorajar os operadores internacionais. Aplicar na rentabilidade extraordinária oferecida por um ambiente econômico balizado pela SELIC elevada continua sendo uma festa. E ainda mais depois que Estados Unidos e Europa estão inundando o mercado internacional com trilhões de novos recursos, na tentativa de enfrentar as respectivas crises. O Brasil permanece sendo um porto generosamente atrativo. Enquanto as coisas continuarem assim, o nosso câmbio continuará nesse processo de valorização.

E não é apenas esse tipo de operação que ocorre, não! Muitas empresas brasileiras (inclusive as poderosas estatais) estão indo buscar empréstimos lá fora, a taxas de juros próximas de 0%. Trazem esse recurso para cá, obtêm elevadíssimos retornos aplicando no nosso mercado financeiro e depois vão lá saldar seu principal. São, portanto, uma força poderosa a travar a desvalorização cambial, pois teriam que desembolsar mais reais na hora de quitar a dívida em dólar.

É necessário impor medidas de controle desse capital especulativo para que a decisão de aplicar seu recurso aqui seja apenas para quem tenha interesse de permanecer por um tempo mais longo e com interesse no setor real da economia. Isso significa mais tributo e exigência de carência mínima para o tempo de permanência, uma vez o capital aqui ingressado. Com menos recursos dessa natureza, será menor a pressão sobre o mercado cambial. E a taxa de câmbio deixará de apresentar uma cotação artificial. Nossa moeda se desvalorizará perante o dólar, encontrando uma posição mais “realista”, reflexo real da nossa situação externa e da competitividade de nossa economia.

Assim, talvez a divulgação de números fatídicos percam um pouco a sua capacidade de gerar receios desnecessários. “A taxa de câmbio ameaça ficar abaixo de R$ 1,70”. Esse tipo de manchete poderia ser facilmente substituída por outras falando a respeito do aumento nas exportações, da redução no déficit em conta corrente, da queda na SELIC, da redução no ritmo da desindustrialização e outros fatos positivos correlatos. Tudo isso tem seu custo, é claro. As importações ficariam realisticamente mais caras, parcela da classe média deixaria de passar suas férias em Miami, o mercado imobiliário da Flórida voltaria a sentir um pouco a ausência dos nossos compatriotas que por lá especulam.

Mas a economia brasileira e a maioria de sua população sentiriam os benefícios de um crescimento sustentável. A decisão é simples: tributar e controlar o capital especulativo para desvalorizar o câmbio. As medidas estão ao alcance da mão do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Que venha a decisão de governo! O País agradecerá.”

FONTE: escrito por Paulo Kliass, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal, e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10. Artigo publicado no site “Carta Maior”  (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5497) [Imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

ENTREGA DE GÁS PELA PETROBRAS: RECORDES ANUAL, MENSAL E DIÁRIO


“A Petrobras bateu novo recorde na entrega de gás natural ao mercado, em 2011, alcançando vazão anual de 37 milhões de metros cúbicos por dia de gás ofertado. Registrou, também, novos recordes mensal e diário: no mês de dezembro de 2011, a vazão ofertada alcançou a marca de 42,4 milhões de m3/dia; e no dia 23 desse mesmo mês, foram ofertados 46,1 milhões de m3.

O expressivo crescimento da oferta de gás nacional observado nos últimos anos é fruto de uma série de investimentos realizados no desenvolvimento de projetos de produção de gás natural, por meio do “Plano de Antecipação da Produção de Gás” (PLANGÁS). No âmbito do programa, vários novos campos começaram a produzir desde 2008 nas Bacias do Espírito Santo, de Campos e de Santos, com destaque aos campos de gás não associado de ‘Canapu” e “Camarupim”.

A significativa elevação da oferta de gás natural em 2011 foi possível graças à entrada em produção dos campos de “Mexilhão”, “Uruguá” e “Tambaú”, na Bacia de Santos, bem como ao início das operações da Unidade de Tratamento de Gás de Caraguatatuba e do Gasoduto Caraguatatuba-Taubaté, no Estado de São Paulo. Também na Bacia de Santos, teve destaque o início do aproveitamento do gás do pré-sal, com o escoamento da produção do “campo de Lula”.

Além do PLANGÁS, dois outros fatores foram de fundamental importância para os recordes observados: o êxito do “Programa de Otimização do Aproveitamento de Gás Natural” (POAG), que tem permitido melhorar o desempenho das unidades operacionais das regiões Sul e Sudeste, e o incremento da entrega de gás para geração termoelétrica na Região Norte.

RECORDE EM APROVEITAMENTE DE GÁS NATURAL

O aproveitamento do gás natural que é produzido junto com o petróleo nas plataformas da Petrobras atingiu a marca recorde de 89,2%, em 2011. Se somada à produção dos campos exclusivos de gás, essa marca alcança o recorde de 92% sobre a produção total de gás da Companhia.

Esse resultado é o melhor alcançado pela Petrobras desde 2004, quando o aproveitamento do gás associado ao petróleo chegou a 87,8%, e é consequência dos esforços empreendidos, principalmente, pelo “Programa de Otimização do Aproveitamento de Gás 2015” (POAG-2015), iniciado no 1º trimestre de 2010. O objetivo desse programa é elevar o “Índice de Utilização de Gás Associado da Companhia”, no Brasil, dos 79,1% obtidos em 2009, para 95% em 2015.

O Programa foi planejado ao longo de 2009, com foco nas regiões Sul e Sudeste, embora as regiões Norte e Nordeste também tenham contribuído para os resultados alcançados. O POAG foi criado para reduzir a emissão de gases de efeito estufa e atender às expectativas dos órgãos reguladores e da sociedade quanto à queima de gás natural, além de aumentar o aproveitamento do gás produzido e a eficiência energética da Petrobras.”

FONTE: blog “Fatos e Dados”, da Petrobras  (http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2012/03/01/entrega-de-gas-recordes-anual-mensal-e-diario/#more-51077) [Imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

IDEIAS SOBRE A INTEGRAÇÃO ECONÔMICA DA AMÉRICA DO SUL


“De modo geral, parece existir consenso de que o processo de integração econômica da América do Sul tende a avançar de forma consistente nos próximos anos. Essa expectativa otimista é resultante direta da atual crise do neoliberalismo e da recente ascensão de governos progressistas, desenvolvimentistas e de esquerdas na região. Apesar dos obstáculos, este é o momento de aproveitar as oportunidades e aprofundar as políticas integracionistas.

Por Luciano Wexell Severo

Entendemos que a integração econômica estaria sustentada em, pelo menos, quatro frentes, que deveriam caminhar de forma mais ou menos simultânea. Essas linhas de ação seriam, não necessariamente, nesta ordem:

--a integração financeira,
--a integração de infraestrutura,
--a integração comercial e
--a integração das cadeias produtivas.

Sem dúvidas, há muito caminho por percorrer, especialmente pelo Brasil. Certamente, o país terá função crucial neste processo, já que possui 53% do PIB, 50% da população e 47% do território da região. Além disso, concentra quase 60% da produção industrial da América do Sul e conta com o BNDES, um dos maiores bancos de fomento do mundo.

Sob a ótica da integração financeira, o “Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos” (CCR) da “Associação Latino-Americana de Integração” (ALADI) continua sendo pouquíssimo utilizado pelo Brasil. Some-se a isso o fato de o país sequer fazer parte do “Fundo Latino-Americano de Reservas” (FLAR), uma espécie de FMI do Sul.

No caso da construção de um mercado comum, os avanços vêm esbarrando nos sucessivos superávits comerciais brasileiros nas relações com os vizinhos. Quanto à articulação das cadeias produtivas, temos realizado análises estatísticas que demonstram a existência de altas potencialidades de complementação industrial, mas que, ao mesmo tempo, evidenciam o péssimo aproveitamento dessas possibilidades.

Ou seja, o Brasil não tem exercido plenamente a sua função de “locomotiva” do desenvolvimento e do processo de desconstrução das assimetrias regionais. Nas últimas décadas, o país cresceu menos que a média da região, mantendo-se com um PIB per capita inferior aos de Venezuela, Chile e Uruguai. Além disso, geralmente acumula saldos comerciais positivos com todos os países, exceto com a Bolívia, devido às importações de gás. Os superávits com alguns dos vizinhos chegam a ser obscenos e conspiram contra o espírito “ganhar-ganhar” do comércio internacional.

Essas distorções ocorrem, essencialmente, porque até os dias atuais o modelo de integração comercialista ou “de mercado” tem prevalecido sobre a possibilidade de integração planejada, industrialista e desenvolvimentista.

Carlos Medeiros, doutor do Instituto de Economia da UFRJ e profundo conhecedor do tema, chama essa segunda alternativa de “modelo estratégico de integração”. Enquanto isso, a integração que atualmente existe, a real, a que avança, é movida pelo e para o “mercado” e se move junto com os interesses das empresas, tanto no campo comercial, como nos de infraestrutura e produtivo. Nesse sentido, existe colossal descompasso entre a integração que é e a integração que poderia ser.

Por outro lado, consideramos que tem havido esforço por parte da maioria dos governos sul-americanos, sobretudo em torno do “Conselho de Ministros de Economia” da “União de Nações Sul-Americanas” (UNASUL), para que a integração trilhe outros caminhos, não somente submetidos ao âmbito do comércio, dos “mercados” e das grandes empresas. Vem ganhando importância, por exemplo, a ideia de ampliar a participação dos setores sociais e de criar uma nova “Nova Arquitetura Financeira Regional” (NAFR). A região não pode contar, exclusivamente, com fontes multilaterais de financiamento, que, além de trabalharem sob lógica cíclica, costumam exigir contrapartidas associadas à adoção de políticas de abertura econômica e de restrição ao desenvolvimento. Daí a importância do Banco do Sul.

A viabilidade de processo de integração regional industrialista e desenvolvimentista depende, fundamentalmente, da possibilidade de os Estados Nacionais da América do Sul retomarem o controle (ou, na maior parte dos casos, assumirem o controle que nunca tiveram plenamente) sobre o processo nas áreas mais determinantes: a infraestrutura, a complementação produtiva, o comércio, os financiamentos e as políticas macroeconômicas. Não se trata, evidentemente, da adoção de iniciativas iguais em todos os países, mas sim da aplicação de medidas convergentes e em sintonia com as dos demais.

Em nosso ponto de vista, alguns dos pontos mais relevantes seriam:

--uma postura preferencialmente orientada ao desenvolvimento econômico, à industrialização e à integração regional;
--a adoção de políticas monetárias que estimulem o crescimento econômico e não a elevada remuneração de capitais especulativos, que drenam recursos da área produtiva e sobrevalorizam as moedas locais;
--a prioridade à adoção de metas de crescimento e de emprego antes e sobre as metas de inflação e de superávit fiscal;
--o objetivo de pagar a histórica dívida social com a maioria da população, historicamente excluída;
--o estabelecimento de algum nível de controle de câmbio, de capitais e da remessa de lucros ao exterior, como forma de diminuir a fragilidade financeira dos países;
--a priorização das instituições de financiamento regionais, do comércio compensado e da utilização de moedas locais, com a consequente redução da dependência com relação às agências multilaterais e às moedas internacionalmente conversíveis.

A marcha do processo de integração da América do Sul dependerá da conservação e do fortalecimento de governos populares e desenvolvimentistas em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador, Paraguai e Venezuela. Em 2011, com a vitória de Ollanta Humala, no Peru, o bloco foi ampliado. Em outubro e novembro próximos, haverá importantes eleições presidenciais na Venezuela e nos Estados Unidos. A interpretação correta do cenário político, a participação ativa e a mobilização dos setores organizados das sociedades sul-americanas serão fundamentais para manter e aprofundar estes processos democratizantes e integracionistas.”

FONTE: escrito por Luciano Wexell Severo, economista, professor visitante da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e Doutorando do Programa de Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Artigo publicado no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=176834&id_secao=7) [Imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].

“REVOLUÇÃO ÁRABE” x SÍRIA

Damasco-Síria
Lejeune Mirhan

PERSPECTIVAS DA REVOLUÇÃO ÁRABE TÊM RELAÇÃO COM O QUE OCORRE HOJE NA SÍRIA

Por Lejeune Mirhan

“Gostaria muito de tratar mais globalmente sobre a ‘Revolução Árabe’, iniciada há pouco mais de um ano. Poderia tratar do Egito e suas eleições, também ocorridas na Tunísia ou mesmo no Iêmen, cujo ditador acaba de cair e deve refugiar-se em alguma monarquia reacionária árabe ou mesmo nos EUA (seu vice assumiu, mas continua ditadura). No entanto, a pauta segue sendo a Síria. Por isso, voltamos ao tema neste artigo.

VERDADES E MENTIRAS SOBRE A SÍRIA

Muito já se disse sobre o que ocorre na Síria hoje. Os meios de comunicação de massa, nacionais e internacionais, expressam o que pensa o Pentágono. Com honrosas exceções, tudo que recebemos no Brasil em particular, publicado em língua pátria na ‘Folha’, ‘Globo’ e ‘Estadão’ reproduz quase que sem retirar nenhuma frase, o que as agências noticiosas internacionais despacham para o mundo todo. Agências, diga-se de passagem, que sequer possuem um só correspondente em Damasco, capital da Síria.

A seguir, para auxiliar nossos leitores, fazemos um pequeno resumo de tudo que se diz sobre a República Árabe da Síria. Resumimos 15 pontos que se destacam na atualidade:

1. GOVERNO DE BASHAR AL-ASSAD MATA MILHARES - MENTIRA

Bashar al-Assad

Dia após dia, manchetes garrafais estampam que o governo vem matando “milhares” de sírios, todos “inocentes”. A única fonte de informação que o Ocidente inteiro possui sobre tais “dados” de mortes é de um obscuro “Observatório Sírio de Direitos Humanos” (sic), com sede em Londres e que recebe farto financiamento de países do Golfo Pérsico, todos, sem exceção, monarquias antidemocráticas, absolutistas e extremamente reacionárias e pró-EUA.

Como isso está ficando uma vergonha para quem pratica jornalismo sério, a grande imprensa, quando publica os números “assustadores” de mortos, ultimamente vem, pelo menos, acrescentando sempre “segundo oObservatório Sírio de DH’”, que “não puderam ser comprovadas”.

De fato, os únicos dados confiáveis são os fornecidos pelo próprio governo, que atesta que, pelo menos, dois mil soldados, policiais e cidadãos sírios foram assassinados por grupos terroristas e mercenários, seja em ataques diretos ou em atentados à bomba que vêm ocorrendo com maior intensidade nas últimas semanas.

2. EXÉRCITO SÍRIA LIVRE É FORMADO POR DESERTORES - MENTIRA.

Mercenários da al-Qaeda (Rebeldes da OTAN) na Síria

Não há desertores no Exército sírio. Pelo menos, não em expressão. Todas as deserções em todas as divisões do Exército da República Árabe da Síria são pontuais e ocorrem, apenas e exclusivamente, na baixa oficialidade [há um ou outro coronel].

O que se tem de concreto é que essa organização é composta de mercenários altamente remunerados, usando armas contrabandeadas, inclusive do arsenal líbio. Se um AK-47, fuzil de assalto mais famoso no mundo, podia ser comprado a cem dólares tempos atrás, hoje, com os bilhões de dólares que a Arábia Saudita e o Qatar vêm despejando para a derrubada do governo do Dr. Bashar, não se compra uma arma dessa, muito popular, por menos que 1,5 mil dólares.

Esse tal “exército” está acampado na fronteira com a Turquia e por esta é estimulado, e seu comando vem de Istambul. O governo turco, que presta péssimo papel, achando que voltará a ter o comando do sultanato otomano, tem procurado dar guarida a essa milícia terrorista e facínora, apoiada por Israel e pelos EUA. Seu “comandante”, o coronel desertor Riad El Assad, está na folha de pagamento do Departamento de Estado.

3. LIGA ÁRABE PEDE DEMOCRACIA E LIBERDADE NA SÍRIA - MENTIRA.

Não tem moral para isso.

A Liga Árabe, organismo multilateral fundado em 1945, é integrada pelos 21 países árabes e mais a OLP que representa a Palestina. Ainda que possa ser duvidoso que, em algum momento, tenha cumprido algum papel relevante na vida dos árabes, a certeza é de que hoje ela é um organismo fracassado.

Tomado de assalto pelas monarquias do Golfo, com seus bilhões de dólares, esse organismo presta-se hoje como auxiliar, tanto do CS da ONU, quanto da União Europeia e dos EUA. De árabe, essa tal Liga não tem mais nada. Não representa mais os anseios e as verdadeiras aspirações do povo árabe, que hoje são quase 400 milhões de pessoas.

Esse organismo serve apenas para propor ao CS da ONU resoluções que os EUA e a União Europeia não teriam a coragem de propor. Os petrodólares da Casa de Saud e do emirado do Qatar é que sustentam a organização. Está completamente esvaziada. Iraque, Líbano, Argélia e a própria Síria nem mais têm comparecido às reuniões, que perderam completamente a sua eficácia.

Mas, o que é pior. Que moral tem a Arábia Saudita e o Qatar em pedir democracia na Síria? Falam em liberdade, mas não a praticam em seus países, que não têm parlamento e nenhum partido funcionando. Uma hipocrisia completa. Uma falsa moralidade. Indignam-se com o que ocorre na Síria, mas é uma indignação seletiva.

4. RÚSSIA E CHINA VETAM RESOLUÇÃO ANTISÍRIA NA ONU - VERDADE.

E ambos têm suas razões.

Essas duas potências mundiais - ambos BRICS - ficaram escaldadas com o golpe europeu-estadunidense que, usando a OTAN, rasgaram a resolução nº 1973 de 17 de março de 2011, que mencionava apenas "proteção" a civis líbios. Com essa resolução, a OTAN bombardeou toda a Líbia na linha da ordem dada por Obama/Hilary: derrubem o regime! A linha foi a da mudança de regime, coisa que só o povo líbio teria poder de decidir.

Assassinaram mais de 200 mil líbios!

Os EUA e seus clientes europeus não aceitaram nenhuma modificação proposta por esses dois países na nova resolução proposta em 4 de fevereiro passado. E pior que isso. Expressaram sua indignação sobre o veto exercido dentro das regras da Carta das Nações. Quando os EUA vetam dezenas de resoluções contra Israel no CS/ONU, nada se fala. Uma vez na vida, duas potências vetam uma resolução que abriria brecha para a OTAN atacar a Síria, então vem a indignação seletiva.

A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, chegou a dizer que o "mundo não poderia ficar refém de dois países" (sic). Tenho em mãos uma pesquisa sobre os vetos dos EUA contra resoluções a favor dos palestinos e que criticavam Israel. A pesquisa compreende apenas dez anos (1972 a 1982). Somente nesse curto período, foram exatos 43 resoluções vetadas pelos EUA!

Hoje, felizmente, tanto a China como a Rússia têm visto o que realmente ocorre no Oriente Médio (OM). Derrubar o governo da Síria hoje, passando por cima da soberania desse país árabe, pode significar ainda maior fortalecimento do imperialismo estadunidense e seus estados clientes europeus.

O fato é que a Rússia volta com força ao cenário internacional. Não titubeou nenhuma vez em defesa da soberania síria. Enviou armas e uma frota naval está ancorada no estratégico porto de Tartous. Como já vimos falando, a unipolaridade no mundo tende ao seu fim. Vários pólos vão sendo criados e a Rússia vai ganhando seu espaço, fazendo-se ouvir depois de mais de vinte anos de um mundo unipolar.

5. EUA, ISRAEL E SEUS ALIADOS ÁRABES SÃO OS MAIORES INIMIGOS - VERDADE.

É preciso que sejam dados nomes aos bois.

Os maiores entraves para o avanço da Revolução no mundo Árabe são as petromonarquias. Elas têm nome: Arábia Saudita, Kuwait, Emirados Árabes, Qatar, Omã e Bahrein. A esses, se somam países que não são fortes produtores de petróleo, mas são monarquias reacionárias e pró-EUA, como a Jordânia e o Marrocos.

O centro da resistência ao avanço revolucionário árabe vem de Riad, no reino dos sauditas. Esses reservaram, em 2011, mais de cem bilhões de dólares para a contrarrevolução. E contratam mercenários a peso de ouro. Apoiados pelos EUA, ainda que discretamente, e mais discretamente por Israel e sua inteligência do Mossad. Isso está amplamente documentado. Pelo WikiLeaks, pela imprensa verdadeiramente livre e a blogosfera.

6. SE A SÍRIA CAIR, ISSO REFLETE EM TODO O OM - VERDADE.

Há hoje um eixo de resistência ao imperialismo estadunidense. Esse eixo apoia as mudanças profundas no OM, apoia a causa palestina, faz oposição à Israel, defende o rompimento dos acordos de paz assinados com esse país pelo Egito e Jordânia, de forma unilateral.

Os países que integram o eixo da resistência são, hoje, além da Síria, o Iraque, Líbano, a Argélia e o Irã (que é persa).

O “Partido de Deus” (Hezbolláh), do Líbano [que forma governo com os cristãos patrióticos (maronitas do Marada e MPL de Aoun), sunitas e xiitas de várias organizações (Amal de Berri e drusos de Jumblat) e o PC Libanês de Khaled], seria o primeiro a sofrer consequências. O Hezbolláh - apesar do nome, é organização política e não defende no Líbano um estado religioso - além de muitos deputados e ministros, tem a maior milícia armada de resistência ao exército sionista de Israel que insiste em ocupar o Sul do país.

A própria luta de resistência palestina contra a ocupação, com todas as suas organizações que compõem a OLP e o Hamas (que não integra a Organização), se enfraqueceria imensamente com a queda do governo sírio e a instalação nesse país de um governo pró-EUA.

7. A IRMANDADE MUÇULMANA ENCABEÇA A OPOSIÇÃO NA SÍRIA - VERDADE.

Essa organização tem seus tentáculos em mais de 70 países. Fundada por Hassan El-Bana em 1928, funciona como partido político, tendo ideologia de caráter teológico de linha islâmica fundamentalista. Na maioria das ditaduras e monarquias árabes, cujas liberdades partidárias são praticamente nenhuma, a única forma de uma parte da população expressar-se acaba sendo por essa Irmandade.

Não fiquei surpreso com o fato de o seu braço político, recém-legalizado no Egito e na Tunísia, ter ficado em primeiro lugar nas eleições ocorridas recentemente após a queda dos ditadores desses países. Não havia outra forma de expressão política além do islamismo, além da máscara de apelo ao Islã fundamentalista.

No entanto, é preciso deixar claro. Em que pese esse pessoal ter jogado algum papel na resistência à ditadura Mubarak, sempre fez acordos com ele. Aceitavam as regras do jogo, qual seja, que a oposição ao ditador pudesse chegar a, no máximo, 20% dos votos - eleições fraudadas - tanto para presidente como no parlamento.

A Irmandade é uma organização conservadora, que prega o fundamentalismo islâmico mais próximo do Wahabiya - linha da família Al-Saud, portanto sunita. Sempre foi e sempre será anticomunista. Por baixo do pano, sempre fez acordos, inclusive com o imperialismo britânico e, mais recentemente, o norte-americano. Seus líderes rapidamente disseram, depois dos resultados das eleições parlamentares no Egito, onde venceram, que não romperiam o acordo de paz com Israel.

Hoje, na Síria, os principais líderes da insurreição interna, que organizam os ataques terroristas aos prédios públicos, oleodutos, gasodutos, escolas e hospitais, são membros da Irmandade. Lamentável. Mas é a verdade amplamente documentada, mas omitida pela grande imprensa.

8. A OPOSIÇÃO SÍRIA NÃO TEM UNIDADE E TEM FORÇA APENAS NO EXTERIOR - VERDADE.

Oposição síria no exterior

Mas a grande imprensa não mostra isso.

É preciso que se diga. Há duas oposições na síria hoje. Uma interna e outra que funciona apenas, e tão somente, no exterior.

A que tem sede no exterior, seus escritórios ficam em Londres, Paris e Istambul. Não tem credibilidade alguma. Financiada pelas monarquias do Golfo e pelo Departamento de Estado – fato amplamente documentado - elas vivem para dar entrevistas na grande mídia internacional, que repercute amplamente essas "reportagens". No Brasil, a “Folha” e o “Estadão” publicaram várias delas. Todas falsas, sem provas, com "líderes" que nunca ninguém viu. É uma oposição sem respaldo algum junto ao povo sírio. Defende, abertamente, uma resolução no CS/ONU que abra a possibilidade - que eles tanto sonham – de a OTAN atacar a Síria. Como acreditar em "lideranças" que pedem que potências estrangeiras bombardeiem seu próprio país, ainda que a pretexto de "proteger civis inocentes"?

Há outra oposição. A interna. No entanto, esta também se divide em duas grandes partes. Uma delas participa do chamado “Diálogo Nacional”. Há uma mesa de negociações formada pelo governo da Síria, no rumo das mudanças que o país precisa de fato. E, tais mudanças, vêm ocorrendo (falaremos disso mais à frente). Não se sabe o tamanho dessa oposição. As eleições marcadas para o mês que vem devem mostrar a dimensão dessa oposição. Essa oposição prega a construção de um governo de unidade nacional. Em hipótese alguma defende a intervenção externa. Diz que os problemas dos sírios devem ser resolvidos pelos próprios sírios, sem ingerência externa.

A outra parte da oposição interna não dialoga com o governo. Está radicalizada. Arma-se até os dentes e apoia a sabotagem de prédios públicos. Alia-se com o autointitulado “Exército da Síria Livre” e com o “Conselho Nacional Sírio”. Prega, também abertamente, a intervenção externa, ainda que não de forma clara defenda os ataques da OTAN. Faz, na prática, o jogo das potências imperialistas.

A oposição não se unifica. Há, pelo menos, 53 grupos políticos e tendências atuando de forma conflitiva no tal “Conselho Nacional Sírio”, organismo criado no exterior e apoiado pelos EUA. Em reuniões com autoridades europeias, essa tal oposição exige que sejam feitas várias reuniões, pois eles não conseguem sequer sentar-se à mesma mesa. Não há unidade política entre eles. Talvez, o único ponto em comum seja remover Assad do poder. Nada mais. Mesmo que as reformas sejam profundas - como esta ocorrendo de fato - isso hoje pouco importa. A única agenda, a agenda da CIA, dos EUA, de Israel, da Casa de Saud e do Mossad, é mudar o regime. Nada mais lhes interessa.

Tanto a externa, quanto à interna que não dialoga com o governo, possuem ampla e plena interlocução, em especial com os EUA, Inglaterra e França.

9. BASHAR AL-ASSAD É UM SANGUINÁRIO E GENOCIDA - MENTIRA.

Bashar Al-Assad e sua esposa (inglesa de nascimento)

É evidente que os processos eleitorais, tanto na Síria quanto em qualquer país árabe, não seguem os padrões que vivemos no Brasil e no Ocidente. No entanto, não se pode falar em democracia na Síria e não se falar desse tema nos outros países árabes. Mesmo no Ocidente. Agora mesmo, na Grécia, se pede inclusive suspensão das eleições para que um possível novo governo de oposição não rompa os acordos de traição nacional que estão sendo assinados às claras e abertamente.

Os mesmos monarcas que falam em "democracia" na Síria são os que mais reprimem seus próprios povos, como na Arábia Saudita, Qatar e Bahrein. Essa gente não tolera manifestação, não tolera povo organizado. Essas monarquias sequer possuem parlamento funcionando, partidos políticos são proibidos.

Em que pese todas as restrições às amplas liberdades na República Árabe da Síria, esse país ainda é o mais livre em termos de funcionamento de partidos políticos em todo o Oriente Médio. São oito os partidos políticos existentes e legalizados. Claro, o Partido Socialista Árabe Sírio, o Baath é o maior e do governo. Está no poder há pelo menos 42 anos. Mas temos dois partidos comunistas no país funcionando. Temos o Partido Nacional Sírio e outros. Depois dos pleitos por reformas amplas, outros cinco partidos foram legalizados, ampliando para 13 o número de partidos com direito a concorrer nas próximas eleições.

O relatório dos observadores da “Liga dos Estados Árabes” - 160 pessoas que ficaram na síria por trinta dias – menciona, em uma parte, que contataram e viram funcionando 147 órgãos de imprensa nesse país árabe! Entre rádios, TVs e jornais que circulam amplamente.

Bem ou mal, as eleições para o parlamento sírio ocorrem a cada quatro anos e os oito partidos funcionam livremente. Não é a democracia mais avançada, popular que defendemos, mas não se pode dizer que as restrições são totais. Há muito que se fazer. E está sendo feito. Mas, a grande imprensa não divulga uma só linha sobre tudo isso. Chegou às minhas mãos - nunca divulgadas pela grande imprensa - um conjunto de 33 grandes medidas, ações governamentais, decretos e leis adotadas entre abril de 2011 e fevereiro de 2012 que mudam completamente a realidade política desse país árabe.

10. A SÍRIA É O ÚNICO PAÍS ÁRABE HOJE A APOIAR COM FIRMEZA A CAUSA PALESTINA - VERDADE.

E não se pode falar em apoio pela metade, parciais. Apenas na Síria, em sua capital, funcionam escritórios de todas as organizações da resistência palestina. O enfrentamento que o povo e o governo da Síria vem dando à Israel, contra as ocupações que o estado sionista faz em terras árabes, é o maior que se te visto em todo o OM.

Desde a derrubada do governo de Saddam Hussein e seu assassinato, se procurava dar enfrentamento à ocupação estadunidense de toda a região; desde a queda e o assassinato de Muammar Khadaffi em outubro passado, um a um foram caindo todos os focos de resistência ao imperialismo estadunidense e à Israel. Restou a Síria. É preciso instalar governos dóceis aos norte-americanos e aos sionistas em todo o mundo árabe para que se complete seu projeto neocolonial na região.

E é preciso deixar claro: derrubar Bashar hoje significa enfraquecer a resistência libanesa e palestina e isolar completamente o Irã! Quem não compreender essa geopolítica no OM não entende nada nem de OM nem de política internacional!

11. A OTAN E A AL QAEDA ESTÃO EM ALIANÇA - VERDADE.

Aqui é preciso esclarecer muitas coisas. Ainda que isso possa parecer inacreditável, para quem foi bombardeado durante anos com a informação de que a rede Al Qaeda de Osama Bin Laden sempre foi uma rede terrorista, que teriam feito os atentados às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, isso pode parecer mesmo verdadeiro absurdo. Mas não é.

Escritores, jornalistas independentes e intelectuais progressistas, a cada dia, vêm trazendo informações precisas e importantes que comprovam essa informação. E os próprios comunicados da organização Al Qaeda pelo seu novo "comandante", o médico pediatra egípcio Ayman Al Zawahiri, atestam isso. Textos recentes da lavra desse senhor ou a ele atribuídos, mencionam a importância fundamental da derrubada do governo sírio em aliança com as forças do autoproclamado “Exército Síria Livre”. E essa organização prega o Estado Islâmico.

Essa organização faz questão de não dialogar com o governo. Foi assim na Líbia quando ela apoiou abertamente a queda de Khadaffi e fez aliança com as forças da OTAN. Agora, da mesma forma, conversações de alto (?) nível entre emissários dessa organização militar europeia - agora mundial! - com líderes da Al Qaeda que atuam na Síria mostram essa aliança, que é abastecida fartamente com dólares do petróleo árabe das monarquias do Golfo e dinheiro da CIA e do Mossad de Israel, via território curdo.

Como diz Pepe Escobar, combativo jornalista brasileiro correspondente do “Asia Times”, "quem imaginaria que o que a Casa de Saud deseja ver na Síria é exatamente o que a Al Qaeda deseja para a Síria? Quem imaginaria que o CCG e a OTAN desejam para a Síria é o mesmo que a Al Qaeda deseja para esse país?".

12. A TURQUIA E SEU GOVERNO DERAM AS COSTAS PARA OS ÁRABES - VERDADE.

É lamentável ter que reconhecer isso, mas o governo de Recep Tayyip Erdogan, cujo partido governa a Turquia há quase nove anos (desde 14 de março de 2003), com o seu “Partido da Justiça e do Desenvolvimento” - PJD (em turco AKP, ou Adalet ve Kalninma Partisi), tem outros projetos para seu país e para uma liderança de toda a região.

Como bem sabemos, a região do OM é habitada por diversos povos. Além do árabe, que são a esmagadora maioria, temos ainda os persas (Irã), os judeus (Israel) e os turcos na Turquia, que é um país laico (apesar de 97% da população pertencer ao islamismo sunita) e foi ocidentalizado de tal forma que até seu alfabeto foi modificado. A separação das entidades e instituições religiosas do Estado é absoluta. No entanto, com Erdogan isso vem sendo gradativamente modificado.

Na verdade, esse Partido vem vencendo as eleições por, gradativamente, ir modificando o cenário turco de tal forma que boa parte da população já admite certa islamização da sociedade. A imprensa apresenta Erdogan como membro de um partido "muçulmano moderado" (sic) sabe-se lá o que isso significa.

No entanto, o grande sonho, o grande projeto desse Partido, o AKP (em turco), é integrar-se à Europa. Isso o falecido cientista político estadunidense Samuel Huntington já havia previsto em seu artigo clássico da “Foreing Office” de 1995 que causou polêmica acadêmica no mundo todo intitulado “Clash of Civilization” (“Choque de Civilizações”, posteriormente transformado em livro pela Editora Objetiva, em 1997).

A crítica que a Turquia receberia desse intelectual era de que o país viraria as costas para o mundo islâmico e teria maiores interesses em olhar para a Europa. Hungtinton afirmaria - quase que como uma profecia - que ele nunca seria admitido na Europa, por ser o continente extremamente preconceituoso, cristão e anti-islâmico, por mais que a Turquia fosse um país laico. Sabe-se que o Vaticano se pronuncia contra o ingresso da Turquia na Europa. Era discreto com João Paulo II e, agora, é aberto com Bento XVI.

Nesse sentido, desde 2003, Erdogan vem se aproximando da Europa. Seu país é membro da OTAN e tem bases militares dessa organização militar, antes contra a URSS e hoje contra qualquer mudança progressista ou revolucionária em qualquer país do mundo. Chegou a ensaiar passos contra Israel. Não é para menos. O governo sionista de Netanyahú interceptou em 2010 uma flotilha de vários navios e fuzilou nove cidadãos turcos. Erdogan teve que subir o tom. Chegou a jogar um papel importante na tentativa de tirar o Irã do isolamento em seu programa nuclear que contou com o apoio de Lula do Brasil.

Mas, mudou de posição. Voltou ao que sempre foi. Tem um sonho de ser a grande liderança do Oriente Médio e dos árabes inclusive. Baixou completamente o tom de voz contra Israel. Apoiou os ataques da OTAN/Europa à Líbia e apoia abertamente a derrubada do governo da Síria em clara ingerência nos assuntos internos de um país vizinho que teria que respeitar. Dá abrigo ao exército mercenário estacionado nas suas fronteiras com a Síria. Faz uma manobra arriscada. Coloca em pé de guerra todos os milhões de curdos que vivem em território turco que odeiam o seu governo (pelo menos na Síria eles são melhores tratados). À política de Erdogan de "zero problemas com os vizinhos", hoje vemos uma situação de "zero amigos".

Talvez sonhe com a volta do império turco-otomano. Mas não há espaço para isso. Ele terá que fazer escolha. E, neste momento, vem escolhendo o que tem de pior para o mundo árabe e para toda a Ásia, qual seja, uma aliança tácita com o imperialismo estadunidense e europeu. Lamentamos por isso.

13. RELATÓRIO SOBRE A SITUAÇÃO DA SÍRIA SÓ VALE QUANDO FALA MAL DO GOVERNO - VERDADE.

Dois relatórios foram produzidos nos últimos 90 dias sobre a Síria. Um, da lavra do representante da ONU para Direitos Humanos na Síria, o brasileiro e meu colega sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro, da USP e outro, assinado pelo general sudanês, Mohammed Ahmad Al-Dabi.

Escrevi um artigo sobre o primeiro relatório. O Prof. Paulo Sérgio sequer entrou na Síria, mas escreveu sobre o que não viu. Fez um relatório faccioso, tendencioso, parcial. Não ouviu ninguém do governo, apenas opositores no exílio. Tal relatório foi amplamente saudado pela imprensa internacional como "equilibrado". Atacava o governo de todas as formas possíveis.

O outro relatório foi feito sob a coordenação do experiente general sudanês, ex-presidente de seu país. A comissão formada era oficial da Liga Árabe. Era integrada por 160 pessoas. Passaram trinta dias na Síria. Visitaram várias cidades, ouviram oposicionistas e o governo. Não constataram a violência que o mundo diz haver no país. Não atestaram o número exorbitante de mortos que a imprensa ocidental divulga. Ao contrário. Constaram, sim, milhares de mortos das forças regulares, do exército e da polícia. Presenciaram milhões nas ruas em apoio ao governo do Dr. Bashar. Mas, como disse Kissinger em recente artigo, o governo é amado pelo povo, mas mesmo assim tem que cair (sic). Esse foi o relatório que apontou a existência de 147 órgãos de imprensa funcionando livremente na Síria.

Imediatamente, a Liga Árabe, que representa hoje apenas as petromonarquias do Golfo e os interesses da OTAN, prontamente rejeitou tal relatório, levando o seu presidente a renunciar aos trabalhos. De fato, dois pesos e duas medidas. Só não vê quem não quer.

14. OS EUA VIVEM UMA INDIGNAÇÃO SELETIVA - VERDADE.

Nunca a famosa frase de "um peso e duas medidas" ficou tão claro e tão evidente como no momento atual da diplomacia norte-americana com Barak Obama. Seus planejadores do Pentágono e do Departamento de Estado são hoje mais ideólogos que planejadores. São seletivos em suas análises, facciosos.

Colocam-se contra o Irã e seu programa nuclear pacífico, mas nada falam sobre as duzentas ogivas nucleares que Israel possui. Falam o tempo todo contra o "ditador" Bashar, mas não se pronunciam contra as monarquias absolutistas, obscurantistas, fascistas e feudais do Golfo, por estes serem seus aliados, amigos e pró-Israel. Pronunciaram-se contra a "repressão" na Síria, mas calaram-se com o massacre dos xiitas no Bahrein. Falam contra o uso das forças armadas sírias que defende o país, mas calam-se contra a invasão que as forças armadas sauditas fizeram no Bahrein, sede da 5ª Frota dos EUA que patrulha o Golfo Pérsico-Arábico. Abusam do direito de veto no CS/ONU em favor de Israel, mas indignam-se contra um veto exercido dentro das regras previstas na Carta das Nações usado pela China e pela Rússia.

15. TERRORISTAS AGEM ABERTAMENTE NA SÍRIA - VERDADE.

Ayman al-Zawihiri, comandante da al-Qaeda

A grande imprensa apenas acusa o governo de matar dezenas, centenas de cidadãos. No entanto, ela tem sido obrigada a noticiar mais e mais atentados terroristas contra prédios públicos, oleodutos, gasodutos, escolas e até mesmo hospitais. São feitos por mercenários contratados a peso de ouro pelo obscuro “Exército da Síria Livre”. O objetivo desses ataques é quebrar a infraestrutura do país e jogar a opinião pública contra o governo.

É preciso destacar que a ação desses grupos mercenários conta com apoio e total suporte da OTAN que os treina e financia, a partir de acampamentos na fronteira da Turquia. Estão envolvidos nessa operação a CIA e o MI6 inglês, além, claro, como sempre, o Mossad de Israel. Isso não vem surtindo efeito. Ao contrário. Pesquisas confiáveis de opinião mostram o grande apoio da opinião pública ao governo.

CONCLUSÕES

Nunca tivemos dúvidas, desde o início do processo da Revolução Árabe, que a Síria viveria situação distinta, particular. O caráter de um governo se mede pelas tarefas que assume, pelos seus objetivos, pela ação que pratica. Por isso, nunca duvidamos do caráter anti-imperialista, popular e em defesa dos palestinos que o governo da família Assad sempre expressou.

Defendemos, tal qual as organizações sindicais, populares e os partidos comunistas da Síria, reformas profundas no país, ampliação das liberdades políticas e de organização. No entanto, não podemos somar nossas vozes com grupos terroristas, mercenários à soldo do imperialismos de todas as matizes, sejam eles norte-americano, inglês ou francês. Não bastasse isso, já está clara, mais que provada por diversas fontes, a ampla aliança da Al Qaeda com a OTAN. E somado a isso, aos serviços secretos da CIA, MI6 e Mossad israelense.

Somamos nossas vozes às do povo e do governo da Síria, em seu projeto em defesa da soberania nacional e sua autodeterminação. Não à ingerência estrangeira nos assuntos internos da Síria. Apoiamos e defendemos o diálogo nacional. Apoiamos as eleições livres que ocorrerão no mês que vem, sob nova e democrática constituição da República Árabe da Síria.

Ao que tudo indica, o jogo parece que vai terminando. E com derrota fragorosa para as forças imperialistas e sionistas. Para as forças que querem barrar o avanço da Revolução Árabe. A Rússia e China estão resolutas em não apoiar qualquer intervenção externa na Síria. Já chega de destruição de uma nação árabe. Não ficou pedra sobre pedra no Iraque. Agora, a mesma coisa na Líbia, antes o país de maior IDH de toda a África. Sem falar na própria destruição do Afeganistão. Agora, querem destruir e tomar a Síria, último bastião e pilar do verdadeiro nacionalismo e panarabismo, herdados de Gamal Abdel Nasser. A oposição externa já perdeu as ilusões de apoios. Até Sarkozy já disse que não se ganha uma guerra de fora do país!

A OTAN não tem como intervir e já disse isso com todas as letras. Resta-lhes apoiar os terroristas da rede Al Qaeda, financiada pela CIA. A Turquia vai acabar tendo que retirar todo seu apoio aos mercenários recrutados pelos dólares sauditas, a que ela vem chamando de “Exército da Síria "Livre" (“Free Syrian Army” - FSA em inglês). Vai ficando isolada e sem amigos no OM.

O risco de um conflito regional no OM, que já foi maior, deve estar sendo redimensionado pelos tais planejadores de Washington. Não há como um conflito dessa natureza deixar de fora as capitais Tel Aviv, Riad e Ancara. Um incêndio de razoáveis proporções.

O CS/ONU e a Liga Árabe (do Golfo...) não conseguem mais executar a política estadunidense. Não pelo menos como antes, com a desenvoltura anterior. Há resistências da Rússia e China e, agora, do Líbano, Iraque, Argélia, do Irã e da própria Síria e do seu bravo povo. A Liga Árabe acabou. Precisará ser, no futuro, recomposta ou outra organização surgirá. Hoje, é palco para monarquias fascistas, feudais, como as da Arábia Saudita e do Qatar.

O governo da Síria, sob o comando do seu jovem presidente, o médico Bashar El Assad, segue no caminho da tentativa de pacificação do país. Mais de 30 decretos, portarias e novas leis, editadas em oito meses, vão reformando o regime, o governo, o país, dando-lhes feições mais modernas e democráticas. Avança o diálogo nacional com todas as organizações, governamentais ou não, no rumo de eleições democráticas, nova constituição e eleições presidenciais em 2013. Novos pactos, novas alianças, regionais e internacionais, devem atender aos interesses dos sírios. Novos acordos econômicos com países amigos, em especial Rússia e China, devem ser assinados em breve.

Quero registrar meu profundo lamento a uma esquerda que não consegue compreender a dimensão do que está em jogo naquela região e insiste em somar suas forças, pequenas é verdade, às do império estadunidense e seus lacaios, tentando derrubar o governo patriótico da Síria.

Posso estar enganado, mas contas feitas pelo imperialismo e sionismo, pela direita islâmica, o melhor mesmo talvez seja bater em retirada. Difícil prever em detalhes, mas é esse o cenário que vislumbramos.”

FONTES PESQUISADAS E CITADAS:

--Aisling Byrne. “Mudança de regime na Síria” do Asian Times Online, de 4 de janeiro de 2012; redecastorphoto;
--Assad Frangiéh, em “Editorial, O começo de um fim” em 21/2/2012. Agradeço ao Dr. Assad em particular por observações na primeira versão deste trabalho;
--Camila Carduz. “Irã promete apoiar resistência libanesa e palestina contra Israel”. Prensa Latina em 15/2/2012;
--Evguêni Satanóvski, Presidente do Instituto de Estudos sobre o OM: Atual estratégia russa para o Oriente Médio permite ao país salvar as aparências e ganhar tempo. 13/2/2012;
--Michel Chossudovsky. “Syria: NATO’s next “humanitarian” war?” Global Research em 11/2/2012;
--Pepe Escobar. “Síria, a nova Líbia”. Asia Times Online em 14/2/2012; redecastorphoto;
--Pepe Escobar. “É que o Bahrein não é a Síria...” Asia Times em 14/2/2012; redecastorphoto;
--Robert Fisk “Bashar Al-Assad não sairá. Não, pelo menos, agora”. The Independent em 9/2/2012; redecastorphoto;
--Sharmine Narwani. Veterano diplomata americano questiona a narrativa sobre a Síria. Al-Akhbar, Beirute em 10/2/2012; redecastorphoto;
--Thierry Meyssan. Fin de partie au Proche-Orient. Rede Voltaire Net.
--Observação: os artigos traduzidos para o português sem menção de páginas da Internet foram realizados pelo “coletivo de tradutores da Vila Vudu"

FONTE: escrito por Lejeune Mirhan, Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista de Oriente Médio do “Portal da Fundação Maurício Grabois” e colaborador da Revista Sociologia da Editora Escala. Postado por Castor Filho em seu blog “redecastorphoto”  (http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/03/perspectivas-da-revolucao-arabe-tem.html) [Imagens do google adicionadss por este blog ‘democracia&política’].

A NOVA “GUERRA FRIA” JÁ COMEÇOU, NA SÍRIA

Jornalista inglês Robert Fisk

O artigo é de Robert Fisk, no jornal jornal diário britânico “The Independent”

Se o Irã obtiver armas nucleares, eu acho que outras nações em todo o Oriente Médio vão querer desenvolver armas nucleares”.

Assim trovejou o nosso amado secretário de Relações Exteriores, William Hague, em um dos pronunciamentos mais ridículos que já fez. Hague parece passar muito de seu tempo representando diferentes personagens, então realmente não estou certo de qual Sr. Hague fez essa declaração.

O erro número um, é claro, é o fato do Sr. Hague não mencionar que já existe uma nação do Oriente Médio que já possui centenas de armas nucleares juntamente com os mísseis para dispará-las. Ela se chama Israel. Mas o Sr. Hague não mencionou esse fato. Ele não sabia disso? Claro que sim. O que ele estava tentando dizer, veja só, é que se o Irã seguir querendo produzir uma arma nuclear, os Estados árabes – Estados muçulmanos – vão querer adquirir uma. E isso não pode acontecer. Não lhe ocorreu mencionar a ideia de que o Irã pode estar tentando desenvolver armas nucleares porque Israel já as possui.

Agora, como uma nação que vende bilhões de libras de equipamento militar para países do Golfo Pérsico – para eles se defenderem de planos não-existentes do Irã para invadi-los -, a Grã-Bretanha não está propriamente em condições de advertir sobre a proliferação de armas na região. Eu fui às feiras de armas no Golfo, onde os ingleses mostraram filmes alarmantes sobre uma nação “inimiga” ameaçando os árabes – o Irã, é claro – e falando da necessidade dos países árabes comprarem mais kits da British Aerospace e dos nossos demais mercadores da morte.

Em seguida, a conversa de Hague pratica um assassinato histórico. Ele adverte sobre “o mais grave capítulo de proliferação nuclear desde que as armas nucleares foram inventadas”, que poderia produzir “a ameaça de uma nova Guerra Fria no Oriente Médio”, o que seria “um desastre mundial”. Eu sei que Hague senta-se na sala de Balfour e Eden – dois pseudoespecialistas em Oriente Médio -, mas será que ele tem mesmo que maltratar a história desse jeito? Certamente a rodada mais grave de proliferação nuclear ocorreu quando a Índia e o Paquistão adquiriram a bomba, esta última uma nação inundada por grupos ligados a Al-Qaeda, talibãs e duvidosos agentes de serviços de inteligência.

Foi bom saber que “não estamos apoiando a ideia de alguém atacar o Irã neste momento”. Talvez mais tarde, então. Ou talvez depois de o presidente Assad eventualmente cair, privando o Irã de seu único – e valioso – aliado no Oriente Médio. É disso que se trata, eu suspeito, esse monte de rugidos vociferando contra Assad. Livre-se de Assad e você estará cortando parte do coração do Irã. Se isso vai levar Ahmadinejad a transformar suas usinas nucleares em fábricas de leite para criança, bem, isso já é outro assunto. Aqui está a questão central. As vozes poderosas que pedem a saída de Assad aumentam mais de volume na medida em que se recusam a se envolver na sua derrubada. Quanto mais eles se comprometem a não “meter a OTAN” na Síria, cada vez que dizem que não podem haver zonas de exclusão aérea na Síria, mais e mais ficam furiosos com Assad. Por que ele não parte simplesmente para sua aposentadoria na Turquia, acabando com o teatro de uma vez por todas, e parando de envergonhar a todos nós, coagindo seu país com bombas, francos atiradores e milhares de assassinatos, entre eles o de jornalistas?

Desnecessário dizer que Hague também tagarela sobre a Síria, supostamente também não “apoiando a ideia de alguém atacar a Síria neste momento”. E esse é um problema que fede muito para o ministro das Relações Exteriores. Ela estava justamente denunciando o assassinato de Marie Colvin esta semana – eu a vi nos últimos dias da revolução egípcia, avançando, como de costume, em meio ao estouro de granadas de gás lacrimogêneo -, mas centenas de outros seres humanos inocentes foram cruelmente assassinados na Síria sem que isso provocasse um sussurro sequer de Hague. Alguns deles foram mortos pela oposição armada a Assad. O assassinato de alauitas por sunitas está se tornando terrivelmente familiar, assim como a matança de civis por fogo de artilharia do governo sírio se tornou um modelo nesta guerra terrível.

Não, nós não vamos nos envolver na Síria, muito obrigado. Porque a nova Guerra Fria na região, papagaiada por Hague, já começou na Síria, não no Irã. Os russos estão alinhados contra nós lá, apoiando Assad e denunciando-nos. Só que a reação de Putin a uma substituição de Assad é um mistério. Não será uma “nova” Síria, necessariamente, a democracia pró-Ocidente que Hague e outros gostariam de ver.

Os sírios, afinal não vão esquecer a maneira pela qual os britânicos e os americanos silenciosamente aprovaram o massacre infinitamente mais terrível de 10 mil sírios muçulmanos sunitas em Hama, em 1982. Este ano marca o 30º aniversário desse massacre, praticado pelas Brigadas de Defesa de Rifaat Ali al-Assad, tio do atual presidente Assad.

Mas, como Hague, Rifaat também tem seu “doppelgänger” (termo alemão para sósia ou duplo de uma personagem). Longe de ser o assassino de Hama – um termo que ele contesta ferozmente -, ele agora é um senhor simpático e aposentado, vivendo em grande estilo e em segurança muito próximo da mesa de Hague. Na verdade, se Hague sair do prédio do Ministério das Relações Exteriores e dobrar à esquerda ele pode encontrar e conhecer o homem pessoalmente em – onde mais ele poderia viver? – Mayfair (área nobre no centro de Londres). Agora, isso seria um desastre para os assuntos mundiais, não?”

FONTE: escrito por Robert Fisk, no jornal diário britânico "The Independent". Publicado no site “Carta Maior” com tradução de Marco Aurélio Weissheimer  (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19679) [Imagens do google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

A “INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA” NA SÍRIA

Jean Bricmont

O artigo é de Jean Bricmont, no site da revista “Sin Permiso”

“Os acontecimentos na Síria, depois do ocorrido na Líbia no ano passado, foram acompanhados de chamamentos à intervenção com o fim de “proteger os civis”, argumentando que é nosso direito ou dever agir desse modo. E, como no ano passado, se escutam algumas vozes ruidosas a favor da intervenção, na esquerda ou entre os "Verdes", que adotaram por inteiro o conceito de “intervenção humanitária”. De fato, as raras vozes que se opõem de forma obstinada a essas intervenções se associam, frequentemente, à direita. Trate-se de Ron Paul, nos EUA, ou da Frente Nacional, na França. A política que a esquerda deveria apoiar é a da não-intervenção.

O objetivo principal dos intervencionistas humanitários se centra no conceito de soberania nacional, no qual se baseia o atual Direito internacional, o qual eles estigmatizam como permissivo aos ditadores que assassinam com prazer o seu próprio povo. Às vezes, passa a impressão de que a soberania nacional não é mais que uma proteção para aqueles ditadores cujo único desejo é massacrar a sua gente.

Mas, de fato, a alegação primordial da soberania nacional se baseia precisamente em proporcionar ao menos uma proteção parcial aos estados fracos com relação aos fortes. Um Estado que é suficientemente forte pode fazer o que lhe convenha sem se preocupar com uma intervenção externa. Ninguém espera que Bangladesh se intrometa nos assuntos internos dos Estados Unidos. Ninguém vai bombardear os EUA para obrigá-los a modificar sua política de imigração ou monetária por causa das consequências humanas que essas medidas políticas têm sobre outros países. A intervenção humanitária funciona só em um sentido, dos poderosos aos fracos.

O mesmíssimo ponto de partida das Nações Unidas consistia em salvar a humanidade do “flagelo da guerra”, em referência as duas guerras mundiais. Isto se conseguiu precisamente graças ao estrito respeito da soberania nacional, ao objeto de impedir que as Grandes Potências intervenham militarmente contra aqueles mais fracos, qualquer que fosse o pretexto. A proteção da soberania nacional, no Direito internacional, se baseava no reconhecimento do fato de que os fortes podem tirar partido dos conflitos internos em países fracos, tal como mostraram as intervenções da Alemanha na Tchecoslováquia e Polônia, ostensivamente “em defensa das minorias oprimidas”, o que conduziu à II Guerra Mundial.

Depois, veio a descolonização. Após a II Guerra Mundial, dezenas de países de recente independência se liberaram do jugo colonial. A última coisa que queriam era ver as antigas potências coloniais se intrometer abertamente em seus assuntos internos (embora essas interferências tenham sobrevivido de forma mais ou menos velada, sobretudo em países africanos). Essa aversão à ingerência exterior explica por que o “direito” de ingerência humanitária foi universalmente rechaçado por parte dos países do Sul, por exemplo, na Cúpula do Sul em Havana, em abril de 2000. Reunidos em Kuala Lumpur, em fevereiro de 2003, pouco antes do ataque norte-americano contra o Iraque: “os Chefes de Estado ou de Governo reiteraram a recusa por parte do ‘Movimento dos Não-Alinhados’ do chamado ‘direito’ de intervenção humanitária, que não tem base nem na Carta das Nações Unidas nem no Direito internacional” e observou também “semelhanças entre a nova expressão ‘responsabilidade de proteger’ e a ‘intervenção humanitária’. Diante disso, solicitou ao Escritório de Coordenação que estudasse cuidadosamente a expressão ‘responsabilidade de proteger’ e suas implicações sobre a base dos princípios de não-ingerência e não-intervenção, assim como do respeito pela integridade territorial e soberania nacional dos Estados”.

O fracasso principal das Nações Unidas não consistiu apenas em impedir que os ditadores assassinassem o seu próprio povo, mas em não conseguir impedir que os países poderosos violassem os princípios do Direito internacional. Os EUA na Indochina e no Iraque, África do Sul em Angola e Moçambique, Israel nos países vizinhos, Indonésia no Timor Oriental, para não falar de todos os golpes, ameaças, embargos, sanções unilaterais, eleições compradas etc. Muitos milhões de pessoas perderam suas vidas por causa dessa repetida violação do direito internacional e do principio de soberania nacional.

Na história posterior à II Guerra Mundial, que inclui as guerras da Indochina, as invasões do Iraque e Afeganistão, do Panamá, até da minúscula Granada, assim como o bombardeio da Iugoslávia, Líbia e vários países, se mostra escassamente crível manter que é o Direito internacional e o respeito pela soberania nacional o que impede os Estados Unidos de deter o genocídio. Se os EUA tivessem os meios e o desejo de intervir em Ruanda, assim o teriam feito e nenhuma lei internacional teria impedido. E se uma “nova norma for introduzida”, tal como o “direito de intervenção humanitária” ou a “responsabilidade de proteger”, no contexto da atual relação de forças políticas e militares, não salvaria ninguém em lugar nenhum, a menos que os EUA, desde sua própria perspectiva, considerem adequado intervir.

A ingerência norte americana nos assuntos internos de outros estados tem muitas facetas, mas viola constante e repetidamente o espírito e, seguidamente, também a Carta das Nações Unidas. Em que pese as pretensões de que se atua em nome de princípios tais como a liberdade e a democracia, a intervenção norte-americana teve, de forma repetida, consequências desastrosas: não só os milhões de mortos provocados por guerras diretas e indiretas, mas também as oportunidades perdidas. Esse “matar a esperança” de centenas de milhões de mortos que poderiam ter se beneficiado de políticas sociais progressistas como as empreendidas por líderes como Arbenz na Guatemala, Goulart no Brasil, Allende no Chile, Lumumba no Congo, Mossadeg no Irã, os sandinistas na Nicarágua ou o Presidente Chávez na Venezuela, que se viram sistematicamente subvertidos, derrotados ou assassinados com pleno apoio do Ocidente.

Mas isso não é tudo. Toda ação agressiva dirigida pelos EUA cria uma reação. A montagem de um escudo antimísseis produz mais mísseis, não menos. Bombardear civis – seja deliberadamente ou por meio dos chamados “danos colaterais” – produz maior resistência armada, não menos. Tratar de conspirar ou subverter governos provoca mais repressão interna, não menos. Incentivar minorias secessionistas dando-lhes a impressão, muitas vezes falsa, de que a única superpotência acudirá ao resgate em caso de repressão, conduz a maior violência, ódio e morte, não menos. Rodear um país de bases militares ocasiona maior gasto em defesa nesse país, não menos, e a posse de armas nucleares por parte de Israel anima outros estados de Oriente Médio a equipar-se com essas armas. Se o Ocidente hesita em atacar a Síria ou o Irã, se deve a que esses países são mais fortes e tem aliados mais confiáveis que a Iugoslávia ou a Líbia. Se o Ocidente se queixa do recente veto da Rússia e da China acerca da Síria não tem nada mais a fazer que culpar a si mesmo: é o resultado do descarado abuso por parte da OTAN da Resolução nº 1973, com o fim de levar a cabo uma mudança de regime, algo a que a resolução não autorizava. De modo que a mensagem enviada por nossa política intervencionista aos “ditadores” reza assim: melhor que estejam armados, façam menos concessões e construam melhores alianças.

Além disso, os desastres humanitários do Congo Oriental, que são provavelmente os maiores de décadas recentes, se devem principalmente a intervenções estrangeiras (principalmente de Ruanda, aliado dos EUA), não a sua ausência. Para tomar um caso extremo, que constitui um dos exemplos favoritos dos horrores citados pelos defensores das intervenções humanitárias, parece extraordinariamente improvável que os Khmer vermelhos houvessem chegado a tomar o poder no Camboja sem os massivos bombardeios “secretos” seguidos de uma mudança de regime preparada pelos EUA, que deixou esse infortunado país completamente desbaratado e desestabilizado.

Outro problema com o “direito de intervenção humanitária” é que não consegue sugerir nenhum princípio com o qual substituir a soberania nacional. Quando a OTAN exerceu seu autoproclamado direito a intervir no Kosovo, onde estava longe de esgotar os esforços diplomáticos, recebeu os parabéns dos meios de comunicação ocidentais. Quando a Rússia exerceu o que considerava sua responsabilidade de proteger na Ossétia do Sul recebeu a uniforme condenação desses mesmos meios ocidentais. Quando o Vietnã interveio no Camboja, pondo fim aos Khmer vermelhos, ou interveio na Índia para liberar Bangladesh do Paquistão, suas ações foram duramente condenadas nos EUA. Assim, qualquer outro país com meios para agir desse modo adquire o direito de intervir sempre que possa invocá-lo como justificativa, com o que voltamos à guerra de todos contra todos, ou só se permite atuar assim a um Estado todo poderoso, a saber, os EUA (e seus aliados) e voltamos a uma forma de ditadura nos assuntos internacionais.

Frequentemente, se responde que as intervenções não devem ser levadas a cabo por um só Estado, senão pela “comunidade internacional”. Mas o conceito de “comunidade internacional” se usa primordialmente por parte dos EUA e seus aliados com o fim de designar-se como tal a si mesmos e a quem se alie com eles nesse momento. Converteu-se em um conceito que rivaliza com as “Nações Unidas” (a “comunidade internacional” afirma ser mais “democrática” que muitos estados membros da ONU) que tenda a apoderar-se delas.

Na realidade, não há nada semelhante a uma autêntica comunidade internacional. A intervenção da OTAN em Kosovo não foi aprovada pela Rússia e a intervenção da Rússia na Ossétia do Sul foi condenada pelo Ocidente. Não se teria conseguido a aprovação do Conselho de Segurança em nenhum desses casos. A “Organização para a Unidade Africana” rechaçou a imputação do “Tribunal Penal Internacional” do Presidente do Sudão. Qualquer sistema de justiça, polícia internacional (diante da responsabilidade de proteger) ou Tribunal Penal Internacional, teria que basear-se em relação de igualdade e clima de confiança. Não há, hoje em dia, nem igualdade nem confiança entre Leste e Oeste, entre Norte e Sul, em boa medida como resultado do histórico das políticas norte-americanas. Para contar com alguma versão da responsabilidade de proteger, que seja consensualmente funcional no futuro, primeiro temos que construir uma relação de igualdade e confiança.

A aventura na Líbia ilustrou outra realidade convenientemente passada por alto pelos partidários da intervenção humanitária, a saber: que sem a volumosa máquina militar norte-americana não é possível o gênero de intervenção segura sem baixas (de nosso lado) e que possa esperar apoio público. Os países ocidentais não estão dispostos a arriscar o sacrifício de vidas entre suas tropas, e dispor de uma guerra puramente aérea requer enorme quantidade de equipamento de alta tecnologia. Quem apoia essas intervenções apoia, dando-se conta ou não, a continuidade da existência da máquina militar norte-americana, com seus inflados orçamentos e seu peso sobre a dívida nacional. Os "Verdes" e "socialdemocratas" europeus, que apoiaram a guerra na Líbia, deveriam ter a honestidade de dizer a seus eleitores que vão aceitar cortes massivos do gasto público em pensões, desemprego, atenção sanitária e educação com o fim de rebaixar os gastos sociais a um nível norte-americano e empregar os bilhões assim poupados para levantar um aparato militar que possa intervir quando queira e onde quer que se registre uma crise humanitária.

Se for verdade que o século XXI precisa de uma nova ONU, não a necessita para legitimar essas intervenções com argumentos novos, tais como a responsabilidade de proteger, mas para dar ao menos apoio moral a quem tenta defender um mundo menos dominado por uma só superpotência militar. As Nações Unidas têm que prosseguir seus esforços para alcançar seu propósito fundacional antes de assentar nova prioridade supostamente humanitária, que as Grandes Potências possam utilizar para justificar suas guerras no futuro, subvertendo os princípios de soberania nacional.

A esquerda deveria apoiar uma ativa política de paz mediante a cooperação internacional, o desarmamento e a não-intervenção dos estados nos assuntos internos dos demais. Poderíamos utilizar nossos desmesurados orçamentos militares para levar à prática uma forma de keynesianismo global: em vez de exigir “equilíbrio orçamentário” deveríamos empregar os recursos desperdiçados em nosso aparato militar para financiar investimentos massivos em educação, atenção sanitária e desenvolvimento. Se isso soa utópico, não o é mais que a crença de que vai surgir um mundo estável do modo em que se está conduzindo a “guerra contra o terror”.

Desse modo, a esquerda deveria se esforçar em estrito respeito pelo direito internacional, por parte dos poderes ocidentais, em aplicar as resoluções das Nações Unidas referentes a Israel, desmantelar o império norte-americano de bases em escala mundial, assim como da OTAN, fazer cessar todas as ameaças referentes ao uso unilateral da força, deter toda interferência nos assuntos internos de outros Estados, em particular todas as operações de “promoção da democracia”, as revoluções de “cores” e a exploração da política das minorias. Esse necessário respeito pela soberania nacional significa que o soberano último de cada nação é o povo desse Estado, cujo direito a substituir governos injustos não pode ser assumido por agentes externos supostamente benevolentes.

Objetar-se-á que dita política permitiria aos ditadores “assassinar o seu próprio povo”, lema que justifica atualmente a intervenção. Mas se a não-intervenção pode permitir que aconteçam coisas tão terríveis, a história mostra que a intervenção militar tem com frequência os mesmos resultados, quando os dirigentes e seus seguidores, encurralados, voltam sua ira sobre os “traidores” que apoiam a intervenção estrangeira. Por outro lado, a não-intervenção lhe poupa, à oposição interna, ser considerada uma quinta coluna das potências ocidentais, resultado inevitável de nossas políticas intervencionistas. Buscar ativamente soluções pacíficas permitiria reduzir os gastos militares e a venda de armas (entre outros, aos ditadores que possam utilizá-las para “assassinar seu próprio povo”) e empregar recursos para melhorar as condições sociais.

Chegados à atual situação, se deve reconhecer que o Ocidente esteve apoiando os ditadores árabes por uma série de razões, como o petróleo para Israel, e que essa política está afundando pouco a pouco. Mas a lição que devemos extrair não consiste em apressar-se em outra guerra na Síria, como fizemos na Líbia, sustentando que, desta vez, estamos no lado bom, defendendo a população contra os ditadores, mas reconhecer que já é hora de deixar de pensar que temos de controlar o mundo árabe. Na alvorada do século XX, a maioria do mundo se encontrava sob o controle europeu. O Ocidente acabará perdendo o controle sobre essa parte do mundo, como o perdeu na Ásia Oriental e o está perdendo na América Latina. Como irá se adaptar o Ocidente a seu declínio é a pergunta política crucial de nosso tempo.

E é pouco provável que respondê-la vá ser fácil ou agradável.”

FONTE: escrito por Jean Bricmont (1952), belga, especialista em física teórica e professor da Universidade Católica de Leuven. Trabalha em grupos de renormalização e equações diferenciais não lineares. É membro do Conselho Editorial de “SinPermiso”. Artigo publicado no site “Carta Maior” com tradução para o espanhol por Lucas Antón (para publicação no site www.sinpermiso.info), e tradução para o português por Libório Junior (para postagem no Carta Maior)  (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19680) [Imagens do google adicionadas por este blog ‘democracia&política’].