quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A PEC DA EMPRESA NACIONAL

“Em obediência ao ‘Consenso de Washington’, uma das primeiras iniciativas do governo entreguista e antinacional de Fernando Henrique Cardoso [PSDB/DEM/PPS] foi a de promover, em agosto de 1995 – oito meses depois da posse – a supressão do artigo 170 [da Constituição Federal de 1988], que definia o que se poderia considerar empresa brasileira e empresa nacional.


Por Mauro Santayana

[Este ano] o deputado Assis Melo, do PCdoB do Rio Grande do Sul, conseguiu aprovar, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, proposta de emenda constitucional que restaura o artigo 170 da Constituição Federal de 1988. É o dispositivo que define o que é empresa brasileira e o que é empresa nacional, distinguindo ambas das empresas estrangeiras e multinacionais.

Nem todos se lembram, hoje, da “Comissão de Estudos Constitucionais” que, sob a presidência do professor Afonso Arinos, elaborou proposta de anteprojeto da Constituição de 1988. Poucos – e sou um dos privilegiados –têm em seu poder o texto entregue solenemente ao Presidente Sarney, em 1986. Nele, se encontram os dispositivos mais importantes que os constituintes acolheriam no documento a que Ulysses Guimarães deu o nome de “Constituição Cidadã”.

Como membro daquele grupo - e pelo dever de ofício, por ter sido seu secretário executivo - registro que a defesa do interesse nacional prevaleceu, e de longe, nas discussões e na redação final do anteprojeto.

E entre os mandamentos que propúnhamos, houve um contra o qual ninguém se opôs, ainda que houvesse, entre nós, conservadores notórios e empresários associados a empreendedores estrangeiros. Trata-se do artigo 323, de nossa proposta, assim como foi redigido, por Barbosa Lima Sobrinho e aprovado por todos:

“Só se considerará empresa nacional, para todos os fins de direito, aquela cujo controle de capital pertença a brasileiros e que, constituída e com sede no País, nele tenha o centro de suas decisões”.

Os constituintes partiram da sugestão de Barbosa Lima Sobrinho e aprovaram os seguintes dispositivos, no texto original, de 5 de outubro de 1988:

“Art. 171. São consideradas:
I - empresa brasileira a constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País;
II - empresa brasileira de capital nacional aquela cujo controle efetivo esteja em caráter permanente sob a titularidade direta ou indireta de pessoas físicas domiciliadas e residentes no País ou de entidades de direito público interno, entendendo-se por controle efetivo da empresa a titularidade da maioria de seu capital votante e o exercício, de fato e de direito, do poder decisório para gerir suas atividades.
§ 1º A lei poderá, em relação à empresa brasileira de capital nacional:
 I - conceder proteção e benefícios especiais temporários para desenvolver atividades consideradas estratégicas para a defesa nacional ou imprescindíveis ao desenvolvimento do País;
 II - estabelecer, sempre que considerar um setor imprescindível ao desenvolvimento tecnológico nacional, entre outras condições e requisitos:
  a) a exigência de que o controle referido no inciso II do caput se estenda às atividades tecnológicas da empresa, assim entendido o exercício, de fato e de direito, do poder decisório para desenvolver ou absorver tecnologia;
  b) percentuais de participação, no capital, de pessoas físicas domiciliadas e residentes no País ou entidades de direito público interno.
§ 2º Na aquisição de bens e serviços, o poder público dará tratamento preferencial, nos termos da lei, à empresa brasileira de capital nacional”.

Em obediência ao ‘Consenso de Washington’, uma das primeiras iniciativas do governo entreguista e antinacional de Fernando Henrique Cardoso [PSDB/DEM/PPS] foi a de promover, em agosto de 1995 – oito meses depois da posse – a supressão do artigo 170 [da Constituição Federal de 1988], que definia o que se poderia considerar empresa brasileira e empresa nacional. Com isso, qualquer empresa que se organizasse no Brasil, como tantas o fizeram, e continuam a fazer, como subsidiária de sua matriz estrangeira, tem o mesmo tratamento das empresas realmente nacionais.

O então presidente abria caminho, com essa emenda, para o crime maior, o da privatização das empresas públicas. Com criminoso cinismo, as empresas estrangeiras que adquiriram o controle das empresas estatais brasileiras foram financiadas com o dinheiro do FAT (Fundo de Amparo aos Trabalhadores) administrado pelo BNDES. A primeira providência dessas empresas foi o da “reengenharia” administrativa, com a demissão de milhares de trabalhadores. Eles haviam financiado, com o FAT, a sua própria miséria.

Com o desastre que o neoliberalismo provocou no mundo e atinge, agora, os países centrais que supunham ganhar com a globalização, o Congresso tem a sua oportunidade de se redimir da vergonhosa capitulação de há 17 anos.

O momento é favorável a que a emenda do deputado Assis Melo tenha trâmite rápido no Congresso, para que não ocorra, de novo aqui, o que está ocorrendo com os povos europeus. É também um teste para a maioria parlamentar e para o próprio governo. Se a emenda do parlamentar gaúcho for rejeitada, o grande vencedor virá a ser o agente ostensivo, no Brasil, da ordem neoliberal – Fernando Henrique Cardoso.”

FONTE: escrito por Mauro Santayana, colunista político do “Jornal do Brasil”, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da “Ultima Hora” (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a “Folha de S. Paulo” (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte. Artigo transcrito no site “Carta Maior”  (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5877). [Imagem do Google e trechos entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].

MAIS TÉCNICOS QUALIFICADOS PARA O BRASIL

“Programa de rádio “Café com a Presidenta”, com a Presidenta da República, Dilma Rousseff (Rádio Nacional, 26 de novembro de 2012)


Luciano Seixas: Olá, bom dia! Eu sou o Luciano Seixas e começa agora mais um Café com a Presidenta Dilma. Bom dia, presidenta!

Presidenta: Bom dia, Luciano! E bom dia para você que nos acompanha aqui no Café!

Luciano Seixas: Presidenta, hoje, eu queria conversar com a senhora sobre um assunto muito importante, que é a competitividade da indústria brasileira e sobre o que o governo está fazendo para formar técnicos e qualificar nossos trabalhadores.

Presidenta: Olha, Luciano, esse assunto é mesmo muito importante, porque precisamos de uma indústria forte e competitiva para garantir o crescimento do país e a criação de oportunidades de trabalho para os brasileiros e as brasileiras. A indústria gera tecnologia, cria novos produtos e serviços, e estimula outros setores da economia, como o comércio e os serviços. Mas, para ter uma indústria forte, Luciano, o país precisa de mão de obra qualificado e de técnicos bem formados. Isso significa que, além de formar engenheiros, matemáticos, médicos e professores, o Brasil vai precisar formar também técnicos em Automação Industrial, Petróleo e Gás, Mineração, Mecatrônica, Manutenção de Aeronaves, Eletrônica, Indústria Naval, Computação e muitas outras áreas.

Luciano Seixas: Como estão sendo formados esses profissionais, presidenta?

Presidenta: Olha, Luciano, você sabe que uma das prioridades do meu governo é ampliar o acesso e estimular o interesse dos jovens para a educação técnica e profissionalizante. Já falamos aqui várias vezes sobre o “Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego”, o PRONATEC. Com esse programa, Luciano, nós vamos criar 8 milhões de vagas nos cursos técnicos e de qualificação profissional até 2014. Hoje, nós já temos 2,2 milhões de jovens e trabalhadores nos cursos do PRONATEC. Uma iniciativa importantíssima, Luciano, dentro do PRONATEC, é a parceria estratégica que nós firmamos com o “Sistema S”, principalmente com o SENAI, que tem uma grande experiência e é referência em educação profissional e tecnológica no Brasil. Para você ter uma ideia, Luciano, do ano passado para cá, 1,1 milhão de jovens e trabalhadores fizeram a matrícula para estudar de graça no SENAI, nos cursos técnicos, nos cursos de aprendizagem profissional e nos cursos de qualificação.

Luciano Seixas: A rede de escolas do SENAI oferece muitas vagas, não é mesmo, presidenta?

Presidenta: O SENAI oferece, sim, e vai oferecer ainda mais, porque nós estamos ajudando o SENAI a expandir as suas escolas. Estamos financiando R$ 1,5 bilhão para o SENAI investir na construção de 53 novas escolas e também na modernização e na ampliação de 251 escolas já existentes. Essa parceria, Luciano, vai garantir que, juntos, governo e SENAI, formem nova geração de jovens, de trabalhadores em cursos de alta qualidade e sintonizados com as necessidades da indústria brasileira. Eu tive o prazer de conhecer muitos desses jovens lá na “Olimpíada do Conhecimento”, que eu visitei, na metade de novembro, em São Paulo. Eu vi, Luciano, como esses meninos são exemplos de criatividade, persistência e muito entusiasmo.

Luciano Seixas: Conta para a gente, presidenta, como é que é a “Olimpíada do Conhecimento”.

Presidenta: Olha, Luciano, a “Olimpíada do Conhecimento” é evento interessantíssimo. Veja só, é competição que desafia os alunos do SENAI a encontrar, com rapidez e eficiência, soluções para os problemas que aparecem todos os dias nas empresas. Eles usam tudo aquilo que aprenderam nas aulas práticas e nos laboratórios para solucionar os problemas e melhorar o processo produtivo. Isso é ótimo, Luciano, porque, quando a gente estimula a criatividade dos jovens para buscar soluções para os problemas, eles criam, eles inovam. O que a “Olimpíada do Conhecimento” faz é estimular a capacidade dos nossos jovens de criar tecnologias para a indústria do futuro.

Luciano Seixas: A “Olimpíada do Conhecimento” deve ter histórias muito interessantes, não é mesmo, presidenta?

Presidenta: Olha, Luciano, tem sim. Eu vou te contar uma delas, que é a do Paulo Kazuo, que tem apenas 20 anos e é técnico, Luciano, em Mecânica de Precisão, em São Paulo. O Paulo fez o curso técnico de dois anos no SENAI, e veja só, ganhou a medalha de ouro na “Olimpíada do Conhecimento”, porque conseguiu desenvolver um braço robótico, que é um equipamento muito usado nas nossas fábricas, as mais modernas. Esse equipamento, Luciano, suporta cargas muito pesadas e longas jornadas e, por isso, ajuda a aumentar a produtividade das indústrias. Agora, Luciano, o Paulo quer trabalhar em uma das nossas indústrias, desenvolvendo projetos nessa área da Mecânica de Precisão, que é uma tecnologia impressionante. Jovens como o Paulo, Luciano, fazem a diferença nas nossas empresas. Um país que aposta na educação profissional e que tem indústria forte e competitiva consegue crescer, se desenvolver, gerar mais oportunidades, mais renda e emprego de qualidade. Com isso, nós podemos melhorar a vida de todos, não apenas a do Paulo.

Luciano Seixas: Presidenta, a educação profissional, realmente, faz a diferença. Agora, infelizmente, o nosso tempo hoje chegou ao fim. Obrigado por mais esse “Café”.

Presidenta: Olha, Luciano, eu que agradeço a sua companhia. Uma boa semana para você, Luciano, e para todos os nossos ouvintes!

Luciano Seixas: Obrigado, presidenta. E o “Café com a Presidenta” também pode ser acessado pela internet, o endereço é www.cafe.ebc.com.br. Nós voltamos na próxima segunda-feira. Até lá.”

FONTE: Blog do Planalto  (http://blog.planalto.gov.br/ampliar-acesso-dos-jovens-ao-ensino-profissionalizante-e-prioridade-do-governo-afirma-dilma/#more-52818).

"O DIA QUE DUROU 21 ANOS" REMONTA A PARTICIPAÇÃO DOS EUA NO GOLPE DE 64

John Kennedy e o embaixador norte-americano no Brasil  

“O documentário "O dia que durou 21 anos", dirigido por Camilo Tavares, explicita a participação ativa dos EUA no golpe de 1964 com uma contundência inédita no Brasil. O trabalho de pesquisa de três anos rendeu aos organizadores do filme materiais secretos da CIA, telegramas e até gravações telefônicas entre o embaixador norte-americano no Brasil e os presidentes dos EUA John Kennedy e Lyndon Johnson.


Por Fábio Nassif

Que os Estados Unidos da América contribuíram com o golpe militar de 1964 no Brasil todos sabem. Mas o documentário “O dia que durou 21 anos”, dirigido por Camilo Tavares, explicita isso com uma contundência inédita no Brasil. O trabalho de pesquisa de três anos rendeu aos organizadores do filme materiais secretos da CIA, telegramas e até gravações telefônicas entre o embaixador norte-americano no Brasil e os presidentes dos EUA John Kennedy e Lyndon Johnson. As conversas mostram o passo a passo do golpe e o reconhecimento dele.

O documentário introduz o contexto vivido no Brasil desde João Goulart e suas tentativas de aplicação das chamadas “Reformas de Base”, até a reação estadunidense ao encaixá-lo como um comunista semelhante a Fidel Castro. Com forte participação dos embaixadores no Brasil, de institutos – como o “Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais” (IPES) e “Instituto Brasileiro de Ação Democrática” (IBAD) – o golpe é tratado no filme de maneira direta, expondo os interesses econômicos dos EUA no Brasil e o investimento financeiro aplicado para, por exemplo, comprar parlamentares brasileiros.

Historiadores e personalidades conduzem a narrativa, com ajuda de fotos da época animadas, áudios, imagens de documentos e filmagens do período. Um trabalho de fôlego, que preenche a “7ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul” com conteúdo, contribuindo para a construção da história do país. O documentário buscará a distribuição comercial para abril de 2013.

Veja a entrevista que Camilo concedeu à “Carta Maior” e confira a programação da “Mostra” no site  (www.cinedireitoshumanos.org.br):

-Por que escolheu dar o enfoque do documentário na atuação norte americana no golpe de 64?

Camilo Tavares: A riqueza do material encontrado nos levou a essa opção. Tanto os telegramas da CIA, como as conversas da Casa Branca, assim como os incríveis programas de TV produzidos pela CBS (em 1961) para convencer a opinião pública dos EUA.

-Acredita que, no Brasil, há uma percepção comum dessa participação ativa dos presidentes norte-americanos no golpe?

Camilo Tavares: Há muito pouco conhecimento do assunto. Esse foi um dos objetivos do filme. Nossa meta é que o filme, que teve patrocínio do Ministério da Cultura e da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, via Eletrobras, SABESP e CESP, seja distribuído na rede de ensino público com foco no público jovem que precisa conhecer melhor nossa história. E, também, do público adulto em geral que viveu a ditadura militar mas não conhece a dimensão dos interesses dos EUA em nosso país.

-O documentário traz uma série de documentos secretos do governo dos EUA e da CIA, além de gravações entre embaixadores e os presidentes dos EUA. Como foi o processo de pesquisa? Quanto tempo durou, como foram adquiridos esses materiais e como foi organizado? A divulgação desse material é considerada inédita no Brasil?

Sim é inédita no sentido do volume de informações. Tivemos apoio de historiadores muito antenados como Carlos Fico (UFRJ) que pesquisou os arquivos e publicou dois livros sobre o assunto, Peter Kornbluh (NARA_Washington) e da jornalista e escritora Denise Assis que fez a pesquisa do IPES e IBAD. A Pequi Filmes , minha produtora, arcou um árduo e custoso trabalho de 3 anos para levantar todo o material de arquivo. Aliás, temos um rico material suficiente para novas séries de TV ou filmes longa-metragem das relações Brasil, EUA e América Latina.

-O documentário traz, também, dois aspectos interessantes: a insistência do interesse financeiro dos governos norte-americanos em apoiar o golpe militar e a suposta falta de controle de pessoas que apoiaram o golpe, mas não concordavam com torturas, prisões e outras medidas autoritárias. Acredita que os objetivos norte-americanos foram atingidos ou em algum momento houve um descompasso com os interesses dos militares brasileiros?

Os militares brasileiros fizeram exatamente o que os americanos queriam. Entregaram nosso mercado para os EUA e adotaram o modelo de desenvolvimento financiado pelas empresas americanas, que hoje são as grandes empresas do Brasil nos setores estratégicos da economia. A primeira medida do Presidente Castelo Branco ao assumir foi acabar com a lei que limitava a remessa de lucros excessivos das empresas americanas ao EUA. Ou seja, abriu as portas , como diz a música do Raul Seixas: "a solução é alugar o Brasil". E, alias, como será que está esta lei de remessa de lucros atualmente?

-Foram colhidos depoimentos de militares. Com que objetivo buscou isso?

Esse foi o grande desafio ouvir a voz dos militares, como o Ministro Jarbas Passarinho, General Newton Cruz, Almirante Bierrenbach e também dos militares que apoiavam João Goulart, como Capitão Ivan Proença e o Brigadeiro Rui Moreira Lima.

-Qual papel o documentário em si e o cinema em geral podem ter para a promoção dos direitos humanos no Brasil?

Considero essencial.”

FONTE (do texto): entrevista com Camilo Tavares conduzida por Fábio Nassif da “Carta Maior” (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21318).
FONTE (do vídeo, acrescentado por este blog 'democracia&política'): (http://www.cultura.rj.gov.br/materias/parceria-entre-pai-e-filho).

IMPRESSÕES DE UMA VISITA [AO GUETO DE] GAZA

Noam Chomsky na Faixa de Gaza

Por Noam Chomsky

“Uma noite encarcerado é o bastante para que se conheça o sabor de estar sob total controle de uma força externa. E dificilmente demora mais de um dia em Gaza para que se comece a perceber como é tentar sobreviver na maior prisão a céu aberto do mundo. Na Faixa de Gaza, a área de maior densidade populacional do planeta, um milhão e meio de pessoas estão constantemente sujeitas a eventuais e amiúde ferozes e arbitrárias punições, cujo propósito não é senão humilhar e rebaixar a população palestina e ulteriormente garantir, tanto o esmagamento das esperanças de um futuro decente, quanto a nulidade do vasto apoio internacional para um acordo diplomático que sancione o direito a essas esperanças.

O comprometimento a isso por parte das lideranças políticas israelenses foi ilustrado expressivamente nos últimos dias, quando eles advertiram que ‘enlouqueceriam’ se os direitos palestinos fossem reconhecidos, mesmo que limitadamente, pela ONU. Essa postura não é nova. A ameaça de ‘enlouquecer’ (‘nishtagea’) tem raízes profundas, lá nos governos trabalhistas dos anos 1950 e em seus respectivos “complexos de Sansão”: “se nos contrariarem, implodimos as paredes do Templo à nossa volta”. À época, essa ameaça era inútil; hoje não é mais.

A humilhação deliberada também não é nova, apesar de adquirir novas formas constantemente. Há trinta anos, líderes políticos, inclusive alguns dos mais notórios ‘falcões’ (sionistas mais conservadores), apresentaram ao primeiro-ministro um relato detalhado de como colonos regularmente violavam palestinos da forma mais vil e com total impunidade. A proeminente analista Yoram Peri notou com repugnância que a tarefa do exército não é a de defender o Estado, mas de “acabar com os direitos de pessoas inocentes somente porque são 'araboushim' (uma ofensa racial) vivendo numa terra que Deus nos prometeu”.

O povo de Gaza foi selecionado para punições particularmente cruéis. É quase miraculoso que eles suportem tal existência. Raja Shehadeh descreveu como eles o fazem num eloquente livro de memórias, “A Terceira Via”, escrito há 30 anos. O texto relata seu trabalho como advogado empenhado na tarefa de tentar proteger direitos elementares num sistema legal feito para ser insuficiente, além de sua experiência como um resistente que vê sua casa tornar-se uma prisão por ocupantes violentos e nada pode fazer além de “aguentar”.

A situação piorou muito desde o texto de Shehadeh. Os “Acordos de Oslo”, celebrados com muita cerimônia em 1993, determinaram que Gaza e a Cisjordânia eram uma só entidade territorial. Os EUA e Israel puseram sua estratégia de separá-los para funcionar, já naquela época, de forma a barrar um acordo diplomático e punir os “araboushim” em ambos os territórios.

A punição aos moradores de Gaza tornou-se ainda mais severa em janeiro de 2006, quando eles cometeram um crime hediondo: votaram no “lado errado” na primeira eleição do mundo árabe, elegendo o Hamás. Demonstrando seu amor pela democracia, os EUA e Israel, apoiados pela tímida União Europeia, impuseram um sítio brutal e ataques militares ostensivos logo de cara. Os norte-americanos também imediatamente recorreram ao procedimento operacional padrão [da direita, em todo o mundo] para momentos em que populações desobedientes elegem o "governo errado": prepararam um golpe militar para restabelecer a ordem.

O povo de Gaza cometeu um crime ainda pior um ano depois. Barraram a tentativa de golpe, levando a forte escalada do sítio e das ofensivas militares. Isso culminou, no inverno de 2008-9, na “Operação Chumbo Fundido”, um dos mais covardes e perversos exercícios de poder militar na memória recente, na qual uma população civil sem defesa e enclausurada ficou sujeita à implacável ofensiva de um dos mais avançados sistemas militares do mundo, que conta com o apoio das armas e da diplomacia estadunidense. Um testemunho inesquecível do morticínio – infanticídio, nas palavras deles – é o livro “Eyes in Gaza”, de dois corajosos doutores noruegueses, Mads Gilbert e Erik Fosse, que, à época, trabalhavam no principal hospital de Gaza.

O Presidente Obama não foi capaz de dizer uma palavra além de reiterar sua sincera simpatia pelas crianças sob ataque – na cidade israelense de Sderot... A investida minuciosamente planejada foi levada a cabo justamente antes do empossamento de Barack, assim ele pôde dizer que era hora de vislumbrar o futuro, não o passado.

Obviamente, havia pretextos – sempre há. O de costume, apresentado assim que necessário, é a “segurança”: nesse caso, os foguetes caseiros de Gaza. Como de costume, também, o pretexto carecia de credibilidade. Em 2008, estabeleceu-se uma trégua entre Israel e o Hamás. E o governo israelense reconheceu formalmente que o Hamás cumpriu a trégua. Nenhuma bomba do Hamás foi disparada até que Israel rompeu a trégua, encoberto pelas eleições presidenciais norte-americanas de 4 de novembro de 2008, invadindo Gaza por motivos ridículos e matando meia-dúzia de membros do Hamás. O governo de Israel foi aconselhado por suas mais altas autoridades de inteligência de que a trégua poderia ser retomada por suavizar o bloqueio criminoso e acabar com as ofensivas militares. Mas o governo de Ehud Olmert, por reputação um “pombo” (termo para os sionistas “moderados”), preferiu rejeitar essas opções e lançar mão de sua enorme vantagem no quesito violência: a “Operação Chumbo Fundido”.

O modelo de bombardeio da “Operação Chumbo Fundido” foi analisado cuidadosamente pelo respeitado defensor dos direitos humanos Raji Sourani, natural de Gaza. Ele aponta que o bombardeio concentrou-se ao norte, mirando civis indefesos nas áreas de maior densidade populacional, sem qualquer desculpa do ponto de vista militar. O objetivo, ele sugere, talvez tenha sido mover a população intimidada para o sul, próximo à fronteira com o Egito. Mas, apesar da avalanche terrorista, os resistentes não se moveram.

Outro objetivo, provavelmente, era movê-los para lá da fronteira. Desde o início da colonização sionista, dizia-se que os árabes não tinham motivo para estar na Palestina. Eles podiam continuar felizes noutro lugar e deveriam ser “transferidos” de maneira educada, sugeriam os pombos. Essa, que claramente não é uma preocupação menor do governo egípcio, talvez seja a razão pela qual o Egito não abre sua fronteira, seja para civis, seja para os suprimentos dos quais o país necessita desesperadamente.

Sourani e outras fontes dignas de reconhecimento notam que a disciplina dos resistentes oculta um barril de pólvora que pode explodir inesperadamente, como aconteceu na primeira “Intifada” em Gaza em 1989, após anos de repressão indigna de qualquer interesse ou nota.

Só para mencionar um dos inumeráveis casos, pouco antes da eclosão da “Intifada”, uma menina palestina, Intissar al-Atar, foi assassinada no pátio da escola pelo morador de um assentamento judeu próximo. Ele era um dos milhares de colonos israelenses trazidos para Gaza, o que violava leis internacionais, sob proteção da enorme presença de um exército que assumiu o controle das terras e da escassa água da Faixa. O assassino da estudante, Shimon Yifrah, foi preso. No entanto, foi solto rapidamente quando o tribunal determinou que “o delito não foi severo o suficiente” para justificar a detenção. O juiz comentou que Yifrah só pretendia assustar a garota por atirar na direção dela, não matá-la, assim, “o caso não é o de um criminoso que deve ser punido com um aprisionamento”. Yifrah recebeu uma pena suspensa de 7 meses, o que levou os outros colonos presentes à sala de tribunal a dançar e cantar. E o silêncio, para variar, reinou. Afinal, a rotina é essa.

Assim que Yifrah foi libertado, a imprensa israelense reportou que uma patrulha armada atirou no pátio de um colégio para meninos de 6 a 12 anos num campo de refugiados da Cisjordânia, ferindo cinco crianças. O ataque só pretendia “assustá-los”. Não houve punições e o evento, para variar, não atraiu atenção. Era só mais um episódio do programa de “analfabetismo como punição”, disse a imprensa israelense, programa que incluía o fechamento de escolas, uso de bombas de gás, espancamento de estudantes a coronhadas, bloqueio de auxílio médico para vítimas; e para além das escolas predominou a mesma brutalidade, que até asseverou-se durante a “Intifada”, sob ordens do Ministro da Defesa Yitzhak Rabin, outro bem conceituado “pombo”.

Minha impressão inicial, depois de uma visita de alguns dias, foi de admiração ao povo palestino. Não só pela habilidade de levar a vida, mas também pela vitalidade da juventude, particularmente a universitária, com a qual eu passei um bom tempo numa conferência internacional. Mas também fui capaz de perceber que a pressão pode tornar-se grande demais. Relatos apontam que, entre a população masculina jovem, há uma frustração crescente e o reconhecimento de que, sob comando dos EUA e de Israel, o futuro não é promissor.

A Faixa de Gaza parece uma típica sociedade de terceiro mundo, com bolsões de riqueza rodeados por uma pobreza medonha. Não é, entretanto, um lugar “subdesenvolvido”. Na verdade, é “des-desenvolvido”, e de maneira muito sistemática, pegando emprestado um termo de Sara Ray, a maior especialista acadêmica em Gaza. Gaza poderia ter se tornado uma região mediterrânea próspera, com rica agricultura, promissora indústria pesqueira, praias maravilhosas e, como descobriu-se há dez anos, a perspectiva de extensa reserva de gás natural dentro dos limites de suas águas. Coincidentemente ou não, foi há uma década que Israel intensificou seu bloqueio naval, levando navios pesqueiros em direção à costa.

As perspectivas favoráveis foram frustradas em 1948, quando a Faixa tornou-se abrigo da enxurrada de refugiados palestinos que fugiram ou foram expulsos à força do que hoje é Israel.

Na verdade, eles continuaram sendo expulsos quatro anos depois, como informou no periódico [israelense] “Ha’aretz” (25.12.2008) o estudioso Beni Tziper. Ele afirma que, já em 1953, “avaliava-se necessário varrer os árabes da região”.

Isso foi em 1953, quando a necessidade de militarização ainda não se insinuava. As conquistas israelenses de 1967 ajudaram a administrar os golpes posteriores. Vieram então os terríveis crimes já mencionados, que continuam até hoje.

É fácil notar os sinais de tais crimes, mesmo numa visita breve. Num hotel perto da costa pode-se ouvir as metralhadoras israelenses empurrando pescadores para fora das águas de Gaza, em direção à própria costa. Assim, eles são levados a pescar em águas que estão poluidíssimas porque norte-americanos e israelenses não permitem a reconstrução dos sistemas de esgoto e energia que eles próprios destruíram.

Os “Acordos de Oslo” planejavam duas usinas de dessalinização, imprescindíveis em função da aridez da região. Uma, instalação muito avançada, foi construída – em Israel. A segunda é em Khan Yunis, sul da Faixa de Gaza. O engenheiro encarregado de tentar obter água potável para a população explicou que essa usina foi projetada de forma tal que é incapaz de usar água do mar, ela depende de reservas subterrâneas, um sistema mais barato que, no entanto, degrada o aquífero já deficiente. Mesmo assim, a água é limitadíssima. A “Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina” (UNRWA), que cuida dos refugiados (mas não dos outros moradores de Gaza), recentemente lançou um relatório advertindo que os danos ao aquífero podem, em breve, tornar-se “irreversíveis”, e que, sem ações reparadoras, Gaza talvez deixe de ser um “local habitável” em 2020.

Israel permite a entrada de concreto para projetos da UNRWA, mas não para os palestinos comprometidos com as enormes necessidades de reconstrução. O equipamento pesado permanece ocioso a maior parte do tempo, já que Israel não permite materiais para reparo. Tudo isso é parte do programa descrito por Dov Weisglass, conselheiro do primeiro-ministro Ehud Olmert, depois de os palestinos terem deixado de seguir certas ordens na eleição de 2006: “a ideia”, disse ele, “é aplicar uma dieta aos palestinos, mas não deixá-los morrer de fome”. Não seria de bom tom.

O plano está sendo seguido conscienciosamente. Sara Roy nos dá vasta evidência disso em seus estudos. Recentemente, após anos de esforços, a “Gisha”, organização israelense pelos direitos humanos, conseguiu obter uma ordem judicial exigindo que o governo divulgue os planos da “dieta”. Jonathan Cook, jornalista em Israel, assim os resume: “oficiais de saúde forneceram cálculos do número mínimo de calorias que Gaza precisa para que os 1,5 milhão de habitantes não fiquem desnutridos. Esse número traduziu-se no número de caminhões de comida que Israel supostamente permite a cada dia, uma média de apenas 67 caminhões – bem menos do que a metade do requerido. E que se compare com isso os 400 caminhões diários de antes do bloqueio”. Segundo relatórios da ONU, mesmo essas estimativas são bastante generosas.

O resultado da imposição da dieta, observa o especialista em Oriente Médio Juan Cole, é que “cerca de 10% das crianças palestinas com menos de cinco anos tiveram seu crescimento atrofiado pela desnutrição. Além disso, a anemia hoje afeta dois terços das crianças mais jovens, 58,6% das crianças em idade escolar e mais de um terço das grávidas”. Os EUA e Israel querem ter certeza de que nada além da mera sobrevivência seja possível.

“O que devemos ter em mente”, diz Raji Sourani, “é que a ocupação e o encerramento absoluto é um ataque em andamento contra a dignidade humana do povo de Gaza em particular, e contra os palestinos em geral. É degradação, humilhação, isolamento e fragmentação sistemática do povo palestino”. Essa conclusão é confirmada por muitas outras fontes. Em um dos mais importantes periódicos médicos do mundo, “The Lancet”, um físico de Stanford, horrorizado com o que viu, descreveu a Faixa de Gaza como um tipo de “laboratório de observação da completa ausência de dignidade”, condição que tem efeitos “devastadores” sobre o bem-estar físico, mental e social da população. “A constante vigilância vinda do céu, punições coletivas por bloqueios e isolamentos, invasão de lares e de sistemas de comunicação, além de restrições aos que tentam viajar, casar ou trabalhar, tornam difícil viver de maneira digna em Gaza”.

Havia esperanças de que o novo governo egípcio de Mohammed Mursi, menos servil à Israel do que a ditadura de Mubarak, pudesse abrir a Travessia de Rafah, única saída de Gaza que não está sujeita a controle israelense direto. Até houve uma pequena abertura. A jornalista Leila el-Haddad escreve que a reabertura sob Mursi “é simplesmente um retorno ao status quo de anos anteriores: somente os palestinos portadores de identidades de Gaza ‘aprovadas por Israel’ podem usar a Travessia”, o que exclui, inclusive, a família da jornalista.

Ademais, continua Leila, “Rafah não leva à Cisjordânia e não permite o transporte de bens, restrito às travessias controladas por Israel e sujeito às proibições a materiais de construção e exportação”. A restrição à Travessia de Rafah não muda o fato, também, de que “Gaza permanece sob apertado sítio marítimo e aéreo e fechada para qualquer capital cultural, econômico ou acadêmico que venha do resto dos territórios palestinos, o que viola as obrigações dos EUA e de Israel segundo o “Acordo de Oslo”.

Os efeitos disso são dolorosamente evidentes. No hospital de Khan Yunis, o diretor, que também é cirurgião-chefe, descreve enfurecido tanto a falta de remédios para aliviar o sofrimento dos pacientes, quanto a dos equipamentos cirúrgicos mais simples.

Relatos pessoais dão vivacidade à corrente aversão à obscenidade da ocupação. Um exemplo é o testemunho de uma jovem que desesperou-se quando seu pai, que se orgulharia ao saber que sua filha foi a primeira mulher do campo de refugiados a receber um diploma avançado, “faleceu após seis meses de luta contra o câncer, aos 60 anos. A ocupação israelense negou que ele fosse aos hospitais de Israel para tratar-se. Eu tive de suspender meus estudos, meu trabalho e minha vida para ficar ao lado de sua cama. Todos nós, incluindo meu irmão e minha irmã, sentamo-nos ao lado de meu pai, assistindo seu sofrimento, impotentes e sem esperança. Ele morreu durante o desumano bloqueio a Gaza no verão de 2006, com pouquíssimo acesso a serviços de saúde. Sentir-se impotente e sem esperança é o sentimento mais terrível que alguém pode ter. É um sentimento que mata o espírito e quebra o coração. Podemos lutar contra a ocupação, mas não podemos lutar contra o sentimento de impotência. Não se pode nem dissolver esse sentimento.

Aversão à obscenidade combinada com culpa: nós podemos acabar com esse sofrimento e permitir aos resistentes a vida de paz e dignidade que eles merecem.”

FONTE: escrito por Noam Chomsky, que visitou a Faixa de Gaza nos dias 25 a 30 de outubro. Artigo transcrito no site “Carta Maior” com tradução de André Cristi. O autor é filósofo, linguista e historiador norte-americano  (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21304). [Título modificado por este blog 'democracia&política'].

Israel x Palestina: “PAZ, DE UMA VEZ POR TODAS!

Uri Avnery
Por Uri Avnery, no “Gush Shalom” [Bloco da Paz], de Israel

O MANTRA, DESSA VEZ, FOI “DE UMA VEZ POR TODAS”.

“Temos de por fim nisso (nos foguetes, no Hamás, nos palestinos, nos árabes?), de uma vez por todas!” – eis o grito que se ouvia, dúzia de vezes por dia nas televisões, dos moradores das cidades e vilas duramente atingidas do sul de Israel.

A ponto de o novo mantra ter deslocado o slogan que dominou durante várias décadas: “Atirar e acabar com aquilo!”

ABSOLUTAMENTE NÃO FUNCIONOU. O HAMÁS VENCEU.

O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamás.

Antes desse round, o Hamás era presença importante na Faixa de Gaza, mas praticamente não era visto como organização com estatura internacional. A face internacional do povo palestino era a “Autoridade Nacional Palestina” de Mahmoud Abbas.

Era. Não é mais.

A “Operação Pilar de Nuvem” deu amplo reconhecimento internacional ao miniestado do Hamás em Gaza. (“Pilar de Nuvem” é o nome oficial em hebraico, embora o porta-voz do exército tenha decretado que o nome em inglês, para consumo de estrangeiros, deveria ser “Pilar da Defesa”).

Chefes de vários estados e muitos ministros e dignitários estrangeiros já fizeram a necessária peregrinação à Faixa.

Primeiro, chegou o poderoso e imensamente rico emir do Qatar, proprietário da rede “Al- Jazeera”. Foi o primeiro chefe de Estado a pôr os pés na Faixa de Gaza. Depois, chegaram o primeiro-ministro egípcio, o ministro de Relações Exteriores da Tunísia, o secretário da Liga Árabe e vários ministros de Relações Exteriores de países árabes (exceto o de Ramallah).

Em todas as deliberações diplomáticas, Gaza foi tratada como Estado de facto, com governo de facto (o Hamás). Nem a mídia israelense escapou. Os israelenses, rapidamente, perceberam que qualquer acordo, para ser efetivo, teria de ser construído com o Hamás.

Entre o povo palestino, o prestígio e a estatura do Hamás alcançaram as alturas. Só a Faixa de Gaza, menor que qualquer condado médio dos EUA, sobrepôs-se a toda a gigante máquina de guerra dos israelenses, das maiores e mais eficientes do mundo. O exército de Israel não sucumbiu apenas. O resultado militar só pode ser apresentado (e com boa vontade a favor de Israel), como empate.

E empate entre a minúscula Gaza e a poderosa Israel significa vitória de Gaza.

Ehud Barak
Quem lembra hoje a orgulhosa fala de Ehud Barak, no meio da guerra: “Não devemos parar até que o Hamás seja posto de joelhos e suplique por um cessar-fogo”?

E em que ponto disso tudo fica Mahmoud Abbas? De fato, não fica em ponto algum. Abbas sumiu.

Para qualquer palestino comum, esteja em Nablus, Gaza ou Beirute, o contraste é flagrante: o Hamás tem orgulho, coragem, decisão; e o Fatah é frágil, vulnerável, submisso e ignorado. Na cultura árabe, honra e orgulho têm papel central.

Depois de mais de meio século de humilhação, qualquer palestino que tenha lutado contra a ocupação é herói das massas árabes, dentro e fora do país. Abbas está identificado só com a íntima colaboração entre suas forças de segurança e o odiado exército israelense ocupante. E, fato decisivo: Abbas nada tem para mostrar, como resultado de tão dedicada colaboração com a potência ocupante.

Mahmoud Abbas
Se Abbas pudesse exibir, pelo menos, uma grande realização política em troca do muito que padeceu, a situação talvez fosse outra. Os palestinos são gente sensível. Se Abbas tivesse dado, pelo menos, um passo que o aproximasse de ter conseguido qualquer coisa que se assemelhasse a algum estado palestino, a maioria dos palestinos provavelmente diriam: “não tem lá muito glamour, mas, pelo menos, cumpre o que promete”.

Pois está acontecendo exatamente o contrário. O Hamás armado consegue resultados; Abbas e a não-violência nada conseguem. Como me disse um palestino: “Ele (Abbas) deu tudo a eles (aos israelenses), calma e segurança. E o que obteve [ou continua a obter] em troca? Os israelenses cospem na cara dele!”.

Essa mais recente rodada de violência reforçará uma convicção de todos os palestinos: “Os israelenses só entendem a linguagem da violência!” (Israelenses, claro, dizem o mesmo dos palestinos).

Se, pelo menos, os EUA permitissem a Abbas obter o reconhecimento da Palestina como estado não-membro, como observador, por resolução da ONU, Abbas ainda teria algo a apresentar para se promover frente ao Hamás. Mas o governo de Israel está decidido a impedir, custe o que custar, que esse reconhecimento aconteça.

Barack Obama
E Barack Obama, que já depois de reeleito decidiu bloquear todos os esforços dos palestinos na ONU, está, de fato, assegurando seu apoio ao Hamás... o que implica que esbofeteia os “moderados”. A superficial, rápida, descuidosa visita de Hillary Clinton a Ramallah essa semana [que passou] foi interpretada nesse contexto.

Examinada de fora, vê-se essa atitude de Israel e dos EUA como o que é: completa loucura. Por que minar a influência dos “moderados” que querem e são capazes de fazer a paz? Por que promover os “extremistas” que se opõem à paz?

A resposta veio, plenamente declarada, da boca de Avigdor Lieberman, hoje o Nº 2 de Netanyahu no campo político: Lieberman quer destruir Abbas, anexar a Cisjordânia e abrir o caminho para os colonos.

DEPOIS DO HAMÁS, O MAIOR VENCEDOR É MOHAMED MURSI.

Aí está outro resultado quase inacreditável. Quando Mursi foi eleito presidente do Egito, a Israel oficial entrou em estado de histeria. Que horror! Os extremistas islâmicos tomaram o poder no mais importante país árabe! Nosso tratado de paz com nosso maior vizinho foi-se pelo ralo! Nos EUA, a reação foi praticamente idêntica a essa.

E hoje – quase quatro meses depois – aí está Israel, a ouvir com máxima atenção e reverência cada fala de Mursi. Mursi, ele, o homem que conseguiu pôr fim à destruição e à matança mútuas! Mursi, o grande pacificador! Mursi, o único homem capaz de fazer a mediação entre Israel e o Hamás! Mursi, o avalista do acordo de cessar-fogo!

É possível tal coisa? Será que falamos do mesmo homem? Do mesmo Mursi? Da mesma “Fraternidade Muçulmana”?

Mohamed Mursi
Mursi, 61 anos – cujo nome completo é Mohamed Mursi Isa al-Ayyad (Isa é a palavra, em árabe, para “Jesus”, que é um dos profetas do Islã) – é figura absolutamente desconhecida no cenário mundial. Apesar disso, hoje, todos os principais líderes políticos do mundo confiam integralmente nele.

Quando eu festejei, de todo o coração, a “Primavera Árabe”, tinha em mente gente como esse homem. Agora, praticamente todos os jornalistas, analistas, comentaristas, ex-generais e políticos israelenses, que, antes, diziam os maiores disparates e “alertavam” contra os novos políticos árabes, não se cansam de elogiar o sucesso do acordo de cessar-fogo.

Durante a operação “Pilar de Nuvem”, fiz o que sempre faço nessas situações: assisto, alternadamente, aos canais israelenses de televisão e à rede “Al-Jazeera”. Volta e meia, quando me distraio e volto repentinamente a prestar atenção à televisão, fico sem saber onde estou, se lá, se cá.

Mulheres em prantos, feridos carregados, casas em ruínas, sapatinhos de crianças espalhados entre os escombros, famílias com malas às costas, tentando escapar. Cá, como lá, as cenas se assemelham. Mas, sim: morreram 30 vezes mais palestinos que israelenses – em parte por efeito do “Domo de Ferro” dos israelenses, de interceptação de mísseis, enquanto os palestinos estavam absolutamente sem defesa alguma.

Na 4ªfeira, fui convidado para um programa a ser exibido pelo “Channel 2”, o mais popular (e o mais patriótico-nacionalista) em Israel. O convite, como já aconteceu várias vezes, foi cancelado no último momento. Se tivesse ido ao tal programa, só teria uma pergunta a propor aos israelenses: “Valeu a pena?”.

VALEU A PENA?

Todo o sofrimento, os mortos, feridos, a destruição, as horas e dias de terror, as crianças traumatizadas?

Gilad Sharon
E, deve-se acrescentar, a cobertura infindável, 24 horas por dia, pelas televisões, com generais aposentados sempre a repetir os “press-releases” do gabinete do primeiro-ministro. E as mais horrendas, as mais escandalosas ameaças, na boca de políticos e outras variantes de doidos, entre os quais o filho de Ariel Sharon, Gilad Sharon, que propôs a destruição total, de toda a cidade de Gaza e arredores, ou, melhor ainda, logo, de toda a Faixa de Gaza.

OK. Tudo isso é passado. Estamos quase exatamente onde estávamos antes. A operação, chamada, em Israel, quase sempre, de “mais uma rodada”, não passou, de fato, de rodada – não levou a lugar algum; tudo ficou onde estava antes de a “rodada” começar.

O Hamás assumirá firmemente o controle da Faixa de Gaza, talvez mais firmemente do que antes. Os palestinos odeiam Israel hoje, mais do que já odiavam antes. Muitos dos habitantes da Cisjordânia, os quais, durante a guerra saíram à rua aos milhares em demonstrações de apoio ao Hamás, votarão em ainda maior número, a favor do Hamás, nas próximas eleições. Dentro de dois meses, os israelenses votarão, depois da guerra, exatamente como votariam antes da guerra.

Os dois lados celebram vitória impressionante. Se se unissem e fizessem só uma festa, economizariam muito dinheiro.

QUAIS SÃO, POIS, AS CONCLUSÕES POLÍTICAS?

A mais óbvia é: FALEM COM O HAMÁS. Diretamente. Cara a cara.

Yitzhak Rabin (1922-1995)
Yitzhak Rabin disse-me, certa vez, como acabara por concluir que tinha de falar com a OLP, e diretamente com ela: depois de anos de oposição, acabara por entender que a OLP era a única força que contava. “Assim sendo, era ridículo só falar com eles através de intermediários”.

Vale exatamente o mesmo, no caso do Hamás. O Hamás está ali. Não desaparecerá, nem partirá dali. É ridículo, para os negociadores israelenses, sentarem-se lá, numa sala do quartel-general da inteligência egípcia, nos arredores do Cairo, enquanto os negociadores do Hamás permanecem na sala ao lado, a apenas poucos metros de distância, com os egípcios, corteses, andando de um lado para o outro.

Ao mesmo tempo, que Israel trate de ativar esforços na direção da paz. A sério.

No momento, é preciso salvar Abbas, que não tem substituto à vista. Israel bem poderia garantir uma vitória imediata para Abbas, para contrabalançar a grande vitória do Hamás contra a “Operação Pilar de Nuvem”: Israel bem pode votar a favor de garantir-se aos palestinos o direito de membro-observador – portanto, de estado reconhecido – na Assembleia Geral da ONU.

Só assim Israel mostrará ao mundo que, sim, tem interesse em fazer a paz com todo o povo palestino, incluindo Fatah e Hamas. Só assim Israel mostrará ao mundo que tem interesse em pôr fim à violência, DE UMA VEZ POR TODAS!”

FONTE: escrito por Uri Avnery, no “Gush Shalom” [Bloco da Paz], de Israel, sob o título original “THE MANTRA of this round was Once And For All”. Artigo traduzido pelo “pessoal da Vila Vudu” e postado por Castor Filho no blog “Redecastorphoto”  (http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/11/paz-de-uma-vez-por-todas.html).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O BRASIL AVANÇA EM ENERGIA DE MARÉS E OCEANOS

Por Juliana Prado, no "Terra"


“Durante o ‘Congresso Brasileiro de Oceanografia’, ocorrido semana passada, no Rio de Janeiro, o professor de Estruturas Oceânicas da Coppe/UFRJ, Segen Estefen, disse em entrevista ao “Terra” que, em período entre 10 e 20 anos, o Brasil poderá virar referência mundial em pesquisas de energia renovável e não poluente.

Para o coordenador de pesquisas sobre energias advindas das ondas e marés, que coordenou uma das mesas de debates do evento, com a escassez de outras fontes como o petróleo, e com a cobrança por energia limpa, está definitivamente traçado o caminho para o desenvolvimento dos estudos nos oceanos.

Confira a seguir a entrevista completa:

Terra - Quais os principais pontos a se destacar com relação à obtenção de energias vindas de marés e oceanos?

Segen Estefen - O ponto principal a se destacar é que o Brasil tem grande oportunidade de desenvolver tecnologia de classe mundial nessa área. E isso se deve, em parte, à experiência que nós temos de pesquisa, desenvolvimento e inovação oriunda da produção de petróleo e gás em águas profundas. Se soubermos usar bem essa tecnologia disponível e a transferirmos para energias renováveis dos oceanos, poderemos ser líderes dessa tecnologia num período entre 10 e 20 anos.

Terra - Qual a importância de se aprofundar essas pesquisas de energias vindas do oceano com relação à questão econômica e também à substituição de energias que produzimos hoje?

Estefen - O Brasil é muito rico em energia, mas vamos ter que encarar uma fase, que é a fase em que as reservas de petróleo ficarão mais escassas e, mais do que isso, atingirão preços muito altos. Nesse momento, haverá espaço, do ponto de vista de mercado, para as fontes renováveis. Porque elas não têm implicação no aquecimento global e vão contribuir para revertermos esse processo. Então, é importante que estejamos preparados para ter fontes de geração de energia elétrica que não sejam associadas com geração de gás do efeito estufa.

Terra - Qual o potencial para abastecimento que tem a energia captada do oceano, para, possivelmente, substituir mesmo outros métodos convencionais?

Estefen - Isso depende do país, depende das condições locais. No Brasil, nossa estimativa é que o potencial dos oceanos é de mais de 100 Gigawatts na costa brasileira, o que equivale a toda a potência instalada hoje no Brasil. Só que o aproveitamento é em torno de uns 20% disso. Então, teríamos alguma coisa em torno de 25 GW aproveitáveis já em médio prazo. Isso equivale a duas Itaipu (uma das maiores hidrelétricas do mundo, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai). Então eu acho que é importante porque o Brasil tem condição de já começar a pensar nisso.

Terra - Além da substituição do uso do petróleo, há também o caminho natural de, aos poucos, substituir as próprias hidrelétricas?

Estefen - Tem. A hidrelétrica ocupa grandes espaços. Ela é uma fonte renovável, limpa, que tem emissões relativamente baixas, mas que ocupa território, tem problemas com a população em terra e, no caso da energia do mar, o reservatório é o próprio mar. Isso é um dado interessante. Na medida em que a gente otimiza essas fazendas marinhas, elas não vão trazer impactos nem para a população nem para o meio ambiente. Ao contrário, vão trazer oportunidades de emprego para, por exemplo, pescadores artesanais.

Terra - E por que se demorou tanto a iniciar esse estudo mais profundo com relação a essas energias? Os estudos são mais difíceis?

Estefen - É, eu acho que esses estudos estão acoplados ao avanço do conhecimento. Na medida em que o homem começa a conhecer mais o mar, as potencialidades do mar, os sistemas elétricos e a proteção de estrutura, todos os avanços tecnológicos contribuem para que a gente seja mais competitiva do que era há 20, 30 anos, quando essas estruturas já até haviam sido estudadas. Mas agora elas estão voltando com mais chance e, mais do que tudo, com uma cobrança da sociedade por fontes mais limpas e renováveis e por maior sustentabilidade do planeta.

Terra - Existem países que são referência nesses estudos de energias renováveis utilizando as ondas e marés?

Estefen - Tem um que está liderando esse processo que é o Reino Unido, mas eu diria que nós também estamos com uma atuação importante. A COPPE dispõe de laboratórios de ponta e nós estamos fazendo uso desses laboratórios que foram construídos com objetivo inicial no petróleo para pensar na era pós-petróleo.”

[P.S. deste blog ‘democracia&política’:

Vídeos complementares:





FONTE: reportagem de Juliana Prado no portal “Terra”  (http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI6326929-EI238,00-Brasil+pode+liderar+tecnologia+em+energia+oceanica+preve+especialista.html).
FONTE (dos vídeos): YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=K8YKYLnqIPQ) e (http://www.youtube.com/watch?v=K8YKYLnqIPQ
[Imagem do Google e vídeos adicionados por este blog ‘democracia&política’].

O MAR EM FÚRIA

Fragata “Latouche-Tréville”

MAR EM FÚRIA

“Vídeo [abaixo] da assustadora batalha travada [por um navio-pesqueiro] e pela fragata francesa D-646 Latouche-Tréville contra uma tempestade em alto mar.

A fragata, com 139 metros de comprimento, capacidade de deslocamento de 4.910 toneladas e 240 tripulantes, é especializada na guerra contra submarinos.

Uma parte deste vídeo foi inserida no filme "Oceanos", de 2010, sob a direção de Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, com narração de Pierce Brosnan, para os Estúdios Disney.



FONTE: portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-fragata-francesa-e-o-mar-em-furia).