sábado, 18 de abril de 2015

O MITO DO "EXCEPCIONALISMO" DOS EUA





Os Mitos do Excepcionalismo dos Estados Unidos da América

Excepcional na saúde, na educação e no sistema de aposentadoria?

Por Jack Rasmus, no "Counterpunch" (dos EUA), com o título original "Exceptional in Health, Education & Retirement? The Myths of US Exceptionalism”. Traduzido por" Emex", do Canadá, enviado pelo "pessoal da Vila Vudu" e postado no "Redecastorphoto" 


Jack Rasmus

"Um dos elementos da ideologia cultural nos Estados Unidos reza que este país é, de alguma forma, excepcional comparado a outros; uma excepcionalidade positiva em vários aspectos, que distingue os Estados Unidos de todos os outros países.

Excepcional na saúde, na educação e no sistema de aposentadoria?

De forma um tanto perversa, há algo de verdade nisso. Os Estados Unidos são excepcionais no sentido em que é a única economia avançada no mundo que não consegue fornecer atenção médica universal para seus cidadãos.

Este país tem um sistema de saúde imensamente parasitário, concebido para fazer dinheiro, dominado por companhias de seguro multibilionárias que sugam US$ 1 trilhão por ano dos bolsos dos consumidores estadunidenses só para burocracia, e por cadeias de hospitais-empresa que sugam mais US$ 900 bilhões por ano.

Nesse sistema, que tem o pessoal médico mais bem pago do mundo, companhias farmacêuticas cobram US$ 94.000 dólares por medicamentos para tratar alguém com hepatite C (ou seja, US$ 1.125 dólar por comprimido) e cobra de pacientes de US$ 4.000 a US$ 64.000 por mês por drogas contra o câncer. Os Estados Unidos gastam mais de US$ 3 trilhões por ano com seu sistema de saúde, e essa despesa continua aumentando.

Isso significa 18% de um PIB anual de 17,4 trilhões de dólares; de cada 5 dólares gastos seja em que for, quase 1 dólar terá sido gasto com o sistema de saúde. É a maior despesa em sistema de saúde do mundo industrial. E o resultado desse gasto maciço é que este país ocupa o 39º lugar em mortalidade infantil, o 42º lugar em mortalidade adulta e o 36º lugar em esperança de vida. Sim, os Estados Unidos são um país excepcional no que tange ao sistema de saúde.

E também é um país excepcional quanto à educação. Superendividados, seus universitários vêm se tornando servos da ordem social da saúde, controlada por banqueiros e administradores super-remunerados; essa dúvida supera os US$ 1,1 trilhão só no ensino superior, a maior dívida educacional per capita do mundo.

Quatro anos de faculdade custam entre US$ 30.000 e US$ 60.000, ou seja, estamos falando apenas da graduação. E já não há mais significativos programas de capacitação profissional para aqueles que não podem pagar uma faculdade.

Enquanto isso, 70% dos professores universitários são trabalhadores precários, recebem salários miseráveis e não têm benefícios sociais. Isso também é “excepcional”, suponho.

Os trabalhadores estadunidenses são os que têm as maiores jornadas de trabalho do mundo industrial, as férias mais curtas (em média 7 dias por ano) e paira sobre eles a ameaça da miséria quando se aposentem ou não mais possam trabalhar.



As pensões da seguridade social alcançam uma média de apenas US$ 1.100/mês; as poupanças–aposentadoria privadas (chamadas "planos 401k") alcançam em média menos de US$ 50.000/ano no caso dos trabalhadores na faixa dos 60 anos ou em vésperas de se aposentar; a maioria dos trabalhadores estadunidenses vive na base do cheque especial e não têm poupanças. Não é de espantar que o segmento da força de trabalho estadunidense que mais cresce é formado de idosos entre 65 e 74 anos, já que muitos aposentados voltam a trabalhar para que possam chegar ao fim do mês.

Entre os países de economias avançadas, os Estados Unidos têm a mais extrema e crescente desigualdade de renda. Os executivos das corporações estadunidenses recebem em média 400 vezes mais que a média dos trabalhadores da empresa (em 1980, recebiam “apenas” 35 vezes mais). É a maior disparidade de renda do mundo industrial.

O riquíssimo 1% dos lares (praticamente todos especuladores) ganhou não menos de 95% de todo o crescimento da renda líquida nos Estados Unidos desde 2010. Contraponha-se isso aos 65% durante os anos George W. Bush, 2001-2007, e aos 45% durante o período Clinton nos anos 90. É bem verdade que isso não é uma exceção à regra, já que o pagamento da força de trabalho vem declinando consistentemente tanto na Europa quanto no Japão.

Os trabalhadores estadunidenses têm apenas 6 meses de seguro-desemprego e com menos de um terço de seus salários. Já os trabalhadores alemães têm dois anos de seguro-desemprego e recebem treinamento profissional para sua reinserção laboral. Sim, mas os Estados Unidos têm mais porta-aviões que os alemães!

Sim, os Estados Unidos são um país excepcional. Seus trabalhadores são os mais enfermos, endividados, sobrecarregados, inseguros e os mais temerosos pelo futuro em todo o mundo industrial desenvolvido.

Os Estados Unidos também são um país excepcional na medida em que têm mais gastos militares que todas as economias desenvolvidas somadas. O verdadeiro “orçamento de guerra” dos Estados Unidos alcança US$ 1 trilhão anuais, mais que os anunciados US$ 650 bilhões para o Pentágono, embutidos de diversas formas em seu orçamento econômico anual. Os Estados Unidos têm mais de 1000 bases militares em todo o mundo e supera amplamente qualquer outro país do mundo em envolvimentos bélicos; e ainda espia seus próprios cidadãos e cidadãos de outros países, muito mais que todas as arapongas do mundo somados. São os Estados Unidos “excepcionais”? Pode apostar que são mesmo.

O mito do excepcionalismo econômico estadunidense

Outra alegação frequente para o “excepcionalismo estadunidense” é sua economia.

O Japão está provavelmente em sua quarta recessão desde 2009. A Eurozona oscila entre recessões de dois em dois anos. Mas a economia estadunidense está plenamente recuperada. É o que nos dizem. E ela está crescendo maravilhosamente, enquanto o resto do mundo fica pra trás. Ou pelo menos é assim que reza a cartilha ideológica.



Os “execepcionalistas” gostam de referir-se às taxas de crescimento do PIB do último verão de 2014, à criação de 200 mil empregos por mês e ao crescimento ininterrupto do mercado de ações e obrigações como provas evidentes do tal excepcionalismo. Mas quando olhamos de perto os tão propalados 5% de crescimento do PIB do terceiro semestre de 2014 e os dados mais recentes do começo de 2015, vemos que não há nada de excepcional na economia estadunidense.

No longo prazo, ela cresce apenas a metade do que crescia nas décadas passadas.

Nos últimos seis anos, taxas trimestrais de 4-5% são seguidas, meses depois, de desmoronamentos do PIB e até de resultados negativos. Com efeito, isso aconteceu quatro vezes desde 2009, caracterizando uma recuperação econômica ioiô: primeiro semestre de 2011, quarto semestre de 2012, primeiro semestre de 2014 e tudo indica ser o caso para o primeiro semestre de 2015.

O ioiô econômico estadunidense, sua trajetória de gangorra, nada tem de especial ou excepcional. O mesmo tem acontecido na Europa e no Japão, onde os níveis mais baixos são semelhantes ou inferiores àqueles verificados na economia estadunidense nos últimos cinco anos. Se o crescimento econômico estadunidense atinge picos de cerca de 4% ocasionalmente, desmoronando em seguida para 0% ou menos, a média de crescimento dos últimos 5 anos tem sido de 1.7%. Isso é a metade da média normal de crescimento após períodos de recessão. Japão e Europa alcançam ocasionalmente picos de 2%, mas depois atingem taxas negativas, entrando numa genuína recessão.

A única diferença entre os ioiôs das recuperações dessas três economias está nos níveis de elevação e queda. Em outras palavras, não há nada de excepcional ou economicamente diferente entre elas.

A comparação dos 5% de crescimento econômico temporário do período Julho-Setembro de 2014 com o provável 1% (ou menos) de janeiro-março de 2015 – essa taxa só será divulgada em maio- mostra que um fator isolado interveio no verão de 2014 para que atingíssemos aquela taxa de 4-5%. Mas esse fator isolado foi anulado nos primeiros três meses de 2015. Subtraia semelhantes fatores isolados dos últimos nove meses e teremos provavelmente menos de 1% no recente trimestre. Há uma breve explicação para isso.



Gás de xisto / Súbito aumento da produção de petróleo

No começo de 2014, a produção de gás de xisto e o súbito crescimento da produção de petróleo andavam a todo vapor. Isso impulsionou a chamada Produção Industrial e boa parte do crescimento da criação de empregos. Mas quando o preço do petróleo caiu excessivamente em junho último (graças à tentativa da Arábia Saudita e seus aliados dos Emirados Árabes em levar produtores estadunidenses de gás de xisto e petróleo à falência), a explosão da produção de gás de xisto teve uma abrupta interrupção. A produção industrial foi rapidamente reduzida depois do verão e continuou a decair até atingir taxas negativas em dezembro. Os empregos começaram a desaparecer. Há uma projeção de perda de cerca de 150 mil empregos no Texas, o maior produtor de gás de xisto, já no começo de 2015.

Produção fabril & exportação

No começo de 2015, a produção fabril e as exportações estadunidenses cresceram continuamente na medida em que o dólar permanecia baixo, avantajando o comércio externo dos Estados Unidos. Mas o colapso mundial dos preços do petróleo e os rumores de aumento da taxa de juros pelo Banco Central estadunidense levaram a um aumento de 20% do dólar, incrementado ainda mais pela "flexibilização quantitativa" do Japão e da Eurozona. O resultado disso foi o começo de um colapso da contribuição estadunidense de sua produção fabril e de suas exportações para o crescimento econômico do último período de 2014. Esse movimento continuou em 2015. As encomendas de produtos manufaturados vêm caindo mensalmente desde dezembro de 2014.

A previdência de Obama e os gastos com a saúde

Outro fator isolado que estimulou o crescimento do PIB estadunidense em meados de 2014 foi a adesão de 9 milhões de consumidores ao novo programa de cobertura do seguro de saúde privatizado do governo, concebido para aqueles que não tinham seguro-saúde. Isso gerou uma nova despesa de consumo cujo potencial de crescimento se esgotou em 2015, sem que houvesse novos estímulos adicionais.

O fim do aumento da venda de automóveis

Outro aumento de despesa de consumo que atingiu seu ápice no último verão foi a venda de automóveis. Mas isso também chegou a seu termo, na medida em que o mercado automobilístico ficou saturado ao cabo de 4 anos. Desde dezembro, um mês normalmente muito bom para a venda de veículos, a retração do mercado tem sido contínua. Aquele breve crescimento já era.

Gastos gerais de consumo

Os indicadores de consumo doméstico passaram ao vermelho em dezembro último. O "Índice Nacional de Despesas do Consumidor" declinou no período dezembro-janeiro, estabilizou-se em fevereiro e não parece ter sofrido alterações em março.


                Ele vem bem equipado

Segundo a maioria dos economistas, esse índice soe crescer quando os consumidores são beneficiados pela redução de preços dos combustíveis. Em vez disso, os consumidores puseram na poupança o dinheiro não gasto com combustíveis ou o utilizaram para reduzir suas dívidas (previ que isso aconteceria ainda no ano passado). As vendas no varejo, que constituem a maior parte das despesas de consumo, cresceram a taxas de 4.5% no último verão. Mas voltaram a ser negativas desde dezembro passado: 1%, -0.9%, -0.6% até fevereiro. Espera-se que em março essa taxa [tenha continuado] negativa. Assim sendo, os indicadores de consumo geral e no varejo passaram ao vermelho.

Gastos das empresas

No terceiro trimestre de cada um dos últimos 5 anos, as empresas vinham aumentando suas despesas e incrementando seus estoques na perspectiva de um aumento de consumo por efeito das férias e das festas de fim de ano. Mas as expectativas dessas despesas foram bastante reduzidas e as empresas reduziram seus estoques no primeiro trimestre do ano seguinte. Isso voltou a acontecer em 2015. Outro gasto empresarial, a compra de equipamentos, quase não tem crescido, atingindo apenas os 0,6% no quarto trimestre de 2014, e deverá permanecer o mesmo ou diminuir no primeiro trimestre de 2015.

Gastos do governo com a defesa

É fato conhecido e documentado que a cada ano em que há eleições nacionais nos Estados Unidos, o governo federal adia despesas no começo do ano para liberá-las no verão que antecede as eleições. Isso aconteceu em 2012, antes das eleições presidenciais, e em 2014, antes das eleições legislativas parciais. O governo também faz despesas adicionais no trimestre julho-setembro, pois os políticos tentam criar a impressão de que a economia está indo melhor do que ela realmente está no longo prazo. Isso também aconteceu no verão passado. Mas essas despesas serão contraídas no mesmo período de 2015.

Criação de empregos nos Estados Unidos

A criação de empregos sempre fica em segundo plano na economia real. Após uma criação média de 200 mil empregos no ano passado (em sua maioria empregos mal remunerados, temporários e precários), apenas 126 mil empregos foram criados em março.

Essa redução também se verificou em janeiro e fevereiro. Os dados referentes ao emprego confirmam assim a tendência geral à queda no primeiro trimestre de 2015. Os defensores dos políticos certamente usarão o “mau tempo” como desculpa para os péssimos números de março. Mas o que está realmente acontecendo é que os empregos continuam a cair por razões bem reais. O “canário na mina” neste caso é o mau desempenho na produção de mercadorias; após meses de rápida redução do mercado de trabalho, esse chegou a números negativos em março. Isso reflete o colapso da produção fabril, mineira e da produção de mercadorias que começou em fins do ano passado e que ainda continua.

A ideologia do excepcionalismo

Em suma, não há nada de excepcional na economia estadunidense quando a olhamos sem viés ideológico. Ela continua em sua trajetória de gangorra dos últimos cinco anos. A economia se debilita significativamente a cada quatro ou primeiro trimestre para se restaurar parcialmente no verão seguinte. O que temos ao longo do ano é uma média de crescimento econômico em torno de 1,8%, ou seja, a metade do normal histórico. E não há nada de excepcional nisso. O Japão e a Europa têm o mesmo fraco desempenho, abaixo do normal.

O PIB estadunidense cresce a uma média de 1.8%, contra 0,5 na Europa e 0% no Japão. Isso confere alguma excepcionalidade à economia estadunidense? Não exatamente. Ainda há 20 milhões de desempregados nos Estados Unidos; grosso modo, o mesmo que na Eurozona. Isso não é excepcional. Os preços estão estagnados nos Estados Unidos e caminham para a deflação, que também se faz presente na Europa e no Japão. O investimento real está em declínio nos Estados Unidos, bem como na Europa e no Japão. Mais uma vez, não há nada de excepcional. E a renda média dos trabalhadores está sendo reduzida nessas três economias.



Uma das estratégias ideológicas favoritas das "elites" e das "classes dominantes" consiste em convencer as classes trabalhadoras de que elas são excepcionais, ou seja, que a situação delas pode não ser maravilhosa e pode até estar declinando, mas pelo menos não é tão ruim quanto as outras.

A coisa poderia ser pior. Veja como estão os pobres trabalhadores de tais ou tais países. A coisa aqui pode não estar tão boa, mas não está tão ruim assim. Não é mesmo?

O apelo ao excepcionalismo é apenas um estratagema a mais para que as classes trabalhadoras aceitem a deterioração de suas condições; é apenas uma ferramenta ideológica para imobilizar o povo, para que este aceite sua realidade como um destino. Querem que os trabalhadores acreditem que sua cada vez mais deteriorada qualidade de vida não é tão ruim assim. Mas ela é o que é."

FONTE: escrito por Jack Rasmus, no "Counterpunch" (dos EUA), com o título original "Exceptional in Health, Education & Retirement? The Myths of US Exceptionalism”. Este artigo foi primeiramente publicado em TeleSurTraduzido por" Emex", do Canadá, enviado pelo "pessoal da Vila Vudu" e postado por Castor Filho no seu blog "Redecastorphoto"    (http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2015/04/os-mitos-do-excepcionalismo-dos-estados.html). Jack Rasmus é autor do livro, “Systemic Fragility in the Global Economy”, publicado por Clarity Press, 2015; e de “Epic Recession: Prelude to Global Depression”, Pluto Press 2010, e “Obama’s Economy: Recovery for the Few”, Pluto Press, 2012. Seu blog: jackrasmus.com.

2 comentários:

G Marangoni disse...

Os EUA, Europa e Japão estão nesse efeito há um bom tempo, sem uma previsão de quando eles voltarão aos dias de glória, mas talvez não seja esse o momento da virada, em que o trio entra em uma lenta e dolorosa morte de influência política/econômica global, que com o tempo será substituído pela Índia e China?
Morte que está sendo causada nada mais nada menos pelo desgaste na hegemonia por possuí-la há muito tempo?

Tereza Braga disse...

Ao G.Marangoni,
Perguntas pertinentes.
Além de a hegemonia, pelo simples fato de existir, já ser danosa, é trágico o longo tempo que ela é exercida pelos EUA.
Não vejo com bons olhos a ascensão ao poder hegemônico pela China ou qualquer outro. Almejo a utopia de poder perfeitamente multipolar, com todos os países com idênticos direitos e deveres e sem ingerências externas.
Maria Tereza