Tomada da Bastilha
Do “O Cafezinho”
A história de uma farsa
REFLEXÕES SOBRE A BASTILHA MENTAL
“Dessa vez, eu senti a vertigem.
Escrever sobre um tema tão explosivo, aproximar-se de pessoas que vivem até
hoje dentro de uma usina nuclear cheia de vazamentos, me deu a sensação de
estar no topo de um edifício em chamas, olhando o abismo lá embaixo.
Ou então parece que adentramos um
ambiente altamente inflamável, mas escuro e acendemos um fósforo para poder
olhar ao redor. A intenção é boa, mas o risco, altíssimo. As bombas não
explodem apenas lá fora, como eu disse; há
estilhaços que entram pela janela e podem nos atingir.
A Procuradoria-Geral da República,
alguns ministros do STF e setores da imprensa tornaram-se, definitivamente,
agentes políticos sem qualquer escrúpulo, e provaram desfrutar de um poder
sinistro: podem colher qualquer história,
inclusive textos nossos, e transformá-la em qualquer coisa. Daí o perigo,
eles têm o poder de criar a mentira e condenar com base naquela mentira.
Sobretudo ainda vivemos aquele clima
pesado de tribunal, em que tudo que dissermos pode se voltar contra nós. Agora
sim, entendi porque se precisa de distanciamento histórico para se analisar uma
situação com serenidade.
Vamos esclarecer algumas coisas
sobre o texto anterior. Tragam as crianças de volta para sala; eu errei ao
pedir que elas saíssem. Elas têm que aprender desde cedo algumas lições de
vida.
O julgamento do mensalão foi viciado
e condenou inocentes. A denúncia da procuradoria foi inepta. Disso eu já sabia,
porque acompanhei todo o processo, escrevi sobre ele. Não digo que os réus são
inocentes de qualquer coisa. O direito moderno, desde o Iluminismo, após
séculos de trevas jurídicas, entende que um processo legal deve condenar ou
absolver as pessoas em relação aos crimes que estão sendo julgados. Senão vira,
como virou, um linchamento.
Insufla-se um ódio tão grande nas pessoas contra a política, contra o governo,
contra o partido dos trabalhadores, que a culpabilidade ou não dos réus passa a
ser um mero detalhe. É como se eles tivessem que expiar a culpa por toda a
podridão da política brasileira dos últimos duzentos anos.
A minha experiência nova, meio que
assustadora, foi conhecer pessoalmente algumas vítimas desse linchamento. Em “Vigiar
e Punir”, Foucault descreve as torturas físicas da idade média e analisa o
desenvolvimento dessa tara inominável, que é o prazer pelo sofrimento do outro.
Logo no início do livro, há uma descrição pavorosamente minuciosa do
esquartejamento vivo de um condenado. É uma coisa absurda; perguntamo-nos o
tempo inteiro: qual o objetivo daquilo?
Hoje, a mesma técnica é utilizada,
mas no campo psicológico. A tortura moral que a mídia pode infligir a um
indivíduo e à sua família, ao envolvê-lo num processo político, é algo
terrivelmente chocante. É chocante inclusive se ele for culpado, porque se
inventa uma forma de punição que não está prevista no código penal. Existe o
mundo das leis, onde as pessoas são condenadas estritamente pelo que fizeram, e
a punição vem rigorosamente prevista em acordo com a Constituição. As punições
morais operam num outro universo, não regido pelos códigos escritos, mas por
leis às vezes muito mais severas, porque milenares. Recentemente, um pai “esqueceu”
o filho recém-nascido dentro do carro por algumas horas, e o menino morreu. O
pai é culpado. Ninguém nega sua imperdoável irresponsabilidade. Mas o juiz
entendeu que a culpa que esse pai teria que carregar por toda a vida já era tão
terrível que não precisava sequer ir preso. O homem estava internado há dias,
em estado de choque, depois de tentar o suicídio. Não imagino nenhum sofrimento
maior do que o remorso de matar, sem querer, o próprio filho! Mesmo sabendo que
ele é culpado, mesmo tendo raiva do homem, não consigo deixar de sentir um
pouco de compaixão. Imagine, então, aplicar o mesmo tipo de punição moral a um
inocente?
Com a transformação do mundo num
espaço totalmente midiatizado, o poder da punição moral, via exposição pública,
atingiu um ponto crítico. A expressão “assassinato
de reputação”, muito usada nos últimos anos para descrever o processo de
denúncias, muitas vezes sem substância, contra adversários políticos, não diz
tudo. Não apenas se mata a reputação. Faz-se uma coisa tremendamente pior.
Tortura-se, lentamente, cruelmente, sadicamente.
É isso o que Genoíno tem repetido,
sempre que há um movimento como que de abutres a seu redor, tentando bicar mais
um pedacinho de seu fígado: fui
barbaramente torturado na ditadura, mas o que têm feito comigo agora ainda é
pior.
Se a coisa é chocante quando se
trata de culpados por algum crime, obviamente é muito mais quando estamos
diante de um inocente. Quando é alguém distante de seu universo, você
simplesmente se afasta, como quem decide não assistir a determinado filme de
terror. Mas acontece, às vezes, de você topar com uma vítima. Falar com
ela. Comer uma pizza e tomar um guaraná com ela. Então, todo o esforço que você
fazia para afastar a sua imaginação do tipo de tortura mental que a mídia pode infligir
a uma pessoa inocente vai por água abaixo.
Isso foi o que mais me marcou.
Eu sempre fiz uma defesa do Lula e
do PT porque entendia um e outro como agentes do nosso desenvolvimento e da
nossa libertação social. Se defendi ambos no momento mais crítico, quando
simplesmente não sabíamos o que havia acontecido, agora que temos uma noção
melhor das coisas, minha defesa é ainda mais tranquila e mais enfática. No
capítulo anterior, eu descrevi de maneira superficial e leviana o processo de
construção da governabilidade. Não dá para fazer um tratado sobre poder,
democracia, governabilidade, ética, moral e compromisso social em dois
parágrafos. Esses são temas que espero desenvolver melhor mais tarde.
O novo grau de circulação das
informações está nos levando a outro estágio: estamos saindo de um tempo em que
havia as coisas que podiam ser ditas, e as coisas que não podiam ser ditas.
Wikileaks, leis de transparência pública, internet, o mundo político hoje está
um bocado perplexo com a nova situação, em todos os países. Há uma aflição
constante no ar.
No Brasil, em particular, a situação
chegou onde chegou porque a chamada opinião pública, a verdadeira, não a de
meia dúzia de colunistas, é refém de um processo que começou lá em 1964.
Começou até antes, na década de 50, mas somente em 1964 a mídia, esta mídia,
conseguiu se tornar hegemônica. Qualquer outra opinião era criminalizada e,
literalmente, morta. Durante mais de 20 anos, somente os barões pontificavam
sobre política, e roubou-se da sociedade brasileira não apenas o que ela tinha
de mais precioso, o direito de se expressar livremente, mas as consequências
positivas dessa liberdade: entender
melhor a nós mesmos e a maneira de nos governarmos; entender melhor a
democracia, suas contradições e problemas.
Após a ditadura, a situação perdurou
porque os desdobramentos iniciados no regime militar continuaram acontecendo. O
ambiente de profunda crise econômica, por si só, mata a liberdade, de outra
forma, pelo bolso. Assistimos a uma ou duas gerações de jornalistas, cineastas,
escritores, intelectuais, que tinham algum pendor pela independência, e que
podiam efetivamente contribuir com uma voz diferente, para termos no Brasil um
debate político mais plural e mais avançado, assistimos a essas gerações se
perderem na miséria econômica, na desesperança, na adversidade.
Com o PSDB no poder, atingimos o
apogeu da corrupção moral. O Brasil jamais debateu suficientemente o problema
político causado pela decisão de FHC de aprovar uma emenda para reeleger a si mesmo.
A gente discutiu por anos a reeleição de Chávez, jamais a de nosso próprio
presidente. Jamais discutimos as implicações morais disso, nem o obscuro
processo [$$$] para construir a maioria parlamentar naquela votação. Chávez fez
um plebiscito popular. Consultou diretamente o povo. O governo FHC aprovou a
reeleição através de uma suja [$$$] negociata palaciana.
Daí a sociedade brasileira nunca
teve noção aproximada de como funciona o processo político. De repente, com o
escândalo do mensalão, há um esforço massivo, deliberado, maquiavélico,
covarde, de pegar uma sociedade fragilizada por décadas de desinformação e
manipular todos os seus preconceitos em relação à política e à democracia, em
prol de derrotar um projeto. Quando se abriram as cortinas dos bastidores da
democracia, e vimos as lideranças partidárias fazendo acordos para se eleger,
governar, pagar enormes dívidas de campanha, setores políticos viram a
oportunidade de ludibriar a população com um discurso hipócrita: vejam só, que vergonha! nós nunca fizemos
isso!
Não é verdade. Fizeram muito pior. E
fazem algo infinitamente mais podre, repetindo exatamente o que fizeram durante
as campanhas udenistas: criminalizam a
política e desqualificam a democracia. Pintaram Vargas como um bandido
porque o Banco do Brasil emprestou dinheiro para Samuel Wainer criar a “Última
Hora”, quando todos os presidentes anteriores haviam emprestado quantias ainda
maiores para “O Globo”, para o “Correio da Manhã” e para os jornais de São
Paulo. E agora criminalizam o PT. Não ficaram satisfeitos com o mea culpa do partido por ter feito “caixa
2”. Inventaram uma trama diabólica, sem base em nenhuma prova, para causar o
maior dano político e humano possível no partido e em tudo que ele representa.
Eu já havia compreendido essa
questão política. Mas agora, conhecendo Genoíno e Pizzolato, eu passei a ver as
coisas sob outro ângulo. Passei a ver as coisas numa perspectiva humanista. De
repente, tudo o mais se apagou, e eu vi uma figura humana com braços e pernas
em xis, como naquele desenho de Da Vinci.
Há tanta injustiça no mundo, no
país, crianças drogadas na rua, o sistema de saúde pública é precário, mas de
repente o que mais nos choca é a injustiça contra o ser humano à nossa frente.
Esquecemos a política, a ideologia, os partidos, a democracia, tudo é posto de
lado quando se está diante de uma arbitrariedade.
Justamente por isso, essa pode ser a
chave para a gente reverter essa tremenda injustiça. O caso Pizzolato, em
particular, detém a chave para se anular a Ação Penal 470. Não sou apenas eu
que enxergou isso. Raimundo Pereira, editor da “Retrato do Brasil”, farejou
algo semelhante. Não à toa dedicou edições inteiras de sua revista aos erros da
procuradoria e do STF no caso Pizzolato. Outros jornalistas agora estão abrindo
o olho.
Num dos capítulos atrás, eu
mencionei a obra-prima de Jules Michelet sobre a revolução francesa. Lembrei-me
agora de outro fato que nos faz pensar naquele mito do eterno retorno. As
coisas vão se repetindo o tempo inteiro, o que é bom, porque nos dá chance de
aprendermos e lidarmos com os monstros de maneira mais experiente. Algumas da
páginas mais belas que já li em minha vida são aquelas em que Michelet descreve
o processo que culminou na “Tomada da Bastilha”, esse evento que marca o início
de nova era no mundo.
A “Tomada da Bastilha” não nasceu da
estratégia de lideranças políticas. Segundo Michelet, foi uma explosão
espontânea, desorganizada, popular. A multidão acorreu, furiosa, desesperada,
na direção daquela fortaleza que simbolizava os aspectos mais tenebrosos do
regime monárquico. Como prova da espontaneidade da rebelião, Michelet descreve
a enorme quantidade de mulheres, velhos e crianças que participavam.
Qualquer pessoa podia ser presa e
encarcerada na Bastilha. Até burgueses e aristocratas podiam ser vítimas. Um
caso comum, por exemplo, era uma mulher, mancomunada com um amante, denunciar o
próprio marido, para poder usufruir livremente de seus bens. O marido apodrecia
incomunicável na Bastilha pelo resto da vida.
Michelet descreve como tudo começou.
Entre os fatos que levaram ao desenvolvimento de um ódio tão intenso dos
franceses à Bastilha, está, justamente, uma mulher. Uma mulher simples, do
povo, que achou uma carta de um homem que jazia há muitos anos na prisão, por
um crime que, segundo ele, não havia cometido.
Por trás dos grandes acontecimentos
da revolução francesa, escreve Michelet, jamais poderemos esquecer esse caso,
que ajudou a derribar os pilares morais nos quais se assentava o regime. Ao
conhecer Pizzolato e estudar seu caso, eu me senti um pouco como aquela senhora
do livro de Michelet.
A senhora não tinha pretensões de
derrubar o regime. Ela sentiu-se tomada por uma compaixão profunda por aquele
homem, e passou a procurar as autoridades para que avaliassem o caso. Acabou
ganhando notoriedade. Foi ameaçada, ridicularizada, agredida. Mas prosseguiu.
Michelet não sabe o que aconteceu a essa mulher, nem ao prisioneiro. Nas
semanas seguintes, o Antigo Regime ruiu. Quando o povo tomou a Bastilha e abriu
os portões, libertando todos os prisioneiros, houve um momento de grande
júbilo. O povo abraçava, chorando, aqueles homens que permaneceram anos
esquecidos do mundo, largados numa masmorra, incomunicáveis. Havia centenas de
bastilhas em toda França. Elas representavam o absolutismo, o poder que o
Estado tinha para infligir o pior de todos os sofrimentos a um indivíduo: acusá-lo das piores barbaridades, sem lhe
dar a chance de se defender e depois prendê-lo numa masmorra, incomunicável,
para o resto da vida.
Quando eu conheci Pizzolato e sua
esposa, eu pensei: temos um cidadão
brasileiro e sua família sendo torturados numa bastilha ainda pior que aquela
do Antigo Regime, porque é uma bastilha mental. Ao mesmo tempo, entendi que
o caso Pizzolato pode ser a chave para deflagrar uma reviravolta definitiva na
farsa que setores políticos e mídia armaram para aplicar um “golpe 2.0” na
sociedade brasileira. Essa farsa vai se voltar contra os que a praticaram.
Vamos tomar essa Bastilha.” (...)
FONTE: escrito por Miguel do Rosário,
no blog “O Cafezinho”. Transcrito no portal de Luis Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/sobre-o-julgamento-do-mensalao-e-o-linchamento-dos-acusados).
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