sábado, 13 de fevereiro de 2016

LAVA-JATO ESTÁ INDO ÓTIMO PARA OS INTERESSES ESTRANGEIROS


Projeto da Base Naval e Estaleiros de Itaguaí está ameaçado de paralisação completa


Combater a corrupção sem paralisar o país

"Visito a Base Naval e os Estaleiros em construção em Itaguaí, no Rio de Janeiro, e certifico-me de que corremos o risco de enveredarmos por um caminho gravemente equivocado de combate à corrupção.

Por Haroldo Lima, 
foi deputado federal pela Bahia e diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis, e é da Direção Nacional do PC do B

A partir de 2008, a Marinha do Brasil contratou o Consórcio Baía de Sepetiba, formado pela Diretoria de Construções Navais e Serviços- DCNS, uma estatal francesa de larga atividade mundo afora, e a brasileira Odebrecht Defesa e Tecnologia, especializada em engenharia de grande porte. O Consórcio construiria a base onde seriam projetados e construídos submersíveis. O escopo inicial do projeto foi estabelecido: quatro submarinos convencionais e um de propulsão nuclear, este baseado apenas na tecnologia nacional, pois, nessa esfera, ninguém cede tecnologia.

A administração dos trabalhos de construção ficou a cargo da Odebrecht Defesa e Tecnologia, que chegou a mobilizar uma força de trabalho de 6.500 homens e mulheres, mantendo movimentação média de 4.000 pessoas e um pico de trabalho previsto para 9.000 empregos diretos e 32.000 indiretos. Cerca de 300 empresas brasileiras forneceram materiais diversos para o complexo em construção.

E assim, hoje, às margens da baía de Sepetiba, já estão de pé grandiosas e modernas edificações, como a Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas e o edifício principal do estaleiro de construção dos submarinos, um gigante capaz de abrigar, a um só tempo, dois submarinos em construção.

Dispensável lembrar como isso reforçará, em nível superior, a capacidade brasileira de defesa dos seus mares, onde estão, entre outras riquezas, nosso pré-sal e imensa biodiversidade.

Pois todo esse projeto está dramaticamente ameaçado de ser paralisado, pelo que se sabe, por ser coordenado pela Odebrecht. Esta, que coordena a execução do projeto por escolha da estatal francesa DCNS, não está conseguindo receber faturas de obras já concluídas, da ordem de R$300 milhões, o que inviabiliza a continuidade da obra. Em decorrência, hoje, o clima em Itaguaí é de desânimo. Os homens em trabalho, que poderiam chegar a 9.000, estão reduzidos a 1.100, que se entreolham espantados, ante a hipótese de ali ficarem somente 80, protegendo aquele portento inconcluso contra furtos e roubos...

O país sofre com a grave crise do capital internacional, iniciada em 2008 e até agora não debelada. Ao mesmo tempo, combate um desmedido esquema de corrupção que agia dentro e fora da Petrobras. A produção cai, o desemprego cresce, a estagnação perdura e há o espectro da instabilidade política.

É evidente que, para sair desse imbróglio, há que se perseguir, com toda determinação, a retomada do crescimento, forma eficaz para espantar a crise política. Por isso, é que há qualquer coisa de gravemente errado, quando se combate a corrupção paralisando o país.

No enfrentamento do esquema corrupto que a operação Lava Jato desmascarou, desencadeou-se um processo que teve sua eficácia, que prendeu corruptos e recapturou dinheiro público; mas que despertou dúvidas quanto a sua lisura, pelos "vazamentos" unilaterais [sempre com viés partidário] de depoimentos sigilosos; pelo ativismo judicial invulgar, que pode sugerir magistrado tomando partido na causa; pelo tempo excessivamente longo de prisões preventivas, parecendo uso ilegal do cerceamento da liberdade para forçar confissões e acordos de delação [pré-direcionados] e, enfim, pelo duvidoso acato ao princípio da presunção da inocência. Mas há outras questões graves.

A Lava Jato mostrou não apenas empresas brasileiras envolvidas em corrupção, mas também estrangeiras. Grandes estaleiros de Cingapura, a "Jurong" e "Keppler Fels", a prestadora italiana de serviços "Saipem", e as gigantes "Mitsui", japonesa, e "Samsung", coreana, estão entre os envolvidos na Lava Jato.

Ocorre que delações que levaram empresários brasileiros à prisão, também foram feitas contra estrangeiros, mas nenhum dirigente de empresa estrangeira sediada no Brasil foi preso, nenhuma de suas casas foi invadida. E enquanto as empreiteiras brasileiras, acusadas de suborno, já não podem firmar contrato com a Petrobras e o Poder público, as estrangeiras, com acusações semelhantes, continuam negociando com a estatal. A japonesa "Mitsui", acusada de gestão corrupta que envolve o presidente da Câmara, nada sofreu e está se tornando sócia da Petrobras, na Gaspetro.

Finalmente, entre as 23 empresas brasileiras que apareceram no curso das averiguações, estão as maiores de engenharia e construção pesada do país, como a Odebrecht, que está à frente das obras de Itaguaí. A Petrobras e o Poder público suspenderam relações com todas. Se forem consideradas "inidôneas", não serão mais contratadas por órgão público, o que contribuirá decisivamente para mergulhar o país na estagnação.

A corrupção deve ser apurada sem dúvida, os culpados exemplarmente punidos e os recursos desviados, devolvidos. Mas as empresas onde os corruptos agiam não podem ser condenadas ao desaparecimento. Se isso ocorre, a retomada do desenvolvimento pode ficar inviabilizada a curto prazo, o que é contra o país. As saídas jurídicas, tipo acordo de leniência, impõem-se.


Ademais, se aniquilarmos a engenharia brasileira de grandes obras, estaremos graciosamente entregando toda essa faixa do mercado nacional a empresas estrangeiras. E ante o mundo incrédulo com tamanho absurdo, passaríamos a ridícula ideia de que, a nosso juízo, os grandes empresários brasileiros são corruptos e os estrangeiros honestos!!!

Punir os culpados é necessário. Mas é necessário também salvaguardar a Petrobras, as grandes empresas nacionais de engenharia e retomar o crescimento do país."

FONTE: escrito por Haroldo Lima, engenheiro, foi deputado federal pela Bahia e diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis, e é da Direção Nacional do PC do B. Artigo publicado no portal "Vermelho"  (http://www.vermelho.org.br/noticia/276208-1). [Título e trechos entre colchetes acrescentados por este blog 'democracia&política'].

3 comentários:

Unknown disse...

Concordo plenamente com esta visão, isso está sendo um desmonte à indústria nacional. Se observarmos a história do Brasil, em todos os momentos que a indústria nacional dava sinal de avanço arma-se um circo e ganham os interesses estrangeiros. Essa situação é decepcionante. A população mais uma vez manipulada. Até quando? Será que nunca vamos conseguir nos desenvolver?

Adri Engel disse...

Concordo plenamente com esta visão, isso está sendo um desmonte à indústria nacional. Se observarmos a história do Brasil, em todos os momentos que a indústria nacional dava sinal de avanço arma-se um circo e ganham os interesses estrangeiros. Essa situação é decepcionante. A população mais uma vez manipulada. Até quando? Será que nunca vamos conseguir nos desenvolver?

Tereza Braga disse...

Ao Adri Engel, Unknown,
Infelizmente para os brasileiros, creio que você está certo. Se apontarmos para o interesse das grandes potências, especialmente dos EUA, como culpados por desejarem que o Brasil não seja um competidor, mas um simples fornecedor de matérias-primas, muitos vão debochar, ridicularizar como infantil teoria conspiratória. Mas creio ser a verdade.
Maria Tereza